INEDITO DE MANOEL SEVERIM DE FARIA
Reading edition
O primeiro bibliophilo portuguez, o snr. Innocencio Francisco da Silva, ácerca da livraria e dos manuscriptos ineditos do doutissimo chantre Manoel Severim de Faria, escreve o seguinte:
«As (obras) que ficaram manuscriptas passaram, depois do seu fallecimento (1655), juntamente com a sua copiosa e escolhida livraria a enriquecer outra, ainda mais abundante e numerosa, qual era em Lisboa a do conde de Vimieiro, riquissimo thesouro litterario que foi como tantos outros reduzido a cinzas pelo incendio subsequente ao terremoto de 1755.» (Dicc. bibliog., tom. VI, pag. 106).
Alguns traslados de pouquissimos ineditos de Severim vieram á minha mão com os manuscriptos do jurisconsulto Pereira e Sousa. Os caracteres são coévos do sabio antiquario; mas a pessima orthographia accusa traslado de mão imperita. Não obstante, como as idéas não padeceram com a ignorancia do copista, dou afoutamente esta copia corrigida orthographicamente. É documento historico, além de these engenhosamente concertada; por onde se deprehende que o desbarato de D. Sebastião e da flôr da fidalguia em Africa redundou em beneficio de Portugal.
Senão, vejam:
«Observações dos males que Deus permittiu para bem de Portugal, escriptos e expostos pelo chantre da cidade de Evora, Manoel Severim de Faria. Em 20 de setembro de 1649.
«Permittiu Deus que se perdesse el-rei D. Sebastião, e ficasse toda a fidalguia portugueza captiva de mouros, porque estando os portuguezes muito soberbos com as victorias que houveram por todas as partes do mundo, não as reconheciam já a Deus; mas cuidavam que eram alcançadas só por seu valor. Castigou Deus esta soberba com aquelle miseravel captiveiro, e depois com a entrada dos castelhanos, que conhecendo nós pela experiencia que as victorias que alcançavamos, não era por nossa fortaleza, senão pela misericordia de Deus, nos humilhassemos e fossemos exemplo ao mundo d'este conhecimento, e ficassemos capazes de receber outra vez o reino e a liberdade da sua divina mão.
«Permittiu Deus que o conde de Vimioso, D. Francisco, perdesse a vida e a casa defendendo a liberdade de Portugal, e que o conde de Basto e o marquez de Castello Rodrigo ganhassem estes titulos entregando o mesmo reino; e ordenou depois, que as casas de Basto e Castello Rodrigo se perdessem, e a de Vimioso se restaurasse pela mesma valia do conde de Basto, que casou sua filha com D. Luiz, e pela fazenda de Castello Rodrigo, que casou outra filha com o conde D. Affonso, para mostrar a todos com tão raros exemplos, que os que fazem o que não devem, cuidando ganhar para seus filhos, os deixam perdidos, e os que fazem o que devem ainda que de presente padeçam, não deixam seus filhos desamparados, antes acrescentados na opinião dos homens e na protecção divina.
«Permittiu a guerra dos hollandezes, no Brazil, para haver capitulações e soldados praticos n'este reino, que soubessem pelejar contra a milicia dos castelhanos.
«Permittia que obrigassem aos senhores portugueses a dar soldados para Catalunha, para que tornassem a Portugal praticos depois da acclamação, e isto em tanto numero que por conta tem entrado em Portugal, de Castella e Flandres quasi seis mil homens de guerra.
«Permittiu o escrever das fazendas (cadarso), para que com essa occasião se levantassem os de Evora, e entendessem os castelhanos que cá em Evora, havia dez mil homens armados sem a nobreza do reino, e por isso mandavam que sua milicia não passasse de Badajoz e tiveram por felicidade a reducção.
«Permittiu que chamasse el-rei de Castella todos os grandes e fidalgos a Madrid para com isso ficarem só em Portugal os que haviam de acclamar a liberdade, estando ausentes os que lhe haviam de resistir, principalmente todos os senhores, que por entregarem Portugal, alcançavam titulos de el-rei de Castella.
«Permittiu a destruição da armada de Oquendo para que não houvesse forças maritimas em Castella que excedessem a Portugal.
«Permittiu os desafôros que os castelhanos fizeram em Catalunha para se atarantarem os catalães e se entregarem aos francezes, para que el-rei de Castella ficasse opprimido com outra guerra mais perigosa, o que lhe não deu lugar para acudir á de Portugal, estando principalmente com a opinião das grandes forças d'este reino; porque, se de Evora sómente lhe disseram que tinha dez mil homens contra elle, quando não tinha comsigo a nobreza, quanto maior poder seria agora o do reino todo junto!...
«Permittiu Deus que el-rei de Castella com a inveja que tinha a sua magestade, sendo duque o obrigasse a ir a Almada, com o titulo de governar as armas, parecendo-lhe que d'este modo o desauthorisava. Para que com esta occasião, o visse e tratasse toda a nobreza do reino e se penhorasse com novos desejos de o reconhecer por seu principe.
«Permittiu que el-rei de Castella obrigasse a todos os nobres que fossem militar a Catalunha, ou perdessem as honras e fazendas que possuiam. E tendo-se no reino experiencia que os que partiam para este desterro, não tornavam, entraram em desesperação e com ella se resolveram a acclamar o verdadeiro rei, e deixarem o estranho.
«Permittiu Deus que este reino chegasse ao mais miseravel estado que nunca esteve, sem armas, sem soldados, sem armadas, e sem fortificações para que, dando-lhe n'esta miseria um rei, vissemos que esta obra não era alcançada por nosso poder e forças, senão pela misericordia divina, pois que estavamos sem gente de guerra nas quatorze praças que os castelhanos tinham n'este reino e os navios armados que estavam em Lisboa.
«E pelo contrario, que as empresas que acommettemos com maior poder, como foi a de Andaluzia com tres armadas, não tivessem effeito: e as das ilhas, que intentando libertal-as com duas armadas, nenhuma d'ellas chegou a tempo; e os naturaes com suas pequenas forças rendessem os castelhanos; com que ficou conhecida a victoria por divina, e os da ilha recuperando a reputação, que no tempo da outra successão perderam.
«Permittiu que estando os castelhanos, os primeiros mezes quietos sem Portugal romper contra elles; elles rompessem a guerra com Portugal, com muito pouco poder, com que os portuguezes ficaram melhorando-se, com alcançarem d'elles muitas victorias, e fazendo-se com ellas muito praticos, o que sem esta occasião não podia ser.
«Permittiu que antigamente désse o snr. rei D. João, o primeiro, quasi a terça parte do reino ao condestavel D. Nuno Alvares Pereira, para com este grande patrimonio se poder conservar a descendencia real da casa de Bragança com estado grandioso: e agora succedido na corôa, torna-se tão grande parte do reino a unir a ella.
«Permittiu que muitos senhores e titulos cahissem no crime de deslealdade, para que com suas rendas e fazendas se ajudar a sustentar a guerra contra Castella.
«Permittiu que o marquez de Castello Rodrigo largasse a commenda-mór de Alcantara, para se lhe dar em Portugal satisfação em muitas commendas da ordem de Christo: e que o duque de Villa Hermosa se acommodasse só com a de Alcantara.
«D'estes dous homens vagaram grande numero de commendas, com que poder premiar aos leaes, que estavam servindo.
«Permittiu que vagassem quasi todos os bispados e arcebispados do reino: e que em Roma os não quizessem prover, para com os fructos d'elles se poder mais facilmente sustentar a defensa do reino, e serem pagos os soldados.
«Permittiu que em Roma intentasse o embaixador de Castella affrontar o de Portugal, para que sahisse o de Castella na fugida; e com a reputação perdida desamparasse á vista de todo o mundo a mesma côrte de Roma, acrescentando-se grandemente com isto a reputação do nosso embaixador e do reino de Portugal.
«Permittiu que no tempo da acclamação ficasse Ceuta com Castella para nos não dar n'aquella occasião maior gasto de dinheiro e gente.
«Permittiu que quasi a quarta parte de Castella fossem portuguezes, e que depois da acclamação padecessem tantas vexações, que muitos d'elles tornassem a Portugal, com que Castella perdeu muita gente, e Portugal a ficou ganhando, assim em numero como em riqueza, com dinheiro que de lá trouxeram.
«Finis laus Deo.»
Deus permittiu tudo isto. Uma nação que assim está debaixo da fiscalisação divina, com as inscripções a 46 3/8 e o snr. barão de Zezere na municipal, não póde cahir como Carthago ou Roma.