VOX POPULI
Reading edition
A definição mais exacta da democracia é chamar-lhe o reinado da justiça.
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Il n'y a que deux choses qui puissent sauver la société: la justice, et la lumière.
BASTIAT.
O papel do veterano e operário dizia assim:
«O que é a democracia?
«É o governo do povo pelo povo--é a omnipotencia soberana de toda a nação--é o predominio do poder popular em qualquer governo.
«Quanto mais um estado social se aproxima do ideal da justiça, tanto mais se confundem os interesses particulares com os interesses publicos.
«A democracia é, entre todas as fórmas de governo, a que melhor corresponde ás exigencias da verdadeira justiça social.
«Mas não nos illudamos. Estudemos-lhe os perigos, e evitemos-lhe os inconvenientes. Para que um paiz verdadeiramente democratico possa crescer, engrandecer-se e prosperar, carece de certas e determinadas condições. A democracia nunca surgiu, nem se manifestou na infancia das sociedades.
«Pelo contrario--a democracia exige uma civilisação largamente desenvolvida, a completa ausencia das classes privilegiadas, a exclusão absoluta da nobreza hereditaria, uma certa homogeneidade nas populações, uma grande diffusão de luz--pela instrucção--, o desejo real da paz interna, e externa, e a intelligencia, e o trabalho, como unicas fontes da riqueza, da prosperidade, e da consideração publica. São os perigos, e a morte inevitavel da democracia os privilegios das castas, o espirito de conquista, a ignorancia, a ociosidade, e a falta de educação em todos os ramos, e nas diversas aptidões de todos os homens, que compõe uma nação.
«Os erros, e os vicios que sepultaram as republicas da antiguidade servem-nos de luzeiro, e são o pharol, para nos indicarem as condições em que a humanidade deve viver, nos rasgados horisontes do futuro.
«Não se illudam com a Roma pagã. Nunca conheceu a democracia--nem nas preconisadas fórmas tribunicias da republica, nem nas grandezas, e no fastigio do imperio.
«As republicas podem ser, e algumas d'ellas teem sido, excessivamente aristocraticas.
«A democracia não pôde nunca eslabelecer-se em Roma, por diversas e ponderosissimas causas.
«De passagem mencionaremos algumas d'ellas.
«Durante cinco seculos, foi o governo de Roma a guerra declarada ou latente, entre dous corpos sociaes inimigos. Era o antagonismo das classes, era o espirito de conquista, era a falta de homogeneidade nas populações, era a variedade de crenças, era a hedionda e asquerosa ociosidade das massas, era a escravidão, repugnante e execranda, decretada na lei, era a ignorancia do povo, que o trazia submerso nas trevas espessas da peor das servidões, e que lhe abria abysmos na consciencia. Ora, a desigualdade de cultura intellectual é a agonia lenta da democracia, e a arma mais poderosa da ignobil tyrannia do poder.
«Alumiemos o tugurio do proletario, levemos a luz da instrucção até ao antro mais recondito da desgraça.
«Que as ondas de luz se diffundam, emittidas pelas ultimas classes sociaes. Todos os despotismos fugirão espavoridos, porque são elles, na sua pueril tyrannia e oppressâo teimosa, os escravos das ridiculas e insustentaveis tradições de épocas que passaram.
«Interroguemos o seculo.
«Perguntemos aos democratas: quem sois?
«Somos milhares de familias, menos algumas--a classe media, e a nobreza--que queremos um regimen de igualdade, em que honradamente possamos viver do fructo do nosso suor, sem olhar com inveja nem despeito para o patrimonio de ninguem. Vós, as classes privilegiadas, vós, que vos dizeis distinctos pela casta, pela raça, pelos nomes que sabeis de vossos avós, tendes arvores genealogicas, e apresentaes-nos pergaminhos carcomidos pelos seculos.
«Nascemos nós hontem por acaso?
«Vimos de tão longe como vós. Dizeis-vos catholicos por excellencia--pois estudai, no genesis biblico da vossa crença, a origem de todos nós. Os nossos brazões não datam de nenhum salteador afamado, que responderia hoje, se existisse, em audiencia criminal, e soffreria, pelos seus feitos e façanhas, a pena de prisão cellular ou de degredo para os climas africanos. Os nossos titulos de nobreza não os devemos a complacencias cortezãs, nem á officiosidade torpe e obscena de alguns avoengos, derreados junto dos thronos, a levar da ante-camara para a alcova as Messalinas, Pompadours e Dubarrys, que não sabiam, nem sabem resistir á lascivia e impudicicia dos reis. Não foi nos prostibulos, nem nas encruzilhadas, que calçaram os nossos avós as suas esporas de ouro. Cingiram elles, com mais lustre e gloria, a espada de cavalleiros. Vem de mais longe os nossos brazões, e estão gravados, por fórma indelevel, na superficie do globo.
«Quereis vêl-os? Examinai-os. Os titulos nobiliarchicos, que possuimos, datam do primeiro homem, que cavou o solo, que accendeu o fogo, que descobriu e bateu o ferro, que sulcou a terra com a relha do arado, que desenterrou e fundiu metaes, e que devassou, no primeiro fragil lenho, as vastas solidões do oceano.
«Fomos nós que metamorphoseamos este globo, triste, arido e deserto, n'um paraiso esplendido e animado. Creamol-o segunda vez, para cumprir a palavra de Deus, que nol-o deu para este fim: ut operaretur eum.
«Se os céos celebram a gloria do Eterno, se, como clamava o psalmista, o firmamento annuncia e proclama as obras do Senhor, a terra--que é a nossa obra--narra a nossa propria gloria.
«Fomos nós que lhe fendemos a crusta, que a semeamos, cultivamos, aformoseamos, cobrimos de monumentos, que, como perolas desenfiadas, rolaram pela vastidão das campinas, e que lhe demos, como cinto da sua propria formosura, essa rede infinda de estradas e canaes, que se cruzam, e estendem por toda a amplidão da esphera terrestre. Fomos nós que descemos ao centro das suas entranhas, para lhe extorquir os seus inapreciaveis, e inexhauriveis thesouros. Não ha flôr, que desabroche nos campos, não ha espiga, que se erga robusta, em toda a vastidão da cultivada leziria, não ha fio de linho, nem de algodão, nem de sêda, não ha lamina de ferro, de ouro, ou de platina, não ha pedaço de pedra, prancha de madeira, capitel de columna ou mastro de navio, que não conserve o cunho das nossas mãos, e o perfume do nosso amor. Sim, o perfume do nosso amor--porque o trabalho é a oração--e o perfume do nosso amor é o incenso e a myrrha, que acompanham as nossas offerendas ao Eterno.
«Subi da galeria subterranea das minas até á cupula das sumptuosas basilicas, e das calhedraes mais augustas e imponentes, sahi das elegantes capitaes da civilisação moderna e devassai as praias selvagens mais longinquas, encontrareis, em toda a parte, os passos dos filhos do povo: a democracia.
«Somos o lavrador, que prende os bois ao arado, e que sulca a terra laboriosamente--o nosso insaciavel e inesgotavel thesouro. Somos o segador, que ceifa o trigo, nas ardentes, e afflictivas calmas do estio; o robusto ceifeiro, que corta, nos prados, esmaltados de papoulas e boninas, o alimento constante dos rebanhos; o vinhateiro, que poda, empa, e cava a vinha; o navegante, que se afadiga em transportar os artefactos da creação humana; e o commerciante, que leva e faz circular em todas as zonas habitadas--como o sangue nas arterias--os succos da terra, e os productos das mais variadas industrias.
«Nós somos o operario curvado sobre o tear, o mineiro, que vive soterrado, e arranca das entranhas da terra o carvão, que alimenta a machina, multiplicando os productos; o ferreiro, que forja e bate o ferro; o carpinteiro, que aperfeiçoa e adelgaça a viga; o pedreiro, que abre os caboucos, e levanta os muros do edificio; a fiandeira, que estende na roca a estriga de linho; o tecelão, que faz o panno, transformado em enxoval da familia; o soldado, que vela nos limites sagrados do solo da patria; e o marinheiro, que atravessa os mares, levando bem alto o pavilhão, que é o emblema d'um povo, e o estandarte sacrosanto do seu paiz.
«Nós somos tudo. O nosso nome é legião.
«Somos nós, que nutrimos, vestimos, e abrigamos a humanidade, e que lhe damos a paz, a abundancia, o repouso moral, e a tranquillidade publica. As artes, que alindam, e encantam a vida, as letras, que robustecem, desenvolvem, e fortificam a alma, as sciencias, que a illuminam, e esclarecem, somos nós, que as cultivamos, que as honramos, e desenvolvemos. Quaudo fallamos, quando reivindicamos os nossos direitos é sempre pela voz dos nossos apostolos.
«Temos tido guerreiros para vencerem, poetas para cantarem as nossas fadigas, e as alegrias modestas do nosso lar, e artistas para commemorarem os nossos heroismos no trabalho, e esculpirem, no bronze, as imagens dos grandes inventores.
«Temos tido operarios, para crearem machinas maravilhosas, e astronomos para nos narrarem as maravilhas dos céos, devassando os esplendores e magnificencias do universo. As lentes, preparadas por nós, teem-nos feito conhecer, pelo telescopio, os globos luminosos que giram no espaço, e teem descido comnosco, pelo microscopio, aos mundos infinitamente pequenos.
«Os raros talentos d'essas ociosas, e rachiticas aristocracias, d'essas estereis, e inuteis classes privilegiadas, quando lhes estala a ultima corda da lyra, nas tristes estrophes das suas sinistras e tenebrosas lendas de familia, vem sentar-se na lareira do povo, e buscar ahi as harmonias mais sonoras, mais suaves, e mais duradouras--as unicas que hão de achar echo nos seculos do futuro--as lutas incessantes, pelo progresso, em que lida a geração actual. A sua derradeira canção é para o povo: o canto do cysne é o hymno da democracia.
«Nós somos a arvore gigante e immensa da humanidade, com as raizes perdidas nos limbos do passado, com o tronco vigoroso, que resiste aos embates dos tempos, com os festões de flôres que desabrocham, e emmurchecem passando, e com os fructos sazonados do presente, na esperança das odoríferas flôres, que, com o seu calix radiante de vida, hão de perfumar o espaço no futuro.
«Eis-aqui a democracia.
«E quem são os seus adversários junto d'esta frondosa e copada arvore da humanidade?
«São os cogumelos parasitas e venenosos, que vegetam á sombra d'este cedro magestoso e secular.
«Os privilegios e as castas são o absurdo, são a torpeza dos costumes, são o desconhecimento completo do seculo que atrevessamos, são as tristes relíquias das épocas feudaes, são os distinctos das ridículas nobiliarchias byzantinas, são a ignorancia e o odio ao trabalho, são, finalmente, a protecção dada em premio, por feitos e acções, que, as mais das vezes, tem sido um poderoso obstaculo ao progresso, e á civilisação da humanidade.
«As recompensas, as glorificações, e as apotheoses, quando justas, quando bem merecidas, quando conquistadas pela aptidão, pela sciencia, pela arte, pela industria, pela propria virtude ou pelas grandes dedicações, são vitalicias, e passam á posteridade com o nome que se engrandeceu, e vem a historia esculpil-o nos marmores dos seus fastos.
«A democracia, como hereditario, só reconhece um direito, um dever, e uma nobilitação para o homem: é o trabalho.
«É absolutamente necessario que se contem todos os partidarios sinceros e leaes da justiça, e que pela palavra, pelo livro, e pelo exemplo, arrastem os indecisos, e abandonem o restante--os poderosos do dia--aquelles, que não aprendem, nem esquecem nada.
«Attendam a que chegou a hora, em que a menor hesitação, a menor duvida, o menor passo irreflectido, ou a mais timida concessão, podem fazer recuar, para muito longe, o reinado da justiça--o governo do povo pelo povo.
«E povo somos nós todos, que vivemos debaixo do mesmo céo, sujeitos ás mesmas leis, e que exercemos, na sociedade, funcções e misteres diversos, mas igualmente uteis e necessarios.
«Hoje, ha uma só nobilitação: é o trabalho.
«Trabalhemos todos para a revolução nos espiritos--porque concorremos para o advento da verdadeira liberdade, para o governo da justiça social, e para a emancipação da humanidade.
«E assim realisaremos a democracia.»
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Terminava aqui o papel, escripto pelo ancião, condecorado em Souto-Redondo.