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Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 06 (de 12)

A MORTE DE D. JOÃO

Reading edition

(POR GUERRA JUNQUEIRO)

É um livro de 330 paginas que eu li sem intermittencias.

A poesia é quasi sempre portugueza e dos mais altos quilates; mas a substancia do livro é estrangeira.

Aquellas podridões, desenhadas do vivo com primorosa execução, não fermentam n'este paiz mais atrazado e menos devasso que o restante da Europa.

É verdade que ha creaturas um tanto putridas nos hospitaes, e lá se dissolvem: peor seria, se não tivessem aquelle paradeiro onde a misericordia humana lucta com a fatalidade da morte á beira do catre da agonia.

O D. João portuguez, por via de regra, aos quarenta annos, tem a espinha dorsal amollecida, cauterisa as frieiras e lima os callos. As Imperias, entre nós, não acabam por tanger cornelim em companhia de ursos; mas tem ursos e dromedarios, uns Tenorios farinaceos que lhes tornam a velhice divertida e, ás vezes, serodiamente honesta.

Não obstante, eu, em Lisboa, conheci um D. João, que, tirante a chalaça e o urso, era o D. João de Guerra Junqueiro.

Conheci-o gentil, capitão de lanceiros, com um appellido dos mais nobres do reino, bizarro, petulante, fatuo, bandarreando com os seus cavallos oriundos da Lybia alli pelo Chiado. Amavam-no as burguezas e as princezas. Amavam-no tão doudamente que se perderiam, se não estivessem perdidas quando elle as achava. Alli, em Lisboa, um D. João acha sempre uma D. Joanna tão boa como elle.

Era isto em 1849.

Onze annos depois, estando eu na casa-da-saude, vi entrar, no quarto de certo doente, um homem maltrapido, com o nariz rubido, a cara esvurmando brotoeja, os dentes ferruginosos, os beiços esfoliados como escama de sarda de barrica, os olhos broslados de malaguêta, e a pupilla oleosa. Era o capitão de lanceiros, que vinha alli visitar um homem que costumava dar-lhe um tostão para aguardente. E n'essa tarde levou o tostão e roubou-lhe um relogio de prata, um caldeirão que valia um quartinho!

--O meu relógio!--exclamava o pobre Sousa Netto--é o que me restava da minha mocidade!

Sousa Netto orçava pelos sessenta e seis; tinha gota, intervallos de demencia, havia sido tambem D. João, e usava constantemente habito de Christo no peito, mouras vermelhas nos pés, e um capacete de lontra na cabeça.

O outro, aquelle que encontrava Imperias no paço, esphacellou-se na testada de uma taverna; os guzanos da cova de certo taparam os seus narizes microscopicos quando o esquife o vasou nas entranhas da natureza, mãi carinhosa do cão podre, do homem podre e de tudo que é perfeito n'este mundo.

O homem espoliado do caldeirão ensandeceu a final, abrazado em concupiscencias que resfolegavam em colcheias, em decimas, em sonetos, que me recitava a mim e a Matheus de Magalhães com uns olhos tamanhos e tão accesos que parecia o diabo de Santa Thereza de Jesus.

Estes dous typos teem moldura no poema de Guerra Junqueiro.

* * *

As mais nervosas e engraçadas paginas de versos que eu tenho lido de lavra portugueza são a parte d'este poema intitulado Romanticismo, e a outra chamada Os saltimbancos. São trovoadas de talento. Paradoxos assombrosos que vos tiram do diaphragma epilepsias de riso.

Ás vezes, magôa uma especie de motejo que parece rebellar-se contra tudo que grande parte da sociedade respeita. Vem alli de camaradagem com a ironia implacavel do snr. Junqueiro o estylete sarcastico de lord Byron e de Alfred de Musset; mas o nosso poeta avantaja-se na crueza das invectivas contra o dogma, afistulando soberbos versos de um atheismo que de certo lhe não está no coração, nem na educação nem nos irreprehensiveis costumes. Tirante isto, ahi é tudo alegria; e até, quando a musa philosopheia por transcendentes contemplações, lá surde a palavra comica, o simile galhofeiro, esta cousa moderna que não tem nome,--uma bella extravagancia que nos regosija. E assim é como se querem os livros, porque lá diz Aristoteles no 2.º da Ethica, cap. 12, que a melancolia corrompe a natureza e faz pasmar o coração.

* * *

Este modo de poetar será o Ideal moderno? É, com toda a certeza. Quando eu era rapaz, o poeta ideal era o ethereo, o metaphysico, o espiritualissimo. Por tanto, o ideal, segundo Taine, não tem que vêr com o ideal, segundo Lamartine. No livro do snr. Junqueiro, bem que os carnalissimos assumptos alli poetisados não pareçam ideaes, abona-os o indeclinavel legislador n'esta materia. A obra d'arte--diz Taine--põe o fito em manifestar algum caracter essencial ou relevante, mais perfeita e lucidamente do que os objectos reaes nol-o mostram. O artista, por tanto, concebeu a idéa d'esse caracter, e, a sabor da sua idéa, transformou o objecto real. Este objecto assim transformado, sahe conforme á idéa, ou, para melhor o dizer--é o ideal. Assim, pois, passam as cousas do real ao ideal, quando o artista, ao reproduzil-as, as altera a bel-prazer da sua idéa, etc. (L'Ideal dans l'Art).

Quer dizer, ao que parece, que o ideal é uma modificação do real a talante do artista; por maneira que o sobrepor miserias imaginarias ás miserias positivas--exulcerar desgraças inevitaveis com a imprecação de desgraças ficticias--é o Ideal.

Em fim, são seitas, e o impugnal-as quando ellas ainda verdejam é perigoso: o melhor é deixal-as apodrecer.

O que ha de ficar e sobreviver ás escolas (porque o snr. Guerra Junqueiro de certo não crê em Taine, e é realista na maxima latitude da palavra) são estas paginas da Morte de D. João, alumiadas pelos relampagos do genio. Este livro será lido por aquelles mesmos que o malsinarem de propagador de peçonha em calices de ouro. É a obra prodigiosa de uns annos muito em flôr. Quando a mão do tempo, a desgraça dos annos, e algumas noites de meditação dolorosa, levarem á consciencia do admiravel poeta a imagem da Justiça, enquadrada na moldura fatal em que ha seis mil annos a conhecemos na historia, então os poemas do snr. Guerra Junqueiro serão por igual bem versejados, mas muitissimo mais consolativos para os infelizes que elle deplora com generoso coração.

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