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Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 06 (de 12)

POETAS E PROSADORES BRAZILEIROS

Reading edition

Seis livros de variada leitura me vieram aligeirar as horas da aldeia, n'este inverno de junho; que no decantado Minho já não ha primavera nem estio, nem melros nem rouxinoes. D'esta familia de cantores tão gabados nas eglogas de Sá de Miranda e Diogo Bernardes abalou-se a especie, desde que o Minho, policiando-se do agro primitivo da sua natureza alpestre, estrondêa com o caboucar das vias-ferreas e o estridor das diligencias. De rouxinoes restam-nos apenas aquillo que os francezes chamam Roussignol à gland, e Roussignol d'Arcadie. Estou a vêr se me desmente o meu presado amigo D. Antonio da Costa no seu promettido livro das delicias do Minho.

Eu por mim, se quero convencer-me que estou na sazão do calor e das flôres, mando abrazar o fogão, accendo a machina do café, espalho uma abada de rosas no estrado, cubro-me com um cobertor, imagino que estou no junho de Fernão d'Alvares do Oriente, e, com o nariz de fóra, e espirrando, exclamo, em nome do poeta:

..................................... Pomona e Flora Seus dons vem pelos campos espalhando, Cantando espalha Fauno a voz sonóra. Fazem doce harmonia os arvoredos Que o vento bole, e as aguas derivadas Das asperas entranhas dos penedos. As aves umas d'outras namoradas Enchem de saudosa queixa o monte N'um desconcerto alegre concertadas. Boninas varias vai regando a fonte Que convida, correndo manso e manso, O rouxinol, que suas maguas conte. A qualquer parte, pois, que os olhos lanço Materia me offerece de alegria Tudo quanto co'a vista alegre alcanço.

Etc., etc.

E, ao mesmo tempo, vou aconchegando os pés do varandim do fogão, e fazendo-me um estio interior de café de Moka.

N'esta situação, deixa-se a natureza aos naturalistas; e a gente, que vem ao campo em cata de brisas olorosas, não sahe de casa, e lê sempre, a fim de desviar a tentação ao suicidio inglez, que é a congestão fulminante do tædium vitæ.

Tenho, pois, seis livros de escriptores brazileiros, a quem devo a fineza de m'os enviarem a esta região de getas.

Os Idyllios do snr. doutor Caetano Felgueiras. As Tetèyas, em prosa do mesmo poeta. Os Apontamentos de viagem do snr. J. C. da Gama e Abreu (1.º tomo). O Pantheon maranhense (1.º tomo). Sciencias e letras. Apontamentos para a historia dos jesuitas no brazil (1.º tomo). As tres ultimas obras são do mesmo author, o snr. dr. Antonio Henriques Leal.

Ha annos que o snr. Felgueiras me enviou a sua Epistola a Machado de Assis. Era a revelação de um espirito antigo no affecto ás maviosas cousas do campo. Versos que recendem o tomilho e a madre-silva. Desenhos correctos da corporatura gigante das arvores americanas. Rumorejos dos meandros que serpejam na tige das boninas. O estridor das cascatas que ruem estrepitosas. A suavidade dos jardins. O verde das arvores, e os pomos a lourejal-as. E, depois, o espirito da alegria no sorriso da paz a colher as bençãos que Deus cruza por sobre as almas modestas que se alam até Elle, desde o estrado de seus pés, desde as magnificencias da terra até aos estrellados silencios do céo. Esta formosa poesia vem entre os Idyllios, que se lhes irmanam na alteza do pensamento e no primor da phrase.

Não me agradam por igual as suas prosas (Tetèyas). Sobram ahi arabescos de linguagem: muito rendilhado, muita filagrana, que enreda a idéa, e accusa o escopo muito moroso de Cellini. Sei que o snr. J. de Alencar tem dado o exemplo d'este esmerilhar da phrase, que, a meia volta, se desaira no amaneirado. Isto não é pobreza da lingua: é um luxo vicioso da abundancia. Augmentemos, porém, quanto ser possa o concurso dos que nos percebam, e imaginemos sempre que até os mais cultos nos agradecem a simplicidade de Luiz de Sousa, o nitido puritanismo dos Castilhos, e a correcção chã, sem plebeismo, de Teixeira de Vasconcellos.

Os Apontamentos de viagem do snr. Gama e Abreu é um livro muito bem escripto, com resaltos de humorismo discreto, graça anecdotica a interpôr-se nos usuaes fastios das descripções de viagens; apreciações de Portugal na maior parte benevolas, e, por excepção, reparaveis; a França e as suas recentes desventuras atiladamente compendiadas em poucas paginas, que se revalidam com bem cabidas noticias historicas. É um livro de cunho moderno, com o superior quilate da despretenção, sem desvanecimento, por onde se nos antolha optima lição, bom discernimento, critica despreoccupada, lhaneza de apreciação, e excellentes predicamentos de espirito. Os subsequentes volumes hão de corresponder ao titulo que amplia as viagens desde o Amazonas ao Sena, Nilo, Bosphoro e Danubio.

O Pantheon maranhense, do snr. dr. Henriques Leal, como do titulo se transluz, é um selecto feixe de biographias de homens, que se illustraram no Maranhão, por prendas da intelligencia. Este livro é tanto mais de estimar entre portuguezes quanto nós andamos arredados da convivencia de escriptores brasileiros. O snr. Leal, que reside em Lisboa, ha annos, é o escriptor a quem os seus conterraneos mais devem no pregão incessante das eminencias intellectuaes do Brazil. É vêr o esplendido, e, ainda mal, que incompleto, vestibulo que elle erigiu como entrada para as obras completas de Gonçalves Dias, o portentoso poeta, o prosador inviolavel na pureza da dicção.

Larga resenha da litteratura brazileira nos dá o snr. Leal no seu livro intitulado Locubrações. Ahi se queixa judiciosamente das graves iniquidades com que alguns syndicos, sem legitima alçada na critica, desdenham dos escriptores brazileiros, não lhes sabendo sequer o nome de baptismo. Que quer o illustre escriptor? A necedade impa de petulancia. A barateza dos prelos, a profusão dos periodicos e a mingua de escriptores escorreitos abriram praça a todo o adventicio, tanto monta que elle proceda das covas de Salamanca como do café da Aurea. Gonçalves Dias, apoucado pela ignara bitola de um zoilo vêsgo, tem dous monumentos: um de marmore na sua patria, outro nos livros que são d'ella, que são nossos, que os temos na memoria do coração desde a mocidade. Mas a nossa mocidade era tão amoravel com os seus contemporaneos, quanto respeitosa com os antepassados. Nós não ousariamos descrêr dos mestres, e desacatar-lhes as cãs aureoladas sem que o longo estudo, sem que a consciencia nos désse a intima certeza de que não eramos tão nescios e tão ignorantes quanto hoje se faz mister para abrir barraca de mordacidades, mascaradas em critica.

Derivemos d'este mau trilho para as placidas e serenas regiões do livro chamado Apontamentos para a historia dos jesuitas no Brazil.

N'este complexo de rapidas biographias, narrativas, e, esclarecida analyse das chronicas da companhia de Jesus, e onde a fórma, a execução e o castiço da linguagem se aprimoram mais, de envolta com a riqueza das noticias históricas. É trabalho de mão experimentada, de consulta detençosa, e juizo muito attento. Quando o tomo 2.º me vier satisfazer o desejo de o lêr, formarei mais dilatado e completo conceito d'esta importante publicação do abalizado escriptor.

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