MANOELINHO DE EVORA
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É errada a presumpção historica de que o Manoelinho--pseudonymo grutesco de uma assembléa de revolucionarios--figurasse tão sómente nos decretos expedidos durante o levantamento do povo eborense, acaudilhado por Sezinando Rodrigues e João Barradas, em 1638.
Consigne-se de passagem que eu ainda não vi algum d'esses decretos, nem D. Francisco Manoel de Mello, o mais detençoso historiador dos tumultos de Evora, nos transmittiu traslado de algum.
Representações a Filippe IV, e satyras aos portuguezes infamados de hespanholismo, em fim a gazeta manuscripta, como ella podia clandestinamente correr n'aquelle tempo, começou a circular, em 1635, logo depois, que a duqueza de Mantua chegou a Lisboa.
Entre os manuscriptos relativos á ultima decada do nosso captiveiro, possuo dous. É um assignado por Manoelinho menino, em Evora, aos 29 de agosto de 1637, poucos mezes antes do motim: Uma carta que os meninos de Evora mandaram ao bispo do Porto.
Este bispo era D. Gaspar do Rego, nomeado n'aquella prelazia n'esse mesmo anno, anteriormente bispo de Targa, muito affecto a Filippe IV de Castella, e um dos tenacissimos alvitristas dos impostos sobre a sua patria. O seu biographo padre Agostinho Rebello da Costa (Descripção da cidade do Porto, pag. 83) exalta-lhe as virtudes prelaticias, a termos de o sentar no refeitorio comendo com a sua familia, virtude que todos nós possuimos pouco mais ou menos.
Mas nem essa lhe concediam os detrahidores que se chamavam os Meninos de Evora; e eu não sei o que lhe fariam em 1640, se elle não tivesse morrido em 13 de julho de 1639, fóra da sua diocese em Lisboa, onde o tinham chamado Miguel de Vasconcellos e os outros que se temiam do rugir soturno do vulcão popular.
Vai vêr o leitor pela primeira vez, se me não engano, qual era a prosa do Manoelinho. No proximo numero d'estas Noites, lhe darei amostra das musas acamaradadas com os heroicos revolucionarios de Evora.
Eis a carta:
«Á noticia d'esta cidade chegou, reverendissimo bispo tyranno, ser v. s.ª a origem de que este reino tão catholico padeça oppressões tão insoffriveis, como elle testefica no miseravel estado em que se vê, tomando-vos para executar a mais infame empresa que em nossos tempos vimos, nem de nossos antepassados sabemos;--que até considerada envergonha. Porque, quando a desventura chegasse a tanto, que, como por prophecia, houvesse alguem de tyrannisar a patria, fosse o fidalgo pobre, rico de filhos e falto de rendas; e ainda n'este, depois de satisfeito, cessaria a ambição. Mas um prelado, a quem havia de faltar o tempo para dar graças a Deus de o chegar a ser, e que aos pobres havia de dizer: tribuo vobis pro omnibus quæ retribuis mihi--grão maldade! e com razão podem dizer por vós o que Platão por Dionisio: Vidimus monstrum in natura honimis.
«Que naus vistes entrar n'estes portos? Que frotas vistes vir lá das Indias? Que riquezas n'este pobre reino? E que farturas n'este nosso Alemtejo que, como filho tão mimoso de seus paes, sentiu como de padrasto o pão de vosso alvitre? Mas a verdade, Aquelle que é a mesma verdade, diz no Deuteronomio, cap. 4: Colligite ex vobis viros sapientes, et nobiles. A sciencia em vós é em tudo um retrato natural da de Nero, que aprendeu todas tendo por mestre ao grande Seneca, e foi um dos mais torpes tyrannos do mundo, até chegar a matar sua propria mãi, como vós agora quereis fazer á amada patria; porque em fim, sciencia sem virtude, não vem a ser uma nem outra cousa; mas elle já nenhuma professava, e vós professaes ambas, e não exercitaes alguma. A nobreza conservam os que carecem d'ella, e o dar-lhe nascimento, na benigna clemencia, é para que, convocando os animos, esqueçam a baixeza dos seus progenitores. E vós, pelo contrario, querereis dar vida ás de Antonio Fernandes, vosso pai, e de Anna Antonia, sua mulher... Os extremos todos são maus. Temos rei catholico, não o façaes tyranno; é principe benevolo, não o façaes cruel. Deixai Portugal ser pobre já que vos deixou ser bispo. Não vêdes que por Targa ser de herejes, vos fizeram do Porto? e que por o Porto não querer, vos faziam de Coimbra? As cidades são como os parentes; corre-lhes a dôr pelas veias como o sangue a ellas. Ao menos estai advertido no salto em claro que haveis de fazer por este arcebispado, tomando o pé atraz como Sebastião de Mattos8, mas não seja d'estas partes. Não sei se vos poderão valer os fóros das casas de Luiz de Miranda. O cavalleiro, se lhe chamam tardo, madruga; se desbocado, cala-se; se demasiado, tempera-se; se adultero, abstem-se; se peccador, emenda-se; mas, se é traidor á patria, não ha emenda nem desculpa. Sabei que a propriedade d'este reino foi sempre não desobedecer nunca ao seu rei, nem deixar-se mandar de tyrannos, e que vale mais pobre, dando pouco, que desesperado.
«De muito atraz trazemos por criação a distribuição de tres cousas: a alma para Deus, o melhor para nós, e a fazenda para el-rei; e quem se viu n'isto, não duvída dar quartos, mas quintos para quintas; e por vosso conselho não havendo n'este reino quintaes (digo de arvores, que de canella já nem sabemos de que côr é) soffre-se mal. E se vós quereis excessos para a patria, e permittir-se contra ella o favor que houve Nuno Alvres para Pedralves traidor, a quem o céo subverteu, haverá meninos em Evora para Gaspar do Rego se abrazar.
«Por Ithaca, nobre ilha de asperos penedos, passou Ulysses immensos trabalhos. Disfarçado el-rei Codro para libertar a patria, se offerece á morte; pela patria renunciou o imperio; e Mucio Scævola renunciou a esperança da vida por a tirar á propria que como vós a perseguia9. E os naturaes que a isto não se oppõe vem a acabar n'ella, como Annibal em Carthago e Catilina em Roma. Attendei ao que diz o apostolo: Anna militiæ nostræ non sunt carnalia, sed spiritualia. Sois christão, sois sacerdote, sois prelado, sois natural do reino: dizei d'elle o que n'elle vêdes, informai das Necessidades; e, se não sabeis d'ellas, ahi amam a caridade, vereis de quantas sois secretario, quantos fidalgos padecem, quantos senhores acabam, quantas donzellas perecem. Falta o ouro, a prata; o contracto, por que vós não faltaes, que nem Deus o quer dar superfluo, nem o necessario se promette dar-se. Perguntando-se a Alexandre para que queria ser senhor de todo mundo, respondeu: Todas as guerras que se levantam são por uma de tres causas: ou por haver muitos deuses, ou por haver muitos reis, ou por haver muitos tributos: quero ser senhor de todo o mundo e rei para que não haja n'elle mais que um Deus, nem se conheça mais que um rei, nem se pague mais que um tributo.
«Elle era pagão, e vós christão; elle rei, e vós bispo; elle creado na terra, e vós na igreja; nunca ouviu o nome de Christo, e vós jurastes defender o Evangelho. Parece que muito differe uma cousa das outras. Se o fazeis por fama, já é geral, pois nós vos sabemos o nome. O vosso nome é flagellum patriæ. Se o fazeis por interesse, já basta o que tendes; se mais quizerdes, já cá passamos signal; se nós podermos, com o mais constará a pontualidade... Tende lastima de um reino que, sendo antigamente um mar, se vai esgotando a Castella por um Rêgo. Nosso Senhor vos converta, e vos traga a nossas mãos, para augmento d'este reino, e vida e paz e quietação de seu rei. Evora 27 de agosto de 1637. Por mandado do povo todo junto
Manoelinho Menino.»
8 Este Sebastião de Mattos é o arcebispo de Braga que depois conspirou contra D. João IV, e morreu no carcere.
9 Não nos parece clara a redacção, ou ha elisão de palavra no meu traslado.