VISCONDE DE TAUNAY
Reading edition
INNOCENCIA
Decimo Primeiro Milheiro
1906
N. FALCONE & Cia.—editores
65—Rua de S. Bento—65
S. PAULO
INDICE
CAPITULO I. O sertão e o sertanejo II. O viajante III. O doutor IV. A casa do mineiro V. Aviso previo VI. Innocencia VII. O naturalista VIII. Os hospedes da meia-noite IX. O medicamento X. A carta de recommendação XI. O almoço XII. A apresentação XIII. Desconfianças XIV. Realidade XV. Historias de Meyer XVI. O empalamado XVII. O morphetico XVIII. Idyllio XIX. Calculos e esperanças XX. Novas historias de Meyer XXI. Papilio Innocentia XXII. Meyer parte XXIII. A ultima entrevista XXIV. A villa de Sant'Anna XXV. A viagem XXVI. Recepção cordial XXVII. Scenas intimas XXVIII. Em casa de Cesario XXIX. Resistencia de corça XXX. Desenlace EPILOGO. Reapparece Meyer
A José Antonio de Azevedo Castro AMIGO DE INFANCIA
Azevedo Castro,
Se nos antigos tempos da Grecia, me fora possivel erigir custoso templo, dedicava-o á Amizade para no frontispicio gravar o teu querido nome.
Daquelle vivo sentimento permitte-me hoje, amigo, dentro do circulo de fracos e limitados meios, qualquer demonstração.
Não é em valioso monumento que vou inscrever a tua lembrança; simplesmente na primeira pagina de uma narrativa campestre e despretenciosa, de um livro singelo e sem futuro.
Aceita-o como um dos mais espontaneos movimentos da minha alma, que n'esta declaração sincera julga assentar direitos a completo indulto.
A. D'ESCRAGNOLLE—Taunay.
Rio de Janeiro, 8 de Julho de 1872.
PREFACIO
Em pouco mais de dous annos esgotou-se a sexta edição de Innocencia e a setima; os dous mil e quinhentos exemplares impressos em meiados de 1903 espalharam-se com relativa rapidez attendendo-se ao facto de que o romance appareceu em 1873 e que a procura de livros no Brazil infelizmente ainda não é das maiores.
Nos ultimos dous annos foi Innocencia muitas vezes publicada em folhetim por periodicos brazileiros e portuguezes; em volume porem só temos conhecimento de duas edições novas; uma allemã, da traducção de Karl Schuler, illustrada por Max Tilke e impressão da casa D. Dreyer & Comp. de Berlim e outra da versão japoneza de Kawana Kwandzo pela revista Fastos Japonezes.
Actualmente conta pois a formosa novella oito traducções enfeixadas em volume das quaes, duas francezas, duas allemãs, uma ingleza, uma hespanhola, uma italiana e uma japoneza; existindo alem dessas, publicadas na imprensa uma em polaco e outra em dinamarquez.
É provavel que brevemente appareça mais uma edição ingleza de nova versão dedicada ao Conselheiro José Antonio de Azevedo Castro, padrinho do livro, a quem o Visconde de Taunay dedicava a mais extremada amizade e affeição retribuida da mais forte maneira.
Soffreram os primeiros capitulos da presente edição ligeiros retoques, á vista de originaes deixados pelo autor e que infelizmente não estiveram ao alcance do revisor da sexta.
O nome dos acreditados livreiros editores Srs. N. Falcone & Comp. é um cunho da elegancia da factura do livro.
S. Paulo, Dezembro de 1905.
... Innocencia. Este livro terá longa vida, do mesmo modo que se póde, ainda hoje, viajar a Escossia com as novellas de Walter Scott por guias.
FRANCISCO OCTAVIANO.
INNOCENCIA
CAPITULO I O SERTÃO E O SERTANEJO
Todos vós bem sentis a acção secreta Da natureza em seu governo eterno; E de infimas camadas subterraneas Da vida o indicio á superficie emerge.
GOETHE.—Fausto, 2.ª parte.
Então com passo tranquillo mettia-me eu por algum recanto da floresta, algum lugar deserto, onde nada me indicasse a mão do homem, me denunciasse a servidão e o dominio; asylo em que pudesse crêr ter primeiro entrado, onde nenhum importuno viesse interpôr-se entre mim e a natureza.
J. J. ROUSSEAU.—O encanto da solidão.
Corta extensa e quasi despovoada zona da parte sul-oriental da vastissima provincia de Matto-Grosso a estrada que da villa de Santa Anna do Paranahyba vae ter ao sitio abandonado de Camapoan. Desde aquella povoação, assente proximo ao vertice do angulo em que confinam os territorios de S. Paulo, Minas-Geraes, Goyaz e Matto-Grosso até ao rio Sucuriú, affluente do magestoso Paraná, isto é, no desenvolvimento de muitas dezenas de leguas, anda-se commodamente, de habitação em habitação, mais ou menos chegadas umas ás outras; raream, porém, depois as casas, mais e mais, e caminha-se largas horas, dias inteiros sem se ver morada nem gente até ao retiro[1] de João Pereira, guarda avançada daquellas solidões, homem chão e hospitaleiro, que acolhe com carinho o viajante desses alongados páramos, offerece-lhe momentaneo agazalho e o provê da matolotagem precisa para alcançar os campos de Miranda e Pequiry, ou da Vaccaria e Nioac, no Baixo Paraguay.
Alli começa o sertão chamado bruto[2].
Pousos succedem a pousos, e nenhum tecto habitado ou em ruinas, nenhuma palhoça ou tapera dá abrigo ao caminhante contra a frialdade das noites, contra o temporal que ameaça, ou a chuva que está cahindo. Por toda a parte, a calma da campina não arroteada; por toda a parte, a vegetação virgem, como quando ahi surgio pela vez primeira.
A estrada que atravessa essas regiões incultas desenrola-se á maneira de alvejante faixa, aberta que é na areia, elemento dominante na composição de todo aquelle solo, fertilisado aliás por um sem numero de limpidos e borbulhantes regatos, ribeirões e rios, cujos contingentes são outros tantos tributarios do claro e fundo Paraná ou, na contravertente do correntoso Paraguay.
Essa areia solta e um tanto grossa tem côr uniforme que reverbera com intensidade os raios do sol, quando nella batem de chapa. Em alguns pontos é tão fofa e movediça que os animaes das tropas viajeiras arquejam de cansaço, ao vencerem aquelle terreno incerto, que lhes foge de sob os cascos e onde se enterram até meia canella.
Frequentes são tambem os desvios, que da estrada partem de um e outro lado e proporcionam, na matta adjacente, trilha mais firme, por ser menos pisada.
Se parece sempre igual o aspecto do caminho, em compensação mui variadas se mostram as paizagens em torno.
Ora é a perspectiva dos cerrados[3], não desses cerrados de arbustos rachiticos, enfezados e retorcidos de S. Paulo e Minas-Geraes, mas de garbosas e elevadas arvores que, se bem não tomem todas o corpo de que são capazes á beira das aguas correntes ou regados pela lympha dos corregos, comtudo ensombram com folhuda rama o terreno que lhes fica em derredor e mostram na casca lisa a força da seiva que os alimenta; ora são campos a perder de vista, cobertos de macega alta e alourada, ou de viridente e mimosa gramma, toda salpicada de sylvestres flores; ora successões de luxuriantes capões[4], tão regulares e symetricos em sua disposição que surprehendem e embellezam os olhos; ora, emfim charnecas meio apaúladas, meio seccas, onde nasce o altivo bority e o gravatá entrança o seu tapume espinhoso.
Nesses campos, tão diversos pelo matiz das cores, o capim crescido e resiccado pelo ardor do sol transforma-se em vicejante tapete de relva, quando lavra o incendio que algum tropeiro, por acaso ou mero desenfado, atêa com uma faulha do seu isqueiro.
Minando á surda na touceira queda a vivida scentelha. Corra d'ahi a instantes qualquer aragem, por debil que seja, e levanta-se a lingua de fogo esguia e tremula, como que a contemplar medrosa e vacilante os espaços immensos que se alongam diante della. Soprem então as auras com mais força, e de mil pontos a um tempo rebentam sofregas labaredas que se enroscam umas nas outras, de subito se dividem, deslisam, lambem vastas superficies, despedem ao céu rolos de negrejante fumo e voam, roncando pelos matagaes de tabocas e taquaras, até esbarrarem de encontro a alguma margem de rio que não possam transpor, caso não as tanja para além o vento, ajudando com valente folego a larga obra de destruição.
Acalmado aquelle impeto por falta de alimento, fica tudo debaixo de espessa camada de cinzas. O fogo, detido em pontos, aqui, alli, a consumir com mais lentidão algum estorvo, vai aos poucos morrendo até se extinguir de todo, deixando como signal da avassalladora passagem o alvacento lençol, que lhe foi seguindo os velozes passos.
Atravez da atmosphera ennublada mal póde então coar a luz do sol. A incineração é completa, o calor intenso, e nos ares revoltos volitam palhinhas carboretadas, detritos, argueiros e granulos de carvão que redemoinham, sobem, descem e se emmaranham nos sorvedouros e adelgaçadas trombas, caprichosamente formadas pelas aragens, ao embaterem umas de encontro ás outras.
Por toda a parte melancolia; de todos os lados tetricas perspectivas.
É cahir, porém, dahi a dias copiosa chuva, e parece que uma varinha de fada andou por aquelles sombrios recantos a traçar ás pressas jardins encantados e nunca vistos. Entra tudo n'um trabalho intimo de espantosa actividade. Transborda a vida. Não há ponto em que não brote o capim, em que não desabrochem rebentões com o olhar sofrego de quem espreita azada occasião para buscar a liberdade, despedaçando as prisões de penosa clausura.
Áquella instantanea resurreição nada, nada póde pôr peas.
Basta uma noite, para que formosa alfombra verde, verde-claro, verde-gaio, assetinado, cubra todas as tristezas de há pouco. Aprimoram-se depois os esforços; rompem as flores do campo que desabotoam ás caricias, da brisa as delicadas corollas e lhe entregam as primicias dos seus candidos perfumes.
Se falham essas chuvas vivificadoras, então por muitos e muitos mezes, ahi ficam aquellas campinas, devastadas pelo fogo, lugubremente illuminadas por avermelhados clarões sem uma sombra, um sorriso, uma esperança de vida, com todas as suas opulencias e verdejantes pimpolhos occultos, como que raladas de dor e mudo desespero por não poderem ostentar as riquezas e galas encerradas no ubertoso seio.
Nessas afflictas paragens, não mais se ouve o piar da esquiva perdiz, tão frequente antes do incendio. Só de vez em quando echoa o arrastado guincho do algum gavião, que paira lá em cima ou bordeja ao chegar-se á terra afim de agarrar um ou outro reptil chamuscado do fogo que lavrou.
Rompe tambem o silencio o grasnido do caracará, que aos pulos procura insectos e cobrinhas ou, junto ao solo, segue o vôo dos urubús, cujos negrejantes bandos, guiados pelo fino olfacto, buscam a carniça putrefacta.
É o caracará commensal do urubú. De parceria se atira, quando urgido pela fome, á rez morta e, intromettido como é, a custo de alguma bicada do pouco amavel conviva, belisca do seu lado no immundo repasto.
Se passa o caracará á vista do gavião, precipita-se este sobre elle com vôo firme, dá-lhe com a ponta da aza, atordoa-o, atormenta-o só pelo gosto de lhe mostrar a incontestada superioridade.
Nada, com effeito, o mette em brios.
Pelo contrario, mal levou dous ou tres encontrões do miúdo, mas audaz adversario, baixa prudente á terra e põe-se ahi desageitadamente aos saltos, apresentando o adunco bico ao antagonista, que com a extremidade das azas levanta pó e cinza, tão de perto as arrasta ao chão.
Afinal, de cansado, deixa o gavião o folguedo, segurando de um bote a serpesinha, que, em custoso rasto, procurava algum buraco onde fosse, mais a salvo, pensar as fundas queimaduras.
II
Taes são os campos que as chuvas não vêm regar.
Com que gosto demanda então o sertanejo os capões que lá de bem longe se avistam nas encostas das collinas e baixuras, ao redor de alguma nascente orlada de pindahybas e boritys?!
Com que alegria não saúda os formosos coqueiraes, nuncios, da lympha que lhe hade estancar a sede e banhar o afogueado rosto?!
Enfileiram-se ás vezes as palmeiras com singular regularidade na altura e conformação; mas não raro amontoam-se em compactos massiços, dos quaes se segregam algumas mais e mais, a acompanhar com as raizes qualquer tenue fio d’agua, que collea falto de forças e quasi a sumir-se na ávida areia.
Desde longe dão na vista esses capões.
É a principio um ponto negro, depois uma cupola de verdura, afinal, mais de perto, uma ilha de luxuriante rama, oásis para os membros lassos do viajante exhausto de fadiga, para os seus olhos encandeados e sua garganta abrasada.
Então com sofreguidão natural acolhe-se elle ao sombreado retiro, onde prestes desarreia a cavalgadura, á qual dá liberdade para ir pastar, entregando-se sem demora ao somno reparador que lhe trará novo alento para proseguir na cansativa jornada.
Ao homem do sertão afiguram-se taes momentos incomparaveis, acima de tudo quanto possa idear a imaginação no mais vasto circulo de ambições.
Satisfeita a sede que lhe seccara as fauces, e comidas umas colheres de farinha de mandioca ou de milho, adoçada com rapadura, estira-se a fio comprido sobre os arreios desdobrados e contempla descuidoso o firmamento azul, as nuvens que se espacejam nos ares, a folhagem lustrosa e os troncos brancos das pindahybas, a copa dos ipês e as palmas dos boritys a ciciar a modo de harpas eólias, musicas sem conta com o perpassar da brisa.
Como são bellas aquellas palmeiras!
O estipite liso, pardacento, sem manchas mais que pontuadas estrias, sustenta denso feixe de peciolos longos e canulados, em que assentão flabellas abertas como um leque, cujas pontas se acurvam flexiveis e tremulantes.
Na base e em torno da coma, pendem, amparados por largas spathas, densos cachos de cocos tão duros, que a casca luzidia revestida de escamas rhomboidaes e de um amarello alaranjado desafia por algum tempo o ferreo bico das araras.
Tambem com que vigor trabalham as barulhentas aves antes de conseguir a appetecida e saborosa amendoa! Em grupos juntam-se ellas, umas vermelhas como chispas soltas de intensa labareda, outras versicolores, outras pelo contrario de todo azues, de maior viso e que, por parecerem negras em distancia, tem o nome de araraúnas.[5] Alli ficam alcandoradas, balouçando-se gravemente e atirando, de espaço a espaço, ás immensidades das dilatadas campinas notas estridentes, quando não seja um clamor sem fim, ao quererem muitas disputar o mesmo cacho. Quasi sempre, porem estão a namorar-se aos pares, pousadas uma bem encostadinha á outra.
Vê tudo aquillo o sertanejo com olhar carregado de somno. Cahem-lhe pesadas as palpebras; bem se lembra de que por alli podem rastejar venenosas alimarias, mas é fatalista; confia no destino e, sem mais preoccupação, adormece com serenidade.
Correm as horas: vem o sol descambando; refresca a brisa, e sopra, rijo o vento. Não ciciam mais os boritys; gemem, e convulsamente agitam as flabelladas palmas.
É a tarde que chega.
Desperta então o viajante; esfrega os olhos; distende preguiçosamente os braços; boceja; bebe uma pouca d'agua; fica uns instantes sentado, a olhar de um lado para o outro e corre afinal a buscar o animal, que de prompto ensilha e cavalga.
Uma vez montado, lá vai elle a passo ou a trote, bem disposto de corpo e de espirito, por aquelles caminhos além, em demanda de qualquer pouso onde pernoite.
Quanta melancolia baixa á terra com o cahir da tarde!
Parece que a solidão alarga os seus limites para se tornar acabrunhadora. Ennegrece o solo; formam os matagaes sombrios massiços, e ao longe se desdobra tenue véu de um roxo uniforme e desmaiado, no qual, como linhas a meio apagadas, resaltam os troncos de uma ou outra palmeira mais alterosa.
É a hora, em que se aperta de inexplicavel receio o coração. Qualquer ruido nos causa sobresalto; ora o grito afflicto da zabelê nas mattas, ora as plangentes notas do bacuráu a cruzar os ares. Frequente é tambem amiudarem-se os pios angustiados de alguma perdiz, chamando ao ninho o companheiro extraviado, antes que a escuridão de todo lhe impossibilite a volta.
Quem viaja attento ás impressões intimas, estremece mau grado seu ao ouvir n'esse momento de saudades o tanger de um sino muito, muito ao longe ou o silvar distante de uma locomotiva impossivel. São insectos occultos na macega que trazem essa illusão, por tal modo viva e perfeita que a imaginação, embora desabusada e prevenida, ergue o vôo e lá vai por estes mundos fóra a doudejar e a crear mil fantasias.
III
Espalham-se, por fim, as sombras da noite.
O sertanejo que de nada cuidou, que não ouviu as harmonias da tarde, nem reparou nos esplendores do céu, que não viu a tristeza a pairar sobre a terra, que de nada se arreceia, consubstanciado como está com a solidão, pára, relanceia os olhos ao derredor de si e, se no lugar presente alguma aguada, por má que seja, apeia-se, desensilha o cavallo e, reunindo logo uns gravetos bem seccos, tira fogo do isqueiro, mais por distracção do que por necessidade.
Sente-se deveras feliz. Nada lhe perturba a paz do espirito ou o bem-estar do corpo. Nem sequer monologa, como qualquer homem acostumado a conversar.
Raros são os seus pensamentos: ou rememora as leguas que andou, ou computa as que tem que vencer para chegar ao termino da viagem.
No dia seguinte, quando aos clarões da aurora acorda toda aquella esplendida natureza, recomeça elle a caminhar, como na vespera, como sempre.
Nada lhe parece mudado no firmamento: as nuvens de si para si são as mesmas. Dá-lhe o sol, quando muito, os pontos cardeaes, e a terra só lhe prende a attenção, quando algum signal mais particular póde servir-lhe de marco milliario na estrada que vai trilhando.
—Bom! exclama em voz alta e alegre ao avistar algum madeiro agigantado ou uma disposição especial de terras, lá está a péuva grande... Cheguei ao Barranco Alto. Até ao pouso de Jacaré ha quatro leguas bem puxadas.
E, olhando para o sol, conclue:
—D'aqui a tres horas estou batendo fogo.
Occasiões ha em que o sertanejo dá para assoviar. Cantar, é raro; ainda assim, á surdina; mais uma voz intima, um rumorejar comsigo, do que notas sahidas do robusto peito. Responder ao pio das perdizes ou ao chamado agoniado da esquiva jaó, é o seu divertimento em dias de bom humor.
É-lhe indifferente o urro da onça. Só por demais repara nas muitas pegadas, que em todos os sentidos ficam marcadas na arêa da estrada.
—Que bichão! murmura elle contemplando um rasto mais fortemente impresso no solo; com um bom onceiro[6] não se me dava de acuar este diabo e metter-lhe uma chumbada no focinho.
O legitimo sertanejo, explorador dos desertos, não tem, em geral, familia. Em quanto moço, seu fim unico é devassar terras, pisar campos onde ninguem antes puzera pé, vadear rios desconhecidos, despontar cabeceiras[7] e furar mattas, que descobridor algum até então haja varado.
Cresce-lhe o orgulho na razão da extensão e importancia das viagens emprehendidas; e seu maior gosto cifra-se em enumerar as correntes caudaes que transpoz, os ribeirões que baptisou, as serras que trasmontou e os pantanaes que afoutamente cortou, quando não levou dias e dias a rodeal-os com rara paciencia.
Cada anno que finda traz-lhe mais um valioso conhecimento e accrescenta uma pedra ao monumento da sua innocente vaidade.
—Ninguem póde commigo, exclama elle emphaticamente. Nos campos da Vaccaria, no sertão do Mimoso e nos pantános[8] do Pequiry, sou rei.
E esta presumpção de realeza infunde-lhe certo modo de falar e de gesticular magestatico em sua singela manifestação.
A certeza que tem de que nunca poderá perder-se na vastidão, como que o liberta da obsessão do desconhecido, o exalta e lhe dá foros de infallibilidade.
Se estende o braço, aponta com segurança no espaço e declara peremptoriamente:
—N'este rumo daqui a 20 leguas, fica o espigão mestre de uma serra braba, depois um rio grosso; dalli a cinco leguas outro matto sujo que vai findar n'um brejal. Se vassuncê frechar direitinho assim umas duas horas, topa com o pouso do Tatú, no caminho que vai a Cuyabá.
O que faz n'uma direcção, com a mesma, imperturbavel serenidade e firmeza indica em qualquer outra.
A unica interrupção que aos outros consente, quando conta os innumeros descobrimentos, é a da admiração. Á minima suspeita de duvida ou pouco caso, incendem-se-lhe de colera as faces e no gesto denuncia indignação.
—Vassuncê não credita! protesta então com calor. Pois ensilhe o seu bicho e caminhe como eu lhe disser. Mas assumpte[9] bem, que no terceiro dia de viagem ficará decidido quem é cavoqueiro[10] e embromador[11]. Uma cousa é mapiar[12] á toa, outra andar com tento por estes mundos de Christo.
Quando o sertanejo vai ficando velho, quando sente os membros cansados e entorpecidos, os olhos já ennevoados pela idade, os braços frouxos para manejar a machadinha que lhe dá o substancial palmito ou o saboroso mel de abelhas, procura então quem o queira para esposo, alguma viúva ou parenta chegada, forma casa e escola, e prepara os filhos e enteados para a vida aventureira e livre que tantos gozos lhe dera outr'ora.
Esses discipulos, aguçada a curiosidade com as repetidas e animadas descripções das grandes scenas da natureza, n'um bello dia desertam da casa paterna, espalham-se por ahi além, e uns nos confins do Paraná, outros nas brenhas de S. Paulo, nas planuras de Goyaz ou nas bocainas de Matto-Grosso, por toda a parte emfim onde haja deserto vão pôr em activa pratica tudo quanto souberam tão bem ouvir, relembrando as façanhas do seu respeitado progenitor e mestre.
CAPITULO II O VIAJANTE
Proprio de espirito sorumbatico, é andar sempre calado: tagarellar é o encanto e a alma da vida.
LA CHAUSSÉE.
Commigo, respondeu Sancho, meu primeiro movimento é logo tal comichão de fallar que não posso deixar de desembuxar o que me vem á bocca.
CERVANTES.—D. Quixote.
O dia 15 de Julho de 1860 era dia claro, sereno e fresco, como costumam ser os chamados de inverno no interior do Brazil.
Ia o sol alto em seu percurso, illuminando com seus raios, não muito ardentes para regiões intertropicaes, a estrada, cujo aspecto ha pouco tentámos descrever e que da villa de Sant'Anna do Paranahyba vai ter aos campos de Camapoan.
Á essa hora, um viajante, montado n'uma boa besta tordilho-queimada, gorda e marchadeira seguia aquella estrada. A sua physionomia e maneiras de trajar denunciavam de prompto que não era homem de lida fadigosa e commum ou algum fazendeiro daquellas cercanias que voltasse para casa. Trazia na cabeça um chapéu do Chile de abas amplas e cingido de larga fita preta, sobre os hombros um ponche-pala de variegadas cores e calçava botas de couro da Russia bem feitas e em bom estado de conservação.
Tinha quando muito vinte e cinco annos, presença agradavel, olhos negros e bem rasgados, barba e cabellos cortados quasi á escovinha e ar tão intelligente quanto decidido.
Na mão empunhava uma comprida vara que havia pouco cortara, e com que ia distrahidamente fustigando o ar ou batendo nos ramos de arvores que se dobravam ao alcance do braço.
Vinha só e, no momento em que damos começo a esta singela historia, achava-se no bonito trecho de caminho que medeia entre a casa de Albino Lata e a do Leal, a sete boas leguas da sezonatica e decadente villa de Sant'Anna do Paranahyba.
Nesta porção de estrada, ensombrada pelas arvores de vistoso cerrado, o leito, ainda que já bastante arenoso, é firme e parece mais álea de bem tratado jardim, do que caminho de tropas e carreadores.
Ainda augmenta os encantos daquelle lance a innumera quantidade de rolas caboclas a brincar na areia e de pombas de cascavel, cujo bater de azas produz um arruido tão caracteristico e singular.
O nosso viajante, se caminhava distrahido e meio pensativo, não parecia, comtudo, de genio sombrio ou pouco divertido.
Muito ao contrario, sacudia ás vezes o torpôr em que vinha e entrava a cantarolar, ou assoviar, esporeando a valente cavalgadura, que na marcha que tomava ia abanando alternadamente as orelhas com o movimento cadencial da cabeça.
N'uma dessas reacções contra alguma preoccupação, disse em voz alta, puxando por um relogio de prata, seguro em corrente do mesmo metal:
—Ás duas horas pretendo sestear no paiol do Leal. Falta pouco para o meio dia, e tenho tempo diante de mim a botar fóra...
Moderou, pois, a andadura que levava o animal e mais activamente recomeçou a zurzir os galhos das arvores bocejando de tedio.
Tambem pouco tempo caminhou só, por isto que em breve ao seu lado emparelhou outro viajante, escanchado n'um cavallinho feio e zambro, mas muito forte, o qual, coberto como estava de suor, mostrava ter vindo quasi a galope.
Homem já de alguma idade, o recem-chegado era gordo, de compleição sanguinea, rosto expressivo e franco. Trajava á mineira e parecia como realmente era, morador daquella localidade.

Olá, patricio, exclamou conchegando a cavalgadura.
—Olá, patricio, exclamou elle conchegando a cavalgadura á da pessoa a quem interpellava, então se vai botando para Camapoan?
Olhou o nosso cavalleiro com desconfiança e sobranceria para quem o interrogava tão sem ceremonia e meio-enviezado respondeu:
—Talvez sim ... talvez não ... Mas a que vem a pergunta?
—Ah! desculpe-me, replicou o outro rindo-se, nem siquer o saudei... Sou mesmo um estabanado... Deus esteja comvosco. Isto sempre me acontece... A minha lingua fica as vezes tão douda que se põe logo a bater-me nos dentes ... que é um Deus nos acuda e ... não ha que avisar: agua vae! Olhe, por vezes já me tem vindo damno, mas que quer? É sestro antigo... Não que eu seja malcriado, Deus de tal me defenda, abrenuncio; mas pega-me tal comichão de fallar que vou logo, sem tir-te, nem guar-te, dando á taramela...
A volubilidade com que foram ditas estas palavras causou certo espanto ao mancebo e o levou a novamente encarar o inopinado companheiro, desta feita com mais demora e ar menos altivo.
Notou então a physionomia alegre e bonachã do tagarella e, com ar de sympathia, correspondeu ao communicativo sorriso daquelle que, á força, queria travar conversação.
—Pelo que vejo, disse elle, o Sr. gosta de prosear.
—Ora se! retrucou o mineiro. Nestes sertões só sinto a falta de uma cousa: é de um christão com quem de vez em quando dê uns dedos de parola. Isto sim, por aqui é vasqueiro. Tudo anda tão calado!... uma verdadeira caipiragem!... Eu, não. Sou das Geraes[13] geralista como por cá se diz; nasci no Parahybuna, conheci no meu tempo pessoas de muita educação, gente mesma de truz e fui criado na Matta do Rio como homem e não como bicho do monte[14].
—Ah! o senhor é de Minas?
—Geraes, se me faz favor. Baptizei-me em Vassouras, mas sou mineiro da gemma. Andei séca e méca antes de vir deitar poita neste paiz. Isto já faz muito tempo, pois tambem vou ficando velho. Ha mais de quarenta annos pelo menos que sahi da casa dos meus pais...
E interrompendo o que dizia, perguntou:
—O senhor também é de Minas?
—Nhor-não, respondeu o outro. Sou caipira de S. Paulo: nasci na villa de Casa-Branca, mas fui criado em Ouro-Preto.
—Ah! na cidade Imperial[15]?...
—Lá mesmo.
—Então é quasi de casa, replicou o mineiro rindo-se ruidosamente. Ora, quem diria! Por isto me batia a passarinha, quando vi o seu rasto fresco na areia. Ahi vai, disse eu por vezes com os meus botões um sujeitinho que não tem pressa de pousar. Tambem tocando o meu canivete, tratei de agarral-o para não fazer a viagem a olhar para o céu e a banzar. Acha que obrei mal?
—Não, senhor, protestou o moço com affabilidade. Muito lhe agradeço a intenção. Assim alcançarei sem cansaço o Leal, onde pretendo dar hoje com os ossos.
—Oh! exclamou o outro todo expansivo, a caminhada é a mesma. Pois, meu rico senhor, eu moro a meia legua do Leal, torcendo á esquerda, e se vosmecê não tem compromissos lá com o homem fár-me-ha muito favor agasalhando-se em tecto de quem é pobre, mas amigo de servir. Minha tapera[16] é pouco retirada do caminho, e quem vem montado como o senhor, não tem que andar contando bocadinhos de leguas.
Convite tão espontaneo e amavel não podia deixar de ser bem aceito, sobretudo naquellas alturas, e trouxe logo entre os dous caminhantes a familiaridade que tão depressa se estabelece em viagem.
—Com toda a satisfacção irei parar em sua casa, retrucou o joven. Nunca vi o Leal, pois agora é a primeira vez que cruzo este sertão, e ando de pouso em pouso, pedindo um cantinho de paiol ou de rancho para passar a noite com os meus camaradas.
—Traz então tropa?
—Tropa, não; apenas dous bagageiros que vem com as minhas cargas e uma besta á dextra.
—Olá! o amigo viaja á fidalga, observou o mineiro com gesto folgazão.
—Qual!... Bastantes privações tenho já cortido.
—De certo não as sentirá em nossa casa todo o tempo que lá quizer ficar. Não encontrará luxarias[17] nem cousas da capital, unicamente o que se póde ter nestes mundos[18]: quatro paredes de páo a pique mal rebocadas, uma cama de vento, bom feijão a fartar, hervas á mineira, arroz de papa, farinha de milho torradinha, café com rapadura e talvez até um lombo fresco de porco.
—Olá! exclamou o moço rindo-se com expansão, vou passar vida de capitão-mór. Não queria tanto, bastava-me...
—O que sobretudo desejo é que tenha commigo o coração na boca. Se não gostar do passadio, vá logo desembuxando. Na minha rancharia pousa pouca gente, porque fica para dentro da estrada ... assim, talvez lhe falte alguma cousa; em todo o caso farei pelo melhor...
Depois de breve pausa, continuou:
—Mas porem creio que já é occasião, agora que nos conhecemos como dous amigos do tempo do Rojão, saber com quem lidamos. Eu, quanto a mim, me chamo Martinho dos Santos Pereira e a minha historia conto-lh'a em duas palhetadas... Sua graça, ainda que mal pergunte?
—Cyrino Ferreira de Campos, respondeu o outro viajante, um criado para o servir.
—Obrigado, agradeceu Pereira inclinando-se cortezmente e levando a mão ao chapéu. Como lhe disse ha pouco, minha historia é historia de entrar por uma porta e sahir por outra. Minha gente não é de má raça, pelo contrario; meu pai, que Deus lhe dê a gloria, possuia alguma cousa de seu e deixou aos seus muitos filhos um nome limpo e respeitado. Cada qual de nós—eramos sete—tomou o seu rumo. Quanto a mim, casei muito mocinho e fui morar na Diamantina, onde abri casa de negocio. Depois de alguns annos, uns bons, outros caipóras, morreu minha dona e mudei-me, a principio, para Piumhy e mais tarde para Uberaba. A vida começou a desandar-me de todo, e fiz logo este calculo: estar tão longe, antes afundar-me no matto de uma boa feita. Vendi minha lojinha de ferragens e internei-me até cá com tres escravos. Ha doze annos que moro nestes socavões[19] e, palavra de honra, até ao presente não me tenho arrependido. Na minha situação ha fartura, e louvado seja! nunca passei necessidade... Não posso por isto queixar-me sem ingratidão. Deus Nosso Senhor Jesus Christo tem olhado para mim, e me julgo bem amparado, sobretudo quando me lembro do despotismo[20] de miserias, que vai por estas terras fóra... Cruzes! nem falar n'isto é bom... Diga-me porém uma cousa: vosmecê para onde se atira?
—Homem, Sr. Pereira, não tenho destino certo.
—Deveras? Então está caminhando á toa?
—Eu ponho-lhe já tudo em pratos limpos. Ando por estes fundões[21] curando maleitas e feridas brabas.
—Ah! exclamou Pereira com manifesto contentamento, vosmecê é doutor, não é? Physico, como chamavam os nossos do tempo de dantes.
—É facto, confirmou Cyrino com alguma satisfacção.
—Ora, pois, muito que bem, cahe-me a sopa no mel; sim, senhor, vem mesmo ao pintar ... a talhe de fouce.
—Porque?
—Daqui a pouco saberá... Mas, diga-me ainda... Onde é que vosmecê leu nos livros, aprendeu suas historias e bruxarias? Na côrte do Imperio?
—Não, respondeu Cyrino, primeiro no collegio do Caraça; depois fui para Ouro Preto, onde tirei carta de pharmacia.
E acrescentou com infatuação:
—Desde então tenho batido todo o poente de Minas e feito curas que é um milagre.
—Ah! a sabença é cousa boa... Eu tambem tinha geito para saber mais do que lêr e escrever, isto mesmo malmente; mas quem nasceu para carreiro, vira, mexe, larga e pega, sempre acaba junto ao carro. Com o que, entonces, vosmecê entende de curar?...
—Entendo, affirmou Cyrino sem o menor constrangimento.
—Pois cahiu-me muito ao geito na mão; sim, senhor. Estou com uma menina doente de maleitas, minha filha, e por essa causa tinha ido a Sant'Anna buscar quina do commercio; mas lá não havia da maldita e voltava bem agoniado. Ora...
—Trago, interrompeu o outro, muito remedio nas minhas malas. Para sezões, tenho uma composição infallivel...
—Já se sabe; entra composição de quina. Deveras é santa mézinha. A pequena tomou a do campo; mas essa pouco talento[22] tem, de maneira que a sezão não lhe deixou o corpo.
—Ha quantos dias appareceu o tremor de frio? perguntou o intitulado doutor.
—Faz hoje, salvo engano, dez dias.
Até agora era uma rapariga forçuda, sadia e rosada como um jambo; nem sei até como lhe entrou a maleita no corpo. Ninguem póde fiar-se na tal villa de Sant'Anna; é uma peste de febres. Eu bem a não queria levar até lá; mas ella pediu tanto que consenti! demais como era para ver a madrinha, uma boa senhora, de muita circumstancia[23], a mulher do major Mello Taques... Não conhece?
—Pois não.
—E dá-se com o major? perguntou Pereira para abrir novo campo á sua garrulice.
—Quando pousei na villa, estive com elle.
—E não gostou? Aquillo sim é homem ás direitas. Tambem é páu para toda a obra na Senhora Sant'Anna é o tutú[24] de lá. Em querendo taramelar um pouco mais a meu gosto, busco o compadre. Isto arma logo uma conversa que me dá um fartão... E depois pessoa de muitas lettras... Escreve ao governo; é juiz de paz, major reformado, serve de juiz municipal, já fez a campanha dos Farrapos lá no Rio Grande do Sul para as bandas dos Castelhanos e merece muita estimação. Móra n'uma casa de andar[25] e tem loja muito sortida, por signal que bem baratinha para a distancia. E as historias que conta? É um nunca acabar. O homem parece que sabe o Imperio de cór e salteado! Nem o vigario! Olhe, Sr. Cyrino, vou dizer-lhe uma cousa, que talvez lhe pareça embromação: ás vezes dou um pulo até á villa só para bater lingua com o major, porque com esta gente daqui não se tira partido: escurraçada e arisca que é um Deus nos acuda! Então, como lhe ia contando, galopeio até lá, e pego n'uma mapiagem[26] que me enche as medidas. Não ha...
—Gabo-lhe a pachorra, atalhou Cyrino. Mas, diga-me, Sr. Pereira; farei por aqui algum negocio?
—Homem, conforme. Gente doente é matto[27]: mas tambem mofina[28] como ella só. Meio arredado da minha casa, fica o Coelho que está morre não morre ha muitos annos, e é homem de boas patacas. Este, se vosmecê o curar, talvez caia com os cobres. Tudo o mais é uma récula de gente mais ou menos.
—Vosmecê traz bastante quina do commercio? perguntou em seguida.
—Trago, respondeu Cyrino, mas é cara.
—Que é cara, bem sei. Pois é quanto basta, porque no fundo aqui tudo são sezões.
Começou então o bom do Sr. Pereira a desenrolar as diversas molestias que o haviam salteado no correr da vida, raras na verdade, mas todas perigosas; e com esse thema ás ordens achou meios e modos de falar até quasi perder o folego.
Recolheu-se o outro ao silencio e ouviu talvez preoccupado, ou em todo caso, muito distrahidamente, o que lhe contava o seu novo amigo, sahindo, de vez em quando, da apathica attenção para instigar com a voz e o calcanhar a cavalgadura, quando esta parecia querer por si tomar descanso ou buscava comer os rebentões mais appetitosos do capim a grelar.
Afinal notou Pereira o tal ou qual abatimento do companheiro.
—Vosmecê a modo que está triste? disse elle. Deixou alguma cousa de seu lá por traz?
—Homem, para ser franco, respondeu Cyrino dando um suspiro, deixei; e essa cousa é uma divida ... divida de jogo.
—Isso é mau, retrucou o mineiro fechando um tanto a cara. Por causa desse vicio e das mulheres, é que as cruzes nascem á beira das estradas. Mas é côco[29] grosso?
—Trezentos mil réis.
—Já é gimbo[30] graúdo. E com quem jogou?
—Com o Totó Siqueira, de Sant'Anna. Por isto pretendeu atrazar-me a viagem; mas prometti mandar-lhe tudo do Sucuriú por um camarada e passei-lhe um papel. No que estou pensando, é se acharei até lá meios de cumprir a palavra.
—Se lhe pagarem como devem, com certeza. Em todo o caso aperte um pouco com os doentes.
—Não imagina, replicou Cyrino com verdadeiro sentimento, quanto me tem amofinado essa maldita divida. Não pelo dinheiro, que delle faço pouco caso; mas por ter pegado em cartas, cousa que nunca tinha feito na minha vida; isto sim...
—Pois meu rico senhor, proseguiu Pereira, sirva-lhe esta de lição e tome tento com a gente do sertão, não com esses que moram nas suas casas, socegados e amigos de servir, mas com viajantes, homens de tropas e carreiros. Isso sim, é uma sucia de jogadores que andam armados de baralhos e visporas e, por dá cá aquella palha, empurram uma facada na barriga de um christão ou descarregam uma garrucha na cabeça de um companheiro, como se fosse em melancia podre. Depois, o demonio do jogo, quando entra no corpo de um desgraçado, faz logo ninho e de lá pincha fora a vergonha. Da má vida com raparigas airadas, fadistas e mulheres á toa, ainda a gente endireita; mas com cartas e sortes, só na caldeira de Pedro Botelho é que se cuida em mudar de rumo. Quem lhe fala, teve um tio morador nas Traíras, para cá de Camapoan cinco leguas, que trabalhava todo o anno na terra para vir jogar até perder o ultimo cobre nas rancharias do Sucuriú.
Pereira, de posse de tão largo assumpto, contou mil historias, umas lugubres, outras jocosas, veridicas, inventadas na occasião ou reproduzidas.
Haviam no entretanto os dous caminhado bastante. Inclinára-se no horizonte o sol, e a briza da tarde já vinha soprando do lado do poente, viva, perfumosa.
—Nós, observou o mineiro, com a nossa conversa deixámos os nossos animaes vir cochilando. Também já está aqui a minha estradinha. Metta-se nella, Sr. Cyrino; em frente ia parar no Leal: minha fazendola começa neste ponto á beira do caminho e vai por ahi afóra até bem longe, um mundo de alqueires de terra, que nem tem conta.
Ao dizer estas palavras, tomou elle a dianteira e dando a direita á estrada geral, enveredou por uma aberta larga e muito sombreada que levava com voltas e tortuosidades á margem rasa de copioso e limpido ribeirão, de alveo areento, todo elle. Que sitio risonho, encantador, esse, ensombrado por magestosa e elegante ingazeira, toda ponctuada das mimosas e balsamicas floresinhas!
Os animaes, ao perceberem o bater da agua, apertaram o passo e, entrando na fresca corrente quasi até aos peitos, estiraram o pescoço e pozeram-se a beber ruidosamente, avançando aos poucos de encontro ao fio caudal, para buscarem o que houvesse mais puro em lympha.
—Não deixe a sua besta se empanzinar observou Pereira. Upa! continuou elle puxando pela redea do cavallo e batendo-lhe amigavelmente na pá do pescoço, upa, Canivete! Vamos matar a fome no milho!
Transposto o ribeirão, alargava-se a vereda e, depois de cortar copada matta, abria-se n'uma verdadeira estrada, que os dous cavalleiros tomaram a meio galope.
Trasmontava afinal o sol, quando, além de ralo mattagal, surgiu a ponta de um mastro de S. João, que o mineiro saudou com mostras de grande alegria, como signal percursor da querida vivenda.
Antes, porém, de n'ella penetrarmos, digamos quem era aquelle mancebo que viajava ornado do pomposo titulo de doutor, e, o que mais é, revestido de autoridade para ir, a seu talante, applicando remedios e preconisando curas milagrosas.
CAPITULO III O DOUTOR
Semeai promessas: a ninguem causam desfalque, e o mundo é rico de palavras.
A esperança quando outros n'ella creem faz ganhar muito tempo.
OVIDIO.
Ao morreres, dota a algum collegio ou o teu gato.
POPE.
Sganarello—De toda parte vem gente procurar-me, e se as cousas continuarem assim, sou de parecer que de uma vez devo dedicar-me á medicina. Acho que de todos os officios é este o preferivel por que, ou se faça bem ou mal, sempre no fim ha dinheiro.
MOLIÈRE.—O medico á força.
Nascera Cyrino de Campos, como dissera a Pereira, na provincia de S. Paulo, na socegada e bonita villa de Casa-Branca, a qual demora umas 50 leguas do littoral. Filho de um vendedor de drogas, que se intitulava boticario e a esse officio accumulava o importante cargo de administrador do correio, crescera debaixo das vistas paternas até á idade de doze annos, completos os quaes fôra enviado, em tempos de festas e a titulos de recordação saudosa, a um velho tio e padrinho, morador na cidade de Ouro-Preto, em Minas-Geraes.
Este parente, solteirão, de genio rabugento, misanthropo, e dado ás praticas da mais extrema carolice, recebeu o pequeno com máu modo e manifesto descontentamento, tanto mais quanto a presença de um estranho vinha interromper os habitos de completa solidão a que se acostumara desde longos annos.
Era homem que trajava ainda á moda antiga usando de sapatos de fivela, calções de braguilha, e cabelleira empoada com o competente rabicho.
A sua reputação de pessoa abastada era, em toda a cidade de Ouro Preto, tão bem firmada quanto a de refinado sovina, chegando a voz publica a affirmar que o seu dinheiro, e não pouco, estava todo enterrado em numerosos buracos no chão da alcova de dormir.
—Meu amigalhote, disse o tal padrinho a Cyrino, poucos dias depois da chegada, fique sabendo que por qualquer cousinha lhe sacudo a poeira do corpo. Dê-se por avisado e ande direitinho que nem um fuso.
O menino, transido de medo, passou a tarde a chorar n'um canto sombrio da casa, onde relembrou, até lhe vir o somno, a alegre vida de outr'ora, os folguedos que fazia com os camaradas na viçosa relva do Cruzeiro á entrada da villa Casa-Branca e sobretudo os carinhos da saudosa mamãe.
Em seguida áquella admoestação preventiva fôra o tio á casa de uns padres que tinham influencia na direcção do Collegio do Caraça e com elles arranjara a admissão do afilhado n'aquelle estabelecimento de instrucção.
Como finorio que era, conseguiu este resultado sem muita difficuldade, pagando-o, a juros compostos, com tentadoras promessas.
—Por ora, resmoneou elle, nada poderei fazer pela educação do rapaz; mas ... emfim ... um dia ... estou já velho, e tratarei de mostrar que não me esqueci dos bons padres que tanto me ajudam hoje.
Lançada, assim, a eventualidade de uma verba testamentaria, ficou decidida a entrada de Cyrino na casa collegial.
O presentimento da falta de protecção natural torna as crianças doceis e resignadas. Tambem não tugiu nem mugiu o caipirasinha ao penetrar no internato em que devia passar tristonhamente os melhores annos da sua adolescencia.
Optimo negocio fizera incontestavelmente o velho tio. Ia tão somente desembolsando boas palavras e, por estar agarrado á vida, chegou até a levar ao cemiterio dous dos padres que se haviam prendido ás esperanças de valiosa recordação.
Afinal como tinha por seu turno que pagar o tributo universal, um bello dia morreu quando menos se esperava, deixando muito recommendado um seu testamento, que foi com effeito aberto com sofreguidão digna de melhor exito.
Testamento havia, força é confessar; não já testamento, mas extenso arrazoado todo da letra do velho; barras de ouro, porém, ou maços de notas, nem sombra.
Esfuracou-se a casa de alto a baixo levantaram-se os soalhos; escutaram-se todas as paredes; quebraram-se os moveis: nada appareceu, nada denunciou esconderijo de riquezas, nem cousa que com isso se avizinhasse.
Descobriu-se então que aquelle carola fôra um pensador desabusado, antigo admirador de Xavier, o Tira-Dentes, que nunca tivera vintem e vivera como philosopho, grazinando lá comsigo mesmo, de tudo e de todos.
Era o seu testamento uma gargalhada meio de gosto, meio de ironia, atirada de além tumulo e corroborada pelo legado sarcastico que em pomposo codicillo, fazia aos padres do Caraça da sua bibliotheca «afim, dizia elle, de ajudar a educação dos mancebos e auxiliar as boas intenções dos seus honrados e virtuosos directores.»
Procuraram-se os taes livros, e topou-se com um bahú cheio de obras, em parte devoradas pelo cupim, que foram, incontinenti, entregues ás chammas de um grande auto de fé. Eram as Ruinas de Volney, o Homem da Natureza, as poesias eroticas de Bocage, o Diccionario philosophico de Voltaire, o Citador de Pigault-Lebrun, a Guerra dos Deuses de Parny, os romances do Marquez de Sade e outras producções de igual alcance e quilate, algumas até em francez, mas annotadas por leitor assiduo e mais ou menos convencido.
A consequencia desse pesado gracejo posthumo, que destruia de raiz o conceito de uma vida inteira, foi a immediata exclusão de Cyrino do collegio do Caraça.
Tinha então dezoito annos e, como era vivo conseguiu, apezar da natural pecha que lhe atirava o parentesco com o estrambotico e defunto protector, ir servir de caixeiro n'uma botica velha e manhosa onde entre drogas e receituarios lhe foram voltando os habitos da casa paterna.
Leve era o trabalho, e o aviamento de prescripções tão lento que os ingredientes pharmaceuticos ficavam mezes inteiros nos embaçados e esborcinados frascos á espera de que alguem se lembrasse de tiral-os daquelle bolorento esquecimento.
Em localidade pequena, de simples boticario a medico não ha mais que um passo. Cyrino, pois, foi aos poucos e com o tempo creando tal ou qual pratica de receitar e, agarrando-se a um Chernoviz, já seboso de tanto uso, entrou a percorrer, com alguns medicamentos no bolso e na mala da garupa, as visinhanças da cidade á procura de quem se utilisasse dos seus serviços.
Nessas curtas digressões principiou a receber o tratamento de doutor. Então para melhor o firmar, depois de se ter despedido da botica em que servia, matriculou-se na escola de pharmacia de Ouro-Preto com a intenção de tirar a carta de boticario, que o presidente de Minas Geraes tem o privilegio de conferir, dispensando documentos de qualquer faculdade reconhecida.
Antes, porém, de conseguir a posse d'aquelle lisonjeiro documento, fez-se Cyrino, n'um dia de capricho, de partida decidida e começou então a viajar pelos sertões povoados a medicar, sangrar e retalhar, unindo a alguns conhecimentos de valor positivo outros que a experiencia lhe ia indicando ou que a voz do povo e a superstição lhe ministravam.
Toda a sua sciencia assentava alicerces no tal Chernoviz. Tambem era o inesperavel vade-mecum; seu livro de ouro; Homero á cabeceira de Alexandre. Noite e dia o manuseava; noite e dia o consultava á sombra das arvores ou junto ao leito dos enfermos.
Contem Chernoviz, dizem os entendidos, muitos erros, muita lacuna, muita cousa inutil e até disparatada; entretanto no interior do Brazil é obra que incontestavelmente presta bons serviços, e cujas indicações tem força de evangelho.
Conhecia Cyrino o seu exemplar de cór e salteado; abria-o com segurança nos trechos que desejava consultar e graças a elle formara um fundo de instrucção real e até certo ponto exacta, a que unira o estudo natural das utilissimas e ainda pouco aproveitadas hervinhas do campo.
Afim de augmentar os seus recursos em materia medica vegetal, foi a pouco e pouco dilatando as excursões fóra das cidades, para as quaes voltava, quando se via falto de medicamentos ou quando, digamol-o sem rebuço, queria gastar nos prazeres e folias o dinheiro que ajuntara com a clinica do sertão.
Afinal, afeito a habitos de completa liberdade, resolvera emprehender viagem para Camapoan e sul de Matto-Grosso, não só com o intuito de estender o raio das operações, como levado do desejo de ver terras novas e longinquas.
Curandeiro, simples curandeiro, ia por toda a parte grangeando o tratamento de doutor, que gradualmente lhe foi parecendo, a si proprio, titulo inherente á sua pessoa e a que tinha incontestavel direito.
Bem formado era o coração daquelle moço, sua alma elevada e incapaz de pensamentos menos dignos; entretanto no intimo do seu caracter se haviam insensivelmente enraizado certos habitos de orgulho, repassado de tal ou qual charlatanismo, oriundo não só da flagrante insufficiencia scientifica, como da roda em que sempre vivera.
Afastava-se em todo caso, ainda assim com os seus defeitos, do commum dos medicos ambulantes do sertão, typos que se encontram frequentemente naquellas paragens, eivados de todos os attributos da mais crassa ignorancia, mas rodeados de regalias completamente excepcionaes.
Por toda parte entra, com effeito, o doutor; penetra no interior das familias, verdadeiros gyneceos; tem o melhor lugar á mesa dos hospedes, a mais macia cama, é emfim, um personagem cahido do céu e junto ao qual acodem logo, de muita leguas em torno, não já enfermos, mas fanatisados crentes, que durante largos annos se haviam medicado ou por conselhos de vizinhos ou por suas proprias inspirações e que na chegada desse Messias depositam todas as ardentes esperanças do almejado restabelecimento.
CAPITULO IV A CASA DO MINEIRO
Está a ceia na mesa. Torne o bom acolhimento desculpavel o mau passadio.
WALTER SCOTT.—Ivanhoe.
Quando assomaram os dous viajantes á entrada do terreiro que rodeava a vivenda de Pereira, correram-lhes ao encontro quatro ou cinco cães altos e magros, que aos pulos saudaram o dono da casa com uma cainçada de alegria.
Puzeram-se algumas gallinhas a girar atarantadas, ao passo que varios gallos, ja empoleirados na cumieira da morada, bradavam novidade e uns porcos e bacorinhos aqui e acolá se erguiam de entre palhas de milho e, estremunhados, olhavam para os recem-chegados com olhos pequenos e cheios do somno.
Do interior da habitação, não tardou a sahir uma preta idosa, mal vestida, trazendo atado á cabeça um panno branco de algodão, cujas pontas pendiam até ao meio das costas.
—Olá, Maria Conga, perguntou Pereira, que ha de novo por cá?
—A benção, meu senhor, pediu a escrava chegando-se com alguma lentidão.
—Deus te faça santa, respondeu o mineiro. Como vai a menina? Nocencia?
—Nhã está com sezão.
—Isto sei eu, rapariga de Christo; mas como passou ella de trasanthontem para cá?
—Todo o dia, vindo a hora, nhã bate o queixo, nhor-sim.
—Está bem... É que o mal ainda não abrandou... Daqui a pouco, veremos. E a janta?... Está prompta? Venho varado de fome. Que diz, sr. Cyrino? indagou, voltando-se para o companheiro.
—Não se me dava tambem de comer alguma cousa. Temos razão para...
—Pois então, interrompeu Pereira, ponha pé no chão e pise forte, que o terreno é nosso. Minha casa, já lh'o disse, é pobre, mas bastante farta e a ninguem fica fechada.
Deu logo o exemplo, e descavalgou do cavallinho zambro, o qual foi por si correndo em direcção a uma dependencia da casa com formas de tosca estrebaria.
Apeou-se igualmente Cyrino, mas, ao penetrar n'uma especie de alpendre de palha que ensombrava a frente toda, mostrou repentina e viva contrariedade no gesto e na physionomia.
—Ora, Sr. Pereira, exclamou elle batendo com o tacão da bota n'um sabugo de milho, só agora é que me lembro que as minhas cargas vão todas tomar caminho do Leal e aqui me deixam sem roupa, nem medicamentos. Que massada! Deviamos ter esperado na boca da sua picada.
Respondeu-lhe o mineiro todo desfeito em expansivo riso:
—Olé, pois o doutor é tão novato assim em viagens? Então pensa que lá não deixei aviso seguro á sua gente? Não se lembra de um ramo verde que puz bem no meio da estrada real?
—É verdade, confirmou Cyrino.
—E então? D'aqui a pouco a sua camaradagem está batendo o nosso rasto. Entremos, que a fome já vai apertando.
Consistia a morada de Pereira n'um casarão vasto e baixo, coberto de sapé, com uma porta larga entre duas janellas muito estreitas e mal abertas. Na parede da frente que, talvez com o peso da coberta, bojava sensivelmente fóra da vertical, grandes rachas longitudinaes mostravam a urgencia de sérias reparações em toda aquella obra feita de terra amassada e grandes páos a pique.
Ao oitão da direita existia encostado um grande paiol construido de troncos de palmeiras, por entre os quaes iam rolando as espigas de milho, com o continuo fossar dos porquinhos, que dalli não arredavam pé.
Corrido na frente de toda a vivenda, via-se um alpendre de palha de bority, sustentado por grossas taquaras, ligeiro appendice acrescentado por occasião de alguma passada festa, em que o numero de convidados ultrapassara os limites de abrigo da hospitaleira habitação.
Internamente era ella dividida em dous lanços: um, todo fechado, com excepção da porta por onde se entrava, e que constituia o commodo destinado aos hospedes: outro, á rectaguarda, pertencia, á familia, ficando portanto completamente vedado ás vistas dos estranhos e sem communicação interna com o compartimento da frente.
Era de barro compacto e socado o chão desta sala, vendo-se n'elle signaes de que ás vezes alli se acendia fogo: pelo que estavam o sapé do forro e o ripamento revestidos de luzidia e tenue camada, de picuman que lhes dava brilho singular como se tudo fôra jacarandá envernizado.
—Isto aqui, disse Pereira penetrando na sala e sentando-se n'uma tripeça de páo, não é meu, é de quem me procura. Poucos vêm cá de certo parar, mas emfim é sempre bom contar com elles... Minha gente mora na dependencia dos fundos.
E apontou para a parede fronteira á porta de entrada, fazendo um gesto para mostrar que a casa se estendia além.
—Sr. Pereira, disse Cyrino recostando-se a uma solida marqueza, não se incommode commigo de maneira alguma... Faça de conta que aqui não ha ninguem.
—Pois então, retorquio o mineiro, deite-se um pouco, emquanto vou lá dentro ver as novidades. A hora é mais de comer, que de cochilar; mas espere deitadinho e a gosto, o que é sempre mais commodo do que ficar de pé ou sentado.
Não desprezou o hospede o convite. Tirou o pala, puxou as botas e, cruzando-as, fez dos canos travesseiros, em que descansou a cabeça.
Quem se colloca em posição horizontal, depois de vencidas umas estiradas leguas, adormece com certeza. Depressa veio, pois, o somno cerrar as palpebras do recem-chegado a entumecer-lhe o peito com socegada respiração.
Dormiu talvez hora e meia, e mais houvera dormido, se não fosse acordado pelo tropel de animaes que paravam, e por grita de gente a pôr cargas em terra. Assomou Pereira á porta com ar jovial.
—Então que lhe disse eu?
—De facto; estou agora socegado.
—E o Sr. tomou uma boa data[31] de somno.
—Quem sabe[32] uma hora?
—Boa duvida, se não mais. Fiquei todo esse tempo ao lado de Nocencia, que de frio batia o queixo, como se estivesse agora em Ouro-Preto, quando cahe geada na rua.
—Então não vae melhor?
—Qual!... Depois que o Sr. tiver comido, ha-de ir vel-a. Está, pobresinha, tão desfeita que parece doente de uns tres mezes atraz.
—Felizmente, observou Cyrino com alguma enfatuação, aqui estou eu para pôl-a de pé em pouco tempo.
—Deus o ouça, disse Pereira com verdadeira uncção.
—Patricios! Ó gente! gritou elle em seguida para os dois camaradas chegados de pouco, vão mecês sentar naquelle rancho, alli. Perto ha boa agua, e lenha é o que não falta: basta estender o braço. Olhem dêm ração de fartar aos animaes. Aproveitem o milho, emquanto ha: é a sustancia desses bichos. Aqui, vendo-o baratinho. Um atilho[33] por um cobre[34] e não são espigas chochas, nem de grão soboró[35]. Eh! lá! Maria Conga, vamos com isso!... janta a mesa!...
Foram o chamado e as indicações de Pereira cumpridas sem demora.
Appareceu a velha escrava, que estendeu em larga e mal aplainada mesa uma toalha de algodão, grosseira mas muito alva, sobre a qual derramou duas boas cuias de farinha de milho: depois, emborcou um prato fundo de louça azul, e ao lado collocou uma colher e um garfo de metal.
—Sente-se, doutor, disse Pereira para Cyrino, agora não manduco com mecê, porque já petisquei lá dentro. Desculpe se não achar a comida do seu agrado.
Vinha nesse momento entrando Maria Conga com dois pratos bem cheios e fumegantes, um de feijão cavallo, outro de arroz.
—E as hervas? peguntou Pereira. Não ha?
—Nhôr-sim. Eu trago já, respondeu a preta que com effeito voltou d'ahi a pouco.
Tornou o mineiro a desculpar-se da insufficiencia e mau preparo da comida.
—Não lhe dou hoje lombo de porco; mas o promettido não cae em esquecimento, isto lhe posso assegurar.
—Estou muito contente com o que ha, protestou com sinceridade Cyrino.
E, de facto, pelo modo porque começou a comer, repetindo animadas vezes dos pratos, deu evidentes mostras de que falava inteira verdade.
—Maria, disse Pereira para a escrava que se fora collocar a alguma distancia da mesa com os braços cruzados, traz agora mel[36] e café com doce[37].
—Ah! exclamou Cyrino com patente satisfacção estirando os braços, fiquei que nem um ovo. O feijão estava de patente. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo, que me deu este bom agasalho.
—Amen! respondeu Pereira.
—Agora, amigo meu, disse o moço depois de pequena pausa, estou ás suas ordens; podemos ver a sua doentinha e aproveitar a parada da febre para mim[38] atalhal-a de prompto. Em taes casos, não gosto de adiamentos.
Cobriu-se o rosto do mineiro de ligeira sombra: franziram-se lhe os sobrolhos, e vaga inquietação lhe pairou na fronte.
—Mais tarde, disse elle com precipitação.
—Nada, meu senhor, retrucou Cyrino, quanto mais cedo, melhor. É o que lhe digo.
—Mas, que pressa tem mecê? perguntou Pereira com certa desconfiança.
—Eu? respondeu o outro sem perceber a intenção, nenhuma. É mesmo para bem da moça.
Acenderam-se os olhos de Pereira de repentino brilho.
—E como sabe que minha filha é moça? exclamou com vivacidade.
—Pois não foi o senhor mesmo quem mo disse na prosa do caminho?
—Ah! ... é verdade. Ella ainda não é moça... Quatorze, quinze annos, quando muito... Quinze annos e meio... Uma creança, coitadinha!...
—Emfim, replicou o outro, seja como fôr. Quando o Sr. quizer, venha procurar-me. Emquanto espero, remexerei nas minhas malas e tirarei alguns remedios para tel-os mais á mão.
—Muito que bem, aprovou Pereira, bote os seus trens[39] naquelle canto e fique descansado: ninguem bulirá nelles... Quanto a minha filha ... eu ja venho ... dou um pulo lá dentro, e ... depois conversaremos.
CAPITULO V AVISO PREVIO
Onde ha mulheres, ahi se congregam todos os males a um tempo.
MENANDRO.
Nunca é bom que um homem sensato eduque seus filhos de modo a desenvolver-lhes de mais o espirito.
EURIPIDES.—Medéa.
Filhos, sois para os homens o encanto da alma.
MENANDRO.
Estava Cyrino fazendo o inventario da sua roupa e já começava a anoitecer, quando Pereira novamente a elle se chegou.
—Doutor, disse o mineiro, pode agora mecê entrar para ver a pequena. Está com o pulso que nem um fio, mas não tem febre de qualidade nenhuma.
—Assim é bem melhor[40], respondeu Cyrino.
E, arranjando precipitadamente o que havia tirado da canastra, fechou-a e pôz-se de pé.
Antes de sahir da sala, deteve Pereira o hospede com ar de quem precisava tocar em assumpto de gravidade e ao mesmo tempo de difficil explicação.
Afinal começou meio hesitante:
—Sr. Cyrino, eu cá sou homem muito bom de genio, muito amigo de todos, muito accommodado e que tenho o coração perto da boca, como vosmecê deve ter visto.
—Por certo, concordou o outro.
—Pois bem, mas ... tenho um grande defeito; sou muito desconfiado. Vae o doutor entrar no interior da minha casa e ... deve portar-se como...
—Oh, Sr. Pereira! atalhou Cyrino com animação, mas sem grande estranheza, pois conhecia o zelo com que os homens do sertão guardam da vista dos profanos os seus aposentos domesticos, posso gabar-me de ter sido recebido no seio de muita familia honesta e sei proceder como devo.
Expandiu-se um tanto o rosto do mineiro.
—Vejo, disse elle com algum acanhamento, que o doutor não é nenhum pé rapado, mas nunca é bom facilitar... E já que não ha outro remedio, vou dizer-lhe todos os meus segredos... Não mettem vergonha a ninguem, com o favor de Deus; mas em negocios da minha casa não gosto de bater lingua... Minha filha Nocencia fez 18 annos pelo Natal, e é rapariga que pela feição parece moça de cidade, muito ariscasinha de modos, mas bonita e boa deveras... Coitada, foi creada sem mãe, e aqui nestes fundões[41]. Tenho outro filho, este, um latagão, barbado e grosso[42] que está trabalhando agora em porcadas para as bandas do Rio.
—Ora muito que bem, continuou Pereira caindo aos poucos na habitual garrulice, quando vi a menina tomar corpo, tratei logo de casal-a.
—Ah! é casada! perguntou Cyrino.
—Isso é, é e não é. A coisa está apalavrada. Por aqui costuma labutar no costeio do gado para S. Paulo um homem de mão cheia, que talvez o Sr. conheça ... o Manecão Dóca...
—Não, respondeu Cyrino abanando a cabeça.
—Pois isso é um homem ás direitas, desempenado e trabucador[43] como elle só ... fura estes sertões todos e vem tangendo[44] pontas de gado que mettem pasmo. Tambem dizem que tem bichado[45] muito e ajuntado cobre grosso, o que é possivel, porque não é gastador nem dado a mulheres. Uma feita que estava aqui de pousada ... olhe, mesmo neste logar onde estava mecê inda agorinha, falei-lhe em casamento ... isto é, dei-lhe uns toques ... porque os paes devem tomar isso a si para bem de suas familias[46]; não acha?
—Boa duvida, approvou Cyrino, dou-lhe toda a razão; era do seu dever.
—Pois bem, o Manecão ficou ansim meio em duvida; mas quando lhe mostrei a pequena, foi outra cantiga... Ah! tambem é uma menina!...
E Pereira, esquecido das primeiras prevenções, deu um muchôcho expressivo, apoiando a palma da mão aberta de encontro aos grossos labios.
—Agora, está ella um tanto desfeita; mas, quando tem saúde é coradinha que nem mangaba do arêal. Tem cabellos compridos e finos como sêda de paina, um nariz mimoso e uns olhos matadores...
—Nem parece filha de quem é...
A gabos imprudentes era levado Pereira pelo amor paterno.
Foi o que repentinamente pensou lá comsigo, de modo que, reprimindo-se, disse com hesitação manifesta:
—Esta obrigação de casar as mulheres é o diabo!... Se não tomam estado, ficam jururús e fanadinhas...; se casam podem cair nas mãos de algum marido malvado... E depois, as historias!... Hi, meu Deus, mulheres numa casa, é coisa de metter medo... São redomas de vidro que tudo pode quebrar... Emfim, minha filha, emquanto solteira, honrou o nome de meus paes... O Manecão que se aguente, quando a tiver por sua... Com gente de sáia não ha que fiar... Cruz! botam familias inteiras a perder, emquanto o demo esfrega um olho.
Esta opinião injuriosa sobre as mulheres é, em geral, corrente nos nossos sertões e traz como consequencia immediata e pratica, além da rigorosa clausura em que são mantidas, não só o casamento convencionado entre parentes muito chegados para filhos de menor edade, mas sobretudo os numerosos crimes commettidos, mal se suspeita possibilidade de qualquer intriga, amorosa entre pessoa da familia e algum estranho.
Desenvolveu Pereira todas aquellas idéas e applaudiu a prudencia de tão preventivas medidas.
—Eu repito, disse elle com calor, isto de mulheres, não ha que fiar. Bem faziam os nossos do tempo antigo. As raparigas andavam direitinhas que nem um fuso... Uma piscadella de olho mais duvidosa, era logo páu... Contaram-me que hoje lá nas cidades ... arrenego! ... não ha menina, por pobresinha que seja, que não saiba ler livros de letra de forma e garatujar no papel ... que deixe de ir a fonçonatas com vestidos abertos na frente como raparigas fadistas e que saracoteiam em dansas e falam alto e mostram os dentes por dá cá aquella palha com qualquer tafulão malcreado ... pois pelintras e beldroegas não faltam... Cruz!... Assim, tambem é demais; não acha? Cá no meu modo de pensar, entendo que não se maltratem as coitadinhas, mas tambem é preciso não dar azas ás formigas... Quando ellas ficam taludas, atamanca-se uma festança para casal-as com um rapaz decente ou algum primo, e acabou-se a historia...
—Depois, acrescentou elle abrindo expressivamente com o pollegar a palpebra inferior dos olhos, cautela e faca afiada para algum meliante que se faça de[47] tolo e venha engraçar-se fóra de villa e termo... Minha filha...
Pereira mudou completamente de tom:
—Pobresinha... Por esta não ha-de vir o mal ao mundo ... é uma pombinha do céu ... Tão boa, tão carinhosa!... E feiticeira!! Não posso com ella ... só o pensar em que tenho de entregal-a nas mãos de um homem, bole commigo todo... É preciso, porém. Ha annos ... devia já ter cuidado nesse arranjo, mas ... não sei ... cada vez que pensava nisso ... caia-me a alma aos pés ... Tambem é menina que não foi creada como as mais... Ah! Sr. Cyrino, isto de filhos, são pedaços do coração que a gente arranca do corpo e bota a andar por esse mundo de Christo.
Humedeceram-se ligeiramente os cilios do bom pae.
—O meu mais velho para, Deus sabe onde.... Se eu morresse neste instante, ficava a pequena ao desamparo... Tambem, era preciso acabar com esta incerteza... Além disso, o Manecão prometteu-me deixal-a aqui em casa, e deste modo fica tudo arranjado ... isto é remediado, filha casada é traste que não pertence mais a pae.
Houve uns instantes de silencio.
—Agora, proseguiu Pereira com certo vexame, que eu tudo lhe disse, peço-lhe uma coisa: veja só a doente e não olhe para Nocencia ... falei assim a mecê, porque era de minha obrigação... Homem nenhum, sem ser muito chegado a este seu creado, pisou nunca no quarto de minha filha... Eu lhe juro... Só em casos destes de extrema percisão...
—Sr. Pereira, replicou Cyrino com calma, já lhe disse e torno-lhe a dizer que, como medico, estou ha muito tempo acostumado a lidar com familias e a respeital-as. É este meu dever, e até hoje, graças a Deus, a minha fama é boa... Quanto ás mulheres, não tenho as suas opiniões, nem as acho razoaveis nem de justiça. Entretanto, é inutil discutirmos, porque sei que isso são prevenções vindo de longe, e quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita.... O Sr. falou-me com toda a franqueza, e tambem com franqueza, lhe quero responder. No meu parecer, as mulheres são tão boas como nós, senão melhores: não ha pois motivo para tanto desconfiar dellas e ter os homens em tão boa conta... Emfim, essas suas idéas podem quadrar-lhe á vontade, e é costume meu antigo a ninguem contrariar, para viver bem com todos e delles merecer o tratamento que julgo ter direito a receber. Cuide cada qual de si, olhe Deus para todos nós, e ninguem queira arvorar-se em palmatoria do mundo.
Tal profissão de fé, expedida em tom dogmatico e superior, pareceu impressionar agradavelmente a Pereira, que fôra applaudindo com expressivo movimento de cabeça a sensatez dos conceitos e a fluencia da phrase.
CAPITULO VI INNOCENCIA
Nesta donzella é que se acham juntas a minha vida e a minha morte.
HENOCH.—O livro da amizade.
Jamais vira cousa tão perfeita como o seu rosto pallido, os seus olhos franjados de sedosos cilios muito espessos e o seu ar meigo e doentio.
GEORGE SAND.—Os mestres gaiteiros.
Tudo, em Fenella, realçava a idéa de uma miniatura. Alem do mais, havia em sua physionomia e, sobretuto no olhar, extraordinaria promptidão, fogo e atilamento.
WALTER SCOTT.—Peveril do Pico.
Depois das explicações dadas ao seu hospede, sentiu-se o mineiro mais despreoccupado.
—Então, disse elle, se quizer, vamos já ver a nossa doentinha.
—Com muito gosto, concordou Cyrino.
E, sahindo da sala, acompanhou Pereira, que o fez passar por duas cêrcas e rodear a casa toda, antes de tomar a porta do fundo, fronteira a um magnifico laranjal, naquella occasião todo pontuado das brancas e olorosas flores.
—Neste lugar, disse o mineiro apontando para o pomar, todos os dias se juntam tamanhos bandos de graúnas[48], que é um barulho dos meus peccados. Nocencia gosta muito disso e vem sempre coser debaixo do arvoredo. É uma menina exquesita...
Parando no limiar da porta, continuou com expansão:
—Nem o senhor imagina ... ás vezes, aquella criança tem lembranças e perguntas que me fazem embatucar ... Aqui, havia um livro de horas da minha defunta avó.
... Pois não é que um bello dia ella me pediu que lhe ensinasse a ler?... Que idéa!
... Ainda ha pouco tempo me disse que quizera ter nascido princeza... Eu lhe retruquei: E sabe você o que é ser princeza? Sei me secundou[49] ella com toda a clareza, é uma moça muito boa, muito bonita, que tem uma coroa de diamantes na cabeça, muitos lavrados[50] no pescoço e que manda nos homens... Fiquei meio tonto. E se o senhor visse os modos que tem com os bichinhos?!... Parece que está falando com elles e que os entende... Uma bicharia[51], em chegando ao pé de Nocencia, fica mansa que nem ovelhinha parida de fresco... Se fosse agora a contar-lhe historias dessa rapariga, seria um não acabar nunca... Entremos, que é melhor...
Quando Cyrino penetrou no quarto da filha do mineiro, era quasi noite, de maneira que, no primeiro olhar que atirou ao redor de si, só pôde lobrigar, alem de diversos trastes de formas antiquadas, uma dessas camas, muito em uso no interior; altas e largas, feitas de tiras de couro engradadas. Estava encostada a um canto, e nella havia uma pessoa deitada.
Mandara Pereira accender uma vela de sebo. Vinda a luz, aproximaram-se ambos do leito da enferma que, achegando ao corpo e puxando para debaixo do queixo uma coberta de algodão de Minas, se encolheu toda, e se voltou para os que entravam.

Está aqui o doutor, disse-lhe Pereira
—Está aqui o doutor, disse-lhe Pereira, que vem curar-te de vez.
—Boas noites, dona, saudou Cyrino.
Timida voz murmurou uma resposta, ao passo que o joven, no seu papel do medico, se sentava n'um escabello junto á cama e tomava o pulso á doente.
Caía então a luz de chapa sobre ella, illuminando-lhe o rosto, parte do collo e da cabeça, coberta por um lenço vermelho atado por traz da nuca.
Apezar de bastante descorada e um tanto magra, era Innocencia de belleza deslumbrante.
Do seu rosto irradiava singela expressão de encantadora ingenuidade, realçada pela meiguice do olhar sereno que a custo, parecia coar por entre os cilios sedosos a franjar-lhe as palpebras, e compridos a ponto de projectarem sombras nas mimosas faces.
Era o nariz fino, um bocadinho arqueado; a bocca pequena, e o queixo admiravelmente torneado.
Ao erguer a cabeça para tirar o braço de sob o lençol, descera um nada a camisinha de crivo que vestia, deixando nú um collo de fascinadora alvura, em que resaltava um ou outro signal de nascença.
Razões de sobra tinha, pois o pretenso facultativo para sentir a mão fria e um tanto incerta, e não poder atinar com o pulso de tão gentil cliente.
—Então? perguntou o pae.
—Febre nenhuma, respondeu Cyrino, cujos olhos fitavam com mal disfarçada surpresa as feições de Innocencia.
—E que temos que fazer?
—Dar-lhe hoje mesmo um suador de folhas de laranjeira da terra a ver se transpira bastante e, quando for meia noite, acordar-me para vir administrar uma boa dóse de sulfato.
Levantára a doente os olhos e os cravara em Cyrino, para seguir com attenção as prescripções que lhe deviam restituir a saúde.
—Não tem fome nenhuma, observou o pae; ha quasi tres dias que só vive de beberagens. É uma ardencia continua; isto até nem parecem maleitas.
—Tanto melhor, replicou o moço; amanhã verá que a febre lhe sáe do corpo, e daqui a uma semana sua filha está de pé com certeza. Sou eu que lh'o afianço.
—Fale o doutor pela boca de um anjo, disse Pereira com alegria.
—Hão-de as côres voltar logo, continuou Cyrino.
Ligeiramente enrubeceu Innocencia e descançou a cabeça no travesseiro.
—Porque amarrou esse lenço? perguntou em seguida o moço.
—Por nada, respondeu ella com acanhamento.
—Sente dor de cabeça?
—Nhôr-não.
—Tire-o pois: convém não chamar o sangue; solte, pelo contrario, os cabellos.
Pereira obedeceu e descobriu uma espessa cabelleira, negra como o amago da cabiúna e que em liberdade devia cair até abaixo da cintura. Estava enrolado em bastas tranças, que davam duas voltas inteiras ao redor do cocoruto.
—É preciso, continuou Cyrino, ter de dia o quarto arejado e pôr a cama na linha do nascente ao poente.
—Amanhã de manhãsinha hei-de viral-a disse o mineiro.
—Bom, por hoje então, ou melhor, agora mesmo, o suador. Fechem tudo, e que a dona sue bem. Á meia noite, mais ou menos, virei aqui dar-lhe a mézinha. Socegue o seu espirito e reze duas Ave-Maria para que a quina faça logo effeito.
—Nhôr-sim, balbuciou a enferma.
—Não lhe dóe a luz nos olhos? perguntou Cyrino, achegando-lhe um momento a vela ao rosto.
—Pouco ... um nadinha.
—Isso é bom signal. Creio que não hade ser nada.
E levantando-se, despediu-se:
—Até logo, sinhá-moça.
Depois do que, convidou Pereira a sahir.
Este acenou para alguem que estava num canto do quarto e na sombra.
—Ó Tico, disse elle, venha cá...
Levantou-se, a este chamado, um anão muito entanguido, embora perfeitamente proporcionado em todos os seus membros. Tinha o rosto sulcado de rugas, como se já fôra entrado em annos; mas os olhinhos vivos e a negrejante guedelha mostravam edade pouco adeantada. Suas perninhas um tanto arqueadas terminavam em pés largos e chatos que, sem grave desarranjo na conformação, poderiam pertencer a qualquer palmipede.
Trajava comprida blusa parda sobre calças que, por haverem pertencido a quem quer que fosse muito mais alto, formavam em baixo volumosa rodilha, apezar de estarem dobradas. Á cabeça, trazia um chapéu de palha de carandá[52] sem cópa, de maneira que a melena lhe apparecia toda arrepiada e erguida em torcidas e emmaranhadas grenhas.
—Oh! exclamou Cyrino ao ver entrar no circulo de luz tão estranha figura, isto devéras é um tic[53] de gente.
—Não anarchise[54] o meu Tonico, protestou sorrindo-se Pereira. Elle é pequeno ... mas bom. Não é meu nanico?
O homunculo riu-se, ou melhor, fez uma careta mostrando dentinhos alvos e agudos, ao passo que deitava para Cyrino olhar inquisidor e altivo.
—O Snr. vê, doutor, continuou Pereira esta creaturinha de Christo ouve perfeitamente tudo quanto se lhe diz e logo comprehende. Não póde falar ... isto é, sempre póde dizer uma palavra ou outra, mas muito a custo e quasi a estourar de raiva e de canseira. Quando se mette a querer explicar qualquer coisa, é um barulho dos seiscentos, uma gritaria dos meus peccados, onde apparece uma voz aqui, outra acolá, mais christãsinhas no meio da barafunda.
—É que não lhe cortaram a lingua, observou Cyrino.
—Não tinha nada que cortar, replicou Pereira. De nascença é o defeito e não póde ser remediado. Mas isto é um diabrete, que cruza este sertão de cabo a rabo, a todas horas do dia e da noite. Não é verdade, Tico?
O anão abanou a cabeça, olhando com orgulho para Cyrino.
—Mas é filho aqui da casa? perguntou este.
—Nhôr-não; tem mãe à beira do rio Sucuriú daqui a 40 leguas, e envereda de lá para cá n'um instante, vindo a pousar pelas casas que todas o recebem com gosto, porque é bichinho que não faz mal a ninguem. Aqui fica duas, tres e mais semanas e depois dispara como um matteiro[55] para a casa da mãe. É uma especie de cachorro de Nocencia. Não é, Tico?
Fez o mudo signal que sim e apontou com ar risonho para o lado da moça.
Pereira, depois de todas aquellas explicações que o anão parecia ouvir com satisfacção, disse voltando-se para este, ou melhor abaixando-se em cima da sua cabeça:
—Agora, meu filho, vae ao curral grande e apanha para mim[56] um mãosada[57] de folhas de laranjeira da terra ... daquelle pé grande que encosta na tronqueira.
Mostrou o homunculo com expressivo gesto que entendera e saiu correndo.
Ia Cyrino deixar o quarto, não sem ter olhado com demora para o lugar onde estava deitada a enferma, quando Pereira o chamou:
—Ó doutor, Nocencia quer beber uma pouca de agua... Fará mal?
—Aqui não ha limões doces? indagou o moço.
—É um nunca acabar ... e dos melhores.
—Pois, então, faça sua filha chupar uns gomos.
Pereira, depois de ter paternalmente arranjado e disposto os cobertores ao redor do corpo da menina, acompanhou Cyrino que, parado á porta de saida, estava mirando as primeiras estrellas da noite.
—Vosmecê achou, doutor, perguntou o mineiro com voz um tanto tremula, algum perigo no que tem aquelle anjinho?
—Não, absolutamente não, respondeu Cyrino. Verá o senhor que, daqui a tres dias, sua filha não tem mais nada.
—Malditas febres!... Quando não derrubam um christão, o amofinam annos inteiros... Eu não quizera que minha filha ficasse esbranquiçada, nem feia... As moças quando não são bonitas, é que estão doentes... Ah! mas ia me esquecendo dos limões doces... Que cabeça!...
Adeantou-se Pereira no terreiro e, pondo as mãos junto á bocca, chamou com voz forte:
—Ó Tico!
Prolongado grito respondeu-lhe a certa distancia.
O mineiro pôz-se a assobiar com modulações á maneira dos indios.
Houve uns momentos de silencio; depois veiu correndo o anão e, chegando-se para perto, mostrou por signaes que não ouvira bem o recado.
—Uns limões doces, já!... Nocencia está com sêde...
Disparou o pequeno como uma setta, sumindo-se logo na densa escuridão que já se espessara entre as arvores do pomar.
CAPITULO VII O NATURALISTA
A minha philosophia toda resume-se em oppôr a paciencia ás mil e uma contrariedades de que a vida está inçada.
HOFFMANN.—O reflexo perdido.
Serena e quasi luminosa corria a noite. No puro campo do céu, scintillava com iriante brilho um semnumero de estrellas, projectando na larga fita da estrada do sertão, mysteriosa e dubia claridade.
Pelo caminhar dos astros havia de ser quasi meia noite; e entretanto a essa hora morta, em que só vagueiam á busca de pasto os animaes bravios do deserto, vinham a passo lento, pelo caminho real, dois homens, um a pé, outro montado n'uma besta magra e já meio estafada.
Mostrava o pedestre ser, como de feito era, um simples camarada, e vinha com grossa e comprida vara na mão tangendo deante de si lerdo e orelhudo burro, sobre cujo lombo se erguia elevada carga de canastras e malinhas, cobertas por um grande ligal.
Quem estava montado e cavalgava todo encurvado sobre o sellim com as pernas muito estiradas e abertas, parecia entregue a profunda cogitação. Devia ser homem bastante alto e esguio e, como o observamos, apezar da hora adiantada da noite, com olhos de romancista, diremos desde já que tinha rosto redondo, juvenil, olhos gazeos, esbugalhados, nariz pequeno e arrebitado, barbas compridas, escorrido bigode e cabellos muito louros. O seu trajo era o commum em viagem: grandes botas, paletot de alpaca em extremo folgado, e chapéo do Chile desabado. Trazia entretanto, a tiracollo umas quatro ou cinco caixinhas de lunetas ou quaesquer outros instrumentos especiaes, e na mão segurava um páu fino e roliço, preso a uma saccóla de fina gaze côr de rosa.
Homem de meia edade, de physionomia vulgar e balorda era o camarada e, pelos modos e impaciencia com que fustigava o animal de carga, indicava não estar afeito ao genero de vida que exercia.
Em silencio e na ordem indicada, caminhava a tropinha: o burro carregado na frente, logo atraz o inhabil recoveiro; em seguida fechando a marcha, o viajante encarapitado na magra cavalgadura.
Houve momento em que, depois de algumas pauladas de incitamento, pareceu querer o cargueiro protestar contra o tratamento que tão fóra de hora recebia e, fincando os pés na areia, resolutamente parou.
Provocou a reluctancia, porém, uma chuva de verdadeiras cacetadas que echoaram longe e se confundiam com os brados e pragas do camarada.
—Burro do diabo! berrava elle. Mil raios te partam, bicho damnado! Arrebenta de uma vez!... Vá para os infernos! Entrega a carcassa aos urubús.
Durante uns bons minutos, o cavalleiro, que fizera parar o seu animal, esperou pacientemente qualquer resultado: ou que a renitente azemola se désse afinal por convencida e avançasse ou então estourasse.
—Júque, disse elle de repente com accento fortemente guttural e que denunciava a origem teutonica, se porretada chove assim no seu lombo, vóce gosta?
O homem a quem haviam dado o nome de Juca, voltou-se com arrebatamento:
—Ora, Mochú, isto é um perverso sem vergonha, que deve morrer debaixo do páu. Esta vida não me serve!...
—Mas, Júque, replicou o allemão com inalteravel calma, quem sabe se a cangalha não está ferindo a pobre creatura?
—Qual! bradou o camarada, isto é manha só. Conheço este safado, este infamo, este...
E, levantando o varapáu, descarregou tal paulada no trazeiro do animal que lhe fez soltar surdo gemido de dor.
—Júque, observou o patrão em tom pausado, quem sabe se na frente ha páu cahido ou pedra, que não deixa elle ir para deante?
—Pedra, Mochú, o páu na cabeça até rachal-a, é que precisa este ladrão...
—Vê, Júque, insistiu o allemão.
—Ora, Mochú...
—Vê, sempre...
Saiu resmungando o camarada de detrás do burrego e deu a volta.
Na frente avistou logo o ramo quebrado que Pereira deixara cair no meio da estrada para desviar os acompanhadores de Cyrino.
—Ué! Ué! exclamou com muita surpreza, aqui esteve alguem e pôz este signal para que não se passasse...
—Eu não disse a vóce, replicou o cavalleiro com voz até certo ponto triumphante. Asno tem razão: para deante ha alguma cousa.
—Mas na villa, contestou José, nos disseram que o caminho vae sempre direitinho sem atrapalhação nenhuma...
—Na villa disseram isso, confirmou o outro.
—E então?
—E então? repetiu o allemão.
Houve uns segundos de silencio.
Depois o cavalleiro accrescentou com a mesma imperturbavel serenidade, e como que achando explicação muitissimo natural:
—Na villa muita gente não sabe caminho. É...
—Mil milhões de diabos, interrompeu o camarada todo frenetico, levem o gosto de andar por esses mattos do inferno a horas tão perdidas! Eu bem disse a Mochú, ninguem viaja assim. Isto é uma calamidade...
—Júque, atalhou por seu turno o patrão, o que é que adeanta estar a berrar como um damnado?... Olhe, antes, se por ahi vóce não vê algum caminho do lado.
Obedeceu o outro e sem difficuldade achou a entrada da picada que levava á morada de Pereira.
—Está aqui, Mochú, está aqui! annunciou elle com alegria. É um trilho que corta a estrada e vae dar nalguma casa pertinho...
Mudando repentinamente de tom, observou com voz tristonha;
—Comtanto que até lá não haja alguma legua de beiço...
—Ah! eu não lhe disse, respondeu o allemão. Agora toque burro devagarinho; elle anda que nem vento.
Pareceu o animal comprehender o alcance moral da victoria que acabara de colher e prestes enveredou pela trilha com alento novo e até desusada celeridade.
A razão é que tambem dahi a pouco sorvia elle, teimoso e marralheiro bicho como soem ser os da sua especie, a bella agua do ribeirão, em que se haviam refrescado as cavalgaduras de Cyrino e de Pereira.
CAPITULO VIII OS HOSPEDES DA MEIA NOITE
Sei, sim, sei que é noite!
XAVIER DE MAISTRE.—Viagem ao redor do meu quarto.
Não tardou muito que os dois nocturnos viajantes começassem a ouvir os latidos furiosos dos cães que no terreiro de Pereira denunciavam approximação de gente suspeita junto á casa entregue á sua vigilante guarda.
—Por aqui perto fica algum rancho, Mochú, avisou o camarada; havemos emfim de descansar hoje... Mas, que gritaria faz a cachorrada!... São capazes de nos engulir antes que venha alguem saber se somos christãos ou não... Safa! Que canzoada!... Ó Mochú, o Sr. deve ir na frente ... rompendo a marcha...
—Vóce, respondeu o allemão, bate nelles com cacete...
—Nada, retrucou José com energia, isso não é do ajuste... Quem está montado, caminhe adiante... Ainda por cima agora essa!
Depois de resmonear algum tempo, exclamou:
—Ah! espero já me lembrei do uma coisa... O filho do velho é mitrado...
E, dizendo esta palavra, de um só pulo montou na anca do cargueiro, que, ao sentir aquelle inesperado accrescimo de peso, parou por instantes e com surdo ronco procurou lavrar um protesto.
—Júque, observou o allemão sem a menor alteração na voz, assim burro quebra cadeira. Depois morre ... o vóce tem de levar as cargas delle ás costas...
Quiz o camarada encetar nova discussão, mas a a esse tempo chegavam ao terreiro, onde o ataque furioso dos cães justificou a medida preventiva de José, o qual entrou, todo encolhido atraz das cargas, a gritar como um possesso:
—Ó de casa! Eh! lá, gentes! Ó amigos!
Augmentou a algazarra da cachorrada por tal modo, que os tropeiros de Cyrino, pousados no rancho proximo, acordaram e bradaram juntos:
—Que diabo é isto? Temos matinada de lobishomens?
—Abriu-se nesse momento a porta da casa e appareceu Cyrino na frente do Pereira, trazendo este uma vela que com a mão aberta amparava da briza nocturna.
—Quem vem lá? clamaram os dois a um tempo.
—Camarada o viajante, respondeu com voz forte e sympathica o allemão, achegando-se á luz e tratando de descer da cavalgadura. Quem é o dono desta casa?
—Está aqui elle, respondeu Pereira levantando a vela acima da cabeça para dar mais claridade em torno de si.
—Muito bem, replicou o recem-chegado. Desejo agasalho para mim e para o meu creado e peço muitas desculpas por chegar tão tarde.
Aproximara-se tambem o José, cuidando logo, no meio de muchôchos e pragas, de pôr em terra a carga do burrinho, o qual amarrara pelo cabresto a uma vara fincada no chão.
—Mas, observou Cyrino, que faz o Sr. por estas horas mortas a viajar?...
—Deixe o homem entrar, atalhou Pereira, e acommodar-se com o que achar... Pois, meu senhor, desapeie. Bem vindo seja quem procura tecto que é meu.
—Obrigado, obrigado, exclamou com effusão o estrangeiro.
E, apresentando a larga mão, apertou com tal força as de Cyrino e Pereira que lhes fez estalar os dedos.
Em seguida, penetrou na sala e tratou logo de arranjar os objectos que trazia a tiracollo, collocando-os cuidadosa e methodicamente em cima da mesa, no meio dos olhares de espanto trocados por quantos o estavam rodeando.
Na verdade, digna de reparo era aquella figura á luz da bruxoleante vela de sebo; compridas pernas, corpo pequeno, braços muito longos e cabellos quasi brancos, de tão louros que eram.
—Será algum bruxo? perguntou a meia voz Cyrino a Pereira.
—Qual! respondeu o mineiro com sinceridade, um homem tão bonito, tão bem limpo[58]!
Entrára José com uma canastra ao hombro e, descarregando-a no canto menos escuro do quarto, julgou dever, sem mais demora, declinar a qualidade e importancia da pessoa que lhe servia de amo.
—O Sr. aqui é doutor, disse elle apontando para o allemão e dirigindo-se para Cyrino...
—Doutor?! exclamou este com despeito.
—Sim, mas doutor que não cura doenças. É allamão, lá da estranja, e vem desde a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro caçando anicetos e picando barboletas...
—Barboletas? interrompeu com admiração Pereira.
—Acui cui![59] Por todo o caminho vem apanhando bichinhos. Olhem ... aquelle sacco que elle traz...
—O meu camarada, avisou com toda a tranquillidade e pausa o naturalista, é muito falador. Os senhores tenham paciencia... Ande, Júque, deixe de tagarellar!...
—Não, protestou Pereira levado de curiosidade, é bom saber com quem se lida... Então o Sr. vem matando anicetos? Mas para que, Virgem Santissima!...
—Para que? retrucou o camarada descansando as mãos na cintura. O patrão e eu já temos mandado mais de dez caixões todos cheinhos lá para as terras delle...
—Depois o paiz fica sem borboletas, respondeu Cyrino num assomo de despeitado patriotismo.
—Mas, como é que o Sr. se chama? perguntou Pereira, voltando-se para o allemão que estava virado para a parede a contemplar um desses grandes e sombrios lepidopteros, da especie dos esphinges.
—Júque, disse elle sem lhe importar a interpellação e acenando para o camarada, depressa ... um alfinete, dos grandes ... dos maiores...
—Temos historia, avisou José, fazendo expressivo signal a Cyrino, o Sr. vae ver...
O naturalista, de posse de um comprido aculeo, fincou-o com segura e adestrada mão bem no meio do insecto, o qual começou a bater convulsamente as azas e girar em torno do centro a que estava preso.
—A pita! A pita! exclamou o patrão. Vamos, Júque.
—Satisfez José o pedido, depois de abrir uma malinha, onde já estavam enfileirados e espetados vinte ou trinta bonitos bichinhos.
—É uma saturnia ... e não commum, murmurou o allemão fisgando num pedaço de pita o novo especimen, sobre o qual derramou algumas gottas de chloroformio, de um vidrinho que sacou dum dos muitos bolsos da sobrecasaca.
—O Sr. é viajante zoologista, não é? perguntou Cyrino, depois que viu terminada a operação.
O interrogado levantou a cabeça com surpresa e respondeu todo risonho:
—Sim, senhor; sim, senhor! Como é que o Sr. o soube? Viajante naturalista, sim, senhor! Eu vejo que o Sr. é muito instruido... Muito bem, muito bem! Muita instrucção!
E, abrindo uma carteira de notas, escreveu logo umas linhas tortuosas.
—Ah! este tambem é doutor, disse Pereira com certo orgulho por hospedar em sua casa sabichão de tal quilate.
—Oh! doutor? doutor!? Muito bem, muito bem. Doutor que curra?
—Sim, senhor, respondeu com gravidade o proprio Cyrino.
—Ah! ... ah! muito bem.
Pereira, porém voltara à carga.
—Mas, como é que o Sr. se chama?
—Meyer, respondeu o allemão, para o servir.
—Maia?[60] perguntou o mineiro.
—Não, senhor, Meyer; sou da Saxonia, da Allemanha.
—Isto deve ser o mesmo que Maia na terra delle, observou Pereira, abaixando um pouco a voz.
O camarada José, no entretanto, trouxera para dentro todas as malas e canastras e sem cerimonia alguma intrometteu-se na conversação.
—Este Mochú, disse, vem de muito longe só por causa destas historias de barboletas, e com o negocio ganha côco grosso... Quanto a mim...
—Júque, atalhou Meyer com fleuma, vai bota os animaes no pasto.
—Não, disse Pereira, solte-os no terreiro até raiar o dia; roerão o que acharem; ha por ahi muito resto de milho nos sabugos...
—Pois é o que fiz, declarou o camarada; mas como lhes dizia, sou carioca do Rio de Janeiro, chamo-me José Pinho e venho de bem longe acompanhando este allamão, que é um homem muito de bem.
—É verdade? indagou Pereira, olhando para Meyer.
Este esbugalhou mais os olhos e confirmou tudo com um sim guttural que echoou em toda a sala.
—Elle o que tem, continuou José é que é muito teimoso. Eu lhe digo sempre: Mochú, isto de viajar de noite é uma tolice e uma canseira á tôa... Qual! pensa lá no seu bestunto que assim é melhor. Tambem a gente anda por estas estradas fóra como se fosse alma do outro mundo a penar ... algum currupira ... ou boitatá... Cruzes!
—Pois, Sr. Maia, disse Pereira, tome posse desta sala, e faça de conta que é sua... Se quizer uma rede...
—Muito obrigado, muito obrigado! ... minha cama é canastra. Não se incommode...
—Amanhã então conversaremos, concluiu Pereira esfregando as mãos de contente.
Promettia-lhe na verdade a companhia boas occasiões de dar largas á volubilidade, sobretudo com o tal José Pinho, filho da Côrte do Rio de Janeiro e, pelo que parecia, tagarella de grande força.
—Assim, pois, disse Pereira, durmam bem o restante da noite.
E abriu a porta para se retirar.
—Ui! exclamou elle olhando para o céu. Doutor, já passa muito da meia noite... Com a bréca, o Cruzeiro está virando de uma vez...
Cyrino, que tornara a deitar-se com presteza calçou as botas e tomou uns papeisinhos que de antemão preparara e puzera a um canto da mesa.
—Não faz mal, disse, já estou com tudo prompto e em tempo havemos de dar o remedio. Vá o Sr. deitar um pouco de café num pires e acorde sua filha, caso esteja dormindo, como é muito natural depois do suador.
Saiu então Pereira, levando a vela e, acompanhado de Cyrino, deu volta á casa para buscar a entrada dos aposentos interiores.
Ficaram pois o allemão e seu criado em completa escuridão; ambos, porém, já estirados a fio comprido, um em cima das canastras, tendo por travesseiro roliça maleta, outro sobre o ligal aberto e estendido no meio do aposento.
—Ó Mochú, perguntou José, que mastigava qualquer coisa, está já ferrado?
—Ferrado? replicou Meyer levantando a cabeça. Que é isto agora?
—Pergunto se já pegou no somno?
—Pois, Júque, se eu falo, como é que posso estar dormindo?
—Então não quer petiscar?
—Comer, não é?
—Está visto.
—Oh! se tivesse!... Pensava agora nisso...
—Pois eu estou manducando ... Quer um bocadinho?
—Que é que vóce me dá?
—Rapadura com farinha de milho...
Está deveras de patente!... Gostoso como tudo...
—Então, Júque, passe-me um pouco.
Levantou-se o offertante com toda a boa vontade e ás apalpadelas começou a procurar a cama do patrão, o que só conseguiu depois de ter esbarrado na mesa e numas cangalhas velhas atiradas a um canto da sala.
Afinal agarrou num dos pés do naturalista, a quem entregou uma nesga de rapadura e uns restos de farinha embrulhados em papel, pitança, mais que sóbria, que foi devorada com satisfacção pelo bom do Saxonio.
CAPITULO IX O MEDICAMENTO
Não tendes que labutar com doente muito grave, e eis o serviço que de vós espero...
HOFFMANN.—A porta entaipada.
Quem me poderá dizer porque me parece tão duro o leito?... Porque passei esta noite, que se me figurou tão longa, sem gozar um momento de socego?... Surge a verdade: em meu seio, penetraram as agudas settas do amor.
OVIDIO.—Elegia II.
Quando Cyrino entrou no quarto de Innocencia, já estava ella acordada. Sentara-se o pae á cabeceira da cama, a cujos pés se acocorara Tico o anão, sobre uma grande pelle de onça.
—Então, perguntou o medico tomando o pulso á mimosa doente, como se sente?
—Melhor respondeu ella.
—Suou bastante?
—Ensopei tres camisas.
—Muito bem... Agora a senhora está com a pelle fresquinha que mette gosto. Isto de sezões, não é nada, se a gente acode a tempo e o sangue não tem maus humores. Mas quando tomam conta do corpo, nem o demo com ellas pode. Que é do café? pediu elle em seguida a Pereira.
—Já vem já... Homem vou eu mesmo buscal-o, lá á cosinha. A Maria Conga está ficando uma verdadeira lesma. Venha para aqui e espere-me um nadinha.
Levantando-se então da cadeira, indicou-a a Cyrino, a quem fez sentar antes de sahir.
Ficou este, pois, ao lado da menina e, como sobre o lindo rosto batesse de chapa a luz collocada numa prateleira da parede, pôz-se a contemplal-a com enleio e vagar, ao passo que da sua parte o anão lhe deitava olhares inquietos e algo sombrios.
Pousara Innocencia a cabeça no travesseiro e, para occultar a perturbação de se ver tão de perto observada, fingia dormir. Pelo menos tinha as grandes palpebras cerradas e o rosto sereno; mas arfava-lhe apressado o peito e, de vez em quando, fugaz rubor lhe tingia as faces descoradas.
Pereira tardava; e Cyrino com os olhos fixos, a physionomia meditativa e um pouco de pallidez, que denunciava a intima commoção, não se fartava de admirar a belleza da gentil doente.
Uma vez, entreabriu os olhos e a medo atirou um olhar que se cruzou com o do mancebo, olhar rapido, instantaneo, mas que lhe repercutiu direito ao coração e lhe fez estremecer o corpo todo.
Sem saber porque, batia-lhe o queixo, e um arrepio de frio lhe circulava nas veias.
—Sente mais febre? perguntou Cyrino muito baixinho.
—Não sei, foi a resposta, e resposta demorada.
—Deixe-me ver o seu pulso.
E tomando-lhe a mão, apertou-a com ardor entre as suas, retendo-a, apezar dos ligeiros esforços que para a retrahir, empregou ella por vezes.
Nisto, entrou Pereira. Innocencia fechou com presteza os olhos e Cyrino voltou-se rapidamente, levando um dedo aos labios para recommendar silencio.
—Está dormindo, avisou com voz sumida.
—Ora, disse Pereira no mesmo tom, a tal Maria Conga deixou entornar a cafeteira, de maneiras que precisei fazer outra porção. Demorei muito?
—Não, respondeu Cyrino com toda a sinceridade.
—Mas agora, observou Pereira, é mister acordar a pequerrucha.
—Não ha outro remedio.
Chegou-se o pae á cama e, com todo o carinho, chamou: Nocencia! Nocencia!
E como não a visse despertar logo, sacudio-a com brandura até que ella abrisse uns olhos espantados.