VISCONDE DE TAUNAY (continued 2)
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—Apre! Que somno! disse o bondoso velho. Num instante que fui lá dentro?!... Vamos, são horas de tomar a mézinha.
Deitara Cyrino sulfato de quinina no café e diluia-o vagarosamente.
—Olhe, dona, aconselhou elle, beba de um só trago e chupe, logo depois, uns gomos de limão doce.
—Então é muito mau? choramigou a doente.
—É amargo; mas num gole mecê toma isto.
—Papae, recalcitrou a moça, não quero ... eu não quero.
—Ora, filhinha do meu coração, não se canhe[61]; é preciso... Amanhã ha-de você sentir-se boa; não é doutor?
—Com certeza, se tomar esta poção, assegurou Cyrino.
—Depois, quando eu ir lá á villa, hei-de trazer para você uma cousa bonita ... uns lavrados[62]. Ouviu?
—Nhôr-sim.
—Ande, Tico, accrescentou o mineiro voltando-se para o anão, vae depressa buscar limão doce; na cosinha ha um meio cascado[63].
—Tome, dona, implorou por seu turno Cyrino, approximando o pires da boca da formosa medicanda.
Levantou uns olhos supplices e, agarrando resolutamente o remedio, bebeu-o todo de um jacto.
Depois deu um suspiro de enjôo e ficou com os labios entreabertos, á espera que o adocicado sumo do limão lhe tirasse o amargor do medicamento.
—Então, exclamou Pereira, era maior o medo que a cousa em si! Você tome a dose numa relancina.
—Amanhã de manhã, ou melhor hoje de madrugada, temos que engolir outra dose, declarou Cyrino. Depois, a dona, poderá levantar-se.
—Ainda outra? protestou Innocencia com gesto de amúo.
—Nhã, sim; é de toda a percisão, replicou o amoroso medico modificando pela suavidade da voz a dureza das prescripções.
—De certo, corroborou tambem Pereira.
—Depois deve mecê deixar de comer carne fresca, hervas, ovos ou farinha de milho por um mez inteiro, e de provar leite por muito tempo. Hade sustentar-se só de carne de sol bem secca, com arroz quasi sem sal e por cima tomará café com muito pouco doce[64].
—Fica ao meu cuidado, asseverou Pereira, olhar para o rejume[65].
—Agora, durma bem e não se assuste de lhe apparecer zoeira nos ouvidos e até de se sentir mouca Isto é da mézinha; pelo contrario é muito bom signal.
—Estes doutores sabem tudo, murmurou Pereira dando ligeiro estalo com a lingua.
Não se descuidou Cyrino, antes de se retirar, de novamente tomar o pulso e, á conta de procurar a arteria, assentou toda a mão no punho da donzella, envolvendo-lhe o braço e apertando-o docemente.
Saiu-se mal de tudo isso: porque se tratava da cura de alguem, para si arranjava enfermidade e bem grave.
Com effeito, de volta á sala dos hospedes, não poude mais conciliar o somno e, sem que houvesse conseguido fruir um só momento de descanço, viu raiar a aurora. Parecia-lhe que o peito ardia todo em chammas a subirem-lhe ás faces, abrazando-lhe o pensamento.
Aquelle venusto rosto que contemplára a sós; aquelles formosos olhos, cujo brilho a furto percebera, aquelle collo alabastrino que a medo se descobrira, aquellas indecisas curvas de um corpo adoravel, todo aquelle conjuncto harmonioso e encantador que vira á luz de frouxa vela, fatalmente o lançavam nesse pelago semeado de tormentos que se chama paixão!
Effeitos de tão temivel mal já ia o misero sentindo. Inquieto se revolvia (facto virgem!) no duro leito, ao passo que a respiração isochronica e ruidosa do companheiro de hospedagem, o allemão Meyer, respondia ao sonoro resonar do garrulo José Pinho.
CAPITULO X A CARTA DE RECOMMENDAÇÃO
Aquelle bom velho, cuja benevola hospitalidade não tinha limites, julgara do seu dever tratar do melhor modo possivel a Waverley, fosse elle o ultimo camponez saxonio... Mas o titulo de amigo de Fergus fel-o considerar como precioso deposito, merecedor de toda a sua solicitude e da mais attenta obsequiosidade.
WALTER SCOTT.—Waverley.
Quando Meyer abriu os olhos, já achou Cyrino de pé, arranjando uma canastrinha.
—Oh! exclamou elle em tom de louvor, o Sr. madruga muito.
—É verdade, replicou o outro, um tanto melancolico.
—E Júque ainda dorme!... Este Júque parece mais um tatú do que um homem... Todo o dia o estou acordando...
E juntando o feito ao dito, foi o pachorrento amo sacudir a criado. Depois de se espreguiçar á vontade, sentou-se este no couro em que dormira, e pôz-se a esfregar com todo o vagar os olhos papudos ainda cheios de somno.
—Deus esteja com vossuncês, disse elle entre dois bocejos. Ora, Mochú, o Sr. acordou-me no melhor do somno. Estava sonhando que voltára para o Rio de Janeiro e ia acompanhando uma musica pelo largo do Rocio a fóra. Conhece o largo do Rocio? perguntou a Cyrino.
—Não, respondeu-lhe este.
—Chi! Que largo! Hen, Mochú?
E novo bocejo cortou-lhe a descripção da louvada praça.
—Júque, exclamou Meyer coçando a barba com ar alegre, o dia hoje está claro e bonito. Havemos de apanhar pelo menos umas doze borboletas novas.
—E quanto me dá Mochú, se eu agarro vinte e cinco?
—Vinte e cinco? repetiu o allemão com alguma duvida.
—Sim, vinte e cinco ... e até mais, vinte e seis. Diga, quanto me dá?
—Oh! eu dou a vóce dois mil réis.
—Está dito, fecho o negocio. Eu cá sou assim pão pão, queijo queijo; tão certo como chamar-me José Pinho, seu criado, carioca de nascimento e baptisado na freguezia da Lagoa, lá para as bandas do Brocó, e...
—Agora, interrompeu Meyer; vá buscar agua para lavar a cara, e tire sabão e pente na canastra.
—Olhe, Sr. doutor, continuou o camarada sentado sempre e voltando-se para o lado de Cyrino, esta minha vida é levada de seiscentos mil diabos. Nós saimos do Rio já ha mais de dois annos; não é, Mochú?
—Vinte e tres mezes, rectificou Meyer.
—Pois bem; desde esse tempo estamos a viajar como se fosse penitencia de confissão. E não é só isso, não, senhor. Todos os dias ando pelo menos nove leguas correndo aqui e acolá, dando voltas, caindo, atraz dos bichos voadores...
—Júque! tentou atalhar Meyer, olhe...
—Pois é o que lhe digo, proseguiu José Pinho. Tenho hoje uma raiva daquellas porcarias todas... Nem sei porque, Nosso Senhor Jesus Christo foi crear esta sucia de creaturas sem prestimo... Emfim. Elle é quem sabe... Quanto a mim, se pudesse, atacava fogo em todas as lagartas, porque da lagarta é que nascem esses anicetos, que estão enchendo mundos... Mas, veja, Sr. doutor, lá na terra deste homem,—(coitado, é bem bomzinho e me estima muito!)—valem esses bichos mais do que ouro em pó... Tambem, se o Mochú não gostasse de mim, havéra de ser muito ingrato... Outro como eu, não encontra mais, não senhor... Tenha a santa paciencia ... não, senhor, isto é o que lhe posso afiançar.
No meio desse fluxo de palavras, Meyer fora em pessoa procurar na canastra o pente e o sabão.
Mostrando os objectos ao fallador, ordenou com energia:
—Cale a boca, Júque, cale a boca, tagarella! Vá buscar agua já; senão ... não levo vóce ao matto hoje.
Levantou-se de prompto José Pinho e meio a resmungar saiu, tomando uma das canastras.
—Esse camarada, disse Meyer depois de algum silencio e para explicar o seu procedimento, é uma pessoa muito boa ... fiel e intelligente. Mas ... fala demais. É-me precioso, porque apanha borboletas com muito talento e geito.
Entrando José Pinho e ouvindo o final do elogio, depoz com ar de grave importancia a bacia no chão.
Deante della, e depois de tirar do nariz os oculos collocou-se logo Meyer, ou antes acocorou-se e em relação ao tronco, tão compridas eram as suas pernas que, inclinado por sobre a agua, lhe ficava a cabeça a altura dos joelhos.
Levou a ablução uns largos minutos e foi com os cabellos grudados ao casco e escorrendo agua que elle se levantou, justamente quando entrava Pereira.
Nesse momento, assumira o typo daquelle homem proporções do mais pasmoso grotesco; entretanto, tão vária é a apreciação de cada um, tão caprichoso é o julgamento individual, que o mineiro, acercando-se de Cyrino, disse baixinho:
—Vosmecê já reparou, amigo, como este estranja é figura bonita? Tão arvo! E que olhos que tem!... As mulheres hão-de perder a cachola por causa deste bicharrão... Então, Sr. Maia, continuou interpellando em voz alta o seu especimen de belleza masculina, que tal passou aqui a noite?
—Oh! Sr. Pereira!... Desculpe, se o não vi... Estava sem oculos... Já lhe respondo ... espere um bocadinho.
E ainda todo molhado, correu a tomar os oculos, que assentou em cima dos salientes luzios.
—Agora, muito bem... Dormi, meu bom amigo, como quem não tem peccados...
—Então, observou Cyrino, quasi mau grado seu, tenho-os eu; porque, da meia noite para cá, não pude mais pregar olho...
—Isto é volta de algum namoro, replicou Pereira batendo-lhe com força no hombro e rindo-se.
Cyrino descorou ligeiramente.
—Sim, vosmecê é moço ... deixou lá por Minas algum rabicho, e de vez emquando o coração lhe comicha... Está na idade...
—Pode muito bem ser, apoiou Meyer com gravidade.
—Não é? insistiu Pereira, Ora, confesse ... não lhe fica mal... Isso é volta de enguiço...
—Juro-lhes, balbuciou Cyrino.
—Oh! se é, confirmou José Pinho que julgou dever metter o bedelho na conversa, eu no Rio de Janeiro... Negocio de saias, é de pôr um homem tonto. Não lhes conto nada, mas uma vez...
Voltou-se o allemão para elle com calma, e, interrompendo-o:
—Júque, va ver onde estão burrinhos e não bote sua colher, quando gente branca está falando com o seu patrão.
E, como o camarada quizesse retorquir:
—Ande, ande, verberou sempre sereno, discussão nunca serviu para nada.
Deu José meia duzia de muchochos abafados e foi embora, praguejando entre dentes.
Novamente suppoz Meyer dever desculpal-o.
—Bom homem, disse, bom homem ... porem fala terrivelmente!
—Mas agora me conte, perguntou Pereira com ar de quem queria certificar-se de cousa posta muito em duvida, deveras o senhor anda palmeando estes sertões para fisgar anicetos?
—Pois não, respondeu Meyer com algum enthusiasmo, na minha terra valem muito dinheiro para estudos, musêos e collecções. Estou viajando por conta de meu governo, e já mandei bastantes caixas todas cheias... É muito precioso!
—Ora, vejam só, exclamou Pereira. Quem havéra de dizer que até com isso se póde bichar! Cruz! Um homem destes, um doutor, andar correndo atraz de vagalumes e voadores do matto, como menino ás voltas com cigarras! Muito se aprende neste mundo! E quer o senhor saber uma coisa? Si eu não tivesse familia, era capaz de ir com vosmecê por esses fundões afóra, por que sempre gostei de lidar com pessoas de qualidade e instrucção... Eu sou assim... Quem me conhece, bem sabe... Homem de repentes... Vem-me cá uma idéa muito estrambotica ás vezes, mas embirro e acabou-se; porque, se ha alguem esturrado e teimoso, é este seu criado... Quando empaco, empaco de uma boa vez... Fosse no tempo de solteiro, e eu me botava com o senhor a catar toda essa bicharada dos sertões. Era capaz de ir dar com os ossos lá na sua terra... Não me olhe pasmado, não... Isso lá eu era... Nem que tivesse de passar canseiras como ninguem... O caso era metter-se-me a tenção nos cascos... Dito e feito; acabou-se... Fossem buscar o remedio onde quizessem ... mas duvido que o achassem.
—Como vae a doente? perguntou distrahidamente Cyrino cortando aquella catadupa de palavras.
—Ora estou muito contente. Já tomou nova dose, e parece quasi boa. Está com outra feição. O senhor fez um milagre...
—Abaixo de Deus e da Virgem purissima, concordou Cyrino com toda a modestia.
—O sr. não cura? perguntou Pereira a Meyer.
—Nô senhor. Sou doutor em philosophia pela universidade de Iena, onde...
—Isso é nome de bicho? atalhou o mineiro.
—Nô senhor. É uma cidade.
—Ninguem diria... Pois, Snr. Maia, continuou Pereira apontando para Cyrino, alli está um com quem molestias não brincam.
—Ah! rouquejou o allemão abrindo ainda mais os olhos. Estimo muito conhecel-o como notabilidade... Nestes lugares aqui é muito raro...
—Se é! exclamou Pereira. Felizmente passou por cá nem de proposito, para pôr de pé a menina ... uma filha minha... Cahiu-me a talho de fouce e...
Não pôde Cyrino furtar-se a um movimento de vangloria. Com ar grave interrompeu:
—Não falle nisso, Sr. Pereira; o caso era simples. Febre das enchentes ... não vale quasi nada. Vi logo o que era de urgencia: um simples suador, duas ou tres doses de sulfato de quinina ... e ficou tudo sanado... É simplicissimo... O estomago não estava sujo ... não havia necessidade de vomitorio...
Ouvira Meyer estas indicações therapeuticas com os olhos muito fitos em quem as dava: depois, voltando-se para Pereira disse com um approbatorio aceno de cabeça:
—Pom medico! pom medico!
Desse momento em deante, votou Cyrino ao allemão a mais decidida symphatia; e Pereira, presenciando o congraçamento daquelles dois homens, de si para si illustres e incontestaveis sabichões, sentiu-se feliz por abrigal-os a um tempo em sua humilde vivenda.
—Então, disse o mineiro voltando á questão das borboletas, com o que o seu governo paga-lhe bem, não Sr. Maia?
—Sufficientemente ... demais, todas as autoridades deste bello paiz muito me ajudam. Tenho muitos officios ... cartas de recommendação... Olhe, quer ver? Juque, Juque! chamou Meyer sem reparar que o criado ha muito se fora do quarto, dê-me... É verdade, foi levar os burrinhos á agua... Não faz mal... Mostro-lhe já tudo...
E, procurando entre as cargas uma malinha coberta de panno impermeavel, abriu-a e tirou um masso de cartas cuidadosamente numeradas com fitas de diversas côres.
—Isto é para Miranda, em Matto Grosso. Isto para Coxim, Cuyabá ... para Poconé, Diamantino ... isto são cartas cujos donos não encontrei, e que hão de voltar para as pessoas que as escreveram.
—E são muitas? perguntou Pereira.
—Tres ou quatro. Vejamos ... uma é para o Sr. João Manuel Quaresma, no Pitanguy; esta, para o Sr. Martinho dos Santos Perreira, em Piumhy...
—Que é? perguntou o mineiro levantando-se de um pulo e mostrando muita admiração. Leia outra vez ... leia por favor...
Meyer obedeceu.
—Mas este nome é o meu! exclamou Pereira. Esta carta então é para mim...
—Hu, hu! gaguejou o allemão boquiaberto. É muito currioso isto!
—Sou eu, sou eu mesmo! continuou o mineiro abrindo os diques á volubilidade. Está claro, clarissimo!... Quando me escreveram, pensavam que eu ainda morava lá em Piumhy. Pois, se nunca contei a ninguem em que buraqueira me vim metter... Abra a carta sem susto... Oh! Senhora Sant'Anna, que dia hoje! Quem diria? Uma carta! Uma carta nestas alturas! Póde ler, Sr. Maia... Estou doido por saber quem se deu ao trabalho de me escrever... Martinho dos Santos Pereira, de Piumhy ... sou eu! Que duvida: não ha dois. Veja só o nome ... pelo amor de Deus, o nome de quem me direge a carta.
Rompeu o allemão com alguma duvida e escrupulo o selo; correndo com os olhos a lauda escripta, procurou a assignatura e pausadamente leu «Francisco dos Santos Pereira».
—Gentes! bradou o mineiro no auge da alegria, meu irmão ... o Chiquinho!... E eu que o fazia morto e enterrado!... Nosso Senhor o conserve por muitos annos!... O Chiquinho!... Já se viu coisa ansim?... Como se anda neste mundo, hem, Sr. Cyrino? Quem havéra de dizer que este homem, que aqui chegou hontem por acaso e alta noite, havia de trazer na canastra uma carta de um irmão que não vejo ha mais de quarenta annos?!... Ora esta!... São voltas deste mundo... As pedras se encontram... Foi em 1819 ... não, em 20... Mas ... depressa leia a carta ... vamos ver o que me diz o Chiquinho... Da familia passava por ser o de mais juizo tambem era o mais velho de todos nós... O Roberto o caçula... Seja o senhor muito bemvindo nesta casa... Depois de tantos annos, trazer-me noticias da minha gente!
Cortou Meyer aquelle movimento de effusão que promettia ir longe, começando a ler com todo o vagar ou, melhor, a soletrar a carta, cujos garranchos, que não letras, por vezes se viu obrigado a encostar aos olhos para poder decifrar.
«Martinho, dizia a despretenciosa epistola, dirijo-te estas mal traçadas linhas só para saber da tua saude e dizer que o portador desta é um senhor de muita leitura e vae para os sertões brutos, viajando e estudando paizes e povos. Veio-me do Rio de Janeiro muito recommendado. Peço que o agasalhes, não como a um transuente qualquer, mas como se fosse eu em pessoa, teu irmão mais velho e chefe da nossa familia...»
—Pobre mano! exclamou Pereira meio choroso.
«É homem, continuou Meyer, de bastante criação. Adeus Martinho. Eu estou estabelecido na Matta do Rio, numa fazendola. Tenho cinco filhos, tres machos e duas familias[66], estas casadas, e que me deram netos; já faz bastante tempo. Não estou muito quebrado de forças. Ha mais de oito annos que não tenho noticias tuas. Soube que o Roberto tinha morrido no Paranan...»
—Roberto?!... Coitado do Roberto! atalhou Pereira com voz angustiosa.
E repentinamente, representando-lhe a memoria os tempos da infancia, arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas.
«Sem mais aquella, concluiu Meyer, adeus. Felicidade e saude. Teu irmão, Francisco dos Santos Pereira».
—Deveras, disse o mineiro depois de breve silencio adeantando-se para o allemão e apresentando-lhe a dextra aberta, o Sr. me deu um fartão de alegria. Toque nesta mão e, quando ella se levantar para bulir num só cabello de sua cabeça ou de alguem da sua familia, qualquer que seja o aggravo que me possam fazer, seja ella logo cortada por Deus, que nos está ouvindo.
—Obrigado, Sr. Pereira, respondeu com animação o outro, retribuindo o aperto de mão e corroborando-o com um concerto de garganta.
—Sim, senhor, continuou o mineiro. Esta carta vale, para mim, mais que uma letra do Imperador que governa o Brazil. É o que lhe digo, Sr. Maia...
—Meyer, corrigiu o allemão apoiando com força na ultima syllaba, Meyer.
—Ah! é verdade. É preciso traduzir Meyer, Meyer. Agora já atinei com a cousa. Mais como ia lhe dizendo, esta casa é sua. Meu irmão, o meu irmão mais velho deu-me ordem que eu o recebesse como se fosse elle mesmo em pessoa, o Chico; ... acabou-se. O Sr. é como se fosse dos meus. Não ha que ver, é o que elle quer. Entendi logo; o mais é ser muito bronco e, com o favor de Deus, não me tenho nesta conta. O Sr. ponha e disponha de mim, da minha tulha, das minhas terras, meus escravos, gado ... tudo o que aqui achar. Parta e reparta... Quem está falando aqui, não é mais dono de coisa nenhuma; ... é o Sr.... Meu irmão me escreveu, é escusado pensar que não sei respeitar a vontade de meus superiores e parentes. É como se recebesse uma ordem do punho do Sr. D. Pedro II, filho de D. Pedro I, que pinchou os emboabas[67] para fora desta terra do Brazil e levantou o Imperio nos campos do Ypiranga, lá para os lados de S. Paulo de Piratininga, onde houve em seu tempo collegio de padres e fradaria grossa[68], e d'onde os mamalucos sahiam para ir por esses mundos fóra bater indios brabos e caçar onças, botando bandeiras até na costa do Paraguay e no salto do Paraná, tanto assim que deram nas reducções[69] e trouxeram de lá uma immundicie[70] de gente amarrada, por signal que muitos amolaram a canella em caminho, e só chegaram uns cento e tantos, tão magros que...
Enfiava Pereira todas estas phrases com suprehendedora rapidez, ao passo que Meyer o contemplava extatico, á espera que a torrente de palavras lhe desse tempo e occasião de exprimir algum vocabulo de agradecimento.
Só, porem, minutos depois, e a custo é que elle pronunciou um aspero e retumbante.
—Obrigado!
E accrescentou em seguida:
—Mas o senhor falla que nem cachoeira. E não cansa?
—Qual! replicou o mineiro com ufania. A gente da minha terra é de seu natural calada; eu, não; mesmo porque fui criado em povoados de muita civilidade...
Tomando esse novo thema, começou novamente a discorrer, mostrando visivel contentamento por achar na estimavel pessoa do Sr. Guilherme Tembel Meyer um ouvinte de força, incapaz de pestanejar e cuja fixidez de olhos era prova evidente de que tomava interesse por todos os assumptos possiveis de conversação.
CAPITULO XI O ALMOÇO
Comam e bebam; nada de cerimonias commigo. Minha casa é franca; eu tambem. Façam provisão de alegria e de mim disponham sem constrangimento.
PLAUTO.—Miles Gloriosus.
Levantou-se de repente Cyrino da marqueza em que se sentara.
—Tenho vontade de amanhã seguir viagem...
—Que, doutor? protestou Pereira, Partir já? isso nunca... Vosmecê ainda não curou de todo minha filha. Pago-lhe todos os prejuizos da sua estada aqui ... se fôr preciso.
—Oh! Sr. Pereira, reclamou por seu turno o joven, isso quasi me offende...
—Desculpe-me, e muito: mas, antes de duas semanas, não o deixo sahir daqui...
—Porem...
—Doentes não lhe hão de faltar. A minha rancharia vae ser visitada como se fosse casa de presepe, e o senhor não poderá dar vasão aos que o vierem procurar. Olhe, hoje mesmo mandei avisar o Coelho, e daqui a pouco está elle cá, rente como pão quente. Atraz do primeiro, virá uma chusma dos meus peccados... Então quer deixar Nocencia como ainda está?...
—Verdade é, balbuciou Cyrino.
—Pois então? Nem pensar nisso é bom. Deixe tudo por minha conta; vosmecê hade aqui arranjar os seus negocios.
—Já que o senhor o diz... Eu tinha receio de vexal-o. Uma vez que até cá venham doentes...
—Hão de vir, esteja socegado...
—Ficarei, decidiu Cyrino, quanto tempo for do seu agrado.
—Ora, muito que bem, exclamou Pereira esfregando as mãos com sincera satisfacção, estou como quero. Quanto ao Sr. Maia ... Meyer, quero dizer, este ha-de crear raizes nesta casa...
—Isso tambem não: tenho tempo marcado pelo meu governo...
—Bem, bem; mas em todo o caso, fará uma boa temporada comnosco. É pena que o Manecão não chegue, porque apressavamos o casorio, e arranjavamos uma festança como nunca se viu nestes matarrões... Mas estou aqui a dar com a lingua nos dentes, sem pensar que os nossos estomagos ainda esperam sua matula[71]. O almoço não pode tardar; é um pulo só... Se consentem vou ver lá dentro.
Ao dizer estas palavras saiu da sala voltando pouco depois acompanhado de Maria, a velha escrava que trazia a toalha da mesa e a competente cuia de farinha.
—Á mesa! gritou Pereira. Almoço hoje com vosmecês. Sr. Meyer o senhor comerá d'ora em deante commigo e com a menina, lá no interior da casa; ouviu?
E, voltou-se para Cyrino.
—Bem sabe, explicou logo, é como se fosse o Chiquinho.
Depois de prompta a mesa, sentaram-se os tres alegremente.
—Olhe, Sr. Meyer, disse o mineiro servindo o allemão, isto é feijão-cavallo e do melhor. Misture-o com arroz e hervas; deite-lhe uns salpicos de farinha...
Começou o naturalista a mastigar com a lentidão de um animal ruminante, interrompendo de vez em quando o moroso exercicio para exclamar:

Delicioso com effeito! Muito delicioso.
—Delicioso, com effeito! Muito delicioso.
Comia Cyrino pouco e em silencio.
—Na Allemanha, observou Meyer contemplando um grão de feijão, a maior fava não chega a este tamanho. Aqui a fava de lá teria pollegada e meia pelo menos. Um almoço, assim, havia de custar na Saxonia dois thalers, ou pelo cambio que deixei no Rio de Janeiro, dois mil e quinhentos réis...
Interrompeu-o Pereira com gesto comico.
—Dois mil e quinhentos? Ora, que terra essa! Como é que se chama?
—Sac-sonia, respondeu o allemão com gravidade.
—Saco-sonha! exclamou Pereira. Não conheço... Mas, então, lá muita gente ha-de andar a morrer de fome...
—Pelos ultimos calculos, replicou Meyer com várias pausas durante as quaes introduzia enormes colheradas da mistura que lhe aconselhara o amphytrião, é sabido que em Londres morrem no inverno oito pessoas á mingua, em Berlim cinco, em Vienna quatro, em Pekim doze, em Ieddo sete, em...
—Salta! atalhou Pereira exultando de prazer, então viva cá o nosso Brazil! Nelle ninguem se lembra até de ter fome. Quando nada se tenha que comer, vae-se ao matto, e fura-se mel de jatahy e mandory ou chupa-se miolo de macaúbeira. Isto é cá por estas bandas; porque nas cidades, basta estender a mão, logo chovem esmolas... Assim é que entendo uma terra ... o mais é desgraça e consumição...
—De certo! corroborou o allemão, o Brazil é um paiz muito fertil e muito rico. Dá café para meio mundo beber e ainda o ha-de dar para todo o globo, quando tiver mais gente ... mais população...
—Bem eu sempre digo, acudiu Pereira tocando no hombro de Cyrino e deitando-lhe uns olhos de triumpho. Lá fóra é que nos conhecem, nos fazem justiça. Não acha patricio? Homem, agora reparo ... vosmecê está tão calado! ... meio casmurro, que é isso? sempre aquelle negocio?
De facto, Cyrino, depois que ouvira o convite a Meyer para conviver no interior da casa de Pereira, tornara-se sombrio, inquieto, meditabundo. O corpo ali estava, mas a sua imaginação vigiava zelosa o quartinho onde repousava aquella menina febricitante, tão bella na sua fraqueza e pallidez enferma.
—Se são mulheres, ponderou Pereira, deixe-se disso: não ha maior asneira... É fazenda que não falta.
No meio dos exercicios mandibulares, julgou Meyer que o seu hospedeiro considerava o sexo feminino do ponto de vista meramente estatistico e acreditou conveniente assentar melhor a idéa, um tanto vagamente aventada.
—Na raça slava, disse dogmaticamente, a proporção é de duas mulheres para um homem; na germanica, ha approximadamente numero equivalente, na latina de dois homens para uma mulher. Na França, a proporção para o lado masculino é de...
—Mas o senhor contou? interrompeu Pereira. Deixe-lhe dizer uma cousa: eu cá não engulo araras...
—Ni eu, affirmou Meyer com alguma surpreza e energia, nem sei como o senhor me vem falar nessas aves agora... Se as considera como caça. deve saber que os trepadores têm a carne dura, preta e...
Riu-se Pereira do equivoco e, explicando-o continuou a discutir com o seu interlocutor, que não discrepava uma linha dos seus principios de methodo e escrupulosa polidez.
—Póde o senhor falar um anno inteiro, disse o mineiro para concluir; mas quanto a mim, não entendo patavina das suas contas e gigajogas. Quem me tira da taboada, bota-me no matto... E agora, vamos agradecer a Deus Nosso Senhor Jesus Christo o ter-nos dado esta comida, ainda que insufficiente e mal temperada.
E, unindo o exemplo á palavra, levantou-se e, de mãos postas ao peito, orou em voz baixa com uncção, no que foi imitado pelos dois hospedes.
—Esteja comvosco o Senhor, disse ao terminar em voz alta, persignando-se.
—Amen, responderam Cyrino e Meyer.
—Agora, annunciou o mineiro sahindo da mesa vou dar um giro pela minha roça, onde estão na capina tres negros cangueiros[72] um dos quaes é o meu fazendeiro[73]: depois, hei-de visitar uns conhecidos meus, avisando os da sua chegada, doutor. Ah! acrescentou todo desfeito em amavel sorriso, falta-lhe mostrar minha filha, Sr. Meyer.
—Sua filha! exclamou o allemão. Então tem filhos?
—Sim, senhor. Não se lembra que o seu vulto[74] é o do mano Chiquinho? Pois então? Que maior prova lhe posso dar de confiança e amizade?... Não é verdade, Sr. Cyrino?
—Sem duvida, balbuciou a custo o mancebo.
—Minha filha chama-se Nocencia e só hoje é que se levantou da cama... Esteve doentinha ... Assim mesmo, não sei se as maleitas a deixaram... O corpo é ás vezes caroavel[75] dessas malditas e...
—Isso está ao meu cuidado, atalhou Cyrino com alguma pressa. Ainda ao meio dia hade tomar quina...
—Vosmecê faça o que for melhor... Quer vir Snr. Meyer?
—Pois não! pois não! respondeu amavelmente o allemão.
—É a unica pessoa da familia que tenho aqui alem de um marmanjão que está agora na carreira[76]? por essas estradas, agenciando a vida... Então, vamos! Venha tambem, continuou elle voltando-se para Cyrino, um cirurgião é quasi de casa.
Sahiram, pois, os tres. Pereira na frente, seguiu o oitão da direita, e, abrindo uma tranqueira do cercado dos fundos entrou pela cozinha, onde a velha preta Conga estava lavando pratos e arrumando louça numa prateleira.
CAPITULO XII A APRESENTAÇÃO
Quem, porém, mostrava mais surpresa e admiração, era Sancho Pança. Nunca, em dias de sua vida, vira perfeição egual.
CERVANTES.—D. Quixote, CXXIX.
Ao balsamo, fazem as moscas que nelle morrem, perder a suavidade do perfume. Uma parvoice, ainda que pequena e de pouca dura, dá motivo a não se ter em conta nem sabedoria nem gloria.
ECCLESIASTES.—X.
Depois de atravessarem um quarto bastante escuro, chegaram os visitantes á sala de jantar, vasto aposento ladrilhado, mas sem forro, a um canto do qual estava a filha do mineiro, mais deitada do que sentada numa especie de canapé de tacuara.
Tinha os pés sobre uma bonita pelle de tamanduá-bandeira, onde se acocorara, conforme o habito, o anão a quem Pereira chamara Tico.
Ao ver chegar tanta gente, abriu a formosa menina uns grandes olhos de espanto; quiz toda enleada erguer-se, mas não poude e, corando ligeiramente, teve como que um deliquio de fraqueza.
Approximara-se logo Cyrino com vivacidade.
—A dona, disse elle para Pereira, está tão fraca que mette dó.
Chegou-se o pae juntamente com Meyer e, tomando as mãos da filha, perguntou-lhe com voz meiga e inquieta:
—Sente-se peior, meu bemsinho?
—Nhôr-não, respondeu ella.
—Pois então!... É preciso não entregar o corpo á molleza... Abra os olhos... Olhe... está aqui este homem (e apontou para Meyer) que é allamão e trouxe uma carta do tio de mecê, o Chico, lá da Matta do Rio. Quero mostrar que, para mim, vale tanto como se fosse esse proprio parente tão a nós chegado. Por isso é que venho apresental-o...
Ella nada articulou.
—Vamos, diga... Tenho muito gosto em lhe conhecer ... diga.
Com vagar e acanhamento, repetiu Innocencia estas palavras, ao passo que Meyer lhe estendia a mão direita, larga como uma barbatana de cetaceo, e franca como o seu coração.
—Gosto, muito gosto tenho eu, disse elle com tres ou quatro sonoros arrancos de garganta. Só o que sinto é vel-a doente... Mas o doutor não nos deixará ficar mal; não é Sr. Cyrino?...
E apoiou esta pergunta com um hen? que ecoou por toda a sala.
—A senhora, respondeu o interpellado, precisaria tomar por alguns dias um pouco de bom vinho do Porto, em que se puzesse casca de quina do campo... Mas, onde achar agora vinho? Só na villa de Sant'Anna...
—Vinho? perguntou Meyer.
—Sim.
—Vinho do Porto?
—Melhor ainda.
—Pois tudo se arranja, na minha canastra tenho uma garrafa do mais superfino e com a maior satisfacção a offereço á filha do meu pom amigo o Sr. Pereira.
—Oh! Sr. Meyer, agradeceu este com effusão, não sabe quanto lhe fico...
—Qual! não tem obrigação, não, senhor. Além do mais, sua filha é muito bonita, muito bonita, e parece boa deveras... Ha-de ter umas cores tão lindas, que eu daria tudo para vel-a com saude...
Que moça!... Muito bella!
Estas palavras que o innocente saxonio pronunciara ex abundantia cordis produziram extraordinario abalo nas pessoas que as ouviram.
Tornou-se Pereira pallido, franzindo os sobrolhos e olhando de esguelha para quem tão imprudentemente elogiava assim, cara a cara, a belleza de sua filha; Innocencia enrubeceu que nem uma romã; Cyrino sentiu um movimento impetuoso, misturado de extranheza e desespero, e, lá da sua pelle de tamanduá-bandeira, ergueu-se meio apavorado o anão.
Nem reparou Meyer e com a habitual ingenuidade proseguiu:
—Aqui, no sertão do Brazil, ha o mau costume de esconder as mulheres. Viajante não sabe de todo se são bonitas, se feias, e nada pode contar nos livros para o conhecimento dos que lêem. Mas, palavra de honra, Sr. Pereira, se todas se parecem com esta sua filha, é cousa muito e muito digna de ser vista e escripta! Eu...
—O senhor não quer retirar-se? interrompeu Pereira com modo aspero.
—Pois não! replicou o allemão.
E como despedida accrescentou, dirigindo-se para Innocencia:
—Chamo-me Guilherme Tembel Meyer, seu humilde criado, e estimo muito conhecel-a por ser a senhora filha de um amigo meu e prender a gente com o seu lindo rosto...
Estendeu então a mão, fez um movimento de cabeça, e acompanhou ao mineiro que já ia sahindo branco de colera concentrada.
—E que me diz o Sr. deste homem? perguntou a Cyrino a meia voz e puxando-o de parte.
—Reparei muito nos seus modos, respondeu-lhe o outro no mesmo tom.
—Nem sei como me contenha... Estou cego de raiva ... Que presente me mandou o Chico!... É uma peste, este diabo melado[77]... Vê uma rapariguinha e enche logo as bochechas para lhe dizer meia duzia de pachuchadas e graçolas... Não está má esta!... É um perdido. Nada... Isto não me cheira bem: vou ficar de olho nelle...
—Faz muito bem, apoiou Cyrino.
—Vejam só, continuou Pereira retendo o seu interlocutor para deixar Meyer distanciar-se, em boas me fui eu metter!... Se não fosse a tal carta do mano o cujo dansava ao som do cacete... Malcriadaço! Uma mulher que daqui a dois dias está para receber marido... Deus nos livre que o Manecão o ouvisse... Desancava-o logo, se não o cosesse a facadas... Vejam só, hen?... Sempre é gente de outras terras... Cruz! Tambem vi logo ... um latagão bonito ... todo faceiro ... havéra por força de ser rufião[78].
Ouvia-o Cyrino em silencio.
—E mulher, proseguiu o mineiro com raivosa volubilidade, é gente tão levada da breca, que se lambe toda de gosto com ditinhos e requebros desta sucia de embromadores. Com ellas, digo eu sempre, não ha que fiar... Má hora me trouxe este allamão ... Mil raios o rachem!... E logo o Chico... Tenho agora que ficar de alcateia ... metter-me em tocaia[79] e fazer fojos para que a bracayá[80] não me entre no gallinheiro. Ora que tal!
—Tambem, breve se vae elle embora, lembrou Cyrino a modo de consolo.
Que o demo o leve quanto antes, replicou Pereira. Já estou todo enfernizado[81] com o tal homem...
Neste momento, como que de proposito, voltava-se Meyer para os dois:
—Sr. Pereira, disse elle ficarei em sua casa talvez umas duas semanas. Os burrinhos vão engordar no seu pasto e eu hei-de fazer compridas viagens nesta sua fazenda, apanhando tudo o que nella encontrar... Ouviu?
Reprimiu o interpellado um gesto de viva contrariedade e, levado pelo instincto e dever de hospitalidade, de prompto respondeu, embora seccamente:
—Fique duas semanas, ou dois mezes ou dois annos. Já lh'o disse: a casa é sua, e palavra de mineiro não volta atraz. Quem está aqui, não é o senhor é meu irmão mais velho.
Agarrando então com força na mão de Cyrino, accrescentou em voz surda e angustiada:
—Olhe, doutor; veja só isto! Que lhe dizia eu?... Ah! meu Meyer, quer se engraçar commigo, não é? Mas cá fico ... e, uma vez avisado, nem dois, nem tres me botam poeira nos olhos... Não é com essa! Nocencia nasceu filha de pobre, mas, graças a Maria Santissima, tem ainda pae com braço forte e muito sangue nas veias para defendel-a dos garimpeiros e cruzadores de estrada... Elle que não brinque com o Manecão; é homem de cabellinho na venta e se lhe bota a mão em cima, esfarela-lhe os ossos, como se fôra veadinho do campo enroscado por sucury...
Ia comtudo Meyer, de todo ponto alheio ao temporal provocado por suas inconsideradas palavras; e, sem duvida, estimulado em suas reminiscencias pela vista da menina que acabava de admirar, cantarolava entre dentes uma velha valsa allemã, dansada talvez com alguma loura patricia em epocas remotas e de menos rigorismo scientifico.
CAPITULO XIII DESCONFIANÇAS
Muitas vezes, somos illudidos pela confiança: mas a desconfiança faz que sejamos por nós mesmos enganados.
PRINCIPE DE LIGNE.
Quando o nosso saxonio entrou na sala em que estavam as suas cargas, vinha tão contente do gasalhado recebido, da firmeza do tempo, das futuras caçadas de borboletas, que despertou a attenção do seu camarada José.
Estava este encostado a uma canastra, a esgaravatar, de faca comprida, em punho a planta dos pés, verificando se alguma pedrinha da estrada não se havia encrostado na grossa e já insensivel sola.
—Homem, disse elle com familiaridade, Mochú está hoje muito alegre.... Viu passarinho verde?
—Passarrinho verde? perguntou Meyer. Que é isso? Não vi passarrinho nenhum... Vi uma moça muito bonita...
—Olé ... melhor ainda... Conte-me isso ... e quem é ella
—É a filha cá do Sr. Pereira.
—Parabens! parabens! exclamou José com toda a indiscrição. Moça bonita é fructa rara por estas mattarias e brenhas do inferno... Quanto a mim, ainda não botei o olho senão em velhas corcorócas e serpentões... Outra coisa é no Rio... Não se lembra, Mochú, da procissão de S. Jorge?... Ahi é que sae á rua uma tafularia de deixar a gente tonta de uma vez, de queixo cahido. Umas tão alvas!... Outras cor de café com leite ... fazenda fina ... creoulas chibantes.
—Júque, reprehendeu o allemão revestindo-se de ar severo, não tome confiança com gente que não é da sua classe...
—Mas eu não disse nada de mau, Mochú, desculpou-se o criado recolhendo-se meio enfiado ao silencio e voltando ao exame dos pés.
Quem estava em cima de um brazeiro, era Pereira. Decididamente, aquelle hospede o punha a perder, proclamando assim com a trombeta da fama que vira Innocencia e com ella conversara, que a achava do seu gosto ... uma rapariga já noiva! Quantas incongruencias, que perigos, ó Santos do Paraiso!
Tornava-se caso de muita prudencia. Qualquer passo menos pensado acarretaria consequencias irremediaveis.
Necessario é penetrar-se a força dos sentimentos que sobresaltavam o mineiro, para bem aquilatar os transes por que passava a achar, natural que seguisse uma linha de proceder toda de duvida e vacillações.
Se, de um lado, creava involuntaria admiração por Meyer e, rodeando-o, em sua imaginação, do prestigio de uma belleza irresistivel, via augmentar o seu receio em abrigar tão perigoso seductor; do outro, sentia as mãos presas pelas obrigações imperiosas da hospitalidade, a qual, com a recommendação expressa de seu irmão mais velho, assumia caracter quasi sagrado. Juntem-se a isto os preconceitos sobre o recato domestico, a responsabilidade de vedar o sanctuario da familia aos olhos de todos, o amor extremoso á filha, em quem não depositava, comtudo, como mulher que era, confiança alguma, as supposições logo ideadas acerca da impressão que naturalmente aquelle estrangeiro produzira no coração da sua Innocencia, já quasi pertencendo ella a outrem, e as collisões que previu para manter inabalavel a sua palavra de honra, palavra dada em dois sentidos agora antagonicos—um mundo emfim de cogitações e de terrores. E tudo isto revolvendo-se na cabeça de Pereira, refletia-se com sombrios traços de inquietação em seu rosto habitualmente tão jovial.
—Por que razão é, perguntou elle a José Pinho para desviar aquella conversa que tanto o magoava, que vosmecê chama Mochú ao Sr. Meyer?
Sorriu-se o carioca com ar de superioridade e respondeu desembaraçadamente:
—Ah! É um modo de falar....
—Como assim?...
—Ja lhe ponho tudo em pratos limpos... Vosmecê não lhe chama Sr.?
—Chamo.
—Pois, então?... Eu tambem lhe chamo assim ... mas falo em francez. Mochú quer dizer senhor, nessa lingua.
—Ah! replicou Pereira dando-se por convencido, então é isso? Pensei que fosse outra coisa...
—Júque, avisou Meyer que estava a remexer nas canastras, prepare tudo; nós vamos ao matto agora mesmo....
—Venha commigo, propôz o mineiro com voz insinuante. Eu lhe apontarei lugares onde ha dessa bicharia miuda, coisa nunca vista.
—Com muito gosto concordou o allemão.
E voltando-se para o camarada:
—Ande, Júque, ordenou elle, bote a pita para fóra, caixas de folha de Flandres, chloroformio, rede prompta... Depressa homem, depressa!
José Pinho, instigado por estas palavras, entrou a voltear de um lado para o outro, como que atarantado com o excesso de serviço.
—Minhas lentes, pediu o naturalista, o sacco para os bichos de casca grossa.... Depressa.... Vou ajudal-o.
E, por seu turno, começou a tirar das canastras os objectos de que necessitava, enfiando a tiracollo dois ou tres talabartes finos que sustentavam umas caixinhas encouradas. Numa dellas, havia um copo de prata com a competente corrente; noutra, um faqueiro de peças dobradiças e de metal do principe. Tambem assentou ao flanco uma frasqueira defendida de choques externos por fino trançado de vime e que continha aguardente, comprada de fresco na villa de Sant'Anna do Paranahyba.
Não contente com o peso de todos esses appendices á sua pessoa, cingiu largo talim com uma especie de patrona de folha de Flandres e que sustentava um grande facão inglez, um revolver e uma espada de caça.
Depois de ter vagarosamente arranjado sobre si cada uma destas peças com grande espanto de Pereira e até de Cyrino, substituiu Meyer os oculos habituaes por outros, de vidros afumados, muito grandes e convexos, destinados a proteger-lhe amplamente os olhos dos ardores do sol. Muniu-se, além disso, de outro singular meio de preservação: uma rodella ampla de panno branco forrado de verde, que augmentava as abas do chapéu do Chile, descansando em parte sobre ellas.
Com esse trajo ficou de certo a mais estapafurdia figura que algum christão encontrar poderia naquellas trezentas leguas em derredor; entretanto, Pereira offendido com aquelles cuidados de prevenção meramente scientifica, que lá no seu bestunto qualificava de faceirice feminil:
—Veja só, disse elle para Cyrino, como este maricas gosta de se enfeitar!... Você não me engana, não, Sr. alla mão das duzias....
Mirava-se nesse momento o naturalista, para verificar se lhe faltava alguma coisa.
—Estou prompto, exclamou afinal, e muito desejoso de entrar no matto.
—Ponham-te a tinir os carrapatos, resmoneou Pereira.
—Ah! disse Meyer, e as minhas luvas?... Júque procure na canastra n.° 2, á esquerda, no segundo canto.
Sacou o camarada umas grandes luvas de lã brancas, muito largas, já usadas e sujas, nas quaes o allemão enfiou de um jacto as mãos espalmadas.
—Agora, sim? annunciou elle com satisfacção.
E, dando um sonoro e prolongado hum! empunhou a rede de apanhar borboletas.
Depois, levando um dedo á testa:
—Ah! exclamou, e o vinho! Não me ia esquecendo?... O vinho para sua filha Sr. Pereira, sua linda filha.
Encolheu o mineiro com furor os hombros e disse em aparte a Cyrino:
—Fez-se de esquecido só para falar na menina.... Veja bem. Este calunga não me bota areia nos olhos.
E accrescentou alto, recebendo a garrafa que o camarada José Pinho tirara de uma das canastras:
—Agradeço o seu presente, Sr. Meyer mas se ... lhe faz a menor falta ... a menina hade curar-se sem isto....
—Não, não, não, não, respondeu o saxonio com uma serie de negativas que pareciam não dever ter fim.
—Neste mundo, rosnou Pereira mais para si do que para ser ouvido, ninguem mette prego sem estopa: mas com sertanejos ... não se brinca.
Cyrino tomara a garrafa.
—Isto, affirmou elle, acaba com certeza a cura.
E, esquivando-se de pronunciar o nome e a qualidade da pessoa de quem estava tratando:
—Ella, hade ter hoje algum appetite e poderá levantar-se um pouco, pois já tomou o seu caldinho.
—Então, ao meio dia, recommendou Pereira muito baixinho a Cyrino, vosmecê mande chamar a nossa doente e dê-lhe a mézinha. Ouviu? Já avisei lá dentro...
Cyrino abanou a cabeça, tomando ar mysterioso.
—Eu por mim estarei de olho vivo no bichão... Parece-me çuçuarana á espreita de veadinhas campeiras... Não terá este vinho algum feitiço?
Contestou o outro com energia tal possibilidade.
—Eu sei lá, insistiu Pereira. Estes namoradores são capazes de muita coisa.... Nunca ouviu contar historias de pirlas[82] e beberagens ... hen? diga-me, nunca?
—Socegue, Sr. Pereira, acudiu Cyrino, hei-de examinar o liquido ... tenho certeza de que não haverá novidade.
—Muito que bem... Então, ao meio dia em ponto ... chame a Maria Conga ou o Tico. Nocencia hade arrastar-se até cá ... e o doutor lhe dará a dose...
—Ella sahir já? objectou Cyrino com admiração. Não senhor; em tal não consinto... Irei dar-lhe o remedio... Não me custa nada...
Pereira ficara meio perplexo.
—Não sei...
E com subita resolução:
—Pois bem, virei da roça ate cá... Se eu não apparecer, então o senhor dê um pulo e faça-lhe tomar a poção... Quanto a este allamão melado, levo-o para longe e não o trago senão bem tarde e tão moido do passeio que só ha-de pensar em dormir.
Com Pereira se dava um facto natural e comezinho nas singularidades do mundo moral.
Á medida que as suspeitas sobre as intenções do innocente Meyer iam tomando vulto exagerado, nascia illimitada confiança naquelle outro homem que lhe era tambem desconhecido e que a principio lhe causara tanta prevenção quanto o segundo.
É que as difficuldades e collisões da vida, quando se aggravam, tão fundo nos incutem a necessidade do apoio, das sympathias e dos conselhos de outrem, que qualquer alliado nos serve, embora de muito mais proveito fora bem pensada reserva e menos confiança em auxiliares de occasião.
CAPITULO XIV REALIDADE
Cordelia—Hade o tempo desvendar o que hoje esconde a discreta hypocrisia.
SHAKESPEARE.—O Rei Lear, Acto I.
Depois que Cyrino viu sumir-se Pereira com os dois companheiros além do laranjal da casa, seguindo em direcção á roça por uma vereda pedregosa e cheia de seixos rolados, nos quaes iam as patas dos animaes batendo; depois que teve certeza de que ficara só n'aquella vivenda, entrou em grande agitação.
Ora, passeava pelo quarto rapida e inquietantemente; ora, media-o com passo lento em muitas direcções; ora emfim, sahia para o terreiro e alli, com a cabeça descoberta, ficava a olhar attentamente para diversos lados, abrigando com a mão aberta os olhos, dos vivissimos raios do sol.
Promettia o dia ser muito calido. Por toda a parte chiavam as estridulas cigarras, e ao longe se ouvia o metallico cacarejar das seriemas nos campos.
Ás vezes, encarava Cyrino o sol; depois tapava os olhos deslumbrados e, tomado de vertigem, voltava para a sala, onde recomeçava os seus passeios.
Porque, porem não descansava o mancebo?
Entrando familiarmente pela sala dentro, os bacorinhos se haviam abrigado dos ardores do dia e, deitados debaixo de uns giraus, resonavam, presa de gostoso somno.
Tudo quando vivia appetecia a sombra e o repouso. Fóra, o sol reverberava violento em seus fulgores, e as sombras das arvores iam cada vez mais diminuindo. Até uma egua com o esguio e peludo poldrinho deixara o distante pasto e viera abrigar-se, à protecção da casa, junto á qual parara já meio a cochilar.
Á enervadora acção do calor estival, juntavam sua influencia as monotonas modulações de umas chulas e modinhas, cantadas ao som da viola de tres cordas pelos camaradas de Cyrino, accommodados no rancho junto ao paiol de milho.
A tudo entretanto resistia o joven, e com ascendente desassocego consultava o seu relogio de prata, tirando-o a cada instante do bolso.
Passaram-se segundos, minutos e horas. Afinal soltou elle um suspiro de allivio:
—Meio dia!... Cuidei que nunca havia de chegar!...
Sahindo todo animado para o terreiro, chamou com voz forte:
—Maria... Ó Maria Conga!...
Ninguem lhe respondeu. Só do lado da cozinha ladraram uns cães.
Depois de esperar algum tempo, rodeou Cyrino toda a casa, como fizera com Pereira e, encostando-se á cerca que impedia a approximação do lanço dos fundos, tornou a chamar:
—Ó Maria?!... Maria!... Está dormindo, minha velha?
Vendo que os gritos ficavam sem resposta, saltou então o cercado e foi caminhando para a porta da cozinha, de vagar porem, e como que a medo.
—Ó Maria?!... Minha tia!... Olá! Ó de casa! chamava elle.
Afinal appareceu não a velha escrava mas o anão Tico que pareceu, com imperioso movimento de cabeça, indagar a causa daquelle intempestivo alarma.
—Que é da Maria Conga? perguntou Cyrino chegando-se a elle.
Por meio de moderada gesticulação, mas muito expressivamente, deu Tico a entender que a preta fora ao corrego lavar roupa.
—E não ha mais ninguem em casa? inquiriu o outro.
Mostrou o anão, com singular expressão de orgulho e despeito, que alli estava elle e deitou um olhar de colera para o imprudente curioso.
—Bem, replicou Cyrino sorrindo-se, vá você então dizer á sinhá dona, que já chegou a hora de tomar o remedio. Trago o vinho, e é preciso quanto antes preparar café.
Desappareceu Tico, fazendo um aceno ao intitulado medico para que esperasse fóra.
—Ora, exclamou este com aborrecimento e tom de chacota, aqui ao sol?... Não está má esta!... E que tal o mestre nanica?...
Sem mais cerimonia entrou, pois, na casa, penetrando no quarto que ficava entre a cozinha, theatro da actividade de Maria Conga e a sala de jantar, onde se dera a apresentação de Meyer a Innocencia.
Dahi a pouco, ouviu passos arrastados e aos seus olhos mostrou-se Innocencia embrulhada em uma grande manta de algodão de Minas de variegadas côres e com os longos e formosos cabellos cahidos e puxados todos para traz. Os grandes e avelludados olhos orlados de fundas olheiras, e o quebrantamento do semblante, muita fraqueza denunciavam ainda; entretanto, as setinosas faces como que se apressavam a tomar côres, a semelhança de rosas impacientes de desabrochar e expandir-se vivazes e alegres. Ao chegar à porta, não a transpoz; mas encostando-se á grossa trave que fazia de umbral, alli ficou parada, indecisa, com o olhar turbado e esquivo.
Ao vel-a, deu Cyrino com timidez alguns passos ao seu encontro; depois, por seu turno estacou junto a uma cadeira de comprido espaldar, antigo e solido traste trazido por Pereira da sua casa de Piumhy.
Após longa pausa, em que por vezes se cruzaram incertos os olhares, perguntou com esforço:
—Então ... minha senhora ... como está?... Sente-se melhor?
—Melhor, obrigada, respondeu Innocencia com voz aflautada e muito tremula.
—Comeu já alguma coisa?
—Nhôr-sim ... uma aza de frango, mas com ... bastante vontade.
—Sente o corpo abatido?
—A canseira está passando ... hontem muito mais...
A pouco e pouco, fora Cyrino recuperando o sangue frio e se approximando da moça, que mais se apegou á umbreira, como que a procurar abrigo e protecção.
De um lado da porta ficou ella; do outro Cyrino, ambos tão enleiados e cheios de sobresalto que davam razão ás olhadas de espanto com que os encarava Tico, empertigado bem defronte dos dois em suas encurvadas perninhas.
—Pois chegou a hora de tomar o remedio...
—Já seu doutor implorou Innocencia.
—Nhã-sim.
—Eu não tenho mais nada...
—É para cortar de uma vez as sezões... Olhe, se ellas voltassem ... era um grande desgosto para mim...
—Mas é tão mau, objectou ella.
—Não é bom deveras ... mas bem melhor é voltar à saude... Com um bocadinho de coragem, a gente engole tudo sem muito custo... Já que lhe amarga tanto ... beberei tambem um pouco...
—Oh! não! protestou Innocencia.
—É para lhe mostrar ... que quero sentir ... o que mecê sente.
Fez-se a menina da cor da pitanga, levantou uns olhos surpresos e voltou logo o rosto para fugir dos olhares ardentes de Cyrino.
—A mézinha? pediu ella por fim toda commovida.
—Ah! é verdade! exclamou Cyrino. Ande, Tico: vá buscar café á cozinha. Lave bem um pires ... percebeu?
O anão fitou o moço com altivez e não se mexeu.
—Você é surdo?
—Não, respondeu Innocencia. Tico ás vezes, por manha é que se faz ansim de mouco.
Voltando-se então para o homunculo, insistiu com voz meiga e carinhosa:
—Vai Tico; é para mim, ouviu?
Transformou-se repentinamente a physionomia do anão. Pairou-lhe nos labios ineffavel sorriso, meneou a cabeça duas ou tres vezes com a força de uma affirmação mas, colerico, enrugou a testa e moveu olhos inquietos e duvidosos.
Innocencia teve que repetir o recado.
—Já lhe disse, Tico: vai buscar o café.
A esta quasi ordem não ousou elle resistir mas sahiu devagarsinho, voltando-se várias vezes antes de entrar na cozinha, onde muito pouco se demorou.
Neste entrementes tomara Cyrino o pulso de Innocencia e, sem pensar no que fazia, quebrando a debil resistencia da menina, cobrira-lhe de beijos o braço e a mãosinha que havia segurado.
—Meu Deus! balbuciou ella, que é isto?... Olhe ahi vem o Tico.
Recuou então o mancebo e, para melhor disfarçar a commoção adeantou-se para o anão que vinha trazendo na mão direita uma vasilha de folha de Flandres, e na outra um pires com colher.
—Muito bem, disse elle, ponha tudo em cima da mesa.
E preparando rapidamente o medicamento, apresentou-o a Innocencia, que sem hesitação o sorveu todo.
—Deixe-me um pouco, exorou com ternura Cyrino, um pouco só ... Se é tão mau ... soffra eu tambem.
—Não, respondeu ella com alguma energia, porque havéra de mecê soffrer?
E, ou por effeito do inexprimivel e desconhecido abalo que experimentara no estado de debilidade a que chegara, ou por ser aquella a hora em que costumava a febre salteal-a, o certo é que teve de encostar-se ou melhor, agarrar-se ao umbral para não cahir a fio comprido no chão.
—Oh! exclamou com angustia Cyrino, a senhora vae desmaiar.
Transpondo então o limiar da porta, tomou nos braços a pallida donzella, sem reluctancia encostou a desfallecida cabeça ao seu hombro e, com o hálito offegante, aos poucos lhe foi fazendo voltar ás faces o precioso sangue.
—Estou melhor, balbuciou ella procurando afastar a cabeça de Cyrino.
—Não faça de forte á toa, acudiu este. Vamos até aquella cadeira.
E, com toda a lentidão e cuidado, foi levando a convalescente até sental-a, desembaraçando-a depois dos muitos cabellos que, todos revoltos, lhe haviam invadido o collo e se esparziam sobre o rosto.
—Quanto cabello! exclamou Cyrino meio risonho.
Com muita attenção seguira Tico as peripecias de toda aquella scena. Ao ver Innocencia perder quasi os sentidos, soltou um grito surdo de desespero; depois, foi seguindo-a até a cadeira e, ajoelhado deante della, contemplou-a com inquietação.
Cyrino quiz aproveitar a occasião para um congraçamento.
—Então está com cuidado, Sr. Tico?... Não é nada ... sua ama fica boa logo... Não é o que você quer?
Ao ouvir esta interpellação, levantou-se o anão e correspondeu ao sympathico annuncio do moço com um olhar de desprezo e pouco caso, como que a dizer:
—Não se metta commigo, que não quero graças com você, medico de arribação!
—Agora, disse Cyrino voltando-se para Innocencia, vae mecê beber dois goles deste vinho... Verá logo, que sustancia hade sentir dentro do corpo.
Desarrolhou, então, com a ponta da comprida faca que tirou do cinto, a garrafa de vinho offerecida por Meyer, e num caneco de louça branca apresentou á moça um pouco do roborante liquido.
Molhou a doentinha os labios e gratificou o obsequioso mancebo com um sorriso encantador.
Decididamente lhe agradava aquelle medico: curava do seu corpo enfermo e entendia-lhe com a alma. Raros homens que não seu pae e Manecão, além de pretos velhos, tinha até então visto; mas a ella, tão ignorante das cousas e do mundo, parecia-lhe que ente algum nem de longe poderia ser comparado em elegancia e belleza a esse que lhe ficava agora em frente. Depois, que cadeia mysteriosa de sympathia a ia prendendo aquelle estranho, simples viajante que via hoje, para sem duvida, nunca mais tornar a vel-o?
Quem sabe, se a meiguice e bondade que lhe dispensava Cyrino não eram a causa unica, desse sentimento novo, desconhecido, que de chofre nascia em seu peito, como depois da chuva brota a florsinha do campo?
A muito obriga a gratidão.
Rapidos correram esses pensamentos pela mente de Innocencia, ao passo que as suas pupillas se iam erguendo até se fixarem em Cyrino, limpidas, grandes, abertas, como que dando entrada para elle ler claro o que se lhe passava na alma.
—Sinto-me tão bem disse ella com metal de voz muito suave, tão leve de corpo, que parece nunca mais hei-de ficar mofina.
—Não, não, de certo! exclamou Cyrino, nunca mais. Alem disso, aqui estou e...
Com a sua chegada, interrompeu Maria Conga, a velha negra, aquelle começo de dialogo. Vinha da fonte com volumosa trouxa de roupa que entrou a estender em compridos bambús, assentes horizontalmente sobre forquilhas fincadas no chão.
Despedindo-se então Cyrino de Innocencia:
—Agora, lhe disse elle risonho e pegando-lhe na mão, socegue um pouco: depois tome um caldo e ... queira-me bem.
—Gentes! Porque lhe não havéra de querer? perguntou ella com ingenuidade. Mecê nunca me fez mal...
—Eu, retrucou Cyrino com fogo, fazer-lhe mal? Antes morrer... Sim ... dona ... da minha alma, eu...
E, sem concluir, disse repentinamente:
—Adeus!
Depois, com passo lento, foi se retirando e passou deante da janella junto á qual ficara Innocencia sentada.
—Olhe! recommendou elle recostando-se ao peitoril, cuidado com o sereno...
—Nhor-sim...
—Não beba leite...
—Mecê já disse.
—Coma só carne de sol...
—Já sei...
—Então, adeus ... adeus, menina bonita!
E, a custo, despegou-se daquelle lugar, onde quizera ficar, até que de velhice lhe fraqueassem as pernas.
CAPITULO XV HISTORIAS DE MEYER
Grande felicidade é ter um filho prudente e instruido; mas, quanto a filhas, é para todo pae carga bem pesada.
MENANDRO.—Os Primos.
Com a tarde voltaram Meyer, José Pinho e Pereira e, pouco depois d'elles, tres avelhentados escravos; estes dos trabalhos agricolas, aquelles de grandes excursões entomologicas.
Vinha o mineiro meio risonho e em altos gritos acordou Cyrino que deitando-se a dormir, sonhara todo o tempo com a graciosa doente.
—Olá, amigo! olá, doutor! chamou Pereira com voz retumbante, isso é que é vida, hen? Emquanto nós trabalhamos, eu e o Mochú do José, você está nessa cama de velludo!...
—É verdade, concordou o moço, apenas os Srs. se foram, estendi as pernas e até agora enfiei um somno só...
—E o remedio da menina? perguntou Pereira abaixando a voz.
—Ora, Sr., e eu que me esqueci!... Não faz mal... se ella não teve febre... Ah! espere ... agora me lembro!... Eu lh'o dei ... estou ainda tonto de somno.
Riu-se Pereira.
—Estes doutores matam a gente, como se fosse cachorro sem dono.... Num momento lhes passa da cachola se deram ou não mézinhas e venenos a christãos...
Vendo que Meyer sahira da sala, mudou repentinamente de tom, proseguindo em voz baixa e muito rapidamente:
—Então, sabe que o tal allamão levou todo o dia, só querendo puxar conversa sobre a menina?
—Devéras?
—É o que lhe digo... E ... eu com as mãos atadas por aquelle offerecimento de leval-o a comer lá dentro!... Nada, nem que desconfie e se arrenegue dos meus modos ... não me pisa em quarto de familia... Deus te livre!...
Com effeito á hora da ceia, Meyer manifestou surpresa de comer na mesma sala; não, que tivesse motivo para desejar outro qualquer local; mas, methodico como era, gravara na mente a promessa de Pereira e, por delicadeza, suppunha dever lembrar-lhe.
As desculpas que o mineiro apresentou foram arranjadas de momento e ajudadas victoriosamente por Cyrino, carregando este com a responsabilidade de haver recommendado á enferma muito socego, quasi completa solidão.
De modo muito expansivo se manifestou tambem o reconhecimento de Pereira.
—Estou conhecendo, disse elle em aparte e apertando a mão de Cyrino, que o doutor é homem serio e com quem se póde contar... Deixe estar ... o Manecão hade ser amigo seu... Isso hade sel-o... Pessoas de bem devem conhecer-se e estimar-se... Ora, veja o tal cujo ... que temivel, hen?...—Não faz mal, hade ter o pago.
Se Pereira se mostrava contrariado e inquieto, muito pelo contrario parecia o naturalista nadar em mar de rosas.
—Sr. doutor, declarou elle a Cyrino á mesa da ceia, por muitos motivos, estou em extremo contente com a minha estada aqui... Hoje achei mais bichinhos curiosos do que em todas as zonas porque tenho andado.
—Vosmecê nem imagina, interrompeu Pereira dirigindo-se para Cyrino, o que faz este senhor quando está dentro do matto. Ainda hade quebrar o pescoço n'algum barranco a que se atire, pois caminha com as ventas para o ar... Não sei como não tem ambos os olhos furados ... não repara em galhos nem em nada ... só o que quer é agarrar anicetos... Já o avisei umas poucas de vezes; agora, sua alma, sua palma...
Judiciosas eram as advertencias do mineiro e bem cabidas; tanto assim que numa das tardes seguintes voltou Meyer todo arranhado e com um gilvaz tão grande, que immediatamente deu nas vistas de Cyrino.
—Que foi isso, Sr. Meyer? perguntou elle com admiração. O Sr. andou por ahi fora aos trambolhões com alguma onça?
—Oh! não é nada, respondeu fleugmaticamente o allemão.
—E a sua roupa vem suja de barro ... toda rota...
Desatou Pereira a rir.
—Isto são historias deste homem... Bem lhe dizia eu que mais dias menos dias isso havia de acontecer. Meu amigo não sabe do dictado:... Fia-te na Virgem e não corras, verás o tombo que levas!... Tambem foi um dia em que me ri a mais não poder. Tomei um fartão... Imagine vosmecê que o tal Sr. Meyer, como ja lhe contei, anda pulando dentro da matta como se fosse veado mateiro... O José Pinho, que é mitrado, vae sempre pela estrada limpa...
—Preguiçoso, atalhou Meyer a modo de observação.
—Juizo tem elle, proseguiu o mineiro: mas, como ia dizendo cá, o Sr. com seus arrancos e saltos parece anta disparada. Em apparecendo bichinho voador, zás trás que darás, lá vae elle logo sem olhar para os paus, podendo pisar em cobras e espinhos, com aquella rede na mão, e tanto faz que engalfinha sempre algum animalejo... Hoje fui para a roça, e o homem furou o matto, emquanto José buscou uma sombrinha e entrou logo a roncar como um perdido...
—Eu, não Sr., protestou José Pinho que queria ouvir a historia.
—Vóce sim, corroborou Meyer com severidade, preguiçoso!... Ande ... dê cá a pita.
—Pois bem, continuou Pereira, dahi a duas horas voltou Mochú neste estado pouco mais ou menos; mas trazia uma caixa cheia de bichos do matto...
—Oh! perguntou Cyrino, e são bonitos?
—Não ha mais nada, suspirou Meyer com tom dolente, o trabalho ficou perdido!... Eu tinha apanhado cinco especies novas... Uma queda...
—Deixe-me contar o caso, atalhou Pereira. Oh! eu ri-me ... ri-me...
E, para confirmar a asserção, pôz-se novamente a dar gargalhadas, que foram acompanhadas por José Pinho e até por Meyer, da parte deste com menos expansão comtudo.
—Appareceu-me o Mochú muito contente com a sua caixa, como se tivesse o rei na barriga. Era uma immundicie de besouros, cascudos e cigarras, que o Sr. nem póde imaginar... Havia de tudo; depois, quando voltamos da roça, enxergou elle num pau podre um aniceto vermelho e foi correndo a apanhal-o. Eu bradei-lhe:—Olhe, que ahi tem barranco: a arvore é podre e oca, e vosmecê rola pelo despenhadeiro, que nem a sua alma se salva.—Qual! O homem é teimoso, como um cargueiro empacador... Eu gritava-lhe:—Tome tento, Mochú!—Sem attender a nada, começou a caminhar em cima da cipoada que cobria a boca de um percipicio, fundo como tudo neste mundo... Quando ia botar a mão no tal bicho encarnado, encostou-se ao pau e ... zás! ... afundou-se, dando um grito esganiçado que parecia de cotia. Mal teve tempo de agarrar-se aos cipós e lá ficou entre a vida e a morte, chamando Júque, Júque!... Eu quando vi isso, mandei a toda a pressa buscar á roça uma vara comprida e, se ella não chega logo, o Sr. Meyer e toda a sua bicharada rolavam de uma vez por aquelles fundões.
—Não, rectificou o allemão, bicho rolou; caixa abriu e tudo lá se foi no fundão...
—Pois bem, o Mochú segurou-se com unhas e dentes ao páo e nós puxámos devagarinho, devagarinho, com um medo, um medo!... Maria Santissima!...
Fazendo breve pausa:
—O mais engraçado ainda não chegou, avisou o mineiro: Ah! vosmecê vae tomar uma boa data[83] de riso. Quando o Mochú ganhou pé em terra, pôz-se a pular como um cabrito doido, por aqui, por acolá, pulo e mais pulo, e gritando como se o estivessem esfolando... Estava ... ah! meus Deus! ... estava cheio de formigas novatas![84]
—Sim, exclamou Meyer com desespero, formiga de pau podre! ... mein Gott... Eu rasgo a roupa ... eu pulo ... eu gemo ... fico nú como quando minha mãe me botou no mundo!... Horrivel... Formiga do diabo!... Faz calombo em todo o meu corpo... Muita dor!...
Com reiteradas e estrondosas gargalhadas acolheram Pereira, Cyrino e José Pinho essas energicas imprecações.
—Poderá isso, observou o mineiro, cural-o da mania de não ouvir os outros que conhecem as coisas.
E voltando-se para Cyrino:
—Verdade é que o corpo delle... Que corpo. Sr. doutor, tão arco! ... ficou todo empolado que foi preciso esfregal-o com folhas de fumo. Depois, tomou um banho no ribeirão...
—Tudo estava muito bom, observou Meyer, se caixa não abre e atira no buraco meu trabalho...
—Ora, ficará para amanhã, consolou philosophicamente o camarada.
Pereira, acalmado o frouxo de riso, approximara-se de Cyrino e lhe falava a meia voz:
—Ah! doutor, tive uma vontade de deixar este allamão sumir-se no socavão!...
Se não fosse meu hospede, emfim, e recommendado de meu mano, palavra de honra pinchava-o de uma vez no inferno...
Não sou nenhum pinoia[85]...
—Mas porque? indagou Cyrino simulando admiração...
—O Sr. ainda me pergunta?... Porque o homem não me faz senão falar em Nocencia... Outra vez me disse que ella era muito bonita e mil cousas ... perguntou se estava casada, se não; que era preciso casar as mulheres para bem dellas... Eu lá sei o que mais?... Isto é um bruto perdido ... um namorador!...
—Qual, Sr. Pereira!...
—É o que lhe digo!... Por acaso sou cobra de duas cabeças[86] que não veja?!... Ah! que peso uma filha! Ah! E então uma menina que já está apalavrada... Isto é uma anarchia[87]! Que diria meu genro, o Manecão?...
—Não poderá dizer nada, retrucou o moço. E que diga, não faltará quem queira sua filha...
—Louvado Deus, não de certo! Eu é que não quero que ella ande de mão em mão... Ou casa com o Dóca ou...
—Ou ... o que? perguntou Cyrino com inquietação mas fingindo pouca curiosidade.
—Ou mato a quem lhe vier transtornar a cabeça... Commigo ninguem hade tirar farofa!... E não hei de ter mil cuidados, quando vejo este estranja estar com suas macaquices a dar no fraco das mulheres?
Por ora, nada fez elle...
Por ora ... só leva a falar na pobre menina, que a Sra. Sant'Anna guarde de todo o mal!... Podesse eu advinhar e macacos me mordam, se punha os olhos em cima de Nocencia. Nem que viesse com cartas e ordens do Sr D. Pedro II....
Chamei o José Pinho, proseguiu elle em voz baixa, e dei-lhe uns toques.—Então, disse-lhe eu, seu amo é o diabo com mulheres hen? Elle que é muito ladino[88] respondeu-me logo.—Nhôr não.—Assumptei a embromação[89],—Qual, você, carioca, tem levado areia nos olhos.—Eu? ... não é capaz... Então você não tem visto o que faz seu amo?—Tem sido um santo, retrucou o espertalhão. No Rio, sim—Na Côrte?—Nhôr-sim, na Côrte. Ia todas as noites a uma casa de bebidas, assim uma especie de venda de muito luxo e lá estava horas perdidas petiscando e conversando com senhoras damas, muito bonitas, bem limpas ... algumas com o pescoço e os braços todos á mostra...
—Contou-lhe isso? atalhou Cyrino com alguma duvida e sobresalto.
—Contou, affirmou Pereira com furor.
Vejam só que homem, hen? É um mequetrefe!... Esta noite e d'ora em deante, venho dormir nesta sala a ver se elle se mexe da cama. Ah! se eu pudesse! ... cahia-lhe de cala-bocca[90] em cima, que lhe deixava as costellas em lascas.
Acabavam as imprudentes historias de José Pinho de por a ultima pedra ao edificio da desconfiança que tão depressa erigira a imaginação de Pereira em desconceito de Meyer. O que nellas havia de verdade, eram apenas algumas horas de lazer, consagradas, durante a estada no Rio de Janeiro, pelo naturalista ao consumo de grandes copazios de cerveja no café Stadt Coblenz, e nas quaes entretivera risonhos, bem que innocentes colloquios, com pessoas do sexo amavel, frequentadoras daquelle estabelecimento e de costumes não lá muito rigorosos.
CAPITULO XVI O EMPALAMADO
Ao homem não faltam importunações; quanto à vossa capacidade, nem a conhecemos.
MOLIÈRE.—O medico á força.
Conforme o promettido, trouxe Pereira a rede para a sala dos hospedes e, encetando um modo de vigilancia muito especial, ainda que perfeitamente inutil em relação á pessoa suspeitada, associou os sonoros roncos do valente peito á ruidosa respiração de Meyer.
Se, comtudo não tivessem seus olhos a venda da confiança ou, melhor, se o somno não os acommettesse sempre com tamanha imposição, de certo em breve houvera estranhado a cruel agitação em que vivia Cyrino e que este não podia mais encobrir.
Na verdade, o modo porque o infeliz mancebo passava as noites era de fazer nascer suspeitas no espirito mais indifferente e desprevenido. Ou se revolvia na cama, dando mal abafados suspiros, ou então sahia para o terreiro, onde se punha a passear e a fumar cigarros de palha uns após outros, até que os gallos, alcandorados na cumieira da casa e nas arvores mais proximas, annunciassem as primeiras barras do dia.
Desabrida paixão enchia o peito daquelle malsinado; dessas paixões repentinas, explosivas, irresistiveis, que se apoderam de uma alma, a enleiam por toda a parte, a prendem de mil modos, a suffocam como as serpentes de Neptuno a Laocoonte. Conhecedor, como era, dos habitos do sertão, do jugo absoluto dos preconceitos, do respeito fatal á palavra dada, antevia tantas difficuldades, tamanhos obstaculos deante de si, que, se de um lado desanimava, do outro mais sentia revoltado o nascente e já tão violento affecto.
—Deus me ajudará, pensava comsigo mesmo: o que só quero é a amizade de Innocencia... Ha dias que não a vejo ... se não puder mais vel-a ... dou cabo da vida...
Sublevava-se o seu coração, gyrava-lhe o sangue com vertiginosa rapidez nas veias e vinha toldar-lhe a vista, trazendo ondas de rubro calor ao descorado rosto.
—Nossa Senhora da Abbadia, implorava elle puxando os cabellos com desespero, valei-me neste apuro em que me acho! Dae-me pelo menos esperanças de que aquella menina poderá um dia querer-me bem... Nada mais desejo... Possa o fogo que me consome abrazar tambem o seu peito...
Costumava a fervorosa prece dirigida á Santa da especial devoção de toda a provincia de Goyaz acalmar um pouco o mancebo, que alquebrado de forças pegava no somno para, instantes depois, acordar sobresaltado e cada vez mais abatido.
Tambem estava sempre de pé, quando Pereira costumava saltar da rede.
—Oh! observou elle da primeira vez, isso é que se chama madrugar.
—Pois é contra o meu costume, replicou Cyrino, todas estas noites tenho passado mal...
—Na verdade vosmecê não está com boa cara...
—Creio que me entraram no corpo as maleitas.
—Essa é que é boa! Então o doutor foi emprestar[91] da doente a molestia?...
Olhe, é preciso pôr-se forte, porque hoje mesmo ha-de lhe chegar uma boa machina de doentes...
—Melhor...
—Já está tudo espalhado por ahi da sua chegada e a romaria não ha de tardar.
—Cá a espero...
—Naturalmente virá primeiro o Coelho... É boa occasião de pagar a sua divida... Não tenha receio de puxar mais no preço...
—Daqui mesmo pretendo despachar um proprio para me ver livre dessa obrigação...
—Isso mostra que o Sr. é pessoa de brio... Não é como certa gente que conheço...
Ao dizer estas palavras, voltara-se Pereira para Meyer a contemplal-o attentamente.
Estava na verdade o allemão digno de exame, posto ainda de parte outro qualquer motivo que não o de simples curiosidade.
Dormia com as pernas e braços abertos e cahidos para fóra do estreito leito das canastras: tinha o queixo muito levantado pela posição incommoda da cabeça, deixando a boca meio aberta ver uma fieira de magnificos dentes.
—Está roncando, hen? murmurou o mineiro. Cavouqueiro ... a mim você não engana ... mas é o mesmo!
Iam as prevenções de Pereira tomando proporções de idéa fixa, e Meyer, na simplicidade da ignorancia, como que de proposito ministrava elementos para que ellas mais e mais se fossem arraigando.
Assim, ao almoço, lembrou-se de perguntar entre duas enormes colheradas de feijão:
—Sua filha, Sr. Pereira? Como vae? É melhor?
—É melhor o que, Mochú? exclamou o pae com modo esquivo.
—A saude della é melhor?
—Está melhor; está, está, respondeu Pereira muito seccamente. Está boa ... vae fazer uma viagem...
—Viagem; para onde?... Até á villa?
—Homem, Mochú, observou o mineiro um tanto desabrido, vosmecê está que nem mulher velha, tudo quer saber...
Meyer, nessa reprehensão que lhe causou vexame e alguma admiração, só enxergou censura justa à sua curiosidade, falta que confessou com toda a nobreza, bem que aggravando a situação.
—É verdade, Sr. Pereira, concordou elle. A boa educação não manda o que eu fiz ... mereço porém desculpa, mereço... Sua filha é tão interessante ... que me lembro sempre della... Tenho commigo uns presentesinhos...
—Guarde-os, rosnou Pereira abafando a reflexão num accesso de tosse.
E para evitar o proseguimento de semelhante assumpto, deu por finda a refeição, levantando-se da mesa.
—Ahi vem o Coelho, doutor, exclamou elle olhando para fóra. Chi! como esta amarello!... Ha tempos que o não via ... já parece alma do outro mundo... É do tal em quem falamos... Aperte-o, porque é mofino como tudo...
E, interpellando a quem chegava gritou:
—Bons olhos o vejam!... Se não fosse, amigo Sr. Coelho, ter medico em casa, nunca havéra de vel-o por cá; não é verdade?
—Ora, respondeu o outro com um gemido, ando sempre tão doente. Nem faz gosto viver assim... Mas qu'é delle, o homem?
—Está aqui...
—Já me disseram que faz milagres. Deixou nome para lá das Parnahybas...
Sabia?
—Lá que tivesse deixado nome, não; mas que é cirurgião de patente, tenho certeza, porque, num abrir e fechar de olhos, me pôz de pé uma pessoa cá de casa.
—Se elle me curar ... não sei mesmo como lhe agradecer.
—É pagar-lhe, concluiu Pereira tratando logo de advogar os interesses do hospede.
—Sim, hei-de ... pagar-lhe, confirmou o outro com alguma hesitação.
—Em todo o caso, desça do animal.
Pouco depois, entrava na sala e comprimentava a Cyrino e a Meyer a pessoa a quem o mineiro chamara Coelho. Era homem já de edade, muito mais quebrantado por enfermidades que pelos annos; tinha a testa enrugada, as bochechas meio inchadas e balofas, os labios quasi brancos e os olhos empapuçados.
—Qual dos senhores é o doutor? perguntou elle.
—Sou eu, respondeu Cyrino revestindo-se de convicto ar de importancia, emquanto Meyer apontava para elle, cedendo direitos que talvez pudesse contestar.
Interveio Pereira com amabilidade:
—Sente-se, Sr. Coelho, sente-se. Não se ponha logo a falar de molestias... Isto não vae de afogadilho... Descance um pouco... Olhe, já almoçou?
—O pouco que como, retrucou o outro, já está comido.
—Pois bem, ponha-se primeiro a gosto: depois então, converse com o doutor... Diga-me: que ha de novo pela villa?
—Que eu saiba, nada.... Tambem ha mais de anno, que de lá nenhuma noticia tenho... Já não se me dá do que vae pelo mundo... Quem não goza saúde, perde o gosto de tudo... É mesmo uma calamidade...
Emquanto Coelho, em toada monotona, desfiava outras queixas no mesmo sentido, tirara Cyrino da canastra o seu Chernoviz e algumas hervas seccas que depoz em cima da mesa.
—O senhor, declarou elle voltando-se para o doente, está empalamado.
—É verdade, Sr. doutor.
—Eu, que não sou physico, observou Pereira, diria logo isso...
—Chi, compadre! atalhou Coelho com impaciencia e pedindo silencio.
—O senhor, continuou Cyrino com entono, teve maleitas muitos annos afios[92] depois, começou a sentir fastio e o estomago embrulhado; inchou todo e em seguida definhou... Aos poucos, foi perdendo a sustancia e o talento[93].
—Tal qual! murmurou Coelho seguindo com cautelosa attenção a marcha do diagnostico.
—Agora, o Sr. não póde comer que não sinta affrontação, não é?
—Muita, Snr. doutor.
—Este homem, disse Pereira para Meyer, leu bastante nos livros....
—Veio-lhe depois uma canseira, e, quando o Sr. anda, dão-lhe uns suores e tremuras por todo o corpo... O baço está engorgitado e o figado tambem... De noite fica o Sr. sem poder tomar respiração, mais sentado que deitado... Ás vezes tosse muito, uma tosse sem escarrar, como quem tem um pigarro secco...
—Tal qual! repetiu o enfermo com uncção e quasi enthusiasmo.
—Pois bem, terminou Cyrino, como já lhe disse, o Sr. está empalamado.
—E não ha cura? perguntou Coelho meio duvidoso.
—Ha, mas o remedio é forte.
—Comtanto que faça bem...
—Muita gente, replicou Cyrino, tenho já curado em estado peior que o Sr.; mas, repito, o remedio é violento...
—Tomarei tudo, affirmou Coelho: ha annos que faço um horror de mézinhas e de nenhuma dellas tiro proveito. Vamos ver.
Cyrino neste ponto mudou o tom de voz e olhando para Pereira:
—O Sr. sabe, observou elle que o meu modo de vida é este...
Com um movimento de cabeça applaudiu o mineiro aquella estrada em materia.
O mesmo não pensou Coelho, que tartamudeou:
—Ah!... Estou prompto... Sou pobre muito pobre...
Piscou Pereira um olho com malicia.
—Costumo, continuou Cyrino, receber o pagamento em duas ametades...
Depois accrescentou, um tanto vexado:
Si falo nisto agora com esta pressa, é porque tambem tenho precisão urgente de dinheiro... Não acha, Sr. Meyer?
—Pois não, pois não, concordou o allemão: tem todo o direito.
—Meu amigo, corroborou Pereira, o doutor não trabalha para o bispo; tem que ganhar honradamente a vida.
—Então como lhe dizia, proseguiu o outro dirigindo-se para Coelho, o senhor pagar-me-ha no principio da applicação e no fim. Assim, não ha enganos... Serve-lhe?
—Que remedio! suspirou Coelho. Eu lhe darei ... até trinta mil réis ... ou ... quarenta...
—Qual! retorquiu Cyrino. O meu preço é um só.
—E a quanto monta?
—A cem mil réis[94].
—Cem mim réis! exclamou Coelho aterrado.
—Cincoenta no principio, cincoenta no fim.
Gemeu o doente lá comsigo.
—Ora o que é isto para você, compadre? interveio Pereira. Um atilho de milho para quem tem tulhas cheias a valer[95]!...
—Nem tanto, nem tanto assim, objectou Coelho.
—Deixe-se de historias, continuou Pereira. Se vosmecê não tivesse bons patacos, eu diria logo ao nosso amigo:—Olhe que este é dos nossos, não tem onde cair morto—e elle o havéra de curar de graça ... não é?
—De certo, de certo, declarou Cyrino com muita promptidão.
—Mas com vosmecê o caso é defronte[96]. Doutra maneira, por que razão havia um cirurgião de andar por estes socavões? Tambem quer bichar um pouco... É muito justo...
—Cincoenta ... mil ... réis balbuciava Coelho; assim de pancada...
—Se o medico o cura, disse Meyer intromettendo-se, é negocio da China.
Nada dizia Cyrino por dignidade propria. Estava folheando o Chernoviz, cujas paginas mostravam continuo manusear, algumas até enriquecidas de notas e observações á margem.
Assim no artigo oppilação ou hypoemia intertropical havia elle escripto ao lado: «É o que se chama no sertão molestia de empalamado.» E, no fim, abrira grande chave para encerrar esta ousada e peremptoria sentença: «Todos estes remedios de nada servem. Sei de um muito violento, mas seguro. Foi-me, ha annos, ensinado por Mathias Pedroso, curandeiro da villa do Prata, no sertão da Farinha Podre, velho de muita pratica e que conhecia todas as raizes e hervas do campo.»
—Pois bem, disse Coelho depois de grande hesitação, está o negocio fechado. Mas, olhe que entrará no pagamento o preço das mézinhas, e as visitas hão de ser feitas em minha casa...
—Não ha duvida, concordou Cyrino; irei á sua fazenda todos os dias... Não é longe daqui?
—Nhôr-não ... duas leguas pequenas, pela estrada.
—Bem. O senhor, em voltando á casa, metta-se logo na cama.
Coelho fez signal que sim.
—Amanhã, continuou o moço, deve tomar estes pós que lhe estou mostrando. Divida isto em duas porções; hade fazer-lhe muito effeito; depois descanse dois ou tres dias, se acaso se sentir muito fraco; em seguida...
E parando de repente, encarou Coelho alguns instantes:
—O Senhor quer mesmo curar-se?
—Oh! se quero!
—E tem confiança em mim!
—Abaixo de Deus só mecê póde salvar-me.
—Então, tomará ás cegas o que eu lhe receitar?
—Até carvão em braza.
—Olhe bem o que diz... Não gosto de começar a tratar para depois parar...
—Não tenha esse medo commigo... Viver como vivo, antes morrer...
—Então, continuou Cyrino com pausa, acabados os dias de socego, hade o senhor engulir uma boa data de leite de jaracatiá.
—Jaracatiá?! exclamaram com assombro o doente e Pereira.
—Jarracatiá?! gaguejou por seu turno Meyer arregalando os olhos, que é Jarracatiá?
—Mas isso vae queimar as tripas do homem, observou o mineiro.
Cyrino replicou um tanto offendido:
—Não sou nenhum creançola, Sr. Pereira. Sei bem o que estou dizendo. Este remedio é segredo meu, muito forte, muito damninho; mas não é nem uma, nem duas vezes, que com elle tenho curado empalamados. A coisa está no modo de dar o leite e na quantidade: por isso, é que não faço mysterio, avisando comtudo que com uma porçãosinha mais do que o preciso, o doente está na cova...
—Salta! atalhou Pereira, tal mézinha não quero eu ... antes ficar empalamado...
—Que é jarracatiá? tornou a perguntar Meyer.
Coelho abaixou a cabeça e parecia estar reflectindo na resolução que havia de abraçar.
Depois, com voz melancolica:
—O dito, dito, declarou, aceito tudo o que vosmecê me der. Agora, quanto fizer está bem feito... Como é que devo tomar o jaracatiá?
—Em tempo lhe direi, replicou Cyrino. Fazem-se tres cortes no pé da arvore e deixa-se correr o primeiro leite: eu mesmo hei de recolher o que for bom. Tenha toda a confiança em que o senhor ficará são... Bem sabe, ninguem em negocio de doença, mais do que outro qualquer, póde nunca dizer: isto hade ser assim ou assado... Todos estamos nas mãos de Deus. Só Elle póde saber se a molestia nos sahirá do corpo ou nos hade atirar á sepultura. Todo o bom christão conhece isso e deve conformar-se com a vontade divina... O que o medico faz é ajudar a natureza e dar a mão ao corpo quando elle póde ainda levantar-se...
—Justo, justo! apoiou Meyer, então todo empenhado em picar um formoso coleoptero.
—Assim tambem é que eu entendo disse o mineiro.
—Mas, o que é jarracatiá, Sr. Pereira? insistiu o allemão.
Voltou-se o interpellado com impaciencia:
—É uma arvore, Sr. Meyer, arvore grande de folhas cortadas, que dá umas especies de mamõesinhos. Deitam leite muito grosso e queimão os beiços quando a gente não tem cuidado. É uma arvore ouviu? Uma arvore[97]!
—Ah! exclamou o allemão concertando a garganta.
Nesta occasião sacou Cyrino da canastra outros remedios e passou-os a Coelho, dando-lhe minuciosas informações sobre o modo por que havia de usar delles.
—Tem muito enjoo, quando come? perguntou o curandeiro.
—Muito Sr. doutor.
—Assim é, mas deixe estar; depois do leite de jaracatiá, volta-lhe a appetencia. Nos primeiros tempos, o senhor só hade beber claras de ovos bem batidas. Depois, irá a pouco e pouco tomando mais alimento.
—Deus o ouça...
Levantou-se Pereira e, chegando-se á porta, annunciou:
—Ahi vem gente... Estou ouvindo passos de animal montado... Sem duvida é algum pobre engorovinhado de doença. Isto de molestias, não faltam no mundo. Tambem ha tanta maldade, que não poderá ser por menos.
Depois de ligeira pausa, acrescentou em tom de surpresa e aborrecimento.
—Hi! meu Deus!... Nossa Senhora nos soccorra... Sabem quem vem chegando?... É o Garcia; está com o mal[98]?! ha mais de dois annos e não quer crer na desgraça... Pobre coitado, sem duvida vem comprar o desengano... Tenho muita pena dessa gente ... mas, devéras, não a quero ver em minha casa... Vamos, Sr. doutor, despache o Garcia depressa. Com lazaros não se brinca. A Senhora Sant'Anna de tal nos livre! Nem olhar é bom.
E, Pereira, voltando-se para dentro, pediu apressadamente:
—Não deixe o homem desapear, doutor: ficava-me depois o desgosto de ter que lhe fazer alguma mácreação. Pelo amor de Deus, vá lá fóra... Veja o que elle quer ... e dê-lhe boas tardes da nossa parte... Olhe, está chamando... Saia, doutor saia!
Ouvia-se, com effeito, uma voz perguntar se estava em casa o Sr. Pereira.
Este vendo que Cyrino não se apressava á medida dos seus desejos, ou temendo que o recem-chegado lhe entrasse na sala, sem demora appareceu á soleira da porta e, com manifesta sequidão, respondeu ao humilde comprimento de chapéu e á meiga saudação que lhe era dirigida.
CAPITULO XVII O MORPHETICO
O leproso.—Interesse?! Ah! nunca inspirei senão compaixão....
O militar.—Quão feliz fora eu, se pudesse dar-vos algum consolo!....
XAVIER DE MAISTRE.—O leproso de Aosta.
Não devo ter sociedade senão commigo mesmo; nenhum amigo, senão Deus. Generoso estrangeiro, adeus, sê feliz.
Adeus para sempre!....
IDEM.
A pessoa que chegára, bem que tivesse descavalgado, não se adeantou ao encontro do dono da casa. Pelo contrario como que recuou, conservando-se depois immovel, encostado a um burrinho, cujas redeas segurava.
De seu lugar perguntou-lhe Pereira com expressão não muito prazenteira:
—Então, como vae, Sr. Garcia?
—Como hei de ir, respondeu o interpellado. Mal ... ou, melhor, como sempre.
—Pois esteja na certeza de que muito sinto.
—Está ahi o cirurgião? indagou Garcia.
—Não tarda a vir vel-o ahi fóra... Olhe, é um instantesinho.
Palavras tão crueis não pareceram fazer mossa no desgraçado.
—Esperal-o-hei com toda a paciencia, replicou melancolico.
—Já sei que volta hoje para casa, affirmou Pereira.
—Volto. Se a noite me pegar em caminho, ficarei no pouso das Perdizes.
—É verdade: lá ha uma tapera. Mas o Sr. não tem medo de almas do outro mundo? Dizem que o tal rancho velho é mal assombrado.
—Eu?! exclamou o infeliz. Só tenho medo de mim mesmo. Quizesse um defunto vir gracejar um pouco commigo, e de agradecido lhe beijava os dedos roidos dos bichos. Olhe, Sr. Pereira, continuou com voz um tanto alta e agoniada, não levo a mal o senhor não me convidar para entrar em sua casa; não, no seu caso, havia de fazer o mesmo.
—Oh! Sr. Garcia! quiz protestar Pereira.
—Nada;... digo-lhe isto do coração... Na minha familia, sempre tivemos nojo de lazaros... Sou o primeiro... O Sr. nem imagina... Vivi muitos annos meio desconfiado... A ninguem contei o caso... De repente, arrebentou o mal fóra. Já não era mais possivel enganar nem a um cégo... Ah! meu Deus, quanto tenho soffrido!...
—Permitta Elle, interrompeu Pereira em tom compassivo, que este doutor tenha algum remedio... Bem vê ... ás vezes...
—Curar a morphéa?! replicou Garcia com sorriso pungente de sarcasmo. Não ha esse pintado ... que em tal pense...
—Então para que quer ver o medico?
—Só para uma coisa... Saber pelos livros que elle tem lido e pelo conhecimento das molestias, se isto pega... É só o que quero... Porque então fujo de minha casa... Desappareço desta terra ... e vou-me arrastando até tombar nalgum canto por ahi... Dizem uns que pega ... outros que não ... que é só do sangue... Eu não sei.
E, abanando tristemente a cabeça, apoiou-se ao tosco sellim.
Depois, ergueu os olhos para os céus, e exclamou:
—Cumpra-se tudo quanto Deus Nosso Senhor Jesus-Christo houver determinado!... Se o medico me desenganar, não quero que a minha gente fique toda ... marcada... Irei para S. Paulo...
Pereira cortou este doloroso dialogo:
—Está bem, patricio Garcia, disse, vou já mandar-lhe o homem ... espere um pouco...
E, entrando, reiterou o pedido a Cyrino, que se demorara a receitar a Coelho umas beberagens de velame e pés de perdiz, plantas muito abundantes naquellas paragens, de grandes virtudes diureticas e que deveriam ser empregadas um mez depois da applicação do leite de jaracatiá.
—Ande, doutor, instou Pereira, vá lá fóra ver o coitado do outro e despache-me depressa. Estou todo enfernizado por vel-o no meu terreiro.
Cyrino sahiu então e, caminhando com lentidão, parou a alguns passos do malaventurado Garcia, cujo rosto repentinamente se contrahiu emquanto tirava o chapéo com submissão e receio.
Vinha então a tarde descendo, e a luz do crepusculo irradiava por toda a parte, tão melancolica e suave que, sem saber por que, a alma de Cyrino de repente se confrangeu.
Com assombro o encarava o lazaro. Deante delle se erguera quem lhe ia apontar o caminho da eterna proscripção. Dos seus labios ia cahir a sentença ultima, irremediavel, fatal!
Quanta angustia no olhar daquelle homem! Que pensamentos sinistros! Quanta dor!
Tambem ficara alli attonito, boquiaberto, á espera que a palavra de Cyrino lhe quebrasse o horroroso enleio.
—Então, disse este depois de breve pausa, que me quer o senhor?
—Doutor, balbuciou Garcia ... primeiro que tudo quero ... pagar-lhe; ... trouxe algum ... dinheiro ... mas, talvez ... seja ... pouco.
Interrompeu-o Cyrino:
—Não recebo dinheiro para tratar ... da sua molestia.
—Quer isto dizer, replicou com acabrunhamento Garcia, que ella não tem cura... Eu bem sabia, mas ... é tão duro ouvir sempre isso!... Olhe, o meu mal é de pouco ... está em principio. Quem sabe ... se o Sr. não conhecerá alguma herva?...
—Infelizmente, respondeu Cyrino, nem eu, nem ninguem conhece essa planta...
—Emfim!
E Garcia, fechando os olhos como que para concentrar as forças, continuou:
—Ah! doutor, eu sou um pobre homem ... velho já cansado... Porque não me veio a morte em lugar desta podridão que me está comendo as carnes?... Muito tempo a senti dentro de mim... Disfarcei, disfarcei, até ao dia em que minha neta ... a filha do meu coração ... a Jacyntha ... ella mesma, mostrou certo receio de me abraçar... Ah! senhor, quanto se soffre nesta vida!
E Garcia parou offegante, empallidecendo muito.
—Dê-me agua, exclamou elle, agua ... pelo amor de Deus!... Pudesse agora ... ser o meu dia. A minha garganta ... está que nem fogo!...
E agarrou-se aos arreios para não cahir no chão.
Cyrino correu a buscar agua.
—Onde hade ser? perguntou Pereira.
—Onde queira, respondeu o outro com pressa, veja que aquelle christão está soffrendo...
—Ah! leve a caneca de louça... Depois a quebraremos...
Com sofreguidão tomou o lazaro o vaso, bebeu de um trago e pareceu melhorar.
—Foi um vágado, disse reassumindo aos poucos a calma. Mas, como lhe contava, certeza tinha eu do mal. Agora, só quero saber uma coisa e vou-me de partida. Este mal ... pega, doutor?
—Pega, affirmou Cyrino com tristeza.
—E que me resta fazer?
—Pedir á Senhora Sant'Anna paciencia e a Nosso Senhor Jesus-Christo...
Garcia abanava a cabeça acabrunhado.
... que o proteja na sua vida de desgraças.
—Meu Deus, balbuciou o morphetico a meia voz, dae-me forças ... coragem para que eu faça o que devo fazer.
E, com subita resolução:
—Cumpra-se a vontade do Altissimo! exclamou emfim. Doutor, obrigado! O pobre lazaro hade pedir ao Todo Poderoso que neste mundo e no outro lhe pague as suas palavras de homem de letras... Adeus! Eu me vou para as terras de S. Paulo ... talvez me junte á gente da minha especie. Adeus...
E, a custo montando a cavallo, voltou-se para as pessoas que tinham de longe vindo assistir á consulta.
—Adeus, disse elle acenando com o chapéu, gente e patricios. Senhor Pereira, Sr. Coelho, mais senhores, adeus! Eu me bóto de uma feita para lá das Parnahybas[99]... Este sertão não me vê mais nunca!...
Acolheu o silencio essas palavras de eterna despedida.
Garcia então, esporeando com o calcanhar o ventre da cavalgadura, a passo tomou rumo da estrada geral e sumiu-se numa das voltas do caminho, quando ja vinha a noite estendendo o seu lugubre manto.
CAPITULO XVIII IDYLLIO
Mas, que luz é essa que alli apparece, naquella janella? A janella é o oriente, e Julieta o sol. Sobe, bello astro, sobe e mata de inveja a pallida lua.
SHAKESPEARE.—Romeu e Julieta, Acto II.
Entretanto, desde algum tempo, sentia-se Virginia agitada de mal desconhecido... Em sua fronte, não pousava mais a serenidade, nem o sorriso lhe pairava nos labios... Pensa ella na noite, na solidão, e fogo devorador a abraza toda.
B. DE SAINT-PIERRE.—Paulo e Virginia.
Decorreram sem novidade dias e dias uns após outros; Cyrino diagnosticando e curando ou melhor, receitando; Meyer augmentando cada vez mais a sua bella collecção entomologica, sempre feitorisado por Pereira, que cautelosamente tratava de mantel-o no suspeitoso circulo da sua apertada vigilancia.
Confidente de todos os infundados e mal empregados receios era Cyrino.
O allamão, dizia o mineiro, não me deixa pôr pé em ramo verde, mas também trago-o vigiado que é um gosto... Se desconfiasse, teria medo até da sua sombra... Estou em brazas... Não sei porque não chega o Manecão Dóca... Quero arriar a carga no chão... Agora, mais do que nunca, devo casar Nocencia... Estas mulheres botam sal na moleira de um homem. Salta! E ainda isto tudo não é nada.
—Então espera muito breve o Manecão? perguntou o outro com anciedade.
—Não pode tardar ... por estes dois ou tres dias quando muito... Vem de Uberaba e sem duvida por lá arranjou todos os papeis... Dei a certidão do meu casamento ... a do baptismo da pequena ... e adeantei dinheiro para as despezas ... bem que elle refugasse meio vexado.
—Então está tudo decidido? perguntou Cyrino com vivacidade.
—Boa duvida!... Já lhe tenho dito mais de uma vez. Hoje é coisa de pedra e cal... Se até trato o Manecão de filho... A honra desta casa é tambem honra delle.
—Mas sua filha?
—Que tem?
—Gosta delle?
—Ora se!... Um homemzarrão ... desempenado. E, quando não gostasse é vontade minha, e está acabado. Para felicidade della e, como boa filha que é, não tem que piar... Estou, porem, certissimo de que o noivo lhe faz bater o coração ... tomara ver o cujo chegado!
Já nesse tempo, como dissemos, Innocencia de todo se restabelecera, ainda que Cyrino tivesse feito quanto possivel render a enfermidade. Mas, quando o rubor da saúde voltou á assetinada cutis da sertaneja e o vigor ao esbelto corpo, não houve pretexto a que se apegar, e as entrevistas curtas e graves de medico foram cortadas, até mesmo para não desviar a attenção de Pereira da pessoa de Meyer.
Com o coração, pois, partido de dor, declarou que os seus cuidados e presença se tornavam completamente desnecessario.
Seguiram-se então semanas inteiras, sem que pudesse pôr os anciosos olhos na formosa namorada, e por tal modo se exacerbou a sua paixão que, para encobril-a e disfarçar a excitação nervosa, a falta de appetite e pallidez extrema, teve que recorrer a desculpas de molestia; cahiu realmente doente.
A incerteza em que se via, sem, pelo menos, saber se o seu affecto era ou não correspondido, dava-lhe accessos de violenta angustia, que a deshoras tocava ás raias da exasperação.
Uma noite, em que havia luar embaciado por ligeira bruma, tomou a sua afflicção tal violencia que elle decidiu fugir daquelle local de soffrimentos e incertezas, logo na manhã seguinte.
Assente uma vez nesta resolução, ergueu-se do leito em que jazia prostrado pelo mais cruel desalento e, com algum custo, sahiu para o terreiro, abrindo cautelosamente a porta da casa, afim de não acordar os companheiros de quarto. Uma vez fóra, sentou-se num tronco de madeiro o alli ao ar fresco e acariciador da madrugada, entrou com mais tranquillidade a pensar no caso.
Seria uma hora depois de meia noite.
Estavam os espaços como que illuminados por essa luz serena e fixa que irradia de um globo despolido; luz fosca, branda, sem intermittencias no brilho, sem scintillações, e diffundida igualmente por toda a atmosphera.
Haviam já os gallos cantado uma vez, e, ao longe, muito ao longe, de vez em quando, se ouvia o clamor das anhumas pócas.
Levantou-se de repente Cyrino.
Depois de alguma vacillação, deu uma volta por toda a habitação, pulando os cercados, e tomou o rumo do frondoso laranjal, a cuja espessa sombra se abrigou por algum tempo.
Achegou-se, em seguida, á cerca dos fundos da casa o parou no meio do pateo, olhando com assombro para uma janella aberta.
Um vulto alli estava!... Era o della; Innocencia... Não havia duvidar.
A principio, nenhum movimento fez; mas, depois, lentamente se foi retirando e aos poucos fechou o postigo.
Cyrino deu um só pulo e de leve, muito de leve, bateu apressadas pancadas na taboa da janella.

Innocencia!... Innocencia!... chamou com voz sumida.
—Innocencia!... Innocencia!... chamou com voz sumida, mas ardente e cheia de supplica.
Ninguem lhe respondeu.
—Innocencia, implorou o moço, olhe ... abra ... tenha pena de mim... Eu morro por sua causa...
Depois de breve tempo, que para Cyrino pareceu um seculo, descerrou-se a medo a janella, e appareceu a moça toda assustada, sem saber por que razão alli estava nem explicar tudo aquillo.