VISCONDE DE TAUNAY (continued 4)
Reading edition
Pereira fôra-se tornando livido de raiva.
O anão acompanhava toda essa scena com muita attenção. Scintillavam seus olhinhos como diamantes pretos; seu corpo rachitico estremecia do impaciencia e susto.
Á resposta de Manecão, levantou-se rapida Innocencia e, como que acastellando-se por detraz da sua cadeira, exclamou:
—Eu?... Casar com o senhor?! Antes uma boa morte!... Não quero ... não quero... Nunca... Nunca...
Manecão bambaleou.
Pereira quiz pôr-se de pé, mas por instantes não pôde.
—Está doida, balbuciou, está doida.
E, segurando-se á mesa, ergueu-se terrivel.
—Então, você não quer? perguntou com os queixos a bater de raiva.
—Não, disse a moça com desespero, quero antes...
Não pôde terminar.
O pae agarrara-a pela mão, obrigando-a a curvar-se toda.
Depois, com violento empurrão, arrojou-a longe de encontro á parede.
Caiu a infeliz com abafado gemido e ficou estendida por terra, amparando o peito com as mãos. Mortal pallidez cobria-lhe as faces, e de ligeira brecha que se abrira na testa deslisavam gottas de sangue.
Ia Pereira a precipitar-se sobre ella como para esmagal-a debaixo dos pés, mas parou de repente e, levando as mãos ao rosto, occultou as lagrimas que dos olhos lhe saltavam a flux.
Manecão não fizera o menor gesto. Extatico assistira a toda essa dolorosa scena. A physionomia estava impassivel, mas, por dentro, seu coração era um vulcão.
Lugubre silencio reinou por algum tempo naquella sala.
O anão chegara-se a Innocencia, tomando-lhe uma das mãos: depois, a fizera sentar e, no meio de carinhos, mostrara-lhe por signaes a necessidade de retirar-se.
A custo pôde ella seguir aquelle conselho. Quasi de rastos e ajudada por Tico é que saiu da presença do pae e de seu perseguidor.
Nenhum movimento fizeram os dois para retel-a. Calados como estavam, deixaram-se ficar de pé, um ao lado do outro, ambos acabrunhados pela grandeza daquella desgraça.
Com frenesi cofiava Manecão o basto bigode.
Pereira tinha a cabeça pendida sobre o peito.
Afinal, exclamou:
—É preciso que eu desembuche o que tenho cá dentro, senão estouro... Quem for homem que seja ... Manecão, Nocencia para nós está perdida ... para nós, porque um homem lhe deitou um mau olhado...
—E que homem é esse? perguntou em tom surdo e ameaçador o outro.
—Agora vejo como tudo foi... Eu mesmo metti o diabo em casa... Estive alerta ... mas o mal já caminhava.
—Mas, quem é elle? tornou a perguntar com impaciencia Manecão.
—Um maldito! um infame, um estrangeiro que aqui esteve... Roubou-me o socego que Deus me deu...
Contou então ás pressas Pereira todas as tentativas do allemão Meyer, tentativas que haviam sido descobertas, mas que infelizmente, pelo menos assim suppunha, já haviam produzido os seus damnosos fructos.
—Ah! disse por fim abaixando a voz, pensou aquelle cachorro, que tudo era namorar mulheres e depois dar com os pés em polvorosa, não é?... Amanhã mesmo eu lhe saio no rasto.
—Para que? interrompeu Manecão.
—Respondam os urubús...
—Para matal-o?
—Sim...
Houve breve pausa.
—Não será, o senhor, disse o capataz, que lhe hade dar cabo da pelle.
—Porque?
—É negocio que me pertence. O senhor é pae ... eu porém sou ... noivo. Mangaram com os dois ... mas o allamão fica no chão.
—Pois seja, concordou Pereira, parta amanhã mesmo ou hoje ... agora, se possivel fôr. Cão damnado deve logo ser morto, para que a baba não dê raiva... Vá depressa e venha contar-me que aquelle homem já não existe... Como velho, como pae ... abençôo a mão que o hade matar. Caia o sangue que correr ... sobre os meus cabellos brancos...
Havia toda esta conversa sido attentamente ouvida por alguem; o anão Tico.
Viera a pouco e pouco approximando-se da mesa com os olhos a fulgir.
De repente, collocou-se resolutamente entre Manecão e Pereira.
—Que quer você aqui? perguntou o mineiro com aspereza.
Começou então o homunculo a explicar por gestos vagarosos, mas muito expressivos, que de tudo estava sciente, participando de todos os projectos e do mesmo sentimento de indignação e desespero que enchia os dois offendidos.
Depois, apressando mais a gesticulação e por sons meio articulados, fez ver que Pereira laborava em engano, tão somente quanto á pessoa.
Com muita propriedade de imitação e perfeita mimica, ora levantando o braço para caracterisar as physionomias, tão exactamente representou Meyer e Cyrino, que o mineiro logo os reconheceu.
—Bem sei, bem sei Tico, murmurou elle. Você fala do doutor e daquelle...
Ahi o anão fez um gesto de negação e, apontando para o quarto de Innocencia, indicou que nada tinha ella com o allemão.
Ficaram pasmos os dois.
—Então, balbuciou Pereira, quem será?... Cy ... rino, meu Deus?!
—Sim... Sim! gritou o anão com violento esforço abaixando muitas vezes a cabeça.
—Qual! protestou Pereira, o doutor?...
Com muita habilidade e segurança Tico desenvolveu as provas que tinha.
Gesticulou como um possesso; correu para fóra de casa; denunciou as entrevistas; reproduziu ao vivo todas as passadas de Cyrino: mostrou o lugar do laranjal donde vira tudo, o galho quebrado em razão da sua queda; repetiu o grito que dera; lembrou a scena da madrugada, findando com aquelles tiros; exprimiu-se por signaes tão adequados e taes movimentos de cabeça e physionomia, que toda a duvida desappareceu do espirito de Pereira.
Então tudo se lhe descortinou claro e deslumbrante, e sua colera subiu a um grau de violencia inexprimivel.
Esteve a cahir fulminado.
—Infame murmurou roxo de ira, tu me pagas! Infame... Infame!
Depois voltando-se para Manecão:
—Dê-me esse ... eu o quero...
Abanou o capataz a cabeça.
—Não, respondeu surdamente. Esse me pertence... Caçoou com o senhor ... e fez de mim chacota.
—Então, disse apressadamente Pereira, parta hoje ... parta já... E quando voltar, diga só: estamos desaggravados... Innocencia será sua...
Parando um pouco concluiu tomado de enleio:
—Se quizer aceital-a.
—Havemos de conversar...
Teve o mineiro uma explosão de desespero.
—Meu Deus, exclamou com dor, em que mundo vivemos nós? Um homem entra na minha casa, come do que eu como, dorme debaixo do meu tecto, bebe da agua que, carrego da fonte, esse homem chega aqui e, de uma morada de paz e de honra, faz um lugar de desordem e vergonha! Não, mil raios me partam!... Não quero mais saber que esse miseravel respire o ar que respiro. Não! mil vezes, não! E desde já enxoto a canalhada que trouxe, gente do inferno como elle!... Heide cuspir-lhes na cara... Pinchal-os fóra como cães que são!.. Ladrões!... Eu...
Interrompeu-o Manecão com calma:
—Não faça nada... É preciso que ninguem saiba do que se está passando aqui... Ninguem!... percebe?
—E então?
—Faça de conta[122] que recebeu uma letra[123] de Sant'Anna. O cujo foi quem a mandou, para que os camaradas o vão esperar no Leal... Ouviu?
Pereira fez signal de tudo comprehender.
—Depois, acrescentou Manecão com voz sinistra, mãos a obra.
—Você diz bem, retorquiu Pereira, tenha pena de mim... Estou com esta cabeça como um cortiço de guaxupés... É um zumbido!... Mostre que já é dono desta casa e faça como entender... Entrego-me de pés e mãos atadas a você... Tudo lhe pertence... Emquanto a honra do mineiro não for desaffrontada ... não levanto o rosto... Meu Deus, meu Deus, que vergonha!...
—Coragem, coragem, aconselhou o outro.
—Se este socavão não chegar para esconder minhas miserias ... mudo-me para as bandas do Apa... Parece que vou morrer ... sinto fogo dentro da cabeça...
E vencido pela emoção encostou a testa á mesa, deixando cahir os braços.
Bateu-lhe Manecão no hombro.
—Que é isso, meu pae? animo! De que serve ser homem?... Olhe, cara a cara a sua desgraça ... que tambem é minha. Não o consola a certeza de que aquelle homem brevemente...
—Sim, replicou Pereira levantando a cabeça e reparando que o anão se retirara, mas que faremos deste tico de gente, que sabe tudo?
—Não o deixe sair mais de casa.
—Qual!... É que nem mussú. Quando a gente mal pensa, surge no Sucuriú e até no Corredor.
—Pois bem... Ficará elle sabendo que ... um só piscar de olho ... pode sahir-lhe caro ... muito caro.
—Então, implorou Pereira, vá quanto antes limpar o meu paiol daquella gente ... vá... Se eu pudesse ainda dormir ... esquecia um pouco, mas...
Com estas palavras retirou-se a custo o mineiro.
Incontinenti foi Manecão despachar os camaradas de Cyrino, os quaes, pouco depois sahiam com destino á casa do Leal.
Em seguida, montando o tropeiro a cavallo, partiu em carreira desapoderada para a villa do Sant'Anna do Paranahyba, onde chegou alta noite.
CAPITULO XXX DESENLACE
Estão contados os grãos de areia que compõem a minha vida. É aqui que devo tombar. É aqui que ella hade acabar.
SHAKESPEARE.—Henrique V, Acto I.
Eis que vi um cavallo amarello, e quem o montava, era a morte.
S. JOÃO.—Apocalypse.
Durante tres dias, foi Cyrino rigorosamente espreitado pelo noivo de Innocencia.
Com a cautela propria dos seus habitos esquivos, soube Manecão acompanhar-lhe todos os passos sem ser presentido.
Assim notou que o rival montava a cavallo e ia até certo ponto da estrada como que esperar por alguem que não chegava. Na ida, mostrava impaciencia e inquietação; na volta vinha melancolico e curvado sobre si mesmo, absorto em fundo meditar.
Ia o infeliz mancebo ao encontro de Cesario; mas este não apparecia.
Estava quasi expirado o prazo combinado, e prestes a soar a hora do completo desengano.
Oh! se elle pudera!... Agarraria com forças de Josué esse sol que lhe marcava os dias e o deixaria immovel, até que o seu salvador se resolvesse a estender-lhe a mão.
E já ia findando a semana!...
Completo o circulo de horas, se Cesario não apparecesse, começava a imperar o juramento que dera, irrevogavel, implacavel!
—Matar-me-hei, dizia Cyrino; ficarão sabendo que não menti ás minhas palavras.
Nessa firme resolução sahiu da villa; passou o rio Paranahyba e, como costumava, caminhou pela estrada de S. Francisco de Salles, talvez tres leguas. Contava pousar por aquelles sitios, de modo que alongava o seu passeio.
Claro era o dia; lindo.
Por toda a parte cantavam mil passaros. Gritavam as gralhas nos cerrados; piavam as perdizes no relvoso chão.
Cyrino ia muito agitado. Nada ouvia; os seus olhos, fitos sempre na frente, buscavam na estrada, anciosos o vulto de um cavalleiro.
Soou-lhe de repente aos ouvidos o tropel de um animal.
Alguem vinha a galope.
Seu coração pulsou que parecia ter entrado tambem a galopar.
Mas o som partia de detraz.
Sem duvida, algum viajante vindo da villa.
Continuou Cyrino na vagarosa marcha.
O estrupido vinha indicando carreira folgada e que breve comsigo estaria emparelhando, quem extravagantemente em hora tão impropria corria á desfilada.
O mancebo de nada cuidava, tanto que mal reparou que alguem a trote largo passara por perto de si, quasi a roçar animal contra animal.
Dalli a pouco, novo galope se fez ouvir.
Parecia que o mesmo cavalleiro havia dado de redeas, cortando o rumo que levava.
Dessa vez, porem, Cyrino accordou do lethargo, esporeou vigorosamente a sua cavalgadura e ... esbarrou com Manecão.
Instinctivamente empallideceu. O outro estava tambem muito descorado.
Estacaram elles os animaes e fitaram-se alguns minutos, de um lado com desconfiança e pasmo, de outro com mal concentrado furor.
—Patricio, interpellou por fim o capataz em tom provocador, que faz mecê por aqui?
—Eu? perguntou Cyrino.
—Nhôr sim, mecê mesmo.
—É boa ... viajo.
—Ah! viaja! replicou Manecão. Então é andejo?
—Andejo, não, contestou Cyrino com força. Não sou nenhum bruto.
E por prevenção levantou a capa do coldre em que havia uma pistola, fazendo menção de a sacar.
—Não será andejo, continuou o capataz, mas então o que é?
—Sou o que sou, não é da sua conta.
Contrahiu-se o rosto de Manecão.
De um tranco chegou o cavallo bem junto a Cyrino e disse-lhe em voz surda:
—É um ladrão ... é um cachorro!
A esse insulto, puxou Cyrino a pistola.
—Mato-o já, bradou com violencia se continua a destratar-me...
Sorriu-se o capataz com desprezo.
—Gentes, observou cuspindo para um lado, vejam só que valentão... E sabe manejar garrucha!...
—Acabemos com isso, gritou Cyrino.
—Acabemos, retorquiu Manecão com fingida calma.
—Mas quem é o Sr.? perguntou Cyrino.
—Eu?
—Sim!... sim!...
—Então não me conhece?
—Não, balbuciou Cyrino.
—Conhece Nocencia? uivou Manecão com voz terrivel.
E de sopetão tirando uma garrucha da cintura, desfechou-a á queima-roupa em Cyrino.
Varou a bala o corpo do infeliz e o fez baquear por terra.
Dois gritos estrugiram.
Um de agonia, outro de triumpho.
Ficara Cyrino estendido de bruços. Reunindo as forças, que se lhe escapavam com o sangue, voltou-se de costas e prorompeu em vociferações contra o inimigo, que o contemplava sardonico.
—Matador! ... vil! ... sim! ... conheço Innocencia... Ela é minha... Infame!... Mataste-me... mas mataste tambem a ela!... Que te fiz eu?... Deus te hade amaldiçoar ... sim, meu Deus, meus Santos ... maldição sobre este assassino... Foge, foge ... minha sombra hade seguir-te sempre...
—Melhor, interrompeu Manecão do alto do cavallo, isso mesmo é o que eu quero.
—Ah! queres? continuou Cyrino com voz rouquejante, não é?... Pois bem!... De noite e de dia ... minha alma há de estar contigo ... sempre, sempre!...
Calou-se por um pouco e, revolvendo-se no chão, passou a mão pela testa. Lentejava-lhe dos póros o suor frio e visguento da morte.
Foi seu rosto abandonando a expressão de rancor; a respiração tornou-se-lhe mais difficil.
—Não murmurou com pausa e gravidade, não quero morrer ... assim. Devo sair desta vida ... como christão... Hei de saber perdoar... E reunindo as forças, acrescentou com uncção e energia: Manecão ... eu te perdôo ... por Christo ... que morreu ... na cruz, para nos salvar ... eu te perdôo... Nosso Senhor tenha pena de ti... Eu te perdôo, ouviste?
Á medida que o moribundo pronunciava estas palavras, esbugalhara Manecão os olhos de horror com o corpo todo a tremer.
—Não quero o teu perdão, bradou elle a custo.
—Não importa, respondeu-lhe Cyrino com voz suave. Ele é ... dado do fundo d'alma... Cáia sobre tua cabeça...
Quero, quero morrer como christão... Que me importa agora o mundo, a vingança ... tudo?... só Innocencia!... Coitada de Innocencia... Quem sabe ... se ... ela ... não morrerá? Manecão, dá-me agua. Agua pelo amor de Deus!... Desce do cavallo, homem... É um defunto que te pede... Desce!...
E com os braços erguidos acenava para Manecão.
—Agua, bradou o mancebo forcejando por levantar-se, dá-me agua ... eu te dou a salvação...
Sentia o capataz escorrer-lhe o suor dentre os cabellos. Queria fugir e não podia. Parecia que os seus olhos tinham de acompanhar passo a passo a agonia da sua victima. Aquella scena se lhe afigurava um pesadello, e completo torpor lhe tolhia os membros.
Tirou-o desse enleio o bater das patas de um animal que vinha pela estrada a trote.
Ouvira tambem Cyrino o estrupido e arregalara com anciedade os olhos.
Desabrochou-lhe nos labios um sorriso de acre tristeza.
Alguem vinha chegando.
Esporeou Manecão com vigor o cavallo e, levantando uma nuvem de poeira, desappareceu num abrir e fechar de olhos.
Nisto assomava um cavalleiro numa das voltas do caminho.
Era Antonio Cesario.
Vendo um homem estirado por terra apressou o passo.
—O doutor?! exclamou apeando-se rapidamente e todo horrorisado.
—Eu mesmo, respondeu Cyrino com voz fraca.
—Mas, quem lhe fez este damno, santo Deus?
E correndo para o moço, ajoelhou-se junto delle e levantou-lhe o corpo.
—Quem foi o assassino?
—Ninguem, rouquejou o misero, foi ... destino... Morro contente... Dê-me agua ... e fale-me de Innocencia...
—Agua? exclamou Cesario com desespero, aqui no meio do cerrado?... O corrego fica a tres leguas pelo menos...
—Ah! replicou Cyrino meio desvairado, se não ha ... com que estancar a sêde do corpo ... estanque a ... da alma... Innocencia ... onde está? quero vel-a... Diga-lhe que morri ... por causa della...
—Mas, quem o matou? bradou o mineiro.
—Não vale a pena dizel-o respondeu o mancebo entre gemidos. Cuide agora ... só de mim... Olhe ... nunca fui mau ... não tenho peccados ... grandes... Acha que Deus me ... hade perdoar?
—Acho, respondeu Cesario com força...
—Que fiz eu ... na minha vida? Talvez ... enganasse os outros ... dizendo que era ... medico... Mas ... tambem curei alguns... De nada mais me recordo... Ah! sim ... uma divida de honra... Na minha carteira ... ha uns seis centos mil reis; pague ... trezentos ao Totó Siqueira, da villa; dê ... cincoenta mil reis ... a cada camarada ... meu ... o mais ... distribua ... todo ... pelos pobres, sobretudo ... morpheticos ... depois das ... missas ... que por mim ... mandar ... rezar ... ouviu? ... ouviu?
Fez o mineiro signal que sim.
Vinha a morte desdobrando as suas sombras no rosto de Cyrino. Ia-se-lhe empanando o brilho dos olhos; ficara a lingua tropega, afilara-se-lhe o nariz, e sinistro pallor mais realçava a negra cor dos seus cabellos e barbas.
Sentara-se Cesario no chão para segurar com mais geito o corpo do moribundo. Duas lagrimas vinham-lhe sulcando as masculas faces.
Ligeiro estremecimento agitava o corpo de Cyrino.
—Agora, acrescentou com voz muito sumida, chegou ... o meu dia... Mas ... eu lhe peço ... nada diga ... á sua afilhada... Não consinta ... que case com ... Manecão.
—Então, interrompeu Cesario, foi elle quem?...
—Não, não, contestou Cyrino, mas ... ella havia de ser ... infeliz... Ouviu? Promette-me?
—Prometto, respondeu Cesario com firmeza. Juro até...
—Pois bem, suspirou o agonisante, agora ... agradeço a morte... Quero apegar-me ... ás Santas do Paraiso ... e chamo por...
E com esforço, no ultimo alento, murmurou mais e mais baixo:
—Innocencia!
* * * * * * *
Na tarde deste dia, o viajante que passasse por aquelle sitio poderia ver uma cova coberta de fresco, sobre a qual se erguia uma cruz tosca feita de dois grossos páus amarrados com cipós.

Eram mostras da caridade do mineiro Antonio Cesario.
Eram mostras da caridade do mineiro Antonio Cesario.
EPILOGO REAPPARECE MEYER
Possue-te de justo orgulho e coroem os louros de Apollo tua cabeça.
HORACIO.
No dia 18 de Agosto de 1863, presenciava a cidade de Magdeburgo pomposo espectaculo, ha muito annunciado no mundo scientifico da sabia Germania.
Era uma sessão extraordinaria e solemme da Sociedade Geral Entomologica, a qual chamava a postos não só todos os seus membros effectivos, honorarios, correspondentes, como muitos convidados de oceasião, afim de acolher e levar ao capitolio da gloria um dos seus mais distinctos filhos, um dos mais infatigaveis investigadores dos segredos da natureza, intrepido viajante, ausente da patria desde annos e de volta da America Meridional, em cujas regiões centraes por tal fórma se embrenhara, que impossivel havia sido seguir-lhe o roteiro, até nos mappas e cartas especiaes do grande colleccionador Simão Schropp.
Revestira-se de mil galas a sciencia. Todos os socios de casaca preta, gravata e luvas brancas, alguns com discursos nos bolsos, enchiam a sala das sessões muito antes da hora marcada: a orchestra executava a sonata n.° 26 de Luiz van Beethoven, e senhoras ostentavam toilettes ricas e de aprimorado gosto.
De repente atroou um grito:
—Vivat Meyer!! Hurrah! Vivat! Hoch! Hoch!...
E, ao passo que todos os pescoços se estiravam para ver quem entrava sacudiam-se no ar com enthusiasmo lenços e chapéus.
Acalmada a ruidosa manifestação, levantou-se o presidente da Sociedade Entomologica, um presidente magro como um espeto e ornamentado de ruiva cabelleira que lhe dava aspecto de um projecto de incendio.
—Sim! exclamou elle depois de ter bebido uns goles d'agua assucarada e de haver preparado a garganta; eis emfim, aqui, no meio de nós, o grande, o vencedor, o incomparavel Guilherme Tembel Meyer!...
E neste gosto falou duas horas seguidas.
* * * * * * *
No dia seguinte, traziam as gazetas de Magdeburgo extensa relação da festa, transcreviam o discurso do presidente e, como appendice ás notas biographicas relativas a Meyer, enumeravam os prodigios entomologicos que havia recolhido em suas dilatadas peregrinações.
«O que ha mais digno de admiração, dizia o Tempo (Die Zeit), em toda a immensa e preciosissima collecção trazida pelo Dr. Meyer das suas viagens, é sem contestação uma borboleta, genero completamente novo e de esplendor acima de qualquer concepção. É a Papilio Innocentia... (Seguia-se uma descripção de minuciosidade perfeitamente germanica).
«O nome, acrescentava a folha, dado pelo eminente naturalista áquelle soberbo especimen, foi graciosa homenagem á belleza de uma donzella (Mädchen) dos desertos da provincia de Matto-Grosso (Brazil), creatura, segundo conta o Dr. Meyer, de fascinadora formosura. Vê-se, pois, que tambem os sabios possuem coração tangivel e podem, por vezes, usar da sciencia como meio de demonstrar impressões sentimentaes de que muitos não os julgão susceptiveis.
* * *
Innocencia, coitadinha...
Exactamente nesse dia fazia dous annos que o seu gentil corpo fora entregue á terra, no immenso sertão de Sant'Anna do Paranahyba, para ahi dormir o somno da eternidade.