VISCONDE DE TAUNAY (continued 3)
Reading edition
Parecia-lhe um sonho.
Quiz, entretanto, dar qualquer desculpa á situação e, fingindo-se admirada, perguntou muito baixinho e a balbuciar:
—Que vem ... mecê ... fazer aqui? ... já ... estou boa.
Da parte de fóra, agarrou-lhe Cyrino nas mãos.
—Oh! disse elle com fogo, doente estou eu agora... Sou eu que vou morrer ... porque você me enfeitiçou, e não acho remedio para o meu mal.
—Eu ... não, protestou Innocencia.
—Sim ... você que é uma mulher como nunca vi... Seus olhos me queimaram... Sinto fogo dentro de mim... Já não vivo ... o que só quero é vel-a ... é amal-a ... não conheço mais o que seja somno e, nesta semana, fiquei mais velho do que em muitos annos havia de ficar... E tudo, porque, Innocencia?
—Eu não sei, não, respondeu a pobresinha com ingenuidade.
—Porque eu amo ... amo-a, e soffro como um louco ... como um perdido...
—Ué, exclamou ella, pois amor é soffrimento?
—Amor é soffrimento, quando a gente não sabe se a paixão é acceita, quando se não vê quem se adora: amor é céu, quando se está como eu agora estou.
—E quando a gente está longe, perguntou ella, que se sente?...
—Sente-se uma dôr, cá dentro, que parece que se vae morrer... Tudo causa desgosto: só se pensa na pessoa a quem se quer, a todas as horas do dia e da noite no somno, na reza, quando se ora a Nossa-Senhora, sempre ella, ella, ella! ... o bem amado ... e...
—Oh! interrompeu a sertaneja com singeleza, então eu amo....
—Você? indagou Cyrino sofregamente.
—Se é como ... mecê diz...
—É ... é ... eu lhe juro!...
—Então ... eu amo, confirmou Innocencia.
—E a quem?... Diga: a quem?
Houve uma pausa, e a custo retrucou ella, ladeando a questão:
—A quem me ama.
—Ah! exclamou o joven, então é a mim ... é a mim, com certeza, porque ninguem neste mundo, ninguem, ouviu? é capaz de amal-a como eu... Nem seu pae ... nem sua mãe, se viva fosse... Deixe falar seu coração... Se quer ver-me fóra deste mundo ... diga que não sou eu, diga!...
—E como ia mecê morrer? atalhou ella com receio.
—Não falta pau para me enforcar, nem agua para me afogar.
—Deus nos livre! não fale nisso... Mas, porque é que mecê gosta tanto de mim? Mecê não é meu parente, nem primo, longe que seja, nem conhecido sequer... Eu lhe vi apenas pouco tempo ... e tanto se agradou de mim?
—E com você ... não succede o mesmo? perguntou Cyrino.
—Commigo?
—Sim, com você... Porque é que está acordada a estas horas? Porque é que não pode dormir? ... que a cama lhe parece um brazeiro, como a mim tambem parece?... Porque pensa em alguem a todo o instante? Entretanto, esse alguem não é primo seu, longe que seja, nem conhecido sequer?...
—É verdade, confessou Innocencia com doce candura.
Depois quiz emendar a mão:
—Mas, quem lhe disse que vivo pensando em mecê?
—Innocencia, implorou o moço, não queira negar; vejo que sou amado...
—Sempre amar! observou ella, mais para si do que para quem a ouvia. No anno que já passou e por occasião da Sra Sant'Anna[100], aqui vieram umas parentas minhas e caçoaram commigo, porque eu não as entendia: tanto assim que uma dellas, a Nhã Tuca, me disse: «Deveras, mecê ainda não gostou de nenhum moço? E eu respondi: Não assumpto[101] o que mecê estão a prosear.» Aquillo era certo, e tão verdade como estar nosso Deus no paraiso... Hoje...
—E hoje?
—Hoje? repetiu a moça. Quem sabe se não era bem melhor não ter nunca gostado de ninguem?
—Isso não está na gente... É ordem lá de cima...
—Emfim, se for destino, que se cumpra.
Conservava-se Innocencia ainda um pouco arredada da janella, de modo que Cyrino, para lhe falar baixinho, tinha o corpo inclinado do lado de dentro. Segurava as mãos da namorada e puxava com doce violencia, quando mostrava querer afastar-se.
Era o ardente colloquio dos dois cortado de frequentes pausas, durante as quaes se embebiam reciprocos os olhares carregados de paixão.
—Deixa-me ver bem o teu rosto, dizia Cyrino a Innocencia. Para mim, e muito mais bello que a lua e tem mais brilho que o sol.
E, apezar de alguma resistencia, fraca embora, mas conscienciosa, que lhe foi opposta, conseguiu que a formosa rapariga se recostasse ao peitoril da janella.
—Amar, observou ella, deve ser coisa bem feia.
—Porque?
—Porque estou aqui e sinto tanto fogo no rosto!... Cá dentro me diz um palpite que é peccado mortal que faço ..
—Você tão pura! contestou Cyrino.
—Se alguem viesse agora e nos visse, eu morria de vergonha. Sr. Cyrino deixe-me ... vá-se embora! ... o Sr. me atirou algum quebranto ... aquella sua mézinha tinha alguma herva para mim tomar ... e me virar o juizo...
—Não, atalhou o mancebo com força, eu lhe juro! Pela alma de minha mãe ... o remedio não tinha nada!
—Então porque fiquei ... ansim, que me não conheço mais?... Se papae apparecesse ... não tinha o direito de me matar?...
Foi-se-lhe a voz tornando cada vez mais baixa e sumiu-se num golfão de lagrimas.
Atirou-se Cyrino de joelhos diante della.
—Innocencia, exclamou, pela salvação de minha alma lhe dou juramento: nada de mau fiz para prender o seu coração... Se você me ama, é porque Deus assim mandou... Sou um rapaz de bons costumes... Até hoje nunca tinha amado mulher alguma ... mas não sei como deixar de amar uma moça como você... Perdoe-me; se você soffre ... eu tambem padeço muito... Perdoe-me...
Alçara o mancebo um pouco a voz.
De repente Innocencia estremeceu.
—Não ouviu ruido? perguntou ella com terror.
—Não, respondeu Cyrino.
—Alguem acordou lá dentro...
—Pois ... então vá ver ... o que é ... e se não for nada, volte... Aqui a espero, escondido á sombra da parede...
Minutos depois, reappareceu a moça.
—Não vi nada, disse.
—Então foi abusão.
—É melhor que o Sr. se vá embora.
—Não, Innocencia, tenha pena de mim... Eu não poderei vel-a tão cedo e ... preciso conversar ... mesmo para arranjo da nossa vida... O Manecão não tarda...
—Ah! exclamou ella com sobresalto, então mecê sabe...
—Sei; e desgraçadamente, breve está elle batendo aqui...
—Eu bem dizia que o Sr. me havéra de perder... Antes de o ter visto ... casar com aquelle homem, me agradava até... Era uma novidade ... porque elle lhe disse que me levava para a villa... Mas agora esta idéa me mette horror! Porque é que mecê mexeu commigo? Sou uma pobre menina, que não tem mãe desde creancinha... Não ha tanta moça nas cidades ... nos povoados?... Porque veio tirar o somno ... a vontade de viver a quem era ... tão alegre ... que até hoje não pensou em maldade ... e nunca fez damno a ninguem?
—E eu? replicou com energia Cyrino, pensa então que sou feliz?... Olhe bem uma coisa Innocencia. Digo-lhe isto deante de Deus: ou hei de casar com você ... ou dou cabo da vida... Quem arranjou tudo assim ... foi o meu caiporismo... Se eu tivesse passado aqui antes daquelle homem, que odeio, que quizera matar ... nada impediria que eu fosse hoje o ente mais feliz do mundo!... Mais feliz aqui neste sertão, do que o Imperador nos seus paços lá na côrte do Rio de Janeiro! Eu já lhe disse ... culpa não tive...
—Não ha nada que me possa salvar, atalhou a moça.
—Nada?... Talvez...
Soou nesse momento e repentinamente do lado do laranjal um assobio prolongado, agudissimo, e uma pedra, arremessada por mão mysteriosa e com muita força, sibilou nos ares e veiu bater na parede com surda pancada, passando rente á cabeça de Cyrino.
Deu Innocencia abafado grito de terror e fechou rapidamente a janella, ao passo que o mancebo, esgueirando-se com celeridade pela sombra, resoluto correu para o ponto donde presumia ter partido a pedra.
Não viu ninguem.
Por toda a parte, o ruido mysterioso e peculiar a uma noite calma de verão.
Percorreu em todos os sentidos o pomar, e só ouviu a bulha dos seus passos.
Afinal, de cansado, deixou o sitio e cautelosamente se dirigiu para o terreiro da frente.
Quando lá chegou, parou attonito.
O mesmo assobio, prolongado e finissimo, desta feita talvez mais estridente, feriu-lhe os ouvidos.
CAPITULO XIX CALCULOS E ESPERANÇAS
Apezar, porém, de joven, apezar da violencia do amor que a prendia a Julião, sabia ella conter os movimentos do seu coração e desconfiar de si mesma.
WALTER SCOTT.—Peveril do Pico.
Lisa—Comtanto que tenhas bastante resolução...
Lucinda—Que queres que eu faça contra a autoridade de um pae? Se elle for inexoravel aos meus pedidos?...
MOLIÈRE.—O amor medico.
Durante os dias de estada nas terras de Pereira, as quaes não tinham limites nem visinhos dalli a muitas leguas, augmentou Meyer a sua interessante collecção com extraordinaria variedade de bichinhos e sobretudo borboletas.
Tal era a alegria de que se possuira por esse fausto motivo, que a cada momento a manifestava num tom de franqueza capaz de por si só convencer o mais descrente dos homens em questão de sinceridade.
—Sr. Pereira, dizia o naturalista, afianço-lhe que em parte alguma do Brazil estive ainda tão bem como em sua casa.
—Eu te entendo, maroto, rosnava o mineiro.
—Devéras!... Só o que sinto é que sua filha não nos apparecesse mais... Sinto muito, na verdade...
Sorriu-se Pereira com riso amarello e replicou, apertando os punhos de raiva:
—Mochú sabe ... isto são costumes cá da terra. As mulheres não são feitas para...
—Para que? perguntou Meyer com pausa.
—Para prosearem com qualquer um...
—Que é prosearem?
—É conversar, dar de lingua, explicou Cyrino.
—Obrigado, doutor, retorquiu Meyer, agradecendo mais aquella indicação philologica que foi immediatamente enriquecer o seu caderno de notas. Prosear é conversar. Muito bem!... Pois é pena, Sr. Pereira, porque sua filha é uma bonita senhora!
—Nesta arapuca não caio eu, seu tratante... Hei-de toda a vida andar com o olho em ti, murmurava o mineiro.
—É pena, confirmava Meyer duas e tres vezes ... é pena...
Por certo não era esta a linguagem mais propria para desvanecer as prevenções e receios de Pereira; ao envez, mais e mais recrescia a sua vigilancia sobre Meyer, o que proporcionava ao verdadeiro culpado a liberdade de que carecia para tornar a ver o mal-guardado thesouro.
Não foi todavia sem custo a nova conferencia.
Ficara a pobre menina tão impressionada com o final da primeira entrevista, que por alguns dias mal sahia do quarto.
Escrever-lhe Cyrino, era de todo inutil, por isso que ella nunca aprendera a ler: e, depois, qual o meio de lhe fazer chegar ás mãos qualquer papel ou recado?
Sobravam, portanto, razões para que o joven se ralasse de impaciencia e quasi desesperasse da sorte.
Passava as noites em claro, mettido no laranjal e procurando uma solução a tanta difficuldade; atordoavam-no ainda aquelles dois assobios que não podia explicar e sobretudo aquella pedrada tão bem dirigida, que por pouco talvez o houvesse estendido por terra.
N'uma dessas noites de anciedade, viu afinal reabrir-se a janella de Innocencia.
A pobre coitada, abrazada tambem de amor, queria respirar o ar da noite e beber na viração do sertão uma pouca de tranquilidade para sua alma não afeita ao tumultuar dos sentimentos que a agitavam e, quem sabe? verificar se por ahi não andava rondando aquelle que no seio lhe inoculara tamanho desassocego, impetos tão desconhecidos e violentos, superiores a todas as suas tentativas de resistencia.
Cyrino, rapido como uma seta, rapido como aquella pedra arrojada tão vigorosamente, achou-se ao pé da janella e cobriu de beijos as mãos da sua amada.
—O grito? balbuciou ella. Dois gritos ... e a pedrada... Que foi?
—Ah! não foi nada, respondeu apressadamente Cyrino; fui ver no laranjal ... era um macauán[102] O que pareceu pedrada era um noitibó[103] que frechou para mim e veio dar com a cabeça na parede.
—Devéras? perguntou ella incredula.
—Devéras. A principio tomei tambem um grande susto. Depois, verifiquei que não passava de miragem. De noite, a gente em tudo vê maravilhas... Para mim, a unica que vi era você, minha vida, meu anjo do céu...
Com este madrigal encetou Cyrino uma conversação como a da primeira noite, como a que balbuciam duas candidas almas na eterna e sempre nova declaração de amor, desde que Adão e Eva a trocaram, á sombra das maravilhosas arvores do Eden.
Mostrou se o moço receioso da rivalidade de Meyer. Riu-se ella e gracejou, com espirito e bondade, da figura do estrangeiro. Com toda a confiança, chegou a idear planos de risonho futuro:
—Agora, que sei o que é amar, direi a meu pae que já não quero o Manecão...
—E se elle insistir?
—Hei de chorar ... chorar muito...
—Lagrimas, muitas vezes, de nada servem.
—Mas tenho cá commigo outro recurso...
—Qual é? perguntou Cyrino.
—Morrer!...
—Não! Ha outros ... hei de dizer-lhe...
Tomou Innocencia ar grave e meio offendido.
—Escute, Cyrino, observou ella, nestes dias tenho aprendido muita coisa. Andava neste mundo e delle não conhecia maldade alguma... A paixão que tenho por mecê foi como uma luz que faiscou cá dentro de mim. Agora começo a enxergar melhor... Ninguem me disse nada; mas parece que a minha alma acordou para me avisar do que é bom e do que é mau... Sei que devo de ter medo de mecê, porque pode botar-me a perder... Não formo juizo como; mas a minha honra e a de toda a minha familia estão nas suas mãos...
—Innocencia, quiz interromper Cyrino.
—Deixe-me falar, deixe contar-lhe o que me enche o peito... Depois ficarei socegada... Sou filha dos sertões; nunca morei em povoados nunca li em livros, nem tive quem me ensinasse coisa alguma... Se eu o maguar, desculpe será sem querer...Lembra-me que, ha já um tempão, pararam aqui umas mulheres com uns homens e eu perguntei a papae porque é que elle não as mandava entrar cá para dentro, como é de costume com familias... O pae me respondeu:—Não, Nocencia, são mulheres perdidas, de vida alegre. Fiquei muito assombrada.—Mas, então, melhor; se são alegres hão-de divertir-me.—Aquillo é gente airada, sem vergonha, secundou elle.—Tive tanto dó dellas que mecê não imagina. Depois fui espiar ... cahiam tontas no chão ... pitavam e cantavam muito alto com modos tão feios; que me fizeram corar por ellas! E são os homens que fazem ficar ansim as coitadas!... Antes morrer... Parece-me que Nossa-Senhora ha-de ter pena dos que amam ... mas desampara com certeza os que erram... Se não houver outro remedio, temos que nos lembrar que as almas, quando se acaba tudo neste mundo, vão pelos céus cheios de estrellas, passeando como num jardim... Se eu me finasse e mecê tambem, punha-se a minha alma a correr pelos ares, procurando a de mecê, procurando procurando, e então nós dois, juntinhos iamos viajando ora para aqui, ora para alli, ás vezes pelo carreiro de S. Thiago, ás vezes baixando a este ermo a ver onde é que botaram os nossos corpos... Não era tão bom?
Envolvida em sua pureza como num manto de bronze, entregava-se Innocencia com exaltamento e sem reserva á força da paixão. E essa natureza pudica e delicada a tal ponto dominava a Cyrino, que invencivel acanhamento o prendia ante a debil donzella, alheia a todos os mysterios da existencia.
Por isso, ao inflammado mancebo não acudia a idéa de saltar por aquella janella e menos a de praticar qualquer acção desrespeitosa. Consumia o tempo em beijos nas mãos da namorada, em tagarelices de amor, protestos, juras, e illusões de futuro.
—Amanhã, dizia Cyrino, hei de com cuidado assumptar a seu pae ... falando no seu casamento ... depois ... hei de virar a conversa para mim...
—Papae, observou a menina, é muito bom, muito mesmo. Mas tenho um medo delle! Tem um genio, meu Deus!...
—Quanto a mim ... heide falar bem claro e explicito... O que quero, é que você me seja constante...
Mas do sentimento de temor, que sobresaltava Innocencia, tambem participava Cyrino. Por isso, chegado o dia, não ousava tocar na melindrosa questão, bem que as continuas queixas de Pereira contra Meyer lhe dessem ensejo mais ou menos favoravel para desembaraçadamente encetal-a. Com gosto adiava o momento decisivo e esperava perplexo qualquer incidente, que melhor servisse a seus planos.
Entretanto, apezar de se accumularem os dias sem que trouxessem modificação naquelle estado de coisas, doce esperança pairava no fundo do seu coração, consentindo-lhe planos de venturoso porvir e feliz desenlace ás duvidas e soffrimentos em que vivia.
CAPITULO XX NOVAS HISTORIAS DE MEYER
Disse-lhe Sancho: Cada qual abra bem o olho e fique alerta, porque o diabo entrou na dansa e se lhe derem ensejo, ver-se-hão maravilhas.
Virae-vos em mel, e as moscas vos comerão.
CERVANTES.—D. Quixote. Cap. XLIX.
Uma occasião, de volta do trabalho diario, attingiu a habitual irritação de Pereira contra Meyer grande intensidade. Entrara cabisbaixo, sorumbatico e fez gesto a Cyrino de que precisava falar-lhe a sós. Dalli a pouco, saindo ambos, caminharam silenciosos pela estrada até a um regato que ficava a meio quarto de legua da casa.
—Que terá este homem hoje? dizia Cyrino comsigo mesmo. Talvez vá chegando o momento de tratar do assumpto.
Voltou-se de repente Pereira e, com voz alterada, prorompeu em exclamações:
—Sabe, Doutor, que não posso mais aturar esse allamão?... Aquillo é um mandingueiro, uma çuçuarana, vinda do inferno para me botar a perder!... Meu irmão ... meu irmão, que presente me fez você!...
—Mas, que houve? perguntou Cyrino.
—Olhe ... se não fosse aquella carta, e a palavra que dei ao maldito ... mil raios o partam, surucucú do diabo! potro melado!... já um bom balazio lhe teria varado os miolos...
—Que novidades ha então, Sr. Pereira? tornou a inquirir Cyrino.
—Vim mesmo até aqui para tirar este peso do coração...
—Mas...
—Sabe o senhor que aquelle Mochú é peor que um tigre preto?... Parece homem á toa, um punga, incapaz de matar uma pulga, não é?... Pois aquillo é uma alma damnada ... um seductor...
—Sempre as suas desconfianças! observou Cyrino.
—Desconfianças, não: agora, certeza. Pois o que quer dizer o homem todo o dia ... estar a lembrar-se da menina é... Procurar trazel-a á conversa?—Como está sua filha? pergunta-me elle sempre.—Está boa, de uma vez para todas. E elle, toda a vida a insistir... Isto me põe o sangue a ferver, mas vou-lhe respondendo com bom modo... Hoje, saiu-se o cujo de seus cuidados e disse-me como quem toma leite com farinha de milho[104]:—Sua filha vae casar?—Vae, respondi-lhe todo trombudo.—Com quem? Tive vontade de lhe dizer: Não é da tua conta, seu bisbilhoteiro, seu biltre, e atacar-lhe uma cabeçada, mas, como é meu hospede, secundei-lhe enfarruscado: Com um homem do sertão que hade amolar a faca na pelle da barriga do mariola que vier mexer com a mulher delle. O allamão não se deu por achado e, com todo o semvergonhismo, me retrucou: Pois o senhor faz mal. A sua filha é muito mimosa e deveria casar com alguem da cidade.—Então, perdi a paciencia: Mochú, lhe disse, cada um manda em sua casa como entende; eu na minha, não quero ser anarchizado; elle, quando me viu fulo de raiva, pediu-me mil desculpas, contou-me muitas historias, isto, aquillo, aquillo outro, et cœtera e tal, que era para bem de minha filha e não sei mais o que, numa lingua que pouco entendi...
—Não fez bem, atalhou Cyrino.
—Boa duvida! Aquillo é uma alma damnada ... boa para as caldeiras de Pedro Botelho, um judeu ... emfim, um caçador de anicetos: está dito tudo!... Mas ainda não lhe contei o mais... Parece que hoje estava mesmo com o diabo no corpo... Metteu-se no matto perto da minha roça, onde eu trabalhava com os meus captivos, e lá fazia um barulhão a quebrar galhos e romper o cipoal como se fosse anta; de repente ouvi uma gritaria muito grande; era o tal Meyer com o camarada José Pinho a berrar como dois minhocões[105]. Corri a ver o que era e os achei muito contentes a olhar para uma barboleta grande, já fincada num páu de pita. O allamão poz-se a pular como um cabrito.
É novo, me disse elle, é novo!—Novo o que, Mochú? Este bicho, ninguem o descobriu antes de mim! É coisa minha... Entendeu? E vou botar-lhe o nome de sua filha!... Quando ouvi aquillo, fiquei tão passado, que não pude engulir o cuspo da bocca... Vejam só ... o nome de Nocencia numa bicharada!... Até parece mangação... Agora, quero saber do doutor o que devo fazer... Venho pelo menos desabafar... Não posso metter uma bala naquelle patife como bem merecia ... mas tambem é demais tel-o em casa ... é demais! Peço-lhe um conselho... Felizmente, sempre o trago arredado de casa, e a menina de nada desconfia; do contrario, como mulher que é, havéra de me dar que fazer... Tambem não sei, porque é que o Manecão não chega ... só elle é quem havia de me livrar destes apuros... Uma vez que o tal allamão visse a rapariga com o noivo, deixava-a socegada... Não acha? Olhe, palavra de honra, isto ansim não é viver! Fui feito para dizer o que penso, tratar bem a todos ... mas estes modos que tenho agora, só Deus sabe quanto me custam... Até o meu serviço vae soffrendo, porque muitas vezes largo a roça e ponho-me a correr atraz dos bichinhos, só para não deixar de olho o tal marreco, em lugar de feitorar o trabalho dos negros... O meu fazendeiro é um diabo ruim e já velho... Ah! meu irmão, que carga você me pôz em cima das costas! Eu então, que não nasci para esconder o que sinto cá dentro!...
E Pereira, de tão attribulado que trazia o espirito deixou-se cahir num comoro de terra.
Cyrino, defronte delle, ficara de pé e pensativo.
Afinal, depois de breve duvida, decidiu tentar fortuna e encetar a grave questão que lhe importava a felicidade.
—Sr. Pereira, disse bastante commovido, acho que o allemão faz mal em andar batendo lingua em pessoa da sua familia, e dou razão ás suas inquietações...
—Ah! vosmecê é homem de confiança.
—Mas, continou o moço a custo e parando em cada palavra, penso que num ponto tem elle alguma razão... É quando ... lhe deu ... conselho ... que o senhor não casasse sua filha ... assim ... sem perguntar a ella ... se ... emfim não sei ... mas talvez o Manecão lhe não agrade...
Ergueu-se Pereira de um pulo e, approximando a face, repentinamente incendida de colera, junto ao rosto de Cyrino:
—O que? exclamou com voz de trovão, eu ... consultar minha filha?... Pedir-lhe licença ... para casal-a?... O senhor está doido?... Ou está mangando commigo?... Ai ... que tambem...
E vago lampejo de desconfiança lhe illuminou a chammejante pupilla.
Comprehendeu logo Cyrino a perigosa situação e, sem demora, tratou de desfazer a má impressão que produzira.
—Ah! disse com fingido riso, é verdade... Isto são costumes da cidade ... aqui, no sertão, ha outros modos de pensar... Desculpe-me, Sr. Pereira, este Meyer é que está a confundir-me todas as idéas. Pois eu julgo ... já que pede a minha opinião, que o senhor deve continuar a ter olho no estrangeiro ... e eu heide ajudal-o, quanto estiver nas minhas forças.
—Tambem agora, disse o mineiro depois de ligeira pausa, não hade ser por muito tempo... Ha mais de um mez que elle aqui pára e já me ... contou que breve seguia viagem para Camapuan... Desenganou-se afinal... O tal meco não chegará até lá ... mas é o mesmo. Um destes dias, leva por ahi algum tiro para lhe botar juizo na cachola, ou alguma facada que lhe ponha as tripas á mostra... Nem sempre ha de ter cartas de irmão para sahir-se bem da rascada... O diabo o leve para longe!... Voltemos, Sr. Cyrino... Já demais temos deixado o bicharoco sósinho.
E encaminhou-se para a vivenda, acompanhado de Cyrino. Ia este desalentado; na realidade, bem rentes lhe ficavam cortadas as esperanças que haviam animado na tentativa de opposição ao projectado casamento da amada com o terrivel e fatal Manecão.
Ainda a meio do caminho, voltou-se Pereira e disse-lhe peremptoriamente:
—Deveras, Sr. Cyrino, aquellas suas palavras me buliram com o sangue todo... Ainda o sinto galopar nas veias... Que ideias esturdias!... Que lembrança! Ah ... a tal vida das cidades ... cruzes!
CAPITULO XXI PAPILIO INNOCENTIA
Considerae a arte da composição das azas da borboleta: a regularidade das escamas, cobrindo-as, como se fossem pennas; a variedade das cambiantes côres; a tromba enrolada, com que suga o alimento no seio das flores: as antennas, orgãos delicados do tacto, que lhe corôam a cabeça cercada de uma rede admiravel de mais de mil e duzentos olhos...
BERNARDIN DE SAINT-PIERRE.—Harmonias da natureza.
Meyer, que estava sentado na soleira da porta com as compridas pernas encolhidas, ergueu-se precipitadamente ao avistar Cyrino e correu ao seu encontro.
Trazia o coração no rosto, um coração cheio de alegria e triumpho.
—Oh, Sr. doutor, exclamou, todo risonho, venha, venha ver uma preciosidade ... uma descoberta ... especie nova ... não ha em parte alguma... Ouviu? Coisa assim vale um thesouro... E fui eu que o descobri!... Nem sequer Júque me ajudou ... pois estava deitado e dormindo... Não é verdade, Sr. Pereira?
—Veja, murmurava o mineiro, que barulhada faz elle com o tal aniceto... Ao menos, se fosse um animal grande!
—É uma especie ... nova ... completamente nova! Mas já tem nome... Baptizei-a logo... Vou lhe mostrar... Espere um instante...
E, entrando na sala, voltou sem demora com uma caixinha quadrada de folha de Flandres, que trazia com toda a reverencia e cujo tampo abriu cuidadosamente.
Da propria garganta sahiu um grito de admiração, que Cyrino acompanhou, embora com menos enthusiasmo.
Pregada em larga taboa de pita, via-se formosa e grande borboleta, com as azas meio abertas, como que disposta a tomar vôo.
Eram essas azas de maravilhoso colorido; as superiores, do branco mais puro e luzidio; as de baixo, de um azul metallico de brilho vivissimo.
Dir-se-ia a combinação aprimorada dos dois mais bellos lepidopteros das mattas virgens do Rio de Janeiro, Laertes e Adonis, estes, azues como ceruleo cantinho do ceu, aquelles alvinitentes como petalas de magnolia recem-desabrochada.
Era sem contestação lindissimo especimen, verdadeiro capricho da esplendida natureza daquelles páramos. Tambem Meyer não tinha mão em si de contente.
—Este insecto, preleccionou elle como se o ouvissem dous profissionaes na materia, pertence á phalange das Heliconias. Denominei-a logo Papilio Innocentia, em honra á filha do Sr. Pereira, de quem tenho recebido tão bom tratamento. Tributo todo o respeito ao grande sabio Linneu—e Meyer levou a mão ao chapéu—mas a sua classificação já está um pouco velha. A classe é, pois, Diurna; a phalange, Heliconia, o genero, Papilio e a especie, Innocentia, especie minha e cuja gloria ninguem mais me póde tirar... Daqui vou, hoje mesmo, officiar ao secretario perpetuo da Sociedade Entomologica de Magdeburgo, participando-lhe facto tão importante para mim e para a sabia Germania.
Dizia Meyer tudo isto com legitima ufania e lentidão dogmatica.
Depois, com mais volubilidade e apezar de tropeçar amiudadas vezes em palavras, o que, para commodidade dos leitores, temos quasi sempre deixado de indicar, continuou:
—Reparem, meus senhores, neste lepidoptero com os olhos cuidadosos da sciencia. Tem quatro pés caminhantes; as antennas de terminação comprida, e oval, cavada em forma de colher; os palpares maiores do que a cabeça e escamosos; tromba toda branca e labio quasi nullo. Não perdi nem sequer um pouco do seu pó, porque o pó, um só grão de pó, vale tanto como uma penna de passaro, e a comparação é perfeita, visto como cada uma destas escamas, á semelhança das pennas, é atravessada por uma trachéa, por onde circula o ar. Oh! que achado! proseguiu elle. Que triumpho para mim! A Sociedade Entomologica de Magdeburgo hade ficar muito orgulhosa... Sem duvida alguma, farão uma sessão solemne, extraordinaria... Mein Gott!... Estou que não posso de alegria... Tambem daqui, a tres ou quatro dias, vou-me embora desta casa ... ainda que cheio de saudades...
—Devéras? atalhou Pereira, vai partir?
—Sim, senhor. O meu itinerario é para Camapoan; depois, vou a Miranda e talvez Nioac... Heide subir até ao Coxim e ahi, ou embarco para Cuyabá no rio Taquary, ou sigo por terra pelo Pequiry.
—E o senhor volta para sua patria?
—Boa duvida!... Daqui a anno e meio, pretendo apresentar a minha collecção toda arranjada á Sociedade Entomologica...
—Homem, observou Pereira com intenção que seu hospede não podia nem de leve perceber, eu quizera já estar nesse dia. Daqui a anno e meio, que voltas terá dado o mundo?...
—Terá percorrido, respondeu Meyer gravemente, dezoito signos do Zodiaco.
—Pois bem, eu queria ver isso... Já me tarda esse dia...
—Quando elle chegar, continuou o allemão com sinceridade e um tanto commovido, heide lembrar-me com gratidão do tratamento que recebi ... nos sertões do Imperio ... e heide dizer ... bem alto ... que os brazileiros ... são felizes porque são morigerados e tem muito boa indole ... hospitaleiros como ninguem.
—Accrescente, interrompeu Pereira com algum azedume, que zelam com todo o cuidado a honra de suas familias.
Obedeceu docilmente Meyer e repetiu palavra por palavra:
—E zelam com todo o cuidado a honra de suas familias.
—Muito bem, replicou o mineiro, diga isso, e o Sr. terá dito uma verdade.
CAPITULO XXII MEYER PARTE
Adeus, pois amigos; bella companhia! Aos lares distantes cada qual de nós, por caminhos diversos, deve um dia chegar.
CATULLO.—Epigramma XLVI.
Não haviam descontinuado as visitas feitas a Cyrino por enfermos de muitas leguas em torno. Tão frequentes e teimosos eram os casos de sezões ou maleitas, que a porção de sulfato de quinina que trouxera em suas canastras estava toda esgotada, pelo que se vira levado a substituir esse medicamento sem tanta confiança, porem, por plantas verdes do campo ou hervas seccas, fornecidas por uns bolivianos que encontrara em Minas, vindos de Santa Cruz de la Sierra em peregrinação pelo interior do Brazil e a tratarem de doentes, sem Chernoviz em punho, nem aquelles resquicios de conhecimentos therapeuticos que ostentava o nosso doutor.
Entre os enfermos que o vinham diariamente procurar, alguns accusavam molestias cujas qualificações eram complicadas e estramboticas: assim declaravam-se salteados de engasgue, espinhela cahida, mal de encalhe, tosse de cachorro, feridas brabas, almorreimas erysipelas, ou até assombração e mau-olhado.
Quem se queixava de engasgues era o capataz de uma fazenda chamada do Váu, distante umas boas cincoenta leguas.
—Sr. doutor, disse o enfermo, a minha vida é um continuo lidar de soffrimentos. Estou com este mal vae fazer cinco annos no S. João, por signal que me veio com uma grande dor na bocca do estómbago. Vezes ha que não posso engulir nada, sem beber muitos gólos de agua, de maneira que me encharco todo e fico que mal me mexo de um lugar para outro.
—E a dor, perguntou Cyrino, ainda a sente?
—Toda a vida, respondeu o capataz... O que me afflege mais é que ha comidas então que não me passam na guéla... É um fastio dos meus peccados... Boto uns pedacinhos no bucho e parece-me que dentro tenho um bolo que me está a subir e descer pela garganta...
Receitou o medico umas doses de herva de marinheiro como emetico, e fez mais algumas prescripções que o enfermo ouviu com toda a religiosidade.
No estado de perturbação moral em que se achava o joven facultativo, natural é que fosse uma coisa por outra; mais importante, porem, era a fé que suas indicações incutiam, a fé, essa alavanca poderosa da medicina, esse contingente precioso que o espirito ministra aos ingentes esforços da natureza na sua constante lucta contra os principios morbidos.
O doente de espinhela cahida accusava um peso muito forte e perenne no peito e a impossibilidade de levantar as mãos juntas á mesma altura.
Prescreveu-lhe Cyrino amargo do campo, genciana e quina, e ordenou-lhe certas cautelas firmadas na voz geral, mas com algum fundo de razão; verbi-gratia: engulir sempre a saliva e sobretudo deixar de fumar depois de comer.
O infeliz moço, ao passo que tratava de curar os outros, mais que ninguem precisava de quem nelle cuidasse, pelo menos da alma.
Via não só Meyer fazendo os seus preparativos de partida, e em vespera de deixal-o a sós com Pereira, podendo este descobrir afinal o engano em que havia laborado, como tambem a clinica quasi esgotada, aconselhando-lhe a conveniencia de transportar-se para outro ponto e continuar a interrompida jornada.
Tudo isto, e o amor a augmentar, a tirar-lhe todo o socego, a consumil-o a fogo lento...
Meyer, na realidade, desde o achado da sua magnifica borboleta, não pensava senão em partir.
—Oh! dizia elle, eu quizera estar já em Magdeburgo... Quantas leguas, Mein Gott!... Papilio Innocentia ... a minha gloria! Que diz, Snr. Cyrino?...
—É verdade ... mais quem sabe se o senhor não deveria ficar mais tempo aqui?... Talvez achasse outra borboleta nova...
—Não, é impossivel... Era felicidade de mais... Além disso, o dinheiro não me havia de chegar.
—Oh! posso emprestar-lhe...
—Muito obrigado ... mas é de todo impossivel a minha estada aqui... Veja o senhor: tenho ainda que ir a Camapoan, a Miranda, a Cuyabá, para então voltar... E só me restão poucos mezes... A Sociedade Entomologica de Magdeburgo conta commigo na primavera do anno que vem....
Mettida uma vez essa idéa na cabeça, Meyer não deixou mais de falar na sua viagem um só instante e, para que a execução correspondesse ao promettido, mandou na tarde seguinte, José Pinho, o camarada, alçar cargas ás costas do burro, depois de as ter, elle proprio, arranjado e revistado com toda a cautela.
Julgou o carioca nesse momento dever lavrar um protesto:
—Mochú, disse elle, vae recomeçar com o seu modo de andar por essas estradas á noite... Afinal havemos todos de cahir nalguma buraqueira, eu, o senhor, o burro de carga, e os bichos; e não chegaremos, nem eu ao Rio de Janeiro, nem elles e o senhor á sua terra. Emfim, já estou cansado de o avisar.
No momento da partida, apresentava o naturalista aquelle mesmo aspecto da celebre noite da chegada: eram aquellas mesmas frasqueiras a tiracollo, aquelle mesmo ar tranquillo e bonachão com que viera, fóra de horas, pedir pousada á casa de Pereira.
Este, ao ver o hospede a cavallo e prestes a deixar para sempre a sua morada, sentiu-se possuido de alegria, mesclada, sem saber porque, com surpreza repentina e intima, de tal ou qual commoção. No fundo, achou de si para si desconfianças mal empregadas, e deixou-se levar pela sympathia que em todos incutia o caracter naturalmente inoffensivo e meigo do saxonio.
—Chegou, declarou Meyer, a hora da minha despedida.
E, sacudindo com força a mão e o braço do mineiro:
—Sr. Pereira, meu amigo, adeus! ... nunca mais nos havemos de ver ... mas hei de lembrar-me do senhor toda a vida... Quando eu estiver na minha patria, daqui a milhares e milhares de leguas ... pelo pensamento recordarei os dias felizes ... que aqui passei.
—Oh! Sr. Meyer, balbuciou Pereira.
—Sim, felizes, continuou Meyer com muita lentidão, felizes porque correram ... sem eu perceber que O tempo estava caminhando... De todo o Brazil fica em mim a lembrança ... mas desta sua casa ... essa lembrança é mais viva e mais forte.
Acompanhara o allemão o seu pensamento com accentuado gesto, acenando com o punho fechado para mostrar a lealdade daquellas impressões.
Voltando-se para Cyrino, acrescentou:
—Sr. doutor, as suas receitas estão todas marcadas no meu caderno... O senhor póde enganar-se ás vezes ... mas as suas intenções são sempre boas ... e isso basta para desculpal-o... Eu...
Interrompendo o que ia dizendo, ficou instantes a olhar para Cyrino e Pereira, que estavam igualmente silenciosos, e uma lagrima comprida deslizou-se-lhe pela face, sem que a physionomia mostrasse a menor alteração.
—Adeus! concluiu elle de repente.
—Boa viagem, Sr. Meyer, boa viagem, disse Pereira ajudando-o a montar a cavallo.
—Adeus! adeus ... repetiu elle.
E interpellando o camarada:
—Júque, vá na frente!... Toque pouco no burrinho... Nosso pouso é daqui a meia legua...
Deu Meyer então de redeas e caminhou a passo, logo após de José Pinho, este munido de cabeçudo cacete evidentemente hostil ás costas do cargueiro entregue aos seus cuidados.

Lá vae o homem, exclamou Pereira.
—Lá vae o homem, exclamou Pereira ao ver a tropinha pelas costas. É um allivio... Elle, coitado, não era mau ... mas não tinha modos... Safa, heide me lembrar para sempre do tal Sr. Meyer! Foi uma campanha... Ué... Olhe, Sr. Cyrino... não está elle de volta?... Teria esquecido alguma bugiganga?
Com effeito reapparecia a trote o allemão em carne e osso, como quem vinha procurar ou dizer coisa de importancia.
—Então que tem? perguntou Pereira adeantando-se e alçando a voz. Deixou algum trem? Daqui a pouco é escurão[106].
Meyer, no emtanto, ia chegando e de certa distancia entrou a explicar a razão da volta:
—Não deixei cousa alguma, Sr. Pereira. Tão somente faltei a um dever...
—Qual é? indagou o mineiro.
—Não me despedi de sua filha...
—Ah! replicou Pereira com vivacidade ... não era preciso ... tanto mais que ella ... esta dormindo ... meio adoentada... Ha pouco tinha muito peso na cabeça... Eu lhe heide dizer... Não se incommode...
—Pois então, observou Meyer com muita gravidade, diga-lhe que tem em mim um criado, em toda a parte onde esteja... O seu nome ficou para sempre na sciencia e a estima em que a tenho é grande... É uma moça muito bella ... digna de ser vista na Europa...
—Pois não, pois não, interrompeu Pereira, vá sem susto.
—Sim, eu me vou, adeus!
—Vá indo ... olhe que o sol dobra de repente aquelle matto e a noite cae logo...
—Sim, sim, adeus, disse elle despedindo-se de uma vez.
E na estrada arêenta, á luz do astro que descambava, foi-se tornando comprida a mais e mais a sombra do bom Meyer, á medida que elle marchava atraz do seu camarada, do cargueiro e da collecção entomologica.
CAPITULO XXIII A ULTIMA ENTREVISTA
Está a mascara da noite sobre meu rosto: a não ser ella, verias as minhas faces tintas do rubor virginal.
SHAKESPEARE.—Romeu e Julieta, Acto II.
Mais cresce a luz, mais augmentam as trevas das nossas desgraças.
IDEM, Acto IV.
Grave modificação trouxe a retirada de Meyer no systema de viver daquella vivenda, onde se agitava um dos problemas mais comezinhos da natureza moral, mas que alli apresentava cores algum tanto carregadas, senão já sombrias.
Fora Pereira dormir no interior da casa, passando alli a maior parte do tempo. Assim os encontros dos dois apaixonados tornaram-se de todo impossiveis e, não tendo mais a attenção do mineiro o alvo que sempre collimara durante a estada do allemão, começava como era de prever, a voltar-se para Cyrino, a quem confessou ter tratado Meyer com injusta prevenção.
—Hoje, dizia o mineiro dóe-me a consciencia do modo porque desconfiei daquelle homem... Quem sabe se tudo que eu parafusei não foi abusão cá da cachola?... Sr. Cyrino, quando a gente entra a dar volta ao miolo ... é que vê que todos tem queda para malucos... Sim senhor!... Hoje estou convencido que o tal allamão era bom e sincero... Olhou para a menina ... achou-a bonitinha ... e disse aquelle despotismo[107] de asneiras sem ver a mal... Em pessoa que não guarda o que pensa, é que os outros se podem fiar... Ás vezes o perigo vem donde nunca se esperou... Emfim não me arrependo muito de ter feito o que fiz... Recebi ... e tomei tento...
Amiudando-se estes e outros dizeres eguaes, deram que reflectir a Cyrino. De uma hora para outra comprehendeu que as vistas inquisitoriaes poderiam tornar a sua posição insustentavel.
Por emquanto, tratou de encontrar-se com Innocencia. Grandes eram as difficuldades; o meio unico, tentar novamente as entrevistas nocturnas; pelo que do laranjal não arredava pé, noites e noites inteiras, ficando alli com os olhos presos á janella da querida do coração.
Certa madrugada, viu afinal a sombra de Innocencia.
Achou-se num apice o mancebo junto della e agarrou-lhe com violencia nas mãos.
—Emfim, exclamou elle, eu a vejo.
—Meu pae, murmurou a moça com voz tão fraca que mal se ouvia, póde acordar...
—Não importa, replicou Cyrino desabrido, descubra-se tudo ... não posso mais viver assim...
—Chi! observou ella, cuidado!.. Se elle nos acha aqui, mata-nos logo... Olhe, vá-me esperar junto ao corguinho[108] para lá do laranjal ... daqui a nada vou ter com mecê... A porta está só encostada...
O moço fez signal que obedecia e sumiu-se incontinente na escuridão do pomar.
Aquella hora dava a lua de minguante alguma claridade á terra; entretanto, como que se presentia outra luz a preparar-se no céu para irradiar com subito esplendor e infundir animação e alegria á natureza adormecida. Nos galhos das laranjeiras, ouvia-se o pipilar de passaros prestes a despertar, um gorgeio intimo e aveludado de ave que cochila; e ao longe um sabiá mais madrugador desfiava melodias que o silencio harmoniosamente repercutia. Riscava-se o oriente de dubias linhas vermelhas, prenuncio mal percebivel da manhã; nos espaços pestanejavam as estrellas com brilho bastante amortecido, ao passo que fina e amarellada névoa empallecia o tenue segmento illuminado do argenteo astro.
Não era mais noite; mas ainda não era sequer a aurora.
Tão commovido se sentia Cyrino, que teve de sentar-se, emquanto esperava por Innocencia.
Esta não tardou: vinha vestida de uma saia de algodão grosseiro e, á cabeça, trazia uma grande manta da mesma fazenda cujas dobras as suas mãos prendiam junto ao corpo. Estava descalça, e a firmeza com que pisava o chão coberto de seixinhos e gravetos, mostrava que o habito lhe havia endurecido a planta dos pés, sem lhes alterar, comtudo, a primitiva elegancia e pequenez.
Parecia muito assustada, e, mau grado seu, dos olhos lhe rolavam lagrimas a fio.
O mancebo, apenas a avistou, correu-lhe ao encontro.
—Innocencia, exclamou elle notando um gesto de duvida, nada receie de mim... Heide respeita-la, como se fora uma santa... Não confia então em mim?...
—Sim! disse ella apressadamente. Por isso é que vim até cá... Entretanto, estou com a cara ardendo ... de vergonha...
E levando uma das mãos de Cyrino ás suas faces:
—Veja, Cyrino, como tenho o rosto em braza... Porque é que mecê veio bulir commigo?... Eu era uma moça socegada ... agora, se mecê não gostasse mais de mim ... eu morria...
—Deveras?
—Eu lhe juro... É mais facil apagarem-se de repente estas estrellas todas, do que eu deixar de amal-a...
—E Manecão? perguntou ella com terror.
—Oh! esse homem, sempre esse nome maldito!...
—Hade ser meu marido...
—Isso nunca, Innocencia... É impossivel!... E se fugissemos?... Olhe amanhã a estas mesmas horas ou mais cedo, trago para aqui dois bons animaes... Você monta num, eu noutro ... batemos para Sant'Anna e, a galope sempre, havemos de chegar a Uberaba ... onde acharemos um padre que nos case... Vamos, ouviu?
—E mecê havia de me estimar toda a vida?
—Sempre... Diga, sim ... diga pelo amor de Deus, e estamos salvos ... diga!...
—E meu pae, Cyrino? Que havéra de ser?... Atirava-me a maldição ... eu ficava perdida ... uma mulher de má vida ... sem a benção de seu pae... Não ... mecê está me tentando... Não quero fugir... Antes a desgraça para toda a existencia ... mas fique eu sendo o que meu nome diz que sou... Já muito pecco, fazendo o que faço... Mecê é moço da cidade: não lhe custa enganar uma creatura como eu... Até...
—Pois bem, interrompeu Cyrino, você não quer?... não falemos mais nisso... Não heide querer, senão aquillo que achar bom... E se eu, por fim, me decidir a falar a seu pae?
—Deus nos livre! retorquiu ella aterrada. Pensei a principio que pudera ser, mas depois vi que era peior... Mecê não conhece o que é palavra de mineiro ... ferro quebra, ella não... Manecão hade ser genro delle...
—Quem sabe, Innocencia? Heide falar tanto ... pedir com tanta humildade...
—Ché, que esperança! ... de nada serviria...
—Então, que fazer? bradou o moço. A que Santa agarrar-nos? Porque é que o céu nos quer tanto mal?
E occultando a cabeça entre as mãos, desatou a chorar ruidosamente. Innocencia, por seu lado encostou a fronte ao hombro do amante, e ambos, unidos, choraram como duas creanças que eram.
Foi ella quem primeiro rompeu o silencio.
—Ah! meu Deus, se o padrinho quizesse!...
—Seu padrinho? perguntou Cyrino. Quem é? ... quem é elle?
—Um homem que mora para lá das Parnahybas, já nos terrenos Geraes.
—Onde?... É longe?...
Meio longe, meio perto... Mecê não conhece o Pauda[109]?
—Conheço... A 16 leguas do rio Paranahyba...
—Pois é ahi que padrinho pára[110]... A esquerda da fazenda do Pauda, n'umas terras de sesmaria...
—E como se chama elle?
—Antonio Cesario... Papae lhe deve favores de dinheiro e faz tudo quanto elle manda... Se dissesse uma palavra, Manecão havéra de ficar atrapalhado...
—Oh! exclamou Cyrino com confiança, estamos salvos então!... Amanhã mesmo, monto a cavallo e toco para lá... Daqui á villa são sete leguas... Até lá, umas dezesete... É um passeio... Chego ... conto-lhe tudo ... ponho-me de rastos aos seus pés ... e...
—Mas, interrompeu Innocencia, não lhe falle em mim, ouviu? Não lhe diga que tratou commigo ... que commigo mapiou... Estava tudo perdido... Invente umas historias ... faça-se de rico ... nem de leve deixe assumptar que foi por meu juizo que mecê bateu a porta delle... Hi! com gente desconfiada, é preciso saber negacear...
—Oh! meu Deus, disse Cyrino no auge da alegria, estamos salvos!... Não ha duvida... Vejo agora como hade tudo acontecer... Depois de um dia ou dois de parada na casa, desembucho o negocio. O velho escreve uma carta a seu pae e, pelo menos, se não se arredar logo o Manecão ... ganha-se tempo... Eu já quizera estar montado na minha besta tordilha queimada, a bater a estrada por ahi afóra... Dois dias para ir, dois para voltar, dois ou tres de pousada... Com pouco mais de uma semana, estou de volta, trazendo ou a felicidade ou a caipora de uma vez. Não! Tenho fé em Nossa Senhora da Abbadia... Ella nos ajudará ... e juntos havemos ainda de cumprir a promessa que já fiz...
—Que permessa foi? perguntou Innocencia com curiosidade.
—Irmos nós daqui até a villa a pé, botar duas velas bentas no altar de Nossa Senhora.
—Sim confirmou a moça com fogo eu juro... Fosse até ao fim do mundo!...
—Oh! minha santa do Paraizo, exclamou o moço apertando-a de encontro ao peito, quanto você me ama!!
E assim abraçados, quedaram elles inconscientes, emquanto a aurora vinha clareando o firmamento e desferindo para a terra raios indecisos como que a sondarem a profundidade das trevas; em quanto os passaros chilreavam á surdina, preparando as gargantas para o matutino concerto; emquanto o orvalho subia da terra ao céu molhando o dorso das folhas das grandes arvores e suspendendo, ás das rasteiras plantinhas, gottas que scintillavam já como diamantes.
Ao longe, á beira de algum rio, as aracuans levantavam a sonora grita, e o macauan atirava aos ares os pios prolongados da aspera garganta.
—É dia, observou Innocencia desprendendo-se dos braços de Cyrino.
—Já?! exclamou este amuado.
—Meu Deus, e eu que tenho de ir até a casa ... vou-me embora...
—Então, partirei hoje mesmo, disse o moço.
—Sim...
—E na semana que vem, estou de volta...
—Pois bem... Leve com mecê esta certeza: a minha vida ou a minha morte depende do padrinho...
—A minha tambem, replicou o mancebo beijando com fervor as mãos de Innocencia...
Deixe-me ... deixe-me, implorou ella. Adeus, estou com um medo!... Felizmente ninguem me viu...
Nesse momento e, como que para responder á asseveração, de dentro do pomar partiu aquelle fino assobio que tanto assombrara os amantes na primeira das suas entrevistas.
Innocencia quasi cahiu por terra.
—Meu Deus! balbuciou ella, que agouro!... Quem sabe se não é gente?
Ao assobio seguiu-se uma especie de gargalhada, que gelou o sangue nas veias dos dois miseros.
Agarrou-se a menina a Cyrino.
É alma do outro mundo, murmurou ella persignando-se.
Não perdera o mancebo o sangue frio. Invocando a São Miguel, fez o signal da cruz na direcção dos quatro pontos cardeais; depois suspendeu a moça em seus braços e, transpondo a toda a pressa o pomar, foi depol-a junto á porta que estava entreaberta, naturalmente pelo vento.
Quase desmaiara Innocencia; entretanto, reunindo as forças pode entrar, e cautelosa correu o ferrolho interior.
Mais sossegado a esse respeito, voltou Cyrino ao laranjal e, como da primeira vez, pôz-se a percorrel-o em todos os sentidos, indagando, á nascente claridade do dia, se era ente humano ou fantasma quem delle parecia fazer joguete.
No momento em que passava por junto de uma laranjeira mais copada, viu de repente certa massa informe cair-lhe quasi na cabeça e no meio de folhas e ramos quebrados vir ao chão com surdo grito de angustia.
—Cruz! T'esconjuro! bradou o moço.
E, como uma visão, passou-lhe por perto uma creaturinha, desaparecendo logo entre os troncos das arvores.
Alli esteve Cyrino com os cabellos eriçados, os olhos fixos, os braços hirtos de terror, os labios seccos a tartamudear um exorcismo, e as pernas a tremer.
Uma voz, a certa distancia, arrancou-o desse espasmo.
Era Pereira; com a mão encostada á bocca, interpelava a um dos seus escravos.
—Faz fogo, José!... Se for alma do outro mundo ou lobisomem, a bala não pega... Se for gente, melhor.
E um tiro troou.
Sibilou uma bala aos ouvidos de Cyrino, indo cravar-se numa arvore proxima.
Por outra, não esperou elle. Com o favor da escuridão que ainda reinava, deslisou rapido e foi buscar a frente da casa, quando já iam acordando os camaradas.
Mal chegara á sala, appareceu-lhe Pereira á porta.
—Que foi isso? perguntou Cyrino compondo a physionomia.
—Lá sei, respondeu o mineiro. Uma matinada de gritos no laranjal, que parecia um inferno... A pequena ficou toda que parecia querer morrer de medo. Desconfio que a alma do collector[111] andou hoje me rondando a casa... Não seja presagio de mal... A Senhora Sant'Anna nos proteja...
—Pois eu cá dormi como um chumbo, disse Cyrino; acordei com um tiro...
—Não hade poder enfiar outra somneca; daqui a um nadinha, está o sol batendo no terreiro.
Com effeito, depressa caminhara o alvorecer, e debaixo daquellas vivas impressões acordaram aquelles que haviam conciliado o somno, na morada de Pereira.
CAPITULO XXIV A VILLA DE SANT'ANNA
Debaixo do céu ha uma cousa que nunca se viu: é uma cidade pequena sem falatorios, mentiras e bisbilhotices.
LAVERGNE.
Nesse mesmo dia, montou Cyrino a cavallo e despediu-se de Pereira por uma semana ou pouco mais dando por motivo de tão inesperada viagem, não só a necessidade de visitar alguns doentes mais afastados, senão tambem procurar, quer na villa, quer mesmo nos campos da provincia de Minas Geraes, uns remedios e simplices que lhe iam faltando.
—Daqui a um terno de dias estarei de volta, disse ao partir.
Desde a casa de Pereira até ao Albino Lata é tão ensombrada e agradavel a estrada, que essas tres leguas lhe foram muito faceis de vencer.
Alli, porem, começam campos dobrados e soalheiros que, num estirão de quatro leguas, até á villa de Sant'Anna tornam penosa a viagem, sobretudo quando são percorridas sob os ardentes raios do sol do meio-dia.
Exaltam-se e irritam-se os incommodos de espirito, no momento em que o physico começa a soffrer.
Quando Cyrino passou por aquellas campinas desabrigadas, abrazado de calor, desaminou completamente do exito da empreza a que se atirara. Tanta esperança o alvoraçara quando ia seguindo a vereda encoberta e amena, quanto desalento sentia agora; e, descoroçoado, deixava que deixava que o animal o fosse levando a passo vagaroso e como que identificado com a disposição de animo do cavalleiro.
—Que vou eu fazer? pensava quase alto... Como encetar aquella conversa?
Tamanha era a duvida que o salteava que chegou quase a blasfemar contra a amada do seu coração.
—Maldita a hora em que vi aquella mulher... Seguia eu sossegado o meu rumo ... botaram-me a perder os seus olhos!... Depois, exclamou contrito:
—Perdão, Innocencia! perdão, meu anjo! Estou a amaldiçoar a hora da minha felicidade... Eu, que sou homem, posso fugir ... deixar-te ... mas tu, amarrada à casa... Infeliz, fui o culpado!...
E, engolfado em dolorosa cogitação, alcançou a Vila de Sant'Anna do Paranahyba.
De longe é summamente pitoresco o primeiro aspecto da povoação.
Ponto terminal do sertão de Matto Grosso, assenta no abaulado dorso de um outeirozinho. O que lhe dá, porem, encanto particular para quem a vê de fora, é o extenso laranjal, coroado anualmente de milhares de aureos pomos, em cuja folhagem verde-escura se encravam as casas e ressalta a cruz da modesta igreja matriz.
Transpondo limpido regato e vencida pedregosa ladeira com casinholas de sapé á direita e á esquerda, chega-se á rua principal, que tem por mais grandioso edificio espaçosa casa de sobrado, de construção antiquada. Ornamenta-a uma varanda de ferro e um telhado que se adianta para a rua, como a querer abrigal-a em sua totalidade dos ardores do sol.
É ahi que mora o Major Martinho de Melo Taques, baixote, rechonchudo, corado.
Na sua loja de fazendas, ao rez do chão, reune-se a melhor gente da localidade, para ouvil-o dissertar sobre politica, ou narrar a guerra dos farrapos no Rio Grande do Sul e a vida que se leva na côrte do Rio de Janeiro, onde estivera pelos annos de 1838 a 1839.
De vez em quando, naquella silenciosa rua em que tão bem se estampa o typo melancolico de uma povoação acanhada e em decadencia, apparece uma ou outra tropa carregada, que levanta nuvens de pó vermelho e atrahe ás janellas rostos macilentos de mulheres, ou á porta creanças pallidas das febres do Rio Paranahyba e barrigudas de comerem terra.
Tambem aos domingos, à hora da missa, por alli cruzam mulheres velhas, embrulhadas em mantilhas, acompanhando outras mais mocinhas, que trajam capote comprido até aos pés e usam daquelles pentes andaluzes, de moda em tempos que já vão longe.
Atravessou Cyrino a vila, e passando por defronte do Sr. Taques saudou-o com a mão, e sem parar.
Estava o major, como de costume, sentado ao balcão, de chinelos, sem meias, e rodeado das pessoas gradas do lugar, a contar não só as proprias proezas, que muitas tinha aquelle estimavel cidadão, senão tambem as façanhas dos antigos sertanejos, historias que sabia na ponta da lingua.
—Lá vae o doutor, disse um dos presentes á palestra da loja.
—Oh Sr. Cyrino! interpelou o major correndo para a porta. Então que é isso? Por aqui?
—É verdade, respondeu Cyrino, e vou de passagem; tambem por pouco tempo; talvez nesses oito ou dez dias esteja de volta.
Tudo quanto enchia a salinha havia sahido para a rua, de modo que o moço ficou logo cercado. Recostavam-se uns quasi á anca do animal; afagavam-lhe outros a pá do pescoço ou brincavam com o freio.
Achava-se a curiosidade aguçada: era preciso dar-lhe pasto.
Comprehendeu o major o alcance da situação.
—Cada qual tem os seus negocios particulares, disse logo para começar; mas, se não ha segredo que quer dizer esta sua volta?
—Já devia estar bem longe de acá, observou um sujeito. Ha quasi dois meses que parou aqui na cidade e...
—Espere, interrompeu o vigario, não ha tal dois mezes. O doutor passou por esta rua ha um mez e vinte dois dias, ás oito horas da manhã.
—Pois bem, continuou o major, tinha tempo de sobra para estar já por bandas de Miranda...
—Isso, se fosse escoteiro, replicou Cyrino, reparem que levava cargas ... e, demais, viajava curando...
—É verdade! confirmou o collector (homem esguio, que trazia um chapéu muito alto e afunilado), não pensam nisso. O que querem é falar ... falar...
—Creio que o senhor não atira a mim, observou o vigario com ar rusguento.
—Quem em tal cuida, senhor padre? protestou logo o outro. Estou dizendo em geral... Em geral. Eu não...
—Mas, doutor, atalhou o major, onde esteve o senhor de molho este tempão todo? ... nalguma fazenda?
Prometia ir longe o interrogatorio.
—Eu já estava quase perto do Sucuriú, disse Cyrino meio perturbado, no...
—Não é tão perto assim, objectou o vigario. Uma vez...
—Ouçamos, senhor padre, atalhou o collector denunciando rixa velha com o clerigo. O moço não disse que seja perto daqui...
Repetiu o major as palavras de Cyrino, acentuando-as de certo modo:
—Então o doutor já estava quasi perto do Sucuriú, não é?
—De facto. Alli encontrei uma pessoa que me devia, há mezes um dinheiro...
—Um dinheiro? perguntou o vigario. Uma pessoa?... Que pessoa? Quem será?
—Homem, quem poderá ser? indagaram a um tempo vozes sofregas.
Prosseguiu o major implacavel:
—Deixem o doutor explicar-se... Vocês fazem logo uma algazarra!...
Foi quasi a balbuciar que Cyrino procurou continuar:
—Sim ... certo tropeiro ... mandou ordem para mim cobrar ... de um parente uma bolada... Tambem eu tinha que ... pagar outra pessoa ... que...
—Espere, espere, interrompeu o major, então o senhor veio receber dinheiro ou desembolsar? Não é uma e a mesma coisa...
—Por certo, apoiaram os circunstantes.
Cyrino fez repentina parada nas suas explicações.
—Tambem, disse com alguma volubilidade, muito breve estarei voltando cá. Tenho de ir para lá do rio...
—Vai até as Melancias? Indagou o collector ageitando o nome de um pouso para ver se acertava.
—Mais adiante, respondeu o moço. E vendo a impossibilidade de escapar de tão terrivel inquirição, mudou de tactica.
—Na volta, disse ele dirigindo ao major, hei de lhe comprar algumas fazendas...
Na volta, disse ele dirigindo ao major, hei de lhe comprar algumas fazendas...
—Já adivinhei, exclamou o vigario cortando a palavra a Cyrino, o doutor vae casar.
—Ora, chasquearam alguns, para que tanto segredo?... Ninguem lhe vae roubar a noiva!...
—Sobretudo quando as coisas têm de me vir parar ás mãos, ponderou o padre.
Por instante, deram o acanhamento e o silencio de Cyrino azo a muitas observações.
—Parabens! dizia um.
—Quem é essa feliz sertaneja? perguntaram outros.
—Juro-lhes, meus senhores, protestou o moço, não ha nada...
Prosseguiu o padre:
—Pois, se quer um conselho, apresse isso; de uma cajadada matarei dois coelhos... É o senhor e o Manecão.
—Na verdade, concordaram os presentes.
—Mas, onde se metteu elle? perguntou um delles.
—Ha pouco estava aqui...
—Quem? o Manecão?
—Sim...
—Alli vem elle! anunciou alguem
No fim da rua, apparecia, com efeito, um homem montado em fogoso cavallo que sofreava com firmeza e mão adestrada.
Era a personificação do capataz de tropa.
Cabellos compridos e emmaranhados, ar selvatico e sobranceiro, tez queimada e vigorosa musculatura constituiam um tipo que atraia de prompto a attenção.
Mettidos os pés numa especie de polainas de couro cru de veado, grandes chinelas de ferro, lenço vermelho atado ao pescoço, garruchas nos coldres da sella e chicote de cabo de osso em punho, tudo indicava o tropeiro no exercicio da sua lida.
—Nosso Senhor ... comvosco, disse ao chegar erguendo ligeiramente a aba do chapéu com a ponta do dedo indicador.
—Bons dias, Sr. Manecão, respondeu por todos o major, ou melhor, boas tardes. Já sei que desta feita vae de batida..
—Boa duvida, grasinou o vigario, vai ver a pequerrucha.
Sorriu-se o capataz com melancolia:
—Não é por isso Sr. vigario. Não me deixo anarchizar[112] por mulheres; mas, emfim a gente deve um dia deitar a poita... A vida é uma viagem...
Haviam Cyrino e Manecão ficado no meio dos curiosos.
Fitaram-se: um, indifferente e altivo no modo de encarar; outro, descorado meio tremulo.
—Este cujo é o cirurgião? Perguntou à meia voz Manecão adernando no sellim para o lado do collector. A Cula[113] da venda me disse que tinha chegado... Tem-me cara de enjoado[114].
—Chi! retrucou o outro, mas tem cabeça[115]. Por ahi fez um despotismo de curas.
Cyrino, notando que tratavam delle, comprimentou com um sorriso de amabilidade.
—Boa tarde, patricio.
—Ora viva, correspondeu o tropeiro em tom aspero.
E, olhando para o sol, acrescentou:
—Vejam lá o que é um homem estar como mulher ... a bater lingua... A tarde vem descendo, e muito tenho hoje que palmear... Minha gente, adeus... Sr. major, até mais ver... Sr. vigario, breve estou por cá...
Esporeou o animal o circulo abriu-se, e Manecão partiu em boa marcha.
Aproveitando, por seu turno, aquella sahida rapida, que rompera a cadeia dos que o rodeavam, apertou Cyrino a mão do major e tomou rumo do Rio Paranahyba, em cuja margem contava passar a noite.
Mal desapparecera, e choveram commentarios que nem saraiva.
—Notou o senhor, disse o vigario para o major, como esta mudado? ... todo jururú...
—Nem tanto, contrariou o collector, nem tanto...
O Sr. Taques, major e juiz de paz, tomou ar de profunda meditação.
—Hão-de os senhores ver, disse por fim levantando um dedo para o ar, que ahi ha dente de coelho...
Durante aquella noite e muitos dias subsequentes, repetiu a villa todas estas celebres palavras.
—Foi o major quem o disse, asseveravam convictos, alli há dente de coelho.
CAPITULO XXV A VIAGEM
Ás vezes sinto necessidade de morrer, como pessoas acordadas sentem necessidade de dormir.
MME DU DEFFAND.
Encantador paiz! Teu aspecto, teus solitarios bosques, ar puro e balsamico, tem o poder de dissipar toda a sorte de tristezas, menos a da perda da esperança.
CARLOTA SMITH.
Cyrino em pouco mais de uma hora, transpôz a distancia da povoação ao rio. Tambem, na legua e quarto que até lá medeia, só ha de ruim o trecho em que fica a floresta que borda as margens da magestosa corrente.
Nessa matta, trazem os troncos das arvores vestigio das grandes enchentes; o terreno é lodacento e ennatado; centro de putrefacção vegetal donde irradiam os miasmas que, por occasião da retirada das aguas, se formam em dias de calor abrazador e suffocante.
Abundam alli coqueiros de stipite curto e folhuda corôa chamados aucurys, a que rodeiam numerosas lagoinhas de agua empoçada e coberta de limo.
Em nada é, pois, aprazivel o aspecto, e a lembrança de que alli imperam as temidas sezões faz que todo o viajante apresse a travessia de tão tristonhas paragens.
Ouve-se a curta distancia o ruido do rio que corre largo, claro e com rapidez.
Como duas verdes orlas reflectem-se no espelhado da superficie as elevadas margens, a cujo sopé moitas de sarandys, curvadas pelo esforço das aguas e num balancear continuo, produzem doce marulho.
Causa-nos involuntario scismar a contemplação de grande massa liquida a rolar, a rolar mansamente, tangida por força occulta.
Bem como a ondulação incessante e monotona do oceano agita a alma, assim tambem aquelle perpassar perenne, quasi silencioso, de uma corrente caudal, insensivelmente nos leva a meditar.
E quando o homem medita, torna-se triste.
Franca e espontanea é a alegria, como todo o facto repentino da natureza. A tristeza é uma vaga aspiração metaphysica, uma elação inquieta e quasi dolorosa acima da contingencia material.
Ninguem se prepara para ficar alegre. A melancolia, pelo contrario, aos poucos é que chega, como effeito de phenomenos psychologicos a encadear-se uns nos outros.
De que modo nasceu aquella enorme móle de aguas? Donde veiu? Para onde vae? Que mysterios encerra em seu seio?
Largo tempo ficou Cyrino a olhar para o rio. Em sua mente tumultuavam negros pensamentos.
Já se havia diffundido o crepusculo, e bandos folgazões de quero-queros saudavam os ultimos raios de sol e despertavam os écos em descommunal gritaria. De vez em quando, passava algum pato selvagem, batendo pesadamente as azas; sobre as aguas, adejavam garças estirando e encolhendo o niveo collo e pombas, aos centos, cruzavam de margem a margem a buscar inquietas o pouso de querencia.
Foi a luz gradativamente morrendo no céu, seguida de perto pelas sombras; e o rio tomou aspecto uniforme; como se fora immensa lamina de prata não brunida.
—Emfim, conheci o Manecão! pensava Cyrino. E para esse é que reservam a minha gentil Innocencia?!... Bonito homem para qualquer ... para mim, para ella, horrendo monstro!... E como é forte!...
Digamol-o, sem por isso amesquinhar o nosso heróe, a idéa de força no rival acabrunhava-o.
—Se eu pudesse ... esmagava-o!... E que ar sombrio e desconfiado!... Meu Deus, dae-me coragem ... dae-me esperanças... Nossa Senhora da Abbadia!... Nosso Senhor da Canna Verde ... valei-me!...
E o mancebo, deante daquella natureza acabrunhadora a quem tanto importava a paixão que lhe atenazava o peito, como o insecto a chilrar debaixo da folha de humilde herva, cahiu de joelhos, orando com fervor ou, melhor, desfiando automaticamente as preces que sua mãe lhe havia, em pequeno, ensinado.
E o rio lá se ia sereno; e uma onça ao longe urrava, ou algum passaro da noite soltava gritos de susto, esvoaçando ás tontas.
* * * * * * *
Transpondo, na manhã seguinte, o rio Paranahyba, pisou Cyrino territorio de Minas-Geraes.
Depois de legua e meia em matta semelhante á da margem direita, abrem-se campos dobrados, um tanto crestados do sol, de aspecto pouco variado, mas abundantissimos em perdizes e codornas.
Tão preoccupado levava o moço o espirito que, nem sequer uma só vez, imitou o pio daquellas aves; distracção, a que aliás não se furta quem por lá viaja, tão instantes são os motivos de instigação.
Foi com impaciencia mais e mais crescente que percorreu as dezeseis leguas intermedias á fazenda do Padua.
Ia com o coração cheio de aprehensões e os olhos se lhe arazavam de lagrimas, de cada vez que contemplava o melancolico bority. Então pelo pensamento voava á casa de Innocencia. Tambem, alli junto ao corrego em cuja borda se déra a ultima entrevista, se erguia uma daquellas palmeiras, rainha dos sertões.
Que estaria fazendo a querida dos seus sonhos?
Que lhe aconteceria? E Manecão?! Já teria lá chegado?
Ao pensar nisto, augmentava-se-lhe a agitação e com vigor esporeava a cavalgadura.
Transformava-se para elle o caminho em dolorosa via, que numa vertiginosa carreira quizera vencer, mas que era preciso ir tragando pouso a pouso, ponto por ponto.
A magestosa impassibilidade da natureza exasperava-o.
Quando o homem soffre devéras, desejara nos raptos do allucinado orgulho, ver tudo derrocado pela furia dos temporaes, em harmonia com a tempestade que lhe vae no intimo.
—Meu Deus! murmurava Cyrino, tudo quanto me rodeia está tão alegre e é tão bello! Com tanta leveza voam os passaros: as flores são tão mimosas; os ribeirões tão claros ... tudo convida ao descanço ... só eu a padecer! Antes a morte... Quem me dera arrancar do coração este peso! esta certeza de uma desgraça immensa! Que é afinal o amor!... Daqui a annos talvez nem me lembre mais da pobre Innocencia... Estarei me atormentando á tôa... Oh não! Essa menina é a minha vida! é o meu sangue ... o meu pharol para os céus... Quem m'a rouba, mata-me de uma vez. Venha a morte ... fique ella para chorar por mim ... um dia contará como um homem soube amar!...
Levantara Cyrino a voz. De repente, deu um grande grito, como que o suffocava:
—Innocencia!... Innocencia!
E as sonoridades da solidão, doceis a qualquer ruido, repetiram aquelle adorado nome, como repetiam o uivo selvatico da çuçuarana, a nota plangente do sabiá ou a martellada metallica da araponga...
Como tudo, afinal, tem termo, alcançou Cyrino, no quarto dia, a casa de Antonio Cesario. Acolheu-o este com toda a amabilidade e franqueza.
CAPITULO XXVI RECEPÇÃO CORDIAL
Assignalemos este dia entre os mais felizes; não se poupem amphoras; e, como Sabios, descanso não demos aos nossos pés.
HORACIO.—Ode XXVI.
Em breve chegara Manecão á casa do futuro sogro.
Não é grande a distancia de Sant'Anna até lá, e entretanto o animal brioso e descansado que montava o tropeiro viera sempre estimulado do ferreo acicate.
Batia de impaciencia o coração do capataz, e a lembrança da formosa noiva que o esperava, enchia-o de desconhecido alvoroço. Tambem, por vezes, fugia-lhe do rosto o toque habitual de severidade, e tenue sorriso afastando a custo os densos bigodes, lhe pairava nos labios.
Acolheu-o Pereira com verdadeira explosão de alegria.
—Viva! viva! exclamou de longe acenando com os braços, seja bemvindo neste rancho... Ora, até que afinal!... Faltam rojões para festejar a sua chegada... Que demora!... Pensei que não topava mais com o caminho da casa... Nocencia vae pular de contente...
Emquanto o mineiro enfiava estas palavras quasi em gritos, apeou-se o sertanista que, de chapéu na mão, veiu pedir-lhe a benção.
—Deus o faça um santo, disse Pereira abençoando-o com fervor. Você não queria chegar...
—Como vae a dona? perguntou Manecão.
—Agora, muito bem. Teve sezões; mas já está de toda boa...
—E lembrou-se de mim?
—Olhe, que enjoado!... Pois se elle enfeitiça a gente... Eu mesmo só pensava em você... Quando estará por cá aquelle marreco? dizia eu commigo mesmo ... e botava uns olhos compridos por essa estrada a fora ... quando mais, mulher! Isto é um não acabar nunca de saudades. Mas, observou elle, estamos a bater lingua e não o faço entrar... Agorinha mesmo, Nocencia foi para o corrego... Desensilhe o pingo e deixe-o por ahi...
Fez Manecão o que disse Pereira. Tirou os arreios, não de subito, mas com cautela e lentidão para que o animal, encalmado como estava, não ficasse airado: deixou sobre o lombo a manta e, apanhando um sabugo de milho, esfregou de vagar a anca e o pescoço.
Depois de dar termo áquelles cuidados, penetrou na casa fazendo soar ruidosamente as esporas, que pelas dimensões desproporcionadas o obrigavam a caminhar firmado nos dedos do pé e com a planta levantada.
O mineiro não cabia em si de contente.
—Então, está tudo arranjado? perguntou alegremente.
—Tudo. Os papeis já foram tirados... Tive que ir até Uberaba, e foi o que me atrazou... Quando mecê queira ... botamo-nos de partida para a Senhora Sant'Anna... Amanhã cá chegam os cavallos que comprei... Está falado o Lata ... o vigario avisado; só ... falta o dia...
—Nestes casos, quanto mais depressa melhor... Não acha?
—Certo que sim...
—Então, se quizer, daqui a dois domingos...
—Como queira... Eu, cá por mim... Bem sabe, isto de casorios, o que custa é ... tomar resolução ... depois ... deve-se pegar na carreira... A rapariga está prompta?...
—Não sei ... hade estar... Vejo-a sempre cosendo... Quero ficar bem certo do dia, porque mando chamar a gente do Roberto... Afinal, é preciso matar a porcada e mandar buscar restillo[116]. Quando se casa uma filha e ... filha unica, as algibeiras devem ficar velleiras[117]... Já estão todos combinados ... é só dar o signal... Tudo se arma logo... Aqui, em frente da casa, faz-se um grande rancho... A latada para a janta hade ser no oitão direito... Já encommendei de Sant'Anna alguns rojões, e o mestre Trabuco prometteu-me uns que deitam lagrimas... Depois, tiros de bacamarte e ronqueiras hão de troar...
—Eu, interrompeu Manecão, mandei com a sua licença vir da cidade duas duzias de garrafas de vinho da casa do major...
—Olaré! Você metteu-se em gastos!... Duas duzias de garrafas de vinho?
—Nhôr-sim...
—Pois essas, meu caro, hão de ser reguladinhas da silva... Para o vigario ... para o major ... o collector ... o professor ... emfim, gente de alguma representação, porque com ella conto, sem falar na arraia miuda. Isso ha de haver um despotismo. Quero que, dez dias antes da fonçonata venha a comadre do Ricardo com o seu povaréu para prepararem sequilhos, tarecos, bróas, biscoitos de polvilho e brevidades[118]. Haverá regalo de chicolate[119] todas as manhãs... Você verá que desta festa falarão... E o sapateado á noite? Os descantes?... Talvez se possa arranjar um cururú valente...
—Mas, perguntou Manecão, qu'é de sua filha?
Riu-se Pereira.
—Maganão! não pensa noutra coisa, hen? Tambem fui ansim ... cada qual tem o seu tempo... Isto é regra de Nosso-Senhor Jesus-Christo.
E, sahindo para o terreiro, gritou com força, fazendo das mãos buzina:
—Nocencia!... Nocencia!...
Não teve resposta.
—Coitadinha da pequena, disse elle, ha de saltar que nem veadinha, quando voltar do rio.
E accrescentou:
—Já que ella não vem ... entremos. Você é de casa: tome por cá e chegue até o meu quarto... Rede e pelles macias não faltam.
Ao dizer estas palavras, Pereira bateu amigavelmente no hombro de Manecão e fel-o seguir para o lanço do fundo da casa.
CAPITULO XXXVII SCENAS INTIMAS
Santa Maria, advogada nossa, ouvi nossos rogos. Virgem pura, ante Vós se prostra uma infeliz donzella.
WALTER SCOTT.—Os dois desposados.
Descrever o abalo que soffreu Innocencia ao dar, cara a cara, com Manecão fora impossivel. Debuxaram-se-lhe tão vivos na physionomia o espanto e o terror, que o reparo, não só da parte do noivo, como do proprio pae habitualmente tão despreoccupado, foi repentino.
—Que tem você? perguntou Pereira apressadamente.
—Homem, a modos, observou Manecão com tristeza, que metto medo á senhora dona...
Batiam de commoção os queixos da pobresinha; nervoso estremecimento balanceava-lhe o corpo todo.
A ella se achegou o mineiro e pegou-lhe no braço.
—Mas você não tem febre?... Que é isto, rapariga de Deus?
Depois, meio risonho e voltando-se para Manecão:
—Já sei o que é... Ficou toda fóra de si ... vendo o que não contava ver... Vamos, Nocencia, deixe-se de tolices.
—Eu quero, murmurou ella, voltar para o meu quarto.
E encostando-se a parede, com passo vacillante se encaminhou para dentro.
Ficara sombrio o capataz.
De sobrecenho carregado, recostara-se á mesa e fôra, com a vista, seguindo aquella a quem já chamava esposa.
Sentou-se defronte delle Pereira com ar de admiração.
—E que tal? exclamou por fim... Ninguem pode contar com mulheres, iche!
Nada retorquiu o outro.
—Sua filha, indagou elle de repente com voz muito arrastada e parando a cada palavra, viu alguem?
Descorou o mineiro e quasi a balbuciar.
—Não ... isto é viu ... mas todos os dias ... ella vê gente... Porque me perguntas isso?
—Por nada...
—Não:... explique-se... Você faz assim uma pergunta que me deixa um pouco ... anarchizado. Este negocio é muito, muito serio. Dei-lhe palavra de honra que minha filha havéra de ser sua mulher ... a cidade já sabe e ... commigo não quero historias... É o que lhe digo.
—Está bom, replicou elle, nada de precipitações. Toda a vida fui ansim... Já volto: vou ver onde pára o meu cavallo.
E sahiu, deixando Pereira entregue a encontradas supposições
Decorreram dias sem que os dois tocassem mais no assumpto que lhes moia o coração. Ambos, calmos na apparencia, viviam vida commum, visitavam as plantações, comiam juntos, caçavam, e só se separavam a hora de dormir, quando o mineiro ia para dentro e Manecão para a sala dos hospedes.
Innocencia não apparecia.
Mal sahia do quarto, pretextando recahida de sezões: entretanto, não era o seu corpo o doente, não; a sua alma, sim, essa soffria morte e paixão; e amargas lagrimas, sobretudo a noite, lhe inundavam o rosto.
—Meu Deus, exclamava ella, que será de mim? Nossa-Senhora da Guia me soccorra. Que pode uma infeliz rapariga dos sertões contra tanta desgraça? Eu vivia tão socegada n'este retiro, amparada por meu pae ... que agora tanto medo me mette... Deus do ceu, piedade, piedade.
E de joelhos, deante de tosco oratorio allumiado por esguias velas de cera, orava com fervor, balbuciando as preces que costumava recitar antes de se deitar.
Uma noite, disse ella:
—Quizera uma reza que me enchesse mais o coração ... que mais me alliviasse o peso da agonia de hoje...
E, como levada de inspiração, prostrou-se murmurando:
—Minha Nossa Senhora mãe da Virgem que nunca peccou, ide deante de Deus. Pedi-lhe que tenha pena de mim ... que não me deixe assim nesta dor cá de dentro tão cruel. Estendei a vossa mão sobre mim. Se é crime amar a Cyrino, mandai-me a morte. Que culpa tenho eu do que me succede? Rezei tanto, para não gostar deste homem! Tudo ... tudo ... foi inutil! Porque então este supplicio do todos os momentos? Nem sequer tem allivio no somno? Sempre elle ... elle!
Ás vezes, sentia Innocencia em si impetos de resistencia: era a natureza do pae que acordava, natureza forte, teimosa.
—Hei de ir, dizia então com olhos a chamejar, á igreja, mas de rastos! No rosto do padre; gritarei: Não, não!... Matem-me... mas eu não quero...
Quando a lembrança de Cyrino se lhe apresentava mais viva, estorcia-se de desespero. A paixão punha-lhe o peito em fogo...
—Que é isto, Santo Deus? Aquelle homem me teria botado um mau olhado? Cyrino, Cyrino volta, vem tomar-me ... leva-me! ... eu morro! Sou tua, só tua ... de mais ninguem.
E cahia prostrada no leito, sacudida por arrepios nervosos.
Um dia, entrou inesperadamente Pereira e achou-a toda lacrymosa.
Vinha sereno, mas com ar decidido.
—Que tem você, menina, perguntou elle, meio terno, de alguns dias para cá?
Innocencia encolheu-se toda como uma pombinha que se sente agarrar.
Puxou-a brandamente o pae e fel-a sentar no seu collo.
—Vamos, que é isto, Nocencia? Porque se socou assim no quarto?... Manecão lá fóra a toda a hora está perguntando por você ... isto não é bonito... É, ou não, o seu noivo?
Redobraram as lagrymas.
—Mulher não deve atirar-se á cara dos homens ... mas também é bom não se canhar assim ... É de enjoada... Um marido quasi, como elle já é...
De repente o pranto de Innocencia cessou.
Desvencilhou-se dos braços do pae e, de pé deante delle, encarou-o com resolução:
—Papae sabe porque tudo isto?
—Sim...
—É porque eu ... não devo...
—Não devo o que?
—Casar.
Arregalou Pereira os olhos e de espanto abriu a boca.
—Que? perguntou elle elevando muito a voz. Comprehendeu a pobresinha que a lucta ia travar-se. Era chegado o momento.
Revestiu-se de toda a coragem.
—Sim, meu pae, este casamento não deve fazer-se...
—Você está doida? observou Pereira com fingida tranquilidade.
Prosseguiu então Innocencia com muita rapidez, as faces incendiadas de rubor:
—Conto-lhe tudo papae... Não me queira mal... Foi um sonho... O outro dia, antes de Manecão chegar, estava sesteando e tive um sonho... Neste sonho, ouviu, papae? minha mãe vinha descendo do céu... Coitada! estava tão branca que mettia pena... Vinha bem limpa, com um vestido todo azul ... leve, leve!
—Sua mãe? balbuciou Pereira tomado de ligeiro assombro.
—Nhôr sim, ella mesma...
—Mas você não a conheceu! Morreu, quando você era pequetita...
—Não faz nada, continuou Innocencia, logo vi que era minha mãe... Olhava para mim tão amorosa!... Perguntou-me: Cadê seu pae? Respondi com medo. Está na roça; quer mecê, que elle venha?—Não, me disse ella, não é perciso; diga-lhe a elle que eu vim até cá, para não deixar Manecão casar com você, porque hade de ser infeliz ... muito!... muito!...
—E depois? perguntou Pereira levantando a cabeça com ar sombrio, gyrando os olhos.
—Depois ... disse mais... Se esse homem casar com você, uma grande desgraça hade entrar ... nesta casa que foi minha e onde não haverá mais socego. Bote seu pae bem sentido nisso. E sem mais palavra, sumiu-se como uma luz que se apaga.
Cravou Pereira olhar inquiridor na filha.
Uma suspeita lhe atravessou o espirito.
—Que signal tinha sua mãe no rosto?
Innocencia empallideceu.
Levando ambas as mãos á cabeça e prorompendo em ruidoso pranto, exclamou:
—Não sei ... eu estou mentindo ... Isto tudo é mentira! É mentira! Não vi minha mãe!... Perdão, minha mãe, perdão!
E, cahindo de bruços sobre a cama, ficou immovel com os cabellos esparsos pelas espaduas.
Contemplou-a Pereira largo tempo sem saber que pensar, que dizer.
Subito se inclinou sobre o corpo da filha e ao ouvido lhe segredou com muita energia:
—Nocencia, daqui a bocadinho Manecão chega da roça... Você hade ir para a sala ... se não fizer boa cara, eu a mato.
E erguendo a voz:
—Ouviu? Eu a mato!... Quero antes vel-a morta, estendida, do que ... a casa de um mineiro deshonrada...
Ás pressas sahiu do quarto, deixando Innocencia na mesma posição.
—Pois bem murmurou ella, já que é preciso ... morra eu!
CAPITULO XXVIII EM CASA DE CESARIO
Ah! a perspectiva que pode mais docemente sorrir ao meu coração é a do aniquilamento.
KLOPSTOCK.—A Messiada.
Cyrino logo que se estabeleceu em casa do seu novo hospedeiro, tratou de lhe captar as sympathias. Medicou um escravo que estava de cama, fez valer o conhecimento e amizade que tinha com Pereira, conversou muito a respeito delle e incidentemente deu noticias de Innocencia.
Atalhou-o Antonio Cesario neste ponto.
—Mecê a viu? perguntou elle.
—Pois não, respondeu o moço, por signal que a curei de sezões.
—Ah! É uma guapa rapariga...
—Parece-me...
—Isso é ... falo assim, porque afinal ... daqui a poucos dias está casada ... não sabe?
—Ouvi contar.
—Pois é verdade. O noivo passou por cá e levou a minha licença. É homem de mão cheia. A pequena deve estar contente. Ah! nem todas no sertão são felizes assim. Tem-se por aqui o mau vezo de arranjar casamentos ás cégas, e ás vezes, se encambulha um mocetão com uma fanadinha ou então uma sujeita de encher o olho com algum rapaz todo engorovinhado... Cruz! E, uma vez dada a palavra, acabou-se...
Achou Cyrino a occasião propria e redarguiu com vivacidade:
—Então o senhor não é desse parecer?
—Conforme, respondeu logo Cesario com reserva. Aos paes é que convem inziminar essas coisas.
—Boa duvida... Mas ... se ... sua afilhada ... não gostasse de Manecão?
—Não gostasse?
—Sim.
—E que nos importa isso? Uma menina como ella não sabe o que lhe fica bem ou mal... Ninguem a vae consultar. Mulheres, o que querem é casar. Não ouviu já o patricio dizer que ellas não casam com carrapato, porque não sabem qual é o macho?
E Cesario sorriu.
Depois, fechando de repente a cara, perguntou:
—Porque é que estamos a dar de lingua nesse particular? Não sou amigo disso. Quer-me parecer que mecê é um tanto namorador...
—Eu? protestou Cyrino com vivacidade.
—Boa duvida. Eu cá nem falar nellas quero. Mulher é para viver muito quietinha perto do tear, tratar dos filhos e creal-os no temor de Deus; não é nem para parolar-se com ella, nem a respeito della.
Sempre as mesmas theorias de Pereira: a mesma grosseria repassada de desprezo ao sexo fraco, a mesma susceptibilidade para desconfiar de qualquer pessoa ou de qualquer palavra que lhes parecesse menos bem soante aos prevenidos ouvidos.
—Minha afilhada, continuou Cesario, deve levantar as mãos para o céu. Achou um marido que a hade fazer feliz e tornal-a mãe de uma boa duzia de filhos.
Estremeceu Cyrino, mas nada disse.
Por toda a parte esbarrava de encontro a preconceitos que nada podia vencer.
Nessa mesma tarde quiz montar a cavallo e voltar para Sant'Anna; entretanto, o pensamento da resistencia com que Innocencia encetara a terrivel lucta com seu pae, actuou em seu espirito e o reteve.
Decidiu-se a atacar o touro pelas aspas.
Restar-lhe-ia ao menos o consolo do desabafo, e num jogo perdido arriscava ainda ousado lance.
—Sr. Cesario, disse elle na manhã seguinte, preciso muito falar-lhe em particular.
—A mim?
—Sim, senhor.
—Pois, estou aqui ás suas ordens.
—Quizera que sahissemos. O que lhe vou dizer ... ninguem pode ... ninguem deve ouvir.
—Oh! O senhor me assusta... Então tem segredos que me contar?
—Tenho...
—Pois vá lá... Mapiaremos fóra... Ao meio-dia esteja na minha roça ... sabe onde é?
—Sei...
—Espere-me num pau de peroba secco que esta derrubado.
—Lá estarei.
Muito antes da hora aprazada, achava-se Cyrino no lugar indicado.
Devorava-o a impaciencia.
Resolvido a desvendar sem rebuço os seus amores a esse homem a quem mal conhecia, que por elle não tinha senão razões de passageira sympathia, e de quem, comtudo, estava dependente sua felicidade, considerava decisivos os momentos.
Quem em taes circumstancias se acha, enxerga em tudo quanto o rodeia symptomas de bom ou mau agouro, e nesse instante a Cyrino pouco parecia sorrir a natureza.
Não chovia; mas o tempo estava carregado e sombrio.
Tinha o ceu cor acinzentada e do lado do poente linhas negras e continuas denunciavam trovoada talvez para a tarde.
Era o local, além disso, tristonho. Enfileiravam-se numa grande área, pés de milho já pendoados, dentre os quaes surgiam possantes madeiros de tronco rugoso e galhada completamente despida de ramagem; uns, da base á extrema ponta, lugubremente ennegrecidos pelo fogo lançado antes da sementeira; outros perdidas todas as folhas em consequencia da incisão profunda e circular com que o machado impedira a ascensão da seiva. Esses quedavam vivos, mas de uma vida latente e esmorecida, denunciada por entanguidos brotos no mais alto do tope.
Quando o dia é claro, aquelles gigantes da floresta, que pela robustez do cerne haviam desafiado as chammas e os esforços do homem, servem de poleiro a innumeros bandos de papagaios, periquitos araçaris, ou de graúnas que formam concertos capazes de ensurdecer os écos.
Naquella occasião; porém, tudo era silencio.
Só de vez em quando se ouviam pancadas surdas e intermittentes dos pica-paus de crista vermelha, agarrados aos troncos das arvores e a explorar-lhes os pontos carunchosos, subindo em zig-zags.
Á hora ajustada, apresentou-se Antonio Cesario.
Por cautela vinha armado de uma espingarda de caça, que bem serviria para derrubar alguma onça, ou animal damninho.
Seu rosto, habitualmente sereno, indicava certa inquietação, repassada de curiosidade.
—Aqui me tem, doutor, disse elle descançando a arma sobre o páu derrubado e sentando-se ao lado de Cyrino. Estou prompto para ouvil-o quanto tempo queira...
Muito pensara Cyrino nesse momento a que devia chegar e, entretanto, não pudera achar o modo por que encetasse as suas declarações. Parafusara de continuo mil pretextos sem nada assentar.
Foi, pois, a balbuciar que respondeu:
—O Sr ... hade me desculpar ... o incommodo que ... lhe dou...
—Incommodo nenhum.
—E deve estar ... espantado do que lhe pedi ... vir falar commigo ... em lugar ermo ... commigo que sou como qualquer hospede, como tantos que a sua casa tão franca todos os dias recebe...
—Com effeito, confirmou Cesario.
—Pois bem, daqui a nada tudo lhe ficará claro e explicado... Se emquanto eu falar ... o offender, perdoe-me, ouviu?
—Sr. Cesario, continuou Cyrino após breve pausa, se o Sr. visse um homem arrastado numa corredeira[120] e pudesse atirar-lhe uma corda e salval-o ... o faria?
—Boa duvida! replicou o outro com força. Ainda que corra perigo de vida, não deixarei homem nenhum, branco ou preto, livre ou escravo, rico ou pobre, conhecido ou não, sem o soccorro de meu braço.
—Pois bem, exclamou Cyrino arrebatadamente, sou eu esse homem que vae morrer, que está perdido e a quem o Sr. pode salvar...
E respondendo á tacita suspeita de quem o ouvia:
—Não acredite que esteja doido ... não. Estou tão são de juizo como o Sr. e falo-lhe a verdade. Uma palavra esclarece-lhe tudo ... eu morro de paixão por uma mulher e essa mulher é ... sua afilhada!... Innocencia!
De um pulo levantou-se Cesario. Seus labios tremiam, os olhos de subito injectados de sangue. A mão procurou a arma que lhe ficava ao lado.
—Que é isso? balbuciou encarando fixamente Cyrino.
Adivinhara-lhe este todos os pensamentos.
Erguera-se tambem, cara a cara com Cesario:
—Mate-me, bradou elle, mate-me... É um favor que me faz... Dê cabo desta vida desgraçada.
Já arrependido do gesto que fizera e um tanto corrido da sua precipitação, replicou o outro todo sombrio:
—Não tenho razões para matal-o... O Sr. nunca me fez mal...
—Não, proseguiu Cyrino meio desvairado, peço-lhe por favor... Se o Sr. tem caridade, e é bom, se gosta de seus filhos, se tem pae e mãe no céu ... por tudo isso eu lhe peço de joelhos! mate-me ... mate-me!
E deixou-se cahir aos pés de Cesario, occultando a cabeça entre as mãos.
Contemplou-o largos instantes o mineiro com surpreza.
Inclinando-se para o moço, bateu-lhe no hombro e quasi com brandura lhe disse:
—Que historia é essa, doutor?... Isso é loucura! Conte-me o que ha... Quero saber se a sua bola está gyrando ou não. Sou homem do sertão, mineiro de lei ... mas sei tratar com gente...
A estas palavras, recobrou Cyrino algum alento e pôz-se de pé.
Sentando-se então ao lado de Cesario, narrou-lhe tudo, o desespero que o minava, a certeza que tinha do amor de Innocencia e a implacavel sentença proferida por Pereira.
Ouvia-o Cesario attentamente. Só de vez em quando deixava escapar esta exclamação:
—Ah! mulheres!... mulheres! É a nossa perdição.
Depois que Cyrino acabou de falar, encarou-o detidamente e, com ar severo, perguntou:
—Fale-me a verdade, doutor, o senhor nunca trocou palavra com Innocencia? Nunca esteve só com ella?
—Estive, respondeu o outro meio receioso.
As faces de Cesario subiu uma onda de sangue.
—Então, roquejou elle, a desgraça...
—Deus meu, atalhou Cyrino com fogo, caia a alma de minha mãe no inferno, se Innocencia não é pura ... se...
Conteve-o Cesario com um gesto.
—Basta, moço: quem jura assim, não mente... Tambem no meu tempo tive uma paixão infeliz ... e sei o que é soffrer...
—Oh! Sr. Cesario, salve-me!...
—Que posso eu fazer? Não sabe o senhor que ella hoje não pertence nem mesmo ao pae, ao seu proprio pae? Pertence á palavra de honra, e palavra de mineiro não volta atraz... Não sabia o senhor disso, quando deixou que o amor lhe entrasse pelos olhos?... Mulheres não pensam ... mulheres o que querem é ver os homens derretidos por ellas ... sacrificam tudo ... e por um requebro pincham na rua a honra de suas casas...
—Não, protestou Cyrino, ella não é assim...
—Então é melhor que as outras? objectou Cesario com desdem.
—Sim, sim, é melhor do que tudo deste mundo. Acima della, só Nossa-Senhora!...
Ligeiramente sorriu o mineiro.
—Qual! observou elle, bem disse o outro: a paixão é um transtorno. Fica um homem que nem uma miseria! É...
—Então? interrompeu Cyrino.
—Então o que?... Já lhe não disse quanto basta? Minha afilhada pertença tanto a Manecão, como uma garrucha ou um guampo lavrado[121] que Pereira lhe tivesse dado... Não ha meios e modos de voltar atraz...
Não desanimou o mancebo.
Falou por muito tempo com verdadeira eloquencia, appellando principalmente para a protecção que todo o christão tem obrigação de dispensar ao ente que leva á pia baptismal, a seu segundo filho, ao pagãosinho por quem o padrinho se torna responsavel perante Deus.
Feriu o sentimento religioso do mineiro e commoveu-o.
—Não me falle assim, contrariou este, o senhor quer ver se me puxa para o seu lado... E quem me assegura que, Nocencia gosta tanto da sua pessoa?... Quem?
O coração está-lh'o dizendo baixinho, respondeu com calma Cyrino. O senhor, que é homem de honra, acredita que eu esteja mentindo? Que tudo isso é falso? ... diga, acredita?
Cesario tartamudeou:
—Sim... Assumpto verdades, mas...
—Ah! exclamou Cyrino, o Sr. sente a consciencia bater-lhe que sua afilhada está desamparada, que vae ser sacrificada ... e agora tapa os ouvidos e diz: Não quero ouvir, não quero cumprir a minha palavra! Porque a deu então o Sr ... essa palavra de honra de que tanto fala?... Nossa Senhora que a proteja ... que a tire deste mundo... Isso ha de pesar-lhe no peito ... e, quando um dia tiver noticia que Innocencia morreu de desgostos, ha de dizer lá comsigo que ajudou a cavar-lhe a sepultura.
Estava Cesario abalado: com verdadeira anciedade retorquiu:
Que historias me conta o Sr.? Eu mettido no meu canto ... vivendo tão socegado ... não bulindo com ninguem, e agora anarchisado por estes mexericos!... Quem o mandou vir cá?
—Quem seria, retrucou Cyrino, senão Innocencia? Por ventura eu o conhecia? ... algum dia o vi?... Não; foi aquelle anjo que me disse: busca meu padrinho, é o ultimo recurso. Se elle não nos amparar, então ... estamos perdidos de uma vez.
Estas palavras convenceram de todo Cesario.
Ficou em silencio, recolhido, a meditar; Cyrino o observava offegante.
—Pois bem, disse por fim o mineiro em tom grave e pausado, hei-de pensar no que o Sr. me conta...
—Oh! Sr. Cesario!...
—Levarei dois dias a remoer sobre o caso... O que disse uma vez, não digo duas... No fim desse tempo, monto a cavallo e appareço por casa de Pereira...
—Sim, sim, balbuciou o moço.
—Amanhã mesmo, de madrugada, o Sr. sae daqui e vae esperar-me na Senhora Sant'Anna.
—Irei ... salve-me...
Cesario parou um pouco.
—Agora, quero que o Sr. me faça um juramento ... pelas cinzas de sua mãe.
—Estou prompto.
—Pela salvação da sua alma...
—Pela salvação de minha alma, repetiu Cyrino.
—Pela vida eterna...
Cyrino acenou com a cabeça.
—Jure!
O mancebo cruzou os dedos indices e beijou-os com uncção abaixando os olhos e empallidecendo.
—O Sr., disse Cesario, jurou antes de saber o que era... Deu-me boa idéa do seu caracter... Farei tudo por ajudal-o, mas exijo-lhe uma condição... Se quizer aceital-a, fica valendo o juramento; senão ... o dito por não dito...
—Que será, meu Deus? murmurou Cyrino.
—É ficar o Sr. esperando em Sant'Anna. Se eu apparecer por estes oito dias, iremos juntos á casa do compadre. Se não, é que decidi o contrario. Neste caso, virá o Sr. até cá e aqui esperará as suas cargas que mandarei buscar. Será signal de que, nunca mais ha de procurar botar as vistas em Innocencia ... nem sequer fallar nella. Acceita?
—Aceito, respondeu o moço com exaltação; mas fique certo de uma coisa: se o Sr., no tempo marcado, não estiver na villa, reze por alma de Cyrino, porque elle terá deixado este mundo de afflicções.
Cesario meneou tristemente a cabeça e retirou-se, sem dizer mais palavra.
CAPITULO XXIX RESISTENCIA DE CORÇA
Acasto—Não póde ella falar?
Oswaldo—Se ralar é tão somente fazer ouvir sons por meio da lingua e dos labios, é aquella creatura muda; mas se tão maravilhosa faculdade consiste tambem em tornar comprehensiveis os menores pensamentos por accionados e expressivos gestos, póde dizer-se que ella a possue, pois seus olhos brilhantes como estrellas do céu tem uma linguagem intelligivel, bem que falha de sons e de palavras.
SHAKESPEARE.
Deixámos Innocencia tão abatida de corpo, quanto resoluta de espirito.
Presentia os choques que tinha de supportar, e robustecia a alma na meditação continua e firme da sua infelicidade.
Estava de joelhos deante da imagem de Nossa Senhora, quando a voz de seu pae a fez levantar.
—Nocencia! chamava elle.
Rapidamente passou a pobresinha a mão pelo rosto para apagar os vestigios de copioso pranto, e com passo quasi seguro penetrou na sala.
Estavam Pereira e Manecão sentados junto á mesa. O anãosinho Tico aquecia-se aos pallidos raios de um sol meio encoberto e, sentado á soleira da porta, brincava com umas palhinhas.
—Estou aqui, papae, disse Innocencia em voz alta e um pouco tremula.
Encarou-a Manecão com ar entre sombrio e apaixonado.
Julgou dever dizer alguma coisa.
—Até que afinal a dona sahiu do ninho... É que hoje o dia está de sol, não é?
A moça nada lhe respondeu; fitou-o com tanta insistencia que fel-o abaixar os olhos.
—Ella esteve doente, desculpou Pereira.
E voltando se para a filha:
—Sente-se aqui bem perto de nós... O Manecão quer conversar com você em negocios particulares...
—Bem percebe ella, observou o desazado noivo intentando abrir o motivo para risos.
Innocencia replicou em tom incisivo:
—Não percebo.
—Está se ... fazendo de ... engraçada, balbuciou Manecão. Pois já ... se esqueceu ... do que tratei com seu pae?... Parece que comeu muito queijo.
Com a mesma entoação, e cortando-lhe a palavra retorquiu ella:
—Não me lembro.
Houve uns minutos de silencio.
Accumulava-se a colera no peito de Pereira: seus olhares irados ião rapidos de Manecão á imprudente filha.
—Pois, se você não se lembra, disse elle de repente, eu cá não sou tão esquecido.
—Ora, recomeçou Manecão levantando-se e vindo recostar-se á beira da mesa para ficar mais chegado á moça, faz-se de enjoada a tôa ... o nosso casamento...
—Seu casamento? perguntou Innocencia fingindo espanto.
—Sim...
—Mas com quem?
—Ué, exclamou Manecão, com quem ha de ser... Com mecê...