RAUL BRANDÃO (continued 4)
Reading edition
Aqui não andam só os vivos—andam tambem os mortos. A villa é povoada pelos que se agitam n'uma existencia transitoria e baça, e pelos outros que se impõem como se estivessem vivos. Tudo está ligado e confundido. Sobre as casas há outra edificação, e uma trave ideal que o caruncho roe une todas as construcções vulgares. Sob um grito outro grito, sob uma pedra outra pedra. Debalde todos os dias repelimos os mortos—todos os dias os mortos se misturam á nossa vida. E não nos largam.
Eis a villa abjecta, a villa banal onde se praticam todos os dias as mesmas acções e se repetem todos os dias os mesmos gestos... Aqui só há um pensamento fundamental: fugir á morte, protestar contra a morte, que é a mais viva de de todas as realidades, que é talvez a unica realidade. Protestar, contra as forças desabaladas, pelo sonho, em espirito ou em pedra, que se erga deante do Destino e desafie o Destino. Atravez da paciencia e da mentira, todo o esforço do homem tende para outro homem, para o homem ideal, para a figura de sonho, que há-de sêr um dia a creação dos vivos e dos mortos—o sonho realisado—o universo realisado. A vida ideal, a vida artificial, como a do granito, representa a mesma tentativa da mentira contra a verdade e a obstinação sobrehumana dos mortos para suprimirem a morte.
A vida em si é o mais profundo de todos os horrores, é o esforço inconsciente da larva repetindo as mesmas acções instinctivas, que o destino nos impõe. Tudo que nos rodeia é monstruoso; o que nos rodeia de negrume vae desabar sobre nós, reclamando dôr, reclamando gritos e sustentando-se de gritos. Separa-nos um fio. Só com a condição de não vermos a realidade é que podemos viver. Para a esconder erguemos a cathedral immensa, reconstruimos o universo todos os dias pelo esforço dos vivos e das gerações passadas. E toda esta mentira tragica a levantamos até ao céo a poder de palavras e com a força magnetica das palavras.
Não só os sentimentos criam palavras, tambem as palavras criam sentimentos. As palavras formam uma architectura de ferro. São a vida e quasi toda a nossa vida—a razão e a essencia d'esta barafunda. É com palavras que construimos o mundo. É com palavras que os mortos se nos impõem. É com palavras, que são apenas sons, que tudo edificamos na vida. Mas agora que os valores mudaram, de que nos servem estas palavras? É preciso crear outras, empregar outras, obscuras, terriveis, em carne viva, que traduzam a colera, o instincto e o espanto.
Mas se tudo são palavras e de palavras nos sustentamos, o que nos resta afinal? Gritos em frente de gritos, instinctos em frente de instinctos. Fica a morte á solta e o instincto á solta. Ficam os mortos de pé—a cohorte que não queriamos vêr, erguida, como o vento ergue a poeira, até aos confins da vida.
A D. Adelia não existe, o que aqui está vem de muito longe. Está aqui a paciencia com um chale, a mentira com uma cuia de retroz—estão aqui espectros. O que aqui está, com o infinito em cima e o
infinito
em baixo, são phantasmas. Todos praticam as mesmas acções banaes entre a vida e a morte, mas eu vejo o riso sem boca e ouço o grito de dôr, emquanto as mascaras se transformam e a materia se decompõe. Eu vejo o que ha dentro deste sêr, que não tem limites, o que ha dentro deste sêr de real e verdadeiro. Cada um assume proporções temerosas. Cahem lá dentro palavras, sentimentos, sonho—é um poço sem fundo, que vae até á raiz da vida. Á superficie todos nós nos conhecemos. Depois ha outra camada, outra depois. Depois um bafo. Ninguem sabe do que é capaz, ninguem se conhece a si proprio, quanto mais aos outros, e só á superficie ou lá para muito fundo, é que nos tocamos todos, como as arvores duma floresta—no céo e no interior da terra. Do mais baixo ainda veem terrores, ancias, desespero...
Agora o homem existe em toda a sua plenitude. Anda hoje no universo como andou sempre no universo. Para elle não há passado nem futuro porque elle é o passado e o futuro. A villa tomou outras proporções e sente-se n'outras mãos. Quem lhe dera ser insignificante e grotesca! quem lhe dera não vêr! Para não te aturar vida sôfrega e doirada, tive de me revestir de casca como as arvores, porque no principio todos fomos phantasmas. E agora não sou eu quem falo—são elles que falam! O que as figuras representam vem do fundo dos fundos—o que ellas teem de transitorio e o que ellas teem de temeroso, desde o homem que não bole junto das fazendas petrificadas, até á impenetravel D. Ursula, que remoe entre dentes o pavôr. O que me parecia gelatinoso é uma fôrça immensa, este habito ridiculo um principio de sonho. A paciencia e a mentira são aspectos da dôr, e a bisca joga-se entre o pelago e o pelago. Os penantes usados, as ceremonias grotescas, passam-se entre phantasmas e phantasmas, n'um ciclone de desespero e gritos. Cada boca fala por outras bocas, e a D. Penaricia, columna de Israel do fel e vinagre, é uma figura tremenda. Todos os dramas teem a mesma assignatura—Shakespeare. As acções veem dos confins dos seculos e o proprio mal não é um acto individual. O crime é sempre a acção impulsiva ou premeditada dos mortos. Para praticar um crime é preciso revolver camadas de phantasmas. Desperta echos adormecidos até não sei que profundidades. Põe em debate este mundo e o outro mundo, e d'ahi a fascinação que exerce em todas as almas. A vasa não na jogam só figuras somiticas: de cada sêr paciente e sordido arranca-se outro sêr ilimitado. Vejo no escuro as outras figuras atentas sobre o jogo... Estão aqui as velhas amarradas por quinhentos annos á mesma mesa da bisca. Está a inveja, e a inveja esverdeada torce-se sob o olhar da magestosa Theodora. Está a paciencia, e a paciencia sorri deante da magestosa Theodora. Está aqui a mesa de jogo projectada no infinito, com sêres que se não podem vêr, e que hão-de cohabitar acorrentados por quinhentos annos. Ha ocasiões em que vomitam as peores injurias; ás vezes torcem-se e soltam ais sobre ais represos.—Jogo!—E a bisca segue pela eternidade fora.—Corto!—Tambem eu atravessei o inferno e tenho saudades do inferno!—E a magestosa Theodora parece calcinada pelo fogo do inferno. É o momento decisivo, quando, de pé, em roda da mesa, onde fôram insignificantes, se vêem umas ás outras. Peor momento é quando a si proprias se vêem, quando se chocam como ferros, e seus olhos adquirem tal percepção que não são só ellas que olham, quando ao espanto se junta espanto e não são só ellas que falam, mas muitas outras vozes, e não só as suas figuras gesticulam mas muitas outras figuras. Um momento, um seculo, e eil-as até aos confins. Todas as bôccas prégam de cada vez mais fundo...
Cada bocca se abre no escuro como se fosse o abismo; as boccas falam por muitas boccas que não tem nada de humanas e que moem e remoem com escarneo e baba; por boccas franzidas só pelle e espuma; por boccas sem dentes; por boccas ascorosas que tentam ser boccas e que escorrem veneno; por boccas que se desesperam de ser boccas, para se fazerem ouvir.
E o candieiro escorre o mesmo petroleo sobre ellas e sobre as figuras invisiveis que arfam de
desespero
até á raiz da vida...
N'esse instante vêmos todos os sêres extraordinarios que não tinham entrada no mundo; n'esse instante toda a villa está de pé, a villa tragica, com os vivos e os mortos e o drama profundo das almas que toca no céo e no inferno. Eis a villa como não torna a aparecer outra na terra, e que dura um minuto e um seculo. Cada figura escorre dôr, não só a dôr propria, mas a do tumulo, cada figura é um sêr d'espanto. Até tu, no relampago antes de te curvares sobre a meia que já tem vinte metros de comprido, ó prima Angelica, ó figura tremenda de inepcia, que tambem achaste sabôr á vida e logo te fechaste com elle na escuridão cerrada da idiotia—até tu, pela maneira como apertaste a mandibula, pelo olhar que se fitou no meu olhar e veio da espessura dos seculos, descobriste não sei que mar nunca d'antes navegado, não sei que dôr transida e doirada, não sei que mysterio que não fala, que não pode falar, mas que está, real e patente, aqui ao lado e na nossa companhia...
Há—sentimol-o! vêmol-o!—forças que tacteiam para lá e augmentam o nosso desespero. É talvez Deus que nos quer falar e que não pode, ou que fala e não o entendemos.
Não são só os grandes fluidos que se entrechocam sobre a villa, há outra coisa que a todos os momentos nos reclama... E é um milagre que toda esta architectura—que não existe! que não existe!—se sustente de pé e no vacuo, baseada em palavras e sons, e que joguemos a bisca de tres na encrusilhada da vida e da morte. Mais: é um milagre muito maior ainda que consigamos cerrar os ouvidos á força que bate estonteada á nossa volta e que faz esforços desesperados para communicar comnosco. Não tem bocca para falar, mas tenta, n'uma dôr muda, fazer-nos comprehender algumas noções que transformariam o universo. Ás vezes estamos por um fio...—perdemo-nos logo n'uma escuridão que tem leguas de distancia. Bom é cerrarmos os ouvidos. Se chegassemos a entendel-a tudo isto desaparecia no ar...
Chegamos ao ponto! chegamos ao ponto em que não nos distinguimos na floresta apodrecida! A vila é immensa, as figuras são immensas, só dôr e sonho—jacto que vae de polo a polo e onde não existe nem vida nem morte. Na floresta putrefacta o tempo e o espaço desapareceram: só existem sêres estranhos e arvores estranhas. O que nós viamos eram sombras projectadas n'um muro. Mais um passo e todos sahimos doirados d'este mergulho no sonho—outro passo ainda e só existe uma fôrça frenetica e immensa, desesperada e immensa...
Agora é que ella anda á solta! agora é que ella anda á solta!
A ARVORE
15 de setembro
Preciso aqui duma arvore... Uma arvore que dê sombra e ternura—uma velha arvore carcomida. Nunca pude passar sem essa sombra inocente. Meio morto de cansaço e de mentira deito-me ao pé d'ella e renasço. Todos a aproveitam—para o lume—para traves—para o caixão.
É filha de cavadores e neta de pedreiros: obstina-se e por fim afaz-se.
A dôr afeiçoa-a. Aceita tudo: a vida e a morte com a mesma resignação. E depois desta vida acceita ainda outra com o purgatorio e o inferno.
Pouco e pouco a ternura torna á supuração. A filha desapareceu. Sabe que a D. Hermengarda, pobre e cachetica, pára n'um hospicio, e vae lá buscal-a. Caso extraordinario: vê mais naturalmente a desgraça da filha do que a pobreza da D. Hermengarda. É a sua senhora. Limpa-lhe a baba e cata-lhe o piolho; bezunta-a de pomada, e nos seus olhos de cão há uma inexprimivel serenidade. A D. Hermengarda ainda tem exigencias. Manda e a Joanna obedece. Melhor: trabalha para lhe dar de comer. Está afeita. Faz mais: a Joanna agora rouba. Ella, que sacrificou a filha, rouba seis vintens, doze vintens... De dia carrega bahus, á noite o quadro é este: a veneravel D. Hermengarda n'uma cadeira de rodas, com um resto de quico na cabeça, e a Joanna extactica a satisfazer-lhe as impertinencias.
Não ouve, creio mesmo que não pensa. Os seus gestos são conduzidos por outras mãos, atraz d'ella há outras figuras até á raiz da vida, que embalaram berços, choraram sobre a desgraça e tomaram para si o quinhão mais pesado. Até já nem é Joanna que fala, mesmo para contar a sua historia. Ou só, ou quando encontra alguem, a Joanna divaga:
—E vae eu disse-lhe... Fui ter com a filha e vae eu disse-lhe:—Deita-me ahi pão quente n'uma malga com meio quartilho de vinho.—E vae ella disse-me:—Tenho ahi pão velho, não enxerto o outro.—E vae eu disse-lhe:—As bagadas que tenho chorado caiam sobre ti.
Não sabe mais que dizer. Aquella fastidiosa perlenga ouviu-a a outras velhas e vem do principio do mundo: aplica-a para exprimir a sua dôr. Se lhe falam dos ladrões finge que não entende. Se insistem, a Joanna responde com olhos de pasmo:
—Os ladrões davam-me uma tigela de caldo.
Não soube nada na vida, não foi nada na vida, não percebeu nada da vida. Oh vida denegrida, monotona e sem sabor, de louça para lavar, de carretos para fazer, afundaste-a, esfarrapaste-a, amarfanhaste-a, engrandeceste-a!...
Deante do universo é menos que um caco, é um pobre coração usado pela dôr. O ultimo gesto que a Joanna faz, é o seu primeiro gesto, mas esboçado apenas, como quem segue um fio já muito tenue de sonho que não tem força para levar até ao fim, o de aconchegar uma creança ao peito—gesto que vem de seculos em seculos, desde o inicio do mundo, repetido pelas successivas imagens de mulheres já desfeitas em pó, repetido no futuro por milhares de sêres incriados.
O trabalho da vida é persistente e occulto. Gasta, desgasta, como uma pedra sobre outra pedra Não é só por fóra que creamos rugas: por dentro a usura é immensa. Só a Joanna conserva a ternura intacta. O que havia a dizer era como se formou esta alma e eu não sei dizel-o. Por fóra farrapos, por dentro vida. O tojo mais bravio deita mais flôr. Um fio d'agua que reluz prende-me horas e transforma as pedras. A ternura da Joanna modifica-lhe a fealdade, pega-se-lhe ás mãos e aos trapos que a vestem. O que eu não dou é a expressão, o que eu não dou é a luz. Afundo-a, amolgo-a. E no entanto a figura impõe-se-me pela expressão maxima da dôr. A Joanna debruça-se sobre uma grandeza com que não posso arcar. Resiste, lucta e atreve-se. Augmenta. E tambem só ella no mundo não se importa de morrer.
Talvez a morte seja para ella a vida.
Esta luzinha viaja há muitos milhares d'annos. É como a faúlha d'uma estrella, perdida na immensidão, que lhe custa a chegar á terra. E caminha sempre, humilde e obstinada, atravez do infinito—sempre. Por isso ella teimava:—O menino está vivo!...—Por vezes parece que se apaga. Reaparece atravez da obscuridade espessa acumulada há seculos. Talvez toda a grandeza d'esta mulher esteja n'isto: é que ella é conduzida por uma mão enorme. A sua ternura é instinctiva, a sua humildade é instinctiva... Pare. Pare a desgraça. Cria. É a velha que tira a codea á bocca para a dar aos netos. É a velha que encontraste há bocado no caminho, do olhos aguados. Cada vez maior; traz este carreto á cabeça desde o principio do mundo, e ainda o não poude pousar. Embala os berços. Pega nas creanças ao collo. Desde o principio do mundo que estas mãos asperas amparam. Não é uma figura—é uma serie de figuras...
16 de setembro
O desabar da chuva lá fóra dil-o-hieis não exterior, mas ligado ao teu proprio sêr: são lagrimas que tenho ainda para chorar. Da escuridão opaca resurgem e rodeiam-me os mortos: o montante que rachou a alvenaria, e os cavadores que lavraram a mesma terra e curtiram a mesma dôr. Este cheiro a pobre, estes traços corroídos pelas lagrimas, estes typos amolgados pela desgraça, povoam-me a noite toda e dizem bem com o desabar ininterrupto de lagrimas lá fóra. Outra coisa exprimem as figuras denegridas que vão aparecendo por traz da figura da Joanna...
Some-se a mulher da esfrega, e primeiro vem um velho que móe e remóe obstinado uma codea de pão. O pae de Joanna tinha oitenta annos quando morreu. Deram com elle cahido sobre o lar, levaram-n'o em braços para a enxerga. Quatro paredes, duas caixas de castanho, e junto ao catre, junto ao peito, a pedra secca, o granito. Uma mulher desata aos gritos debruçada sobre o catre:
—Vocemecê conhece-me? vocemecê conhece-me?
Os olhos não se lhe despegam da arca. Ao fim da vida tem de seu o alvião, a enxada e a manta no fio. A cabeça branca mirrou, a pelle é como a crosta que calcamos. Tem não sei quê de raiz, tem não sei quê de tronco, afóra os cabellos brancos que o tornam humano. O tempo revestiu-o da mesma côr dos montes. Deshabituou-se de falar, e pela grandeza e pelo silencio só o comparo á pedra. Tudo isto foi pedra. Elle e os seus, a poder d'annos, moeram-n'a. Sua vida está ligada á vida da terra. Creou-a. Á terra só falta comel-o.
Terra, terra negra e ingrata, terra de detrictos de rocha e mortos, poeira d'arvores, suor de pobres, terra que tudo gastas e consomes, há muito que o fizeste teu egual. Nem sei distinguir-vos, mãos como pedras, pelle como a tua pelle.
A terra come e desgasta. A terra apega-se e encarde. Deforma-o. De revolver a terra criou cascão e um olhar profundo. Só o comparo a Christo, a um Christo que tivesse vindo até á velhice, de desilusão em desilusão e de desamparo em desamparo.
Na noite negra desfilam outras figuras. Um chega e diz:—O corpo pede-me terra:—A pobre, com um sacco de estopa ás costas, espera a esmola e reza. Agora este... Este resequiu como os morros de pedra, como a lage compacta. A pedra pega pedra. As mãos tem terra nas rugas desde que lidaram com terra. Curtiu annos de fome e de terra entranhada na pelle, entranhada na alma.
O casebre é de pedra, é de pedra o lar, e arrima-se d'um lado ao coração do monte. Por tecto uma trave e colmo, por chão terra batida. A casa tambem entra aqui. Pedras, ternura, aflição, tudo no mundo deita as mesmas raizes. Uma casa não é só alvenaria: é dôr e vida e morte. A arvore tambem aqui entra: a arvore é uma construcção viva.
A mãe ficou prenhe. Eram tão pobres que, para o que havia de nascer, só amanharam um panninho, duas camisas e um lenço. Vieram as dôres e nasceram dois gemeos. Repartiu as camisas, rasgou o lenço e o panno ao meio, e, no casebre perdido, entre a natureza bruta, a mulher poz-se a chorar dando um seio a cada um.
Mais outras figuras se destacam ainda da noite. São de terra e pedra, são figuras deshumanas. Remóem o pão devagar, e o fumo sobe pela parede e enegrece-a, camada atraz de camada. Aquecem-se ao lar. A pedra é um calháo arrumado á parede, uma lasca negra e resequida. E agora, noite funda, todos os mortos estão alli presentes e atendem... A pedra tosca do lar, a pedra salitrosa á volta da qual se juntam, é muito mais que um calháo. A pedra é sagrada.
Está alli o montante que acometeu a pedra do monte dura como aço, e dias após dias curvou-se sobre a fraga e meteu-lhe o ferro até á raiz. Um delles cavou e escavou o sobrado e dorme com a cabeça encostada ao granito. A terra desgasta-o, a terra imprime-lhe relevo e caracter. Cerra-se-lhe a bocca, greta-se-lhe a pelle. Elle e o monte suportam a mesma dôr, que não sabem exprimir.
A côr é a côr da fome, o frio o da pobreza. Gasta-o e desgasta-o o uso da vida e a terra entranhada.
É o cavador... Tudo que era exterior puiu-o no cavador a terra, na mulher as lagrimas. Ficou só a expressão descarnada, como nos montes, como na propria casa onde as coisas são simples e eternas. Pariu-lhe alli a mulher, entrou-lhe lá dentro a morte. E as palavras reduziram-se tambem a esqueleto e teem o mesmo emprego sobrio: nem o cavador nem a femea teem que dizer um ao outro. Só o môrro consegue deitar um fio d'agua, que lima alguns palmos d'herva. Concentrou-se em muda aflição para produzir essas gotas geladas e um lameiro verde.
O escuro gera uma serie infinita de mulheres... Há em todas um momento de ternura antes da terra se lhes entranhar. Aos trinta annos a femea encardida está velha. Está velha de fome. Está velha de trabalho. Ella carrega. Ella levanta-se de noite para coser a fornada ou para ir á villa. Ella quando tem um dia de folga vae ganhar seis vintens de jornal. Ella pesa o pão e reparte-o, ficando com o quinhão mais pequeno. Com isto gasta-se. Nasceu com a pobreza, dormiu com a desgraça, e com os annos uma figura se foi sobrepondo a outra figura. Apagam-se linhas, salientam-se traços, e a mesma côr humilde reveste a mulher e a alvenaria. Ella e a pobreza, ella e o dia d'hoje, o dia d'hontem e o dia d'amanhã; ella e os filhos para crear, os carretos para fazer; ella e a vida, todos os dias se vão amalgamando, luctando, empurrando com desespero, até se crear esta figura e se apagar a outra, gasta pelo uso da dôr e pelo uso das lagrimas.
Sósinhas luctam, sorriem, amparam. Velhas e exhaustas espalham ainda ternura. Curvam-se sobre os berços, vão pedir pelos homens. E sobre isto ignoram-se.
—Mãe—pergunta a filha mais moça—mãe que coisa é casar?
E ella responde como sua mãe lhe respondera:
—Filha, é fiar, parir e chorar.
A vida é uma coisa seria e por isso emudecem. Guardam para si o bocado mais amargo, a tarefa peor de fazer. Se choram, choram baixinho para que as não ouçam chorar, alli nas quatro paredes de alvenaria, alli onde as trouxeram pela mão, entre as coisas familiares, o fôrno, o lar, os potes, a enxerga... Na enxerga onde morreu a mãe, nasceram tambem os filhos.
Há seculos que a mesma serie de figuras repete os mesmos gestos. Há seculos que a mesma mulher esfarrapada pare e o mesmo cavador revolve a terra. Há seculos que comem o mesmo pão e a mesma usura os leva até á cova. Há seculos que choram as mesmas lagrimas e o monte deita a mesma agua. As mulheres trazem os pequenos ao collo e falam-lhes como lhes falaram a ellas. O que se gasta, o que a dôr e a vida consomem, é a parte externa: as lagrimas renovam-se sempre. As leiras dão sempre o mesmo pão escasso, no monte não se estanca o fio d'agua, que, como o fio de ternura reproduz a vida e remoça sempre quatro palmos d'herva. A mulher, esta ou outra, chora, debruçada sobre a maceira, pare com dôr no mesmo catre, morre com dôr na mesma enxerga.
E no fim de todas, apagada e sumida, surge outra, a serva. Do escuro saem gemidos. A casa desapareceu: só correm lagrimas. Sinto uma mão que procura a minha mão, e uma voz que me diz ao ouvido:
—Escuita! escuita!
É a creada que serve o cavador desde pequena, a pobre que só tem de seu a saia que traz vestida, que mistura lagrimas ás minhas lagrimas.
—Escuita! escuita!
E aquece-me as mãos com bafo.
E se remexo o brazeiro—vejo outras figuras, outras ainda, até ao inicio da vida. Estão alli o avô, os avós, os jornaleiros. A um, tão entranhado de terra, mal o descortino. E atraz d'estes, ainda outros, mudos e disformes—outros como terra—outros como arvores decepadas—outros como fome e que mal sabem exprimir-se—outros a quem só se vêem as mãos nodosas—e a serie sumida de mulheres, bronco e dôr, que a vida consumiu, e que procuram debruçar-se para ouvir... Tão longe! tão longe!... Mal descortino já a luz tão pequenina e humilde, mal distingo a vida na treva condensada—uma luzinha de candeia, que há seculos vem de mão de mulher em mão de mulher... Tudo volta á cinza. Diante de mim está sosinha a Joanna, que me mostra as mãos roídas, as mãos enormes, as mãos só dôr...
O mundo é feito de dôr—a vida é feita de ternura.
PAPEIS DO GABIRU
20 de novembro
Chove um dia, outro dia, sempre... Amanhece um dia nublado, outro dia alvoroce negro e aspero. O vento abala a pedra sobre que é construido o casebre. O inverno tem a sua voz propria, a sua côr, o seu vestido em farrapos com que agasalha os montes deixando-lhe os ossos de fóra. Mas o inverno é sonho. Só agora o comprehendo. É sonho concentrado: sob esta casca resequida está uma primavéra intacta. Esta voz clamorosa é a voz dos mortos. Uma pausa, a prostração da tempestade, e depois redobra o clamor... Andam aqui as suas lagrimas... Na sufocação reconheço esta voz que me chama. E depois a tempestade, novos gritos, a escuridão profunda...
Lá andaremos todos não tarda! lá andaremos todos não tarda!
E ouço sempre a mesma voz:
«Que frio o outro mundo! Que impassibilidade a do outro mundo!
Saudade, saudade de tudo, até do fél, saudade de te não sentir ao pé de mim. Tenho saudade da vida. Só poder aquecer-me ao lume, só sentir o lume n'este inverno sem limites, n'este frio de morte—sem outra primavéra! O que a vulgaridade sabe bem! o que a materia sabe bem!
Não vejo. Ceguei.
Disperso-me, e por mais esforços que faça, sinto-me desagregar: perco pouco e pouco a consciencia de mim mesma. Sou ainda ternura e pouco mais. Já não tenho lagrimas.
Quem me dera a desgraça!
E uma pena da vida! uma saudade da vida! uma tristeza de não poder misturar-me á vida! A vida—e um cantinho do lume, a vida banal, a vida comesinha... Tenho saudades do muro a que costumava queixar-me.
Vive devagarinho. Aquece-te á restea do sol como quem nunca mais tornará a aquecer-se; perde todas as horas a trespassar-te da vida.
Deixa que sobre ti caia o pó d'oiro. Vive-a.
Tu és a nuvem, tu és a arvore. Enche a
consciencia
de todas estas coisas, porque não tardarás a perdel-a.
Vive—não tornas a viver. Põe d'acordo a tua alma com a pedra, extrahe encanto do céo e da miseria. Pudesse eu gritar! pudesse eu ter fome!
Só agora dou pelo sabor das lagrimas.
Sorri, esquece, dorme, sonha...»
21 de novembro
Não me comprehendo nem comprehendo os outros. Não sei quem sou e vou morrer. Tudo me parece inutil, e agarro-me com desespero a um fio de vida, como um naufrago a um pedaço de taboa.
Nem sei o que é a vida. Chamo vida ao espanto. Chamo vida a esta saudade, a esta dôr; chamo vida e morte a este cataclismo. É a immensidade e um nada que me absorve; é uma queda immensa e infinita, onde disponho d'um unico momento.
Talvez o mundo não exista, talvez tudo no mundo sejam expressões da minha propria alma. Faço parte duma coisa dolorosa, que totalmente desconheço, e que tem nervos ligados aos meus nervos, dôr ligada á minha dôr, consciencia ligada a minha consciencia.
Estou até convencido que nenhum d'estes sêres existe. Este fél é o meu fél, este sonho grotesco o meu sonho. Estou convencido que tudo isto são apenas expressões de dôr—e mais nada.
Nós não vemos a vida—vemos um instante da vida. Atraz de nós a vida é infinita, adiante de nós a vida é infinita. A primavéra está aqui, mas atraz d'este ramo em flôr houve camadas de primavéras d'oiro, immensas primavéras extasiadas, e flôres desmedidas por traz d'esta flôr minuscula. O tempo não existe. O que eu chamo a vida é um elo, e o que ahi vem um tropel, um sonho desmedido que ha-de realizar-se. E nenhum grito é inutil, para que o sonho vivo ande pelo seu pé. A alma que vae desesperada á procura de Deus, que erra no universo, ensanguentada e dorida, a cada grito se aproxima de Deus. Lá vamos todos a Deus, os vivos e os mortos.
O mundo é um grito. Onde encontrar a harmonia e a calma n'este turbilhão infinito e perpetuo, n'este movimento atroz? O mundo é um sonho sem um segundo de paz. A dôr gera dôr n'um desespero sem limites.
Eu não sou nada. Sou um minuto e a eternidade. Sou os mortos. Não me desligo disto—nem do crime, nem da pedra, nem da voragem. Sou o espanto aos gritos.
Cada vez fujo mais de olhar para dentro de mim mesmo. Sinto-me nas mãos d'uma coisa desconforme. Sinto-me nas mãos d'uma coisa embravecida pela eternidade das eternidades. Sinto-me nas mãos d'uma coisa immensa e cega—d'uma tempestade viva.
Toda a vida está por esplorar: só conhecemos da vida uma pequena parte—a mais insignificante. E o erro provem de que reduzimos a vida espiritual ao minimo, e a vida material ao maximo. O homem é um S. F. ligado a todo o universo.
Deus é eterno com a mascara sempre renovada. A alma há-de acabar por se exprimir, Deus, que olha pelos nossos olhos e fala pela nossa bocca, há-de acabar por falar claro.
Está tudo errado. Só há um momento em que o comprehendemos. Mas n'esse momento já não podemos voltar para traz. É quando, fazendo ainda parte dos vivos, fazemos já parte dos mortos.
Não só a sensibilidade é universal—a inteligencia é exterior e universal.
O universo é uma vibração. A vida é uma vibração na vibração.
A materia tambem existe em estado de nublosa—isto é um estado de dôr.
Toda a theoria mechanica do universo é absurda. D'ahi a alguns annos todos os systemas serão ridiculos—até o systema planetario.
O sonho completo é o universo realizado.
23 de novembro
Há dias em que me sinto envolvido pela morte e nas mãos da morte. Há dias em que não distingo a vida da morte, e agarro-me como um naufrago a este sonho...
...Cheguei ao ponto, Morte. Cheguei onde queria. Tu és o meu sonho phrenetico. Não há outro maior. Cheguei ao ponto em que te não distingo da vida. Tu és a vida maior. Por vezes vejo o grande mar, onde a lua deixa o seu rasto, caminhar direito a mim. Vagueia a floresta adormecida e avança desenraizada para mim... Cheguei ao ponto, Morte, em que não me metes medo. Acceito-te. De ti me vem a vida. Absorve-me. Só tu agora me prendes os olhos e de ti não posso arrancal-os. És o unico misterio que me interessa. Confio em ti. Cheguei ao ponto, Morte, eu que só de ti espero. Só tu resolves e explicas. Só tu acalmas. Acceito-te mas intimo-te. Toma a forma que quizeres, mais negra, mais tragica, mais torpe—bem funda é a noite e está cheia de luzeiros:—recebo-te, mas como um passo a mais para outra iniciação, para outro assombro, e até para outra dôr se quizeres, porque da dôr extraio mais belleza, mais vida e mais sonho.
...E contudo esta resignação é ficticia... Não, nunca acordei sem espanto nem me deitei sem terror. Ainda bem que o digo!
Siga a vida seu curso esplendido. Sabe a sonho e a ferro. É ternura, desgraça o desespero. Leva-nos, arrasta-nos, impele-nos, enche-nos de ilusão, dispersa-nos pelos quatro cantos do globo. Amolga-nos. Levanta-nos. Aturde-nos. Ampara-nos. Encharca-nos no mesmo turbilhão do lodo. Mata-nos. Mas, um momento só que seja, obriga-nos a olhar para o alto, e até ao fim ficamos com os olhos estonteados. Eu creio em Deus.
TERCEIRA NOITE DE LUAR
25 de novembro
Ha no mundo uma falha. Os poentes são labaredas rôxas com resquicios de escarlate e dois, tres grandes jactos violetas que se estendem pelo céo—uma maravilha chimerica. A outra primavéra prolonga-se: superabundancia de flôres nas arvores, espiritualidade na materia, como se as arvores antes de morrer se exgotassem em sonho. Mais flôres, mais poentes onde o oiro e o rôxo predominam, mais gritos no mundo, mais vulcões de côres, que presagiam catastrophes, e um ruido apagado, esquisito, insuportavel dentro de nós proprios, que comparo ao som d'uma borboleta esvoaçando contra as paredes d'um vaso.
É a morte que faz falta á vida.
Paira sobre o mundo uma alma monstruosa, um fluido magnetico, onde se misturam todas as coleras, todos os interesses e todas as paixões, e essa alma envolve, penetra e reclama dôr. Formam-se tempestades e terrores electricos. Anda ávida, desencadeia catastrophes, desaba desgrenhada, com uivos nocturnos de desespero. Cala-se—é peor: ninguem lhe suporta o peso. Produz jactos d'oiro, auroras boreaes, grandes incendios no céo, como se o globo ardesse. Despenha-se em montanhas de côr, em abismos rôxos, paira em campos ethereos de uma serenidade elysea. São talvez os mortos que reclamam mortos. É talvez a vida universal perturbada. São outras gerações esquecidas, camadas informes de que ninguem suspeita o nome, legiões sobro legiões incognitas—é a vida embrionaria que reclama a sua entrada na vida.
E, no fundo, sob este subterraneo, ha outro subterraneo: ouço passos e vozes de mais outros ainda que sobem para a superficie. Todos os mortos se misturam aos vivos. Arrombaram de vez os sepulchros. Tu que não viveste queres agora por força viver; tu que não mataste queres agora por força matar. Mais mortos desde o inicio—maior mixordia. Todo o esforço era para virem á supuração. Atraz d'uma camada havia outra camada. Ha seculos que carregamos nas tampas dos sepulchros para os não deixarmos sahir. Na realidade nunca se jogou o gamão, nem se disseram palavras vulgares. Atraz d'essa aparencia estava intacta uma coisa desconforme, e ás vezes por uma fresta irrompia a claridade do inferno... Agora a terra desfaz-se em mortos, como uma acha se desfaz em fumo.
O que era vida irreal, é agora realidade, o que era vergonha, ninharia e ridiculo, com mancha em cima] é a vida agora. O que toma pé são os sonhos, o que se agita são as paixões desregradas. Não ha limites nem peias. Vêem-nos como eu te vejo a ti. Tenho deante de mim este espectaculo, como se fosse possivel aos homens desdobrarem-se, e tomarem corpo ideias e paixões. Elles são aquillo que ocultamente desejavam ser, são o que não se atreviam a ser. Sob um mundo de verdade ha outro mundo de verdade. É esse mundo invisivel e profundo que passa a ser o mundo visivel. É esse. Todo o homem é uma serie de phantasmas e passa a vida a arredal-os. Chegou a vez dos phantasmas. As nossas ideias e paixões é que formam as figuras que actuam na vida.
Terceira noite de luar. O perfume estonteia. Terceira noite de luar branco, indiferente, coalhado, terceira noite de espanto. Redemoinhos de figuras e d'acção até aos confins dos seculos. Outr'ora, n'uma vida monotona e incerta, só se realisavam duas ou tres horas de exaltação. A vida agora é uma exaltação perpetua.
Tudo mudou: a arvore não existe como a pedra não existe. O unico mundo real é o mundo irreal. Todos nós andamos a crear um mundo que é o unico verdadeiro—os vivos e os mortos. Todos trabalhamos com o mesmo afan para o mesmo fim. Já a materia se adelgaçava... O mundo ideal é o mundo da dôr, do sonho, e o universo reconstruido, é o maior dos dramas—com a vida oculta ao lado—e cada dia tem o peso d'um seculo.
As creanças e os passaros emudeceram, o que produz na terra um silencio atroz. Os olhos encheram-se-lhes d'uma tristeza irreflectida, inocencia e extracto de vida, sentimentos que se não coadunam. Tenho vontade de fugir para onde não ouça o silencio... Avança direita a mim a floresta apodrecida. Mais perto! mais perto!
Ri-te agora se podes da D. Leocadia, que rumina como lady Machebeth as peores ruinas. Esta vida é feita de todos os nossos esforços e dos esforços do fundo. Somos apenas um reflexo dos mortos, e agora que tu queres falar com a tua voz, é que as ordens são mais cathegoricas e o conflicto monstruoso. Terceira noite de luar, branco, estranho, inefavel. Toda a noite o rouxinol cantou. Duas, tres horas, e canta ainda apaixonado e phrenetico... Debalde quero libertar-me dos phantasmas, debalde quero viver da minha propria vida!...
É que a vida não és tu nem eu, a vida é uma massa confusa e heterogenea, um pesadelo, uma nuvem negra ou uma nuvem d'oiro, uma tempestade electrica, com boccas abertas para risos e boccas abertas para gritos. Não é um detalhe—é um panorama. É um immenso farrapo dorido. Anda aqui a alma de Joanna e a seccura das velhas mesquinhas. É tão necessaria a este fluido a dôr muda do cavador como o sonho desconexo do Gabiru. Anda aqui a primavéra, as lagrimas que tenho chorado e as que tenho ainda para chorar. Anda aqui a tragedia, a pedra, a arvore, a tua inocencia e a minha desventura. Tudo isto se congrega, e esta alma não vive sem a tua alma, este grotesco sem o teu genio, esta vida sem a tua morte. Andam aqui os mortos e os vivos, a arvore que há-de ser arvore e o tronco que se desfez em luz. É um sêr immenso a que não vejo senão partes. Anda aqui a luz e a sombra, e a luz não se distingue da sombra nem a vida da morte. A vida está tão feita adeante de nós como atraz de nós. Está tão feita no passado como no futuro. Se o futuro ainda não existe, o passado já não existe. E tudo isto se congrega. A vida absorve-me e ponho-a em acção. Impregna-me e faço-a caminhar. Pertence-me e pertenço-lhe. É o passado e o futuro—Jesus Christo vivo, Jesus Christo morto, e Jesus Christo resuscitado.
26 de novembro
Estamos á superficie d'esse oceano embravecido, e o impulso vem das camadas mais profundas, das camadas informes. São todos. São até os que nunca tiveram olhos para vêr, os sêres esboçados, com mãos rudimentares, aparencias d'arvores e de figuras mutiladas. É a terra viva.
É só sonho, é sonho estreme e dôr estreme. Cada um assiste á projecção da sua propria figura monstruosa no passado e no futuro, cada figura tem emfim as dimensões de dôr, que as palavras, as regras e os habitos lhe não deixavam ter. Cada alma é desmedida e tragica e vem desde os confins da vida até ao infinito da vida. Cada um na floresta entontecida representa o maximo de sonho e o maximo de ternura. Cada sêr é emfim um sêr completo e doirado, atinge a belleza e Deus.
As florestas já mortas, a luz das estrellas desaparecidas no cahos—tudo aqui está presente. O esforço dos mortos, o sonho dos mortos, o desespero dos mortos sobre mortos, o reflexo de ternura, a mão que amparou, a bocca que sorriu, levadas pelo vento que soprou há dez mil annos, aqui estão vivos. Aqui está vivo o sonho que sonhamos todos, o primitivo sonho humilde e o sonho repercutido de seculo em seculo, assim como a tua voz compadecida. O sonho sepultado nas profundidades da terra, o primeiro resquicido, o nada e o sonho phrenetico, tudo aqui está na floresta embravecida. E, com ou sem bocca, com ou sem consciencia, nunca mais deixarei de andar n'isto, disperso, amalgamado, confundido, de fazer parte d'este drama, queira ou não queira, proteste ou não proteste. Tudo é inutil, todo o esforço inutil, todas as palavras inuteis. Reconheço-o. Mas não me canso de prégar, não posso deixar de prégar, até cahir vencido e exhausto dominado e deslumbrado. Na floresta embravecida, em que todos participam do mesmo sêr, até a mulher da esfrega encontra emfim Jesus:
—Será vocemecê o José do Telhado que o tira aos pobres para o dar aos ricos?
—Sou um pobre de pedir.
—Será vocemecê Nosso Senhor Jesus Christo que veio ao mundo para nos salvar?
30 de novembro
Chega o momento em que me perco, em que tenho medo de mim mesmo, em que me atemorisa o som da minha propria voz. Quem sou eu? Os outros? Sou os outros? São elles que falam, que ordenam, que me impelem? Eu sou os mortos! eu sou os mortos! Eu sou uma serie de phantasmas, que se açulam entre mim e mim. Reconheço-os. O gesto esboçado há milhares d'annos, e perdido, consumido, consegue hoje realisar-se, o grito que a morte calou n'uma bocca ignorada, faz écho no mundo. Todos os sonhos são realidades, os mais altos, os mais humildes, os mais bellos e os mais grotescos. Só os sonhos são realidade n'esta noite quieta e caiada, com uma mancha vermelha de polo a polo.
Aqui está agora isto a que se chama noite de luar, branca, inerte, passiva, com a lua espargindo luz sobre o doirado. Aqui está a arvore, e era a isto que se chamava a arvore! Aqui está a pedra e era a isto que se chamava a pedra! Aqui está o céo e era a isto que se chamava o céo! Reconheço-vos.
A morte encontra-se só—cortaram a arvore pelo meio. Anda pelo céo como um cometa que desatasse aos tombos e aos gritos—de desvario em desvario. A cada grito empallidece, esbrazeia, muda de côr, abre a cauda de oiro, de trambulhão em trambulhão...
A morte faz estremecer o mundo até á raiz. A morte já não tem a mesma significação. A morte é agora inutil e anda á solta no infinito, desgrenhada, dorida e doirada. Desespera-se. Tenho medo de lhe tocar. O drama que se passa em cima é maior que o que se passa em baixo. É peor este tumulto de inferno, este clamor de que me não chegam as vozes, esta força incoherente de pé—todas as forças de pé—posta a caminho para o desconhecido. É peor. E a cada grito em baixo corresponde um grito em cima.
Reconheço o grito que sae da noite. São os vivos e os mortos... Mas então que significação tem isto no universo, a dizer palavras inuteis no meio d'esta balburdia, d'esta escuridão cerrada, d'este doirado feroz, d'este redemoinho sem nome? Para que é que eu existo e tu existes? Para que é que eu grito e tu gritas? Isto não és tu! isto não sou eu! Isto é a vida temerosa, de que não representas senão uma insignificante particula. Tu não és nada, a vida é tudo. O combate é incessante entre os vivos e os mortos, entre os mortos e os vivos. Todos gritam ao mesmo tempo, todos caminham ao mesmo tempo para o mesmo fim esplendido.—Oh eu quero crêr!—Porque é que gritas?—Fecha os olhos! fecha os olhos!—Agora sou eu quem falo! Agora são elles que falam!...
Oh minha alma pois eras tu! Agora te reconheço! Capaz de tudo, capaz de baixezas e capaz de sacrificios. Tão pequena! tão tranzida! Não vales nada e pudeste tanto! Oh minha alma, pois eras tu, eras tu! Pudeste arcar com o universo, olhar Deus, construir Deus. Devo-te tudo: a ilusão, a tinta do céo, o sonho erratico das vastas florestas. Eras tu! eras tu!... Tem-me custado a dar comtigo, tão mesquinha e capaz de
povoares o céo
de estrellas e o mundo de sonho. Atreveste-te a tudo. Afirmaste. Negaste. Eras tu, sempre dorida, sempre anciosa, nunca satisfeita, e coubeste dentro de quatro paredes. Tornaste-me a vida amarga. Encheste-me de ridiculo. Atiraste-me aos encontrões contra a massa cega e compacta, levaste-me como restos de folhas n'esta procella de sonho. Fôste a melhor e a peor parte do meu sêr.
Eras tu! E pude com esta enxurrada de côres, de tintas, de impulsos, a instigar-me e a deslumbrar-me! E pude ao mesmo tempo com a dôr! Fiz parte da dôr. A desgraça viveu comigo e o sonho viveu comigo. E pude com a vida! Atravessei este mar monstruoso, servindo-me de meia duzia de palavras. Que importa ser ridiculo? Que importa ser a D. Idalina ou a D. Ingracia? Suportei a vida—suportei tudo. Que importa a tua mentira, se atravessaste a labareda e ainda conservas o chale tisnado?
Para onde vamos aos gritos? para onde vamos aos gritos?
E cada grito em baixo corresponde um grito em cima, a cada grito um estremeção no mundo, que se repercute de universo em universo. Um grito que acorda mais sonho e gera novo desespero.
Outro grito, outro mundo doirado, outra forma dorida que se deita a caminho.
O pezo da vida e o pezo dos mortos sente-se cada vez mais. Todos clamam ao mesmo tempo de pé para essa coisa immensa e doirada, n'um deslumbramento. Os mortos que nos pareciam mortos, camada sobre camada, estão aqui de pé ao nosso lado.
E o pezo é cada vez maior. Até agora viviamos com elles, respiravamos com elles, mas não sentiamos o pezo d'essa poeira viva que é a sombra e a luz. Agora não podemos com elles...
E o lamento, o uivo sobe cada vez mais alto. Debalde tapamos os ouvidos: o uivo penetra nas almas. E a um grito em baixo corresponde logo um grito em cima.
E as mulheres das viellas põem-se a chorar, os ladrões das estradas desatam a chorar...
O uivo não cessa. Irrita. Enche o mundo todo. Quem grita? Nós proprios? O homem que range por não poder suportar a vida? O grito domina tudo, trespassa o globo e echôa no mundo.
E outra coisa monstruosa tomou o lugar da morte, outra sombra se entranhou de salto na vida, outro turbilhão arrasta os homens. Modificaram-se as estrellas com os sentimentos. A outra coisa no infinito reflecte-se na vida dos astros que mudam de côr, na dôr que tomba desgrenhada de quéda em quéda. Todo o mundo se transforma a nossos olhos. Cada sêr augmenta como se encerrasse em si a vida até aos confins dos seculos. O passado não existe, o futuro redobra de proporções. Perdeu-se a noção da desgraça e a noção do tempo, e a nodoa de sangue da Via-Lactea, onde se concentra toda a sensibilidade do mundo, alastra entre os astros, de lez a lez, na profundidade do céo.
Ouves o grito? ouvel-o mais alto, sempre mais alto e cada vez mais fundo?...—É preciso matar segunda vez os mortos.
INDICE
Pags.
A villa 9
O sonho 25
A villa e o sonho 43
Papeis do Gabiru 63
Atraz do muro 67
O sonho em marcha 77
Fevereiro 95
A mulher da esfrega 101
Papeis do Gabiru 117
Outra villa 123
Deus 133
O dever 141
A velha e os ladrões 149
Dialogo dos mortos 159
Primavera eterna 167
Deus 191
Céo e Inferno 197
A arvore 211
Papeis do Gabiru 221
Terceira noite de luar 227
ACABOU DE SE IMPRIMIR ESTA 2.ª EDIÇÃO NA TYPOGRAPHIA DO ANNUARIO DO BRASIL, (ALMANAK LAEMMERT) R. D. MANOEL, 62—RIO DE JANEIRO AOS 5 DE JANEIRO DE 1921

