RAUL BRANDÃO (continued 2)
Reading edition
Isto é decerto a vida. Mas a vida é tambem o instincto que me diz:—Aproveita, não deixes fugir o unico minuto. Se a vida é um momento entre o nada e o nada, o que vale a pena é aproveital-o.
A questão suprema é esta e só esta: Deus existe ou Deus não existe. Se não há Deus, a vida, producto do acaso, é uma mistificação. Aproveitemol-a para satisfazer instinctos e paixões. Se Deus não existe, não há força que me detenha. Não há palavras, nem regras, nem leis. Tudo é permitido. Questão logica: pois eu hei-de ir para a cóva, para todo o sempre, para toda a eternidade, sem ter extrahido da vida tudo que ella me possa dar, preso a palavras ou a meras questões de forma? Oh! ponhamos a questão, consciencia: se Deus não existe tu não és senão um estôrvo, meia duzia de regras aprendidas ou herdadas. Ponhamos emfim a questão com toda a clareza, porque este é o unico problema que me importa e que te importa resolver.
Escusas de encher a bocca com o dever. O dever não me interessa nada. A questão fundamental, a questão que eu debato com todo o meu sêr, e de que me não consigo desligar, é a da morte eterna e a da vida eterna.
Se Deus existe eu sou um homem,—se Deus não existe eu sou outro homem completamente diferente.
Não existindo tu consciencia, o que tu te intrometes na minha vida! E tanto faz analisar-te, discutir-te, negar-te, incomodas-me sempre. Estás morta—estás viva. Na cóva hei-de chorar inutilmente por te ter obedecido. Hei-de revolver-me com desespero, por teres conseguido amolgar-me e amesquinhar-me. Por mais que queira desfazer-me de ti, tu impões-te-me. Quando te julgo aniquilada, ahi começas a falar outra vez.
Vens de muito fundo!
Ás vezes protesto e imponho-me. Decido passar sem ti: humilhas-te. Humilhas-te para logo levantares a cabeça e revolveres o punhal na ferida. Pesas-me como chumbo. És de ferro. Bem tento explicar-te: são os escrupulos que me não deixam trahir, mentir, subir. O que é eficaz não é ter escrupulos, é fingir tel-os. É tudo o que os outros nos pedem.—Mas tu não transiges. Se te abaixas, é para te ergueres de novo, para de novo me atormentares. Não me largas. Acompanhas-me por toda a parte.
Se me livrasse de ti! se me livrasse de ti!
18 de janeiro
O que eu tinha era medo. Medo da morte, medo da sombra. Só isto existia? Quando tudo em mim me prégava que aproveitasse este momento, que deste unico momento extrahisse tudo que elle me podia dar—alguma coisa me detinha. Eras tu consciencia. E tu não existias! Fale a logica, fale a razão, fale tambem o instincto... A consciencia é sempre religiosa. Mal posso dar um passo no mundo sem tremer. O mundo é Deus, Deus rodeia-me. Tudo para mim é uma causa de espanto—e atravez d'este espanto presinto ainda um espanto maior. Sinto-me como balouçado n'um sonho immenso. Ando nas pontas dos pés. Mal ouso respirar no cantinho onde contemplo. E a minha consciencia era um reflexo deste universo. Mas se tudo isto se converte em forças, se arredo de vez a sombra temerosa, se tudo é acaso no acaso, se nada existe, se é indiferente o que eu penso e o que tu pensas, se só eu sou ao mesmo tempo o bem e o mal, a consciencia já não é a mesma consciencia e a sentimentos novos corresponde uma consciencia nova. Bem te procuro encontrar no fundo do meu sêr. Rebusco-te. Ás vezes, nos momentos tragicos, já não é comtigo que eu deparo—é com outro sêr que assiste sempre, como um espectador, a todos os meus exageros. Deitavas-te comigo, levantavas-te comigo, ferrada como um punhal—e não existias. Neguei-te. Expliquei-te. Reduzi-te ás tuas verdadeiras proporções—e tu não existias! Atormentaste-me e fizeste-me sofrer mesmo quando já comprehendera que não existias. E agora mesmo, quando o universo é outro universo, ainda te encarniças sobre mim como um phantasma.
Escusas
de te rir—tu não existes. Dependias da morte, e o que eu tinha na realidade era medo. Talvez medo para depois da morte—medo da minha alma em frente da minha alma, medo de aparecer nu e com pustulas diante do que é eterno. Carreguei-te como um fardo inutil. Põe-me a questão, põe-me todas as questões que quizeres. Tenho diante de mim este mundo e a voragem, este mundo e o nada. Não te metas de permeio, que já não tens razão de ser. Seria mistificação sobre mistificação. Não me atrever agora é absurdo. Porque, consciencia, o que importa é a parte interior—é a verdade sós a sós comigo, fechado a sete chaves, e essa é temerosa. Não tentes iludir-me. Não podes mentir a ti mesmo. Vê que passaste a vida a conter o mal—e o mal fez parte, queiras ou não queiras, da tua vida. O mal é pelo menos metade do teu sêr. Agora sim—agora estou livre e atrevo-me. Para sempre livre da morte e livre do tempo, calco-te aos pés. Nenhuma sujeição. Nenhum temor, nenhum phantasma. Sem escrupulos! sem escrupulos! Uma força entre forças e mais nada. O mundo pertence-me. Pertence-me e olho-o cara a cara sem desviar o olhar. Sou a unica força consciente, sem palavras que me diminuam, nem escrupulos que me contenham...
Agora fala! Aproveita o minuto unico, a infamia, o enxurro, o sabor a fél e a lagrimas da vida, ou enfileira-te, se podes, no estupido rebanho, e reentra na vida quotidiana, feita de pequeninas regras e interesses. Vem-me um vomito: tenho vontade do fugir de mim e dos outros: só o que é selvatico me interessa e acorda em mim sonho, perfume e ferocidade... Quero saber o que me impede agora de matar, quero saber o que me impede de olhar nos olhos o inferno, de seguir o instincto e de obedecer ao impulso...
O SONHO EM MARCHA
20 de janeiro
Eu sou um desconhecido para mim mesmo. Ia para a cóva sem me têr encontrado um momento sós a sós comigo. E é com dôr, é com espanto e dôr, que me reconheço; é com olhos de pasmo e dôr...
Tudo mudou. A sofreguidão que todos os dias da vida—sempre! sempre!—nos empurra e leva; o sentimento da vida ephemera e o horrôr da morte—mais perto! cada vez mais perto!—; esta coisa imponderavel que debalde tento deter—sem nome e a que se chama o tempo—que nos usa, a que não ouço os passos e que caminha inalteravel—tudo desapareceu de vêz. Respiro. E, modificada a ideia do tempo, todas as outras se alteraram profundamente. Os sentimentos não são os mesmos. A vida assenta n'outras bases, a vida fica amarga.
Resta-nos a logica e a consciencia. Mas a consciencia admito-a, comtanto que não me embarace. A consciencia que quizeres, comtanto que não me amesquinhe, ou não me iluda. O unico juiz sou eu. O fim da minha vida não é dominar-me, é dominar-te.
Todos temos de matar, todos temos de destruir, todos temos de deitar abaixo.
A paciencia acabou, a resignação acabou—e acabou a morte. Suprimida esta ideia, suprimido tambem o tempo e o espaço, as velhas não existem; o que está vivo é a ferocidade, a paciencia e a mentira—e tudo espera a ocasião. Espera e desespera. A parte de dentro é que está viva e reclama de pé e de ferro a sua vêz. Notem: nenhuma arriscou um gesto mais brusco. Por mais fél
que
lhes venha á bocca estão habituadas a engulil-o. Nem com a cabeça tapada se atreveram a olhar a verdade. P'ra dentro! sempre p'ra dentro! E assim succede que não se construiu nunca cathedral com alicerces mais fundos. Está viva. Uma sustentou-se de côdeas, outra sustentou-se de fome. A inveja tambem sustenta, o fél tambem sustenta. Á Araujo só a paciencia e o calculo lhe permitiram viver. Ás vezes tem fome—nunca disse a ninguem que tinha fome. Sabe logo quando entra n'uma casa as palavras que agradam á velha rancorosa e á filha cheia de pretenções a quem ensina as escalas; de quem há-de dizer mal esta semana e bem para a que entra. Esperou como a aranha espera com o estomago vasio. Nunca pediu esmola. Melhor: conseguiu dar-se ao respeito. E calcula, calcula, cheia de fome, o tempo que a magestosa Theodora pode durar. A D. Penaricia é abjecta, mas só a abjecção lhe tem permitido viver. A mentira tem razão de ser—sem abjecção a sociedade repele-nos. Admitimos alguma abjecção, não completa e total, que repugna, mas a precisa para servir de realce e moldura ao nosso quadro. Acresce a isto que teve de viver com despreocupação, de sorrir com despreocupação, de mentir com despreocupação—com a miseria atraz de si.
Com fél constróe-se uma vida—o fél dá certa solidez. O peor é meter logo para dentro toda a inveja que lhe vem á bocca. Peor ainda: na velhice misturou-se tristeza ao fél. Não só a D. Penaricia tem inveja, não só a D. Penaricia odeia, mas a D. Penaricia chega ao ponto em que percebe a inutilidade do fél. A Theodora pode aniquilal-a de um gesto. Fél e vinagre—mais fél e tristeza. É um vasto campo de destroços de que desvia o olhar. Foi-lhe então inutil o fél? Se não fosse o fél já tinha morrido. Quando passou fome, quando deu dinheiro ao homem para o jogo, quando perdeu na bisca para a Theodora ganhar e sorrir, o que a sustentou foi o fél. Quando vestiu a filha e a passeou no jardim, com trapos como os outros trapos, o que a sustentou foi o fél. Juntem a isto coisas inverosimeis que se lhes pegam e as reclamam, velhas coisas esquecidas, velhos sapatos d'ourelo, desaparecidos para sempre nas profundidades do nada; velhos habitos, costumes aferrados, miserias chronicas, adquiridas pela vida fóra e que erguem a voz, cabelos postiços, sentimentos postiços, gritos, e o exaspero de quem não pode berrar:—O que eu quero é gosar! o que eu quero é encher-me!—o que representa ainda mais fél e tristeza, mais fél e vinagre. Alli estão frente a frente, e pergunto se estas velhas que passaram a vida á espera d'uma herança não teem direitos. Pergunto se é possivel que a magestosa Theodora continue a viver mil annos e a impôr-se, a mandar, de quico na cabeça e com o cofre atraz de si, e as outras agarradas á meza do jogo e á espera da morte. Pergunto se ter inveja não é sofrer, se ter paciencia não é sofrer. Há que tempos que cada uma d'ellas só pensa em matal-a e arreda a ideia com medo ao inferno. A teia aperta-se. Mais um momento e a teia torna-se visivel. A magestosa Theodora não pode escapar. Todos os dias se tecem fios que a envolvem, todos os dias aquellas vontades actuam, todos os dias o sonho constróe. Sufoca. Formou-se um sêr que tem vida propria, uma atmosphera, uma alma commum, de que fazem parte todas aquellas almas. A magestosa Theodora pertence-lhes. Hoje a Adelia cravou de repente a agulha sobre a meza, e a magestosa Theodora desatou de subito, aos ais, aos ais, como se visse alli lavrada a sua sentença de morte. Todas as phisionomias mudaram alteradas e profundas, subindo á tona das profundidades do universo ou de poços mais profundos ainda. Agora o sonho não é um segundo, o sonho vae ser a vida.
—Está certo o senhor? Está certo o senhor padre Ananias, que depois d'esta vida há ainda outra vida de que nos têem falado? Ou há só esta vida? só esta?! E isto é uma
comidela
?
O que ellas estavam era sepultadas n'um vasto cemiterio do tamanho da villa. Sobre cada velha havia pó, sobre cada interesse pó, sobre cada phisionomia outra phisionomia. Efectivamente a Theodora é uma insignificancia. Só dá leis. O melhor é matal-a. E todos os olhos se cravam nos olhos do padre, todas as velhas mastigam em secco, todas as velhas dão de repente um salto brusco no vacuo.
Ó paciencia que já não és paciencia e trazes veneno na algibeira, com que despeito olhas para traz, para o Hymalaia de inutilidades. Debalde a paciencia tenta dizer ao sonho:—Amanhã—; tenta iludil-o:—Espera...—e a mentira propor-lhe uma transação. O sonho toca na paciencia como quem toca n'um nervo, e quando a Restituta vae mais uma vez dizer-lhe á pressa:—Pois sim...—aperta-lhe o gasganete e pela primeira vez na vida a deixa desorientada... Comediante, vê se aproveitas o excesso da tua dôr para praticares uma nova infamia!
21 de janeiro
A mesma interrogação se formula em todas as almas: quer então dizer que só vivi uma vida ficticia ao lado da vida e que perdi o melhor da existencia com aparencias? Quer então dizer que tudo para que vivi não existe? Ponhamos a questão! ponhamos a questão! A maior conquista do homem, Deus, desapareceu para sempre—desapareceu tambem a morte. Ponhamos a questão: façamos taboa raza. Está tudo em terra, o dever, a honra, as formulas e as regras. Ponhamos a questão por uma vêz, nitida, clara e sem subterfugios. Ponhamos a questão e todas as questões...
Avançam e recuam logo. Do sonho grotesco ou explendido, ridiculo ou feroz, á realidade vae um passo desmedido. Interpõe-se um muro... Todos passamos os dias a resignarmo-nos. Muitos nem dão pela vida. Há sêres que tanto faz estarem vivos como mortos. Outros nunca repararam sequer na sua verdadeira phisionomia (porque até a nossa phisionomia é mais verdadeira que real). Em alguns o murmurio das vozes é tão afastado que não chegam a interpretal-o... Há-os que sahem da lucta esfarrapados, há-os cheios de reticencias e que mal visionam o mar morto indiscriptivel. O que os farrapos custam a largar! o que o muro custa a deitar abaixo! Pesa-lhas a vida anterior, o habito reclama-os. Adhere-lhes o infinito e as colicas, a usura e o fél. E sobre tudo isto há a contar tambem com a imbecilidade e a apagada, inepcia. Há a contar com a langonha que tambem tem o seu sonho. Há a contar com o que se arrasta no escuro, com olhos brancos, com olhos vagos para a lua e para o sonho. Há a contar com as velhas encardidas de habitos e de fistulas. Em sêres amorphos e aguados, quasi inertes, no fundo remexe ainda um resquicio de sonho, que se traduz no mesmo gesto pautado, na mesma mimica, e no olhar, onde, até na imbecilidade cerrada, se distingue não sei que de temeroso. Por isso a questão não é facil de resolver. Por isso o Anacleto ainda não a matou. Ainda não conseguiu deitar o muro abaixo. Não é o que se pode dizer na praça, porque a praça venera-o. Não é tambem que a ideia de a matar o assuste. A villa conhece o seu escrupulo e honra-o. Nunca deixou de pagar uma lettra. Mas há não sei quê que o contraria e se opõe. Tambem as velhas se deteem, tambem o Santo se detem. Mas a maré que ahi vem sobe sempre. Ao mesmo tempo entontece-os e ao mesmo tempo perturba-os.—Eu não quero vêr! eu não posso vêr!—e tenho de me olhar cara a cara, tenho por força de te admitir, tu que és o meu verdadeiro sêr, immenso e profundo, com raizes em toda a lama e braços que chegam ao céo.—Eu não sei d'onde vem isto, e isto aturde-me. Olha como sorrio para ti, como finjo que sorrio de mim e de ti que te pões a falar. O gesto que eu faço, não me pertence, perturba-me o som da minha voz. E a noite é cada vez mais cerrada...—Ninguem quer achar-se frente a frente com o seu proprio phantasma. Nem tu, nem eu. Fugimos-lhe sempre. E, se succede encontrarmo-nos, quedamo-nos com um sabor que nunca mais se esquece. Um passo está dado, falta dar outro passo. Custa...—Ao que quasi todos se apegam não é a grandes acções, é a simples peripecias. As existencias que se nos afiguram dramaticas são cheias de ninharias, de ideias fixas e de paciencia. O Torres engrandece a mania de copiar inutilidades: d'aqui a dois dias ou d'aqui a dois seculos, ainda o encontras curvado sobre o mesmo manuscripto, onde traslada o folhetim do
Seculo
. Á Araujo que dá lições de piano é desespero inteiriço. O honrado Elias de Mello vê o tratante Elias de Mello pôr-se a caminho e não o pode deter.—Ahi começas tu tambem a perceber que a tua vida foi um mero simulacro, que, a tua bondade for sempre um simulacro, que a tua felicidade não passou d'um simulacro...—A D. Fufia, que há muitos annos está morta por dizer mal, que nunca se atreveu a dizer mal, e que, quando ia a dizer mal, dizia logo bem de toda a gente, rompe agora a abocanhar todos os ridiculos, todos os orgulhos, todas as vaidades:—O que isto consola!...—Divagam, falam queiram ou não queiram com os proprios phantasmas, monologam, discutem, gritam. A cada passo uma interrogação exige resposta, a cada passo um abysmo aberto...—D. Leocadia, o meticuloso dever foi a tua vida e agora descobres que o dever não existe, descobres que tudo aquillo para que viveste não existe, e que existe outro dever maior e mais vivo. Descobres que as palavras não te servem de nada. Descobres que tens d'ir de encontro ás questões e não as podes desviar do caminho. Descobres que por tuas proprias mãos criaste uma creatura disforme, que alimentaste de mentira. E, a esta luz que te dá de chapa, descobres que a tua caridade e os teus escrupulos eram uma lucta de vaidade e de medo, de palavras e de instincto, onde não entrava uma unica verdade. Descobres que criaste um sêr falso que abominas e te abomina, e que não te podes separar d'esse horrôr. Descubro tambem que errei a vida, e não sei recomeçar a a vida, e que tudo que fiz não fui eu quem o fiz, mas o outro que me mete medo, e que tanto vale a minha vida que perdi a arcar com Deus, como a da Telles de Meirelles que a gastou com um trapo. Com um trapo e palavras, ambos subvertemos o mundo—um dia, uma semana, um seculo.—Examinando bem a questão, meticuloso Anacleto, uma palavra bastou para te deter... Examinando bem a questão reconheces que foram as conveniencias... Has-de arrepender-te até a consumação dos seculos. O mundo vesgo que em mim descubro no outro compartimento, é o mesmo que em ti descobres. Faz esgares como certos rictos indecisos que se formam á tona dos pantanos. Todos sentimos atraz de nós um mundo, outro mundo, outro mundo de ninharias, de palavras sem nexo, de coisas que perderam a expressão, de apetites que nunca se realisaram—todos cobrimos isto de aparencias. Passamos a vida a conter outro sêr—outra coisa—outro espanto. Há um fio invisivel que ninguem se atrevia a ultrapassar. Uma ordem que ninguem rompia. Até a colera e o desespero mantinham certo verniz. E agora descobrimos todos ao mesmo tempo, ó meticuloso Elias, ó impoluto Melias—com risca e vinco, com vinco e risca—que resolver matal-a é facil, mas para a matar temos de deitar abaixo legoas de espessura. Deixamol-a morrer ou não a deixamos morrer? E nem sequer podemos iludir a resposta. A mesma coisa desconforme entra pelo nariz e pela bocca do Santo. Entupe-o. Esvasia-o e endireita-o depois de amolgado. Outro sêr, n'um estonteamento, bate com a cabeça pelas paredes.—Mas então?... pergunta atonito.—Mas então posso, atrevo-me?... Tudo isto era uma mistificação? Mas então tudo é possivel e posso realisal-o ámanhã, hoje, logo? E estas teias de ferro eram teias d'aranha?... Mas então o medo, a morte, o inferno...—Aqui estou eu com esta mulher a meu lado, e sem querer pergunto a mim mesmo...—Mas então?...—Sim, resta-me certa pena e saudade, mas o interesse levanta a cabeça e deita as suas contas tão baixinho que mal lhe ouço fazel-as...—Teçamos, teçamos todos a nossa teia esplendida, vulgar ou grotesca..:—Mas então...—E encaro com um mundo novo, a que por ora nem eu, nem tu, nem nenhum de nós se afoita. Só as interrogações são cada vez maiores em todas as almas. Todos os bonecos arreganham os dentes e a Porphiria sua inveja. Efectivamente não se comprehende para que vivem certos sêres inuteis, que atravancam a nossa existencia e um pequeno incidente podia suprimir. Efectivamente não se explica que bastem alguns fios imateriaes para nos conterem, e que um vidro de vidraça seja suficiente para nos separar da vida.
Até a D. Restituta que era um poço sem fundo, desata a repetir os segredos de toda a gente, fazendo gestos na obscuridade com o guardasol de panninho.
—Acuso! acuso! acuso!
Tocou-lhe tambem a vez. Usou-se a obedecer, a dizer a toda a gente que sim. Hoje uma gota de fél, ámanhã outro resto amargo. Já não sabe dizer senão que sim, já não consegue apagar as dedadas que lhe imprimiram. Coçada, coçada, coçada. Fez as vontades á D. Procopia, á D. Felizarda, á D. Herminia. Sujeitou-se ás vontades do conselheiro Pimenta, quando por desfastio lhe fez um filho. Orgulho? Ninguem tolera, ninguem concebe, que a Restituta tenha orgulho; ninguem tolera, ninguem concebe que a Restituta tenha vontade. Habituou-se, apelintrou-se. A Restituta é um reflexo. Diz-se tudo deante d'ella. Há familias separadas por odios seculares: só ella entra e sae n'essas casas quando precisam communicar. Naquella alma incutiu-se até profundidades desconhecidas o respeito ás pessoas ricas, a consideração ás pessoas importantes. Que tem a Restituta que desata aos gritos:
—Acuso! acuso! acuso!
Debalde lhe tapam a bocca. É um vomito, um chorrilho de palavras precipitadas—a vida de toda a gente—são os despejos entornados. Em vão dez, vinte mãos anciosas se lhe agarram ás guellas abertas: aquillo sae n'um jôrro impetuoso—tudo quanto estava recalcado, todos os segredos que ouviu, todas as miserias que lhe deitaram para dentro, e, se pára um momento, é para tresvariar n'um riso feito de todos os risos postiços, n'um esgare feito de todos os mil e um esgares que acumulou durante a vida:—Eu tambem tenho um filho! eu tambem tenho um filho como voces!—Impurram-na, escorraçam-na, e ella agarrada ao guarda-chuva ainda brada:
—Acuso!
A vida irrompe, o sonho irrompe como hastes de cactus, nascidas d'um dia para o outro, com escorrencias nas extremidades ridiculas e pueris. Arredei sempre isto—isto que estava ao lado da vida. Nunca quiz vêr isto, fingi sempre que isto não existia. Tambem tu o arredaste... E isto existe. E isto é enorme. O que ahi está fede. Tresanda. Sua viscosidades. Apega-se. É uma marcha furiosa e desordenada. É a Vida. São todas as ancias soterradas que se não chegaram a exprimir. É um inferno de gritos e de impulsos, sonhos impossiveis de sonhar, aquecidos a bafo e ternura, sem forma nem côr, ou admiraveis sonhos de tragedia. Mais um passo e tudo que estava recalcado, tudo que estava morto e sepultado, toda a podridão, todo o desejo encarniçado e oculto, toda a mistella que lucta ás cegas na escuridão para vir á superficie, desata a falar á tôa. Mais um passo e o sonho é realidade. Fala a infamia e o grotesco, fala a candura ao mesmo tempo.
23 de janeiro
Ao Santo só lhe resta orgulho. O sonho descarna-o e deixa-lhe o orgulho intacto. Debalde préga, debalde lucta comsigo mesmo.—Eu já não creio no inferno.—E detem-se com espanto deante dos destroços, das formulas, da insignificancia, dos simulacros que foram a razão da sua vida. Tudo que lhe enchia o mundo não existe, tudo que não existia lhe parece maior:—Eu quero crêr! eu quero crêr e não posso crêr!—Debalde insiste comsigo mesmo:—Nossa vida aqui é nada, nossa vida eterna é tudo. Nosso destino é a morte. Só assim posso explicar o universo, só assim posso comprehender o universo.—Tudo o que se tinha apoderado do seu sêr até ás mais intimas raizes, tudo o despedaça até ás mais reconditas raizes. Dilacera-o.—Não me atrevo sequer a olhar a vida, a olhar para mim, a olhar o pelago desordenado. Eu quero vêr e não ouso! Eu quero crêr e sinto-me pequeno e grotesco ao lado d'isto! D'esta coisa monstruosa que não posso arredar. Não posso arredal-a.—Para ti tambem o problema é insoluvel, D. Leocadia, que resurges com o vestido coçado, mais secca e mais verde. Estaes ambos encalacrados.—Tu viveste sempre para Deus e para o inferno e nem sequer o inferno existe. E tu procedeste sempre segundo a tua consciencia, regulaste tudo conforme a tua consciencia—e tu e tu—e ahi estaes ambos atonitos e verdes, resequidos e verdes, desesperados e verdes, sós a sós em frente d'uma figura que vos não larga.
—Trouxe-a para casa, sustentei-a, mas nunca a pude vêr, diz ella—Deste-lhe codeas mas não podeste amal-a. Sustentaste-a por caridade, sustentaste-a de restos para calares uma voz tremenda. Ella foi peor que uma creada, foi uma creada que se não pode despedir, presa pela gratidão—observa a outra D. Leocadia—Fala claro, fala alto. Atreve-te.—Atrevo-me. Toda a minha vida fiz o sacrificio de a manter, toda a minha vida por caridade a tive junto de mim, calada e subalterna, amachucada e sem vontade, para cumprir perante Deus o meu dever. E agora a consciencia exige de mim?...—Exige.—Exige de mim, porque o meu filho lhe fez um filho, que o case com a orphã, sustentada de esmolas, calada e viscosa?—Exige.—Por quem eu só sinto repulsão?—Exige, e o peor de tudo é que lhe deste restos, mas não podeste amal-a.
Torce-te, torce-te mais ainda. A cada camada de verde pega-se-te logo outra camada de sonho. A D. Leocadia coçada e secca sacode em vão e arreda outra D. Leocadia inteiriça e coçada. Tambem o Santo está aqui, só e o pecado, só e Deus, só e o desespero: «Deus existe—ou Deus não existe. Se Deus existe, se tenho a certeza que Deus existe e se interessa pela minha dôr, esta vida transitoria é um unico minuto com a eternidade á minha espera. Tudo me parece facil. Que exige o meu Deus? Que me reduza a pó e despreze a aparencia? Tudo é vão deante da eternidade que me espera. O meu Deus enche o mundo. Só o meu Deus exista, e todo o resto no universo é tão pequeno e tão futil, que reclamo mais dôr, mais sofrimento, mais fome. Que a desgraça caia sobre mim com todo o peso da desgraça; que a dôr me descarne até á medula. Despreso a dôr. Exijo-a deante da eternidade. Sou capaz do andar de rastro com a bocca no pó, sou capaz de sofrer todos os tormentos, com a certeza de que me livro d'uma eternidade d'angustias para vêr Deus. Venham todos os escarneos, todos os gritos, todos os suores da agonia—venha meu Deus a cruz! Até á morte hei-de crêr no que creio. Sem crêr não sou nada—sem crêr não existo—sem crêr não comprehendo a vida. Preciso de caminhar para um destino. Crêr é uma necessidade absoluta, um sentimento primario, a propria vida, sua razão e seu fim. Tenho necessidade de Deus, como do ar que respiro. Sem elle a vida é desconexa e atroz; peor, é monstruosa. Creio porque creio. Se a vida se reduzisse só a isto, a vida seria abjecta. Dentro em mim tudo me fala n'uma lei, n'uma logica, n'uma razão de ser, n'um sentido. Eu vejo Deus, eu sinto Deus.
Mas se Deus não existe—se Deus não existe que me fica no mundo? Sou nada no infinito. Fui tudo—e sou nada. Leva-me a força bruta. Sou o acaso na mistificação. Sou menos que nada no monstruoso impulso. Se Deus não existe tanto faz gritar como não gritar. Não tenho destino a cumprir: saio do nada para o nada. Nas mãos da força bruta que sou eu no mundo que grito, que discuto, que clamo?... Atraz deste infinito vivo, há outro infinito vivo. Atraz d'esta impenetrabilidade, há outra camada de impenetrabilidade, outra vida ainda, outro desespero sofrego. Não encontro aqui logar para Deus que me ouça, que me atenda, ou que saiba sequer que existo.
Os gritos são inuteis, tu não me ouves. Estou só n'este absurdo que me impele e esmaga... Que não houvesse o céo, que existisse o inferno só o inferno! E nem o inferno existe!...
Se Deus não existe... O peor de tudo é que eu digo e afirmo,—Deus não existe!—mas na realidade não sei se Deus existe ou não. Não há nada que o prove—ou que prove o contrario. O peor de tudo é que eu sinto uma sombra por traz de mim e não sei por que nome lhe hei-de chamar. O peor que podia acontecer no mundo foi alguem pôr esta idéa a caminho. Mas mesmo que Deus não exista, tenho medo de mim mesmo, tenho medo da minha alma, tenho medo de me encontrar sós a sós com a minha alma, que é nada, o fim e o principio da vida e a razão do meu sêr. Mesmo que Deus não exista e a consciencia seja uma palavra, há ainda outra coisa indefinida e immensa diante de mim, ao pé de mim, dentro de mim. Vem a noite e com a noite interrogo-me:—Existe?—O que existe é monstruoso. Não ouve os nossos gritos. O que existe é o espanto. O que existe reclama dôr. Sustenta-se de dôr e não dá por ella.
O que existe então é isto—é um ulular de dôr na noite—no turbilhão, no escuro. O que existe são gritos, e eu sou levado, arrastado n'esta mistificação. Por traz de mim há uma coisa que me apavora, por traz de mim há uma coisa cada vêz mais sofrega, cada vêz mais phrenetica—e que de cada vêz exige mais dôr. Espera: a harmonia não existe—existe a dôr; a belleza não existe—existe a dôr; Deus não existe—existe a dôr. E há um momento apenas para realisar a vida. Nesse momento de paixão todas as forças se concentram e ponho o pé no mysterio. Tenho de aproveital-o.
Tudo o que exista na noite immensa, na noite ignobil, é peor que Deus. Tudo o que existe me faz horrôr, tudo o que existe entre as forças desordenadas me causa espanto... E por mais que grite, por mais que proteste, estou aqui diante do incomprehensivel, vivo no nada, de pé na voragem. E para lá há uma coisa infinita, um negrume infinito, uma vida infinita. É immenso—é inutil. Sou menos que nada. Só deparo na minha frente com infinito sobre infinito, com o negrume sufocado, com o negrume impassivel, com o negrume vivo e immenso, desesperado e immenso. Só contei comtigo meu Deus—e agora quero crêr e não posso crêr. Estou aqui defronte do espanto e sinto-me perdido na vastidão infinita. Tudo o que disse—disse-o deante do vacuo, tudo o que sofri—sofri-o deante do vacuo. Todo o meu desespero, a minha dôr, a renuncia, os esforços, o calvario deante do vacuo!»
O maior drama é o das consciencias. O maior drama é arredar todos os trapos da vida, para poder olhar a vida cara a cara. O maior drama é ficar só com o vacuo e em frente do espanto, É dizer: nada disto existe. Só dou no meio d'este assombro com uma coisa desconexa e abjecta, a discutir comigo mesmo, levada por impulsos. O maior drama é não encontrar razão para isto que vive de gritos e se sustenta de gritos—e ter de arcar com isto. Perceber a inutilidade de todos os esforços e fazer todos os dias o mesmo esforço. E isto não nos larga. Sacode-nos e abala-nos até á raiz, n'uma discussão que nunca cessa. Nem em mim, nem em ti, D. Leocadia. Essa figura tremenda insiste cada vez mais alto, cada vez mais sofrega, cada vez mais desesperada. Ouvel-a diante de ti, ao pé de ti, dentro de ti, mais coçada e mais verde, com outra camada de sonho e outra camada de verde?
—O dever? que dever? Antes a deixasses morrer de fome.
—Mantive-a para cumprir o meu dever.
Aqui tens tu a minha consciencia, aqui tens tu a tua consciencia, e aqui está a consciencia da D. Penaricia. E tanto vale para o caso o genio em frente da consciencia, como o ridiculo em frente da consciencia.—Valeu a pena não matar?—pergunto—perguntas—perguntam. Aqui estou em frente d'isto, com um segundo e todo o seu esplendôr e todo o seu espanto e todo o seu desespero, e pergunto, perguntas, perguntam, se o que se chama a honra e o que se chama a consciencia e o que se chama o dever, teem forças para se me impôr. Oh palavras não! A pergunta não é como as outras para ser iludida com subterfugios. É a unica que carece de resposta imediata como um punhal que vae direito ao coração. Vê tu que, apezar de tremulo, estou calmo... O problema é capital. Pergunto se toda a lucta foi inutil, se todo o fogo do inferno que recalquei, foi inutil? Pergunto, perguntas, perguntam se as horas para nos contermos foram uma estupida mistificação. E as boccas remoem em secco no escuro, e as mãos sofregas palpam os vestidos de ceremonia. Estão decididas a tudo. Vem-lhes á supuração o antigo fél e vinagre, os pequenos desesperos, e os grandes desesperos. Tudo está vivo. Cada sêr formula uma interrogação. Segue-se que se os paes teimam em viver, transtornam todos os planos, todas as regras e todos os preconceitos estabelecidos. Segue-se que acima de teu direito está o meu direito. Segue-se que a construcção antiga desabou, e a um mundo novo correspondem creaturas novas. Segue-se que todos os problemas se reduzem a um só problema—o dos mortos. Segue-se que o muro é uma insignificancia. Tapa o céo e a terra, não existe montanha de tanta espessura—é uma teia d'aranha. Sôa a hora da outra coisa disforme o aluir para sempre. Por traz do muro é que está a paixão, o crime, o desespero e a vida esplendida e feroz.
É preciso deital-o abaixo. Os tumulos estão gastos d'um lado pelos passos dos vivos e do outro pelo esforço dos mortos.
FEVEREIRO
1 de fevereiro
Chega fevereiro. Primavera. Dá logo rebate o tojo bravio. A aspereza é a primeira a sentil-a.
O tempo está funebre. Ouço o ruido calamitoso das aguas. Só os botões dos salgueiros estalaram. Nos galhos despidos entreabrem-se flocos friorentos e pelludos.
Corre um vento glacial e as arvores encolheram-se transidas. Mas n'esta frialdade sinto já ternura.
O ar de fevereiro é outro: é morno. As rãs, de barriga no lôdo, coaxam de satisfação, pegajosas e molles como a herva verde e humida. E, d'um dia para o outro, crescem á tona da poça azul, encastoada na terra negra, fios d'herva a reluzir. Tinta entornada.
O ar sabe bem: sabe a bravio.
Ao longe o sol trespassa os montes. Manhã de nevoa e oiro gelado. Uma arvore nova cobre-se entontecida da primeira flôr. Apressou-se, enganou-se... É uma haste de pele luzidia, tres raminhos abertos no azul. E isto envolto em ternura, tanto faz que se trate d'uma arvore como d'uma rapariga.
Sente-se n'esta atmosphera humida a seiva inchar os botões tumidos das arvores. Volta a chuva gelada: a primavera tenta, vem com hesitações.
Muda o scenario. Acinzentam-se os montes por onde sobem arrasto pelas pedras rôlos de fumarada. Acastelam-se no céo as grandes nuvens esponjosas. Chove. A voz é outra. D'onde a onde descerra-se a cortina vaporosa e emergem os montes brutos e compactos.
Nos abrunheiros bravos estalam os primeiros botões. E quanto mais bravos, mais flôr deitam. É uma prodigalidade.
Noite. A escuridão, o silencio, o esplendido céo todo d'oiro sobre a massa negra dos montes. É isto e os gritos da moichela aos ais d'aflição. Eis torna o silencio, e a alma sufoca de espanto... O pio triste dos sapos irrompe de profundidades ignotas. E outra vez o silencio, a noite imutavel cheiinha de estrellas—e sempre o mesmo fio d'agua, misturando ternura a este espectaculo d'assombro. É só isto, e a muralha disforme ao fundo, ainda palida de luz.
A primavera é um phenomeno electrico.
Na primeira tentativa da flôr há fealdade e ao mesmo tempo candura; depois, da noite para o dia uma gôta de tinta como uma gôta de leite. Basta que á nevoa se mistura o sol, para entreabrir, ainda informe. Todos os sêres, antes de se vestir, são abôrtos: teem medo de nascer bellos.
Ás vezes basta um dia. D'um instante para o outro, poeira azul, entontecimento, sonho...
E isto não é só material. N'este mysterio há certa dôr, certa tontura, há até espanto. É um olhar que se abre para o mundo. Pela emoção a arvore comunica com o universo e manifesta uma vontade que triumpha sobre a dôr inconsciente.
Entre a arvore, o céo e a terra há um compromisso de ternura.
5 de fevereiro
O que isto custou na obscuridade do mundo cahotico!... Houve decerto uma primeira primavera, mas as flôres, que hoje são ternura eram então espanto—tentativas frustradas de sonho. Os gritos da floresta primitiva, não os ouço mas estão aqui contidos. E ainda hoje a terra se perturba, porque vae assistir ao mesmo drama.
Todo o universo se concentrou para gerar a vida, todo o universo se concentra para a destruir.
A villa estremece ao sentir a primavera estranha. Noiva. Noiva a D. Ursula, pergaminho e escrupulo, que fez da vida um pecado, e ao réz de cuja alma liquida se espalmam flôres venenosas. Não há sêr que fique indemne. Até que chegou a vêz á macieira anainha, que um bafo humido-lilaz turba e perturba. Há aqui um encolhido, que nunca sahiu do saguão, que nunca olhou para o céo nem sabe que o céo existe: sente tambem a primavera. Assim me succedeu com um tronco decepado que no inverno meti no fundo d'uma loja: na primavera seguinte tinham-lhe crescido ramos: sentiu-a atravez dos muros, e, com gritos represados, botou um simulacro de flôr.
Fevereiro. Primeira noite de luar e de loucura. A primavera toca mais fundo, mais fundo ainda—esta primavera que revolve os vivos e os mortos. Todos deitam flôr. Acordam na profundidade dos sepulchros, com o sonho que levaram para a cóva, com todos os sonhos desfeitos em pó. Há-os que nunca se atreveram a declaral-o. Há-os que o sumiram com receio de sonhar. Há-os estonteados...
Ouvel-os falar baixinho, surprehendidos, como se soltassem todos o mesmo ah—de espanto, e se puzessem a falar baixinho uns com os outros?... Fala a poeira, fala a sombra desconforme, fala o pó desaparecido.
Na frente uma aparencia—a vida está na multidão que nos impele, a vida está nos mortos. Massa atráz de massa, os mortos empurram os vivos. Sente-se o esforço doloroso. Atraz d'estas mãos, outras mãos de desespero; atraz d'estes olhos sem orbitas outros se esforçam para a luz. O peor era o silencio. O esquecimento é que é a morte definitiva, e por isso o esforço augmenta. Formam uma cadeia infinita, a caminho para a vida e para a dôr; a todo o momento nos falam e nos guiam, e toda a sua ancia é viverem depois que estão no sepulchro. A velha que sahiu da existencia mirrada, continua a trazer o menino ao collo. Outros caminham tropegos, sacudindo a terra que se lhes pegou aos ossos. Eil-os dispostos a sofrer por uma nova ilusão. A vida foi um nada, impregnou-os para toda a eternidade: um instante de luz bastou para lhes dar gosto á dôr. O que elles tentam misturar as suas lagrimas ás nossas lagrimas! o que elles arfam para que o mesmo fluido que nos prende aos sepulchros—onde estremecem—se não desligue da vida que ainda se não tornou visivel! É que não só os mortos mandam nos vivos, tambem os vivos mandam nos mortos. E avançam, empurram-nos... Conservam no fundo do tumulo as manias da outra existencia. Esta velha aperta um trapo ao peito como um filho, com medo de o perder. A moça, mesmo na cóva, dá um geitinho tão lindo ao lençól! Este conserva na concha da mão uma moeda de cobre, e áquella, Maria Antonieta, René reconhece-a mais uma vez por a têr visto sorrir nas Tulherias... Estendem as mãos mirradas para se aquecerem ao nosso lume; guardam nos ouvidos pela eternidade os ruidos vulgares—os mais bellos—o das folhas cahindo uma a uma, o da fonte que corre e que nunca mais tornará a correr, o da voz que lhes falou na hora extrema; guardam nas mãos o ultimo contacto das mãos, e a restea doirada d'este sol doirado ainda lhes reluz nos buracos das orbitas...
Deitam-se ao mesmo tempo a caminho do fundo dos fundos e de mais fundo ainda. Mesmo morto o que eu não quero é morrer... Primeiro rebate, da primavera doirada e phrenetica, primeiro impulso que estonteia e deslumbra...
Os mortos é que estam vivos! os mortos é que estam vivos!
A MULHER DA ESFREGA
7 de fevereiro
Do sonho que revolve o mundo cabe tambem uma parte á mulher da esfrega. Arrasta tudo comsigo. Cae o inverno dentro da primavera. Engrandece-a, espalma-lhe os pés, esfarrapa-lhe os vestidos.
Está aqui a figura—está aqui outra coisa. Muda de expressão, como se fosse possivel as lagrimas usarem por dentro as figuras humanas, como a chuva ou os passos gastam a pedra. Aquillo dura um momento, transparece um minuto, mas esse minuto chega. Logo á submissão e á humildade se mistura um nada de entontecimento. Quasi nada. Trouxe sempre comsigo debaixo do chale um resto de sonho amargo. Remoeu-o transida de frio pela vida fóra, quando fez recados, aqueceu a agua e rachou a lenha. É um nada e ampara-a. Atreve-se... Toda a gente precisa de qualquer estonteamento para suportar a vida. Sonho gasto que andou por todos os caminhos, com pés espalmados como a recoveira. Há sonhos humildes que ninguem quer sonhar: servem á Joanna que quando os usa os vira do avêsso.
Velha quer dizer experiencia e seccura, e a Joanna não tem experiencia nenhuma da vida. Conserva a ternura intacta. Ninguem na ouve. Tem uma filha, nunca fala na filha. Ás vezes pousa em mim os olhos turvos:
—O corpo pede-me terra.
Ainda hoje não comeu senão uma côdea que lhe deram. Aproveita tudo. Anda sempre absurda a fazer contas como um avaro. Os trapos são sempre os mesmos: secca-os no corpo. O monologo é sempre o mesmo com que enche a vida toda. É sempre a mesma obstinação desconjunctada, como se as palavras gesticulassem para o lado de dentro, e a mesma ideia que a persegue o que debalde repele. Seja o que fôr, a Joanna esconde-o muito fundo. Ás vezes fica suspensa e alheada. Mal pode arrastar as pernas trôpegas. É pelle, meia duzia d'ossos, um cangalho, que sente uma absoluta necessidade de repouso, de terra para dormir. O frio é de morte. Entranha-se-lhe até aos ossos, e a velha lá segue com o saquitel de borôa e os olhos turvos de tanto ter chorado. Vê sempre não sei quê que a não larga.
—A tua filha?...—E nunca fala da filha.
N'aquelle desespero percebo uma palavra outra palavra. Sobre isto choro, sobre isto lagrimas em barda, como se nascesse uma fonte na escuridão. A Joanna chora sempre, chora por tudo e por nada, chora por si e pelos outros. Não se sabe onde vae buscar tantas lagrimas.
A ternura é humida.
Não comprehendo este sêr. Viro-o, reviro-o. É um nada com duas ou tres idéas no caco. Cheira mal, cheira a aziumado. Passou a vida a aturar os doentes e a vida repele-a. Apega-se e a vida acaba por fazer de Joanna de unhas roídas, pelles no pescoço e olhos turvos, uma figura disforme. Irrita-me e prende-me. Sei como a Joanna se encortiça d'um lado e se faz sensibilidade do outro. Posso dizer quasi dia a dia como as mãos se lhe deformam, como os olhos se lhe aguam, explicar como a mulher da esfrega se parece com o panno da esfrega. Não sei explicar o resto. Com este molho d'ossos e alguns farrapos no corpo, há um fiosinho d'oiro a reluzir, um fio que teima em aparecer á tona e em se misturar a agua de lavar a louça. Annos, velhice, desgraça—e teima. Teima até ao caixão. Reluz sempre. Tem o mundo contra si, a vastidão sofrega, o rodilhão do universo em perpetuo inferno. Resiste. Parece facil de suprimir n'um sôpro. Resiste a tudo, esse pó necessario como o polen á aza para voar. Um nada com a noite deante de si, com a voragem deante de si. Tudo se gasta e desgasta—não o usam.
Tenho passado noites em debate com este sêr absurdo. Acabo pelo desespero. Enfurece-me e apega-me ternura. Uma bocca enorme que se fecha sem emitir palavras, os mesmos olhos inocentes de pasmo, e um ronco que lhe vem dos gorgomilos como do fundo dum fole. Mais nada. Sacudo-a—deita sempre a mesma agua. O mundo é uma voragem. Tanto faz. A vida é uma mistificação. Debalde. Responde-me com ternura. Responde-me com uma vida humilde de desgraça e lagrimas. E outra coisa exprime a figura: surprehendo atravez dos farrapos e do ridiculo, um nada immenso, uma força immensa que transmite outro nada: algumas lagrimas para chorar, outro ventre para parir. Um poder de se perpetuar—para gritos. Impelem-na—impele. Debalde a dôr sua, a Joanna caminha molhada e tropega, mas caminha. É inutil a desgraça agarrar-se-lhe. Mais funda porque é muda como a noite. Faz parte da velha. Envolve-a, cresce, enrodilha-se-lhe. Sua. Só geme:—Anh...—Resiste á desgraça, resiste á vida, resiste ao ridiculo. A velha consegue ser maior que a desgraça. Nem toda a agua de lavar a louça suprime este facto.
O meu desespero termina aqui, deante d'esta creatura que não comprehendo, de mãos roidas e um chale velho sobre o corpo mirrado de ternura. Estraga-me a vida toda. Perturba-me a logica. Mete-me medo. Tanto faz que a Joanna viva ou morra, que grite ou se cale: as mesmas estrellas no céo, a mesma grandeza absurda, o mesmo mudo espanto. E no entanto n'esta confusão esplendida só a sua alma comunica com a minha alma. A sua dôr, a sua mentira é que importam á minha vida e á tua vida. Negrume e um arranco: exaspero para manter de pé um resto de ilusão. Mal se fecha abre os olhos atonitos. Não diz palavra. Por fim chora, as lagrimas correm-lhe pelos sulcos das lagrimas e mistura-as ao pó de sonho com que foi entretendo a vida, a pequeninas coisas gastas e poidas—ao sonho que ninguem quer, ao sonho que ninguem usa, o que em todo caso a sustenta e a enleva, como as bonecas das creanças pobres, de trapo e com dois olhos abertos a retroz, que se lhes afiguram rainhas.
Há um misterio na vida de Joanna, e no entanto na sua alma lê-se como atravez d'um vidro. Tudo n'ella será falso excepto a dôr. Não sei, ninguem sabe o que tem. Sinto que se obstina como se fosse de pedra e dentro houvesse outra Joanna a dar com a cabeça pelas paredes. Não ouço o que diz, nem sei o que sofre—mas a desgraça sua n'aquelle monologo sem pés nem cabeça, a que não ligo sentido. Debalde o sonho se encarniça. O sonho, que não cabe no mundo, cabe entre as quatro paredes daquelle caco e revolve-a. Fecha a bocca como se tivesse medo de falar. Não quer vêr—e há-de por força vêr. Persiste em manter de pé o resto da ilusão em que passou a vida, obstina-se o ciclone vivo em pol-a frente a frente á desgraça. É sonho contra sonho. O que ella não quer é vêr, e só ella sabe o que não quer vêr. Não pode com o pezo desconforme que a torna grotesca, e de todo se assemelha agora á arvore do quintal: mais sonho—mais flôr. Abre uma bocca enorme, fecha-a sem emitir som. Mostra as mãos, aperta os gorgomilos e o sonho arranca-lhe farrapos. Há-de acabar por lhe extorquir a dôr...
Sua vida é um monologo, que eu não sei traduzir. Nossa vida é sempre um monologo de interesse e de sonho. Sempre o mesmo monologo interior, de dia, de noite, quando acende o lume ou quando põe em mim os olhos turvos. Talvez os bichos monologuem assim, muito baixinho, p'ra dentro, só dôr, sem entenderem a vida nem explicarem a vida. A desgraça está alli ao pé, cada vez mais secca, e nem o sonho nem a desgraça conseguem arrancar-lhe aquillo de vez para fóra.—A minha filha...—Mas isso não basta! não chega! Mais dôr, mais sonho. Abre a bocca cada vez maior e não tira outro som dos gorgomilos: só emite um ronco. A desgraça e o doirado tingem e entranham-se na agua de lavar a louça. Há-de acabar por falar... Até agora por mais que faça sae-me das mãos ridicula.
—E vae eu disse-lhe...—E estaca, esfarrapada e atonita. Sacode-a o sonho com desespero.—Anh...—E como n'aquelle caco espesso só há duas ou tres idéas como traves mestras, e ternura n'aquella alma obscurecida, não avança mais palavra. E a desgraça sua e tresua. Grotesco, grotesco, e desespero n'este grotesco, e dôr n'este manequim desconjunctado, com um chale a esvoaçar e a bocca espremida. Anda aqui um sêr immenso que lucta com um sêr humilde e o amolga até á caricatura. Não pode mais—e ainda aperta a bocca... O que tu lhe fizeste, sonho! o que tu lhe fizeste!... Tornaste-a disforme como a sombra d'um bonifrate projectada sobre um ecran.—Creou aquillo a bafo, trouxe-o sempre comsigo debaixo do chale, com olhos agudos e tal ar de aflição que parece tonta.—A minha filha...—e tu arrastas-lho com um trapo por todos os esgotos. Debalde se debate: tem de falar...
—A minha filha casou rica, a minha filha tem uma sala de visitas (é o que a Joanna mais admira no mundo) como a das outras senhoras. A minha filha... não posso! não posso!...
E para não avançar mais a Joanna ri-se de si propria. Quem a não soubesse capaz de exagerar, diria que exagera. Ajunta pormenores embaraçosos a essa historia que se parece com a mulher da esfrega pelos empurrões e pelos trapos. Repete-se, hesita, volta ao principio, sem termos para se exprimir. E atraz das palavras sem ligação sente-se cada vez mais dôr: o panno sujo da esfrega está embebido de lagrimas.
—Tenho uma tristeza metida em mim...
A narrativa desconjuncta-se: ganha em dôr e em grotesco. Enche a bocca, perde em naturalidade, adquire em imponencia. O tom carregado é de farça com residuos de lagrimas. A desgraça ri-se da desgraça. Augmenta as côres de exagero, carrega o traço, e a tinta engrossa:
—A sala de vizitas! a sala de vizitas!...—Representa com ademanes e mesuras grotescas a sua entrada n'uma sala em passo medido de procissão. Avança um passo, recua um passo. E ahi surgem agora as vizitas da filha, umas atraz das outras com espalhafato. A Joanna prolonga demasiado a scena para as velhas se rirem—e tem os olhos arrasados de lagrimas. Insiste, para-lhe na bocca o riso desdentado como se tivesse um nó no gorgomilo. Teima, e desata a chorar.—E vae eu disse-lhe...—Reage e começa logo a rir. É um quadro extranho e sem realidade. No fundo, a tintas que resumam desespero, agitam-se figuras com penantes desconformes e sedas amarellas. Primeira dama, segunda dama—e os chapeus teem penachos doirados, os vestidos recortes de espanto. E as mesuras repetem-se n'um acesso. Terceira dama de cauda a rasto, outra dama, cumprimentando para a direita e para a esquerda, e já nos longes enfumados, sempre com exagero e grotesco, outras damas de espavento—da alta roda... E o sêr esfarrapado mexe o craneo, para cima e para baixo, com um sorriso á sobreposse. Postiço sobre postiço. Representa—e todas estas figuras parecem sufocadas, todas estas figuras que ella cria ridiculas, mal dão dois passos, estão mortas por desatar aos gritos—todas estas damas inverosimeis, de rôxo, de amarello e de verde, pariu-as o grotesco com dôr. A Joanna imita as contumelias, olha em roda, e recebe-as pé atraz pé adeante. E já o absurdo augmenta, a dôr augmenta e trasborda, quando
outras
damas de farça, outros manequins forjados pelo sonho, se agitam de cá para lá na sala de vizitas, engrandecida e transformada na sua bocca n'um salão doirado. É o ponto em que as velhas gosam, sentadas á roda da Joanna, em que a D. Felicidade exclama:—Ai que eu não posso mais! ai que eu até fico doente! Vem-me a sufeca.—Estão ali todas. Está a D. Herminia, e com a D. Herminia um mundo de inveja paciente; a D. Penaricia, e com a D. Penaricia uma alma onde repousam exhaustos, como n'um vasto dormitorio, todos os despeitos d'uma existencia inutil; a D. Fufia com os cabelos arripiados, e por traz da D. Fufia as ruinas devastadas de Carthago. Está a mulher tropega, amachucada, com olhos aguados de cão. E com isto ridiculo, e sobre esta tragedia ridiculo.
Já a historia entra n'outra phase. Tantas vezes se lhe tem perguntado porque é que a filha a deixa andar na esfrega, que a velha acrescenta pormenores embaraçosos. A narrativa torna-se obscura, dolorosa, hesitante, como se fosse arrancada aos pedaços d'uma alma espesinhada.—E vae eu disse-lhe...
—Hoje é que ella está que até parece o Taborda!
Na realidade a Joanna é insuportavel. Repete sempre as mesmas coisas, depara-se por todos os cantos como um trambolho. De noite, quando se pilha na enxerga, cuido que moe ainda o mesmo sonho:—A esta hora lá está ella... a esta hora... A esta hora a minha filha...—E os olhos cerraram-se-lhe de extasi, de dôr ou de espanto no sordido buraco.
Todas as noites a velha, quando sae da esfrega, dá uma grande volta no negrume, alta, ossuda, molhada até aos ossos. Ninguem sabe onde a conduzem os passos tropegos, a falar só, a remoer o sonho que a sustenta e ampara. Por vezes palpa um pilar de granito, por vezes debate com um sêr mysterioso, uma questão insoluvel. Sigo a sombra esgalgada, que gesticula e reza. Pára n'uma ruella, senta-se á porta d'um casebre. Bate, não lhe respondem. Espera, e outra vez timidamente se atreve a chamar...—De dentro sacodem-na palavras bruscas, e a velha torna por o mesmo caminho, encharcada até aos ossos... Esta casa não é como as outras casas, esta sala não é como as outras salas, nem esta rua como as outras ruas.
8 de fevereiro
O sonho é um—a realidade é outra: a realidade é uma figura só dôr. Remoeu aquelle sonho quando seguiu a filha pelas viellas. As mãos seccas de desespero tentaram em vão arrancal-a á desgraça. A filha desceu mais fundo, a Joanna desceu mais fundo. Deu-lhe a vida e suportou o escarneo. Andou nas mãos dos ladrões e tem tal ar de aflição, que parece tonta. A desgraça pega-lhe pela mão e leva-a mais fundo ainda: aperta-a de encontro ao peito descarnado... Não faz idéa nitida da vida e da morte, nem d'aquella viella com mulheres. Atura a miseria e a desgraça. Suporta os vestidos encharcados no corpo. Foi d'isto que ella fez sonho—das noites de dôr e do riso dos ladrões.—A usura da vida e a dôr represa, engrandecem-na. Nunca se queixou. Escondeu de todos a sorte da filha. Guardou aquillo para si, noite a noite, toda a vida. Bronco e dôr, uma carcassa e farrapos, e nos olhos não sei que expressão que a faz mais baixinha:—Aqui estou para te servir.—Passou por tudo, e um resto d'ilusão bastou-lhe para poder viver. Sós a sós a figura tem uma expressão descarnada e reflectida.
Nessa noite, á meia noite, nasce o menino entre ladrões. Vem morto ao mundo. A Joanna pega-lhe a tremer com as mãos da esfrega e deita-o no chale. Quatro cabeças se curvam á luz do candieiro de petroleo para verem o menino—tres cabeças de ladrões e a cabeça da velha.
—O menino está vivo!—afirma a Joanna.
—É preciso enterral-o de caminho—diz o ladrão mais velho, encolhendo os hombros. E juntam-se á porta falando baixo, enquanto a velha lhe aquece o corpo pegajoso com o bafo. Dentro a mãe geme.
—Vamos.
Os gritos cessaram de todo.
—Venha d'ahi.
E, tomando o braço de Joanna, que achega a si o menino embrulhado no chale, levam-na para a rua. Vão adiante o ladrão e a velha. Caminham até um terreno de construcção, lama calcada e recalcada: ao fundo o panno d'um muro e um resto d'arvore mutilada. Escolhem o sitio e o pae abre a cóva com o alvião. Nenhum diz palavra. Só a Joanna aperta mais o menino de encontro ao seio murcho, como se fosse possivel aquecel-o. Agazalha-o dando voltas ao chale roto, e vae depois no escuro palpar a terra encharcada. Tira-lho o pae para o meter na cóva, e ella ainda protesta:
—O menino está vivo.
Nenhum dos ladrões se ri. O que ella quer é outra vez crear. Está disposta a recomeçar a vida, a deitar mais ternura, a tiral-o á bocca para o dar aos outros. E insiste:
—O menino está vivo.
—Vamos embora.
Sacodem as mãos: só a Joanna conserva nas mãos a terra da cóva. Rodeiam-na tres sombras enormes e ella sente-lhes no escuro o bafo monstruoso. A seu lado caminha o ladrão mais velho. Os outros adiantam-se.
—O estafermo da velha rica está só. Tu podes abrir-nos a porta...
—Roubar!...
—Ouve o que te digo... Tu não sentes o frio e estás molhada até aos ossos, tu de tanta fome já não sentes a fome.
—Ainda hoje comi uma tigela de caldo que me deram.
—Nem dás pela desgraça. Tu não vês a tua filha n'uma viella e nas mãos dos ladrões?
—As bagadas que eu tenho chorado, senhor ladrão!...
—A desgraça tral-a escripta na cara. Ainda hontem lhe bateram. Nem a lama das ruas é mais baixa e mais calcada. Tu ouves?...
E a Joanna mastiga:
—N'aquella terra tão fria, chegado á terra...
—Para não sofrer. Deixa lá os mortos. Os mortos podem mais que os vivos. Ouves o que te digo?... O menino matou-o ella ao parir...
—Jesus!
—Matava-o eu para não ser ladrão. Deixa lá o menino que está na terra. Excusa de ser ladrão... O estafermo da velha rica está só. Tu podes fazer-nos a entrega...
—Senhor ladrão, vossa senhoria... Assim Deus me ajude... Como a terra está fria!...
—Que me importa a terra! O que me importa é o dinheiro do estafermo. Ouve! ouve! ouve! Ella é rica, tu és pobre...
—O Senhor fez os pobres para servirem os ricos, e os ricos para ajudarem os pobres...
—A minha vontade era esganar-te... Por tua filha! Se não nos abres a porta elle estorcega-a. A tua filha é menos que nada nas mãos d'elle...
—A minha filha... Vocemecê, senhor ladrão, tambem teve uma filha, que eu sei...
—Cala-te! Esta noite é por força noite de desgraça. Tive uma filha e não lhe pude valer. Vi-a morrer com os olhos enxutos. Morreu tisica, morreu-me á fome e não lhe pude valer! Fiz-me depois ladrão. Deixemos os mortos... Uma madrugada fui de prego em prego. Tinha despido o casaco para o pôr no prego. Á porta d'um estava um cavallo á carroça, com a cabeça metida n'uma ceira, a comer. O que eu invejei aquelle cavallo! Morreu-me. Foi n'esse dia que me fiz ladrão.
—A sua filha morreu-me nos braços...
—Tu não te calarás! Esta noite já me não serve. É noite de desgraça. Vae-te p'r'o diabo!
Repele-a, e ao por-lhe a mão no hombro, repara que só traz a camisa extreme sobre o corpo:
—O chale? que é do chale?
—O chale dei-o ao menino.
—Fizestel-a bonita!
Tal é a figura esfarrapada. Maior. Maior pela desgraça e pela mentira. A Joanna, quando faz rir as velhas de cuia postiça, mente. Tem duas existencias, uma vulgar, outra oculta. Lava as escadas, calada e submissa: á noite vive com os ladrões e as mulheres das viellas. E mente. Mentiu sempre. Mentiu emquanto pôde. Mentiu a si e aos outros. Fez da dôr mentira e da mentira sonho. Quanto mais desgraça, mais exagero e mais grotesca a sala de vizitas—maior a sala de vizitas—mais doirada a sala de vizitas. A Joanna não se atreve a sonhar a felicidade: contenta-se em sonhar a desgraça, e não lhe tira os olhos de cima, para não vêr outra desgraça maior. Ilude-se. E debate-se n'uma cogitação profunda como a noite. Toda a noite lhe parece negra. É como se pela primeira vêz désse com a vida. Deita as mãos, não encontra a que se apegue, e faz gestos para repelir o negrume. Remoe coisas que não percebe bem, que se lhe confundem na alma e que traduz em palavras descosidas e sem significação. De quando em quando pára, com os olhos fixos, e diz uma phrase fóra de propósito, a scismar com obstinação n'outra coisa:
—Casa de mulheres, casa de ladras.
Ou monologa parada a um canto:
—O Senhor lá sabe porque a gente anda n'este mundo e para que se criam estas coisas... Estas coisas...—E abre os olhos espantados.—Tudo está escripto no livro do futuro... Sempre elle há gente muito boa n'este mundo! É o que vale á pobreza.—Depois um salto dentro d'ella:—Onze, não, doze vintens é que são. Quatro vintens, do bahu que levei á cabeça, seis vintens da esfrega...—E conta pelos dedos:—Seis, sete, nove vintens... Depois aquillo remexe, vae ao fundo do fundo:—A desgraça não nasceu comigo nem há-de morrer comigo.—Ou explue n'um grito de quem não pode mais:—Não posso com este peso, com esta desgraça, com esta desgraça sobre esta desgraça, e com isto!... A dôr que a gente cria aos seus peitos! E ainda por cima isto!
Depois cala-se. É peor. Fica confundida e atonita, como um cavallo prostrado, que não sabe porque sofre e mantem os olhos abertos—ridicula deante da desgraça e deante do assombro. Cala-se e outro sêr immenso começa a falar dentro d'ella. É um debate ao mesmo tempo futil e cheio de grandeza, que não posso fixar, mesquinho pelas palavras que emprega e grande pelo sentimento que o reveste. É uma coisa triste, uma coisa dolorosa, uma coisa desconexa, feita de nadas, de gritos, de mudez. A Joanna fala com o Sonho tu cá tu lá e atira-se ao Sonho. E quando emfim o espanto se acumula sobre ella, a Joanna dispõe-se a arrancar-lhe farrapos. Misturem a isto a dôr, misturem a isto ridiculo, porque a Joanna revolve tudo, phrases, sentenças, palavras que lhe acodem e que não formam sentido—veem de muito longe...—lagrimas, sonho, e ranho. Assoa-se ao avental.
—Eu não sei dizer! eu não sei dizer!...
E sem falar á sombra que a não larga, a velha gesticula para o escuro: a desgraça tapou-lhe a bocca, meteu-lhe outra vez a bocca para dentro. Avança com as mãos abertas. A noite é immensa. Cabem na noite os mundos infinitos, mas só me interessa a alma de Joanna. Quer comprehender e não pode. Peor: o sonho humilde já lhe não é possivel. Parece perdida, tão inutil no mundo! A ternura não lhe serviu de nada. E há outra coisa em que é preciso insistir: não sabe porque sofre, não lhe cabem lá dentro a desgraça e a explicação da desgraça. Outra vez recorre á perlenga com que amortece a dôr:—A sala... a outra sala...—Mas na sala disforme vomitam-se injurias e as boccas transformam-se em bocarras monstruosas, que a Joanna não consegue tapar. Está só e a noite, só e o sonho. Fica dôr pelo lado de dentro, como a fuligem d'uma chaminé quando se incendeia e fica doirada pelo lado de dentro. O negrume é cada vez mais compacto e o esforço da velha cada vez maior. Quanto mais negra é a sala, mais a Joanna insiste. Augmenta-a, e agitam-se as vizitas em delirio: quem as recebe de pé a fazer cortezias de espalhafato é a propria desgraça vestida de amarello. As cadeiras tomam outra expressão, o doirado dos moveis apega-se á noite espessa. Estes cacos são expressões de dôr e é a desgraça quem os arruma.
A noite irrita-me com a sua imobilidade imperturbavel, e ao lado este sêr que só tem uma forma grotesca de exprimir o que sofre. Esta sala com um gato bordado a retroz, interessa-me muito mais que a noite negra, a noite funda, a noite cahotica com esta vida e outra vida. A noite é inutil.
PAPEIS DO GABIRU
10 de fevereiro
Ella foi uma flôr que se aspira e se deita fóra—quasi sem reparar—scismando na imortalidade da alma.
Se eu pudesse cinematographar a vida e a morte d'uma flôr, cinematographava a sua vida.
Não sei dizer se existiu se a criei, e o que na realidade me interessa, é o que ella disse á grande nodoa de humidade da parede.
Sei que chorou mas não a ouvi chorar. Ninguem a ouviu, ninguem deu por ella. Passou como uma sombra. Habituou-se. As lagrimas sumiu-as, meteu-as para dentro. A dôr aprendeu a contel-a. Habituou-se a queixar-se á grande nodoa de humidade da parede.
Entre mim e ella interpoz-se o sonho.
A ternura tambem cansa. Deixem-me! deixem-me sonhar!
O principal para mim foi a queixa que ninguem ouviu no mundo; foi o que os seus olhos verdes d'espanto decifraram n'aquelle arabesco da parede. Podes por ventura conceber isto? Uma dôr que não deixa vestigio, um sonho ignorado que não deixa vestigio, que passa no mundo e não deixa vestigios—a dôr despercebida, as lagrimas contidas que se não chegam a chorar?
Não valia nada o que vale um passaro, e em questões afectivas, em ternura, tinha a profundidade do mundo—a do silencio—a do sonho.
Tanto se queixou baixinho que morreu de frio!
Deito-me debalde aos encontrões á noite. Nem um grito. Os remorsos são inuteis. Um passo na vida é sempre irremediavel: não há forças humanas que o possam apagar.
11 de fevereiro.
A vida tem dois periodos: o do entontecimento, o da saudade. Não sei qual é melhor. Talvez aquelle em que se ouvem os passos da morte, mais perto! mais perto! O frio da morte dá á vida um encanto superior e um prestigio maior.
Deixem-me! deixem-me! Deixem-me só com isto, deixem-me viver para isto. Deixem-me fechado a sete chaves com o sonho que me enche de ridiculo, que não existe e é a razão da minha vida. Deixem-me ir para a cóva agarrado a este nada immenso, que me doirou as mãos e me deixou atonito. Só no fundo da cóva é que estou bem, sós a sós, fechado com elle para sempre.
Se o sentimento de belleza é a unica coisa humana que não nos engana—se só a isto ficamos reduzidos—como não prever outra belleza maior?
De sobresalto em sobresalto, de assombro em assombro, de vulgaridade em vulgaridade e de contradição em contradição, assim vim até ao fim. Não consigo desprender-me de um, nem libertar-me do outro.
Atraz d'este assombro há outro assombro—e depois outro assombro ainda.
Qual é a minha experiencia da vida? Nenhuma. Qual é a lei que extraes da vida? Nenhuma. Só o espanto. Só uma coisa cada vez maior, sempre assumindo maiores proporções, que sinto desabar no silencio, mais doirada e phrenetica que o sonho. Tudo se reduz a coisas a que damos valor, e a coisas a que não damos valor. E
entretanto
ao nosso lado passa o tropel magico, desesperado e cahotico. Alli fóra desabam os seculos e a torrente misteriosa que leva comsigo estrellas em vez de calhaus. O jacto de portento vem do infinito e caminha para o infinito, levando comsigo a alma, o universo, o logico e o ilogico, o absurdo e Deus.
Uma vida resume-se em duas linhas, synthetisa-se em dois ou tres factos. Se a vida fosse só isso não valia a pena vivel-a. A vida é muito maior pelo sonho do que pela realidade. Pelo que suspeitamos do que pelo que conhecemos. Se nos contentamos com a superficie, não há nada mais estupido—se nos quedamos a contemplal-a faz tonturas. É por isso que eu teimo que a Morte não tem só cinco lettras, mas o mais bello, o mais tremendo, o mais profundo dos misterios. Prepara-te.
O problema capital da vida é o problema da morte. Elle resolve tudo. Não há factos isolados; não há acontecimento no universo que não gere outro acontecimento. O inconsciente não pode criar o consciente. É impossivel dar um passo a que não succeda outro passo. A vida gera a morte—a morte gera a vida. Mas que vida?
Sou nada diante do universo. Mas teimo, mas discuto comigo e comtigo, ó espanto, mas defronto-me com o enigma, encarniço-me e saio d'aqui esfarrapado, despedaçado—mas teimo e hei-de vencer-te. Não quero morrer de vez. Não quero perder a consciencia do universo nem a sensibilidade do universo. Eu sou o nada, tu és o infinito—hei-de por força vencer-te!
E no entanto sinto-me tocado de hesitação e de duvida. Do que tenho saudades é d'esta vida. Ao que eu aspiro é a esta vida. O gesto que o moribundo faz ao arrepanhar o lençol é um gesto de naufrago.
D'um lado a materia, do outro o espirito. D'um lado consciencia, debate, lucta, do outro a impassibilidade, a fatalidade inexoravel. Nenhum grito a perturba. D'um lado a vida gasta n'um segundo, do outro a successão ininterrupta dos seculos, indiferente e eterna. Como acaso é atroz, a não ser que outra coisa nos espere.
Se não nos detivessemos com palavras, se avançassemos todos ao mesmo tempo, esquecendo o que é inutil, para esta coisa que nos devora, subjugavamol-a. Conquistavamol-a por uma vez, por maior que ella fosse. Mas nenhum de nós se atreve e passamos a vida a fingir que não existe. E só ella existe.
OUTRA VILLA
12 de fevereiro
O tempo era limitado, a paciencia pegajosa, o gesto lento. Agora que a vida dura seculos ninguem espera um minuto.
Tenho aqui a villa sufocada de espanto, e, n'este momento de silencio e mudez, todos encaram com desespero os proprios phantasmas. Está aqui o fel—e o fel está vivo. Está aqui a mentira—e a mentira está viva. Está aqui a D. Leocadia e o dever, a D. Bibliotheca e o postiço, o Anacleto e as conveniencias. Estão todos. Não falta ninguem á chamada. Está aqui tambem o espanto e a mania, e a mania tem os cabellos em pé. Custa-me a admitir-te na minha companhia, custa-me a arrancar-te de profundidades ignotas... Tudo o que fiz era um simulacro, reconheço-o. Passei a vida a arremedar a vida. Passei a vida com uma voz a prégar-me:—Não metas ahi o nariz.—E a minha vontade era meter alli o nariz.—Passei a vida a cumprir o meu dever e a amargar o meu dever. Passei a vida a arredar-te e agora tenho por força de viver comtigo. E tu?—e tu?—e tu?...—Gastei-me, gastei-a...—exclama a D. Leocadia. Cumpri sempre o meu dever. Cumpri-o com fel. Para cumprir o meu dever lhe repeti a toda a hora que os pobres teem um logar marcado na vida. Fil-o por dever. Não transijo nunca com o meu dever. Assim como devia tiral-a do asilo por ser do meu sangue, assim o meu dever era educal-a para pobre e reduzil-a a um sêr passivo e inerte. Vesti-a com um sacco e gastei-me um dia, gastei-a outro dia, a ponto de usarmos as feições e de não nos reconhecermos. Espiamo-nos ambas, uma em frente da outra, no silencio gelido da villa, onde se ouvia o trabalho lento das aranhas no fundo dos saguões.—Dei-te o sustento, tens de ser agradecida. Tirei-te do nada, livrei-te da fome, é preciso seres agradecida. Cumpre o teu dever. Eu cumpri sempre o meu dever. Cumpri-o contrariada, n'um perpetuo dize tu direi eu, n'uma eterna contradição, mas cumpri-o. Cheguei a tiral-o á bocca para a poder manter. Cumpri o meu dever e amarguei o meu dever. Usei assim a vida a arremedar a vida. E tenho-a aqui na minha frente, com a barriga á bocca, á espera que eu cumpra o meu dever até final. Qual é o meu dever? Reconheço que a odeio—odiei-a sempre. Mas qual é o meu dever? pergunto. Qual era afinal o meu dever? Se fazia o bem, amargava o bem; e tu não me largavas se tentava o mal. A minha vida tem sido um perpetuo inferno, contrariada e impelida, e sempre a cumprir o meu dever amargo, o meu dever estupido.—E os olhos não se lhe despegam do phantasma coçado e verde, de ferro e verde. Grita-lhe:—Cumpri sempre o meu dever! Se não cumprisse o meu dever ia parar a uma viella.—Queda-se estrangulada e surpreza, mais estrangulada e surpreza ainda, diante da voz que lhe diz não sei o quê de temeroso...—E tu?—pergunto—tiveste inveja?—Tive e recalquei-a. Arranquei tudo, destrui tudo, por ti que não existias.—Mas isto é infame, isto não sou eu!—És, és, mais do que nunca o foste.—Eu mesmo reconheço que sou outra casta de intrujão. Tenho outros preconceitos, falo outra lingua e julgo-me superior. Na realidade sou outra casta de intrujão. O que me falta é desplante. Prendo-me a inutilidades, e, para me engrandecer, admiro os meus escrupulos e dou importancia ás minhas teias de aranha. A minha vida é uma serie de transigencias secretas—e por cima medo...—Fala mais alto! fala mais alto!—A minha vida tão bem construida é uma aparencia, a minha serenidade, aparencia. Talvez um pouco de logica, um pouco de acaso e mais nada. No fundo de mim mesmo tudo isto me parece um sonho monstruoso e sem nexo, e ás vezes surprehendo-me a pensar:—Sou um doido? sou um doido?—É que me vem não sei d'onde, não sei de que confins ou de que recanto d'alma que tenho medo de explorar, um bafo que me entontece. Serei eu doido?—Cada velha se põe a recuar deante de si mesma; cada sêr procura afastar-se; cada um a si proprio se repele. Mas todos são enrodilhados no pé de vento, que os leva sufocados e atonitos, balouçados entre a vida e a morte, entre o assombro e o inferno. E é grotesco este encarar com o sonho, pé atraz pé adeante, esta hipocrisia que teima em ser hipocrisia, esta mentira que quer ser mentira até á ultima extremidade.—Tu não deste um passo na vida sem obedeceres ás conveniencias e sem consultar o teu codigo de meticulosidade. Tens um
Deve
e
Haver
do tamanho d'um predio. A praça considera-te, Deus considera-te. E tu torturaste-a segundo as conveniencias, habituaste-a a conter as lagrimas e a ser correcta com o mesmo grito recalcado ao fundo do coração. E esse drama correcto, torna-se mais correcto ainda, e, seculo atraz de seculo, há-de acabar por atingir a correcção suprema.—Não tenhas medo, avança um passo, outro passo ainda...—Que é isto? que é isto que se me pega, diz a Telles, diz a Reles—e que me não deixa pensar na mania?—E nos olhos de idiotia, a vida, camada atraz de camada, chega a vir á superficie.—Ah, a mania D. Telles, das Telles das Reles, a mania! Pensar n'este trapo um dia, e só pensar n'este trapo! Fazer de ti e de mim mania e só mania!—Dois castiçaes de prata foram a minha vida. Pensei n'elles com minucia. Um nada—ou Deus—bastou para me encher a vida. Acordei com elles, dormi com elles. Taparam-me o mundo. Isto foi o meu sonho e a razão do meu sêr. Criei-o. Dei-lhe o meu leite. Vivemos juntos; ia morrer com esta mania, levava-a para a cóva, sem ter pensado no resto, e agora encontro-me sós a sós comtigo, desprevenida e sósinha. Foste para mim um filho. Alimentei-te e alimentaste-me. Reservei-te sempre o melhor cantinho do meu sêr. Salvaste-me do desprezo de mim propria, peor que o desprezo alheio. Quando me sentia mais humilhada e mais pobre, recorria a ti, e encontrei-te nas horas em que a gente até de si duvida, quanto mais dos outros. Trouxe-te sempre comigo. Sorrias-me. Foste a carne da minha carne e o osso do meu osso. Um filho podia-me morrer; tu não me deste um desgosto. Escondeste-me a vida e a morte—e eras um trapo, uma corôa de lata, dois castiçaes de prata! Agora mesmo procuro agarrar-me—mas isto pega-se-me, deslumbra-me e ofusca-me... Há só uma coisa que eu queria ainda dizer, e não a sei dizer diante de isto que tenho ao pé de mim, dentro de mim e me não larga...—Ai! ai! ai!—Tambem tu, tambem tu, prima Angelica, que passaste a vida debruçada sobre a meia, tambem tu te ergues n'um arrebatamento, passa-te não sei que dôr na escuridão cerrada, e procuras, com a agulha afiada como um punhal, furar os olhos de todas as pessoas que te fizeram bem!... Mas tanta inveja ruminaste que sorris e te curvas submissa sobre a mesma meia eterna, a que mãos caridosas já não desfazem as malhas, e que tem tres metros de comprido...—A meza da bisca lambida cahiu por terra, e de tal maneira se olharam nos olhos, que não foi possivel tornar a juntal-as. Só a mesma voz persiste dentro de nós mesmos, no silencio e na mudez da noite infinita, tal qual a D. Leocadia:—Mas eu não posso! eu não posso! Tu obrigas-me a fazer o que não devo! Tenho aqui fel e hei-de, para cumprir o meu dever, fazer o contrario do que sinto: dominar-me todos os dias, moer-me todos os dias, prégar-me todos os dias:—A gente só vem a este mundo para cumprir o seu dever!...—O que há de peor no mundo é arrancar os desgraçados á desgraça! O que há de peor no mundo é não haver outra vida e passar esta vida a arremedal-a!
15 de fevereiro.
Até agora a mentira fez-me suportar a vida, a insignificancia e as palavras tornaram-me a vida possivel, a vida onde á custa de palavras cheguei a ser Eleutheria da Fonseca, Balsamão, Elias de Mello ou Melias de Mello. Só á custa d'isto pude aturar a vida e o horrôr da vida. Só por não a vêr, pude encaral-a. Só emquanto fui feito de pequenas miserias e de palavras inuteis a pude suportar. Mas agora que me resta se tudo é vazio de significação?
Custa muito a construir uma vida ficticia, a ser Telles ou a ser Santo, a crear um Deus ou uma mania. Custa a melhor parte do nosso sêr. É certo que metade d'isto—metade pelo menos—é representado. Se te confessasses dirias:—Eu sou um actor, eu sou um actor de mim mesmo: represento sempre até quando sou sincero; até quando digo o que sinto, é outro, e noutro tom de voz, que diz o que sinto... Cá estou a vel-o representar... Mais de metade, muito mais de metade dos meus sentimentos, são postiços. Todos estamos ligados por compromissos, aceitamos certas leis e vivemos de aparencias. Existe entre nós e dentro de nós um acordo tacito. No fundo bem sei que o que me dizes é mentira, mas sei tambem que tenho obrigação de ajudar a mantel-a. Respeitamos um compromisso vital. Mais alto! mais alto!... Para podermos viver só lidamos com uma parte convencional da vida. A outra não existe: se existisse seriamos bichos. Esta vida é uma mentira—a outra vida é monstruosa. Desabada a architectura aparente, ficamos ignobeis. Isto que ahi está por terra custou muito desespero, primeiro na inconsciencia e na obscuridade, atravez da inconsciencia e da obscuridade, e depois atravez de terrores e de indescriptiveis esforços. Custou aos vivos e aos mortos a dôr das dôres, poderem discernir dois ou tres factos essenciaes na treva condensada, na treva compacta d'uma noite que durou seculos. Esforço inconsciente de larva, com um destino a cumprir e legoas de granito a romper. Tiramos o mundo do nada. Levou seculos e seculos—mas tiramol-o do nada. No principio só fomos almas, creamos depois a casca. Tambem as arvores só a poder de tempo se revestiram d'um envolucro. Eramos todos phantasmas. Creamos tudo—e a mentira. Tudo—e o habito. Tudo—e a paciencia. O sonho não é senão uma reminiscencia. Todas as inutilidades não passam de adaptações á vida. Essas pequenas coisas são ao mesmo tempo temerosas e ridiculas. Bem encarada a ninharia é uma tragedia. D'estes sêres saem outros sêres grotescos e terriveis—terriveis e grotescos. No silencio a mania toma proporções chimericas, e não sei como hei-de juntar estas duas coisas—mania e desespero.
Dentro de cada sêr resurgem os mortos. Crescem dentes ás velhas, afiam-se-lhes as unhas debaixo dos chales. Adquiriram outra expressão. Quasi toda a gente emagreceu. Aguçam-se ferros no escuro. Procuram-se. Qual é o teu verdadeiro ser? Eu mesmo não sei. Dá-me um trabalhão encontral-o e acho-me sempre em frente de cacos, a que não consigo dar unidade. Uma ninharia—um impulso—um habito. É isto que constitue o meu ser, ou é esta serie de imagens, já desaparecidas, que formam a minha e a tua vida? Não, o meu verdadeiro sêr sacode a poeira na colera, na paixão, no amor ou no odio,—porque aos sentimentos tambem é preciso desenterral-os—e actua n'um phrenesi. Acabaram as hesitações e as duvidas, porque já não sou eu quem mando, a minha razão ou a minha vontade: são os mortos. E é quando me sinto viver.
E a insignificancia? Até a insignificancia. A insignificancia com orgulho, a insignificancia com desespero.
21 de fevereiro
Aqui está a villa toda—mas as figuras mudaram. São disformes. O proprio Santo cheirou as velhas, sacudiu as velhas e atirou com as velhas á rua. Do alto dos montes vomita coleras sobre a villa passada de terrôr. O silencio redobra, a dôr redobra. E com isto uma alegria a que falta o resaibo de tristeza que se misturava a todos os nossos sentimentos. Falta-lhe equilibrio e harmonia. Tem a maior ferocidade. E produz o mesmo efeito que este scenario d'assombro, que o vento e a chuva esfarelam, e onde sobrenadam restos. E com isto a voz que não nos dá tregoas e que atinge o desespero:—Não grites, D. Leocadia, não grites. Reconheço que és feita d'uma peça só. Foste sempre inteiriça.—Tirei-o á bocca para a manter...—Tiraste-o. Tomaste a vida a serio. Entendeste sempre que pobres se educam como pobre, passaste a vida a azedar a vida, e o dever, que fizeste amargar aos outros, começou por te amargar a ti. E a esta luz intoleravel as coisas tomam a teus olhos aspectos ignorados...—Mas então não há dever nenhum e eu não sou a D. Leocadia, 29-3.º-D.?—Outro passo, D. Leocadia, mais outro passo ainda...—Que exiges tu de mim então, que não comprehendo? Que exiges tu de mim contra a minha vontade? Que me aniquile? Que me dispa para te vestir?—Não grites...—Que exiges tu de mim de absurdo com que não posso arcar? Um esforço sobrehumano? Ou exiges apenas que eu faça o bem que posso, uma parte do bem? Ou é o mal que tu exiges de mim e o bem é um pecado? Melhor será deixar a cada um a sua parte de desgraça e de colera?... Eu posso talvez despir-me, posso cumprir o meu dever, mas que mais exiges tu de mim com que, ainda que queira, não posso! Que exiges tu de mim?!—Mas, D. Leocadia, eu não exijo nada de ti, cada um se aguenta conforme pode n'este balanço...
—Mas então não há dever nenhum? não há bem nenhum? Que fiz eu d'este sêr apagado e inerte com um filho do meu filho na barriga?—Oh D. Leocadia como tu educada sempre com as mesmas palavras e no mesmo dever, um dia de dever, outro dia de dever, e erguendo, no silencio e no tedio, uma construcção de trapos e de palavras que chegou ao céo e substituiu o céo—como tu tapas os olhos com desespero para não vêr! Hás-de aguentar com este pezo, que não podemos suportar... Talvez fiquemos cegos, talvez saiamos d'aqui aos gritos, os maniacos sem a sua mania, os bons sem a sua bondade, e os pobres só fél e vinagre, mas temos de ver o que não nos estava destinado. Para largar a pelle, D. Leocadia, até a cobra adoece. Tanto importa que resolvas como que não resolvas o problema—todos temos de dar o passo. A villa é a mesma villa, as pedras as mesmas pedras. Nós mesmos não mudamos. A nova vida obriga-nos apenas a discutir o que estava ao nosso lado. Tudo existia no mundo, até este desespero; tudo estava vivo, até este grotesco. Nós é que estavamos mortos.
Passou no mundo a extranha ventania, e a morte de tal maneira se entranhou na vida que custa a separal-as. Mas já lá vão as formulas, os alicerces e os usos... No alto, sobre este absurdo, entre o borralho remexido, com a cinza e as faulhas atiradas indiferentemente para a escuridão, só a Via Lactea mudou de côr e alastra de lez a lez na aboboda recurva uma nodoa viva de sangue.
DEUS
25 de fevereiro
Dormi n'um taboado, cingiu-me uma cadeia. Vesti-me com um sacco. Todos os dias arranquei de mim proprio um farrapo e um grito. Arredei tudo para ficar só comtigo no mundo. Sacrifiquei-te tudo. Fiquei nu e Deus, nu e a vida eterna. Tinha o horrôr da lepra, vivi com os leprosos. Calquei todas as afeições inuteis, e se uma andorinha me fizesse ninho na banca, como ao frade d'Assis, torcia-lhe o pescoço. Encheste-me a vida toda.
E agora a morte não existe, Deus não existe, a vida eterna não existe. Uma luzinha e depois a escuridão!
Tenho diante de mim esta força cega, este absurdo a escorrer ternura e lepra, como uma primavéra escorre morte, a irromper contra tudo e apezar de tudo, d'uma profundidade cada vez mais sofrega e cada vez maior. Não quero vêr e hei-de por força vêr!
Este inferno, a que dei vida e a melhor parte do meu sêr, não existe! Tinha conseguido só te vêr a ti no mundo. Com uma palavra enchi o vacuo. E este Deus por quem sacrifiquei toda uma vida e a melhor parte da vida, não existe! Foi tudo inutil. Dilacerei-me. Dei-me a mim proprio em espectaculo. Assisti a esta tortura, e tu não existias! Vivi fóra de mim mesmo e de repente tive de me aceitar a mim mesmo. Toda a minha vida foi inutil! tudo o que fiz foi inutil! Foi grotesco e inutil!
Sacrifiquei tudo a quê? Sacrifiquei o melhor da minha vida ao vacuo. Ofereci-lhe em espectaculo a minha dôr. Mas então que existe? Qual a directriz da minha vida? Qual a ilusão com que hei-de encher isto? E para que hei-de viver? Qual o sonho immenso capaz de substituir este sonho? Que é Deus agora? Deus é tudo e nada. É uma força. Deus é uma lei inexhoravel. Mas então tu que podes tudo—tu não podes nada. És uma lei—e hás-de cumprir essa lei. És um destino e não podes dar um passo fóra d'esse destino. Não vês, não ouves, não sentes. Eu sou uma insignificancia, e valho mais do que tu. Porque eu grito, eu sofro, eu atrevo-me. Amanhã quebro o meu destino. Tenho uma consciencia. Sou ilogico e absurdo. Debato-me. E tu, Deus, não passas d'uma força cega e estupida. Não me serves de nada.
Preciso d'um Deus que me atenda, que me escute, que saiba que sofro e que me veja sofrer. Preciso d'um Deus que me salve ou que me condemne. Preciso d'um Deus que me ampare. Preciso d'uma inteligencia superior á minha e em comunicação com a minha.
Um Deus-força, um Deus que não se comove com os meus gritos nem com as minhas suplicas, não me interessa. Um Deus que caminha para um fim que não atinjo, é um Deus absurdo. De que me serve este Deus? Não ouve os gritos—destróe; não sente a dôr—destróe. Destróe e caminha. É inalteravel. Ilude-nos. Deixa-nos um segundo deante d'este espectaculo, para nos mergulhar no nada. A nossa aspiração não cabe aqui: entrevêmos, sonhamos, e, a meio do caminho, talvez no inicio de sonho maior, destróe-nos. Peor: tem uma necessidade de sofrimento cada vez maior, de sofrimento inocente ou culpado. Revê-se na dôr. Deus é cego.
Debalde grito—não há quem me ouça. Debalde sofro—ninguem o detem. Tanto faz viver como morrer. Deus, tu és monstruoso! Destróes—caminhas. Destróes e não sentes. Vens do infinito, e atraz de ti fica um infinito de dôres, uma massa de gritos e de sêres espesinhados. Segues e destróes. Constróes não sei o quê de portentoso com que não posso arcar. D'essa pata monstruosa escorre sempre ternura. Não é indiferente que calques e recalques. Quanto mais espesinhas, mais gritos, mais ternura nas arvores, mais estrellas nos céus. Parece que a dôr é inseparavel da ternura, como a morte é inseparavel da vida.—Até aqui eu tinha uma taboa a que deitar a mão. Até agora tinha um nome—agora não sei como me chamo. Agora tenho medo de mim mesmo, agora sinto-me isolado n'este cahos infinito, n'este repelão desabalado, que me leva sem sentido e sem fim. Eu e a noite—eu e o doido! Até agora supunha-me tudo, eu e Deus, eu e a mão enorme que me conduzia e amparava.—Sofras ou não sofras, vaes para a mesma cóva, para o mesmo nada, para o mesmo silencio. Antes o inferno! antes o inferno! Tu que foste desgraçado, ou tu que foste feliz, tu que te descarnaste até á medula e tu que passaste indiferente pela desgraça—vaes para a mesma cóva profunda, inutil, absurda e muda. Antes o inferno, antes a dôr pelos seculos dos seculos a vir, do que a mudez e o horrivel silencio atroz!—Tudo foi indiferente tudo é indiferente ao monstro que passa e esmaga, que não ouve e esmaga, que não vê e esmaga. Indiferentes os teus gritos e as tuas suplicas; indiferentes a tua renuncia, a tua dôr, as tuas lagrimas. Foi indiferente que fosses bom ou mau, que tentasses subir ao topo do calvario. Não existe na realidade nem vida nem morte—não há na realidade senão chimera e dôr—não há na realidade senão este monstro que passa e esmaga, que caminha e esmaga.
Deus é cego! Deus é cego!
Emquanto te importaste comigo no mundo, foste o meu unico pensamento e só tu me importavas no mundo. Agora não posso, agora não dou comtigo. Agora não te encontro. Agora sou mais pequeno, e maior. Agora meto-me mêdo. Que voz pode echoar e sobresaltar esta solidão infinita, este mundo infinito, onde os gritos se não ouvem a cem passos, e tudo que chamamos amargura, dôr, grandeza, se apaga logo e se reduz a zero? O meu dever já não é o mesmo dever, a minha consciencia já não é a mesma
consciencia
. Só os meus instinctos se conservam de pé.
Acuso-te de teres comprometido a minha situação no universo. Acuso-te de não me deixares ser infame. Acuso-te de me dares o remorso. Acuso-te de impedires o instincto. Acuso-te de teres transformado a vida e criado a consciencia. Acuso-te de me deixares sósinho com este peso em cima, com a ideia da vida e com a ideia da morte. Acuso-te de me levares para um calvario como o teu, para me tornares grotesco, e de me colocares em frente de ideias com que não posso arcar. Acuso-te de não poder mais, e de me instigares a mais ainda. De me obrigares a olhar cara a cara o assombro que não existe; a morte que não existe; a consciencia que não existe. Subverteste o mundo. Forçaste-me a criar outro mundo, a olhar para cima e a clamar no vacuo. Acuso-te de não me deixares atascar á minha vontade em lôdo, de não me deixares mentir, matar, chafurdar. Acuso-te de me impelires para cima, quando a minha vontade era ir para o fundo. Acuso-te de não me deixares ser bicho.
Estou prompto para tudo. Desde que não há Deus tudo são palavras. Desde que não há outra vida, só há esta vida. Só há este minuto, esta hora presente. Sinto-me capaz de tudo. Estive annos a rezar a uma comoda, a falar a uma comoda, a sofrer deante de uma comoda. Fui grotesco! fui grotesco e tu não vias! fui grotesco e tu não ouvias! fui grotesco e tu não existias!
Doe-me tudo, doe-me principalmente sentir-me grotesco! sentir que perdi a vida e sou grotesco! sentir que me deti e fiquei descarnado, impotente e grotesco!
Por uma palavra fui absurdo. Por uma palavra tenho atraz de mim uma architectura desconforme e destroços que enchem o mundo—por uma palavra e mais nada. Tu não existias!
Mas então—pergunta esta voz colerica—todo o esforço é inutil? todo o sacrificio é inutil? Creaste estas ideias falsas de dôr, de renuncia—e não existes! Um santo viveu sobre uma columna: «Desde que se punha o sol até que amanhecia o dia seguinte, estava de pé na columna com as mãos levantadas ao céo». Oitenta annos de grotesco. Outro amaldiçoou-te: «Ai de ti cidade sensual onde os demonios fizeram sua habitação!»—Grotesco! grotesco! grotesco! Tu não existias! Que se levantem todos do sepulchro, uns atraz dos outros, que se erga o pó e te grite:—Tu não existias! Chamaram-te. Imploraram-te. Carregaram com a tua cruz. Andaram de rastros, reduziram-se a osso e a lepra. Foram indiferentes ao sofrimento e ao sarcasmo. Renunciaram á vida, deram-te o espectaculo da sua dôr, a ti que não existias! Das profundas do mundo vem sempre a mesma ancia, das profundas da dôr ergue-se sempre o mesmo grito. Isto tem alicerces como nunca se cavaram alicerces. Cimentaram-n'os os vivos e os mortos. E por mais esforços que empregue—tu na realidade não existes. Há outra coisa peor que está viva, outra coisa monstruosa que avança dentro de nós e direita a nós e que ninguem pode deter. Tu não existes e eu tenho de caminhar por força, não sei para que estupido destino. Tu não existes e obrigas-me a avançar para um fim grotesco—desmedido e grotesco—que não comprehendo nem abranjo. Tu não existes—e estou nas tuas mãos. Tu não existes e n'este mundo absurdo, onde não encontro quem me condemne e quem me salve, há ainda quem me empurre, quem me arraste e me faça sofrer, uma força cega que trago comigo, que me rodeia e me não larga!—Tens de existir por força. Tens de existir pelo que sofremos e pelo que creamos. És a unica luz n'esta escuridão cerrada, a unica razão como verdade ou como mentira. Existe aquillo que eu quero que exista, é verdade aquilo que eu quero que seja verdade, aquilo que eu e os meus mortos transformamos em verdade. A fé é maior que todas as forças desabaladas, mais viva que todas as vidas. Comprehendo a inutilidade de todos os esforços e faço pela mentira, o esforço que fazia pela verdade. Tenho de te manter á custa de desespero.
Se não existes é forçoso que exista um dictador moral, que extirpe sem piedade o pecado da terra. Que não ouça os gritos e condemne, que realise o pensamento de Saint-Just e obrigue os ricos a trabalhar nas estradas, e cujo poder ignorado e oculto submeta a humanidade a uma lei de ferro, e a salve pela mentira, já que a não pôde salvar pela verdade. Cinja-me a mesma cadeia, durma no mesmo taboado, e empregue o mesmo esforço, por um sentimento de desespero contra ti que me iludiste. Por mim proprio, para fugir de mim e de ti que não existes! Resisto, teimo. Só vejo treva e teimo. Levo-me todos os dias ao mesmo espectaculo. Rasgo-me com gritos. Ó desgraçado, aquillo em que tu crês é mais negro que o negrume!
A mesma força cega nos impele. Queira ou não queira sou levado para um fim que não comprehendo... Cahi nas suas mãos! Outra coisa me envolve a que não sei o nome, outra coisa que espera de mim uma acção que ignoro, outra coisa a quem eu me quero manifestar e que talvez se queira manifestar, sem nos chegarmos a entender. Rodeia-me. Sinto-a. Há occasiões em que me toca. Ouço-lhe os passos. Debato-me. Constrange-me. Há momentos em que me iludo, para fingir que estou sósinho. Há momentos em que me escarnece. Sufoca-me: vou ouvir-lhe os gritos—tenho medo que me fale! Só ella vive no mundo, só ella anda á tôa no mundo! Debalde apélo para mil manhas, debalde tento mil explicações. Estou nas suas mãos! estou nas suas mãos! Outra coisa inexplicavel e immensa, temerosa e immensa, anda por traz de mim, dentro de mim, outro abysmo maior, outra coisa que sua e me escalda até á medula. Procuro esquecer-me—ella aqui está ao pé de mim. Na vida e na morte estou nas suas mãos monstruosas. Sou a consciencia—tu és o impulso. Sou a razão—e não sou nada. Lucto até á morte, finjo até á morte, vou até ao fim dilacerado, escarnecido e iludido.