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Humus

RAUL BRANDÃO (continued 3)

Reading edition

Estou nas tuas mãos! estou nas tuas mãos!

O DEVER

1 de março

D. Leocadia o dever é um contrato. Um contrato com um ente superior ou um contrato com os outros. Há deveres para com Deus e deveres para com os homens. O contrato com Deus falhou, porque Deus não existe; o contrato com os homens não o cumpro, porque, se me sujeito a respeitar-lhe as clausulas sósinho, expoliam-me. Restam os deveres para comtigo, os deveres perante a tua propria consciencia. Oh D. Leocadia, eis o fundamento da questão!... Tu tens passado a vida com uma personagem importante, que te julga, te aplaude ou te condemna, e para ella, e só para ella, deste as tuas melhores representações. Para a enganares, enganaste-te, mentiste para lhe mentires. E reduzida a trapo, só desespero e orgulho, atiraste-te aos pés d'essa avantesma que não existe, D. Leocadia—que afinal não existe! Como se consegue edificar uma vida sobre um broche com um sujeito de suissas e uma redoma de vidro com a imagem d'um santo, e intercalar-lhe um drama baseado na ideia do devêr, até ao ponto de se apoderar de ti até ao amago, é que eu não comprehendo e admiro, ó sordida antrópopiteca com uma cuia de retroz! O devêr era frio e amargo e tu cumpriste-o; o devêr era coçado e hirto e tu cumpriste-o. Foi a razão da tua vida. Azedou-te e sustentou-te. Quando te vencias, vencias-te com orgulho. Deu realidade á tua existencia ephemera. Fôste ao mesmo tempo actor, tablado e publico. Sem esse dialogo entre ti e ti, entre uma D. Leocadia de cuia de retroz e outra D. Leocadia de cuia de retroz, desesperado e pertinaz, articulado ou mudo, que te fez de fél e vinagre, a tua vida não tinha tido directriz. Nas noites solitarias, em que não conseguias aquecer os pés com dois pares de coturnos, aqueceu-te. Deante do frio da pobreza teimaste:—Cumpri sempre o meu devêr.—Deante da sordida velhice, avançaste com autoridade:—Cumpri o meu devêr.—E até deante da imagem pavorosa da morte, exclamaste sem receio:—Cumpri sempre o meu devêr!—E só tu sabes o que é cumprir o devêr dos devêres, o que é tiral-o á bocca para o meter na bocca que se detesta, entre quatro paredes d'um terceiro andar (29-3.º-D), desde o principio da vida até ao isolamento da cóva. Cumprir o devêr minucioso e exigir o devêr minucioso. Com elle dominaste-te e dominaste-a, gastaste-te e gastaste-a, esqueceste a vida e a ti propria te esqueceste. Com uma palavra e mais nada. Arreganha os dentes se queres ao teu proprio phantasma... Com uma palavra e mais nada. Subordinaste a tua vida ao devêr, e o devêr não existe: é um mundo d'orgulho e de escrupulos. Custa a entrar na cachimonia que a côdea que tiraste á bocca para a mantêres, o vestido que cortaste ao teu proprio vestido para a vestires, as noites de discussão interminavel, tu e o devêr—tudo fôsse irrisorio e inutil. Mas foi. O devêr não existe, o mundo construido com alicerces por

omnia seculo

seculorum

não existe D. Leocadia. Perdeste a vida e transtornaste a vida atraz d'uma sombra. Restam-te mil annos e um dia, para cumprires, se queres, o teu devêr inutil, o teu devêr atroz, para obedeceres a um

phantasma

absurdo, a quem dás o ultimo leite d'um peito exhausto. Repara bem, atende bem... Chegou o momento em que vaes aparecer deante do universo com as tuas ideias fundamentaes e sem o teu vestido de lemistre, e, se te obstinas, mesmo no fundo da cóva e com a bocca cheia de pó, hás-de gritar de desespero, quando te compenetrares de que o devêr postiço, o estupido devêr, fede que tresanda. Queiras ou não queiras chegou a ocasião de me rir de mim e de ti com dôr e lagrimas, e de te expôr tal qual és, nua e reles, nua e grotesca... Despe-te D. Leocadia!

Mas a figura verde não cede: traça o chale como quem se fecha com os sete sêlos do Apocalipse e exclama do alto do seu pedestal:—Eu sou de muito bôa familia!

(O peor foi d'ella, o peor foi d'esta figura secca e coçada, desagradavel e sêcca, que eu conheço desde que me conheço, sempre a prégar contrariada o seu devêr, sem um dia de descanço e na eterna duvida:—Cumpriria eu afinal o meu devêr?—Vai para a cóva farta de cumprir o seu devêr e ignorando se na realidade cumpriu o seu dever nem para que serve cumpril-o. Ninguem a pode aturar. Odeia o devêr que cumpre, e cumpre-o sem desviar um passo como quem cumpre um destino. Até te digo mais: o que lhe custa a abandonar na hora extrema não é a tua, mas a sua companhia. Olha-o com desvanecimento. Faz-lhe falta. Mais falta do que Deus, essa avantesma de cuia de retroz com quem passou os melhores dias d'uma existencia incerta. É talvez o seu verdadeiro Christo, que continua, mesmo sem existencia real, a reclamar que cumpra as clausulas d'um contrato já rôto. Tem de cumprir o seu devêr não acreditando no seu devêr. A D. Leocadia é uma figura secca e coçada, enorme e secca, vêrde e grotesca, que desvia o olhar da vida, para cumprir, seja como fôr, o devêr estupido, o devêr atroz. Tenho vontade de chorar)...

Foi buscal-a ao asylo e trouxe-a para casa, com o cabelo cortado como um recruta. Deitou-lhe a mão e fechou-se com ella por dentro. As paredes tomadas de frio salitroso, transiram de frio sepulchral. Quando se atreveu a rir, cortou-lhe logo o riso cerce—para não se tornar a rir, ao primeiro assômo de vontade, cortou-lhe logo a vontade rente—para não tornar a ter vontade; e, quando cahiu de cama, postou-se dia e noite á sua cabeceira, hirta e solemne como o devêr. Um pobre não tem vontade, um pobre não tem orgulho. Nem pode tel-o; veio ao mundo para cumprir o seu devêr. Veio ao mundo para sêr obediente. Pobres educam-se como pobres e ricos educam-se como ricos.

Só tu D. Leocadia te deste ao goso superior de têres uma alma á tua descripção. E isto sem gritos, com um ou outro soluço logo represado, noite e dia, dia e noite, e um olhar d'espanto, uma luz que se extingue até á impassibilidade, n'um terceiro andar de rua da Bitesga. Levou tempo a morrer essa ternura dorida, que teimou em vir á superficie, até que a D. Leocadia a conseguiu esmagar sob o calcanhar de ferro—para sempre, para todo o sempre. Por fim uma curvou a cabeça submissa, e a outra ergueu a cabeça triumphante.—Para a livrar da fome, para a subtrahir á desgraça. Se não fosse eu ia parar a uma viella. Cumpri o meu devêr.—Sim, e para a crear, para que não fosse parar a uma viella, o vestido que lhe durava uma eternidade, teve de lhe durar outra eternidade ainda; a côdea, que mal chegava para lhe matar a fome, repartiu-a com a orphã, guardando para si o bocado mais pequeno. Cumpriu o seu devêr de ferro, o devêr que pesa toneladas, e cumpriu-o sem desviar uma polegada da linha do devêr. Obrigou-a a levantar-se de noite, mas levantou-se primeiro do que ella. Pobres querem-se como pobres, sempre na regra e no devêr e sem levantarem a cabeça. Quando a orphã a olhou transida de dôr e a D. Leocadia lhe bradou:—Cumpre sempre o teu devêr!—já ella tinha cumprido o seu devêr até final. Passaram-se annos ou seculos, morreram as aranhas de velhice no fundo dos saguões deshabitados; nas paredes mestras de granito a camada de frio salitroso juntou-se camada de frio sepulchral, e a camada do frio sepulchral sobrepoz-se camada de frio deshumano. E sempre tu cumpriste o teu devêr e ella cumpriu o seu devêr d'hora a hora como um pendulo. Incutiste-lh-o tão fundo que ahi a tens na tua frente, palida e inerte, com um filho do teu filho na barriga...

Não te queixes D. Leocadia, porque afinal foste buscal-a ao asylo para te sentires maior no teu orgulho. A desgraça dos outros não comove, a desgraça alheia consola. Mas tinhas de cumprir o teu devêr: ao magestoso edificio que architectavas, faltava-lhe ainda o remate. A côdea que tiraste á bocca manteve-te melhor que se a comesses, e o vestido que lhe deste, agasalhou-te melhor que se o vestisses. Engrandeceste. Amargaste e doiraste. É verdade que tambem resequiste. Espera, espera... Resequiste, mas como o mundo é extraordinario, como a vida é prodiga e teimosa e irrompe até das pedras, extrahiste não sei que ternura azêda do mais duro de todos os peitos—ó contraditoria D. Leocadia, 29-3.º-D., que eu não chego a decifrar. Não podes com isto, não explicas isto, não aturas isto! Não comprehendes. Nem eu.—Tambem eu D. Leocadia! Lé com cré. Tambem eu, se me liberto d'isto que não tem significação, não encontro nada que tenha significação. Chegamos ambos ao ponto e estamos ambos estarrecidos. Moeste-te e moeste-me por uma palavra apenas... Olha bem para ti! olha bem para dentro de ti! Moras na rua da Bitesga, entre duas ou tres curiosidades seculares. Usas um vestido de lemistre, luvas d'algodão no fio e um broche pendurado ao pescoço. Não sei por que bamburrio se te encasquetou no toutiço a ideia de Deus e do devêr, e de que o infinito tem de dar importancia ao teu problema, aos teus flatos e ao teu broche, onde um retrato de suissas não tira de mim os olhos de peixe... Não mastigues. Bem sei que só nós, tu e eu, eu e tu, com o teu vestido de lemistre, é que somos capazes de contrahir noções, talvez erroneas mas profundas, do bem e do mal. Os outros bichos teem mais que fazer. Mas é por isso mesmo D. Leocadia que te cahiram os dentes postiços e que começas, n'esta nova situação, a comprehender que o bem e o mal é tudo a mesma coisa. Talvez a gente não possa fazer o bem senão a si mesmo...—Mas então—e crispa a mão sobre o broche—talvez o bem seja uma monstruosidade, talvez todos tenhamos de destruir. O mal é que eu sinto. Para o mal é que eu fui creada!—E sua d'aflição toda a tinta que lá tem dentro, quando outra D. Leocadia irrompe da carcassa da D. Leocadia:—Pergunto-te se o que tu não consegues é prolongar o mal. Pergunto-te se esse orgulho humano, se esse orgulho sobrehumano, não é um mal maior, e essa piedade que sentes não é por ti que a sentes.—E eu, e eu pergunto-te se a minha verdade falsa não me serviu melhor que a tua verdade amarga.—Pergunto-te a ti—e sacode-a—se não é isto que eu sinto cá de dentro, do fundo dos fundos. Pergunto-te de que te serve a mentira com que cohabitavas. Nunca conseguiste bem nenhum, nunca cumpriste o teu devêr. Logo que te puz a ti e a ella na mesma situação de egualdade já não pudeste cumprir o teu devêr.

D. Leocadia, quem recebe o bem fica sempre humilhado. O bem constrange. O que tu chamas a piedade, e o bem põe quem o recebe na situação de te morder as mãos. E continuar a fazer o bem é elevar-te pelo bem que fazes e rebaixar-me pelo bem que recebo. Acabas por gastar o que em mim há de melhor. Oh D. Leocadia, se eu podesse—eu é que te fazia o bem, para tu veres o que é o bem recebido, o bem agradecido e o bem amargurado. Antes tu me fizesses mal, D. Leocadia, porque o mal põe-me ao teu nivel, e o bem acostuma o desgraçado a ser mais desgraçado ainda. Degrada-o. Põe-no na tua dependencia e na dependencia da desgraça. Cria uma

superioridade

, a tua, e um azedume, o meu. Classifica para todo o sempre. Estou perdido se não reajo em odio.—Mas então...—e a D. Leocadia atira-se com desespero á outra D. Leocadia, e interrompe-a, primeiro com mudez, depois com gritos:—Ia parar a uma viella!—Avança e repete mais alto:—Ir parar a uma viella é o que há de peor no mundo!—E a outra torna com escarneo e diz-lhe ao ouvido não sei que segredo temeroso—e a D. Leocadia torce-se com pavor mas sustenta:—É o que há de peor no mundo! é o que há de peor no mundo!—E com dôr, com angustia, com desespero, pergunta a si propria (a outra teima e não a larga):—É o que há de peor no mundo!?—Eu não sei se é o que há de peor no mundo, não sei se reduzir uma creatura, a trapo é o que há de peor no mundo. A tua piedade amesquinha-me. O que eu reclamo é o meu logar na vida e o meu quinhão de desgraça. Não m'o tires! Mas ella é d'aço. Não transige e protesta:

—Matei-lhe a fome.

—Mataste-lhe a fome mas não podeste amal-a.

—Nem posso! nem posso! nem posso!

E encara-se mais atonita e mais verde, mais resoluta e mais verde, sem desviar o olhar.

A VELHA E OS LADRÕES

3 de março

Sombras. Tres cabeças monstruosas projectadas n'um muro, que se aproximam e afastam depois de confundidas. A velha a um canto agacha-se aos pés da filha. E ao lado as tres sombras fundem-se n'uma unica sombra disforme. Duas, tres horas talvez... A sombra da velha reduz-se a nada, a menos que nada, á sombra da dôr. Por fim erguem-se, mergulham e dissolvem-se na caligem da noite, as tres sombras dos ladrões e as sombras das mulheres, a quem não distingo as feições... Eu já vi isto algures, em outro mundo onde me custa a entrar. Metem-me medo. E não é só medo, é dôr. Vivi com estas sombras n'um pesadelo, de que sahi atonito e exhausto, n'um sonho em que tudo isto fazia parte integrante da minha propria alma, e que sonhei lavado em lagrimas. As tres grandes sombras levam, não sei para que destino, as outras

enrodilhadas. Duas, tres horas da madrugada talvez...

Caminham sem se lhes ouvir os passos á beira do rio que corre para o mar desde o principio do mundo.

E o silencio é cada vez maior. Só a agua fala nos buracos poidos das pedras, em dialogos que nunca cessam, n'um côro de vozes ininterruptas e indistintas—ameaças, suplicas e gemidos. A Joanna cala-se: só se lhe ouve um anh... anh... de cançasso, como se arrastasse na escuridão uma cruz do tamanho da escuridão. A seu lado o côro inutil da agua corre sempre para o mar, com gritos, risos, vaias e apupos.

Uma voz, a do velho ladrão compadecido, diz-lhe baixinho:

—A tua filha... Se teimas levantas a desgraça a teus pés.

E lá deslisam no escuro, e o rio sempre a correr e a prégar o mesmo presagio de dôr no chape que chape onde se percebem échos de todas as desgraças que sucederam no mundo, levando para o mar todas as lagrimas que se choraram no mundo.

Outra vóz no escuro:

—Ou tens de sofrer mil mortes na tua filha, ou tens de me fazer a entrega. Agora escolhe. Uma ou outra. Agora ouve: ella é nada n'estas mãos.—E pergunta-lhe:—Tu és ou não uma coisa que me pertence? Posso matar-te?—Podes—E essa voz rouca, essa voz implacavel torna:—E ou... Tu ouves velha? A mim ninguem me engana... Tu riste? (Ella faz anh... anh...—cançasso ou dôr)—Aqui tens... Ouve mais... Tu ouves ou finges? Tu que dizes? A velha é rica tambem te cabe uma codea. Ninguem te pede mais nada. Eu cá é que executo.

E lança a dois metros um jacto de saliva.

A Joanna recua: avançam logo e não a largam as sombras que a envolvem.

—Tu hás-de abrir-nos por força a porta!

—Estafermo! estafermo!

—Tu abres-nos a porta. Á velha deito-lhe a mão ao gasganete e não dá pio. Aperto no escuro—eeeh...—e sinto no escuro um estremeção e mais nada...

—Jesus!...

—Ó pandorca! És um trapo! és peor que um trapo!...

—Deixem a velhota sósinha comigo, que nós dois entendemo-nos—intervem o ladrão mais velho. E leva-a suspensa pelo braço como quem leva uma pluma.

Cobre-os o céo profundo, onde palpita uma vida intensa. Arqueia-se sobre a velha e o ladrão de lez a lez a abobada recurva. Ao longe seguem-n'os sempre as outras sombras temerosas.

—Estupida! estupida! Passaste a vida a servil-os. Aproveitaram-te e deitam-te fóra. Só te deram restos e enchiam-se até aos gorgomilos. E tu apegaste e tu defendel-os!... Ouve tu abres-nos devagarinho a porta...

—Jesus Christo veio ao mundo para nos salvar!...

—Isso! Até me metes nojo! Isso! Até me fazes rir! Só tu, calhordas, eras capaz de me fazer rir n'esta hora aziaga. Pilhasse-te eu no meu tempo!...—E aperta-lhe o braço contra o peito, leva no ar aquelle molho de ossos e ri-se com escarneo.—Tu lavas, tu esfregas, tu comes os restos, tu até cheiras mal! Tu metes nojo. E hesitas... Que se te pede? Que nos abras a porta e mais nada. Só há uma ocasião na vida, toca a aproveital-a.... Se nos abres a porta, ficamos ricos.—Abraça-a. Vomita uma risada. Peor que matal-a, enlameia-a. Aquillo vem do fundo da terra, vem do boqueirão da noite e traz escarneo pegado. Sobre isto chove: parece que toda a lama fetida da rua subiu ao céo para tornar a cahir. A Joanna geme. Uma risada e um gemido que se amalgamam, gemido que se extingue para depois subir mais alto, para se confundir com a risada, sempre o mesmo gemido, sempre a mesma risada. E a noite é pó de desgraça, cada vez mais moído e mais negro.

—Não te cabe n'esse caco que ninguem tem pena de ti. Escuta o que te digo. Rouba-a, estupida! rouba-a! Na cadeia tambem se come pão. Ao menos lá enches essa barriga. Abres-nos devagarinho a porta...

—O que havia de dizer a minha senhora!

—Ninguem no sabe. E ouve: se não nos abres a porta, a tua filha nunca mais a vês.

O silencio e a noite com outras noites em cima, as sombras que caminham, e aquella sombra humilde cada vêz mais pequena, reduzida á sombra da sombra e do escarneo. E teima, e teima contra a desgraça, contra as injurias e as vozes do rio. Há milhares d'annos que o dialogo nas pedras dura, sempre nas mesmas ameaças, que vem do fundo da agua e a Joanna não ouve. Devagar palpa a algibeira e tira do bolso e entranha na pele um pedaço de ferro gasto e poido.

Outra vóz na noite:

—Mãe!

A vida d'essa mão de rachar lenha, d'essa mão de arvore e dôr! Como ella se contrae, emquanto a Joanna caminha absorta. Talvez uma hesitação instantanea, e depois, sem que ninguem repare, a mão abre-se e deixa cahir a chave nas profundas da agua, que continua a correr e a prégar, a correr e a falar ás pedras e ás estrellas nas mesmas palavras inuteis, ao lado da vida sem destino.

Chegam emfim á muralha do predio, e outra vêz as sombras se juntam n'uma unica sombra, outra vêz se ouve aquella vóz sahir da noite:

—Mãe, olhe p'ra mim! olhe bem p'ra mim!

E a velha sente na cara tres bafos monstruosos, ao mesmo tempo que as vozes roucas reclamam:

—A porta... Depressa! depressa!

—A chave

perdi-a

.

Um repelão e um grito, um grito que se afasta e sae da noite, cada vez mais longe e cada vêz mais alto...

Sobre este sêr humilde encarniça-se mais o sonho. Lá vae a mulher da esfrega empurrando o farrapo monstruoso que se agita na noite. A sombra e a mulher da esfrega, o espanto e a mulher da esfrega, o sonho doirado de grandes azas esfarrapadas no negrume e as mãos encortiçadas de lavar a louça, a vida phrenetica e a vida humilde. Uma bocca enorme d'um lado, a voz da Joanna do outro, sentimentos cahoticos impossiveis de traduzir em palavras, o que exprime a natureza impulsiva, o que responde uma creatura agarrada á ideia do sacrificio.—Anda para deante.—Estupida! estupida!—A bondade entranhou-se-lhe até ao amago. Tudo está nos seus logares: as coisas simples e as coisas eternas, e há outra coisa que ella não sabe exprimir, que a alma d'esta mulher não abrange: a intrusão do sonho na sua vida humilde. Bronco e sonho. Até agora só com a desgraça arca, agora o doirado tinge-a. Sacode-se como um cão molhado. Debalde tenta desfazer-se do sonho immenso que se lhe pega: irrompe em palavras baixinhas, hesitantes, que voltam atraz. Uma pausa e o monologo recomeça logo. Há não sei que de monstruoso no mundo, que bebe todas as lagrimas e leva todos os gritos. E não se farta. Há não sei quê que reclama dôr. Toda a noite se desespera. A desgraça sua, a desgraça trôpega e ridicula. A desgraça enche a noite de esgares. Depois o sonho desgrenha-se. Depois sacode-a uma rajada, e lá torna, sem uma palavra, sem um grito, a grande sombra que se envolve em si mesmo e a si mesmo se estorcega. A desgraça sua de aflição sem poder exprimir-se. E quando a dôr se concentra, quando a dôr se torce como quem torce um farrapo e a velha não pode—a velha irrompe n'uma toada estupida. Mais doirado, mais fundo...

Caminha e depara com a D. Restituta, que atravessou a vida com o guarda-chuva incolume e que faz gestos desordenados no escuro:

—Acuso! acuso! acuso!

—Senhora D. Restituta...

A senhora D. Restituta está cheia de lama. Tem a penna do quico partida: é uma figura feita com tres traços de tinta e algumas manchas de desespero. O sonho doira-a, esfarrapa-a tambem. A penna em frangalhos agita-se como um pendão de revolta, esgarçado e chamuscado. Todas as vontades a compeliram e a esmagaram—quer retomar a forma primitiva. Dir-se-hia que cresce na noite, e que a sua bocca é uma bocarra cada vez maior, para prégar, para açular, para vomitar injurias. Sómente não emite outro som senão este:—Acuso!—a velha gasta, a velha inutil, a D. Restituta da Piedade Sardinha.

—Senhora D. Restituta...

A outra não vê, não ouve, não mexe.

—Minha senhora...

—Acuso!

—...para o que se vive n'este mundo não paga a pena ruindades.

Debalde a Joanna lhe fala. Resta deante do sonho com a mandibula despegada e o velho guarda-chuva que conserva intacto desde a primeira virgindade—teve duas—metido debaixo do braço. Nem uma nem outra entendem aquillo. Uma empurra, afasta de si o sonho com as mãos de lavar a loiça, a outra com as mãos pacientes, as mãos diaphanas da mentira. Tem feito sempre todas as vontades, e se a figura um momento se engrandece, amarfanha-se logo, como um trapo suspenso que se deixa cahir ao chão.

—Acuso! acuso! acuso! De repelão—mete para dentro! uma vergonha mete p'r'o sacco! desprezo, escrupulo, fome—mete tudo p'r'o sacco! Para um sacco sem fundo. Passei tudo, passei mortes para o poder crear e nunca pude dizer que tinha um filho. Para o crear, para o poder crear nunca pude vêr o meu filho. Meti tudo p'r'o sacco, sem poder abrir bico, senão matavam-me á fome... E nunca pude vêr o meu filho, senão matavam-me á fome. Criei-o longe para o poder crear, criei-o como pude, de vergonha, de restos, de codeas, de dizer a tudo que sim. E este filho! este filho que nunca pude vêr, vi-o agora! Este filho que criei de mentira, este filho que criei d'abjecção, sem nunca o poder vêr, vi-o agora! Este filho que tinha sonhado ás escondidas, com a bocca tapada para não gritar: Tenho um filho, tambem tenho um filho!—vi-o! vi-o! vi-o!

Meti tudo

p'r'o sacco! meti o diabo no sacco! Só a noite me ficava livre para

sonhar

com elle, para o vêr rico, para o vêr como os filhos das outras... Aqui está a Restituta que é idiota, aqui está a Restituta que é um poço sem fundo. Deante d'ella pode dizer-se tudo, a Restituta serve para tudo, a Restituta mete tudo para o saco. Cala-se que é o que lhe vale—mete a viola no saco. Só a Restituta sabe o que se passa, o que está no prégo e o que está no fundo das almas. Calei tudo, disse a tudo que sim para o poder crear. Mete p'r'o saco! mete tudo p'r'o saco! mete a viola no saco!—E n'um crescendo de desespero:—Acuso! acuso! acuso!

Debate-se a Joanna n'uma cogitação a que não suporta o pezo. É como se pela primeira vez désse com a vida e quizesse atalhar a vida. Tudo para ella mudou de expressão: a desgraça muda de expressão, a filha muda de expressão. E o sonho envolve-a, deforma-a, besunta-a. Sente-se-lhe o ranger dos gorgomilos.

A dôr descarna-a e redul-a ás linhas principaes, á secca realidade. Um ulular de tempestade, e tudo quieto. Nunca o concavo se concentrou em

mais

serenidade. Gritos, um desabar monstruoso, e este sêr abjecto, que, como uma coisa que andou a rasto por todos os sitios suspeitos, não tem fórma nem côr: tem cheiro, e dois olhos de tanto pasmo que fazem aflição. Desapareceu tudo: ficou a velha, ficou a desgraça aos tropeções pela vida fóra.

É como se tivessem metido a dôr dentro de um saco e déssem com elle pelas paredes.

Aqui está a mulher da esfrega e a desgraça que tem os seus direitos e não os perde nem transige. Não a larga tambem o sonho. Agora é que ella destinge todo o doirado e toda a agua de lavar a louça. Agora é que ella ouve uma bocca enorme falar no escuro, e queda-se atonita e confusa feita trapo e horrôr.

—Para que é que vocemecê me creou?

Um soluço, um ranger d'arvore que se deita abaixo, um estalido de cruz que não suporta o pezo.

—Antes vocemecê me tivesse esganado ao parir. O que eu tenho chorado!

—Anh!...

—Olhe p'ra mim! olhe p'ra mim!

É um sêr diferente, um sêr aparte, que a Joanna vê pela primeira vez. Como pôde creal-o aos seus peitos? Crear vida é crear um grito que não se extingue? que nunca mais se cala? Sempre o mesmo grito:—Para o que tu me creaste! para o que tu me creaste!—Juntem a isto o escarneo e todas as vózes que lhe prégam:—Estupida! estupida! Toda a gente se ri de ti!—Andou nas mãos dos ladrões.—Rouba! rouba!...—E sente ainda nas mãos um pedaço de ferro gasto e poido como o aço, que entranha na pelle. Um gemido lucta com uma risada e tenta subir mais alto, cada vez mais alto... Juntem a isto que a Joanna quer ser má e não pode, e misturem a isto humildade. Aqueceu a vida a bafo. Incutiram-lhe para sempre a subordinação, só lá tem dentro ternura. Faz o gesto de quem tenta abrir uma porta; quer levantar a cabeça, mas tanto tem obedecido que curva logo a cabeça. Ridiculo sobre ridiculo.

Agora vejo a figura, vejo-a agora completa. Pouco e pouco tomou relevo, tornou-se humana. Sumiu-se a velha tonta, caldeou-a a desgraça. Á força de gritos represados obsidia-me. Engrandece-a a mentira e a dôr. E aquillo persegue-a, encarniça-se sobre a velha tropega, n'um espectaculo ao mesmo tempo desmedido e reles. A velha d'um lado, do outro a grande sombra tragica que subverteu o mundo; o escantilhão sôfrego, e o gesto que a mulher da esfrega faz para o afastar de si. Ao mesmo tempo a alma dorida, a ternura que a não larga, e o contacto feroz que não explica e a que sente o pezo.—Para o que tu me creaste! para o que tu me creaste!—Atormenta-a, sufoca-a, e como não pode mais, como não comprehende—não consegue—e como aquillo se encarniça, a Joanna mostra-lhe as mãos enormes, as mãos roídas, as mãos só dôr...

Tem as mãos como cepos.

DIALOGO DOS MORTOS

12 de março

Há em mim varias figuras. Quando uma fala a outra está calada. Era suportavel. Mas agora não: agora põem-se a falar ao mesmo tempo.

Sintiste-o avançar, pouco e pouco, no silencio? Sentiste o teu pensamento disforme avançar mais um passo no silencio? É porventura possivel que o que se passa no mais recondito do teu sêr, alguem o presinta e o ouça avançar no silencio?

Perpetuo combate a que bem quero pôr termo e que só tem um termo—a cóva. Eu e o outro—eu e o outro... E o outro arrasta-me, leva-me, aturde-me. Perpetuo debate a que não consigo fugir, e de que sahimos ambos esfarrapados, á espera que recomece—agora, logo, d'aqui a bocado—porque só essa lucta me interessa até ao amago... Estou prompto!

Todos nós pelo pensamento somos capazes de hecatombes. Detinha-nos a vida artificial, uma architectura mais temerosa que todas as cathedraes do globo postas umas em cima das outras.

Se me esqueço o meu pensamento disforme deita-se logo a caminho...

Vejo-o caminhar e não o posso deter. Por mais esforços que faça não o posso deter. É como se eu creasse figuras, que se puzessem logo a caminho. Todos os phantasmas se dissolviam á luz da madrugada. Agora estas figuras teem de cumprir um destino. E pergunto a mim mesmo baixinho se na verdade eu não desejo que avancem um passo—e outro passo ainda...

Tinha medo de aparecer no outro mundo deformado e grotesco, e agora tanto faz entrar na morte repulsivo, como transfigurado e só dôr.

Olhava este momento que ia desaparecer, com saudade—porque nunca mais se repetiria no mundo. Nunca mais outro segundo igual nem na luz, nem vibração, nem na ternura... O momento em que me sorriste, balouçado entre o nada e o nada, nunca mais se tornaria a repetir, identico e completo, em todos os seculos a vir! Estava alli a morte—está aqui a vida. Agora pergunto a mim mesmo se te deixo morrer; e a pergunta obsidia-me e exige resposta imediata. Sei tudo, tudo o que me podes dizer—já eu o disse a mim proprio. Até hoje falava a alguma coisa que me ouvia, hoje só interrogo a mudez, a mim mesmo me interrogo.

Tu luctas contra esta figura que dentro de ti te impele;—tu queres fugir de ti proprio, queres separar-te de ti mesmo, e não podes. Só consegues, á custa de esforços desesperados, manteres-te dentro da formula ou da mascara que escolheste, e arredar o crime e a loucura, e fingir e sorrir; tu podeste iludir o phantasma, seguindo pelo caminho trilhado. Iludiste os outros e a ti proprio te iludiste. Agora não. Agora sentes-te capaz de tudo. As grandes sombras que te entravaram a vida, eil-as reduzidas a dois punhados de cinza. Valia a pena a lucta? O homem é sempre a mesma lama, os mesmos despeitos e os mesmos rancôres, com resquicios d'oiro á mistura. O que pode fazer é dominal-os. Mas sae sempre da lucta esfarrapado e perguntando a si mesmo baixinho:—Valeu a pena? valeu a pena?—Depois que se venceu que lhe resta? Elle e o vacuo, elle e a saudade da lama que fazia parte integrante do seu sêr. Ficou diminuido. A escuma tambem tem os seus direitos.

Há entre as figuras que compõem o meu sêr, duas encarniçadas uma contra a outra. Há uma que crê, outra que não crê. Há uma capaz de todas as cobardias, outra capaz de todas as audacias. Há uma prompta para todos os rasgos e outra que a observa e comenta.

Mas há entre as figuras que compõem o meu sêr, uma que está calada. É a peor. Olha para mim e basta olhar para mim para que eu estremeça.—Por muito que me accuses, já eu me tenho accusado muito mais!

Olhas-me e eu estremeço. A sofreguidão dos teus olhos, a sofreguidão verde dos teus olhos, que me reclamam como um abysmo de dôr e de espanto onde encontro emfim a vida!

Se te quizesse descrever, não te podia descrever. Sei que me pertences e que te pertenço.

Talvez as almas fossem mal

conduzidas

, talvez já adivinhassemos o universo e depois o esquecessemos. Creio que se não complicassemos a vida e a dirigissemos n'outro sentido, presentiriamos tudo e resolveriamos tudo. Há em todas as existencias alguns segundos em que sentimos o contacto do mysterio—de que nos separam logo leguas de impenetrabilidade.

Alguma coisa porem se interessa pela minha dôr. Todas as noites grito, todas as noites sufoco os gritos. Todas as noites me debato com o mesmo problema e a mesma angustia. E há uma coisa que assiste a este espectaculo e se interessa, que cada vez me mergulha mais fundo para que eu me despedace—e se interessa...

15 de março

Com que saudades me aparto da mentira! Dos nadas, das pequenas coisas que dão sabôr á vida. Já reparaste que são as

pequenas

coisas da vida que nos fazem chegar as melhores lagrimas aos olhos? Na natureza os ultimos dias d'outomno que se despedem de nós com saudade, o oiro humido, o ultimo sol nas fôlhas molhadas; as noites cheias de estrellas, em que se adivinham outras estrellas ainda; a ternura que não tem existencia real, a sensação que passou por nós n'um segundo, sem deixar vestigios; e as horas que creamos, esquecidos e penetrados um do outro, ao pé do lume, já sumidas tambem na voragem. Nada—tudo. A tua expressão em certos momentos, em que uma figura transparece sob outra figura, como se me fôsse dado contemplar, n'um rapido instante, a tua alma limpida—todos os sentimentos que geramos de ilusão, de sonho e de tristeza. Tudo e nada.

Agora a vida é amarga. Acabou a saudade e este sabôr amargo é o sabôr da vida nova que começa.

Até hoje bastava uma palavra tua para me prender, ou a ternura que os teus olhos exprimiam. Um fio detinha o meu horrivel pensamento. Tu sorrias... Um sorriso e mais nada, ternura e mais nada. Uma forma transitoria, sonho e mais nada.

Das estrellas a luz phosphorescente envolvia o mundo. A noite tinha é certo negrumes profundos e espaços tão negros, que n'elles só morava o vacuo, mas no silencio a vida das estrellas estava mais perto do meu coração. A impressão que me sufoca deante da eternidade sem limites e da duração da vida astral, misturava-se a ternura de teus olhos, que me faziam ascender do subterraneo para a luz, que me ensinavam a soletrar o

abc

do céo, que antes de mim, na vida ephemera, outros tentaram decifrar, levando-o impresso na alma para o tumulo.

Ilusoria irrisão. Tudo isto não existe, ou só existe como agitação e desespero frenetico. Tudo isto desaba há milhares d'annos n'uma queda infinita, n'um grito que nunca cessa nem echôa. Que desapareças amanhã e as mesmas estrellas indiferentes luzirão no céo, o mesmo impeto de vida galopará no espaço. Só os teus olhos não procurarão os meus cheios de sofreguidão e espanto... Arredo a tua figura, a figura palida que teima em me acompanhar sem palavra, a figura transida e palida de que desvio o olhar. Encontrei-te n'outra luz, n'outra vida, n'outro mundo talvez, e os teus olhos tristes enchem-me de inquietação e terrôr. Tu não existes! tu não existes! Escusas de soluçar. Não te tolero. Não sei quem és e conheço-te. Tens vivido na minha companhia, e és uma fórma transitoria e mais nada, um sorriso de ternura e mais nada.

Espera... Quantas vezes me tens confessado, sufocada de lagrimas, que te vem, não sabes d'onde, uma vontade do fugir pelo mundo fóra para onde ninguem te conheça, deixando tudo, e abandonando tudo—fugindo a ti propria?... Para isso bastou aquella folha doirada, que o primeiro arripio de vento léva sem destino. É essa mesma sensação que todos experimentamos a certas horas em que o universo se nos afigura monstruoso e inutil, com uma unica certeza—a de caminharmos todos, atravez da incoherencia, para a morte. Felizmente essa impressão dura um segundo. Num segundo todos ouvimos os passos da morte.

20 de março

Agora não contenho a multidão que constitue a minha alma. Nunca estou só e ouço-os que clamam cada vêz mais alto. Sinto phantasmas até á raiz da vida. Minha alma é um tablado onde todos os mortos se degladiam. Ouço-os! ouço-os! são impulsos, são sêres que actuam e falam como se eu não existisse. N'esses momentos sou apenas um espectador que os vejo a caminho sem me poder defender. Ouço-os! ouço-os!

Se Deus não existe e a outra vida não existe—se disponho só d'esta vida, os deveres que tenho a cumprir são apenas os do instincto. Só tenho deveres emquanto não me pezam. Não te deixes iludir.

Era sempre com secreta irritação que eu

fazia

o bem. O bem contraria. Fugi sempre a este problema... Era sempre n'um impulso de paixão—e com todo o meu sêr, que eu fazia o mal... O sacrificio, a piedade, a bondade só teem logar no mundo como culturas artificiaes.

Repete isto: a bondade é um sentimento falso e o mais artificial de todos os sentimentos.

Ah, a ironia... Há de te servir agora de muito a ironia!

O dever acabou, o estupido dever, o dever que me dominava, a vida com um pezo de chumbo, o dever de fazer todos os dias as mesmas coisas inuteis. Respiro.

Sim, a amizade... Falemos aqui baixinho um com o outro. Essa amizade era o meu interesse ou o teu interesse. Dominavas-me ou dominava-te. Passei annos sob esse jugo, e agora descubro com alegria que te detesto. Detestei-te sempre.

Odeio-te porque vales mais do que eu; odeio-te porque podes mais do que eu.

Assistir á ruina dos nossos amigos é talvez melhor do que assistir á ruina dos nossos inimigos.

Eu sou a unica consciencia n'esta barafunda cega e sofrega.

Temos de fabricar novas leis. Façamos leis para as classes superiores, e leis para as classes inferiores—leis para os pobres e leis para os ricos. As leis modificam-se com as consciencias, e as consciencias modificaram-se.

Formemos classes—as de cima e as de baixo. O problema da educação é um problema capital.

O amor é um unico minuto. Um minuto esplendido. O resto é habito, palavras, hesitações, trampolinice, livros de capa amarella...

E o peor é que isto não são phrases, o peor é que isto existiu sempre e impôz-se-me sempre. O peor é que quando eu te falava e sorria, e tu me sorrias extenuada e palida, o meu pensamento era sempre o mesmo, e só a custo continha o tumulto dos mortos. O peor é que eu sei que desde que este phantasma se pôz a caminho, não o posso deter. O peor é que eu li hoje nos teus olhos ternura e espanto. O peor é o que os teus olhos exprimem—e eu não o posso deter...

PRIMAVERA ETERNA

5 de abril

Segunda noite de luar, segunda noite de espanto. As arvores são phantasmas—os homens são phantasmas. Á noite a velha cerejeira é uma aparição. A mesma febre devora no quintal friorento as macieiras anãs. O respeitavel Elias de Mello recusa reconhecer-se: assiste com uivos ao desmoronar da propria respeitabilidade. Chegou a primavéra. Deita flôr a D. Leocadia, a D. Herminia e a D. Penaricia. Todas as arvores do monte se consomem de sonho.

Primavéra entontecida de gritos e rancôres, É a villa feita sonho; são aspirações ridiculas, restos trôpegos que procuram adaptar-se. Para resistir forjaram a mentira, forjaram a mania, forjaram a abjecção, e essas pequenas coisas sem existencia chegaram a ter um logar mais importante que muitas outras a que chamamos reaes.

Phisionomias de dôr, phisionomias concentradas, phisionomias de desespero e paixão, vão aparecendo sob cada phisionomia, e todos deparam com sentimentos e palavras que nunca tinham encontrado.—Dez annos, vinte annos de galeras, deixa-me, vae-te, some-te!—O homem roe dentro do homem: criam-se olhos que veem na obscuridade. Começam a distinguir na massa confusa, no cahos, nas duvidas, e descem a profundidades que não lhe estavam destinadas. Não é só o homem d'um momento, é uma série de figuras ainda por crear: é o homem do futuro.

Mais braços na monstruosa arvore de sonho, mais braços que atingem o céo, mais tinta forjada de desespero. A propria noite escorre pus doirado...

Na pequena villa já havia, como em todas as almas, um Robespierre, um cadafalso, um Shylock interior, odios, ganancia e uma serigaita a cantar. O quinhão é igual para todos—o que pode é estar sepultado. A questão era de proporções: os valores já não estão na mesma escala. Desapareceu o ridiculo. Pensem n'isto: desapareceu o ridiculo. Num minuto acordou toda a peste, sobresaltou-se toda a peste, todo o ferro velho, toda a mania resignada á força, comprimida á força, levada á força para a velhice e para a morte. Todas as velhas se ergueram, impelidas pela mesma mola. Todo o scenario era scenario, toda a regra regra, todas as cerimonias que nos ensinam, se conservavam ainda de pé, quando o mesmo furacão revolveu, arrastou tudo e levou tudo adiante de si. Tudo se varreu no mesmo instante, todos largamos a scena no mesmo instante. Todos, com velha baba a escorrer, com velhos tumores abertos, com velhas dentaduras postiças, o mistiforio e a obscuridade, o pó inutil que largaste pelo caminho até chegar á velhice, a vida consciente e a velha Eulalia, cuja existencia é um subterraneo e que mal sabe falar, todos ficámos estonteados...

A villa entrou em plena primavéra. Eis a D. Procopia, eis a mulher da esfrega. Aqui estão alimentadas a mentira, tendo passado a vida no testamento, na cortezia e na colica; aqui está o topete, a filha para casar e as faltas de dinheiro—aqui estão todas enrodilhadas de pavor, mas cheias de decisão deante do céo e do inferno. Já abrem aquellas ventas. Aquillo cheira-lhes a coisas prohibidas, que passaram a vida a desejar e a temer. Aquillo cheira-lhe ao suspeito e ao reles. Aquillo cheira-lhes bem. De pupilas dilatadas embebem-se no sonho. Até as pennas velhas se encrespam, até nos restos de chales sem pello, o pello se põe de pé.

Todos nós somos arvores. Há que tempos que deitamos flôr pelo lado de dentro. Fomos sempre construcções vivas, arvores estranhas que bracejavam para o interior do tronco, ramos e tinta, mais ramos desmedidos e tinta, revestidos de casca pelo lado de fóra. Foi por dentro que crescemos, e só por dentro nos era licito crescer, cada vêz mais alto até a morte intervir.

Até as arvores estranhas, até as arvores só tronco, que metiam os ramos e a tinta para o interior, bracejam á custa de gritos ramos e tinta, ramos desmedidos e tinta para o lado de fóra.

Este é nosso sonho, esta é nossa vida oculta, nossa vida de desespero, nosso sonho desgrenhado e immenso, doirado e immenso, amargo e immenso. Bem sei que isto doe. Bem sei que isto me custa a encontrar e a reconhecer n'esta noite de luar e espanto. Bem sei que isto de sêr homem é d'uma grande responsabilidade. Tem prós e contras terriveis. Tambem sei que o que nos separa dos bichos não é a inteligencia: a inteligencia é o menos. O que nos separa dos bichos é o esforço dos vivos e dos mortos, o compromisso de aceitarmos a mentira como se fôsse verdade. O que nos mantem n'este inferno é a architectura artificial, é o facto de não nos vermos tal qual somos, baseados n'uma convenção que julgamos indestructivel. De não nos vermos a nós e de não os vermos a elles. Porque o homem por dentro é desconforme. É elle e todos os mortos. É uma sombra desmedida. Encerra em si a vastidão do universo. Agora somos phantasmas, somos afinal só phantasmas, e o que construimos não cabe entre as quatro paredes de materia.

Ouvel-os? ouvel-os? Passaram seculos e seculos no fundo da terra. Levaram seculos a comprehender que foram iludidos. Redobraram seculos de desespero no interior das cóvas, até se compenetrarem de que todo o sacrificio foi inutil, de que toda a dôr foi inutil. Ouvel-os com dôr e desespero?...

Queira ou não queira tenho de dar o passo, tenho de me desentranhar em amargura e sonho. Bem vês, a insignificancia vae durar mil annos, a vulgaridade e a ternura teem seculos deante de si, de forma que tanto me peza uma como a outra. Abafo. Tenho de durar mil annos, tenho de durar dois mil annos, com estas coisas deante de mim, hoje, amanhã, sempre. É escusado luctar. Emquanto era a razão que me guiava, andava ás apalpadelas: agora é o inconsciente e cessaram

de todo

as duvidas. Tudo se ilumina a outra claridade. Tudo me é permitido. Respiro d'outra maneira, olho d'outra maneira o que me atravanca o caminho. Toda a pergunta obtem logo resposta imediata. Todos os sonhos estão de pé para mil annos e um dia.—Ouvel-os? ouves o grito dos mortos?...—A outra coisa não nos dá treguas. Vira-nos e revira-nos. Mete-se como piolho em costura. Põe-nos a contas com a questão das questões, com a questão insoluvel. Tudo que estava n'um plano secundario passou para um plano principal. O meu interesse, o teu interesse, ó D. Penaricia, é matal-a sem que se venha a saber. Escusas de arreganhar os dentes descarnados pela gengivite expulsiva, esse passo tens de o dar contra o que se chama a tua consciencia. Ergue a cabeça D. Lambisgoia e recorda-te que já foste féra. Podêmos suprimil-a sem remorsos. Matar é uma palavra e mais nada. Por causa d'uma palavra nos arriscamos, é certo, a ir para a cóva inuteis e grotescos, com sonhos remoidos durante noites e noites gelatinosas como velhas mestras de piano que tocam sempre as mesmas escalas. Mas hoje tudo se reduz a metêl-a n'um jazigo selado e chumbado, com a chave entregue ao juiz de direito. Põe em mim teus olhos turvos, ó D. Desideria e reconhece-te e reconhece-me. O que estava por baixo está agora por cima. Á roda da meza do jogo nunca pensamos senão em anulal-a. O remorso não existe, o crime não existe, a formula não existe. O passo nem tu o deste nem eu o dei presos a algumas palavras convencionaes. Agora estamos fartos. Sim, sim, podes matal-a á tua vontade. És um producto fetido do acaso. Não duvides. Se Elle existe, nem suspeita sequer que existimos. Com que direito a esta luz que nos ilumina de chapa, queres que eu me subordine e submeta? Ou não existindo ainda exiges que proceda como se existisses?... Não duvides. Nada. Só algumas palavras formaram a tua consciencia. Duas palavras e o habito, duas palavras e a regra. Posso tudo o que quero. Pezo tudo, calculo tudo sobre esta base: o que me convem e o que não me convem. Eu sou eu. O egoismo é a suprema lei da vida. A honra não é essencial. Ao contrario o meu interesse é mentir, o meu interesse é trahir-te. É indiscutivel que tenho devêres para comigo, mas não é indiscutivel que tenha devêres para comtigo. Primeiro eu, depois eu. Todos os crimes me são permitidos com tanto que se não venham a saber. Serves-me ou não me serves? És meu escravo ou meu senhor? Serás tu meu inimigo?...

Que riso que nunca vi (é a cóva que se ri)! que bocca que nunca vi e que me cheira a defunto! Um passo ainda, outro passo, velhas lambisgoias, D. Insolencia e D. Ninharia. Chegou a primavéra. Vamos entrar n'outra vida sem Deus e sem regras, n'outro mistiforio que o instincto nos impõe, ó D. Telles das Reles de Meireles, e talvez seja essa a tranquibernia suprema porque suspiramos sempre. Vamos vêr que proporções atinge a langonha e a D. Herminia, o fél e a D. Penaricia. Acabaram os escrupulos e a lucta constante que nos deixava esfarrapados. Tenho-vos aqui na minha frente com as boccas murchas de mentir, a suar grotesco e a gritar de desespero; tenho-vos aqui só bichos em frente da necessidade fatal, da verdade iniludivel, nus uns ao lado dos outros, nus e reles, com o esplendor cada vez maior, cada vez mais sôfrego deante de nós. Estamos promptos. Estamos fartos. O que resta é o sonho de pé, só sonho e doirado, fétido e doirado, cahotico e doirado. Está rôto o contracto.

A primavéra atingiu o auge nos vivos e nos mortos. Tinta sobre tinta, dôr sobre dôr. Resuscitam todas as primavéras, as primavéras successivas, as primeiras primavéras em que a ternura se confunde com a fealdade e a fealdade é já ternura, outras primavéras, e outras oiro e verde, em que a tinta escorre do negrume. O que custou á arvore a transformar-se em sonho, á arvore dorida com a flôr recalcada, até se desentranhar em emoção!... Mais outras primavéras phreneticas, mais outras timidas e delicadas, mais outras que não chegaram a abrir cobrem os vivos e os mortos...

Mais braços na monstruosa arvore do sonho, mais braços que atingem o céo. E ahi estão todas as flôres e todos os gritos, a tentativa ridicula da flôr e a flôr esbraseada das noites sobre noites de concentração.

Todos anciamos por este dia. Nós e os outros do fundo da sepultura contamos sempre com a primavéra eterna—nós e a cohorte muda cujo esforço senti sempre, muda e desesperada, cega e desesperada. Gritos que vem de longe, expressões mutiladas que tentam impor-se. Este sonho não era só meu. Arredei-o e pegou-me fuligem. Trouxe-o n'um cantinho do meu sêr como uma coisa prohibida. Nunca me atrevi a olhal-o frente a frente, até que surgiu das profundas, cahotico e doirado, de dôr e de restos, coçado e doirado. Pertence-me e pertence-te. Vem do céo e do inferno. É nosso e dos mortos. É o patrimonio da vida, e do tumulo.

E os mortos estão arrependidos! os mortos estão arrependidos!

20 de abril

As velhas encarniçadas são outras, são velhas em sonho vivo.—Mata! mata! mata!—Aqui de rastros, anno atraz d'anno, para ser comida!—Aqui a levar pontapés n'este sitio, aqui a crear rugas e fél!—Pois eu não fui eu, e agora estou deante d'isto, d'este assombro e d'este desespero!—Gritam porque se não podem vêr. Gritam porque a realidade e o sonho tomaram proporções que lhes não cabem nas almas. Gritam porque não lhe entrevêem o fundo. A D. Penaricia tirou a cuia postiça, e atirou com a cuia ao chão. Depois fitou os olhos na cuia enrodilhada, e absorveu-se na cuia de retroz, como se tivesse alli em frente o symbolo do universo:—Não posso desfazer-me d'isto! não posso desfazer-me d'isto! Toma! Eu não sou isto, e hei-de estar aqui sufocada a aturar-te para não morrer á fome. Hei-de ver-me e ver-te e hei-de dizer:—Jógo!—Hei-de fazer-te as vontades e ver-me tal qual sou, tal qual era e tal qual hei-de ser?—Á espera de quê, se nem da morte podemos esperar?—Então este esforço para ter uma alma não se conta? Este esforço para não andar de rastros como a cobra? Para viver com isto e com isto? Com esta amargura, o fél, o que é mesquinho e com Deus? Eu não posso com o que não comprehendo, com o que está por traz de mim, com o que está a meu lado e com o que tenho de fazer todos os dias...—Falo!—Falo eu agora!—A tragedia é que eu iludia-me, mentia a mim mesmo e agora não posso mentir. Não há gritos que te valham e a ninharia desapareceu do universo. A insignificancia acabou.—O peor drama—exclama outra—é que eu vejo o que fiz de mim propria.

—A inveja que eu te tenho! a inveja que eu te tive sempre! E tenho que sorrir para ti, de dizer a tudo que sim!

—Jogue!

—Então eu passei a minha vida a ter paciencia, á espera, passei-a a mentir e obedecer, e tu a mandares, e agora hei-de continuar a ser abjecta quinhentos annos, seiscentos annos?

—E eu! o pão que me deste amarguei-o sempre. Cada dia que passava mais me sabia a zinavre. Não te matei porque não pude!

—Corte!

—Tu não és mais do que eu!

—Ai! Tambem eu, tambem eu tenho a dizer uma coisa. É que eu sabia bem tudo isto, há que tempos que o sabia!... Mas não sei que era que me obrigava a fingir. Corto!

Avante! avante! Um cordão de velhas, como um cordão de sentinelas, não desampara o quarto onde a magestosa Theodora agonisa. Chove. Entre estas paredes forradas de

papel doirado

já não se moem as palavras de uso. Alumia-as o candieiro a escorrer petroleo, e a luz fixa as arestas das figuras de cerimonia, todas vestidas de preto, a calva d'um homem gordo, a quem só se veem as mãos esponjosas, os bicos das velhas retesas, cujas boccas remoem no escuro, a Adelia mais safada e mais sofrega, e o padre no meio da sala dominando-os a todos. Onde vae o ridiculo da D. Penaricia, as mesuras da D. Andreza, o riso idiota da D. Idalina, a langonha da D. Herminia? Parecem forjadas de novo. Até as prégas dos vestidos cahem como prégas de estatuas. Cada velha resolve que a colica da Theodora seja a sua ultima colica; em cada velha cresce, augmenta, trasborda, n'um tumulto, o inferno. Ao saque! ao saque!—É para mim. Eu é que sou a prima mais chegada.—Eu é que lhe tenho aturado tudo, é a mim que ella deixa os trezentos contos, os quatrocentos contos, ninguem sabe o que ella tem.—Nenhuma admite que a magestosa Theodora escape. Veem de muito longe estas figuras—veem das profundas... Nos olhos da D. Penaricia há claridades do inferno. Ganharam todas em fixidez e audacia. O sarcasmo não me chega á bocca, passou-me a vontade de rir.

Desapareceram seculos de paciencia e astucia, surgiram figuras novas. Para as comprehender pergunto a mim mesmo o que é isto embrulhado n'um chale, e não me atrevo a contemplal-o. Ridiculo e ferocidade? Uma coisa sem nome, producto do acaso, ou uma coisa abjecta? Uma alma ou um resultado de formulas? Está aqui a D. Penaricia e a D. Eulalia ou Deus e o Diabo? Um mundo novo e um mundo atroz? Estão aqui perguntas vivas e respostas vivas:—Abra lá essa porta para traz!—Essa porta deita para a parte prohibida da vida. O mal, suspeitam-no, talvez seja a melhor parte da vida.—Abram lá essa porta para traz!—Não lhes parece que esperam há annos, parece-lhes que esperam há seculos, e tem alli deante de si estateladas, as cortezias que fizeram á velha,—o pois sim que disseram á velha—os sorrisos com que sorriram á velha—as vontades que fizeram á velha. São tragedias. Veem de muito longe, d'uma vida sem limites. Em cada uma se representa um drama atroz, o drama do interesse e do calculo, o drama da vida. Nuas, as velhas que estão na minha frente, são infinitas de grotesco e dôr. Duram há seculos. Há seculos que teem paciencia para viver e para sofrer. A D. Penaricia mente desde os confins do mundo: representa gritos, mais gritos represados. É um poço donde só saem ais e mais ais. O dificil é a gente habituar-se a viver esta vida e a outra vida: carregar com este pezo desde o infinito e lidar e falar e viver.—Oh morte que tão bem cheiras!...—Bem sei, os seculos imprimiram-lhes dedadas, os seculos deformaram-nas... Mas agora estão aqui desesperos em frente de desesperos, e desatam a berrar umas ás outras:

—Tem paciencia, tem sempre paciencia. Doe-te? tem paciencia; amargas? tem paciencia...

—Todos os dias da vida, todos os dias da minha vida á espera da morte. Estou farta! estou farta de despejar bacios, de dizer que sim, de dizer a tudo que sim, de ser a sombra de mim mesma. Agora está aqui a vida. Esta vida e todas as vidas. É preciso que ella morra, e se não morre é preciso matal-a. Ouve senhor padre Ananias, senhor padre unguento, senhor padre e as suas

comidelas

, senhor padre e o seu inferno?... Mentira! mentira! Eu propria era uma mentira. E só me aterra a ideia de acordar tarde, de acordar na morte, com a certeza de que era tudo mentira e só mentira...

Abrem as boccas desmedidas, fecham logo as boccas desmedidas.

—Bem vê que não posso mais. Eu que mentia não posso mais mentir. Como hei-de viver?

—Tem paciencia, tem mais paciencia, tem paciencia por todos os seculos a vir...

Estão alli dispostas a morrer e a matar. Está alli um cordão de velhas como um cordão de sentinelas á porta do quarto da magestosa Theodora. Duas, ambas de quico, ambas de mitenes, ambas impenetraveis, trazem na algibeira o lenço com que hão-de amarrar-lhe os queixos. Todas esperam que ella se decida a

expedir

. Nenhuma abre o bico, mas apalpam os vestidos como se trouxessem um punhal escondido. D'um lado as gulas exasperadas, a hora extrema—chamem o tabelião! chamem o tabelião!—o testamento, a sorte grande—emfim! emfim!—os chapeus de plumas, o oiro mexido e remexido, as gavetas arrombadas, as salas do tapete, o vicio e o goso—do outro a vida nova, o todas as abjecções inutilizadas.

Ó morte que tão bem cheiras, aqui me tens para te servir. Como esta casa cheira bem! como cheira bem aqui dentro!—Ó morte que tão bem cheiras, tu dilues o travor de fél e acalmas a acidez da inveja. Resolves tudo, realisas tudo, os mais ignobeis pensamentos, as mais secretas aspirações, que nem a Deus se confiam, ó morte que tão bem cheiras!—E calcando a alma que se atreve, dizem compungidas, por habito secular:—Coitadinha já tem panella!...

Agora aguenta-te, magestosa Theodora! N'alguns minutos esse craneo obtuso com uma cuia em cima, tem de luctar com o crêr ou não crêr, com a vida antiga e a vida que antevê; tem de desfazer a unhadas um edificio mais vasto que o Colyseu e de deitar abaixo pedra a pedra todas as pedras que cimentou durante a existencia; tem de se entregar ao sonho sem capacidade para o sonho; e tem, ainda por cima, de esquecer as inscripções e as decimas. Para escapar com vida, arrosta com a vida passada e com a vida futura. Tudo n'ella era imperativo. Decidia por uma vez: um passo, e é o inferno pela eternidade, o inferno com o sitio imovel, com o tormento da vista, com o tormento dos ouvidos. Escapar á morte é fugir á lei de Deus.—E d'um dado puxa por ella a vida, do outro puxa por ella o inferno—e as velhas lá fóra esperam e desesperam. Sente as labaredas do sitio imovel por a eternidade das eternidades; envolve-a, toca-a, engrandece-a tambem o sonho, e o inferno não cessa de reclamal-a, o inferno que foi o unico deus que temeu n'este valle de lagrimas. E esse debate esplendido n'uma alma estupida, deixa vestigios profundos: aquellas raizes não se arrancam sem produzirem buracos. E as velhas lá fóra esperam, emquanto a magestosa Theodora desata aos gritos, balouçada—e com a cuia a desfazer-se-lhe—entre a realidade e o sonho, entre o inferno e a vida nova que começa. Mas como a estupida vida de caldo e pão que levou antes de enriquecer, lhe deu fibra e caracter e não sei que de solido e amargo, a velha póde salvar-se, com um resto de chale e a cuia amolgada. A velha resiste, e ao abrir a porta exclama para o cordão das outras estupefactas:

—Atravessei viva o inferno. Agora nem do diabo tenho medo!

25 de abril

E o doirado não cessa. Doira o luar e a inepcia, doira a tragedia e o ridiculo... Teçamos, teçamos todos a nossa teia... A minha prendo-a ás arvores, ao céo e ás coisas eternas. Todos os sonhos se põem a caminho. É uma coisa equivoca. É uma coisa desgrenhada e fétida. É o sonho lastimoso das velhas, o sonho que não chega a ser sonho, onde boiam mortos informes, com laivos verdes, com tentaculos esbranquiçados que se prolongam no escuro. Toda a gente fala só. E o luar intoleravel, o luar indiferente, derrete-se sobre as ameias, sobre a cathedral, sobre os santos imoveis nos seus nichos. Dão horas, mas as horas acabaram. Coisa singular: esta gente só fala comsigo mesma, em monologos roucos, desesperados, infindaveis. Os olhos da D. Fufia ganham em fixidez e concentração; a D. Herminia começa uma tragedia, que dura uma noite inteira com a mesma palavra obscena.

A alma sordida, o fluido que envolvia a villa, a atmosphera parda, feita de pequenos odios, de pequenos interesses e d'habitos concentrados, encrespa-se e cresce em vagalhões magneticos. Modifica todos os sêres e abala as paredes mestras. Embebe-se no salitre e roe os santos nos seus nichos: até na imobilidade entranha desespero. Quedam-se estonteados e

transidos

, como se a vida fosse uma mera creação do luar e da loucura... A alma da villa é sacudida por uma

tempestade

de espanto. A botica está deserta, com o bocal, o passaro empalhado, as moscas mortas.

Um momento angustioso não se ouve rumor, depois um tumulto, um clamor, um ah! A villa toda grita:—Eil-o! aqui está o meu sonho, aqui está como o trouxe toda a vida, escondido, dorido, fruste, immenso ou humilde; aqui está a minha verdadeira figura—a figura do Melias e a figura do Melambes; a velha n'um debate perpetuo, a velha e as suas manias, o desespero e a Ursula, o grotesco e o pó doirado que não sei d'onde se me pegou; aquillo de que te rias e eu me ria, e que todos nós escondiamos, cada vez mais oculto, cada vez mais para dentro, como somiticos... Lá vae a Adelia, com o chapeu ás tres pancadas, lá vae um logista que parece Napoleão Bonaparte, e as Souzas armadas de ponto em branco—lá vae o inferno de luxuria e de egoismo. O muro não existe—derrubaram o muro.

Nesse momento pezado de angustia todas as mãos se agitam no ar diante da outra coisa que no silencio e na noite estende os farrapos das azas cada vez mais disformes. Está sofrega. Cresce, grita, avança direita para nós. O que se pôz em marcha não vem de fóra, mas de dentro de ti mesmo, da mais cerrada das noites. Há muitas camadas de mortos. Há-as a legoas de profundidade e até de lá sobem os gritos. O homem é o mais profundo, o mais vasto de todos os sepulchros.

Põe este homem vestido em frente d'este homem nu, a fama o credito, a praça, ao pé desta coisa desordenada que se encarniça e não nos larga, ó Elias, ó Melias, ó Melambes! A consideração não existe! a praça não existe! aqui estamos todos bichos em frente de bichos, os que pagam as lettras e os que teem as lettras protestadas, nós e nós, nós e os ladrões das estradas, nós vestidos e grotescos, nós nus e tragicos—nós e o universo monstruoso! Nós correctos e nós disformes, nós e o céo profundo na sua temerosa realidade. Salta laré, perirone, perirote! Mas salta com desespero, salta com as tuas eternas explicações, o subterfugio e o grotesco. Agora não nos servem de nada os relatorios, nem as razões dispostas como formulas algebricas—agora estamos aqui nós e o problema desalinhado e feroz, que nos impõe uma solução imediata. Salta laré, perirone, perirote! Se ella vive mais quinhentos annos lá se vae o dinheiro por agua abaixo. Peor: se ella remoça lá se vae o nosso credito na praça. Mas—pergunto—posso porventura deixal-a morrer quando está nas minhas mãos salval-a? Não sou eu por acaso um homem de bem? Tu és um homem de bem, eu sou um homem de bem,

nós somos

todos homens de bem—depende das circunstancias. Os paes são paes, mas deixam de ser paes se nos dão cabo de tudo—e da firma. Por outro lado há a contar com o credito. Pensem n'isto, no credito. O credito pode perder-se de um dia para o outro, e sem credito um homem não vale nada na praça. Meditem e atendam. Acima de tudo está o credito. Está talvez acima de Deus, ainda que a minha consciencia seja religiosa. Sem Deus ainda posso viver, sem credito não dou um passo na vida.

—Além da firma que nos resta na vida? Fóra da praça não existimos. Pense que logo, amanhã, hoje mesmo, a nossa mãe remoçada deixa de sêr a nossa mãe. Que quer o mano fazer? que pode o mano fazer? Destruir por suas proprias mãos o nosso credito na praça?

Um defronte do outro abanam as respeitaveis cabeças, com calva e risca, com risca e calva, aquella distinção de porte e de vinco, aquella ponderação de estilo, aquella correcção de maneiras, aquella seriedade das seriedades, que a praça honra, que as firmas honram, que a Egreja honra, e de que até o proprio Deus do céo já está á espera com o palio meio aberto. A firma Elias & Melias tão correcta, com livros, ripolin nos caixilhos e nas almas, vê-se descascada até á medula e treme nos seus fundamentos. Está encalacrada. E o peor é que não são só elles que estão encalacrados, estamos todos encalacrados. Na verdade o que importa não é o que tu me dizes: é o que eu digo a mim mesmo... Ó Rinhe como tu rinhes com dôr, com desespero, n'uma forma pastosa, a que se misturam já palavras vivas, em logar das phrases dos relatorios e dos bancos! Decerto te sentes bem no pegajoso, mas por traz não te dá tregoas o impulso. Neste conflicto delicado só tu vinhas a tempo, ó morte que tão bem cheiras, e, cumpridas as formalidades do estilo, entregavas-me, com o testamento, a chave do cofre. Agora esta coisa encarniçada e feroz, sofrega e imunda, leva-nos a mim e a ti, com desespero e gritos, com as formulas e o vinco, com a praça e o credito!...

Agora não, D. Bibliotheca das Bibliothecas, já preparada com todos os requesitos e unguentos para o horror do nada! Agora não! Já tentaram desligar-te da vida com as palavras unctuosas do ritho e promessas de outra vida melhor. Que te resta? A vida eterna. Pôço p'ra a vida eterna! O que tu queres é esta vida, esta insignificancia e estes restos—e está aqui a morte inexhoravel. Tanta saudade! tanto apêgo! Tudo te doe e do fundo d'essa miseria e d'essa pelle engelhada vem um gemido baixinho diante da figura tremenda que não sae de ao pé de ti... Ó carne putrefacta, como tu te apegas a um resquicio d'esperança, a um só que seja! O que te custa a largar o brazão na fralda da camisa, o postiço de toda a tua existencia inutil, o alto da lista de subscriptores—tres tostões, seis tostões, um quartinho! ó carne fedorenta, ó carne já preparada para o mausoléo, com a gaveta aberta, latim e agua benta, dois involucros, um de mogno, outro de chumbo, e o picheleiro á espera!

E ahi os tens sem piedade, inexhoraveis como o destino. Agora não Elias & Melias, agora não D. Bibliotheca das Bibliothecas, estaes frente a frente com a realidade e a morte. Salta laré, perirone, perirote!

—Não quero morrer! não me deixem morrer! Chamem os meus filhos, chamem toda a gente. Não me deixem morrer!

Todos os apetites, todas as sensações que pareciam extinctas, assobiam como viboras. Horas antes de morrer ainda essa mulher está tão intacta por dentro como aos vinte annos. Ninguem a pode conter. Quer saltar pela cama fóra.

—Chamem os meus filhos! chamem os meus filhos!

—Chamem o procurador!

Mas o que ella exprime por palavras, pelo olhar, pelos gestos, é a ancia de viver.

— Não, não. Tirem-me para lá esse homem. O que eu quero é viver.

Vê no ultimo desespero a face estupida do procurador dizer-lhe coisas grotescas:

—Ó minha senhora cheguemo-nos á razão. Seja razoavel.

—Quero viver.

—Temos em primeiro logar a Egreja. Apelo para os seus sentimentos religiosos, que os teve sempre, e deante dos quaes me curvo respeitosamente. Apelo...

—Dêm-me o remedio! Quero viver!

—Segundo lembro a V. Ex. que tem sido até agora mãe extremosa dos seus filhos. Se volta aos vinte annos, pergunto respeitosamente a V. Ex.

a

, Ex.

ma

senhora, que é que V. Ex.

a

é aos seus filhos?

—Quero viver!

—Perdão minha senhora! Esta fortuna tão bem administrada pelo casal de que tenho sido bastante procurador a que mãos irá emfim parar? Peço-lhe que reflicta. Peço-lhe que se submeta. Lembro-lhe que estão alli fóra seus respeitaveis filhos subjugados pela dôr, lembro-lhe a sociedade, e atrevo-me a lembrar-lhe que não tarda ahi o D. Prior.

Um fio, falta só um fio, e ainda aquella figura grotesca se debruça para lhe dezer:—V. Ex.

a

...

—Fechem as portas! fechem as janelas! fechem tudo!—exclama o honrado Elias de Mello, com a calva arripiada.

—Não quero morrer!

Tem forças para saltar da cama, para se arrastar até á porta, e toda a noite no casarão echoam gritos.

Não quero morrer! Um minuto e mais nada. Um minuto e, contido n'esse minuto, o universo desabalado, a morte, o desespero e o procurador com o sêlo da lei e a saliva da lei. Tu d'um lado decrepita—e do outro a sofreguidão cahotica para mastigares com o unico dente que te resta na bocca. Um minuto e contido n'esse minuto os vivos e os mortos, o teu phantasma e todos os phantasmas, a realidade e o sonho,—tu ungida e tingida, nós e nós—nós correctos e grotescos—nós Melias e doirado, nós Melambes e phrenetico!

30 de abril

Donde emerge esta figura encharcada de lama, menos a sombrinha, que, apezar da dôr, conseguiu atravessar incolume todos os solavancos? A que se atreve depois de ver o filho? Cheguei a ter a visão nitida da montanha de pó acumulada sobre ella, e do desespero immenso para a romper.

Sabe tudo, vae dizer tudo. Tem alli as cautellas do prego e a malinha de mão onde levava escondidos, a enterrar, os fetos da D. Engracia; só ella pode desvendar os vicios occultos e o sitio onde a D. Bibliotheca tinha a sua fistula. Conhece as miserias e os segredos das familias correctas. Vae emfim dizer tudo, quando lhe surge o filho que não via há annos. Eil-o creado de orgulho e de codeas. Submete-se logo, mais coçada e mais gasta, diante d'aquella obra prima real e tangivel.—Pois sim, pois sim...—Ahi tens tu o teu sonho alimentado de codeas e transformado em realidade. Ahi está patente o sonho que sonhaste com inveja, o sonho que sonhaste com fél, aos ais, com a bocca tapada, o sonho feito de farrapos, que ocultaste de toda a gente para poder viver. Ahi está patente, á luz do sol, como os sonhos dos outros, de ambição e de imperio, o sonho que ninguem viu sonhar, e que sustentaste á custa da tua propria alma—ó Restituta da Piedade Sardinha!

...—Sejamos logicos mãe—diz elle—na vida é preciso ser logico. A mãe creou-me escondido, eu, por meu lado, disse sempre que não tinha mãe. Não hei-de agora que vou casar apresental-a:—«Aqui está a minha mãe que me creou de esmolas, que me creou escondido».

—Tens razão, filho.

—O que é preciso é que a mãe desapareça. O que é preciso é que a mãe, que tem sido logica deixando-me fazer carreira, não estrague agora tudo. Quem soube sacrificar-se para me engrandecer, deve continuar a sacrificar-se. Não lhe peço mais nada: desapareça.

—Desapareço.

Ella propria tem por aquella obra monumental de egoismo, o respeito que teve sempre por as pessoas consideraveis. Está alli na sua frente de chapeu lustroso e luvas esticadas. Acrescentem a isto amor. Levou annos a creal-o escondido, e revê-se embevecida nos cartões em que elle assigna Monfalcão dos Monfalcões (Sardinha). De resto não lhe custa nada desaparecer. Não lhe custa mesmo nada. É mais uma ordem a cumprir. Obedece. Obedece, como obedeceu sempre a D. Hermengarda, á D. Theodora, á D. Herminia, como obedeceu a todas as pessoas ricas e de consideração, como obedeceu á vida que fez d'ella um trapo. Apenas um minuto e esse minuto chega. Um minuto e mais nada. Nesse minuto a figura contrahida reconhece a figura de trapos e de restos. Nesse unico minuto de duvida a D. Restituta vive mil annos e um dia e concentra-se em horror e desespero. É o minuto supremo em que a velha Pois Sim se sente arrastada ao céo e ao inferno, ouve vozes que falam ao mesmo tempo, e ella mesmo pronuncia palavras que nunca ousou pronunciar, nem no recanto mais obscuro da sua alma.—Vi-o! vi-o! vi-o! Que é isto? que é isto que se me péga e se me entranhou na obediencia e na mentira? O que é isto que não comprehendo e que me doe? Desespero e pois sim, sofreguidão e pois sim, doirado e pois sim! Eu não posso com isto amargo e doirado! Eu só posso mentir, só posso obedecer, só posso com restos, com os restos dos restos. Tenho vivido desde o principio do mundo a escorrer fél e pois sim. Tenho sido sempre Pois Sim, só Pois Sim, e agora sou Pois Sim e desespero!

Desespero, e n'este desespero uma primavéra de restos, uma primavéra abortada, que só chega a deitar uma flôr miudinha como a flôr do escalheiro.—Mente! mente! mentir não custa nada!—Mas a D. Restituta já não pode mentir ainda que queira. Quer dizer que não, e com ella todos os mortos, todos os mortos que não se atreveram a sonhar, que não abranjeram o sonho, dizem á uma que sim, dizem com desespero que sim. Sonho e pois sim não cabem no mesmo sacco. Não cabem no mesmo sacco primavéra e pois sim. A sofreguidão atingiu o auge e tu viste-o! viste-o!...

Salta laré, perirone perirote!... A sacudidela de revolta extingue-se, sae da lucta exhausta, com todo o pezo da montanha em cima, diminuida, reduzida outra vez a pois sim... Esses minutos que passou só e contemplando a ruina de toda a sua vida foram amargos como fél.—Mete o diabo no sacco!—Tão cansada e tão gasta que nem as feições lhe reconheço; tão amarga e tão ridicula, tão pois sim, que da D. Restituta só resta uma expressão de dôr, de dôr mutilada a dizer que sim, sempre que sim—a dizer a tudo que sim.

—Mete tudo no sacco, mete-o com lagrimas requentadas e o fél da submissão. Mete a tua alma e a minha alma, gastas de

dizerem

a tudo que sim. Mete o diabo no sacco! mete tudo p'ra o sacco, desespero e doirado, sofreguidão e pois sim!

Balouça ao vento, a uma restea de luar, pendurado n'uma corda, o cadaver da D. Restituta, que parece dizer pela ultima vez que sim—para que o filho possa casar com a filha do conselheiro Barata. Balouça ao vento n'um sexto andar—esquerdo. Morre ignorada e desconhecida quem toda a vida viveu de codeas, para lhe assegurar o futuro e a assignatura com brazão e elmo, Monfalcão dos Monfalcões (Sardinha). Da mão crispada ninguem lhe arranca a photographia de quando elle era pequeno, com o fardamento da

Escola Academica

, como um guarda-portão em miniatura. A sombrinha lá está aberta ao lado da cama, por causa da humidade, e pela janela, aberta sobre o luar, veem-se os montes onde o Santo colerico não cessa de latir injurias sobre a villa agachada de terror.

6 de maio

Chegou. Abriu a mais bella, a mais fecunda, a mais doirada de todas as primavéras—a primavéra eterna. Revolveu a terra e cobriu os sêres e as coisas de flôres, por camadas ininterruptas e successivas, com todas as côres e todos os entontecimentos, todas as infamias e todas as tintas—com todos os desesperos. Está aqui tambem presente a floresta apodrecida... As arvores não se veem, mas estão tambem aqui... Está aqui a floresta apodrecida, e com ella as fórmas de sonho e as fórmas de dôr mutilada que vagueiam na profundidade das profundidades, os contactos viscosos, as mãos geladas ainda em esboço, os sêres cegos e com gritos, porque não sabem ainda viver, as fórmas hesitantes do pezadelo...

É aqui que corre e escorre o verde, o roxo e o lilaz—os tons violentos e os tons apagados. Até as arvores são sonhos. Atravessaram o inverno com sonho contido, com o sonho humilde com que carregam há seculos. E até esses sonhos se transformaram em realidade. Realisou-se emfim o milagre: as arvores chegam ao céo.

DEUS

10 de maio

O que eu sinto é o desespero de não haver dôr eterna. A dôr pela eternidade das eternidades era ainda viver. Sofrêr sempre, com a consciencia do sofrimento, é viver sempre. Antes o inferno! antes o inferno! o inferno em logar do nada.

O inferno era ainda o céo.

Alguma coisa nos conduz e nos leva até á morte. Rodeia-nos. Impele-nos. Não a vêmos e está ao nosso lado. Só ella existe no mundo. Estou nas suas mãos com desespero. Extasia-nos. Aturde-nos. Escarnece-nos.

Tu não existes! tu não existes! E não há mãos mais crueis que as tuas. És abjecta. És cega e phrenetica. Levas-nos enrodilhados e envolvidos. E queira ou não queira estou nas tuas mãos. Só tu existes no mundo.

Nem a vida nem a morte, nem o tempo nem Deus. A unica realidade és tu—fétida e immensa, sofrega e horrivel. Gritas? hás-de gritar pela eternidade das eternidades. Fazes parte para todo o sempre d'esta força que vem do principio da vida e se projecta nos confins da vida, com bocca ou sem bocca, capaz de todo o sonho e de toda a belleza—para nada! para nada!... Na minha alma reflecte-se o dialogo do universo como a claridade na agua para me entontecer.

Cheguei ao ponto em que tenho medo. Fecho as janellas, fecho tudo. Outra vêz a primavéra! outra vêz o escarneo! O que tu queres é iludir-me. A um dia de nevoa sucede um dia doirado. E extasias-me. Se abro a porta, a noite está cheia de estrellas e de vozes. No fim da tarde, quando a agua tem um som mais lindo, a neblina dá encanto á minha vida e aos grandes montes compactos. Alheias-me, fazes-me sonhar, levas-me escarnecido até á morte. Atraz de ti só há dôr e o desconhecido. Mascaras-te para me iludires. Mais uma vez tentas inebriar-me com o teu arôma; mais uma vez os pinheiros sacodem no ar o seu polen sulfuroso... Não quero vêr! não posso vêr! Não te posso vêr! A vida é amarga, a primavéra é secca e inutil. Fecho tudo para não te vêr. Fecho tudo para não vêr a primavéra e sinto-a atravez dos muros.

Oh o grande oceano, a torrente impetuosa—sempre! sempre—o mar de mãos fluidas que me envolvem—o mar do silencio, o grande mar inexgotavel que deslisa no silencio—como tudo isto me mete medo!

Reconheço-te força, mas não me importas nada. Este deus faz o que elle quer e não o que eu quero. Este deus desordenado e imenso, não é feito á minha imagem e semilhança. Não me ouve nem me atende. Não o posso desviar da sua marcha á custa de suplicas e de gritos. Não se apieda. Não sei se tem o sentimento da justiça. Talvez tenha outro sentimento de justiça—outro maior—outro que não abranjo. Este deus não me é nada. Para elle é vão tudo o que se grita no mundo, tudo o que se sofre no mundo é vão. Todos os santos são grotescos. Todos, os que te chamaram e suplicaram, todos os que te ofereceram a renuncia e a dôr, o fizeram no vacuo. Pai, tu não existias! E não existindo impeles-me, entonteces-me e esmagas-me. Estou nas tuas mãos e não as vejo. Crias-me e não existes.

Eu sei, eu sinto que estás ahi desconforme, vivo, e obstinado—mas não és o meu deus. Tanto faz esfacelar-me contra este muro compacto, como conservar-me quieto, indiferente e calado. Tu estás ahi patente, vivo como a vida, mas não me conheces nem eu te conheço a ti. Não nos chegamos a entender. Não tens nome. E estou nas tuas mãos.

Estou nas tuas mãos e não me interessas. O que me interessava eras tu. Tu, que não existes, entranhaste-te-me na carne e no osso, de tal forma que não me livro de ti. Não existes e dominas-me. Não existes e torturas-me. Não existes e só tu és a razão da minha vida, dos meus actos, e do meu sêr. Não existes e só tu existes. Tenho mil annos e um dia para prégar deante do vacuo que não existes. Para te chamar sabendo que não ouves. Disponho de mil annos e um dia de desespero, de mil annos e um dia deante da mudez, a clamar, a prégar, a mentir.

O resto são phrases e mais nada. Só a vida futura, só a vida presente sob o teu olhar tinha finalidade e razão de sêr. O resto são phrases com que me procuras iludir e com que te procuro iludir. Porque se um dia, sós a sós com a tua alma, te detiveste deante d'estas palavras—a vida eterna e a morte eterna, não como palavras mas como realidades, nunca mais podeste desviar o olhar.

O que me interessava eras tu porque para, que tu existas é preciso que eu exista tambem. Eu não posso passar sem ti, mas tu não podes passar sem mim.

Se tu não existes, estou nas mãos da força obstinada e cega. O que me interessava era o espectaculo da minha propria alma, o dialogo dos dias e das noites entre mim e ti, a immensidade temerosa mas viva, de que eu fazia parte.

E agora, reconheço-o, toda a dôr resulta de eu criar um universo que não existe. De tu me creares a mim e de eu te crear a ti. O resto do universo ignora a vida e a morte. Toda a dôr resulta d'este esforço para a mentira. De eu não não me submeter á força desabalada e cega. De eu têr inventado um Mundo maior que o teu e diferente do teu, para o sobrepor ao mundo cahotico, ao mundo atroz. De mentirmos com obstinação até á cova, ao céo e ás estrellas. D'estas duas creações antagonicas resulta a maior dôr humana. Se eu não tivesse criado outra vida imaginaria, tu passavas e calcavas-me, tu passavas e esmagavas-me, mas não me cabia em lote a morte e a consciencia da morte, a vida e a consciencia da vida. Mas creando a mentira tragica sou maior do que tu.

Resta-me o bem. Mas fazer o bem para quê se tudo acaba alli, se não ha outra vida consciente, se não tenho de responder perante ti pelos meus actos? E mesmo diante do escantilhão sofrego, o que é o bem e o mal? A que eu tenho de obedecer é ao instincto e mais nada. Se não estás ahi para me julgar e para me ouvir, que importa fazer isto ou fazer exactamente o contrario? Só uma coisa resta: iludir os desgraçados, leval-os para uma mentira cada vez maior, para que possam suportar a vida. Não se trata do bem ou do mal, do justo ou do injusto—trata-se de mentir, de mentir sempre—de mentir cada vez mais.

Estou nas tuas mãos... Esta noite limpida como um diamante polido não existe. O que existe é atroz... Nem a primavéra existe, e tudo se entreabre em entontecimento azul. Nem esta harmonia dos mundos, que eu criei, existe. O que existe é atroz. Nem este sonho em que ando envolvido e iludido. Só tu existes no mundo e me trazes estonteado no mundo. Fecho-me para te não vêr e estou nas tuas mãos. Se eu pudesse ouvir-te, ouvia todos os gritos que se soltaram no mundo, se eu pudesse encarar-te em toda a tua plenitude—via o negrume monstruoso e cahotico avançando para mim, o repelão doirado levando tudo diante de si, no desespero, na vida e na morte, esmagando sempre e renovando sempre, para crear mais dôr. Não te fartas. Isto é desconhecido, é absurdo, é eterno—mas a belleza tragica da vida ephemera consiste em te resistir, todo o nosso afan em crear uma mentira para opor a tua verdade—de que resulte dôr. Tu podes tudo como verdade. Estou nas tuas mãos. Eu posso tudo como mentira, e só assim saio das tuas mãos. A verdade é a dissolução e a morte, és tu; a mentira é a vida. Resisto-te para poder viver; para poder viver crio a mentira tragica. Se cedo ao teu impulso, se escuto as tuas vozes, levas-me para uma vida inferior; se te oponho a mentira, caminho por uma via dolorosa: engrandeço-me. Estou nas tuas mãos—e nego-te. E o homem é tanto maior quanto mais alto afirma que existes. Crispa-se-lhe a bocca, dilacera-se até ás ultimas fibras, lucta, grita e sae em farrapos das tuas mãos.

Todos os heróes são martyres, todos os santos foram iludidos até á morte.

CÉO E INFERNO

20 de maio

Toda a villa, a villa toda, a que a luz artificial dava relevo, desata a gritar como se lhe arrancassem a pelle. Gritam as velhas, grita o Santo em frente da sombra que se lhe introduziu na vida. Grita a paciencia e a mentira, grita a hipocrisia. Desapareceram as figuras e só ficam gritos na noite. Outro passo—outro grito. É a custo que me separo d'este sêr com quem cohabitei sempre. O escarneo está aqui; está aqui o escarneo e o rancor. Gritam no mundo subvertido. Mais gritos. Que dever? O dever de te matar? O dever de te cuspir? Matal-a, mas matal-a é até um caso de consciencia, para que a minha vida seja a minha vida.—E os gritos augmentam—gritos de dôr, gritos d'espanto, gritos sufocados de colera, mais gritos de sêres que se não querem separar da antiga carcassa.

Tudo isto caminhava para um fim, tudo foi desviado ao mesmo tempo d'esse fim; tudo isto se alimentava de certas regras, tudo avança desesperado, aos gritos, ancioso e doloroso:—Pois és tu! és tu! E o interesse és tu! e o amor és tu!—O desespero augmenta, os gritos redobram. As creaturas com que deparo são temerosas. Uns desatam a rir com rancor e sarcasmos sobre sarcasmos. Há-os que se reduzem a baba e a pó.—O quê, tudo isto era tão pequeno! Pois passei metade da existencia, annos atraz do annos, ao lado d'esta coisa feroz e esplendida, absorto em ninharia! E nunca dei pelo assombro, pela vertigem! Atrevo-me a matar, atrevo-me a odiar, atrevo-me a escarnecer-te...—Mas então—pergunto—eu fui o homem escrupuloso, eu fui o homem honesto que luctei toda a vida com os maus instinctos, n'um combate perpetuo—para isto? Pergunto—para isto? Alli aquella desata aos berros e sêres caminham transfigurados; sêres que nunca sonharam, materia impenetravel, deparam pela primeira vez com o sonho, o que os deixa atonitos. Ninguem pode encarar-se até ao fundo. A tua meticulosidade é de ferro, está de tal maneira entranhada no teu sêr que sem ella não existes. Pois até a tua meticulosidade se há-de dissolver. E tu sem o habito não existes, nem tu sem o dever, nem tu sem a consciencia. A D. Ursula que passou a vida a esfregar, a polir, a limpar os moveis reluzentes, deita-os todos a esmo do terceiro andar á rua.—Adoro-a mas não posso separar o interesse do amôr—não posso separal-os. Está dito e redito. No fundo do meu pensamento, bem no fundo de meu horrivel pensamento, uma outra ideia lucta, avança e não a posso arredar. Estraga-me a vida toda.—O mundo moral está com escriptos e reduz-se a uma loja escura, com teias de aranha no tecto.

Vemo-nos! vemo-nos que é o peor! Porque na verdade eu nunca me tinha visto n'esta horrivel nudez sem arrepanhar á pressa os vestidos. Eu metia-me medo. E agora vemo-nos! vemo-nos! Todos os sêres são temerosos. Mesmo grotescos são tragicos. Há n'este trapo que creaste, n'esta corôa de lata que foi a tua vida, não sei o quê que sua espanto. E dôr! e dôr na tua duvida ridicula, no vislumbre, no minuto de sonho que entrevi nos teus olhos. Este momento tragico, esta pausa, este horror em que cada um se vê na sua essencia, em que cada sêr se encontra sós a sós com a sua propria alma, reduzido sem artificios á sua propria alma, só tem outro a que se compare, aquelle em que cada um vê a alma dos outros. Porque, por melhor ou peor que tenhamos julgado os outros, vimol-os sempre atravez de nós mesmos.

O que ahi está é temeroso, sêres estranhos; sêres que, se dão mais um passo, nem eu nem tu podemos encarar com elles. Andam aqui interesses—e outra coisa. Com mil palavras diversas e ignobeis, mil boccas que te empurram para a infamia—outra coisa. Tens de confessal-o. Não é a consciencia—não é o remorso—não é o medo. É uma coisa inexplicavel e immensa, profunda e immensa, que assiste a este espectaculo sem dizer palavra—e espera... És immundo, és a vida. Não te sei definir, não te comprehendo. Se te levo até ao ultimo extremo perco o pé... Não sei até onde vae o meu horrivel pensamento. Até aqui tinha limites, agora nem o meu pensamento nem o teu encontram limites. Matar ou deixar de matar é tudo a mesma coisa. É tudo inutil. Agora não! agora não me quero ver nem te quero ver! Estamos no céo; e no inferno, D. Idalina e a langonha. Estamos no céo e no inferno, Anacleto, e tu ainda te enroscas na tua inalteravel correcção. Não te desmanches! Estamos emfim todos no céo e no inferno, e todos á uma percebemos que a vida foi inutil. É com gritos que a D. Leocadia reconhece que o escrupulo não existe; é com espanto que ella percebe que o bem que fez foi inutil; é com horror que a D. Leocadia comprehende que só lhe resta o vacuo. A inteiriça D. Leocadia berra no infinito, depois de se desfazer de todos os sentimentos falsos:—Mas eu cumpri sempre o meu dever!—Há-de-te servir de muito!—E aqui te encontras diante desta coisa que não foi feita para ti, aqui estás tu atirada de repente para uma acção sem limites, com os cabelos em pé,—tu D. Leocadia e o infinito; tu D. Leocadia que moravas entre quatro paredes a rever salitre, e agora tens de morar no céo e no inferno. O drama é tu, D. Leocadia, não te poderes desfazer da outra D. Leocadia; o drama supremo é tu seres ao mesmo tempo, D. Leocadia 29-3.º-D e D. Leocadia Infinito.—Reduzi-me a isto e reduzi-a a isto! Cheguei ao ponto! cheguei ao ponto! Cheguei ao ponto em que te vejo cara a cara e percebo que tudo é absurdo e inutil! Talvez o meu dever fosse fazer o mal. Atraz de mim, atraz de ti, andavam duas figuras, que, por mais esforços que fizessem, nunca se chegaram a entender!—A tua vida, a minha vida, foi um perpetuo inferno. Tiveste um filho e apegaste-te mais ao teu dever que ao teu filho. Dedicaste-lhe as tuas economias. Por o dever esqueceste interesses e paixões, e na tua alma solitaria só coube o exaspero e o dever. Mais nada. E á medida que a vida te inutilisou as ambições e te gastou os sonhos, mais te apegaste a essa palavra, que foi a unica razão da tua existencia. Tambem eu! tambem eu! Fechaste-te com ella no silencio gelido da villa, onde, nas noites sem fim, se chegava a ouvir o contacto das aranhas devorando-se com volupia no fundo dos saguões. Todos os dias pezaste o pão que lhe déste, mas déste-lho. E, tendo perdido tudo, só o dever te restou no mundo—e a orfã, a quem já não consegues reconhecer as feições. A mesma coisa nos dilacerou a ambos, a mesma coisa dolorosa nos encheu de colera, á medida que caminhavamos para a velhice e para a morte. E aqui chegaste, aqui cheguei, ambos ridiculos e amargos, sahindo d'uma lucta desesperada com outra coisa que nunca quizemos vêr. Ambos grotescos e de pé, tu e eu, eu e tu, com o teu broche, onde o mesmo sujeito de suissas—lembrança do primeiro matrimonio!—não tira de mim os olhos aguados de peixe. Ambos tendo atravessado n'uma taboa o mais tragico de todos os mares, e no fundo a mesma dôr, no fundo o mesmo fél, no fundo o mesmo esforço para sustentarmos sobre a cabeça esta abobada que não existe. O que não queriamos vêr era a noite...—Vontade tinha eu de fazer o mal, o que me não atrevia era a fazel-o.—Oh D. Leocadia dá um passo, outro passo ainda e mergulhas na beatitude como quem cumpre um destino.—Cessou o debate.—Não fales mais, D. Leocadia. Está tudo dito...

A figura que ahi vem mastiga em secco, com uma camada de verde e outra camada de sonho. A figura que ahi vem, d'um egoismo concentrado, e a que adherem ainda os mil e um nadas da sua existencia

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de molusco, avança hirta para mim, inteiriça como uma barra de ferro. Ainda cheira a môfo, mas os olhos entranham-se-lhe n'um vasto panorama inexplorado. Vê para dentro, cada vez mais sofrega e o seu sonho não tem limites. O mal não tem limites. Tem diante de si mil annos e um dia para essa absorpção dolorosa e tragica. Abarca o mundo. Ó D. Leocadia agora é que tu chegaste ao amago! É um conflicto entre ti e os outros mortos, uma lucta num tablado que abrange o universo. D'ahi o seu prestigio—d'ahi o immenso scenario que se desdobra deante da D. Leocadia absorta n'esse panorama sem limites...

Só há no céo e no inferno outro espectro peor. É este sêr sem nome, pedra e desespero, noite e desespero, que se imobilisa na inutilidade de todos os esforços.

Todos gritam de desespero no céo e no inferno. Confundem-se mil boccas, as coisas mais altas e as coisas mais reles. Aqui está a villa toda, virada do avesso, os ridiculos sem vergonha do ridiculo e os infames lambendo a infamia. Aqui está a ilusão—e aqui está em pello a D. Possidonia, que ainda conserva na cabeça o chapeu de plumas. Aqui está a ordem e aqui está a desordem, as palavras inuteis e a inutil burandanga, toda a formula, todo o calvario da vida para subir até a morte—e aqui nos vemos uns aos outros tal qual somos, admiraveis, obscenos, reles, todos da mesma lama e com as mesmas chagas.—Eras tu força estupida e cega que me enchias de ilusão para poder suportar a vida? Eras tu o interesse, eras tu o amôr?... Aqui estão d'uma banda as formulas (e só agora comprehendo a sua necessidade) aqui está do outro lado a vida; aqui está o que se chamava a honra, e o que se chamava o dever. Ó amigos eis aqui todo o nosso grotesco, todas as nossas ambições, todas as nossas vaidades—e com ellas o absurdo e a logica. E eis aqui o meu drama e o teu drama. Os grandes desmoronamentos, a colera duns e o terror dos outros. Eis aqui o céo e o inferno, o maximo de ilusões e a ausencia completa de ilusões. Aqui as vaias, o sarcasmo, os apupos, os grandes insultos e a suprema mixordia. Desmoronou-se tudo, todas as fachadas e todos os artificios. Gritos, mais gritos, mais sarcasmos e insultos.—Como eu te reconheço! e a ti! e a ti!—E a ti que és a figura silenciosa que há tanto tempo me persegues, calada e triste, o que eras a peor. Tu que curvas a cabeça, sem nunca te pronunciares, tu que sofres quando eu sofro, que te envolves em silencio quando persisto n'este caminho doloroso—como te reconheço!—Dá gritos! podes gritar á tua vontade!

Agora estou nu e toda a mentira me é impossivel; agora estou nu e todas as palavras são inuteis; agora estou nu deante da immensidade e não posso ao mesmo tempo com o céo e o inferno. Agora é peor, agora tanto faz resistir um dia como um seculo. Agora é peor: não nos podemos ver. Como dois amigos que se encontram passados muitos annos, perdemos todos os pontos de contacto. Estamos aqui a representar: a verdade é que não nos podemos ver. Eis-nos bichos em frente de bichos.

25 de maio

Eis emfim a villa sonho, a villa phantasma. Reparem nas pedras e no que ellas exprimem, na alvenaria e castanho assentes com outro destino... Ruas lageadas, recantos onde nunca entrou o sol. Paredes mestras. Silencio e humidade até á medula, gestos lentos, habitos regrados. Uma rua desce até á egreja de cantaria lavrada. Um predio enorme avança sobre a ruella onde os passos echoam. Cresce aqui uma vegetação especial de sepulchro, e a sombra absorvida pelas muralhas da Sé exhala-se em bafo passado um seculo. Os alicerces são temerosos, as traves d'uma casa davam para a construcção d'um bairro. E tudo isto se entranhou de salitre, de interesse e de odio. Em tudo isto há uma mescla de inutilidade, de fé e de sonho. Tudo isto está cimentado para seculos. Cada barrote foi pregado com um destino, cada bloco metido na terra para se lhe erguer em cima não uma parede, mas uma ideia, uma vida, uma alma—tudo isto tem uma camada de bolor e se impregnou de desespero. Até os sepulchros foram construidos para a eternidade. A pedra depois de talhada, é uma expressão. Entro na cathedral. Silencio e um cheirinho a floresta apodrecida. As lages estão gastas d'um lado pelos passos dos vivos, do outro pelo contacto dos mortos. Tudo aqui gira em torno da mesma ideia... A pedra esboroa-se, mas eu contemplo-a viva, com um povo de estatuas em cima, com um povo de mortos em baixo. Nos alicerces uma geração, outra geração, todos apodrecendo juntos na mesma terra misturada e revolvida. A parte exterior é maravilhosa, a parte subterranea é mais maravilhosa ainda. É a unica raiz que se conserva intacta.

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