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Historia da litteratura portugueza [Vol. I]

II Elementos dynamicos da Litteratura

Reading edition

As instituições sociaes no seu funccionamento normal, transformando-se e acompanhando o progresso humano nas varias cathegorias da evolução economica, politica e moral, e do seu desenvolvimento esthetico, scientifico e philosophico, são como uma energia ou um organismo em estado dynamico. As Litteraturas como expressão da affectividade, reflectem todos os impulsos d’estes varios factores do progresso social, e modificam-se continuamente obedecendo a esse dynamismo. Costumes estaveis e opiniões conscientes criam uma sociabilidade que se alarga pelo sentimento de patria; sentimentos collectivos é que determinam pela necessidade da sua expressão a elaboração esthetica de uma litteratura e de uma arte nacional. A Edade media é o grande campo historico em que as raças barbaras da Europa, depois da ruina do Imperio romano, foram espontaneamente estabelecendo as suas bases de ordem, e organisando-se em novas nacionalidades, que se tornaram por um concurso successivo instrumentos de progresso, como continuadoras da Civilisação occidental. Essas novas nacionalidades foram remodelando os antigos poderes temporal e espiritual no Feudalismo e na Egreja; reconstituindo a familia pela elevação moral da mulher; nobilitando o trabalho pela emancipação das classes servas no proletariado que se tornou o terceiro-estado; creando as linguas romanicas, e uma arte original, sobretudo a architectura e a poesia, para exprimirem este espantoso concurso de sociabilidade. As nacionalidades modernas ao cooperarem n’este movimento, exerceram uma acção hegemonica umas sobre as outras, as mais adiantadas, como a França, sobre as mais rudimentares ou mais remotas. As Litteraturas meridionaes, franceza, italiana, hespanhola e portugueza foram a consequencia d’esta vasta organisação do Occidente, actuando sobre o desenvolvimento das linguas romanicas, e tornando-as aptas para exprimirem poeticamente os sentimentos d’esta mais ampla sociabilidade, e logicamente os pensamentos de uma mais profunda capacidade intellectual. Uma mesma noção, como observou Littré, rege a historia politica e a historia litteraria das nações occidentaes; é impossivel conhecer uma sem a outra. N’este longo periodo de transição entre o mundo antigo e a edade moderna, a Edade media apparece como uma éra de transição; n’ella se criam as condições staticas do futuro progresso humano. É na Edade media que existem todos os germens tradicionaes e estheticos, que receberam ulteriores fórmas conscientes de Arte e de Litteraturas; mas esse mesmo caracter de transição, tirou á estabilidade das instituições, das opiniões e dos interesses sociaes uma continuidade necessaria para serem idealisados lentamente e generalisarem-se como thema de obras bellas. Comte notou admiravelmente esta caracteristica da Edade media, que veiu a influir na vacilação das Litteraturas modernas; bellos germens para uma larga e fecunda elaboração esthetica, e transformações rapidas, ou crises revolucionarias na sociedade europêa alterando as sympathias pelo passado, e fazendo cahir na indifferença os themas da idealisação. O que é o caracter satyrico, predominante nas Litteraturas romanicas, como observou J. J. Ampère, senão a consequencia do desprezo dos velhos themas religiosos e heroicos, quando os dois Poderes espiritual e temporal entraram em uma dissolução no seculo XII? O que é o prurido da imitação classica das Litteraturas greco-romanas, da Renascença humanista até ao pseudo classicismo francez, senão a desorientação d’essa instabilidade social, que procura novas bases de ordem? É d’esta instabilidade que resultou o antagonismo que Frederico Schlegel definiu nas litteraturas modernas, entre os seus germens medievaes espontaneos e a auctoridade dos modelos classicos impostos pela imitação erudita. Comte penetrou a essencia do problema, deduzindo-o do phenomeno da dissolução do regimen catholico-feudal com que termina a Edade media. A evolução esthetica medieval inspirára-se de todos os elementos sociaes existentes: do militar ou feudal, na idealisação das epopêas ou Gestas heroicas; do theologico ou sacerdotal, na hymnologia, na arte architectonica, na musica e nas riquissimas lendas populares; do industrial, na coordenação dos cantos lyricos, das Festas civicas e dramaticas; e por ultimo d’esse estado mental do positividade ou de criterio de bom senso, que reage contra os preconceitos e avança para a comprehensão scientifica e philosophica, que tanto transparece nas satyras e nos contos. Alterados estes elementos sociaes, toda essa riqueza esthetica da Edade media ficou prejudicada, justamente quando o novo grupo das Linguas romanicas estava apto para dar-lhes expressão na elaboração das Litteraturas modernas occidentaes. Observemos pois o processo, em que as Litteraturas acompanham a intensa crise social e mental d’esta longa phase revolucionaria que vae do seculo XII até ao seculo XIX, reflectindo os seus principaes movimentos.

§ 1.—A Edade media

(HEGEMONIA DA FRANÇA)

A Edade media é a origem de todas as fórmas da evolução esthetica moderna; n’essa grande época de elaboração fecunda, as manifestações dos sentimentos pessoaes, domesticos e sociaes, que correspondem ao lyrismo, ao drama e á epopêa, acham na transformação da vida collectiva estimulos para se desenvolverem estes caracteres do individualismo humano. Comte esboça com nitidez esta evolução esthetica, que se alarga idealisando as emoções de cada um dos elementos sociaes que se debatem, o feudal ou militar, o theologico ou sacerdotal, o industrial ou proletario, e o positivo ou esse estado mental tendendo a julgar pela observação: «Sendo as faculdades estheticas por sua natureza, essencialmente destinadas á ideal representação sympathica dos sentimentos que caracterisam a natureza humana, pessoal, domestica ou social, o seu desabrochamento especial, seja qual fôr o ascendente que se lhe attribua, não bastava para definir na realidade a civilisação correspondente.» E continúa deduzindo da Edade media as condições para a grande expansão esthetica moderna: «um estado social tão fortemente pronunciado como o da Edade media—verdadeira fonte necessaria da evolução esthetica das sociedades modernas.—Os costumes feudaes tinham desde logo impresso aos sentimentos de independencia pessoal uma energia habitual até então desconhecida; ao mesmo tempo a vida domestica fôra sobretudo commumente embellezada e alargada, muito além do que fôra possivel aos antigos, principalmente em virtude das felizes mudanças effectuadas na condição da mulher; finalmente, a actividade collectiva, quando ella pôde então ser convenientemente exercida, deveria com certeza constituir uma fonte não menos poderosa de inspirações poeticas e artisticas, segundo a nova convergencia moral que devia apresentar o grande systema das guerras defensivas peculiar a esta memoravel phase da humanidade.»[97]

Apesar de toda esta riqueza de elementos, as Litteraturas modernas permaneceram longo tempo estacionarias, por que dependiam da creação de uma linguagem apta a exprimir um novo estado de consciencia e sentimentos apropriados a uma mais ampla sociabilidade, em que tanto cooperára o espirito da confraternidade christã. O phenomeno da creação ou derivação d’esse systema de linguas era em si já uma elaboração esthetica; basta vêr como ellas se tornam mais fecundas pelo desdobramento morphologico e semeiologico dos duplos ou vocabulos divergentes, e caminham pelos seus recursos analyticos das preposições e dos verbos auxiliares e variedades pronominaes para uma maior clareza logica. Por certo que a lingua que primeiro exprimisse toda esta riqueza poetica seria aquella que se universalisaria por vir no momento em que satisfazia uma necessidade da sociabilidade europêa, como aconteceu com o francez.

O desenvolvimento tardio das manifestações litterarias e artisticas do genio moderno é explicado por Comte pela necessidade de um trabalho prévio, e da creação das linguas modernas. Mas esta mesma elaboração é considerada pelo eminente philosopho como um producto das faculdades estheticas: A creação das Litteraturas modernas esteve estacionaria durante «uma lenta e difficil operação preliminar, cuja indispensavel realisação devia preceder, por absoluta necessidade, a expansão directa do genio poetico; comprehende-se que se trata da elaboração fundamental das linguas modernas, nas quaes, em meu entender, deve vêr-se uma primeira intervenção universal das faculdades estheticas.»[98] E mostrando como estas faculdades são as menos inertes na maior parte das intelligencias, verifica o seu exercicio no facto do aperfeiçoamento da lingua vulgar: «Esta propriedade necessaria tornou-se ainda mais evidente quando se exerceu, não na creação espontanea de uma lingua original, mas na transformação radical de uma lingua anterior, era consequencia de uma nova ordem social.» É n’este ponto que o philosopho mostra como n’esta creação das linguas romanicas, já se deu o antagonismo entre a evolução organica da Edade media e o espirito classico e auctoritario da antiguidade: «Apezar da actividade que o genio philosophico e o genio scientifico puderam manifestar na Edade media,—seguramente muito pouco contribuiram um e o outro para a fundação geral das linguas modernas. Apezar das vantagens essenciaes que cada um d’elles ulteriormente tirou da superioridade logica propria dos novos idiomas, o longo uso que ambos fizeram do latim, depois que cessára inteiramente de ser vulgar, confirma bem a repugnancia e a sua inaptidão naturaes para dirigirem a elaboração da linguagem usual. Era então a faculdades menos abstractas, menos geraes e menos eminentes, mas tambem mais intimas, mais populares e mais activas, que devia necessariamente pertencer esta indispensavel operação. Essencialmente destinada á representação universal e energica dos pensamentos e dos affectos inherentes á vida real e commum, nunca o genio esthetico pôde convenientemente fallar uma lingua morta, nem mesmo estrangeira apezar de todas as facilidades excepcionaes obtidas por habitos artificiaes.»[99] A lingua franceza exerceu um extraordinario perstigio nos espiritos: «cor parmi le monde, et est la plus detilable à lire et à oir, que nulle autre,» como affirmava Martin de Carrale, justificando-se de escrever em francez a sua Historia de Veneza; Bruneto Latini, o mestre de Dante, escreve tambem em francez, Marco Polo, Rusticiano de Pisa, Fazio d’egli Uberti, e tantos, contra o que levado pelo espirito nacionalista protestava Benvenuto de Immola.

Sonhando a independencia do territorio que fôra dado em dote a sua mulher D. Thereza, o Conde D. Henrique chamou para Portugal colonias francezas, as quaes radicando-se no solo o coadjuvassem no plano da autonomia territorial. A vinda de cavalleiros francezes ás guerras das Cruzadas, e a sua passagem por Portugal, contribuiram para a disseminação das tradições poeticas do cyclo carlingio, que percorriam a Europa, e das canções lyricas trobadorescas; assim, além da influencia ecclesiastica, se estabelecia a hegemonia franceza nos primordios da cultura portugueza, quer sob o aspecto social como sob o mental. No seu estudo Les Communes françaises en Espagne et en Portugal, escrevem Helfrich et Clermont: «quasi que não ha provincia ou districto em Hespanha, em que não penetrassem francezes, ou costumes francezes.»[100] Atouguia, Lourinhã, Villaverde, Azambuja, Cezimbra foram fundadas por colonias frankas. Reconhecendo a influencia da lingua franceza no gallego e no portuguez, continuam os mesmos auctores: «Mas a verdadeira influencia, influencia duravel e preponderante que a França exerceu na Hespanha, deve ser procurada no espirito das suas leis.—O ponto de partida, o fóco, por assim dizer da propaganda politica que emanava da França, foi a Abbadia de Cluny, uma das mais grandiosas creações do seculo X, e o centro das ideias religiosas de que mais tarde Gregorio VII se tornou o representante.—Em Hespanha os monges de Cluny fizeram supprimir o ritual gothico para o substituirem pelo ritual gallicano. Em vez da escriptura gallicana introduziram a lettra franceza, esforçando-se para que prevalecesse em Castella a legislação da Bourgogne.» Por esta influencia se estabeleceram em Portugal os monges de Cistér, que segundo Victor Le Clerc substituiram o rito isidoriano (mosarabe) pela liturgia gallicana. Esta ordem religiosa, pelo seu caracter austero anti-artistico repellindo systematicamente o bello (a ornamentação era o caracteristico do estylo arabe), teve uma forte preponderancia nos primeiros seculos da monarchia, obstando em certa fórma á manifestação do genio portuguez. As Cartas de Foral têm grandes analogias de redacção e de garantias ou frankias politicas com as das communas francezas. Na reforma judicial do tempo de D. Affonso III, os Corregedores imitam os Missi dominici dos Capitulares de Carlos Magno. Não só bispos francezes regem as sés de Portugal, como os bispos portuguezes D. Geraldo, D. Mauricio, D. Hugo, D. João Peculiar, D. Bernardo, fizeram a sua educação em França. Obedecendo ainda a esta corrente civilisadora, teve o rei D. Diniz por mestre o francez Aymeric d’Ebrard, a quem fez bispo.

Condições particulares favoreciam a França para esta hegemonia europêa; herdeira da cultura grega em Marselha, e da romana em Tolosa, tinha conservado o impulso como continuadora da Civilisação occidental. Pela região da Aquitania, propagava-se ethnicamente o seu influxo á Italia, em Hespanha, em Portugal, além das relações politicas estabelecidas desde Carlos Magno. Os dialectos da França meridional, do Languedoc, da Provença, do Delphinado, do Lyonez, do Auvergne, do Limousin e da Gasconha, facilitavam a communicação da nova poesia lyrica trobadoresca, que veiu exercitar as linguas romanicas litterariamente. Pelo seu elemento franko podia a França exercer sobre as raças germanicas da Allemanha e da Inglaterra egual hegemonia, propagando até lá as suas Gestas épicas e cantos lyricos, e a cultura mental das Universidades. Assim, pelos dialectos da França septemtrional, taes como o Normando, o Picardo, o Flamengo e o Wallon tornava-se facil e natural a communicação com populações que fallassem qualquer dialecto teutonico. Na Inglaterra essa influencia primeiramente exercida pela conquista normanda, subsiste nas leis promulgadas por Guilherme o Bastardo em lingua franceza, que era tambem obrigatoria para as resas e sermões ecclesiasticos, e ainda em 1328 eram os estudantes da Universidade de Oxford obrigados a exprimirem-se em lingua franceza. É esta importante hegemonia o que mais claramente explica o desenvolvimento de todas as Litteraturas romanicas que tiraram d’ella os germens fundamentaes com que elaboraram as suas creações estheticas, na Edade media. Para bem julgar este imponente phenomeno artistico importa conhecer o caracter social ou politico d’essa grande época historica.

Dois poderes preponderaram na reorganisação social da Europa, depois da queda do Imperio: o poder espiritual ou da Egreja catholica e o poder temporal dos chefes militares ou Feudalismo. Em relação ao mundo antigo representam estes dois Poderes um alto progresso, por que se separaram, e nunca mais, apezar das suas mutuas usurpações, conseguiram confundir-se. É este antagonismo intimo que constitue os grandes conflictos symbolisados nas Duas Espadas, ou luctas entre o Sacerdocio e o Imperio. Mas o principal phenomeno social que resultou d’este antagonismo, foi a transformação d’esses mesmos Poderes: avançando para a affirmação da intelligencia humana, a rasão procura pela critica, pela observação e experiencia um novo poder espiritual na sciencia; por outro lado, a liberdade humana firmando-se na actividade pacifica da industria e mutua regularisação dos interesses tornou cada vez menos necessaria a actividade militar e os chefes feudaes foram fatalmente cahir sob a dictadura ou concentração do poder temporal da Monarchia. Foi pois a Monarchia uma transformação coadjuvada pelas classes industriaes, agricolas e mercantis, por que se absorvia em si todos os poderes era como garantia de tornar a lei egual para todos. Comte formulou esta noção tão clara de toda essa Edade tempestuosa: «Sob qualquer aspecto que se examine o regimen proprio da Edade media, vê-se sempre emanar da separação dos dois Poderes, ou da transformação da actividade militar.»[101]

O Feudalismo e a Egreja organisaram-se á imitação um do outro, nas suas hierarchias, na mutua dependencia dos seus membros; n’este esforço de se confundirem, desnaturaram-se explorando a sociedade. A Egreja dominava pelo terror moral, o Feudalismo pela compressão material, ambos pelo obscurantismo. Uma tinha a servidão voluntaria (oblatos), o outro a servidão hereditaria (os da gleba); a humildade evangelica e a fidelidade do homem-ligio levavam á mesma negação da dignidade do homem. O papa comparava-se ao sol, como Gregorio VII, considerando os imperantes como a lua, corpos opacos que só podiam receber a luz ou a investidura soberana de Roma. O papado tornára os reinos da Europa seus feudatarios, cobrando alcavalas em paga das graças espirituaes. Em vez das terriveis pestes, cahiam sobre os estados as tremendas maldições e interdictos da Egreja, que absorvia em si todas as capacidades intellectuaes, tornando inconciliaveis o clericus e o laicus. Tal era a antinomia expressa pelo symbolismo medieval das Duas Cidades. É pois natural que aos primeiros lampejos da rasão, as cousas religiosas decahissem de respeito, sendo parodiadas sarcasticamente pelo povo nas festas grotescas (Missa do Asno, Festa dos Tolos), e pelos cultos nas satyras pungentes e desenvoltas dos Goliardos.

O Feudalismo, apezar de todas as eminentes qualidades da cavalleria e da heroicidade, tornava-se odioso pela intervenção arbitraria da força. Falhando-lhe os motivos da actividade militar pela estabilidade social da Europa sustadas as duas correntes de invasão do norte e do sul, o Feudalismo foi seduzido pela proclamação das guerras religiosas da Cruzada. A Egreja que temia esse rival, pela absorpção das grandes propriedades, lisongeou-lhe o instincto da guerra, soprou-lhe um delirio de fervor religioso lançando-o para a Palestina. É no momento em que o Feudalismo se dissolve, que mais deslumbrante se espalha a sua poesia heroica. Os Barões longe dos seus solares, sujeitos á prescripção adoptada do Direito romano pelos jurisconsultos ao serviço da Realeza, feridos na sua nobreza pelo registo dos Livros de Linhagens, privados dos seus direitos immemoriaes pela revogabilidade das doações regias, ouviam soar o sino da communa, que era como a trompa de Gedeão, que fazia cahir por terra os seus castellos. É o sentimento da revolta que inspira as Canções de Gesta celebrando a lucta dos Barões contra o poder monarchico; Carlos Magno foi a figura em volta da qual se centralisaram as lendas das revoltas dos grandes vassallos. N’esta dissolução do Feudalismo, e descredito do ideal guerreiro, as Gestas heroicas tornaram-se satyricas; na Italia cantava-se de preferencia as derrotas de Carlos Magno, e as infamias de seus filhos; em França decahiam na prosa novellesca, e desenvolviam-se os episodios da fabula complexa do Renard. Comte tira nitidamente as deducções d’esta crise social:

«Se o estado catholico e feudal tivesse podido persistir realmente, é indubitavel, a meus olhos, que a expansão esthetica dos seculos XII e XIII, teria adquirido pela sua eminente homogeneidade, uma importancia e uma profundidade muito superiores a tudo o que pôde existir depois, sobretudo quanto á efficacidade popular, verdadeiro criterio das bellas artes. Pela transição rapida, e muitas vezes violenta, que devia realisar-se no curso d’este grande periodo revolucionario, e para a qual a progressão industrial tão poderosamente concorreu, o genio esthetico ficou falho de direcção geral e de destino social. Entre a antiga sociabilidade moribunda e a nova muito pouco caracterisada ainda, elle não pôde bem nitidamente sentir, nem o que sobretudo devia idealisar, nem sobre que sympathias universaes devia principalmente repousar. Tal é, no fundo, a causa progressiva d’esta especialidade exclusiva, que tem até hoje caracterisado a arte moderna, como a industria e como a sciencia tambem, por falta de uma generalidade realmente preponderante. Bem longe de estar degenerado, o genio esthetico tornou-se com certeza mais extenso, mais variado e mais completo mesmo, como nunca o conseguira na antiguidade; porém, apezar das suas eminentes propriedades intrinsecas, a sua efficacidade devia então ser muito menor, em um meio social que lhe não podia offerecer nem a nitidez, nem a fixidez indispensavel para o seu livre desenvolvimento. Obrigado a reproduzir as emoções religiosas ao passo que a fé se extinguia, e a representar os costumes guerreiros a populações cada vez mais entregues a uma actividade pacifica, a sua situação radicalmente contradictoria devia prejudicar-lhe a realidade fundamental dos seus effeitos exteriores, mas tambem a das proprias impressões interiores, até aos tempos ainda remotos em que a regeneração final da humanidade virá offerecer-lhe um meio mais favoravel ao seu pleno desenvolvimento, em consequencia de uma homogeneidade e de uma estabilidade, que nunca puderam existir no mesmo gráo...»[102]

Contra o poder espiritual da Egreja, a Realeza torna-se protectora de um ensino geral nas Universidades; e contra os arbitrios feudaes estabelece os Ordenamentos e fixa a esphera dos direitos reaes pela restauração da jurisprudencia romana; os Feudos são equiparados á Emphyteuse e ao Usufructo dos romanos. Por outro lado, este começo de renascimento humanista ataca a idealisação épica medieval, á qual tambem se tornavam hostis os moralistas catholicos. É n’esta instabilidade, que caracterisa o fim da Edade media, que as linguas romanicas se acham aptas para as obras litterarias, mas os themas da idealisação religiosa e heroica acham-se insignificativos para o sentimento.

Comte explica como: «o estado social da Edade media constitue sob todos os pontos de vista, o berço necessario da grande evolução esthetica das sociedades modernas.» E observa como esta longa crise de transição historica, pela instabilidade social não deixou chegar á perfeição os themas artisticos idealisados na poesia moderna: «A expansão esthetica não faz suppôr sómente um estado social bem fortemente caracterisado para comportar uma idealisação energica: exige, além d’isso, que qualquer que fôr esse estado seja bastante estavel para permittir espontaneamente, entre o interprete e o espectador, esta intima harmonia prévia, sem a qual a acção das bellas-artes não conseguiria obter habitualmente uma plena efficacidade. Ora estas duas condições fundamentaes, naturalmente reunidas entre os antigos, nunca mais puderam sêl-o depois em um gráo sufficiente, mesmo na Edade media,...»[103] «Assim a fonte essencial d’esta singular hesitação social que caracterisa a arte moderna, e que tanto neutralisou até hoje a universalidade necessaria da sua influencia contínua, depois da sua primeira evolução tão firme, tão original e tão popular na Edade media, deve ser directamente procurada na inevitavel instabilidade do estado social correspondente, suscitando sempre novas transições successivas. Uma profunda e perseverante elaboração esthetica era certamente impossivel entre populações em que cada seculo, e algumas vezes mesmo cada geração modificava mui notavelmente a sociabilidade anterior para que cada geração determinada tivesse já essencialmente cessado antes que o poeta ou o artista podessem n’ella contrahir sufficientemente a intima penetração espontanea indispensavel á acção das bellas artes. É assim, por exemplo, que o espirito das Cruzadas, tão favoravel á mais poderosa poesia, tinha irrevogavelmente desapparecido quando as linguas modernas puderam achar-se assás formadas para permittir-lhe a plena idealisação; ao passo que entre os antigos, cada modo effectivo de sociabilidade tinha sido de tal modo duravel, que o genio esthetico podia tornar a sentir e tornar a achar, depois de muitos seculos, paixões e affectos populares essencialmente identicos áquelles de que queria representar o imperio anterior.»[104]

Conhecidos os caracteres da evolução historica da Edade media, a separação dos Poderes e a sua transformação, que ainda se exerce na determinação das fórmas compativeis do Poder espiritual e do temporal com a consciencia e liberdade do homem moderno, por um tal processo de dissolução do regimen catholico-feudal se explica a evolução e as vacillações de todas as Litteraturas romanicas. Vejamos agora os themas poeticos com que a França exerceu a hegemonia esthetica sobre essas litteraturas:

a) INFLUENCIA GALLO-ROMANA

(Lyrismo trobadoresco)

No meio da confusão das raças e das invasões dos povos, em que se elaboraram as novas instituições religiosas e politicas que deram á Europa a estabilidade, foram-se creando costumes e as relações de uma pacifica sociabilidade. É então que se quebra esse mutismo, e as novas linguas se exercem no canto, celebrando pela poesia o amor, a galanteria e a confraternidade. A partir do seculo X espalham-se pela Europa esses cantores vagabundos, sahindo da França meridional, do fóco da Provença, levando a todos os povos a boa nova do amor; póde-se dizer que as canções jogralescas vieram desenvolver pela accentuação as linguas romanicas, tornal-as communicativas e escriptas. Tambem nas linguas germanicas esta ideia de que a linguagem começa pelo canto exprime-se em Singuen e saguen, synonimos como o cantar e decir, nos romances hespanhoes. A situação da Provença favorecera esta influencia esthetica impulsiva. Durante o periodo das invasões dos barbaros do norte, permaneceu quieta a Provença, apenas alvoroçada pela passagem dos Visigodos, que se precipitaram sobre a Peninsula, e pelos Burguinhões então já polidos pela permanencia na Italia. Flor bafejada pela amenidade do meio dia da França, recebendo os restos da cultura grega e da paixão arabe, ella foi como o nectario em que se formou o mel da poesia, que encantou a primeira sociabilidade dos povos da Europa, e que determinou as fórmas do moderno lyrismo. Da lingua usada nas canções dos trovadores, dizia Raymond Vidal: «La parladura ... de Lemosin val mais per far vers et cansons et serventes.» Esta região comprehendia um centro de irradiação commum intermediaria, entre a zona oriental que formam o Auvergne e Velay, e a zona occidental de Poitou, de Saintonge e de Guienne.[105] Escreve Fortoul, fazendo notar a importancia d’este fóco de cultura trobadoresca, em que a burguezia do Limousin, do Périgord e de Quercy, rivalisava com a nobreza na composição das canções amorosas: «No Limousin, em quanto o terrivel Bertrand de Born canta as guerras, que elle ateia constantemente, Giraud de Berneil sáe da condição mais infima para fazer as mais bellas canções de amor, e Bernard de Ventadour aprende ao pé do forno de seu pae a lingua que o faz brilhar na côrte dos seus senhores, na Hespanha, na Italia; de um lado os senhores de Uisel reunem-se para compôrem as arias e os versos dos cantos que tornam a sua nobre familia celebre; do outro, os joviaes burguezes de Uzerche, Gaucelm Faydit e Hugues de la Bezelaria, espalham na sua cidade e até á Lombardia a fórma do seu espirito cortez e agradavel. O Périgord, mesmo, que com o gentilhomem Arnaud Daniel, leva ao suprasummo as difficuldades e os artificios da versificação meridional, produz operarios como Elias Cairel, bastante feliz para fazer brilhar até na Grecia o esplendor da poesia que elles aprendiam nas lojas de Sarlat.»

No seculo XI acodem os provençaes á côrte de França por occasião do casamento de Constança com Roberto; cento e cincoenta annos mais tarde, já se acham diffundidos pelo territorio francez o mesmo gosto poetico e galanteria provençalesca; usavam-se esses certames poeticos a que concorriam com as suas trovas e canções para celebrarem o casamento dos princepes, ou o gráo de cavalleria que recebiam. Em Italia, segundo Folgore de San Geminiano era do estylo: «Cantar, danzar alla provenzalesca.»[106] Dante, no Convito, queixa-se do emprego immoderado do provençal: «Questi fanne vile lo parlare italico, e prezioso quello de Provenza.» E tão precioso era este modo de fallar provençal, que no Purgatorio, Dante obedeceu á corrente da época pondo na bocca de Arnaldo Daniello trez tercetos em provençal.

Na Allemanha não era menos conhecida a lingua e a poesia provençal: no poema do Parzival, lê-se que as verdadeiras tradições foram da Provença para a Allemanha.[107] Os trovadores achavam as linguas do norte sem melodia; e Peire Vidal compara-as a ladrar de cães: «E lor parlars sembla lairar de cans.»

Vejamos a irradiação d’este lyrismo para a peninsula hispanica. O governo suave da Provença continuado na mesma familia por mais de duzentos annos, aprimorou a galanteria cortezã, que tanto distingue as canções dos seus trovadores; quando se extinguiu o herdeiro masculino, em 1092, a corôa de Provença passou para o Conde de Barcellona, pelo casamento com a unica herdeira da familia de Borgonha. Os poetas acompanharam a côrte que transpoz os Pyreneos e veiu fixar-se na Hespanha. Um facto semelhante se deu com o casamento dos Condes de Barcellona, que lhes fez pertencer o reino de Aragão. Os reis, que tambem poetisavam em lingua limosina, abriram nas suas côrtes azylo aos poetas provençaes, principalmente depois da cruzada de exterminio contra os Albigenses. O maior elogio que se póde fazer do sentimento e elevação moral dos trovadores é vêl-os abraçarem o partido dos perseguidos. A cruzada contra os Albigenses recebeu um caracter religioso para lhe imprimirem mais ferocidade, mas era a pressão brutal da França feudal e monarchica do norte contra a França meridional municipalista e semi-republicana.[108] Muitos trovadores se refugiaram na Hespanha, no tempo de Pedro II de Aragão, que morreu em 1213, defendendo a causa d’elles na batalha de Moret. Entre esses foragidos citam-se os trovadores Hugues de Saint-Cyr, Azémar le Noir, Pons Barba, Raimond de Miraval e Perdrigon.

É durante a sua educação na Galliza, que o rei Affonso o Sabio estuda a nova poesia provençal, adoptando o dialecto gallego para as suas Cantigas, por que essa linguagem se achava exercitada na expressão dos mais delicados sentimentos. Em volta de Affonso o Sabio reunem-se os trovadores mais distinctos, sendo elle o mais generoso impulsor da propagação do novo lyrismo. Conforme os centros d’onde irradiava essa poesia, assim ella tinha um caracter mais ou menos aristocratico, mais ou menos popular. Os trovadores da Gasconha, Cercamons, Marcabrun e Peire de Valeira, e por tanto predominando o elemento popular, foram conhecidos em Portugal, prevalecendo o seu gosto nas serranilhas. Marcabrun em uma das suas canções pede a Deus que vele pelo rei de Portugal. De todos os trovadores o que dá prova de ter frequentado a côrte portugueza é Peire Vidal. Estas relações cortezãs explicam-se pelos casamentos reaes; D. Sancho I foi casado com D. Dulce, filha de Raymundo Berengar, quarto conde de Provença e rei de Aragão. No Nobiliario do Conde D. Pedro citam-se muitos fidalgos com a indicação, foi trobador, e que trobou bem; pertencem a esse numero dos partidarios de Affonso III, que antes da deposição de D. Sancho II se refugiram na côrte de S. Luiz, como os Baiões, os Cogominhos, os Valladares, os Porto-Carreros. O rei D. Diniz, um dos mais fecundos e talentosos trovadores portuguezes estudou conscienciosamente a arte do gai-saber, e, affirmando a superioridade do seu ideal, escrevia: «Quero eu em maneira de Proençal—fazer agora um cantar de amor.» O grande apreço que tanto na Galliza como em Portugal se ligava á nova poesia «esta arte que mayor se llama» como escreve o Marquez de Santillana, fez com que a sua influencia se exercesse sobre toda a Hespanha: «en tanto grado, que no ha mucho tiempo quatesquier Decidores ò Trovadores destas partes, agora fuesen Castellanos, Andaluçes e de la Extremadura todas sus obras componian en lengua gallega ó portugueza.»[109] Esta poesia começa a florir justamente quando os nossos cavalleiros traziam accesas as almenaras dos castellos roqueiros, e faziam investidas, correrias nas terras dos sarracenos.

Na côrte de D. Sancho I e D. Affonso II os duros guerreiros neo-godos brilhavam com a graça das canções, algumas das quaes se acham no Cancioneiro da Ajuda. Em uma d’essas canções um cavalleiro allude ao grito de guerra na tomada de Santarem por D. Affonso Henriques. Ajuntára o monarcha alguns cavalleiros, indo com altas escadas atacar o castello de Santarem; era ao quarto de alva e as roldas dormitavam; o rei dividiu a sua comitiva em dois troços, um que investia pelo lado do monte Alphão, e outro que atacava pelas bandas da ribeira ou parte baixa (sesserigo). Ao lançar as escadas, o ruido despertou as roldas do somno, tocaram alarme, e a mourisma deu de repente sobre os poucos cavalleiros que confiavam no seu ardil. N’aquelle transe desesperado foi preciso levar tudo á viva força; os poucos portuguezes venceram. D’ahi o grito de guerra conservado na canção:

Ay Sentirigo! ay Sentirigo, Al e Alphão e al sesserigo.

Era dever de todo o homem de guerra, como bom cavalleiro, saber brandir uma espada e discretear galantemente com damas; mas n’estes tempos de luctas como a da facção que depoz D. Sancho II, prevalecia principalmente a satyra, como se vê nas coplas contra os Alcaides que entregaram como não deviam os castellos a D. Affonso III. Fallando do Cancioneiro da Ajuda (publicado por lord Stuart em 1823), Frédéric Diez caracterisava as obras d’esta collecção e a época a que pertence: «Se as fórmas poeticas são rigorosamente as dos trovadores, de longe em longe accusam a nacionalidade, mas não deixam suppôr o conhecimento familiar da fórma provençal. Os versos de dez syllabas predominam nas estrophes, que se correspondem pela rima... Ha uma analogia surprehendente na contextura, e em nenhuma das canções pudemos descobrir vestigios de traducção.»[110] Esta caracteristica de metro define-nos a influencia limosina, que seguiram os nossos trovadores fidalgos. Ainda não imperava a galanteria e o requinte da sensibilidade; só começou com a imitação directa da Provença, na côrte de Dom Diniz, que empregou todos os recursos da arte para exprimir a paixão. As canções provençalescas ou em maneira de proençal dobravam-se a todos os caprichos de uma poetica artificiosa, aos segredos do leixapren e do mansobre, ás exigencias da rima encadeada, aos córtes do verso nos seus hemistichios, para corresponderem ás finas allegorias do sentimento. Depois do direito feudal ter aberto um abysmo inaccessivel entre a castellã e o servo, a canção trobadoresca veiu estabelecer a egualdade perante o amor, conforme a bella phrase de Quinet. O artificio provençalesco não consistia apenas em alardear a plasticidade da lingua rude amoldando-se a todos os requebros, em achar (trouver) os melhores recursos da rima e das combinações estrophicas, mas principalmente em velar ou encobrir o sentimento que fazia com que o apaixonado cantor erguesse os olhos para a castellã orgulhosa. Um compassivo olhar, um leve sorriso precipitava o scismador em um enlevo ou melancholia eterna, em uma louca inspiração. Todas as emoções estão ali descriptas: o sentimento da propria inferioridade, o olhar generoso que o levantou da terra, a anesthesia das dores por um simples relance descuidado, o receio ou terror de que adivinhem por quem é a absorpção do seu espirito, que o traz de longe, a esperança de a vêr mais de perto e a lembrança angustiosa de uma ausencia forçada, tudo isto vibra na canção provençalesca. Avançava-se para o idealismo neo-platonico, que ia suscitar o superior lyrismo italiano.

No Cancioneiro da Ajuda, imita-se toda essa ordem de sentimentos; não só a lingua, como as fórmas poeticas notadas por Diez, como a natureza dos sentimentos, provam a antiguidade e o valor d’este monumento. Os nossos trovadores tambem se apaixonam por castellãs, sem attenderem ao abysmo que os separava; João Soares de Paiva morreu em Galliza por amores de uma infanta. Na côrte de D. Diniz impera já esta metaphysica amorosa, que elle idealisa artificialmente, fallando do temor do seu segredo amoroso, apezar de ter numerosos bastardos. E levado pela necessidade de variar e vivificar com realidade as fórmas poeticas, é que o rei D. Diniz, seguindo o estylo das pastorellas da eschola de Gasconha, imita as serranilhas populares portuguezas e gallegas, dando assim protecção a todos os jograes das côrtes de Hespanha, que vinham a Portugal como ao centro da mais activa elaboração poetica do seculo XIV. Pela poesia trobadoresca se fazia a unificação affectiva dos Estados livres peninsulares, e Portugal, como o confessa o erudito Marquez de Santillana, exerceu então pela primeira vez a sua hegemonia. Durante este periodo a poesia provençal recebeu uma transformação profunda na sua essencia; suffocado o esplendor da Provença pela terrivel cruzada contra os Albigenses, esse lyrismo desceu ás classes populares, d’onde primeiro sahira (son veill antic), convertendo-se-lhe agora em um mister lucrativo (os jocistae, joculatores ou jograes, e os ministralles ou menestreis). O jogral substituia o desinteressado trovador: ia de terra em terra acompanhando o cantor apaixonado, apanhando de memoria as canções que lhe ouvia, e repetindo-as depois nas praças, ou nas côrtes, recebendo da multidão a pequena moeda (a poitevine) e da fidalguia pannos e cintos. É frequente encontrarem-se protestos dos trovadores contra esta exploração jogralesca; Astorga, no seu Poema de Alexandre, tem medo que o tomem por um jogral, e diz: «Mester trago fermoso, no es de ioglaria.» Em uma das suas canções o rei Dom Diniz confessa que celebra os seus amores sem se parecer em nada com esses que «troban no tempo da frol.» Mas a invasão jogralesca era uma consequencia da vitalidade esthetica acordada na alma moderna. No Cancioneiro da Vaticana encontram-se a par de reis, de infantes e fidalgos, numerosos jograes; taes são Affonso Gomes jograr de Sarria, Ayres Paes jograr, Diogo Pezelho jograr, Lopo jograr, que se destacam tambem d’entre clerigos e burguezes. A casuistica amorosa vae encontrar nas fórmas jogralescas moldadas sobre o typo da canção popular, extraordinarias bellezas de simplicidade natural e de riquezas tradicionaes. Assim no momento em que o lyrismo moderno ia receber na Italia a sua fórma litteraria, tocava as fontes vivas da tradição poetica occidental.

O apparecimento da poesia dos trovadores e a sua rapida diffusão nas Litteraturas romanicas e germanicas, só se torna claro pelo conhecimento de um fundo commum tradicional, que já está achado. Circumstancias accidentaes, como a commoção social provocada pelas Cruzadas, n’isso influiram tambem, despertando a curiosidade das classes elevadas, que fixaram essa poesia na fórma escripta. Em quanto duraram as expedições da Palestina, (1095 a 1290) a poesia trobadoresca attingiu o seu maximo esplendor; n’este periodo expandia-se a vida burgueza ou propriamente a classe media, que se tornou a base estavel da sociedade moderna. Terminadas as Cruzadas, e tendo por tanto a Realeza de concentrar em si a dictadura pela decadencia necessaria do poder senhorial, envolveu tambem n’essa absorpção muitas garantias locaes. A França do norte abafando o municipalismo do sul, a poesia provençal extinguiu-se, voltou outra vez para o coração do povo, levando-a os jograes por todas as côrtes da Europa. Podem-se determinar trez periodos a esta efflorescencia lyrica:

Tradição e Nacionalidade, em que a poesia é conservada oralmente, nos antigos cantos populares gaulezes, no centro ethnico da Aquitania, com relações intimas com as pastorellas italianas, com as baladas provençaes e com as serranilhas portuguezas. O caracter de nacionalidade chegou a accentuar-se no uso que d’esta poesia fizeram os trovadores, defendendo a liberdade municipal e proclamando a revolta.

A sua diffusão penetrou como corrente de distincção aristocratica em todas as côrtes da Europa, chegando até á Inglaterra e á Allemanha; porém no Meio Dia volvia outra vez para o povo, e pela exploração jogralesca se aproximava por simplificação do primitivo typo tradicional.

Uso e imitação, nos divertimentos litterarios palacianos; os proprios monarchas a reproduziam e a protegiam como uma distracção culta, como um pretexto de galanteria. Pela necessidade de renovar os artificios da metrica trobadoresca, de que se havia codificado numerosas regras, o desejo da novidade levou á imitação de todos os segredos technicos e por fim á renovação inconsciente do typo tradicional, que transparece na fórma litteraria dos Cancioneiros aristocraticos.

Na Italia foi outra a corrente; da casuistica sentimental dos trovadores o genio italiano transitou para um desenvolvimento subjectivo, fecundando-o pela abstracção philosophica; as Litteraturas romanicas pela influencia do dolce stil nuovo fixaram sobre os rudimentos trobadorescos as fórmas definitivas do lyrismo moderno.

b) INFLUENCIA GALLO-FRANKA

(Gestas ou Epopêas medievaes)

As condições de ordem e estabilidade na Europa datam do apparecimento e acção historica de Carlos Magno; sustaram-se as invasões, e o Feudalismo foi gradualmente cahindo diante da crescente dictadura monarchica. É essa lucta dos grandes vassallos contra a realeza, que se torna o thema fundamental das Epopêas ou Canções de Gesta, que se produziram depois da completa fusão do elemento gallo-franko, como synthese da nova nacionalidade—a França. O typo lendario de Carlos Magno centralisou na imaginação poetica esta lucta da realeza, que durou seculos. A fórma cyclica d’essas composições narrativas e a independencia e superioridade politica do franko, bem mostram que essas epopêas, ainda não totalmente individuaes, são as Cantilenas germanicas agrupadas em torno de um mesmo vulto historico, pelo syncretismo dos factos e das épocas, que é um dos processos espontaneos da tradição. Segundo os medievistas Paulin Paris e Léon Gautier, nas Gestas francezas é germanica a ideia da guerra, da realeza, do feudalismo, dos symbolos juridicos, da mulher e da divindade. Os textos de Tacito e de Eghinard provam a primitiva commoção historica do modo mais completo, e ao mesmo tempo a persistencia das Cantilenas germanicas durante a primeira raça, cantadas em lingua vulgar, como vêmos pelo principal monumento, a Vie de Saint Faron, do seculo VII. A figura imponente de Carlos Magno syncretisando em si todas as individualidades heroicas, que se manifestaram ainda depois d’elle, veiu imprimir a essas Cantilenas um caracter historico, dar-lhes um agrupamento cyclico e uma expressão nacional.

As primeiras Gestas que circularam na Europa foram a Chanson de Roland, a de Girard de Rousillon, a de Ogier le Danois, a de Raoul de Cambrais e de Aliscamps. Este periodo de assombrosa elaboração épica deu-se do principio do seculo XII até 1328. Estas datas são capitaes para nós, por que abrangem o periodo organico da nacionalidade portugueza. Era impossivel que n’estes annos de aspiração autonomica, em que o conde francez D. Henrique imitava as instituições carlingias, como os Missi dominici, em que buscára apoiar-se em colonias frankas, em que os Bispos, que representavam então o maximo poder espiritual e eram os defensores civitatum, vinham tambem de França, impossivel seria que não chegasse a Portugal essa floração poetica das Gestas heroicas. O nome de Gesta e Estorea, significando a poesia épica na Peninsula, e a referencia á maestria de Francia, indicam-nos, que se deu uma intercorrencia da poesia narrativa dos troveiros com a subjectiva dos trovadores. Emquanto estes cantavam nas côrtes e solares feudaes, os troveiros recitavam nas praças, d’onde muitas vezes a auctoridade os repellia ou obrigava a pagarem um imposto.

As tradições épicas do norte da França espalharam-se em Portugal no tempo de D. Affonso Henriques, pela passagem dos cavalleiros que iam por mar á Palestina. Esses cavalleiros, ávidos de aventuras heroicas, o ajudaram a conquistar Lisboa, e no descanso do arraial se desenfadavam com as suas tradições guerreiras.[111] Na Chronica Gothorum, as phrases referentes a D. Affonso Henriques clarus ingenio e lingua eruditus, coadjuvam em parte a tradição de que este primeiro rei portuguez fôra poeta. A sua côrte, apezar dos continuos trabalhos da guerra, foi abrilhantada pelos costumes da galanteria provençal; casado com uma princeza italiana (Mahaut) não nos admira que as canções de Sordello de Mantua e de Bonifacio Calvo fossem conhecidas em Portugal. Mas sobretudo as suas preferencias deviam de ser pelos cantos épicos; as epopêas heroicas desenvolvidas pelo genio francez não puderam encontrar na Peninsula condições para se implantarem, por lhe faltarem uma classe feudal independentemente organisada, e por ser excessiva a admiração pela cultura latina, que se tornou uma distincção na aristocracia e alto clero.

A tradição épica da Edade media não foi extranha a Portugal; na Chronica de Turpin, acha-se citado o nome de Portugal.[112] Infeliz lembrança teve o pseudo-chronista, por que pretendendo dar-se como contemporaneo de Carlos Magno, a designação Portugal desconhecida em todos os documentos anteriores a 1069, descobre o intuito da falsificação.[113] Segundo Fauriel, na gesta de Fier-à-bras ha o retrato allegorico da rainha D. Thereza.

Na analyse do poema, escreve: «Creio entrevêr em algumas particularidades e no desfecho do romance de Fierabras, uma allusão romanesca á creação do reino de Portugal. Affonso VI, rei de Castella, conquistou em 1093 aos Arabes uma parte dos territorios entre o Douro e o Tejo, e d’elles fez um Condado, que deu com uma de suas filhas a Henrique de Borgonha, joven e valente senhor que viera em seu auxilio d’além dos Pyreneos; este Condado chamado Porto-Cale, do nome da sua capital, engrandecido pelas conquistas do seu primeiro senhor, veiu a ser o reino de Portugal. Entre a fundação d’este Reino e o desenlace do Fierabras, não ha, é verdade, relação alguma de datas ou de pessoas; mas cumpre considerar, que para os romancistas dos seculos XII e XIII, toda a historia tanto nacional como estrangeira, se reduz a algumas tradições cada vez mais alteradas e falsificadas, sobre as quaes bordaram sem escrupulo, sem outro designio mais do que o de exaltar as imaginações contemporaneas. Fazer de Portugal um reino de Agramene; de um Henrique um Gui de Borgonha; de uma filha de Affonso VI uma princeza sarracena convertida; transportar para o VIII seculo um acontecimento do seculo XI, tudo isto é quasi historico para qualquer d’estes romancistas.»[114] O caracter altivo de D. Thereza, tal como se conserva na historia, está em harmonia com o retrato de Floripar feito no poema; isto comprova o juizo de Fauriel: «que não ha epopêa primitiva que não seja por algum ponto a expressão de um acontecimento ou de uma ideia.»

Em uma citação do Livro de Linhagens, em que se allude aos Doze Pares, encontra-se o vestigio das Gestas francezas: «muitos ricos-homeens que iam para lhes acorrerem disseram a elrey dom Fernando, que nunca virom cavalleiros nem ouviram falar que tam soffredores fossem e pozeram-nos em par dos Doze Pares.»[115] A creação dos Doze Pares apparece nas mais antigas Canções de gesta franceza, taes como a Chanson de Roland, a Viagem a Jerusalem e em Renaud de Montauban.[116] O texto em que se faz a referencia aos Doze Pares é do principio do seculo XIV; por tanto é natural, que qualquer d’essas trez epopêas fosse conhecida em Portugal. Nos Karlamagnus Saga, Gui de Bourgogne, Otinel, Fierabras, Simon de Pouille, Ogier le Danois, Huon de Bourdeaux, Galien Restoré, cita-se a instituição dos Doze Pares; estes poemas como mais modernos pouco teriam influido para a vulgarisação da lenda carlingia em Portugal, em um tempo em que começava o perstigio dos poemas da Tavola-Redonda.

Na sepultura do cavalleiro Rodrigo Sanches, morto na Lide do Porto em 1245, batendo-se a favor de D. Sancho II, gravaram-lhe um epitaphio, comparando-o a Roland:

Belliger insignis fuit hic cunctis et amandus, Laudibus ex dignis, alter fuit hic Rotulandus.[117]

Eghinard escrevera este nome Hruodland, e Radulphus Tortarius Rutlandus, e acha-se na canção de Guerau de Cabrera na fórma Rotlon (Roldão na linguagem popular portugueza, como synonimo de valentão.) Ainda na côrte de D. Diniz eram lembradas as Gestas carlingias, como se vê pela canção de João Baveca:

e ora per Roncesvales passou e tornou-se do Poio de Roldan. (Canc. Vat., n.o 1066.)

Reflectiu-se este cyclo épico nos cantos populares portuguezes; nos romances que fallam da derrota de Roncesvalles, allude-se a uma expressão franceza: «Nos portos de mal passar.»[118] N’este sentido de desfiladeiro, fauce entre dous montes, significando a passagem dos Pyreneos, usa-a a Chronica de Turpin, e vem no Roman de Garin: «As ports d’Espagne s’en est entrez Roland.» A influencia popular conhece-se principalmente como foram aportuguezados os nomes dos heróes épicos francezes: Roland é Roldão, Renaud de Montauban, Reinaldo de Montalvão; Ogier le Danois, Dones Ogeiro e Ogeiro o Dão; Olivier, Oliveiros; Bauduin de Vannes, Valdevinos (na giria popular, vagabundo, tunante); Richer, Ricardo; Garin de Monglave, Garinos; Naimes le Bavarois, Duque Maime; Gaifier de Bordeaux, Gaifeiros; Didier, Dirlos; Huon, Dudão; Eghinard, Eginaldo, Gerinaldo e Reginaldo; Aude, a namorada de Roland, Alda; Floripar, Floripes; Fierabras, Ferrabraz (valentão roncador).

O rei D. Affonso III, que residira quando princepe alguns annos na côrte de França, imitou na sua côrte as festas poeticas que lá admirára. Nos festejos que se fizeram em Melun, quando D. Affonso foi armado cavalleiro, o rei S. Luiz deu cincoenta libras aos menestreis que a elles assistiram; vinte menestreis se acham inscriptos nos Documentos para a historia de França.[119] É evidente que a influencia da poesia franceza se havia de reflectir na côrte de Portugal; assim no Regimento da Casa real manda D. Affonso III, que estejam sempre trez jograes ao serviço da côrte, e prescreve o numero dos jograes e dos segreis que venham de longe aos quaes se dará agasalho. As Canções de Gesta caminhavam para a inevitavel decadencia, e este mesmo reflexo vêmos em Portugal na parodia feita por D. Affonso Lopes de Baião de uma Gesta franceza em uma metrificação de doze syllabas, em longas tiradas monorrimas, e com a celebre neuma AOI (seculorum amen) com que terminavam as estrophes longas da Chanson de Roland. No Cancioneiro da Vaticana foi colligida essa composição singular da Gesta de Maldizer, em que o fidalgo Baião, da côrte de D. Affonso III, ridicularisa um cavalleiro Dom Velpelho (de Vulpecula, a raposa), talvez um dos vencidos do partido de D. Sancho II. Aqui o que nos interessa é a prova clara do conhecimento da fórma litteraria das Canções de Gesta.

Na descripção da batalha do Salado, de Rodrigo Yanes, alludem-se aos personagens do cyclo franko:

Nin fue mejor cavallero El arçobispo Don Turpin, Ni el cortés Olivero, Ni el Roldan paladin. (St. 1739.)

A çanfonha era o instrumento que acompanhava a recitação das Gestas; o seu uso, peculiar aos primeiros seculos da monarchia, e ainda hoje popular na Galliza, leva-nos a inferir que tambem as Gestas seriam cantadas por esse tempo. Em um manuscripto da Edade media, descreve-se a Çanfonha: «Chama-se em França Cymphonie um instrumento que os cegos tocam cantando a Canção de Gesta, e tem este bello instrumento doce som, e mui agradavel de ouvir.»[120] Quando o rei D. Pedro I prohibiu os instrumentos musicos que não fossem a trompa ou a corneta, para não se effeminarem os animos, seguia as disposições da Egreja exaradas nas Summas do seculo XII. Escrevia Guillaume Perrauld, na Summa Vitiis: «O ouvir Canções é muito para se temer... Tambem são muito para se temer os instrumentos musicos, pois tocam e amolecem os corações humanos.»[121] Em uma Summa de Penitencia prega-se a maior complacencia para os jograes que cantam Canções de Gesta, e condemnam-se os que cantam cantilenas lascivas. Tambem nas Leis de Partidas, que estavam em vigor em Portugal, prohibe-se a todo o bom cavalleiro o ouvir canções quando ellas não forem de feitos de armas.

No seculo XV as Gestas dissolviam-se em chronicas historicas; ainda assim, acha-se citada por Azurara a Gesta sobre o Duque Jehan de Lanson, «ca sem embargo de se em todollos regnos fazerem geeraaes cronicas dos rex d’elles, nom se deixa porem de screver apartadamente os feitos dalguns seus vassalos, quando o grandor he assy natural de que se com razom deve fazer apartada scriptura; assy como se fez em França do duc Joham de Lançam.»[122] Azurara alludia a uma Gesta carolina do seculo XIII pensando que se referia a uma chronica; o mesmo succedeu a Philippe de Mouskes, na sua Chronica rimada, que resumiu essa gesta attribuindo-lhe valor historico. Foi talvez Portugal o unico paiz que ouviu fallar da Chanson de Jehan de Lanson, apezar do que d’ella diz Léon Gautier: «Poucas canções ha que tenham tido popularidade menos vasta e menos duravel. As nações estrangeiras não parecem tel-a conhecido, e não existe d’ella versão em prosa.»[123] Mas não bastou a Azurara o cahir no mesmo erro de Philippe de Mouskes; comparou esta Gesta que idealisa um traidor, e em que é Carlos Magno exposto ao mais pungente sarcasmo, á bella Chronica anonyma do Condestavel, identificando-o com o typo do heroe-santo.

Não admira; no seculo XV começava o perstigio da erudição latina, e o desprezo pela Edade media; e na época da Renascença os heróes das Gestas são conhecidos em Portugal através da corrente italiana, pelos poemas de Pulci, Boiardo e Ariosto. Esta influencia italiana é evidente em Sá de Miranda, que cita Turpin, Roland e Ogier le Danois, pela leitura d’esses poetas:

Grandes cosas se cuentan de como a escuras D’aquelles tiempos de vista Turpino A estranos cuentos orejas seguras. El hadado Roldan, Reynaldo, Dino, Que le fuera fortuna mas cortés De sus riquezas, un tal Paladino. Rogel, del ingenioso ferrarez, Tanto alabado en tan sabroso estillo, Astolpho aventurero y vano ingles.

Camões tambem conhecia esse cyclo épico das Gestas francezas através da influencia italiana, desprezando diante da sublimidade dos factos historicos dos portuguezes as façanhas do vão Rogeiro,—«E Orlando, inda que fôra verdadeiro.» Era corrente entre os eruditos da Renascença, como vêmos em Luis Vives, desprezar os poemas da Edade media.

A propria França chegára ao esquecimento total das Gestas, depois de uma decadencia successiva, já pelo agrupamento cyclico, já pelo syncretismo com os poemas de aventuras, e finalmente pela sua dissolução em prosa com pretenções a chronica. D’onde proveiu esta decadencia, não já entre os povos romanicos, mas n’aquella mesma nação que elaborou toda a poesia das Gestas? Comte viu claro, quando esboçou a dissolução do regimen catholico-feudal, e explicou o desprezo em que ficaram os themas poeticos de uma edade que desapparecia; o juizo do philosopho foi mais tarde confirmado pelos eruditos. D’Héricault, no seu Essai sur l’origine de l’Épopée française, accentua a mesma causa: «A nossa epopêa nacional fôra engendrada por uma série de factos, de personagens de uma ordem particular, que tinha desapparecido no seculo XIII. As circumstancias politicas, o estado da sociedade, as tendencias das ideias e dos costumes, a fusão das raças, as victorias alcançadas pelo espirito do catholicismo sobre os restos da barbarie, todo o conjuncto da vida da França tinha tirado a estes factos e a estas individualidades o seu vivo interesse. Já não tinham mais razão de ser, não eram comprehendidos e não podiam por consequencia vir renovar incessantemente a fonte da poesia a que elles tinham dado nascimento.» E mostrando como um outro estado de consciencia, em uma nova éra social, exigia outras fórmas de idealisação, continúa o mesmo critico: «Mas, á medida que se afastavam d’este periodo barbaro, os caracteres humanisaram-se, os espiritos educados em outro meio social, admittiram outras bellezas. Do seu lado, a memoria esquecia a significação precisa d’estes acontecimentos de outra edade. O poema puramente militar teve de desapparecer e com elle a invenção ingenua dos typos unicamente guerreiros, dos caracteres selvagens e grandiosos, personalidades simples, sem meias tintas e sem flexibilidade. As feridas, as ondas de sangue, todas as peripecias de uma batalha ou de um combate singular tornavam-se insufficientes emquanto a interesse, desde que já se não via nos heroes em acção mais do que titeres de ferro.» Por esta falta de interesse, consequencia de um outro estado social, as Gestas guerreiras foram substituidas pelos poemas das aventuras de amor. D’Héricault explica o advento d’esta corrente poetica: «Afastando-se dos factos creadores da poesia, e não ligando seriedade ao papel de chronistas, os troveiros viam-se desapossados d’esta fórma naturalmente dramatica, d’esta acção ingenuamente interessante, d’esta marcha viva que a Canção de Gesta devia á sua preoccupação de imitar os aspectos da historia. O cyclo carlingio estava então exposto a perder o sôpro épico, e accumulava, para o substituir, logares communs, declamações que lhe eram indicadas pelo seu genero, duello entre guerreiros, injurias contra Carlos Magno, exposição da doutrina christã a um sarraceno, confusão geral entre christãos e pagãos, etc. Foi n’este declive que o valente Rei Arthur e os seus cavalleiros vieram suster os guerreiros do Imperador da branca barba. O cyclo da Tavola Redonda acordou a imaginação dos troveiros francezes, e lançou a epopêa em uma via nova, em que a dirigiu impondo-lhe as suas sympathias, a sua arte e as suas fórmulas. Foi principalmente por meio d’estes dois perstigios de predilecção—a mulher e o maravilhoso, que elle revolucionou o nosso genio, triumphou da Canção de Gesta e poz em debandada os Doze Pares.—A poesia do amor tendia assim a substituir a poesia da guerra.»[124]

Quando em França se dava esta decadencia das epopêas feudaes, muito mais profunda foi ella entre os povos que tiveram heróes nacionaes a idealisar, como o Cid em Hespanha, ou que desconheceram o feudalismo, como a Italia e Portugal. Os poemas de amor exerceram uma acção profunda nos costumes das classes elevadas, foram lidos com encanto e deram origem ás Novellas cavalheirescas, que luctaram com vantagem contra a corrente classica.

c) INFLUENCIA GALLO-BRETÃ

(Poemas e Novellas da Tavola Redonda)

A grande raça celtica que occupou todo o Occidente, possuia como as outras raças com que se fusionou, profundos elementos de poesia tradicional. Porém esta poesia só nos apresenta vestigios depois do seculo VI, em um pequeno grupo celtico, que escapou á conquista e absorpção dos Romanos e dos Saxões, e até certo ponto resistiu ás doutrinas do christianismo. Esse grupo celtico, que veiu enriquecer as litteraturas da Europa com novas tradições poeticas, que seduziram todas as imaginações depois do seculo XII com as encantadoras ficções da Tavola Redonda e do Santo Graal, compõe-se dos habitantes do paiz de Galles ou Cambria e da peninsula de Cornwall (os antigos Kymris), dos da Bretanha franceza (a Armorica), dos Gaëls do norte da Escossia, e ainda da Irlanda. Do isolamento que este grupo celtico conservou diante da conflagração dos povos desde as conquistas dos Romanos até ao fim das invasões germanicas, escreve Renan: «Nunca familia humana viveu mais isolada do mundo e mais pura de toda a mestiçagem estrangeira. Confinada pela conquista em ilhas e peninsulas esquecidas, ella oppoz uma barreira inaccessivel ás influencias exteriores; tirou tudo de si propria, e viveu com os seus recursos. D’aqui esta potente individualidade, este odio ao estrangeiro, que até hoje, tem accentuado o traço caracteristico dos povos celticos. A civilisação de Roma apenas os attingiu, deixando entre elles poucos vestigios. A invasão germanica repelliu-os diante de si, mas não os penetrou.»[125] É natural que o elemento kymrico, na Bretanha insular, conservasse mais intensa a memoria das suas tradições; e que a Bretanha continental, ou a Armorica, as renovasse mais tarde, pela relação entre os dois paizes, dando-lhes esse relêvo poetico com que deslumbraram a Europa no seculo XII. Dois periodos de elaboração se destacam historicamente; um, que começa no seculo VI da nossa éra, quando se vulgarisam os cantos dos bardos Taliesin, Aneurin e Liwarc’h-Hen, e se escutam as melodias da chrota britana, os Lais amorosos, e os Contos maravilhosos do Mabinogion; o outro é principalmente litterario, idealisando as aventuras guerreiras de Arthur, os amores de Tristão, de Lancelot, de Merlin, creando por effeito da propaganda christã o cyclo dos poemas do Santo Graal. Se o elemento tradicional foi principalmente elaborado na Bretanha insular, na Bretanha franceza é que esses themas tiveram o seu desenvolvimento artistico, espalhando-se pelos menestreis normandos por toda a Europa. Renan define essa primeira época de revivescencia poetica da raça celtica: «O sexto seculo foi para as raças celticas esse momento poetico do despertar, e da sua primeira actividade. O christianismo, recente ainda entre ellas, não tinha completamente abafado o culto nacional; o druidismo defende-se em suas escholas e nos seus logares consagrados; a lucta com o estrangeiro, sem a qual um povo nunca chega á plena consciencia de si proprio, attinge o seu mais alto gráo de vivacidade.—O sexto seculo, é effectivamente, para os povos bretãos um seculo perfeitamente historico.»[126] Basta-nos fixar esta época para determinar desde quando se espalham os cantos lyricos bretãos, que adquiriram um certo interesse até ao ponto de se desenvolverem em poemas de aventuras. As melodias e instrumentos musicos bretãos, como a rhota britana, citada nos versos de Venancio Fortunato, são levados por todas as côrtes da Europa por cantores vagabundos, desde o seculo VI até ao XII seculo. Falla-se no poema de Guillaume au Court-nez, no prazer de ouvir cantos bretãos entre os prazeres do vinho e da caça. Eram esses cantos os Lais, principalmente agradaveis ás mulheres, como o revela Denys Pyramus: «Lais soulent as dames plaire.» Juntamente se espalhavam os cantos narrativos, a que se chamava Bairtni, designação que se encontra no Arcipreste de Hita como nome de um instrumento musico, e que o rei Dom Duarte, no Leal Conselheiro emprega como o narrador de contos: «em tal maneira que não pareça que os albardões tem mais sabedoria que nós, por que elles nom se trabalhom d’arremedar as estorias melhores, mas que lhe som mais convenientes.»[127] A palavra albardeiro, empregada por Gil Vicente como exprimindo a sua vêa comica parece ligar-se a esta funcção narrativa; assim como as palavras Fatiste no tempo de Francisco I significando compositor «de jeux et novalités»[128] e o portuguez Fadista, cantor de narrativas, se ligam ao nome de Faith, dado na Irlanda aos cantores ou vates. O bardismo, perdido já o seu caracter sacerdotal, conservou-se como um mister de cantores vagabundos: «instituição que atravessou seculos e tornou-se uma feição caracteristica dos costumes gaulezes e irlandezes da Edade media,»[129] como o affirma Belloguet. Ao colligir as leis consuetudinarias cambrianas, no seculo X, estatuia Hoel o Bom ácerca d’estes Bardos: «Quando a rainha quizer ouvir um canto, o bardo domestico será obrigado a cantar um á sua escolha, mas em voz baixa, ao ouvido para que a côrte não seja perturbada.» Com o nome de Segrel (de Secretela, na baixa latinidade) encontra-se nas côrtes peninsulares uma classe de cantores que não são nem jograes, nem trovadores. Pela caracteristica do canto modulado em voz baixa, como se exige nas Leges Walliae, e pela frequencia dos Lais, que achamos citados nos Cancioneiros portuguezes, este nome de Segrel designa o cantor das melodias bretãs. Já no seculo XII o trovador Geraud de Riquier fallava d’esta classe de cantores da côrte: «E ditz als trobadors—Segriers por totas corts.» E no Regimento da Casa de D. Affonso III, de 1245, acha-se estabelecido: «Elrei aia trez jograres em sa casa e nom mais, e o jogral que veher de cavallo d’outra terra, ou segrel, lhe dê elrei ataa cem (maravedis?) ao que chus der, e nom mais, se lhe dar quizer.»[130] Muitos trovadores portuguezes alludem a este nome; como Affonso Eanes de Coton:

a todo o escudeyro que pede don as mays das gentes lhe chamam segrel... (Canç. 556)

Abril Peres, satyrisando Bernal de Bonaval, refere-se á situação de dependencia do segrel (Canção n.o 663); e o jogral Picandon, respondendo a um apodo de João Soares Coelho, exalta a sua categoria dizendo:

gram dereyt’ey de ganhar dões, e de seer en corte tan preçado como segrel...........

A estas melodias bretãs refere-se o trovador catalão Guerau de Cabrera, como um talento distinctivo: á tempradura de Breton; e no romance de Raoul de Cambrai aponta-se os musicos bretãos como os melhores: «Harpent Bretons et viellent jougler.» E no Lai de l’Épine, de Marie de France, cita-se o lai d’Aielis cantado por um irlandez ao som da rota bretã:

Le lais d’Aielis Que uns Yrois doucement note Mont le sonne ens sa rote.

Vê-se que a fórma lyrica bretã do Lai, que encantava a Europa, tinha tambem de reflectir-se em Portugal; o trovador Gonçalo Eannes do Vinhal allude á imitação constante de cantares:

senon aquestes de Cornualha, mays estes seguidos ben sem falha, e nom vi trobador per tantos logares. (Canç. 1007.)

Em uma canção de Fernão Rodrigues Redondo, (n.o 1147) refere tambem esta fórma: «Muy ledo seend’hu cantara seus lays...» O lay tornou-se narrativo, vindo a desenvolver-se nos longos e interessantes poemas de aventuras e amores. No Cancioneiro Calocci-Brancuti foram colligidos cinco Lais, dos que estavam mais em voga na côrte de D. Diniz; são o Lai de Elis o Baço, trez de Don Tristan, e o Lai das Quatro Donzellas. No Poema de Alfonso Onzeno, do seculo XIV, falla-se em: «la farpa de Don Tristan.»

O enthuziasmo pelos cantos lyricos provocou o seu desenvolvimento em poemas narrativos da Bretanha; assim, figuras quasi sem realidade historica, como o rei Arthur, servem de thema ás ficções da Tavola Redonda, e ás reminiscencias das luctas da nacionalidade celtica contra os Romanos e Saxões; e Merlim, ultimo vestigio da resistencia do druidismo contra o christianismo, não achando mais interesse nas prophecias, torna-se o amante da fada Viviana; os amores de Tristão e de Yseult, de Flores e Brancaflor fascinam todos os povos da Europa, e para satisfazer esse interesse, desenvolvem-se em extensas novellas. É na Bretanha continental que estes assumptos são elaborados no seculo XII, e propagados pelos Normandos: «Cousa estranha! foram os Normandos, isto é, de todos os povos o menos sympathico aos Bretãos, que espalharam a fama das fabulas bretãs. Espirituoso e imitador, o Normando tornou-se por toda a parte o representante eminente da nação á qual anteriormente se impuzera pela força. Francez em França, inglez em Inglaterra, italiano na Italia, russo em Novegorod, o normando esqueceu a sua propria lingua para fallar a lingua do povo que elle tinha vencido e tornar-se o interprete do seu genio. O caracter vivamente accentuado dos romances gaulezes não podia deixar de ferir homens tão promptos a apanhar e assimilar as ideias do estrangeiro. A primeira revelação das fabulas bretãs, a Chronica latina de Geoffroy de Monmouth, appareceu por 1137, sob os auspicios de Robert de Glocester, filho natural de Henrique I. Por estas mesmas narrativas se apaixonou Henrique II, e a seu pedido Robert Wace escreveu em francez, em 1155, a primeira historia de Arthur, e abriu a marcha a que se arrojou uma multidão de poetas ou de imitadores francezes, provençaes, italianos, hespanhóes, inglezes, scandinavos, gregos, georgianos, etc.»[131]

Os elementos d’estes poemas são vagos dados historicos, que pela sua obscuridade foram desenvolvidos em lendas, que se ampliaram depois em phantasias poeticas; esses dados historicos resumem-se em dois factos, um politico, que se refere ás luctas com que o rei Arthur sustentou a liberdade nacional da Bretanha contra a invasão dos Saxões; o outro é religioso, consagrando a resistencia com que a Bretanha se considerava christã pela doutrinação evangelica de Joseph ab Arimathia, e por tanto independente da Egreja de Roma á qual se tinham convertido os Saxões. Tal é o dado essencial dos poemas do Santo Graal e da Cavalleria celeste, que deriva d’essa autonomia das Egrejas nacionaes da Francia meridional e da Hespanha, que se consideravam proto-cathedricas. Foram os Normandos que se apropriaram d’estes germens épicos da Bretanha insular e lhe deram o brilhantismo com que seduziram o mundo; e por isso mesmo que essas tradições não eram suas, mais as diluiram no vago, no maravilhoso, fazendo o syncretismo de todas as ficções provenientes de varios povos pelo encontro das Cruzadas, pelas relações com os Arabes, pela leitura da Biblia e dos escriptos dos rabbinos convertidos e já pela erudição da Antiguidade classica.[132] Os Normandos, occupando a Inglaterra, pareciam aos Bretãos como que os seus vingadores sobre os seus antigos dominadores Saxões: «os Bretãos não estiveram longe, se dermos credito a algumas indicações contemporaneas, de vêrem no vencedor de Harold um libertador, quasi uma incarnação do rei Arthur. Os companheiros de Guillaume podiam então acceitar, como cantos de sua propria gloria, as tradições poeticas creadas pelo odio ao Saxão que elles acabavam de vencer pelas armas, mas que não estavam ainda subjugados nem socialmente, nem politica, nem religiosamente. Qualquer que fosse a sympathia que os novos conquistadores pudessem sentir pela poesia das populações indigenas, qualquer que fosse a relação que taes lendas pudessem ter com o seu proprio genio, elles eram sempre estrangeiros, estrangeiros orgulhosos, e arrogando-se o direito de tratarem como senhores a litteratura bretã. A lingua empregada n’esta litteratura não lhes era familiar, a significação d’estas tradições era para elles obscura, e não comprehendiam bem o alcance philosophico e patriotico; não penetravam todo o conjuncto dos cantos dos bardos, e o vago que era inherente a estes cantos tornava-os mais obscuros, e para elles os fazia ainda mais ideaes.»[133] Era esta situação que dava aos troveiros normandos a liberdade de crearem sobre vagos nomes de heroes e de symbolos nacionaes essa riqueza phantastica dos poemas da Tavola Redonda e do Santo Graal, confundindo com figuras historicas fadas, gigantes, anões e adivinhos, animaes monstruosos, dragões, bebidas magicas e philtros amorosos, encantamentos, e poderes talismanicos das espadas invenciveis. Compondo especialmente para as côrtes, exaltavam a galanteria e tornavam-n’a o culto da mulher, aproveitando assim a tendencia iniciada pela idealisação dos trovadores. O symbolismo da Cavalleria, dos passos de armas, dos torneios, dos votos denodados, lisongeava a paixão dos Barões feudaes, que iam decahindo diante da crescente dictadura monarchica. E como as Cruzadas acabavam, a imaginação dos nobres precisava de uma outra cruzada, a da Cavalleria celeste em procura do Santo Graal, vindo assim a confundirem-se os dois cyclos poeticos, mais mysticos nos poemas dos minnesingers allemães, mais guerreiros e amorosos entre os troveiros francezes. Essa fecundissima actividade poetica que veiu sobrepôr-se á imitação das Canções dos trovadores e á attenção pelas Gestas frankas, espalhava por toda a parte os romances da Tavola Redonda, em prosa: o Santo Graal e Demanda do Santo Graal, o Tristão, Lancelot, Merlin, Morte de Arthur, Giron le Courtois, Palamedes, Meliadus; e em verso os romances do Perceval le Gallois, La Charrette, Chevalier au Lion, Erec et Enide, Cliges, Loucura de Tristão, Frejus, Jaufre, Atre périleux, Claris et Laris, Chevalier à l’Epée e La Dame à la licorne.

Todas estas ficções lidas e escutadas nas côrtes tendiam a confundir-se na imaginação produzindo situações romanescas, que vieram depois a constituir uma nova fórma de idealisação—a Novella de Cavalleria, de que o typo fundamental é o Amadis de Gaula. Os nomes dos personagens d’estes poemas foram adoptados na sociedade civil em Portugal, e é frequente encontrarem-se nos Nobiliarios as Viviana, Iseu, Ausea ou Ausenda (de Yseult), as Ginebra (de Gwenivar), as Briolanja (Brengienne), os Arthur, Percival, Lisuarte, Lançarote, Tristão, desde o seculo XIV até ao fim do seculo XV. Que prova mais evidente do interesse que produziram em Portugal os poemas da Tavola Redonda.

Esta nova corrente litteraria e erudita veiu interromper a elaboração e a propagação das Gestas frankas: em 1155 estavam as Gestas no seu esplendor e fecundidade, quando appareceu o Roman de Brut, de Robert Wace, d’onde diffluiram depois todos os romances da Tavola Redonda. A Bretanha insular e a Armorica provindo de uma mesma origem, collaboraram diversamente n’estes poemas que tiveram por centro o rei Arthur; as tradições bardicas e mesmo christianisadas conservaram-se nas populações insulares, mas só foram desenvolvidas litterariamente pelos troveiros normandos ou continentaes. Foi assim que a Inglaterra recebeu a sua materia poetica elaborada artisticamente pelo genio gallo-bretão. Paul Meyer fundamentou este facto: «que o francez tendo-se implantado em Inglaterra depois da conquista, a litteratura das classes elevadas foi, durante mais de dois seculos, inteiramente franceza, não só pela origem, como pela lingua.»[134]

O Roman de Brut, de Robert Wace, acha-se aproveitado como documento historico pelo Conde Dom Pedro no seu Nobiliario, fazendo a genealogia e contando o nascimento do rei Arthur:

«E hum dia teue corte (o rei Uterpandragon) e forom hi todos seus ricos homeens com sas molheres. E veo hi hum Conde de Cornoalha e trouve hi sua molher que avia nome Ygerna, e veo muy bem afeitada e muy ricamente aparelhada, e ella era a mais fermosa molher de toda a terra. E quando vieerom aa mesa hu se assentou elrrey a comer oolhoua elrrey e nom pode mais comer, tanto se pagou d’ella, e nom fazia all senon oolhala dos olhos. E pensou em seu coraçom que se com ella nom jouvesse que morria. Este Conde seu marido soubeoo e levantou-se da mesa com sa molher e foysse para huum seu castello que avia nome Tinteol. E elrrey foyo cercar com toda sua oste, e emviou por Merlin e veo a elle por seu comsselho e ouve elrrey por molher esta dona, e ouve della huum filho que ouve nome Artur o que disserom Artur de Bretanha, onde ouvistes fallar que foy muy boo.»—«Morreu Uterpandragom e rreynou seu filho Artur de Bretanha, e foy boo rey e leal, e conquereu todollos seus emmiigos e passou por muytas aventuras e fez muytas bondades que todollos tempos do mundo fallarom delle. Este rrey Artur fez huum dia em Chergeliom (Caerleon) sa cidade cortes. E estas cortes forom muy boas e muy altas. A estas cortes veerom doze cavalleiros messageiros que lhe enuiaua Luçius Liber que era emperador de Roma que sse fezesse seu vassallo rey Artur e que teuesse aquella terra de sua mãao. E se esto não fezesse que lhe mandaria tolher a terra por força e que faria justiça de seu corpo. Quando esto ouviu o rrey Artur foy muito irado e mandou chamar toda sa gente que armas podiam levar. E quando foy a Sam Miguel em monte Gargano combateosse com o gigante que era argulhoso e vençeo e matou; o Luçius Liber quando soube que rey Artur hia sobre elle chamou sa oste e toda sa gente e sayolhe ao caminho. E lidarom ambos e vençeo elrrey Artur foy arrancando ho emperador. E elrrey Artur quando moveu da Bretanha por hir a esta guerra leixou a sa terra a huum seu sobrinho que havia nome Mordech.»—«Este Mordech que avia a terra em guarda do rrey Artur e a molher quando elrrey foy fóra da terra, alçousse com ella e quislhe jazer com a molher. E elrrey quando o soube tornousse com sa oste o veo sobre Mordech. E Mordech quando o soube filhou toda sa companha e sayo a ella aa batalha. E elles tiinham as aazes paradas para lidar no monte Cambelet, e acordousse Mordech que avia feito grande traiçom e se entrasse na batalha seria vençido. E enviou a elrrey que saysse a departe e falaria com elle, e elrrey assy o fez. E elles que estavam assy em esta falla sayo huma gram serpente do freo a elrrey Artur, e quando a vyo meteo mãao aa espada e começou a encalçalla e Mordech outrossi. E as gentes que estavam longe viram que hia huum apos ho outro, e foramsse ferir humas aazes com as outras e foy grande batalha, e morreu Galuam (Gauvain) o filho do rrey Artur, e huma espadada que trazia sobressada, que lhe dera Lançarote do Lago quando entrara em reto ante a cidade de Ganes. Aqui morreu Mordech e todollos boos caualleiros de huma parte e de outra. Elrrey Artur teue o campo e foy mal ferido de trez lançadas e de huma espadada que lhe deu Mordech, e fezesse levar a Islaualon (ilha de Avalon) por saar. D’aqui em diante nom fallemos d’el se he vivo se he morto, nem Merlin nom disse del mais, nem eu nom sey ende mais. Os bretões dizem que ainda he vivo.»[135] Vê-se por este trecho, que o Conde D. Pedro estava ao facto da litteratura da Tavola Redonda seguindo o Roman de Brut, de Robert Wace, e referindo-se ás outras composições dos troveiros normandos, Merlin e Lançarote do Lago, que ainda no seculo XV citava o chronista Azurara. Estava esta litteratura artificiosa em harmonia com os habitos da côrte do rei Dom Diniz, e facilmente se apoderou da predilecção dos trovadores portuguezes; Estevam da Guarda, favorito de Dom Affonso III, falla em uma canção dos amores de Merlin com a fada Viviana:

Como aveo a Merlin de morrer per seu gram saber, que el foy mostrar a tal molher, que o soub’enganar... ......................................... E o que lhe é muyto grave de teer por aquelo que lh’el foy mostrar, en estar com quem sabe que o pod’ensarrar en tal logar hu convem d’atender a tal morte da qual morreu Merlin hu dará vozes fazendo ssa fin, ca non pode el tal morte escaecer. (Canção n.o 930.)

O conhecimento das prophecias e aventuras de Merlin transparece no Poema de Affonso Onzeno, e na livraria do rei D. Duarte vem catalogado o livro de Merli (do bretão Myrdhinn.) No Cancioneiro geral, de Resende, falla Diogo de Pedrosa na lenda dos amores do propheta bretão:

O que foy d’esse Merlyn E d’outros antes d’aguora, Ysso ade ser de mym Por vossa filha senhora. (Fl. 57.)

As allegorias do Leão dormente e do Porco selvagem, que das prophecias de Merlin passaram para o poema da batalha do Salado, tambem se reflectem nas prophecias de Bandarra no seculo XVI, da mesma fórma que a lenda da immortalidade e vinda do rei Arthur para vingar a raça bretã, se personificou em D. Sebastião, vivendo em uma ilha encantada para vir fazer de Portugal o Quinto Imperio do mundo.

Junto com o livro de Merlin andava tambem o poema de Tristão, nos manuscriptos da Edade media. Na côrte de Dom Diniz era Tristão considerado o typo ideal do namorado, e o proprio monarcha trovador diz que o excede:

Qual mayor poss’e o muy namorado Tristã, sey ben que non amou Iseu, Quant’eu vos amo, certo sey eu... (Canç. n.o 115.)

E compara-se tambem a outro modelo dos amantes exaltados, idealisado no romance de Flores e Brancaflor, que se liga pelo encadeamento cyclico ás gestas carlingias. Os trovadores provençaes citavam esse typo do namorado:

Quar plus m’en mi abellida Non fis Floris de Brancaflor[136]

E o rei Dom Diniz empregava a mesma comparação:

Qual mayor poss’e o mays encoberto que eu poss’e sey de Brancha frol, que lhi non ouve Flores tal amor qual vos eu ey;..............

O thema da fidelidade no amor tornou-se quasi exclusivo nos poemas de aventuras, em que degeneraram os da Tavola Redonda; sobre o sentimento de fidelidade se elaboraram os poemas Meliadus de Leonys, Frejus et Galienne, Claris et Laris, Helias, Chevalier de la Charrette, Partenopeus de Blois, destacando-se d’entre todos elles pelo seu exagero vertiginoso os poemas de Amadas et Ydoine, conhecidos na Hollanda, Allemanha, Borgonha, Inglaterra, Hespanha e Portugal já nos fins do seculo XIII. Em varios fableaux apparece frequentemente citado o nome de Amadas, como o ideal da fidelidade em amores; não admira que sobre este rudimento novellesco, se agrupassem todas as aventuras da fidelidade amorosa dos poemas conhecidos na côrte de D. Diniz, dando a novella em prosa do Amadis de Gaula. De toda essa elaboração poetica dos troveiros normandos, conhece-se hoje apenas dois poemas, o Amadas et Ydoine, por Jean de Mados, e Sir Amadace; mas além d’estas versões franceza e ingleza, é crivel que existissem pelo menos uma outra neerlandeza anterior a 1290, e uma allemã. De uma versão que chegou á côrte de Dom Diniz é que Lobeira (João, antes de Vasco) elaborou por amplificação e syncretismo a novella de Amadis de Gaula, que por seu turno conquistou todas as imaginações na Europa, mesmo na época da Renascença. O phenomeno litterario de um poema em verso, quer seja Amadas et Ydoine, Sir Amadace, ou qualquer outra redacção passar á prosa de uma extensa novella como o Amadis de Gaula, era frequente na Edade media. O poema de Blanchefleur converteu-se na mão de Boccacio no Filicopo, novella desenvolvida largamente á custa da simplicidade primitiva do poema. D’este facto conclue Du Méril: «Os habitos litterarios da Edade media complicam desgraçadamente todas as questões de origens com difficuldades insoluveis, se se não deixar ao sentimento o tirar as conclusões, quando escaceando os dados precisos, o raciocinio se dá por incompetente.»[137] Quem escreveu a Novella tinha presente na imaginação as situações dos romances que então mais lisongeavam o gosto da aristocracia no seculo XIV; poz em prosa as aventuras cavalheirescas mais conhecidas e sympathicas, e attribuiu-as a um mesmo typo, tambem já conhecido e idealisado em varios poemas em verso. Originalidade poetica, nenhuma litteratura da Edade media a tem, nem mesmo a franceza: os themas tradicionaes são communs a este syncretismo das raças. O que interessa na novella do Amadis de Gaula é a fórma em prosa, e essa é um producto que mais caracterisa a litteratura medieval portugueza.

Na discussão da origem do Amadis o sabio Victor Le Clerc assentou o problema definitivamente: «a primeira redacção do famoso Amadis de Gaula, que todavia não é, como se vê pelo texto mais antigo hoje conhecido o hespanhol, senão uma imitação prolixa dos poemas da Tavola Redonda e dos Romances de aventuras, taes como o nosso romance de Amadas.»[138] N’este monumental Discurso, escreve: «Nos Amadises, os quaes são derivados dos Lancelot e dos Tristãos, e aonde se tem querido vêr o ideal do amor cavalheiresco, a bella Oriana concede tudo antes do tempo tanto esperado em que os imperadores e os reis hão de vir assistir ás nupcias.»[139] E apresenta o problema da origem litteraria com toda a segurança:

«Quando o poema francez de Amadas, que em 1365 fazia parte dos livros de um conego de Langres e que ainda subsiste, tiver sido vulgarisado; quando o poderem comparar ao Amadace inglez, áquelle bravo, que os fragmentos publicados em 1840 e 1842, segundo differentes textos manuscriptos, concordam em represental-o como o mais brilhante modelo de lealdade, de bravura e de respeito cavalheiresco; quando principalmente se fizer uma ideia mais justa e mais completa da alluvião de romances em prosa que, nos primeiros cento e cincoenta annos da imprensa, para corresponder, tanto em Hespanha como em França, ao enthuziasmo da moda, multiplicaram á compita os nossos antigos poemas, alongando-os com digressões importunas, conversas alambicadas, com uma ampla brigada de gigantes, fadas, encantadores, será então occasião de perguntar, se foi sem fundamento ou se com rasão que o velho traductor francez do Amadis hespanhol, Herberay des Essarts, nos disse que descobrira alguns fragmentos escriptos á mão em lingua picarda, e de decidir se este romance de aventuras, cujo plano pouco se prestava aos embelecos do perfeito amor, por isso que começa por onde outros acabam, nasceu em Portugal, em Hespanha ou em outra qualquer parte.»[140] Du Tréssan, já no seculo XVIII, resumindo esta novella do Amadis de Gaula, tambem declara ter visto na Bibliotheca do Vaticano, o antigo poema no fundo que pertencera á rainha da Suecia, cujo exame lhe fôra facultado pelo cardeal Querini.[141] Da mesma opinião de Le Clerc é Littré: «Amadas lembra o cyclo dos Amadises, que certamente hespanhol no seculo XV, tem por ventura ligações com mais antigas composições francezas.»[142]

Dando-se a transformação de um poema versificado para prosa dramatica e descriptiva, com o intuito de ampliar um thema favorito, as analogias entre as duas composições não devem ser procuradas na fórma mas no pensamento e situações que o desenvolvem. A novella de Amadis de Gaula foi lida e admirada durante toda a Edade media pelo vigor do thema da fidelidade dos dois amantes Amadis e Oriana; o romance de Amadas et Ydoine foi egualmente inspirado pelo mesmo sentimento de fidelidade. Identidade completa de thema: tanto Amadas como o Amadis servem na côrte de um rei, por cuja filha Ydoine ou Oriana (temos a fórma Idana) se apaixonam, e para merecerem-a vão nobilitar-se nas armas para serem primeiramente armados cavalleiros. É durante as longas e arriscadas aventuras que tanto o donzel como a filha do rei se mostram animados de uma sublime fidelidade, terminando a acção por se unirem como sonhavam. Na redacção em prosa, tanto pelo seu caracter como pelo gosto do tempo, os innumeros episodios, as historias genealogicas e os longos discursos fazem esquecer a simples trama, que facilmente se aproximaria da versão poetica d’onde tirou os elementos originarios. Amadis, apezar da nobreza do seu nascimento, teve uma infancia obscura, e sómente pelo seu garbo e gentileza é que foi tomado pelo rei Languinés de Escossia para a sua côrte; Amadas tambem occupava na côrte do Duque de Borgonha um logar secundario como filho do senescal. Oriana é filha do rei Lisuarte, e na côrte de Languinés é que Amadis a encontrou na festa á sua chegada da Dinamarca. Foi n’esta situação que nasceu o amor de Amadis, do mesmo modo que o de Amadas por Ydoine: «Amadis tinha então doze annos, mas pelo seu corpo e pelos seus membros bem parecia ter quinze; servia a rainha e era muito amado d’ella e de todas as damas e donzellas; mas logo que ali chegou Oriana, filha do rei Lisuarte, a rainha lhe deu o Donzel do mar para a servir, dizendo:—Amiga, eis aqui o garção que vos servirá. Respondeu ella: Que era do seu agrado. Esta palavra penetrou por tal fórma o coração do donzel, que d’ali em diante nunca mais lhe saiu da lembrança. E nunca, como esta historia o conta, em dias de sua vida se enfadou de a servir, e seu coração lhe foi sempre dedicado, e este amor durou tanto quanto ambos viveram.»[143]

No romance de Amadas repete-se esta situação; o senescal n’esse dia veiu servil-o á meza, como lhe competia, e a seu lado seu filho Amadas ia-o ajudando; foi então que o Duque mandou o donzel servir a sua filha Ydoine.[144]

Nas referencias que alguns poetas castelhanos do seculo XIV fazem do Amadis, como Pero Ferrus, Fray Miguel, Micer Francisco Imperial e outros, tudo leva a crêr que alludiam á fórma poetica do romance assim conhecido em Hespanha. Ferrus cita o Amadis junto com o Rei Arthur, Dom Galaaz, Lançarote, Carlos Magno, Tristão e Roland, que eram escriptos em verso. As allusões constantes que se encontram no Amadis aos romances do cyclo da Tavola Redonda e a outros de origem franceza, mostram claramente que esse thema não é uma invenção do genio portuguez, mas que foi em Portugal que essa ficção recebeu a fórma em prosa com que se universalisou.[145] No texto da versão hespanhola de Montalbo, e no Cancioneiro Colocci-Brancuti estão as provas irrefragaveis da primitiva redacção portugueza: são a rubrica ácerca da emenda do episodio de Briolanja, e a canção de João Lobeira, Leonoreta, que o traductor castelhano deturpou não conhecendo a fórma estrophica.

Os romances da Tavola Redonda fizeram decahir de interesse as Gestas carlingias, exclusivamente guerreiras, e actuaram tambem para que a poesia lyrica trobadoresca bastante subjectiva fosse substituida pelas narrativas apaixonadas das novellas de aventuras. Com o falecimento do rei D. Diniz decahiu na côrte a lyrica trobadoresca; a sua paixão pela eschola provençal, causára essa exuberante actividade poetica da sua côrte, centro a que convergiam os jograes da Galliza, Catalunha, Leão, Aragão e Castella, e até os seus bastardos, D. Affonso Sanches e D. Pedro o lisongeavam metrificando com esforço, ou colligindo canções. Em uma canção de Joham jogral, fixa-se esta decadencia pela morte do rei:

Os trobadores que poys ficarom En o seu regno e no de Leon, No de Castella, no de Aragon Nunca poys de sa morte trobarom. (Canção n.o 708.)

Por morte do Conde D. Pedro, elle deixou o seu Livro das Cantigas a Affonso XI, de Castella, por que em Portugal Affonso IV não apreciava as manifestações do lyrismo trobadoresco. E este desprezo continuou-se nos successivos reinados, persistindo cada vez mais o enthuziasmo pelas novellas de Cavalleria, como vêmos nas côrtes de D. João I, D. Duarte e D. João II, em que se lêem a Demanda do Santo Graal, Merlin, José Ab Arimathia, Cavalleiro do Cysne, Galaaz, e outras muitas novellas. A poesia lyrica, revelada tão brilhantemente na côrte de D. Diniz, tornou-se um pallido reflexo da castelhana no seculo XV, e só tornou a reflorir depois do primeiro quartel do seculo XVI, em consequencia de Sá de Miranda trazer a Portugal a nova Eschola italiana.

A nova phase do perstigio das Novellas da Tavola Redonda não corresponde a uma realidade, isto é, aos habitos sociaes da época; entravamos no seculo XV, na corrente da burguezia e da prosa, na creação da historia e da legislação sem symbolos, sob a dictadura do poder real. Não havia pois logar para a cultura do individualismo heroico da Cavalleria; a justiça do rei, como o revela o grito popular Aqui d’Elrei, não permittia a intervenção generosa de qualquer senhor. E é precisamente na côrte de D. João I que se encontra o mais exaltado prurido pela leitura e imitação das novellas da Tavola Redonda e dos seus heroes, chegando os seus nomes a serem reproduzidos nas familias aristocraticas. Explica-se esta antinomia; primeiramente D. João I era um bastardo, que achando-se no throno, quiz cercar-se de todos os symbolismos da soberania e do fausto cavalheiresco; depois pelo casamento com D. Philippa de Lencastre imita o cerimonial da côrte ingleza e toma conhecimento dos livros ahi mais predilectos entre a nobreza. O francez era então usual na côrte de Inglaterra. Convinha mais á côrte portugueza a leitura das novellas com aventuras e situações ficticias; o cyclo do Santo Graal, em que se preconisa a fidelidade á Egreja, harmonisava-se pelo seu maravilhoso com o nosso genio celtico. E essas aventuras, como a da Descida aos infernos, a da descoberta do Preste João (o christianismo entre os Bretãos foi propagado por discipulos de Sam João) e Viagens de Sam Brendan, influiram no genio aventureiro que levou os portuguezes ás descobertas maritimas.

Imitava-se o viver idealisado nas novellas de Cavalleria; na Chronica de D. João I conta Fernão Lopes, que este rei no cêrco de Coria, se queixára de lhe faltarem cavalleiros como os da Tavola Redonda, e que agastado Mem Rodrigues de Vasconcellos fôra comparando os cavalleiros presentes a Galaaz, a Lançarote, a D. Quêa, allegando pelo seu lado que lhes faltava um bom rei Arthur, flor de liz, que sabia conhecer o valor. Esta anecdota já andava repetida desde o seculo XIII, em nome do rei Philippe, que se lamentava de não haver já cavalleiros tão bons como Roland e Olivier. O Condestavel Nun’Alvres queria imitar a virgindade de Galaaz, para manter a pureza da Cavalleria: e faziam-se votos denodados, como os Cavalleiros da Madre Silva, Ala dos Namorados e Doze de Inglaterra. Até nas instituições sociaes penetrava a imitação artificial das cerimonias e symbolismos cavalheirescos; basta abrir o Regimento de Guerra portuguez, codificado pelo Infante Dom Pedro, o que correu as Sete Partidas do mundo, para vêr como debaixo da esquadria logica e unitaria da codificação romana estabelecida pelos jurisconsultos burguezes, irrompe o cerimonial novellesco com que um escudeiro devia de ser armado cavalleiro. E sóbe de interesse esse confronto com o cerimonial do poema Ordene de Chevallerie, de Hugues de Tabarie. As explicações symbolicas do troveiro francez coincidem com os paragraphos da Ordenação affonsina. É com rasão que se considera o Regimento de Guerra como o necrologio da cavalleria portugueza; este ultimo lampejo de vida foi-lhe communicado pela leitura dos poemas anglo-normandos da Tavola Redonda, que figuravam nas livrarias régias.

É hoje conhecida a novella portugueza da Demanda do Santo Graal, que possuia D. João I, bem como a rainha Isabel a Catholica e o princepe de Viana; é uma livre paraphrase da novella franceza La tierce partie de Lancelot du lac avec la Queste du Saint Graal et de la dernière partie de la Table Ronde. No seu texto fazem-se referencias á redacção franceza de Robert de Boron, que seguira o paraphrasta portuguez. D’este manuscripto, a que falta o principio, ha já uma grande parte publicada pelo Dr. Reinhardsttoetner, que o copiou na bibliotheca imperial de Vienna. É tambem da época de Dom João I a novella Livro de Joseph ab Arimathia intitulado a primeira parte da Demanda do Santo Graal; allude a este livro uma passagem do Cancioneiro de Resende em que falla do Mestre Eschola e da novella (João Sanches, Mestre Eschola de Astorga, que a mandára escrever.) Tambem no tempo de D. João I foi lido em Portugal o poema inglez de John Gower, A Confissão do Amante, que Roberto Payno traduziu para portuguez; formado de uma selecção de contos francezes, de imitações de Jean de Meung, de extractos de Lancelot, de Amadas, Tristan, Partenopeus de Blois, era mais um vehiculo para nos relacionar com a vigorosa poesia da Edade media franceza. Na Livraria do rei Dom Duarte, continuou a prevalecer a sympathia por estes poemas, apesar de ir despontando já a admiração pelos escriptores classicos. Ali se guardava o Livro de Tristam, por ventura a redacção de Luce de Gast e de Helie de Boron; Merli, que é uma das partes da Tavola Redonda, como se deprehende do exemplar descripto no catalogo da livraria de Isabel a Catholica; o Livro de Galaaz, que era a leitura favorita do Condestavel; a Conquista de Ultramar, em que uma parte é imitada das aventuras do Cavalleiro do Cysne. Ruy de Pina mostra a influencia d’esta novella na côrte de D. João II: «antre os quaes ElRei para desafiar as justas que havia de manter, veeo primeiro momo, envencionado Cavalleiro do Cisne com muita riqueza, graça e gentileza.»[146] Esta novella começada por Jehan de Renault e terminada por Graindor, exalta Godofredo de Buillon entre complicadas scenas de encantamentos e duellos.

As viagens dos monges bretãos, as narrativas do claustro de Cruenferl, as lendas monasticas de Kadock, Barontus, e de S. Brendan devassando as regiões do norte, contemplando as auroras dos polos e vendo á superficie dos mares as magnificencias do creador, muitas o muitas vezes seduziram a imaginação dos primeiros navegadores portuguezes, attrahidos pelo maravilhoso da geographia antiga. É admiravel a Odyssea monachal das viagens de San Brendan; na Chronica da Conquista de Guiné cita-as Azurara: «Bem he que alguns deziam, que passara per ally san Brandam...»[147] As Ilhas encantadas, da tradição celtica, surgem vagamente na imaginação do povo portuguez, que se arroja ás descobertas. E Camões, profundamente nacional, quando, representando no seu poema o genio d’este povo, quer consolar os cansados navegantes recorre ao sonho deleitoso da antiga geographia das Ilhas Fortunatas, Antilia e Atlantida, no episodio da Ilha dos Amores. Egual seducção com as lendas do Preste João das Indias, cuja Epistola desde o seculo XII circulava na Europa entre as relações apocryphas de Merlin e de Sam Brendan. Quando a nacionalidade portugueza esteve a ponto de extinguir-se na incorporação castelhana, foram os sonhos deliciosos do genio celtico que fortificaram no seu desalento este povo atraiçoado pelo clero e pela aristocracia. O rei D. Sebastião, que vivia emballado em sonhos novellescos de imaginarias conquistas, ao precipitar-se para a catastrophe de Alcacer-kibir, fazia-se acompanhar pela mesma fórma como os antigos monarchas saxões, que entravam em combate seguidos pelos seus menestreis. O povo sympathisou com este typo do hallucinado cavalleiro, idealisou-o na sua tradição, guardou-o, á similhança do rei Arthur, tambem em uma ilha encantada, d’onde o seu Merlin, Bandarra o sapateiro de Trancoso, prophetisou que viria tornar Portugal liberto o Quinto Imperio do Mundo.[148] O elemento celtico, que desde muito cedo differenciou Portugal das populações hispanicas, manifestou-se pela sympathia por estas ficções gallo-romanas, tornando-as como um dos estimulos da sua acção historica.

d) A CULTURA LATINO-ECCLESIASTICA E HUMANISTA

O conhecimento das obras litterarias da civilisação greco-romana não se obliterou completamente mesmo nos seculos mais perturbados da Edade media; mas esta continuidade não contrariou as manifestações do genio esthetico das raças que entravam na corrente historica. É certo que quanto mais avançavam para a civilisação, mais se accentuava entre as novas nacionalidades o antagonismo dos dois espiritos,—o classico, reflexivo, disciplinado e harmonico, e o romantico ou medieval, espontaneo, pessoal e impetuoso. Magnin observa este facto: «de se não poder encontrar na Europa um lapso de tempo de qualquer extensão em que tivesse havido uma solução total de continuidade e de esquecimento completo das tradições antigas. No emtanto, a verdade é, que durante mais de dez seculos, um espirito novo, violento, inculto, posto que subtil e delicado á sua maneira, o espirito do norte, emfim, prevaleceu sobro o genio esgotado de Athenas e de Roma; mas, graças á Egreja, esta vida potente e nova nunca abafou inteiramente a antiga.»[149] A Egreja adoptando o latim para a sua liturgia e para a chancellaria papal, e recebendo da patrologia grega os elementos dogmaticos da sua doutrina, via-se forçada a manter diante da espontanea actividade dos espiritos da Edade media o respeito pela civilisação polytheica, que ella combatia. Nos varios seculos da éra medieval foram conhecidas as tradições homericas, os poemas de Virgilio e de Ovidio, os tratados philosophicos de Seneca, e mesmo algumas comedias de Terencio; mas a Edade media apropriou-se d’elles, imprimindo-lhes o seu caracter, assimilando-os como productos proprios. O Renascimento ou renascença do mundo classico, nos fins do seculo XIII com Petrarcha e Boccacio, e que se continúa com deslumbramento no seculo XV, é esse phenomeno de erudição e de critica que leva a descobrir o verdadeiro caracter da civilisação greco-romana. É então que se estabelece o antagonismo dos dois espiritos. Magnin descreve esse conflicto, que se observa nos costumes, nas instituições e nas litteraturas: «Desde a sua nascença, isto é, desde o fim do seculo V, a civilisação moderna foi submettida a duas influencias em sentido contrario, a influencia do genio romano e a do espirito do norte, dois elementos cuja opposição, bem que temperada por um laço commum, o Christianismo, ainda hoje se faz sentir em todas as controversias que nos agitam.» E conclue d’este dualismo historico: «se a sociedade europêa existe ainda potente e vivaz depois de mais de treze seculos, é por que ella preenche a condição a mais indispensavel aos phenomenos da vida, a de ser o resultado de duas forças, de dois elementos combinados. Depois da dissolução do Imperio do Occidente até ao meado do seculo XV, quer dizer, durante o intervallo ainda imperfeitamente estudado a que se chama Edade media, a influencia da barbarie germanica augmentada, sob os ultimos Carlingios, com a barbarie scandinava, dominou tudo. Depois do meado do seculo XV, inversamente, o genio mais clemente da Grecia e da Italia prevaleceu por toda a parte, mas desegualmente, e são estas desegualdades mesmo que, mais do que o velho caracter indigena, constituem a originalidade nacional da França, da Hespanha, da Italia, da Inglaterra. Seria vantajoso levar até aos seus extremos a eliminação de um d’estes dois elementos? A ter de optar, qual d’estes nossos dois troncos originaes o menos esgotado e o mais rico ainda de seiva e de futuro?—Ha, effectivamente, na sociedade moderna, homens e cousas que mantêm a dupla e desegual feição da sua complexa origem. Ha homens de natureza romana, e homens de natureza septemtrional. As letras e a historia têm em todas as épocas apresentado energicos representantes d’estas duas familias, estes leaes campeões dos instinctos do septemtrião, aquelles fieis clientes da policia e da urbanidade romanas.»[150] A alternancia d’estes dois elementos está ligada á marcha da civilisação europêa, e acompanha a lucta dos dois Poderes. O papado inicia as escholas das Collegiadas e chega á fundação do Estudo Geral para o ensino das Sete Artes. O nome de latino é synonimo de letrado, de culto e intelligente, d’onde se conserva ainda a expressão vulgar de ladino; o clericus destacou-se do leigo pelo uso do latim, a linguagem da sciencia, dos altos dignatarios da Egreja, dos embaixadores e dos homens de côrte, em contraposição com a linguagem do vulgo, a que chamavam romance, como se vê em Benoit de Saint More, na Historia de Troya:

Notes in this chapter

Note 1 · Cours de Philosophie positive, t. VI, p. 146.Note 2 · Cours de Philosophie positive, t. VI, p. 150.Note 3 · Ibid., p. 152.Note 4 · Op. cit., p. 2.Note 5 · Système de Politique positive, t. III, p. 459.Note 6 · Cours de Philosophie positive, t. VI, p. 155.Note 7 · Cours de Philosophie positive, t. VI, p. 155.Note 8 · Ibid., p. 156.Note 9 · H. Fortoul, De la Litterature provençale (Rev. des Deux Mondes), 1846.Note 10 · Poeti del primo secolo, t. II, p. 175.Note 11 · Von Provenz in Tustsche lant Die rechte mere sint gesant.Note 12 · Frédéric Morin, France au Moyen-Age, p. 82.Note 13 · Obras del Marqués de Santillana, p. 12. Ed. Amador de los Rios. (1852)Note 14 · Poésie des Troubadours, p. 237.Note 15 · Na Chronica gothorum (Mon. hist., Scriptores, I), lê-se: «Eodem quoque tempore venerunt quedam naves exinsperato de partibus Galliarum, plenNote 16 · Terram Portugallorum Dacis et Flandris dedit. (Cap. XVIII).Note 17 · Léon Gautier, Les Épopées françaises, t. I, p. 71.Note 18 · Hist. de la Poésie provençale, t. III, p. 9 e 29.Note 19 · Mon. Hist.—Scriptores, p. 283.Note 20 · Léon Gautier, Les Épopées fr., t. II, p. 184.Note 21 · Monarch. luzitana, t. IV, p. 289.Note 22 · Romanceiro geral, n.o 34.Note 23 · Historiens de France, t. XXII, p. 24 (préface) e p. 589. Apud Léon Gautier, Les Épopées françaises, t. I, p. 373.Note 24 · Jean Corbechon, De Proprietatibus, fl. 237. Apud Léon Gautier, Les Épopées franç., t. i, p. 393.Note 25 · Gautier, ibid., t. i, p. 783.Note 26 · Chronica da Conquista de Guiné, p. 4. Ed. Paris.Note 27 · Les Épopées françaises, t. II, p. 249.Note 28 · Essai sur l’origine de l’Épopée française, p. 57 a 59.Note 29 · La Poésie des Races celtiques. (Essais de Morale et de Critique, p. 380.)Note 30 · Renan, ib., p. 427.Note 31 · Op. cit., p. 321.Note 32 · Henri Martin, Hist. de France, VIII, 22.Note 33 · Ethnogénie gauloise, III, 335.Note 34 · Mon. hist., Leges, p. 139.Note 35 · Renan, op. cit., p. 417.Note 36 · D’Héricault, Essai sur l’origine de l’Épopée française, p. 51.Note 37 · D’Héricault, ibid., p. 47.Note 38 · Rapport sur une Mission litteraire en Angleterre, p. 1.Note 39 · Monum. hist., Scriptores, p. 244.Note 40 · Poesies des Troubadours, t. III, p. 25.Note 41 · Blanchefleur, Introduc., p. XXXVII.Note 42 · État des Lettres au XIVme siècle, t. I, p. 153.Note 43 · Ibid., p. 484.Note 44 · Ibid., t. II, p. 15.Note 45 · No citado resumo (t. I, p. XXII) se lê: «Je n’ose m’en fier absolument à ma memoire; je suis intimement conveincu d’avoir vu ces manuscriptsNote 46 · Dictionaire, compl. de la préface, p. LIV. Hippeau, editor do poema de Amadas et Ydoine, reconhece estas relações, e que reclamam serio examNote 47 · Libros de Cavallerias, p. 30 (Ed. Ribadaneyra.)Note 48 · Et Amadas devant sont père Devant son père, à la table ere, Cui puis avint maint aventure. Li dus l’apela à droiture, Le mès li commandNote 49 · Do prurido que exerceram os poemas da Tavola Redonda na sociedade europêa falla Dante no celebre episodio de Francesca di Rimini, seduzida pNote 50 · Ineditos da Historia portugueza, p. 120.Note 51 · Ed. de Paris, p. 45. Em nota escreve o Visconde de Santarem: «Segundo esta tradição, dizia-se que San Brendan tinha aportado em um navio no Note 52 · Renan, no estudo Poesia das Raças celticas, alludindo ao poder das ficções, escreve: «D’ahi este profundo sentimento do futuro e dos destinoNote 53 · Roland et la Chevalerie (na Rev. des Deux Mondes, 1846.)Note 54 · Roland et la Chevalerie. Magnin esboça um plano de coordenação de caracteres historicos fundado sobre este dualismo: «Comprazer-me-hia a opp
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