I Elementos staticos da Litteratura
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Como um producto da actividade social em condições de estabilidade, uma Litteratura só póde ser bem estudada e comprehendida conhecendo-se os elementos staticos, ou de ordem, e dynamicos ou de progresso, de que ella é um dos effeitos complexos. Spencer submettendo os phenomenos sociaes e mentaes á correlação das forças physicas, formúla com clareza esta base critica: «Uma sociedade pouco numerosa, seja qual fôr a superioridade do caracter dos seus membros, não póde desenvolver a mesma somma de acção social como uma que é grande. A producção e a distribuição das mercadorias deve fazer-se em uma escala relativamente pequena. Uma imprensa numerosa, uma litteratura fecunda, uma agitação politica poderosa não lhe são possiveis. A producção das obras de arte e das descobertas scientificas tambem não deve ser excessiva.»[1] Escrevendo a Historia da Litteratura portugueza importa ter sempre presente este ponto de vista, para não attribuir á raça a fraqueza da tradição nacional, a falta de concepção original e de invenção scientifica, a indifferença politica e a incapacidade de um regimen economico. Somos uma nação pequena, sem os estimulos organicos de uma numerosa população, sem o conflicto de classes, e limitada á provocação de um exiguo territorio. Isto se comprova ainda pelo final do pensamento de Spencer: «O que demonstra melhor a correlação das forças sociaes com as forças physicas, por meio das forças vitaes, é a differença das quantidades de actividade que desenvolve uma mesma sociedade conforme os seus membros dispõem de quantidades differentes de força tiradas do mundo exterior.» Assim, a visinhança do oceano Atlantico ao passo que nos differenciou dos hespanhoes, fez dos Portuguezes um povo de navegadores, dando-lhe a iniciativa das descobertas maritimas e condições economicas subsistentes. Os periodos de esplendor litterario ligam-se á influencia d’estes estimulos; surgiram os Quinhentistas, destacando-se então a epopêa mais caracteristica e expressiva da civilisação moderna, os Lusiadas.
Por esta ordem de factos se infere, que ha nas litteraturas manifestações de phenomenos inconscientes e separados ou fóra da acção da vontade do homem. Para bem comprehender a obra do homem, sentida, reflectida ou praticada, convém antes de tudo determinar-lhe o circulo de fatalidade dentro do qual se produz: o impulso atávico da raça, que orienta o sentimento do escriptor ou artista; a tradição, transmittida de seculos, que se torna o thema da elaboração ideal e pela qual a obra do genio realisa a synthese affectiva em uma sociedade; a lingua, como expressão do sentimento individual, que o escriptor não creou, mas que modifica para universalisar estados das consciencias, as mais indefinidas vibrações da sensibilidade e ainda as aspirações latentes de uma edade; por fim a nacionalidade, ou a consciencia da vida collectiva, que tem de exteriorisar-se pela acção historica, objecto das narrativas, das commemorações, dos monumentos, que vão unificando cada geração na mesma continuidade. Applicando pois a segura concepção de Augusto Comte, que divide os phenomenos sociologicos em staticos e dynamicos, á Litteratura como resultante do meio social, poder-se-hão considerar como staticos os factores que preponderam invencivelmente na elaboração esthetica: a raça, a tradição, a lingua, a nacionalidade. O influxo de uma determinada época historica, como transição, já pela decomposição de um regimen passado, já como aspiração a uma ordem nova; e além d’isso, o espirito inventivo das altas individualidades, que nas suas obras servem essa corrente regressiva ou progressiva, constituem perfeitamente a parte dynamica na historia litteraria. Uma tão clara distincção é já uma base segura para a critica scientifica; para o estudo dos phenomenos staticos são subsidiarias a Anthropologia, a Ethnographia, a Glottologia ou Philologia, a Historia geral, e a Sociologia; a comprehensão das obras primas das Litteraturas resulta d’estas relações intimas scientificamente investigadas e conscientemente estabelecidas. Sómente assim, é que a historia da litteratura, embora pertença a um pequeno povo, servirá de verificação das leis psychologicas e sociologicas, conduzindo ao conhecimento definitivo—a sciencia do homem.
§ 1.—A Raça e o Meio
Só muito tarde descobriu o homem, que os actos que elle julgava mais livres, reacções immediatas da sua vontade consciente, eram motivados por influencias a que obedecia sem as conhecer. No mundo physico vê-se isto na pressão atmospherica, em que nos equilibramos. Depois de Vico ter formulado o principio autonomico—o homem é obra de si mesmo,—Herder encetou a philosophia da historia pela descripção physica da terra, como do theatro em que a humanidade tinha de actuar, segundo as variações do scenario. Se as descobertas da astronomia, depois de Galileo, fizeram caducar o erro geocentrico, os estudos historicos e archeologicos desfizeram a illusão anthropocentrica. Como a distribuição das plantas sobre o planeta depende da luz e do calor, tambem a cada modificação na climatologia dão-se no homem modificações profundas na sua organisação; depois de Hippocrates, que lançou as bases da sciencia da Mesologia, Montesquieu foi dos primeiros pensadores que ligou uma importancia séria á influencia dos climas; e por certo a diversidade das raças proveiu de acclimações successivas senão da acção de meios differentes. Blumenbach, na Unidade da Especie humana, considera o negro retinto e o loiro dinamarquez como provindo do mesmo tronco. Uma distancia de gráos modifica as nossas ideias eternas do bello, abre um abysmo entre a Venus de Milo o a Venus hottentote; dá-nos uma glotte mais perfeita e harmoniosa, e a abstracção na linguagem, que facilita e habitua á cogitação. A doçura do ár ambiente, a estabilidade da temperatura, as aguas crystallinas, o céo puro fazem o temperamento sanguineo, como observam Cabanis, Chrichton, Haller, Cullen, Pinel e outros. O temperamento sanguineo dá uma carnação viva, um thorax largo proprio para receber grandes volumes de ár, uma circulação mais forte, de que resulta um augmento de calor distribuido até ás extremas radiculas nervosas: assim, impressões promptas, facilidade de movimentos, synergia revelada por um bem estar descuidado, a graça, a jovialidade espontanea. Eis a organisação do Grego; em um clima brando, suave, em uma natureza risonha, collocado em um justo equilibrio das forças do meio exterior com as do seu organismo, não se sente absorvido como os povos das regiões do oriente, nem provocado na sua individualidade como na rispidez do norte; gosa a vida por todos os póros e guarda uma juventude perpetua, uma voluptuosidade da communicação, na cidade, no ágora, onde o conflicto dos interesses agita as paixões que criam a obra da Arte. A Grecia realisou na civilisação o sentimento do Bello. Outros povos indo-europeus, nas suas diversas paragens revelam outras capacidades, com que se reconhecem na historia; o Romano attingindo a mais clara noção do sentimento do Justo, faz de Roma, no dizer dos antigos jurisconsultos, a patria das leis. Mais alguns gráos para oéste, e os Celtas, aventureiros, sonhadores, attingem a docilidade moral, a dependencia da confraternidade, e são dominados pela ideia religiosa da immortalidade, que os deprime. O Germano, em lucta com a natureza brumosa do norte, de uma robustez excepcional, faz da independencia individualista o seu caracter, e lança-se á invasão do occidente, onde é incorporado pela civilisação romana. No extremo norte da Europa, o Slavo conserva as suas primitivas tendencias mysticas, e assimilando todos os progressos da Civilisação oriental e da occidental aspira á hegemonia futura da humanidade.
Emfim, os innumeros factos em que se observa a influencia dos climas, a transformação dos temperamentos e as hereditariedades das raças, têm-se agrupado por forma que estão lançadas as bases para a systematisação da Geographia moral, como lhe chamou Michelet. A historia da Arte, as creações das Litteraturas, todas as obras em que a alma humana se deixar surprehender em sua espontaneidade emocional, são verdadeiramente elementos d’esta sciencia nova. Todas as vezes que o estylo artificioso, a rhetorica banal ou o servilismo da moda de uma certa época velarem as manifestações francas do espirito, essa litteratura não tem valor, por insignificativa; não reflecte o resultado das ideias religiosas, nem as formas linguisticas, nem as agitações sociaes, nem a synthese das concepções que constituem a civilisação de cada cyclo historico.
Nas Litteraturas, como expressão da vida affectiva das sociedades, é talvez mais importante o elemento inconsciente da tradição e do meio, do que a obra propriamente original da individualidade do escriptor. No meio social observam-se a persistencia de certas qualidades transmittidas na especie, e que differenciam os grupos humanos ou raças; as sobrevivencias de costumes, que se conservam automaticamente quando já de todo passaram os estados ou organisações sociaes que os provocaram e com que estavam em harmonia; e as recorrencias, ou renovações d’essas qualidades anteriores e costumes extinctos, quando um certo abalo social desperta em um povo todas as forças do seu instincto de conservação, mantendo-se pelas suas condições staticas. Como expressão da collectividade, a Litteratura reflecte ainda nas obras das mais altas individualidades a impressão d’estas forças latentes, e mesmo as suas concepções ideaes são bellas em todos os tempos, e são comprehendidas pela humanidade em geral, por que derivam d’essas condições staticas. Na Europa não existe uma raça pura de mescla; mas tem-se abusado cynicamente das caracteristicas da raça nos aggregados nacionaes para justificar hostilidades egoistas e anachronicos instinctos guerreiros para exploração de conquistas. Para a comprehensão d’esta influencia das condições staticas nas Litteraturas ou em qualquer outra manifestação humana, basta determinar a lei da recorrencia biologica, tão nitidamente formulada pelo physiologista Muller: «Uma raça nascida da fusão de duas raças, propaga-se pela união com o seu semelhante; ao passo que, quando ella se une com as raças que concorreram para produzil-a, ao fim de muitas gerações torna ao typo de uma d’estas ultimas.» Vemos prevalecer esta lei de regressão, nas populações ibericas: embora se fusionassem com o elemento árico (Celtas, Romanos e Germanos), comtudo tinham a seu favor o maior numero, e em ulteriores invasões com a mestiçagem dos Lybios, Bastados, Alanos, Berberes e Mouros, raça africana branca, fixaram pela recorrencia o seu primitivo typo anthropologico. Broca reconhece tambem que pelo predominio numerico a raça mestiçada tende a regressar, na série das gerações, á raça mãe. Por esta regressão se explicam as differenciações dos caracteres ethnicos dos povos, e portanto todas as fórmas das suas actividades sociaes. Herbert Spencer reconhece que as Litteraturas e as Bellas Artes só existem como resultante d’estas actividades, tornando por isso necessario o conhecimento do que as torna possiveis. Tiveram a intuição d’este principio os humanistas do seculo XVI quando procuravam interpretar as instituições sociaes romanas pelas referencias dos poetas satyricos e comicos de Roma, e Vico interpretava Homero como a synthese dos povos hellenicos, que Wolf applicou methodicamente. Este processo critico é já antigo e acha-se confirmado pelos grandes fundadores da historia como sciencia.
Ao começar a historia da Litteratura grega, Otfried Müller foi um dos primeiros a reconhecer o valor do criterio da raça: «O que é infinitamente mais importante para a historia da cultura intellectual dos Gregos, é o distinguir as raças o os dialectos que se formaram durante a edade a que se deu o nome de heroica por causa da preponderancia que tiveram n’ella as tribus guerreiras, e por que um certo gosto pelas aventurosas emprezas a caracterisa evidentemente. Por este tempo deveria ter começado o contraste entre as raças e os idiomas da Grecia, que exerceu posteriormente uma influencia tão notavel sobre toda a vida civil e intellectual, sobre a poesia, sobre as artes e sobre a litteratura.»[2] Unificando os diversos dialectos da Grecia nos dois ramos Dorio e Jonio, Otfried Müller deduz o duplo caracter da civilisação hellenica, baseada no accordo entre o respeito pela tradição do passado e o espirito progressivo de aperfeiçoamento: «Nos Dorios ... assim como mostram uma predilecção manifesta pelos sons largos, energicos e asperos, que conservam com uma regularidade inflexivel, póde-se naturalissimamente esperar o encontrar entre elles uma disposição a fazer prevalecer até mesmo em toda a organisação da sua vida publica e domestica, o espirito de austeridade e de respeito pelos antigos usos. Os Jonios, pelo contrario, mostram já no seu dialecto uma certa inclinação para alterar as velhas fórmas segundo o gosto e o capricho do momento, e uma tendencia a embellezar e a aperfeiçoar o seu idioma, que contribuiu muito, sem duvida, para que este dialecto, posto que mais novo e derivado, fosse o primeiro cultivado na poesia.»[3] A differenciação entre estes dois elementos existia quando ainda estacionavam na Asia Menor; os Doricos atravessam o Hellesponto e fixam-se nos territorios montanhosos ao norte da peninsula da Grecia; os Jonios occupam as ilhas e as costas do archipelago. As differenciações ethnicas são mantidas pelas condições do territorio: o montanhez é ferrenho nas suas crenças e costumes, e por isso Delphos torna-se a capital religiosa da primeira unidade federativa dos Hellenos, apoderando-se Sparta de uma severa hegemonia. Os habitantes das costas e das ilhas distinguem-se por um caracter de cosmopolitismo e assimilação facil de costumes; o seu deus nacional é maritimo, Poseidon, contraposto a Delios, e Athenas torna-se a capital politica, que realisa pela primeira vez no mundo a liberdade na formação da lei (autonomia) e a egualdade perante a lei (isonomia), que deram ao genio grego o poder creador que o faz dirigir ainda hoje sob o aspecto de renascença a marcha da humanidade.
Estes dois elementos ethnicos, Dorios e Jonios, fusionam-se pela pressão da necessidade, para resistirem aos assaltos dos piratas do Mediterraneo, quando os Phenicios dominavam no mar Egeo; e depois, pelo estimulo de independencia contra as invasões asiaticas. A synthese historica da civilisação da Grecia resume-se nas caracteristicas d’estas duas raças: o elemento dorico prepondera até á guerra da Persia; até ás guerras do Peloponeso predomina o elemento jonico; o esplendor do genio hellenico revela-se na sua unidade, primeiramente nas creações estheticas, e por fim na acção politica da grande época de Alexandre. O antagonismo de Apollo e Poseidon, os caracteres antinomicos de Achilles e Ulysses, as duas epopêas da Iliada e da Odyssea idealisando esses dois typos heroicos, as instituições aristocraticas lacedemonicas, e democraticas da Attica, não podem ser bem comprehendidas sem a discriminação d’estes dois elementos, capitalmente estudados emquanto aos Dorios por Otfried Müller, e por Ernst Curtius emquanto aos Jonios.
Os caracteres da raça persistem através do tempo, cooperando para a sobrevivencia das tradições e dos costumes. Na Grecia moderna, as tradições heroicas e muitos versos das tragedias de Eschylo e de Euripides andam nos estribilhos populares. North Douglas, no Ensaio sobre os Gregos, achou na companhia dos mancebos jonios o semblante e a linguagem dos antigos hellenos: cantavam nas guitarras como os rhapsodos, e ao toque da buzina corriam á conspiração, como no tempo em que reagiram contra a Persia. Este viajante diz, suspirando: «vinte e quatro seculos antes, seriam uns Alcibiades. É ainda hoje popular a Canção das andorinhas, a que alludem os antigos, e Charonte continúa a ser evocado nas pragas supersticiosas.»[4]
A separação que se dá entre os Arias e os Iranios, apparece reflectida nas differenças entre os Gregos e Romanos, embora pertencendo á mesma raça; o genio hellenico foi essencialmente especulativo, o romano extremamente pratico ou activo. A Grecia eleva-se á unidade moral pelo ideal artistico e pela concepção philosophica, Roma faz a unidade politica pela realisação do Direito. Mas apesar d’estas differenças, é pelos caracteres das raças da Italia, que se explica como a civilisação romana foi conjunctamente agricola e guerreira; como no seu direito conservou sempre um constante dualismo (optimo jure e minuto jure); por que motivo cedo abandonou as tradições proprias pela imitação das obras artisticas ou poeticas da Grecia; por que causas se desenvolveram as linguas novo-latinas ou romanicas, e como o genio gaulez chegou a ter importancia na Litteratura latina (Petronio, Ausonio, Rutilio, Sidonio Apollinario, etc.), na época da decadencia.
Antes das migrações pelasgicas que atravessaram os Alpes carnicos o se estabeleceram ao nordeste da peninsula italica, já n’ella existia uma raça autochtone ou população preexistente, a que os Gregos chamaram Opicos (comprehendendo os Oscos ou Volsquos, Marses, Sabinos, Sabelios, Samnitas, Lucanios, Campanios). Eram estes povos dados á agricultura, e á vida pastoral, seguindo alguns as armas, como os Sabinos, os Marsos, os Hirpinos e Samnitas. Vinte seculos antes da nossa éra fixa-se a época do encontro com os emigrantes pelasgicos ou Illyrios (Liburnos, Venetes ou Henetes, das bordas do Adriatico; e Siculos, das costas da Italia e do Latio). Seguindo as costas do mar, entram tambem na Italia por esta mesma época os Ligurios, e Sicanos que se fusionam com os Siculos ou Tyrrhenos. Não admira por tanto que antes da conquista de Tarento, Roma tivesse conhecimento da civilisação da Grecia e tendesse a imital-a, abandonando as tradições oscas, pela preponderancia dos elementos pelasgiscos da Grande-Grecia.
No seculo XIV antes da nossa éra é invadida a Italia septentrional pelo desfiladeiro do Tyrol, pelos Ambrones, Isombres, ou Ombrios, raça gauleza cisalpina. É depois d’esta invasão que começa a lingua osca a tornar-se um meio de unificação social. No seculo XI, antes da éra moderna, dá-se uma terceira invasão dos Rasenas, raça de pequena estatura e grande cabeça, extranha á familia greco-italica, que funda a primeira Confederação, creando a civilisação fundamental da Etruria. A importancia d’este elemento ethnico, resultou da sua similaridade com as populações autochtones da Italia, os Opicos, e por tanto com a separação natural dos elementos extranhos ou Inopes, começa o dualismo da civilisação romana: Os Opes, eram constituidos na vida privada pelos Chefes de Familia a quem competia o Nome proprio, a Justae Nuptiae, o Locuples ou dominio do territorio dos tumulos urbicos, o direito de herdar dos filhos ou Haeres, a compartilha com o pae e com o filho ou Dubnus, e a Divindade estavel da terra, Opulentus (de Opim, a divindade feminina ou a Terra agricultada). Emquanto á vida publica, competia-lhes com o Direito de Propriedade o dominio auctoritario, o levar os Clientes á guerra, concorrer ás magistraturas justas, o direito de vida e morte sobre os filhos e a mulher, o uso do vinho civil Temetum o do pão sagrado Maza, a posse das Res sacra (os Deuses da cidade, Indigetes: da Casa, Penates, e da Familia, Lares e Manes) e os Augurios.
Pelo seu lado os Inopes, formados de Servos, Clientes, Estrangeiros (almas decahidas) não tinham Familia, eram sem nome, tinham o Contubernium ou Injustae Nuptiae, e existiam pelo Patrono. Não tinham propriedade.
Os Chefes de Familia elegeram d’entre si um Rei, unificando esta época do Patriarchado o culto de Saturno e de Cybele; porém, quando se apoiaram na Propriedade e nos Clientes, constituiram-se em Republica aristocratica ou Senado, sendo a unificação social sob o culto de Jupiter e Juno; quando por fim prevaleceram os Clientes pela fórma do Tribunato, e se chega ao Imperio plebiscitario, preponderaram Vulcano e Venus. Tal é a evolução da historia da civilisação dos Romanos, (Ramnes) que unificaram os outros dous elementos Lucerense e Titiense.
A proposito do livro de Noël des Vergers, A Etruria e os Etruscos, escreveu Beulé: «do estudo dos monumentos resalta uma verdade, que será sempre cada dia mais sensivel, e vem a ser, que Roma, apenas fundada, e já augmentada por fórma a poder attrahir a attenção, tornou-se uma cidade etrusca, pela religião, pelas artes, pela civilisação, e preciso é confessal-o, pela conquista. Não é amesquinhar o genio latino o reconhecer que elle recebeu uma educação, soffreu um jugo salutar, e acceitou modelos que viria a exceder. A vitalidade e originalidade da raça latina sobreviveram através d’estas provas; que direi? engrandeceram-se á custa d’ellas.—Roma devia reagir de prompto, absorveu a Etruria, como a Grecia sua mãe, e a sua grandeza não diminuiu por ter conhecido dominadores antes de ter adquirido o imperio do mundo.»[5] A persistencia d’este caracter etrusco, notado por Beulé na civilisação de Roma é o que melhor explica a sua facil incorporação das raças brancas do norte da Africa, dos Iberos da Hespanha e dos Gaulezes, de cuja civilisação rapidamente se apropriaram, a ponto de darem litteratos a Roma.
Roma achou-se collocada entre dois pontos que diversamente actuaram nas suas capacidades e épocas litterarias: ao sul, a Grande-Grecia, d’onde recebeu a cultura hellenica, na poesia, na arte, na philosophia, na eloquencia e na historia: vê-se isso em Livio Andronico, Ennio, Pacuvio, Terencio, Horacio. Ao norte, é na Gallia Cisalpina que desponta o espirito original e universalista da grande raça gauleza; pertencem a esta corrente Cecilio, o comico; Catullo, de Verona; Tito Livio, de Padua; Virgilio, de Mantua; Cornelio Gallus, o amigo de Virgilio, de Frejus; Propercio, de Mevania, na Ombria, bem como Passienus Paullus, e o umbriano Plauto.[6]
O fundo ethnico da população italica, que apesar d’estas duas influencias grega e gauleza ou pre-celtica, não perdeu o seu caracter proprio, chegou a transparecer na litteratura e nos costumes populares de Roma. As Saturae etruscas, representações scenicas ao som da flauta, com mimica e dansa, as Atellanas oscas pondo em scena os aldeãos da Campania, conservaram-se no gosto publico até á época do Imperio. Este genero de farça burlesca era improvisado de momento, por typos conhecidos e vulgarisados na sua caracterisação; e o que é mais para notar é que um tal genero de improvisação dramatica ainda persiste na Italia, na Commedia dell’Arte, e os velhos typos burlescos têm os mesmos representantes na actualidade, como o Maccus (Polichinello), o Pappus (Pantalon), Casnar (Cassandra), Sannio (Zanni), Manducus (Croquemitaine), que continuam a fazer rir o povo com os seus ditos desenvoltos. A comedia improvisada pertence a um fundo ethnico occidental, pois que a encontramos na tradição popular hespanhola nas Encortijadas, e a fórma portugueza conserva-se nos costumes do Brazil no auto do Bumba meu boi. Vê-se portanto, que este fundo ethnico Osco, analogo ao Euske da Hespanha, ao Ausci da Aquitania, é que nos explica a similaridade dos cantos épicos ou Romances no occidente da Europa, como a observaram Nigra, Liebrecht, F. Wolf e R. Köhler; dá-se egual morphologia nos cantos lyricos, Pastorellas, balladas e serranilhas, como observaram Paul Meyer e Mainzer. E se estas fórmas se conservaram através da forte cultura greco-romana implantada nas Gallias e na Hespanha, persistiram tambem os costumes, as superstições, os jogos, que provocavam o seu emprego, assim como as tendencias federalistas mantinham as condições para a differenciação do Latim em dialectos rusticos independentes, que depois se tornaram as linguas romanicas, pelas condições de autonomia nacional.
Dá-se na Litteratura latina o estranho phenomeno de não se encontrar a poesia do povo ou da tradição nos seus poetas; estes, absorvidos pela imitação dos Alexandrinos, ou preocupados com as doutrinas philosophicas da Grecia, obedeceram a uma corrente do gosto que lhes fez perder o sentimento da nacionalidade. Procurando-se o caracter da Poesia latina, não se encontrará nos seus maiores poetas, que se esqueceram das tradições do Latio e abandonaram a metrificação organica da sua lingua, a Accentuação, do verso saturnino, pela Quantidade, dos gregos, exprimindo o sentimento nas mesmas fórmas de Pindaro, de Alceo e Sapho, descrevendo a natureza como a representaram Homero e Hesiodo, e parodiando os conflictos da vida pela adaptação dos typos de Aristophanes e de Menandro na comedia, e de Euripides, na tragedia. Como os actos juridicos dependiam para a sua validade de um certo numero de ritos symbolicos e formulismos tradicionaes, a que os Opicos ligaram os seus privilegios, é por isso que através do dominio absoluto dos rhetoricos em Roma, essas antiqui juris fabulas constituiram na sua Jurisprudencia, como observou luminosamente Vico, na Sciencia Nova, uma severa poesia. A moderna erudição historica e as investigações ethnologicas vão determinando esse fundo anthropologico nas tradições e nos costumes; estão achados os Cantos dos irmãos Arrales, as cantigas a Julio Cesar, a Vigilia de Venus, e numerosos versos a que alludem os escriptores latinos.[7] A Italia antiga revive ou persiste tambem nos costumes, crenças e tradições populares; as excavações de Pompeia mostram que a mulher italiana ainda usa o venetus cuculus, a agulha de aço com que prende os cabellos; o pileus usa-se até em Fondi; os improvisatori de hoje, rodeados pela multidão, procedem como o poeta Stacio em Roma ante o seu auditorio; na alimentação segue-se o mesmo regimen, o prandium ao meio dia; os preceitos das Georgicas ainda vigoram na agricultura, e as cercanias de Roma permanecem desertas, mantendo o aphorismo de Catão na observancia do systema dos prados. Os Condotieri precisam dar largas ao antigo instincto bellicoso do salteador, instincto modificado pelo contracto de associação. Os contos maravilhosos da feiticeira Circe continuam a povoar a imaginação do povo; e como observa Bonstetten, no seu livro O Latio antigo e moderno: «segundo Niebuhr, os romanos de hoje acreditam na existencia da donzella Tarpêa em um poço do Capitolio. Os Marsi curavam mordeduras de serpentes, e os Giravoli dos arredores de Syracusa pretendem hoje cural-as com saliva.» Muitos costumes persistiram mudando-lhes o Christianismo o sentido por uma lenta evolução: os milagres da Medêa são attribuidos pelos napolitanos a San Domenico di Cullino; o templo de Romulo e Remo pertence hoje aos gemeos S. Cosme e Damião; no sitio d’onde se precipitou Anna Perenna, está a capella de S. Anna Petronilla.[8]
As differenciações ethnicas que mantiveram na Italia as fórmas federalistas (lucumonias), accentuam-se no genio esthetico. Cada escóla de Pintura, na Italia, tem caracteres em que apparecem feições locaes, que se succedem fatalmente. O primeiro passo para vencer a rudeza morta da pintura byzantina foi a ideia de aperfeiçoar os baixos-relevos; sente-se aqui a transição da estatua para o quadro. A Toscana, aquella antiga Etruria onde primeiro appareceram as artes e as sciencias na peninsula italica, começou este movimento. Nicoláo Pisano imitou na pintura as figuras em relêvo dos tumulos antigos; vendo mais a fórma material que apalpava do que a linha, cujo ideal procurava, não podia deixar de ser um excellente architecto.[9] A escóla de Roma e de Florença (Raphael, Salvator Rosa) são correctas no desenho; as figuras reproduzidas de um modo severo têm muitas vezes, como nota Michelet, a secura architectural.[10] Apoz a esculptura veiu o mosaico, descoberta da Toscana (do monge Mino da Turita). Á altivez e terror, seguiu-se a graça e a delicadeza; tal o estylo do florentino Cimabue. A escóla da Lombardia eleva-se na pintura á graça (Leonardo de Vinci, Corregio) e ao movimento; a escóla de Napoles descobre os effeitos da luz; a escóla de Veneza não tem rival no colorido (Paulo Veronese, Giorgione, Ticiano) e na faina de uma republica mercantil, que precisa de emoções fortes, esse colorido é vivo e exagerado (Tintoreto, pintando com furia em quadros descommunaes). A escóla de Bolonha pertence a uma época em que acabava a creação inconsciente; formada depois de todas as outras, fixa as regras da technica, e é naturalmente eccletica (os Carraches, Dominiquino, Primatice.)[11] Raça e acção mesologica, nas suas sobrevivencias, e na determinação dos temperamentos individuaes são o verdadeiro criterio para a comprehensão das creações de uma psychologia collectiva. Exemplificámos este facto capital com o exame ethnologico da Grecia e de Roma, que pelo universalismo helleno-italico são ainda hoje a base da Civilisação occidental propagada á Europa pelo genio francez; assim naturalmente ficou esboçado esse elemento classico ou greco-romano que veiu a influir no desenvolvimento das litteraturas modernas. E como a França suscitou em todos os povos da Europa as manifestações do genio poetico pela imitação dos seus cyclos épicos, novellescos, e lyrismo trobadoresco, torna-se tambem importante fixar as caracteristicas de raça nas fórmas da sua Litteratura, apesar de pela propria corrente da civilisação europêa irem-se apagando cada vez mais essas differenças anthropologicas.
A historia da litteratura franceza já foi tratada sob o ponto de vista dos caracteres da raça por Émile Chasles:[12] no typo gaulez synthetisa o genio nacional persistente através de todas as fusões e assimilações historicas com outros povos; no Gallo-romano, descreve a esplendida civilisação meridional, que veiu a produzir a creação do Lyrismo trobadoresco; no Gallo-bretão, as ficções novellescas que encantaram o mundo medieval unindo o espirito christão e cavalheiresco; no Gallo-franko, a unidade politica imposta pelo poder real na lucta dos grandes vassalos, lucta que inspirou o cyclo épico feudal das Canções de Gesta, creadas no norte da França. O encontro das raças produz, como observou Lemcke, um desenvolvimento de poesia; o conflicto da França feudal com a França meridional desenvolve e faz manifestar o genio lyrico nas canções da lingua d’oc, que se propagam pelo meio dia e pelo norte da Europa; a propria Bretanha, antes de entrar na unificação nacional faz a revivescencia dos seus cantos ou lais, que se desenvolvem nos poemas de Merlin, de Arthur e da Tavola redonda. A estes trez elementos que constituiram a unificação da nacionalidade franceza, correspondem no territorio trez regiões climatologicas, agronomicamente bem reconhecidas. Os Celtas e os Frankos, que se fusionaram com o elemento Gaulez não apagaram, apesar da sua supremacia árica, esta raça, que através de todos os tempos synthetisou a feição nacional da França. Se o Gaulez manteve e imprimiu em tudo o seu caracter, é por que além do seu numero tinha attingido uma civilisação superior á dos Celtas e Frankos. O imperador Claudio, que conhecia perfeitamente a Gallia, diz que Roma não póde desprezar a nação que estava unida á civilisação romana pelos costumes, pelas artes, pelas affinidades (moribus, artibus, affinitatibus nobis mixto.) Quaes seriam estas affinidades, para o imperador que nascera em Lyon, senão a similaridade ethnica de uma raça que se estendia por toda a Europa meridional, e que mantinha os mesmos costumes e práticas industriaes. Os Romanos, segundo Diodoro Siculo, davam o nome de Gaulez a todos os povos da França meridional; pela sua parte Polybio já distinguiu o Gaulez das outras populações celticas, raça que se manteve intacta na Aquitania entre os Pyreneos, o Garona e o golfo da Gasconha. Broca diz que tudo induz a crêr que os Aquitanios pertencem a esta raça de cabellos pretos, cujo typo se conserva quasi sem mistura entre os Bascos actuaes.[13] (Gascões, Vascones e Bascos.) Este elemento iberico, commum á Hespanha, Italia e França meridional, é caracterisado por Jorge Philipps: «no tempo de Cesar, os Iberos possuiam ainda na Gallia a maior parte do territorio situado entre o Garona, o Oceano e os Pyreneos; elles se conservaram n’este triangulo, apesar das conquistas dos Ligurios primeiramente, e depois, de um inimigo mais terrivel, a raça Celtica.» Estes factos comprovados pelos modernos anthropologistas explicam-nos a transmissão do lyrismo trobadoresco a todo o occidente da Europa. Chasles d’Héricault, considera os Iberos como repovoadores e civilisadores da Gallia; Émile Chasles, resumindo o estado d’esta questão apresenta o seguinte facto: «Atravessando a Bretanha franceza, notareis com surpreza, em certas aldeias, homens que têm os olhos com a obliquidade dos Mongoes, e por consequencia a arcada zygomatica do extremo Oriente, signal palpavel de uma migração obliterada na historia.»[14] Charrière, na Politique de l’Histoire, acceita a identidade primitiva da raça hispanica e italica, reunindo-se pelo laço natural da Aquitania e pelo meio dia da Gallia; e Petit Radel observou a semelhança de um grande numero de nomes geographicos da Italia e da Hespanha.[15] O typo do africano branco é o que conservou mais puros os caracteres d’esta raça autochtone do Occidente da Europa, anterior ao estabelecimento dos Celtas, e com os quaes se cruzou; Émile Chasles cita um facto, que segundo confessa, faz pensar: «na Edade media um exercito de invasão passou da Africa a Hespanha, e devastou-a até aos Pyreneos. Chegados alli, os Africanos reconheceram immediatamente em um reconcavo da montanha, gente que fallava a mesma lingua que elles; em logar de se baterem fraternisaram em nome de um remoto parentesco que a politica e o tempo tinham obliterado. Eis aqui Berbères, que nos dão uma lição sobre os primordios da historia, e que por ventura fornecerão um novo argumento a M. de Belloguet.»[16] Na sua Ethnogénie gauloise, Belloguet sustenta a anterioridade da civilisação gauleza á celtica, que attribue aos Ligurios. Sobre este fundo ethnico commum á França, Italia e Hespanha, é que as invasões dos Celtas, dos Romanos e Germanos vieram constituir os povos que formaram as modernas nacionalidades depois da queda do Imperio. Competia á França a hegemonia sobre as nacionalidades da Edade media, continuando a grande Civilisação occidental, que em Marselha reflectira a cultura grega, e em Tolosa a cultura romana. Pela região da Aquitania transmittia á Italia e Hespanha o gai saber, a idealisação do lyrismo trobadoresco; pelo elemento celtico espalhava na Inglaterra as tradições do Santo Graal e da Tavola redonda; pelo elemento franko, transmittia á Allemanha o impulso que acordava a inspiração dos seus Minnesaenger. O que vemos pelas condições da raça, confirma-se pela consideração geographica, em que a França tinha naturalmente de exercer uma missão intermediaria entre os novos estados da Europa; escreve Edgar Quinet: «seja qual fôr a diversidade dos instinctos da Europa, tem a França orgãos para apanhar-lhes o caracter. Pelo Meio Dia e golfo de Lyon não toca ella na Italia, a patria de Dante? Do outro lado, os Pyreneos não a ligam como um systema de vertebras ao paiz d’onde surgiram os Calderon, Camões, Miguel Cervantes? Pelas costas da Bretanha não se prende ella intimamente ao corpo inteiro da raça gallica, que deixou a sua feição em todo o genio inglez? Emfim, pelo valle do Rheno, pela Lorena e pela Alsacia, não se une ella ás tradições como ás linguas germanicas, e não lança ella um dos seus ramos mais vivazes ao seio da litteratura allemã?» E assim como a França influiu directamente na cultura europêa por estas condições mesologicas, ellas mesmas facilitavam esse espirito de sociabilidade e prompta assimilação de todos os progressos europeus; é assim, que no seculo XVI o humanismo italiano leva a França ao abandono das tradições medievaes e imitação das obras classicas da Antiguidade; no seculo XVII a Hespanha inspira os seus poetas dramaticos, como Corneille e Molière, e dá-lhe o modelo das novellas picarescas; no seculo XVIII a Inglaterra suscita a actividade do pensamento critico e do encyclopedismo; e no seculo XIX é da Allemanha que recebe a nova corrente de idealisação litteraria do Romantismo, que propagou depois ás litteraturas meridionaes. Quinet, fallando da diversidade das provincias francezas para estas diversas assimilações, conclue: «Resulta d’esta diversidade, que estando em communicação com a Europa inteira, a França não tem a temer uma influencia exclusiva; que o Norte e o Meio Dia se corrigem mutuamente, e que este paiz chamado para tudo comprehender, póde enriquecer-se com cada elemento novo sem se deixar absorver por nenhum.» Onde se conhece esta indemnidade ou originalidade é no chamado genio francez, já notado pelos escriptores da antiguidade, que alludem á sua paixão guerreira e oratoria (Rem militarem aut argute loqui, segundo Catão); tumidissimi, lhe chamam outros, e vê-se pelas referencias de Aristoteles, de Plutarcho, de Sallustio, de Florus, de Tito Livio, de Cicero, de Diodoro Siculo e de Cesar, que as suas qualidades os impressionaram excepcionalmente.
O caracter gaulez, audaz e mobil, com regularidade nos seus caprichos, logico na paixão, preferindo a prosa á poesia, o conto faceto á lenda épica, trocando a palavra abstracta pelo symbolo naturalista e concreto, possuindo-se primeiro do que outrem da verdade das grandes e generosas ideias pelo que ellas têm de prático e de sociavel, adorando a dedicação da amisade e mais ainda o chiste de um bom dito, leviano mas intuitivo no alcance, bom e ao mesmo tempo implacavel na ironia, sensualista e crente na immortalidade, o genio gaulez é sempre a alma d’este eccleticismo intelligente e do sentimento de sociabilidade que caracterisa o francez em toda a parte. Quando o direito universal se exprimia por um symbolismo poetico, a França começava pela linguagem da rasão; quando a Europa jazia sob a arbitrariedade do Feudalismo e dos terrores da Egreja, o burguez ria-se nos Fabliaux, mofando das duas tyrannias temporal e espiritual; a lingua franceza tornou-se de um universalismo extraordinario pelo espirito de sociabilidade, e como dizia Martin de Carrale, no seculo XIII: «la plus delitable à lire et à oir que nulle autre.» É uma lingua vulgarisadora para toda a ordem de factos, cooperando para que a França seja a capital da civilisação, o centro em que palpitam as emoções mais generosas. A litteratura franceza é influenciada por este génio da raça: ora desenvolta e cheia de ironias e ditos de boa sociedade, como em Rabelais, Montaigne, Bonaventure des Periers, Beroalde de Verville, Luiz XI e a rainha de Navarra, La Sale e tantos que continuaram sob o humanismo classico a vêa sarcastica e mordente dos Fabliaux dos seculos XIII e XIV e das Sotties do velho theatro popular; ora pautada, pedante, convencional como no preciosismo, em Racine, Marmontel, Scudery, Delille; mystica, como em Calvino, Francisco de Sales e Fénélon; tumida e emphatica em Victor Hugo. A hegemonia intellectual da Edade media continuou-se pela França na fórma social depois da Revolução, que ella propagou a todos os povos da Europa não tanto com balas como com cantigas. Michelet, que comprehendeu tão lucidamente a hegemonia da França, proclama-a na Introducção á Historia universal: «Toda a solução social ou intellectual fica infecunda para a Europa, até que a França a interprete, traduza, popularise... Ella diz o Verbo da Europa, como a Grecia disse o da Asia.»
Para a comprovação do genio da raça transluzindo nas creações artisticas, ainda apesar do convencionalismo de escóla e dos preconceitos da civilisação, Taine determinou na Historia da Litteratura ingleza duas correntes de inspiração, provenientes dos sangues saxão e normando, caracterisadas nos maiores escriptores. O Saxonio tem o genio tenaz, luctador, vive da incerteza, sorri-lhe a ideia da morte, põe-se em combate com a natureza; a tensão violenta diante da catastrophe é o momento mais bello da sua vida; tem uma mythologia sombria, tradições medonhas, instinctos brutaes. Dos parceis do mar germanico, vem como o alcyão da tormenta accoitar-se na Bretanha, e com os Juttes e os Anglos supplanta pela conquista o elemento celtico. Para esses invasores o céo plumbeo da Inglaterra é uma aurora comparado com a cerração dos mares do norte; são meio hyppopotamos na ferocidade e na voracidade, procurando a alegria ruidosa nas bebidas mais corrosivas. Quando o influxo do Christianismo veiu explorar o instincto supersticioso d’esta raça, substituiu-lhe o terrivel deus Thor que atirava o martello pelos áres, pelo deus dos exercitos que arrojava o raio, e enlevou-a com as lendas tenebrosas da Descida ao Inferno (Tundal e Purgatorio de S. Patricio.) A poesia ingleza, exprimindo esta energia saxonia representa na sua espontaneidade a trilogia satanica, a Duvida, o Mal, o Desespero; é Shakspeare propondo a fórmula dubitativa em Hamlet: To be, or not te be, quando depois da Renascença se dissolvia a synthese theologica da Egreja sem se determinar a synthese humana da consciencia; é Milton, depois da revolução social, divinisando o principio do Mal, Satan, como a libertação de todos os absurdos que desde a Reforma prendia a sociedade e o espirito em um despotico puritanismo, na phrase: Mal, torna-te o meu bem (Evil be then my good) na epopêa do Paraiso perdido; é Byron, levado ao paroxismo do desespero entre uma aristocracia convencional, que não percebe a marcha do tempo moderno, e que o repelle com o desdem de uma mediocridade panurgica; ello abandona a Inglaterra, o vagabundo Child Harold, que divaga pelo occidente á busca do seu ideal da liberdade, indo morrer por ella na Grecia.
A Renascença como o regresso da alma ás fontes da natureza, e as luctas violentas da Reforma suscitaram em Inglaterra a preponderancia d’este veio saxonio, como as fortes torrentes que descarnam os rochedos: Dayton, Greene, Marlow, Ben Johnson são os precursores ou os primeiros productos da corrente que orientou o genio de Shakspeare. E assim como apparecia o drama em Inglaterra, onde as instituições dos homens livres coexistiram sempre com instituições feudaes ou senhoriaes e monarchicas, tambem a complexidade dos interesses burguezes e da moral privada deram logar á creação nova das litteraturas modernas, o Romance, de que são creadores Fielding, Swift, de Föe, Richardson, Goldsmith.
Ao veio saxonio contrapõe-se o genio normando, como exemplifica Taine. Desde os seculos IX e X, que os Normandos infestavam as costas meridionaes da Europa; terriveis como os saxonios, a permanencia nos climas suaves do sul enfraqueceu-lhes a irritabilidade, fel-os brandos, amigos da novidade. A conquista dos Normandos sobre os Saxões foi superficial, por que os vencidos em menos de trez seculos imprimiram a sua feição aos vencedores: o normando conservou apenas as qualidades exteriores dos seus habitos senhoriaes, que differenciam ainda hoje a aristocracia ingleza, ao passo que o franco caracter saxonio se conserva no povo. Os velhos chronistas notaram este antagonismo; diz Roberto de Gloucester: «As gentes da Normandia ainda habitam entre nós, e aqui ficarão para sempre... Os Normandos descendem dos homens de alta cathegoria, que estão n’este paiz, e os homens de baixa condição são filhos dos Saxões.» Antes de Taine, já o historiador Agustin Thierry fundou sobre este conflicto de raças a Historia da conquista de Inglaterra. A litteratura ingleza resente-se da influencia normanda na predilecção da fórma, na imitação dos modelos convencionaes, em um classicismo sem ideia, em um meio termo do bom, em menos espontaneidade e mais estylo; Drydon, Pope, Addisson, Waller, Gray, seguem a moda litteraria, e ainda hoje fazem a predilecção dos espiritos academicos, dos que consideram a litteratura como um nobre ocio, ou uma habil curiosidade. A hombridade saxonia e a cortezania normanda reunindo-se formaram esse temperamento sanguineo ligado a um caracter impassivel; o humour é o estado psychico d’esta fusão, um lampejo de alegria sob um ár taciturno constante, uma jovialidade indecisa como de quem reage contra um mal estar. O humour é o verdadeiro elemento da obra de arte ingleza: Sterne, no Tristan Shandy e Viagem sentimental, Swift, nas Viagens de Gulliver, Fielding, no Tom Jones, Butler, no Cavalleiro de Hudibras, e modernamente Carlyle representam esta fórmula da esthetica ingleza. Em philosophia, tem a audacia critica de Hobbes e de Bolingbroke a par do mais subserviente biblicismo; tem o positivismo de Locke e Hume conjunctamente com o idealismo de Berkeley, e na sciencia procura manter o accordo official entre a velha synthese theologica com as mais audaciosas theorias transformistas, como se observa em Darwin.
Ampliando o criterio ethnologico á litteratura da Allemanha, já alguns criticos observaram as differenciações locaes reflectindo no genio dos escriptores; a Suabia, é a patria do lied, a canção tradicional, do canto que se desenvolve em um esplendido lyrismo; na Franconia, o gosto artistico popular organisa-se nas Meistergesang. Na sua Physiologia dos Escriptores e dos Artistas, Deschanel transcreve as palavras de um critico indicando que Schiller era da Suabia, e Goëthe da Franconia, deduzindo assim a diversidade d’aquelles dois genios que synthetisam toda a litteratura allemã: «O primeiro, como a raça allemanica d’onde provém, raça isempta, altiva, concentrada, democratica, apresenta-nos a irritabilidade dos sentimentos, a vivacidade da imaginação, o liberalismo da rasão; o segundo, em virtude da sua origem, possue a calma, a correcção, a serenidade, a flexibilidade industriosa de um espirito aberto a toda a cultura. Schiller gastou-se prematuramente pela impetuosidade interior; Goëthe, durante a sua longa vida, foi avançando por um progresso insensivel e contínuo para a perfeição.»[17] Apesar do sentimento nacional tender para a unidade politica, ainda assim prevalecem as influencias locaes nas manifestações do espirito allemão; escreve G. Weber: «Debalde se procurará hoje, um centro litterario parecido com aquelles que existiram outr’ora em Saxe e em Thuringe. Berlim permanece a séde da philosophia e das sciencias especulativas; Munich o fóco das bellas-artes e o baluarte do ultramontanismo; Leipzic e Dresde o centro da critica, da arte dramatica e das bellas-letras...»[18] Heinsius, na sua Historia da Litteratura allemã determina-lhe os periodos da evolução sob o aspecto da raça: o gotico, até ao meado do seculo VIII; o franko, até ao advento dos Hohenstaufen no seculo XII; o suabio, periodo dos Minnesinger e da cavalleria exaltada; o rhenano ou saxonio, da erudição e das Universidades, do seculo XIV a XVI; o saxonio, comprehendendo a renascença, as controversias religiosas, os Meistersenger, ou os cantores populares, e a creação da lingua nacional, pela fusão dos dois dialectos principaes por Luthero; o silesio e suisso, em que predomina a influencia franceza da escóla de Opitz, reagindo e vencendo o perstigio das tradições germanicas em Klopstock, que determina a grande época allemã, em que brilha a pleiada dos genios creadores, como Goëthe, Schiller, Bürger, Wieland, Lessing, etc., como uma integração affectiva da Germania. Sobre esta successão, conclue Heinsius: «Observa-se que em cada época, á parte esta ultima, é uma das grandes familias da nação allemã que conduz todas as outras, que preponderou tanto no pensamento como na actividade, nas letras como na vida social, que, finalmente, imprimiu o seu caracter ao resto da nação e a fecundou com o seu genio.»[19]
Não é excessiva a nossa comprovação, ao tratar-se de determinar o caracter da raça, e acção do meio na civilisação e litteratura de Portugal; por que todos esses povos, a começar pela França exerceram uma acção profunda, já na constituição da raça, já nas fórmas da manifestação do genio nacional. Celtas, Romanos, Germanos e Arabes actuaram sobre o fundo persistente das populações hispanicas, que apesar d’isso conservaram as suas tendencias separatistas e as suas differenciações locaes. Nas creações artisticas formadas por individualidades que estão fóra das influencias vulgares, ainda assim se revela esta fatalidade do sangue, e do meio cosmico. Sobre a mais antiga camada anthropologica da peninsula estabeleceram-se os cruzamentos: Hispano-celtico, hispano-romano, hispano-gotico, e hispano-arabe. Vê-se aqui um fundo persistente de população, que as invasões successivas não conseguiram obliterar nas suas mestiçagens.
O que era pois este elemento hispano? Quando as primeiras frotas tyrias aportaram no Mediterraneo, já a peninsula se achava habitada por gente que se considerava autochtone ou filha da propria terra. Bem podiam ter-se esquecido da sua proveniencia, desde que os Pyreneos a defenderam contra a terrivel invasão dos gelos da época glaciaria. Quem era essa raça mysteriosa aqui escondida? Ella achava-se ramificada pelo sul da Italia e tambem pelo meio dia da França, mesmo pelo norte da Africa; chamaram-se os Iberos. Segundo Guilherme Humboldt, o genio iberico é a base da unidade dos povos meridionaes; com os recentes estudos anthropologicos foram-se esclarecendo estas similaridades, e nos estudos comparativos dos costumes e das tradições confirmando pelas analogias ethnicas este sub solo social. Segundo Bergman, o Ibero é a transição da raça amarella para a aríaca; além da Italia e da França, tambem apparece na Inglaterra, e no typo ruivo germanico, constituindo um fundo primordial ou preárico da Europa. Monumentos, superstições, mythos religiosos, recorrencias de costumes, tradições lyricas e heroicas, communs principalmente ao occidente da Europa, explicam esta raça a que na Hespanha se deu o nome de iberica, que os escriptores da antiguidade greco-romana descrevem com uma elevada cultura, com leis e poesia. Nas successivas invasões da peninsula nunca este elemento hispanico foi obliterado; entraram aqui os Celtas gaulezes, deixaram o seu vestigio no onomastico local, venceram as tribus locaes ibericas, mas foram absorvidos por ellas, como os Saxões da Inglaterra vencidos pelos Normandos os assimilaram ao fim de trez seculos. Os Celtiberos nunca puderam ligar-se completamente para a defeza commum, d’onde Guilherme Humboldt conclue mais pela cohabitação do que pela fusão d’estes dois elementos; o Ibero continuou a ser taciturno, e accoutando-se nas montanhas por um instincto defensivo, e o Celta veiu insensivelmente isolando-se para as bandas do mar, para lançar-se á vida aventureira. En Dorel e Esus são os dois deuses d’estas raças, que persistem em muitas das inscripções lapidares da Hespanha. A facilidade de adaptação estava da parte dos Celtas, que tambem na Italia, em França e Inglaterra se unificaram com outros povos preexistentes, conservando a sua delicada sensibilidade poetica. Aqui temos um começo de differenciação na futura raça hispanica ou nacionalidades peninsulares. As esperanças da raça celtica, personificadas na vinda do Rei Arthur, ainda hoje alentam o povo portuguez, que na decadencia da sua grandeza historica compraz-se com o sonho do Quinto Imperio do mundo, em que o desejado Dom Sebastião hade vir aqui formar a ultima grande monarchia; as tradições da velha Atlantida enlevam a imaginação dos portuguezes insulares, que julgam vêl-a nas cerrações em noite de Sam João. Para as regiões centraes e montanhosas confinaram-se os iberos, de que os bascos actuaes, apesar dos seus cruzamentos são ainda um manifesto documento anthropologico; o elemento docil, aventureiro, amoroso, propriamente celtico irradiou pela orla maritima, em uma linha norte sul, vindo por isso os Portuguezes a conservarem o genio celtico, não obstante Herculano affirmar que o portuguez nada tem de commum com os antigos occupadores da peninsula. É pela extensão e diffusão d’este ramo celtico, que se explica a facil adopção do latim nas conquistas romanas, e mais ainda a differenciação dialectal, que produzia as linguas novo-latinas, cuja formação os discipulos de Diez deduzem de simples degenerescencias phoneticas. O facto da adopção de uma linguagem, orgão de uma mais elevada cultura, em nada modificára a população hispanica.
Os Phenicios, que exploraram o Mediterraneo, vieram attrahidos á peninsula pela noticia das suas riquezas metalurgicas; os que já estavam cansados dos errores longinquos, fixaram-se ao norte da Africa onde fundaram Carthago, e d’ali exploraram commercialmente a Hespanha, preferindo o trafico á guerra. Seria esta situação do ramo semita, naturalmente incommunicavel, segura e sem perturbação, se as rivalidades com o poder romano não produzissem a derrota da segunda guerra punica.
Roma repelliu da peninsula o dominio carthaginez; possuindo um energico poder centralisador, começou por imprimir no territorio dos hispanos as suas divisões administrativas e militares. Não dominava pelo numero e cruzamentos, por que Roma não tinha gente sufficiente para a occupação, mas pela vigilancia das suas legiões, e pelo colonato dos povos vagabundos, que se entregavam á sua protecção, é que sustentava a conquista. A concessão do direito italico harmonisava-se com os costumes ibericos. A influencia de Roma é profunda, como elemento civilisador, e de unificação social, mas nulla em quanto á modificação dos caracteres anthropologicos da raça. Sob o seu dominio os hispanos ficaram taes como eram. A lingua latina como universalista, exprimindo o direito e a poesia, dava distincção ao que a fallava; por tanto deu a Hespanha á litteratura romana muitos dos seus melhores escriptores, coincidindo esta actividade com a adopção da religião universalista do Christianismo, que vinha unificar sentimentalmente o Occidente: Seneca, Lucano, Marcial, Prudencio, Draconcio, Sam Damaso, fazem brilhar a lingua de Cicero na época de uma decadencia que se sustentou com a vitalidade provincial. O verso latino, que na época de esplendor desprezava a accentuação natural pela quantidade, á imitação da poetica grega, voltou nos primitivos hymnos da Egreja, compostos por Sam Damaso, á simplicidade do verso saturnino, ao octosyllabo popular. Estavam achadas as bases da poesia moderna, do lyrismo das novas linguas, a accentuação e a rima, que mesmo nos hymnos da Egreja dão á expressão latina uma belleza incomparavel. A Egreja e o Imperio romano imprimem aos povos da peninsula uma unidade politica e moral, deixando esse germen da cultura erudita, que se sobrepõe ás tradições populares sem comtudo ellas se extinguirem. A Egreja, depois da queda do Imperio, mantém na sua liturgia a lingua latina, e os Reis germanicos reataram a tradição imperial, conservando a lex romana e o seu processo nos tribunaes: estas mesmas causas cooperam para a unidade da civilisação do Occidente.
As invasões germanicas, communs á Italia (Ostrogodos e Lombardos), á França (Frankos e Borguinhões), á Inglaterra (Saxões) e á Hespanha (Visigodos e Suevos), determinam uma certa similaridade das instituições modernas, cujas relações com as instituições gregas e romanas foram achadas por Freemann como provenientes de um fundo commum árico. Mas a invasão germanica da Hespanha, embora numerosa, não alterou o typo anthropologico da população iberica. Assim como os Lombardos, no clima quente da Italia ao fim de um seculo estavam extinctos, por egual causa os Visigodos seriam lentamente eliminados em Hespanha; ao fim de dois seculos já não puderam resistir a uma pequena incursão de Arabes. Comtudo, a invasão germanica deixou elementos que foram apropriados pela povoação hispanica, como vamos vêr. Os Godos aqui em contacto com a organisação civil e politica romana conformaram-se com ella; e a sua aristocracia ou classe guerreira, chegou a esquecer a mythologia de Odin pelo polytheismo social romano; imitou os Codigos romanos, principalmente o theodosiano, excluindo do seu direito a banda pastoral e agricola, a quem deixava o costume ou lei consuetudinaria do Estatuto territorial, conservando exclusivamente para si o estatuto pessoal; esqueceu-se do culto da mulher, de que falla Tacito, e adoptou os costumes dos harens asiaticos; em religião, abandonaram a doutrina da humanidade de Jesus, tornaram-se orthodoxos por corrupção, e desprezaram completamente as suas tradições poeticas. D’esta ruina falla o profundo Jacob Grimm: «As tradições goticas, tão bellas, tão numerosas, aniquilaram-se na maior parte, e não se avalia o alcance d’esta perda; pelo que nos deixou Jornandes se poderá julgar a importancia das origens mais antigas e mais ricas, que existiam no seu tempo.»[20] Grimm explica esta ruina pela influencia da reacção catholica: «A historia trata os Godos com severidade por causa de terem abraçado o arianismo e combatido a orthodoxia;»—«o christianismo triumphante arruinou-lhes os monumentos do passado, prescrevendo como um dever o abandono dos velhos costumes, e o desprezo de todas as tradições do paganismo.» Estas tradições conservaram-se nas camadas populares da banda agricola e pastoral, como o symbolismo juridico. Muitas das lendas germanicas se acham implantadas, confundidas com as nossas lendas portuguezas: as lendas de Nossa Senhora da Nazareth, salvando Fuas Roupinho,[21] da Roussada de Bemfica, contada por Fernão Lopes,[22] o estratagema do Alcaide do castello de Faria,[23] a de Geraldo sem Pavor,[24] de Gaia,[25] da Náo Catherineta,[26] são provenientes d’este fundo dos lites ou colonos decahidos da condição de homens-livres. Nas superstições populares prohibidas pelas Constituições dos Bispados, vem apontada a Camisa de Soccorro, costume privativamente germanico.[27] No Direito portuguez consuetudinario, as Cartas de Foral encerram numerosos symbolos germanicos, embora o mechanismo dos Concelhos tire as suas designações de nomes arabes.[28] Porém, esta camada popular dos lites, era formada do colonato admittido pelos Romanos, de Alanos e outras tribus que acompanharam as invasões sem serem propriamente germanicas; pertenciam a esse fundo que já vimos identificado com o elemento iberico. Não admira pois o facto, citado por Émile Chasles, que na invasão dos Arabes, os Berberes fallassem e se entendessem com povoações acantonadas nos valles (Cagots, Mauregatos), por isso que pertenciam a esse elemento iberico ou hispanico. Quando se deu a reconquista visigotica ainda a aristocracia quiz conservar no Codigo Visigotico os seus privilegios, mas não foi isso possivel diante do desenvolvimento da população das cidades, que era hispanica.
Com a invasão dos Arabes, embora a peninsula fosse fundamentalmente revolvida e até certo ponto as duas civilisações se penetrassem, nem por isso o elemento semita alterou os caracteres anthropologicos da população iberica. Assim como os Romanos, nas suas conquistas formavam o grosso das suas legiões com povos barbaros, tambem os Germanos trouxeram nas suas bandas guerreiras tribus que lhes eram extranhas (Alanos, Gelas, Seythas), e os Arabes occuparam a peninsula hispanica quasi que com exercito de Berberes. Os dominadores conservaram-se sempre estranhos ou incommunicaveis com os povos conquistados; o estipendiario, o mercenario, o aventureiro trazidos na corrente da conquista é que se misturavam entre o povo e conviviam em uma crescente mestiçagem. O Proconsul romano, o Conde germanico, e o Emir arabe consideravam barbaros a sociedade e o paiz que governavam, e fechavam-se nos seus costumes aristocraticos, e nos seus privilegios excepcionaes; pelo contrario os elementos do colonato romano, dos lites germanicos, que se haviam confundido na persistente população hispanica, e dos mouros trazidos pela invasão e ulteriores conflictos do dominio dos Arabes, vieram a constituir a gente sedentaria das villas e cidades, a que já no seculo XII se dava o nome de Mosarabes. Esta designação é preciosa, por que denominando o fundo anthropologico da raça hispanica ou iberica, exprime a influencia exterior ou a acção do contacto com a civilisação dos Arabes; segundo Pascoal de Gayangos, Must’ariba significa o que imita o viver dos Arabes. Bastava a profunda tolerancia politica e religiosa dos Arabes, e o modo como garantiram a existencia e a propriedade ás populações sedentarias, mediante um leve imposto de capitação, para os seus costumes provocarem interesse. Mas estas relações entre o povo conquistado e o Arabe não foram descriptas com verdade pelos chronistas ecclesiasticos; do seculo VII em diante não cessaram de retratar com as côres mais sinistras o quadro da invasão arabe; representam razzias sangrentas, desolação geral, ruina dos templos, ausencia de toda a cultura litteraria; para elles entre a Cruz e o Crescente existe um abysmo, de odio eterno, irreconciliavel, de morte; as duas raças, arabe e germanica, repellem-se com uma antithese absoluta. Para os escriptores ecclesiasticos e chronistas contemporaneos é esse eterno antagonismo que faz com que a aristocracia visigoda se refugie nas montanhas das Asturias abandonando as populações sedentarias ao invasor arabe, e é que o obriga passado o primeiro espanto a ir reconquistando a palmos o solo patrio. Odio politico, repugnancia entre as duas religiões, aversão á diversidade de linguas e costumes, era quanto bastava para communicar entranhado ardor á cruzada permanente que terminou na conquista de Granada.
Triste erro da paixão patriotica e religiosa dos chronistas, que não quizeram relatar como a população sedentaria, colonos romanos, lites germanicos, sob o regimen de tolerancia dos Arabes, acceitaram a convivencia com os mouros ou berberes, e vieram do seculo VII ao seculo XI a formar d’esse complexo elemento hispanico ou iberico um povo livre. No onomastico popular acham-se os nomes godos ligados com os arabes (ex. Venegas e Viegas = Ibn-Egas); acham-se nos divertimentos e cantos populares os nomes dos instrumentos musicos e dos generos poeticos, (quitara, serranilha, leila, lenga-lenga); os sacerdotes christãos têm nomes arabes, e escrevem em caracteres arabes ou aljamia. Quando começou a reconquista pela aristocracia goda, este elemento popular ou propriamente nacional estava já tão desenvolvido nas suas relações civis e economicas, que não foi possivel restaurar as velhas e atrazadas instituições germanicas, artificialmente e capciosamente regulamentadas no chamado Codigo Visigotico. É esta população que recebeu o nome de Muztarabe, como se acha em um documento de 1101, de Affonso VI; no poema de Gonzalo de Berceo, Milagros de la Virgen, já se dá a essa collectividade o nome de Mozarabia, em contraposição á classe culta ou Clerezia; o nome é vulgar no castelhano Mozarabe, no valenciano Moçarab, Moçab, e no portuguez Mosarabe. Este dualismo entre um povo livre, que se vae constituir em nacionalidades, e uma aristocracia atrazada que vae ser submettida pelo poder real, acha-se perfeitamente representado no typo épico do Cid, como observou judiciosamente D. Agustin Duran: «Ha um Cid monarchico, popular, religioso e aventureiro; ha outro aristocratico, feudal, cavalheiresco e devoto; porém nunca se confundem no principio politico que representam. O Cid feudal e devoto acha-se sómente idealisado na Chronica rimada e em alguns romances tirados d’ella; o Cid monarchico, popular, santo e cavalheiresco está formado no Poema publicado por Sanchez, nas Chronicas latinas e castelhanas, e provavelmente nos cantares que n’ellas se citam, ou que convertidos em prosa se inseriram no texto, e nos romances velhos que restam, ou em antigos compostos posteriormente no seculo XVI, quando predominavam o espirito cavalheiresco e os costumes palacianos. Este Cid, que se oppõe ao Cid dos senhores, é o que triumphou das ideias feudaes, é a verdadeira figura popular que a escripta e a tradição nos legaram, condemnando ao olvido a do seu antagonista; é a que caracterisa em todas as épocas a idiosincrasia nacional, a necessidade de conquistar a unidade de territorio e das leis, a de acabar com a anarchia que impedia a reconquista do paiz contra os Arabes. Este é o Cid, que, como o povo, se ligava aos monarchas para libertar-se da oppressão dos senhores; mas que, ao mesmo tempo, vencido de outra tyrannia que podia empecer a liberdade, ao passo que acatava e fortalecia os reis, lhos fallava severa linguagem de verdade, obrigando-os a respeitar a lei da opinião.»[29] A poesia popular fez aqui a synthese da creação da sociedade civil na alliança da burguezia com a realeza.
Foi tambem com o nome de Mosarabes que Alexandre Herculano designou a população da Extremadura e da Beira antes da constituição da nacionalidade portugueza: «os habitantes da capital da antiga Luzitania eram principalmente Mosarabes...»[30] E: «na Beira, o mosarabismo devia caracterisar mais profundamente a população, do que ao norte do Douro...»[31] Mosarabia e Mosarabismo, significa com todo o rigor historico, ethnico e anthropologico a raça hispanica ou iberica, tendo incorporado em si todos os elementos celticos, colonato romano, lites germanicos, tribus maurescas ou berbericas, vindo sob a tolerancia arabe a constituir a nova povoação livre que se transforma de classes servas no povo das nacionalidades peninsulares. A designação é restricta á época arabe, como exprimindo uma unificação ou integração social; creadas as nacionalidades, esqueceu-se o nome de Mosarabia, prevalecendo o separatismo nos nomes de Gallegos, Portuguezes, Aragonezes, Leonezes, Navarros, Castelhanos, etc. Mais tarde o nome de Mosarabe revivesceu com um sentido puramente religioso, para designar aquellas povoações, que em contacto com os Arabes souberam conservar intacta a fé e o culto christão; tal é o sentido com que se encontra em uma comedia citada por Ticknor.[32] Este dualismo da Mosarabia e Clerezia, indica em que elemento ethnico se devem procurar os caracteres psychologicos e os themas tradicionaes das creações artisticas, e por que via as correntes da erudição grega e romana exerceram por vezes uma obnubilação na phantasia dos escriptores peninsulares. Quando estas populações christãs foram reconquistadas, o laço religioso é que as unificava, porém os costumes imitavam a cultura arabe, subordinando-se aos novos senhores pela identidade da fé; no acaso da guerra, se tornavam a cahir no dominio sarraceno, eram tratadas com mais brandura. No seculo X o terreno comprehendido sob o titulo de Minho, Traz os Montes e Beira-Alta era extremamente povoado, o que não teria sido possivel se tivesse sido occupado simplesmente por christãos asturo-leonezes. Os territorios do Douro e do Mondego já por este tempo apresentavam grande numero de granjas, casaes, villares e povoas. Sob as phrases do latim tabellionico dos diplomas, como notou Herculano, sente-se palpitar uma população livre, que se fará reconhecer mais tarde. A contar do seculo IX encontram-se nos contractos celebrados entre estas differentes sociedades nomes goticos e romanos amalgamados em agnome e cognome com os nomes arabes; presbyteros e diaconos assignam-se com nomes mussulmanos, e ás vezes filhos e irmãos entre si diversamente chamados com nomes arabes e goticos. Pelo que, conclue Herculano: «Não é evidentemente esta confusão de denominações a imagem da assimilação, que, salva a differença do culto e da jurisprudencia civil, se operára lentamente entre os sarracenos e os hispanogodos sujeitos ao seu dominio?»[33] Na magistratura civil, os nomes dos varios cargos tinham tambem designações arabes; na segurança da sua erudição, concluiu Herculano: «O resultado definitivo de todos estes factos, devia de ser, no começo da monarchia a preponderancia do elemento mosarabe entre as classes inferiores, ao passo que entre a nobreza preponderava forçosamente a raça asturo-leoneza.»[34] De facto na Extremadura, Alemtejo e Algarve, depois da separação de Portugal de Leão, ficaram vivendo os mouros forros com a sua independencia garantida pelos Foraes e pela immunidade da communa. Assim se fortificava esse elemento mosarabe nas classes inferiores, onde se crearam as manifestações artisticas, principalmente architectonicas, e se conservaram as tradições poeticas, ou Aravias. Esta influencia poetica dos Arabes acordou a imaginação popular; pelos Arabes da Hespanha se implantaram na Europa os contos orientaes do Hitopadeça, do Pantchatantra e do Calila e Dimna; foram esses themas novellescos vulgarisados pelos arabes que vieram fortalecer o instincto da liberdade burgueza, e que foram estimular a creação romanesca no Decameron de Boccacio, nos Contos de Sassetti, nas Notte piacevoli de Streparole, nas graciosas narrativas das litteraturas romanicas.
Este dualismo, que Herculano tambem observou entre as classes inferiores ou mosarabes e a aristocratica ou asturo-leoneza, reflecte-se no antagonismo entre as autonomias nacionaes, ou individualismo dos estados peninsulares, e a obliteração de todos esses caracteres por um espirito abstracto de unitarismo, conservado da acção imperial romana, gotica e arabe, que a organisação tambem unitaria da Egreja veiu fortificar na aristocracia e na realeza, que ao caminhar para a dictadura se separou do povo. Era este espirito de unidade que fazia com que os reis e aristocratas christãos se entendessem por vezes com os emires e kalifas; na batalha de Zalaka trinta mil sarracenos combatiam sob as bandeiras christãs do rei de Castella e Leão, ao passo que os cavalleiros christãos coadjuvavam as hostes do almoravide Iussuf; Affonso VI, no enlevo dos seus amores por Zaida, queria pôr no throno o filho da sevilhana que estremecia; em Portugal tambem vêmos D. Affonso Henriques fazer uma alliança com Iben-Kasi. O ideal da unificação manifestou-se na creação do kalifado de Cordova, e na reconstituição da unidade visigotica, nas luctas de Castella, Navarra e Aragão. Alheio a todas as ambições creou-se um povo vivendo por si e para si, que emquanto manteve os seus separatismos naturaes, ou pequenos estados, chegou a exercer uma acção immensa na Civilisação occidental. É este caracter ethnico, que o nome de mosarabe exprime tão perfeitamente, que deve ser procurado nas creações dos povos peninsulares differenciados pelas condições do territorio.
Portugal occupa na peninsula hispanica uma faixa norte a sul, na orla occidental: d’aqui a grande variedade da sua climatologia, das suas producções agricolas, e das capacidades e caracteres individuaes dos seus habitantes. Foi esta a causa immediata da actividade social que o levou á desmembração da unidade asturo-leoneza, e que sem fronteiras naturaes, separou Portugal profundamente dos outros estados hispanicos. Além d’esta situação, que em muitas cousas torna Portugal comparavel ás peninsulas da Italia e da Grecia, o solo do paiz é bastante accidentado, influindo pelas altitudes na variação do clima de provincia para provincia; a visinhança do mar, ou as grandes montanhas e os valles profundos tornam o clima ora desegual, ora desabrido, como na Beira, Minho e Traz os Montes, apresentando as vegetações das zonas frias na Serra da Estrella e no Gerez, e o algodoeiro das zonas quentes no Algarve. A florescencia indica esta instabilidade: os cereaes recolhem-se um mez mais cedo na Extremadura e Alemtejo do que em Traz os Montes, em Trancoso, na Guarda, em Almeida e no Sabugal; o pecegueiro, o damasqueiro e a cerejeira florescem em Chaves em Janeiro, em Montalegre em Dezembro, e em Coimbra nos principios de Fevereiro. As duas primaveras que o anno apresenta em Fevereiro e Outubro, são alternadas, a primeira de calor e chuva em todos os trez mezes de duração, a segunda é precedida de trez mezes de calma ardente e falta de agua até ao equinocio, em que começam as chuvas torrenciaes. Cada provincia apresenta caracteres differentes; nos districtos mais elevados das provincias do norte, as neves mantêm na estação calmosa a frescura da atmosphera, tornando as noites frias mesmo nos ardores do verão. O Minho é a mais pequena de todas as provincias e a mais florescente em agricultura, em commercio e industria; aqui a actividade do homem venceu o terreno esteril tornando-o fecundo; ha mais densidade de população, mais fartura, mais desenvolvimento moral e iniciativa. Na Beira, o systema agricola dos pousios não deixa á terra a largueza da sua producção, que diminue cada vez mais com a extensão dos baldios para pastagens; a falta de communicações conservou por muito tempo o povo em uma rudeza e fanatismo invencivel. Traz-os-Montes é uma provincia montanhosa, fria em extremo no inverno, abrasada pelas calmas no verão, em rasão dos grandes montes que a fecham; tem immensos baldios, contando mais de dez leguas abandonadas desde a raia de Hespanha até ás proximidades de Barca d’Alva; alli o homem participa do caracter energico que lhe dá a natureza, é contrabandista. Na rica Extremadura, é mais geral a miseria da população solitaria e ignorante, explorando o solo feracissimo com rotinas caducas. O Alemtejo é a provincia mais extensa, mais fertil e a mais despovoada; a fecundidade do solo fez o habitante indolente; ama de preferencia o ser guardador de gado, a vida de campino; o seu desleixo tem empobrecido a provincia por não procurarem agua. O clima do Algarve é amenissimo, uberrimo o terreno, mas desprezado; não conhecem os habitantes as vantagens das florestas e vão sendo invadidos pelos areaes; a vegetação é tropical, como a bananeira, a palmeira, a cana de assucar; amendoaes, alfarrobaes e figueiraes florescem luxuriantes, mas os rios e as barras vão-se tornando incommunicaveis pela indolencia dos povos.[35]
Perturbações subitas da atmosphera levam á formação do temperamento bilioso, que como observa Stendhal torna as impressões violentas, e as ideias mais absolutas mas inconstantes;[36] a agitação e o mal estar permanente provocam-no á actividade. Diz Stendhal: «O bilioso melancolico, variedade tão commum em Hespanha e Portugal, e no Japão, parece-me o temperamento da desgraça em todas as suas fórmas.»[37] E exemplificando este temperamento pelos typos tão caracteristicos de Domingos de Gusmão, Carlos V, Cromwel, podemos equiparar-lhes os portuguezes Pedro I, Dom João II, Affonso de Albuquerque, Fernão Mendes Pinto, Sá de Miranda, Ruy de Pina, Damião de Goes, typos austeros e atormentados. Para o melancolico o amor é sempre um negocio sério, como observa Stendhal; e que sômos aos olhos da Europa, senão um povo de apaixonados? Quem tem os mais exaltados poetas do amor, como Bernardim Ribeiro, Christovam Falcão, Camões, Rodrigues Lobo, Garrett, João de Deus? Uma lenda de amor deu a primeira tragedia nas litteraturas da Europa, a Castro, de Ferreira; o amor é uma fatalidade invencivel, como se vê nas Cartas da Religiosa portugueza, e torna contagioso o suicidio na mocidade e nas classes populares.
A visinhança do mar imprimiu a estas energias uma acção commum, que tornou Portugal um dos principaes factores da historia: a exploração do Mar Tenebroso, a circumducção do globo, e a idealisação de uma das mais bellas Epopêas da humanidade.
Ha no caracter portuguez uma certa sympathia pela novidade, uma facil assimilação de todos os progressos ou estrangeirismo; foi esta qualidade, tão mal comprehendida, que fez do genio jonio o elemento fecundo e activo da civilisação hellenica. É esta tendencia progressiva que reserva a Portugal uma missão hegemonica na futura federação dos Estados peninsulares.
Com a marcha da civilisação humana as raças vão naturalmente unificando-se, e, como observa Comte, só virão a conservarem as suas qualidades e caracteres differenciaes as raças branca, amarella e negra. A successão e distribuição das raças da Europa, segundo as modernas investigações da anthropologia, apresentam uma quasi completa similaridade; na corrente da historia, uma mesma cultura greco-latina, uma mesma religião catholica, accordando as consciencias, os mesmos elementos sociaes desenvolvendo as instituições civis e politicas, concorreram activamente para esta solidariedade humana que já merece o nome de Republica occidental. D’estes antecedentes, e do contacto sempre crescente dos povos europeus no sentido industrial e economico, resulta a influencia mutua que todos elles exercem entre si, conduzindo para a acção commum.
Os Francezes, Italianos, Hespanhoes e Portuguezes formam perante a civilisação um mesmo povo; as mesmas raças invadiram os seus territorios e ahi se fixaram fusionando-se. O elemento iberico assimila e unifica em si o romano, o celta, os ramos germanico, franko, lombardo e gotico e por fim o arabe. A creação das linguas romanicas proveiu mais da persistencia dos caracteres communs dos povos conquistados pelos romanos do que da decomposição do latim litterario. Uma mesma tradição, formada da decadencia dos seus polytheismos serve de assumpto para essa nova linguagem; o jogral cantando de terra em terra faz-se entender por toda a parte mudando a accentuação das palavras, chega a empregar ao mesmo tempo varios dialectos, como no Descort; uma mesma lingua, o latim, presta os seus moldes de construcção syntaxica a esta diversidade de dialectos, dos quaes os mais desenvolvidos se tornarão linguas nacionaes; uma mesma poesia, a canção trobadoresca, alegra a mudez dos castellos, irradia do Meio Dia da França, cultiva-se nos principados da Italia, em Aragão, na região gallecia ao norte de Portugal. A arte da poesia ou do gai saber ramifica-se, imprimindo uma unidade sympathica aos povos novo-latinos. As mesmas lendas épicas seduzem a imaginação d’estes povos: Carlos Magno, o centro heroico das Gestas, combate nos romances os Sarracenos; os Hespanhoes celebram a sua derrota em Roncesvalles na pessoa de Roland; os Italianos ferem-no na vileza e degradação do filho e dão o nome de ciarlatani (de Carlos) aos troveiros que celebram os seus feitos nas praças publicas: em Portugal apparecem os vestigios meio apagados do Cyclo carlingio, trazido pela passagem dos Cruzados que ajudaram a conquista de Lisboa.
As mesmas commoções politicas succederam na Europa meridional; o impeto revolucionario era contagioso, e o grito da liberdade popular repetia-se por todas as cidades da Italia, servindo aquellas que primeiro alcançavam a independencia, de typo para a exigencia de futuras garantias. Por toda a parte o alto clero se oppoz á revolução communal, em que se creavam as condições do terceiro estado. As Chartes e Coutumes serviam de typo para as povoações que procuravam organisar-se; em Hespanha as Cartas pueblas e os Fueros, em Portugal as Cartas de Foral, foram consequencia d’esta corrente a que depois da reconquista obedeceu a liberalidade régia. Os Foraes de Salamanca, Avila e Zamora foram o typo geral que os povos reclamavam como segurança das suas garantias, subsistindo em Portugal os typos de Salamanca, Santarem e Evora.
As lendas da credulidade religiosa foram por todo o Occidente as mesmas, com egual intensidade e fervor: na Italia, França, Hespanha e em Portugal campêam as Cathedraes goticas, bellas como noivas préstes a receberem a visita do amado. Sente-se o mesmo sarcasmo nos contos decameronicos e nos fabliaux, que pintam a vida domestica burgueza e a defendem; espalha-se o mesmo terror nas lendas da Dansa da Morte, da Descida aos Infernos, do Judeu errante, dos semeadores das pestes, da condemnação do livre exame, equiparado ao pacto demoniaco como no Milagre de Teophilo, e ainda no panico do fim do mundo fixado para o anno mil.
A consanguinidade dos povos latinos é evidente; pelo processo da fixação do poder monarchico, egoismo das familias dynasticas e abuso da dictadura, foi-se estabelecendo a separação d’estes povos com as mais insuperaveis fronteiras de bastardia politica. Esta antinomia, como observa João Müller, explica dez seculos de guerras na Europa. Foram as Litteraturas modernas, no seu periodo medieval que conservaram o instincto d’esta confraternidade apagada; serão ellas os principaes orgãos, na sua futura idealisação universalista, que hão de tornar consciente este espirito de occidentalidade.
§ 2.—A Tradição e os Costumes
De todas as raças que se encontraram na Peninsula hispanica, assim como ficaram vestigios dos seus caracteres anthropologicos, que se imprimem persistentemente na população actual, tambem se conservaram disposições ethnicas, que se transmittem na prática dos costumes e no automatismo das Tradições. Esta physionomia organica e moral do passado revela-se ás primeiras observações, e muitas vezes a intelligencia dos dizeres dos antigos geographos quando descrevem os povos peninsulares, comprehende-se melhor fazendo a comparação com os habitos do presente.[38]
Conforme as raças que occuparam a Hispania se foram mestiçando, accumularam-se tambem as Tradições poeticas, coexistindo por modo que ainda hoje se póde determinar o que provém de uma origem iberica, celtica, phenicia, romana, germanica ou arabe. O syncretismo d’estes elementos resultava da obliteração dos caracteres nacionaes; por que o facto da unificação politica da Peninsula foi sempre um esforço artificial, voluntario, mas impotente, sem que, sob o imperio romano, germanico ou kalifado arabe se conseguisse fundar a synthese organica de todos estes povos em um substractum de nação. Existem tradições ibericas, que não exprimem um sentimento nacional; como existem tradições celticas que não attingiram tambem esta alta expressão social. Se as tradições germanicas ou arabes chegaram a revelar essa consciencia superior de uma raça, perderam o sentimento nacional n’este syncretismo determinado pela successão de tantos povos já de caracter mongoloide ou allophylo, já de caracter semita e árico.
As nacionalidades peninsulares, como a portugueza, por exemplo, são posteriores a este grande residuo de tradições ethnicas: e a sua constituição é devida a um impulso individual, ao heroismo e ambição de um chefe; mas este esforço seria esteril se não aproveitasse as condições immanentes, que existiam nas populações que se confederavam espontaneamente nas suas Behetrias. Diante d’isto facil foi o equivoco de um historiador qualquer de attribuir a formação da nacionalidade portugueza á vontade de homens que se impuzeram á multidão inconsciente. Se D. Affonso Henriques e os reis que lhe succederam até D. Affonso III, não dessem cohesão ás cidades livres do Condado portucalense, jurando elles proprios as suas garantias em Cartas de Foral, não teriam conseguido apoiar o seu poder real sobre populações autonomistas, que assim se submetteram a uma unificação nacional. Em uma carta de Alexandre Herculano vimos uma allusão a essa theoria historica de nação-consciencia, que elle refuta com simplicidade dizendo, que no seculo XII já os Portuguezes chamavam com desdem aos hespanhoes estrangeiros. E Fernão de Oliveira, tambem notava, sem o saber explicar, como é que os Portuguezes acceitaram a fórmula castelhana El-Rei para designarem uma instituição politica que não tinham, por que viviam por si, nas suas cidades confederadas. Quando esta união se conheceu pela primeira vez proficua nas batalhas do Salado e de Aljubarrota, e nas expedições maritimas do Atlantico, foi então que a collectividade portugueza pulsou com o sentimento de Patria; é n’este activo periodo, que abrange os fins do seculo XIV e todo o seculo XV, que as tradições peninsulares, persistentes e sobreviventes de um longo passado, se adaptam á expressão do sentimento nacional. Assim, vetustas tradições do cyclo da Odyssea mediterranea, como a dos errores de Ulysses e do regresso do heroe, tomam o aspecto nacional das navegações portuguezas nos romances da Náo Catherineta e da Bella Infanta. O povo canta o seu heroe nacional na idealisação do Condestavel Nun’Alvares, e lamenta como em um novo Iálemos a morte do princepe Dom Affonso. As vagas tradições phenicias das Ilhas encantadas servem-lhe para estimular a audacia nas expedições maritimas pelo Mar Tenebroso; e as lendas celticas da ilha dos heroes, da phantastica Avalon, servem para guardar a esperança do vingador da nacionalidade extincta, o desejado e popular Dom Sebastião. Aqui vêmos como se faz a apropriação ao organismo nacional e historico d’esse residuo de tradições de todas as proveniencias ethnicas persistentes na peninsula hispanica. E n’este ponto de vista está implicita uma certa similaridade de fórmas lyricas, épicas e dramaticas em todos os povos do occidente da Europa em que entraram os mesmos elementos da raça, facto já anteriormente notado por alguns philologos e ethnologistas em quanto a Portugal, Hespanha, França, Italia e Grecia moderna. É pois esta a primeira base para o estudo comparativo das Tradições, resultando das suas similaridades nas fórmas lyricas, épicas, novellescas e dramaticas a reconstrucção de uma manifesta occidentalidade.
Depois d’esta coordenação fundamental, em que os povos meridionaes não se plagiam mas são simplesmente conservadores inconscientes, apparecem os rudimentos em que pela aggremiação territorial se iam estabelecendo os esboços de nacionalidades. As Tradições e cantos populares do Minho (norte de Portugal) completam-se pelo estudo simultaneo e comparativo das Tradições da Região Asturo-Galecio-Portugueza, substractum de uma nacionalidade que se definia na orla maritima de oéste, que chegou a abranger a Beira. Ao sul de Portugal esboça-se um outro rudimento social apagado na historia, mas persistente nas Tradições da Região Extremenha-Betico-Algarvia. No percurso historico da nacionalidade portugueza, a expansão colonial começa quando a Tradição se tornava a expressão do sentimento de Patria; os cantos tradicionaes fixaram-se n’esses varios centros de persistencia ethnica, os Archipelagos da Madeira e dos Açores, e modificaram-se segundo os elementos da população nos outros fócos coloniaes da Africa, Brazil e India.
Quando um povo entra na vida historica, assimilando os progressos realisados na humanidade e contribuindo para a civilisação com a energia ou tendencias novas que distinguem a sua raça, a este impulso dynamico corresponde a manifestação d’essa outra força statica, a Tradição, que no meio de todas as transformações hade ser o vinculo moral e affectivo da nacionalidade. A Tradição torna-se muitas vezes um estimulo de actividade, como se vê na Grecia quando reagiu contra a Persia; e então, como primeira revelação da unidade d’esse povo, o amor das tradições provoca elaborações individuaes conscientes, que pelo seu intuito esthetico constituem o phenomeno sociologico da Litteratura. Só merece o nome de Litteratura, tomada sob este aspecto, a série das creações sentimentaes e intellectuaes por onde o gráo de consciencia que esse povo tem do seu individualismo nacional chegar a ser expresso. Todos os povos que tiverem caracteres de raça bem accentuados, que a par de uma marcha historica importante não tiverem obliterado as suas relações com um passado tradicional, que ao facto da nacionalidade ligaram um ideal de liberdade na esphera civil, politica e philosophica, esses povos devem possuir uma Litteratura original e fecunda, servindo ao mesmo tempo para patentear o seu nivel moral e para annunciar a aspiração que ás vezes leva seculos a ser effectuada. Sob um tal aspecto não existem Litteraturas mais ou menos perfeitas, por que productos reflexos do meio social, o seu estado é um documento immediato; se se moldam por typos de convenção, a que as academias chamam classicos, se a obra do escriptor consiste em uma paciente imitação e é produzida sem intuito de communicação com o povo, a sua esterilidade está revelando que a nacionalidade se conserva em uma aggregação sem destino, e que causas intimas a atacam nas suas condições organicas. Estas são as bases positivas da critica de qualquer litteratura; procurar se as obras se conformam com os preceitos rhetoricos, ou se se aproximam do typo abstracto do Bello pelo confronto com as realisações artisticas da Grecia, estes dous processos são os que ainda seguem os obcecados habitos escholares do humanismo jesuitico, e os que levados por miragens metaphysicas dão a phrases sem sentido o nome de syntheses.
A Litteratura é objecto de uma sciencia concreta, que se presta á deducção de leis geraes da Sociologia; estabelecer a relação entre as concepções individuaes ou dynamicas, e os elementos staticos da Raça e da Tradição é o processo por meio do qual se chega á determinação do caracter nacional de uma litteratura. O criterio da filiação pertence rigorosamente á historia; por isso a Historia da Litteratura assenta sobre esta phylogenia da Raça e da Tradição como modificadores de todas as concepções individuaes. Só por uma tal connexão é que essas obras podem ser bem sentidas e bem comprehendidas. A Historia da Litteratura é este processo em que se procura descobrir pela realisação que nos apresenta, a vitalidade da raça, a consciencia da nacionalidade, e até que ponto estas duas forças naturaes estiveram em harmonia ou antinomia com a civilisação.
O estudo comparativo das Litteraturas levou a determinar um certo numero de fórmas, por assim dizer universaes, que são a Epopêa, o Lyrismo e o Drama; a sua universalidade deriva de estados psychologicos communs, bem como a successão do seu desenvolvimento resulta das transformações do meio social, onde muitas vezes se conservam os elementos tradicionaes que serviram de thema ás obras e concepções sentimentaes das individualidades superiores. Remontar pela critica das obras primas do genio a esses elementos inconscientes da Tradição, relacional-as com as exigencias moraes da sociedade cujas aspirações exprimem, eis o processo da historia completo nos seus fins de disciplina critica e de synthese.
Estas fórmas litterarias têm uma origem commum humana, n’esse poder mental de personificar em mythos e de communicar a emoção pelo equivalente da imagem, ou intuição das analogias. Ao trabalho da personificação, que se acha plenamente desenvolvido nos Mythos religiosos, segue-se uma degenerescencia provocada pela especulação abstracta dos dogmas, e em grande parte é d’essa degeneração popular dos mythos que se formaram as Epopêas antigas ou anonymas. As analogias das imagens serviram para fixar o modo de expressão do sentimento em um periodo em que o impressionado não podia ainda julgar a sensação emotiva; assim o Lyrismo foi tambem descriptivo, e simultaneo com a Epopêa, tendo egualmente uma base de transmissão tradicional; taes foram os typos hymnicos e dithyrambicos, e na Europa Occidental as Pastorellas e Balladas.
O apparecimento do Drama é tradicionalmente bem caracterisado; nascido tambem de actos ritualisticos, desenvolve-se com as condições que emancipam as classes medias ou burguezas, quando ha egualdade civil, interesses geraes, collisões de deveres, conflictos de ambições, quando existe um consensus moral por onde se afferem os actos das personalidades. Nenhuma fórma da arte ou da Litteratura se cria por méra curiosidade; corresponde sempre a um estado psychologico, á necessidade de uma expressão e communicação de sentimento.
Seguiremos esta divisão natural de todas as Litteraturas, derivando cada uma d’estas fórmas dos seus germens tradicionaes, determinando assim o que ha de organico em manifestações tão complexas que se julgou terem sido creadas arbitrariamente.
a) DAS FÓRMAS LYRICAS
A relação entre a Epopêa e um fundo tradicional foi muito cedo achada pelos philologos e é uma base positiva da critica; porém não era procurada essa relação com o Lyrismo por se attribuir o seu desenvolvimento ao ideal do sentimento resultante do maior progresso social, e da elaboração subjectiva de um estado do passividade consciente que se discute. Antes do sentimento pessoal existiu o sentimento da collectividade, expresso em fórmas consagradas nas festas do trabalho, como labutação da lavoura, dos rebanhos e do mar, e nos factos da vida domestica, como nascimentos, casamentos e enterros, ou mesmo na vida publica. O sentimento pessoal servia-se d’essas fórmas tradicionaes, adaptando-as á expressão consciente e voluntaria de uma situação particular; é assim que se destaca do fundo tradicional a obra litteraria, a qual para ser bem comprehendida precisa ser aproximada da sua origem. Os cantos hymnicos, que apparecem nas religiões primitivas, embora se immobilisassem na fórma do dithyrambo, ou a successão de imagens representando sempre a mesma ideia, conservam o typo tradicional do Lyrismo: essa ideia unica repete-se como apoio rythmico, é o estribilho, refrem ou retornello, correspondendo a esta cadencia estrophica o parallelismo. Assim despontou o lyrismo egypcio, e se vê seguir o mesmo desenvolvimento nas canções accádicas e chinezas, e o que hoje traz embaraçados os criticos, ainda se observa nas Pastorellas do occidente da Europa.
Para comprehender a poesia lyrica portugueza é necessario determinar-lhe scientificamente as suas bases tradicionaes; ellas nos explicarão a sua originalidade e vigor, e estabelecerão as relações com as correntes litterarias da Europa, caracterisando assim pela connexão historica as épocas e influencias cultas que actuaram sobre a sua manifestação. Já pessoal e psychologicamente descriptiva, a fórma lyrica reflecte o estado intellectual do que canta; o poeta é conhecido, causam interesse os pequenos successos da sua vida, as aventuras, os triumphos, os desalentos pessoaes. Isto influe sobre as fórmas em que se quer mostrar perito, sabedor de todos os segredos da arte (gai saber); a construcção da estrophe torna-se a preoccupação exclusiva; inventa o metro caprichoso, acha as rimas novas, cruza-as, encadeia-as; taes foram os Trovadores, que pela relação com os jograes, nunca se esqueceram completamente dos elementos vitaes da tradição originaria, que depois imitaram artisticamente.
Outras vezes o poeta faz da fórma lyrica o meio de analyse da sua paixão, torna o sentimento uma casuistica, desenvolve a imagem até á allegoria, convertendo o seu estado emocional em uma synthese philosophica; taes foram os Petrarchistas, que não podem ser bem avaliados quando separados dos Trovadores. A imitação material em que o lyrismo foi applicado a descrever todos os accidentes insignificantes de uma vida mediocre, motivou esses productos morbidos das Academias litterarias (Culteranismo, Arcadismo) contra os quaes reagiu a renovação do Romantismo, que começou pela revivescencia das tradições medievaes, e depois da vaga melancholia chegou á expressão synthetica de uma emoção consciente e universal.
Na poesia trobadoresca, o lyrismo provençal conservou as suas origens tradicionaes em um elemento popular commum tanto ás pastorellas italianas, como ás balladas francezas, como ás serranilhas gallegas, portuguezas, valencianas e castelhanas, que chegaram a penetrar nos Cancioneiros aristocraticos e litterarios. Este facto encerra um grande problema, que tem preoccupado os mais atilados criticos: que não é na Provença que se hade determinar o ponto de irradiação do Lyrismo das litteraturas modernas, mas em um facto de persistencia ethnica, que se poderá definir pela observação da área que facilitou a sua propagação do sul da França á Italia meridional e ao norte da Hespanha. Analysando algumas canções portuguezas extrahidas por Ernesto Monaci do grande Cancioneiro da Vaticana, o romanista Paul Meyer, observando as analogias com antigas balladas provençaes, concluiu que ellas não provieram de uma imitação directa, mas: «foram concebidas segundo um typo tradicional, que devera ter sido commum a diversas populações romanicas, sem que se possa determinar em qual d’ellas fôra creado.»[39]
Aqui temos proposto o problema com toda a nitidez, e a que julgamos ter dado uma solução definitiva, sobretudo auxiliado pelo criterio ethnico. Para isso descemos das fórmas conhecidas pela via litteraria até ás suas relações com os costumes populares, e d’estes até ao centro ethnico da irradiação.
O lyrismo trobadoresco manifestou-se pela fórma escripta ou provençal na zona gallo-romana; no sul da França o elemento gaulez não soffreu uma transformação organica, como no norte em prezença do vigoroso elemento franko. O romano preoccupado com a ideia da unificação administrativa dominava mas não absorvia, impunha fórmas governativas mas não assimilava as populações; a sua organisação municipal, pelas autonomias locaes, não atacava a essencia da nacionalidade gauleza, ainda que a forçava a uma certa unidade civil. Segundo Diodoro Siculo, os romanos davam o nome de gaulez a todos os povos que entraram na França meridional; já Polybio separava os Celtas dos Gaulezes, antes das confirmações decisivas da Anthropologia.
No sul da França conservaram-se tradições, cuja existencia se determina pelas prohibições canonicas dos bispos, desde o seculo V; taes eram os cantos acompanhados de dansa, a que deram o nome erudito de Balismalia ou Vallemachia (a bailata ou balada) com o caracter satyrico, que reappareceu nas sirventes; taes eram os desafios poeticos com processos de casuistica sentimental, como os Puy, que se desenvolvem nas Côrtes de Amor; taes eram os cantares de Alvoradas e Serenadas, de que os trovadores fizeram generos litterarios; e ainda a caracteristica da composição poetica especialmente pelas mulheres. Esses cantos eram oraes; não tinham importancia no gosto dos latinistas para merecerem ser escriptos; e mesmo esses costumes, de que formavam parte, eram condemnados pela Egreja, e eram risiveis ante o viver dos castellos senhoriaes.
Identica persistencia das fórmas poeticas se encontra em Italia, com a mesma similaridade tradicional, como observou Costantino Nigra. E assim como o sul da França se distingue da França do norte ou feudal pelo exclusivismo das fórmas lyricas, tambem na Italia, segundo Gregorovius, faltam as tradições épicas; conservam-se ali os Voceros, os Triboli, ou Lamenti, analogos ás Endechas dos mortos na peninsula hispanica, e aos Aurusta do Béarn, e Arrirajo das Vascongadas. Os costumes estão indicando um elemento ethnico commum. Na sua entrada na Europa os Celtas encontraram uma raça de cabellos pretos, com que mais ou menos se fusionaram, conservada por longo tempo intacta na Aquitania, em uma região comprehendida entre os Pyreneos, o Garona e o golfo da Gasconha; já nos referimos á observação de Paulo Broca: «Tudo induz a crêr que os Aquitanios pertencem a esta raça de cabellos pretos que se conserva quasi sem mistura entre os Bascos actuaes.» É n’este triangulo situado entre o Garona, o Oceano e os Pyreneos, que essa raça, que se estendeu pela Italia e pela Hespanha, se confinou, como observa Jorge Philipps, resistindo á invasão celtica.
O problema proposto por Paul Meyer, quanto á communhão lyrica das diversas populações romanicas, não póde ser explicado como propoz Nigra, pela raça celtica, e muito menos pelo elemento franko, como entendem Jeanroy e Gaston Páris. A realidade está na persistencia d’esse elemento iberico na Aquitania, á qual pertenceu tambem a Galliza; a propagação do lyrismo para a Italia e Sicilia torna-se tambem um facto natural de revivescencia. O sul da França teve condições historicas para esta iniciativa: «Onde quer que a conquista sobrepoz uma raça a outra, acontece que o vencido por fim retoma os seus direitos. É o genio da raça primitiva que retoma pouco a pouco a dianteira. A Gallia soffreu o duplo dominio do Romano e do Franko; ella recebeu a substancia das duas raças: mas o velho fundo gaulez prevaleceu em ultimo logar, e a França não chegou ao supremo gráo da sua energia nacional se não no dia em que o Gaulez absorveu o Romano e o Sicambro.»[40] Esse lyrismo corresponde a uma certa estabilidade na vida pastoral e agricola, que nem o Ligurio ou Celta maritimo conhecia, nem o Celta nomada podia acceitar. Com o seu profundo senso artistico, Montaigne conheceu o valor esthetico das canções populares da Gasconha, a que chamou Villanelles[41]; a que os italianos chamam Villoti, e que Miguel Leitão de Andrada, no fim do seculo XVI chamava Villanellas para designar as fórmas do lyrismo popular portuguez.
Esta persistencia do lyrismo tradicional no sul da França impuzera-se aos trovadores, como vemos em Ramon Vidal, dizendo nas Les rasos de trobar: «la parladura franceza est plus avinenz a far romans et pasturettas, mas cella de Lemosin val mais per far vers e cansons e sirventes.» O trovador indicava aqui um genero popular em contraposição com as fórmas artisticas que outros trovadores iam destacando e individualisando; por que os primeiros trovadores revelaram-se adstrictos ás fórmas populares, como vêmos em Cercamons, «joglars de Gascoigna, e trobet vers e pastoretas a la usanza antiga.» O discipulo d’este trovador, Marcabrun, em duas pastorellas que compoz, já elabora o typo tradicional com um intuito de satyra moral e social. O typo tradicional, abandonado ao povo, não foi totalmente esquecido pelos trovadores subjectivistas, por que ainda foi seguido por Cadenet e Gui de Usiel, que fazem a transição de Marcabrun para Giraud de Riquier.
A ausencia do criterio ethnico é que fez com que Wackernagel e Brakelmann attribuissem a origem tradicional da pastorella ao norte da França, quando ella pertence a este fundo da população occidental que occupou a França, a Italia e a Hespanha antes da invasão celtica. Esta mesma insufficiencia fez com que Jeanroy considerasse ironicamente as investigações sobre este campo como litteratura pre-historica! Como se a tradição pertencesse ás épocas historicas.
As investigações sobre as origens cio lyrismo tradicional feitas na Italia por d’Ancona, levam a precisar este fundo anthropologico occidental. Observando as fórmas do Contrasto de Cielo d’Alcamo, poeta siciliano do seculo XIII, analogas aos themas e estructura francezas, d’Ancona quer que ellas derivem do antigo carmen amebeum, que se conservou na Sicilia; e conclue: «os antigos historiadores nos asseguram que esta fórma teve origem na Sicilia, que ella é devida primitivamente aos pastores sicilianos. Saíndo dos nossos valles e montanhas, ella se nobilitou, um pouco tarde talvez, nas mãos de Theocrito e de Virgilio; mas ella permaneceu na sua simplicidade nativa propriamente do povo da Sicilia, no qual se perpetuou com o dom da improvisação.» A ilha da Sicilia foi o ponto de juncção das raças brancas do norte da Africa com as da orla europêa mediterranea; a persistencia d’esse fundo lyrico impressionou Theocrito e Virgilio, como os themas da Gasconha ou da Aquitania impressionaram os Trovadores e os levaram á imitação. Reconhecendo as relações do Contrasto italiano com as fórmas francezas, escreve Jeanroy: «mas nós nos guardamos de sustentar que este genero fosse exclusivamente francez, da mesma maneira que não podemos conceder a M. d’Ancona que elle fosse propriamente siciliano; deve ser effectivamente uma propriedade commum de todo o territorio romanico.»[42] «Ainda mesmo que houvesse já Contrasti na Sicilia no tempo de Atheneu e de Diodoro, não nos auctorisava isto de modo algum a crêr que elles fossem originarios da Sicilia.—É essa uma fórma, que longe de ser exclusivamente siciliana, se acha na poesia popular de um grande numero de povos.»[43] E mostra como longe da Sicilia esta fórma lyrica tradicional é seguida pelas aldeãs de Ferrara nas Romanellas, em Portugal nos Desafios á desgarrada, e nos Dayemans da Lorena.
Mas estendendo mais o campo da observação, é um caracteristico commum a este lyrismo tradicional o ser a canção amorosa composta e cantada pela mulher. Nos cantos populares da Galliza a mulher conserva o costume que vêmos nas serranas e pastoras do Cancioneiro trobadoresco da Vaticana. Já o erudito Sarmiento, nas Memorias para la Historia de la Poesia española, escrevia: «he observado que en Galicia las mugeres no solo son poetisas, sino tambien músicas naturales.—En la mayor parte de las coplas gallegas hablan las mugeres con los hombres; y es por que ellas componen las coplas sin artificio alguno; y ellas mismas inventan los tonos ó ayres à que las han de cantar, sin tener idea de arte musico.»[44] É ainda este o costume do Minho;[45] o caracter da lyrica de elaboração feminina determina-lhe a sua mais alta antiguidade; escreve Jeanroy, apesar de ter receio da litteratura pre-historica: «W. Scherer, em uma muito instructiva noticia, citou um grande numero de factos que o provavam: desde o seculo X, a canção de mulher existia na Allemanha, como o mostra uma pequena peça latina d’essa época; as canções servias são ordinariamente collocadas na bocca de uma rapariga, e Talvj pensa que são realmente as raparigas que as compõem; peças analogas se acham na Islandia, na Russia, na China, nas Kabylas, e em muitas tribus selvagens. A attribuição das canções a uma mulher, é por consequencia uma feição commum á nossa antiga lyrica popular e a muitas outras.»[46] Por este exame de Scherer, encontramos sempre este caracter do lyrismo tradicional entre povos em que persiste o elemento mongoloide (como a Servia, a Russia, as Kabylas, a China, notando-se tambem que entre os Germanos se fusionou o Geta.) E continuando a citação: «Scherer faz notar, que o parallelismo mais ou menos rigorosamente seguido entre a descripção de algum objecto natural e a pintura da paixão se encontra em um grande numero de poesias populares, particularmente entre os Servios, os Allemães, os Malaios, os Chinezes. A poesia slava, sobretudo, abunda n’este genero em uma infinidade de especimens, dos quaes alguns têm impresso o cunho da mais alta, da mais bella poesia, etc.»[47] É por consequencia um processo logico o procurar estas origens do Lyrismo na raça branca, não árica nem semita, que precedeu ou occupou a Europa antes dos Celtas; o centro ethnico da Aquitania como ponto de irradiação do Lyrismo, levou-nos á investigação apparentemente aventurosa: as fórmas tradicionaes communs á Italia, Provença, Galliza, Catalunha e Portugal, (populações romanicas que não lhes deram origem), têm um typo perfeitamente egual ao das Canções accádicas, descobertas e traduzidas pelos modernos assyriologos, e são na sua estructura semelhantes ás canções chinezas do Chi King, traduzidas pela fórma homeometrica, homeostrophica e homeorythmica por Legge. D’aqui a inferencia sobre o estado moral e relações anteriores d’esse typo iberico conservado mais puro na Aquitania. O desenvolvimento da poesia provençal fôra attribuido á influencia dos Arabes no lyrismo do Occidente; mas a poesia lyrica dos povos semitas, como o provam os estudos assyriologicos, foi produzida pela imitação da poesia dos Accads. Reconhecida esta demonstração, comprehende-se como, apparecendo na poesia arabe a fórma da Pastorella, esse grande ramo semita viesse estimular a revivescencia de uma tradição, que se extinguia entre a transmissão oral das camadas populares. Como relacionar esse fundo occidental ou iberico com os povos accádicos? Esse é o problema a que conduzem todas as similaridades do Lyrismo tradicional; a elle respondeu Roisel no seu livro Les Atlantes, mostrando como a civilisação da Chaldêa foi iniciada por navegadores atlanticos da raça branca primitiva e autochtone da Europa.[48] Comprehende-se como os cantos arabes fossem communs entre o povo hespanhol e portuguez; nos versos do Arcipreste de Hita ainda vem enumerada a lista dos instrumentos musicos para os cantares arabicos, e em Gil Vicente ha uma referencia a uma canção arabe Calbi arabin. No Cancioneiro da Vaticana existe uma canção trobadoresca com o estrebilho Lelia vai Lelia, que dava nome a um genero lyrico tão popular e persistente nos costumes, que Philippe II prohibia que se cantassem as Leilas arabes. A designação com que no seculo XV se conhecia esta fórma tradicional da Pastorella era a de Serranilha, da palavra arabe serra. Na poesia moderna do povo da Galliza persiste este genero na fórma da Muiñeira; e em Portugal tornou a communicar-se aos escriptores como Gil Vicente, Sá de Miranda, Christovam Falcão e Camões, tomando a fórma litteraria das Modinhas brazileiras, especialmente nas Lyras de Gonzaga. Determinada, pois, esta base tradicional, temos a disciplina critica para conhecer o desenvolvimento do Lyrismo trobadoresco, e successivamonte da sua transformação italiana do dolce stil nuovo, e imitação geral nas Litteraturas romanicas da Renascença até ao Romantismo.