MACHADO DE ASSIS
Reading edition
RIO DE JANEIRO
B.L. GARNIER
Livreiro-editor do Instituto Historico Brasileiro
65—Rua do Ouvidor—65
PORTO: Ernesto Chardon | BRAGA: Eugenio Chardon
LISBOA: Carvalho & C.
1876
INDICE
CAPITULO I CAPITULO II CAPITULO III CAPITULO IV CAPITULO V CAPITULO VI CAPITULO VII CAPITULO VIII CAPITULO IX CAPITULO X CAPITULO XI CAPITULO XII CAPITULO XIII CAPITULO XIV CAPITULO XV CAPITULO XVI CAPITULO XVII CAPITULO XVIII CAPITULO XIX CAPITULO XX CAPITULO XXI CAPITULO XXII CAPITULO XXIII CAPITULO XXIV CAPITULO XXV CAPITULO XXVI CAPITULO XXVII CAPITULO XXVIII
HELENA
CAPITULO I
O conselheiro Vale morreu ás 7 horas da noite de 25 de abril de 1859. Morreu de apoplexia fulminante, pouco depois de cochilar a sesta,—segundo costumava dizer,—e quando se preparava a ir jogar a usual partida de voltarete em casa de um desembargador, seu amigo. O Dr. Camargo, chamado á pressa, nem chegou a tempo de empregar os recursos da sciencia; o padre Melchior não pôde dar-lhe as consolações da religião: a morte fôra instantanea.
No dia seguinte fez-se o entêrro, que foi um dos mais concorridos que ainda viram os moradores do Andarahy. Cêrca de duzentas pessoas acompanharam o fim do até a morada ultima, achando-se representadas entre ellas as primeiras classes da sociedade. O conselheiro, posto não figurasse em nenhum grande cargo do Estado, occupava elevado logar na sociedade, pelas relações adquiridas, cabedaes, educação e tradicções de familia. Seu pae fora magistrado no tempo colonial, e figura de certa influência na corte do último vice-rei. Pelo lado materno descendia de uma das mais distinctas familias paulistas. Elle proprio exercêra dous empregos, havendo-se com habilidade e decoro, do que lhe adveiu a carta de conselho e a estima dos homens publicos. Sem embargo do ardor político do tempo, não estava ligado a nenhum dos dous partidos, conservando em ambos preciosas amizades, que alli se acharam na occasião de o dar á sepultura. Tinha, entretanto, taes ou quaes ideias políticas, colhidas nas fronteiras conservadoras e liberaes, justamente no ponto em que os dous dominios podem confundir-se. Se nenhuma saudade partidaria lhe deitou a ultima pa de terra, matrona houve, e não só ama, que viu ir a enterrar com elle a melhor página de sua mocidade.
A familia do conselheiro compunha-se de duas pessoas: um filho, o Dr. Estacio, e uma irmã, D. Ursula. Contava ésta cincoenta e poucos annos; era solteira; vivêra sempre com o irmão, cuja casa dirigia desde o fallecimento da cunhada. Estacio tinha vinte e sete annos, e era formado em mathematicas. O conselheiro tentára encarreiral-o na política, depois na diplomacia; mas nenhum desses projectos teve começo de execução.
O Dr. Camargo, médico e velho amigo da casa, logo que regressou do entêrro, foi ter com Estacio, a quem encontrou no gabinete particular do finado, em companhia de D. Ursula. Tambem a dor tem suas voluptuosidades; tia e sobrinho queriam nutril-a com a presença dos objectos pessoaes do morto, no logar de suas predilecções quotidianas. Duas tristes luzes alumiavam aquella pequena sala. Alguns momentos correram de profundo silêncio entre os tres. O primeiro que o rompeu foi o médico.
—Seu pai deixou testamento?
—Não sei, respondeu Estacio.
Camargo mordeu a ponta do bigode, duas ou tres vezes, gesto que lhe era habitual quando fazia alguma reflexão.
—É preciso procural-o,—continuou elle.—Quer que o ajude?
Estacio apertou-lhe affectuosamente a mão.
—A morte de meu pai,—disse o moço, não alterou nada as nossas relações. Subsiste a confiança anterior do mesmo modo que a amizade, ja provada e antiga.
A secretária estava fechada; Estacio deu a chave ao médico; este abriu o movel sem nenhuma commoção exterior. Interiormente estava abalado. O que se lhe podia notar nos olhos era uma viva curiosidade, expressão em que, aliás, nenhum dos outros reparou. Logo que começou a revolver os papeis, a mão do médico tornou-se mais febril. Quando achou o testamento, houve em seus olhos um breve lampejo, a que succedeu a serenidade habitual.
—É isso? perguntou Estacio.
Camargo não respondeu logo; olhou para o papel, como a querer adivinhar o conteudo. O silêncio foi muito demorado para não fazer impressão no moço, que alias nada disse, porque o attribuíra á commoção natural do amigo, em tão dolorosas circumstâncias.
—Sabem o que estará aqui dentro? disse enfim Camargo. Talvez uma lacuna ou um grande excesso.
Nem Estacio, nem D. Ursula, pediram ao médico a explicação de semelhantes palavras. A curiosidade, porém, era natural, e o médico pôde le-la nos olhos, de ambos. Não lhes disse nada; entregou o testamento a Estacio, ergueu-se e deu alguns passos na sala, absorvido em suas proprias reflexões, ora arranjando machinalmente um livro da estante, ora mettendo a ponta do bigode entre os dentes, com a vista quêda, alheio de todo ao logar e ás pessoas.
Estacio rompeu o silêncio:
—Mas que lacuna ou que excesso é esse? perguntou ao médico.
Camargo parou deante do moço.
—Não posso dizer nada, respondeu elle. Seria inconveniente antes de saber as últimas disposições de seu pai.
D. Ursula foi menos discreta que o sobrinho; apos longa pausa, pediu ao médico a razão de suas palavras.
—Seu irmão, disse este, era boa alma; tive tempo de o conhecer de perto e apreciar-lhe as qualidades, que as tinha excellentes, Era seu amigo; sei que o era meu. Nada alterou a longa amizade que nos unia, nem a confiança que ambos depositavamos um no outro. Não quizera pois, que o último acto de sua vida fôsse um êrro.
—Um êrro! exclamou D. Ursula.
—Talvez um êrro! suspirou Camargo.
—Mas, doutor, insistiu D. Ursula, porque motivo nos não tranquillisa o espirito? Estou certa de que não se trata de um acto que desdoure a meu irmão; allude naturalmente a algum êrro no modo de entender... alguma cousa, que eu ignoro o que seja. Porque não fala claramente?
O médico viu que D. Ursula tinha razão; e que, a não dizer mais nada, melhor fôra ter-se calado de todo. Tentou dissipar a impressão de extranheza que deixára no ânimo dos dous; mas da hesitação com que falava concluiu Estacio que elle não podia ir além do que havia dito.
—Não precisamos de explicação nenhuma, interveiu o filho do conselheiro; amanhã saberemos tudo.
Nessa occasião entrou o padre Melchior. O médico sahiu ás 10 horas, ficando de voltar no dia seguinte, logo cedo. Estacio, recolhendo-se a seu quarto, murmurava consigo:
—Que êrro será esse? E que necessidade tinha elle de vir lançar-me este enigma no coração?
A resposta, se podesse ouvil-a, era dada nessa mesma occasião pelo proprio Dr. Camargo, ao entrar no carro que o esperava á porta:
—Fiz bem em preparar-lhes o espirito, pensou elle; o golpe, si o houver, ha de ser mais facil de soffrer.
O médico ia só; além disso, era noite, como sabemos. Ninguem pôde ver-lhe a expressão do rosto, que era fechada e meditativa. Exhumou o passado e devassou o futuro; mas de tudo o que reviu e anteviu nada foi communicado a ouvidos extranhos.
As relações do Dr. Camargo com a familia do conselheiro eram estreitas e antigas, como dissera Estacio. O médico e o conselheiro tinham a mesma edade: cincoenta e quatro annos. Conheceram-se logo depois de tomado o gráo, e nunca mais afrouxara o laço que os prendêra desde esse tempo.
Camargo era pouco sympathico á primeira vista, Tinha as feições duras e frias, os olhos prescrustadores e sagazes, de uma sagacidade incommoda, para quem encarava com elles, o que o não fazia attrahente. Fallava pouco e sêcco. Seus sentimentos não vinham á flor do rosto. Tinha todos os visiveis signaes de um grande egoista; comtudo, posto que a morte do conselheiro não lhe arrancasse uma lagryma ou uma palavra de tristeza, é certo que a sentiu devéras. Além disso, amava sobre todas as cousas e pessoas uma creatura linda,—a linda Eugenia, como lhe chamava,—sua filha unica e a flor de seus olhos; mas amava-a de um amor calado e recondito. Era difficil saber se Camargo professava algumas opiniões políticas ou nutria sentimentos religiosos. Das primeiras, se as tinha, nunca deu manifestação prática; e no meio das lutas de que fôra cheio o decennio anterior, conservara-se indifferente e neutral. Quanto aos sentimentos religiosos, a aferil-os pelas acções, ninguem os possuia mais puros. Era pontual no cumprimento dos deveres de bom catholico. Mas só pontual; interiormente era incredulo.
Quando Camargo chegou a casa, no Rio Comprido, achou sua mulher,—D. Thomasia,—meio adormecida n'uma cadeira de balanço e Eugenia ao piano, executando um trecho de Bellini. Eugenia tocava com habilidade; e Camargo gostava de a ouvir. Naquella occasião, porém, disse ele, parecia pouco conveniente que a moça se entregasse a um genero de recreio qualquer. Eugenia obedeceu, algum tanto de ma vontade. O pai, que se achava ao pe do piano, pegou-lhe nas mãos, logo que ella se levantou, e fitou-lhe uns olhos amorosos e profundos, como ella nunca lhe víra.
—Não fiquei triste pelo que me disse, papae,—observou a moça. Tocava por distrahir-me. D. Ursula como está? Ficou tão afflicta! Mamãe queria demorar-se mais tempo; mas eu confesso que não podia ver a tristeza daquella casa.
—Mas a tristeza é necessaria á vida,—acudiu D. Thomasia, que abrira os olhos logo á entrada do marido. As dores alheias fazem lembrar as proprias, e são um correctivo da alegria, cujo excesso póde engendrar o orgulho.
Camargo temperou ésta philosophia, que lhe pareceu demasiado austera, com algumas ideias mais accommodadas e risonhas.
—Deixemos a cada edade a sua atmosphera propria, concluiu elle, e não antecipemos a da reflexão, que é tornar infelizes os que ainda não passaram do puro sentimento.
Eugenia não comprehendeu o que os dous haviam dito. Seus olhos voltaram-se para o piano, com uma expressão de saudade irritada. Com a mão esquerda, assim mesmo de pe, extrahiu vagamente tres ou quatro notas das teclas suas amigas. Camargo tornou a fital-a com desusada ternura; a fronte sombria pareceu alumiar-se de uma irradiação interior. A moça sentiu-se enlaçada nos braços delle; deixou-se ir. Mas a expansão era tão nova, que ella ficou assustada e perguntou com voz trémula.
—Aconteceu la alguma cousa?
—Absolutamente nada, respondeu Camargo dando-lhe um beijo na testa.
Era o primeiro beijo,—ao menos o primeiro de que a moça tinha memoria. A caricia encheu-a de orgulho filial; mas a propria novidade della impressionou-a mais. Eugenia não creu no que lhe dissera seu pai. Viu-o ir sentar-se ao pe de D. Thomasia e conversarem em voz baixa. Approximando-se, não interrompeu a conversa, que elles continuaram no mesmo tom, e versava sobre assumptos puramente domesticos. Percebeu-o; contudo não ficou tranquilla. Na manhã seguinte escreveu um bilhete, que foi logo caminho do Andarahy. A resposta, que lhe chegou ás mãos no momento em que provava um vestido novo, teve a cortezia de esperar que ella terminasse a operação. Lida finalmente, dissipou todos os receios da vespera.
CAPITULO II
No dia seguinte foi aberto o testamento com todas as formalidades legaes. O conselheiro nomeava testamenteiros Estacio, o Dr. Camargo e o padre Melchior. As disposições geraes nada tinham que fôsse notavel: eram legados pios ou beneficentes, lembranças a amigos, dotes a afilhados, missas por sua alma e pela de seus parentes.
Uma disposição havia, porém, verdadeiramente importante. O conselheiro declarava reconhecer uma filha natural, de nome Helena, havida em D. Angela da Soledade. Ésta menina estava sendo educada em um collegio de Botafogo. Era declarada herdeira da parte que lhe tocasse de seus bens, e devia ir viver com a familia, a quem o conselheiro instantemente pedia que a tratasse com desvello e carinho, como se de seu matrimonio fôsse.
A leitura desta disposição causou natural espanto á irmã e ao filho do finado. D. Ursula nunca soubéra de tal filha. Quanto a Estacio ignorava menos que a tia. Ouvira uma vez falar em uma filha de seu pae; mas tão vagamente que não podia esperar aquella disposição testamentária.
Ao espanto succedeu em ambos outra e differente impressão. D. Ursula reprovou de todo o acto do conselheiro. Parecia-lhe que, a despeito dos impulsos naturaes o licenças juridicas, o reconhecimento de Helena era um acto de usurpação e um péssimo exemplo. A nova filha era, em seu entender, uma intrusa, sem nenhum direito ao amor dos parentes; quando muito, concordaria em que se lhe devia dar o quinhão da herança e deixal-a á porta. Recebel-a, porém, no seio da familia e de seus castos affectos, legitimal-a aos olhos da sociedade, como ella estava aos da lei, não o entendia D. Ursula, nem lhe parecia que alguem podesse entendel-o. A aspereza destes sentimentos tornou-se ainda maior quando lhe occorreu a origem possivel de Helena, Nada constava da mãe, além do nome; mas essa mulher quem era? em que atalho sombrio da vida a encontrára o conselheiro? Helena seria filha de um encontro fortuito entre duas voluptuosidades, ou nasceria de algum affecto, irregular embora, mas verdadeiro o unico? A éstas interrogações não podia responder D. Ursula; bastava porém, que lhe surgissem no espirito, para lançar nelle o tedio e a irritação.
D. Ursula era eminentemente severa a respeito de costumes. A vida do conselheiro, marchetada de aventuras galantes, estava longe de ser uma página de catecismo; mas o acto final bem podia ser a reparação de leviandades amargas. Essa atenuante não a viu D. Ursula. Para ella, o principal era a entrada de uma pessoa extranha na familia.
A impressão de Estacio foi muito outra. Elle percebêra a ma vontade com que a tia recebêra a noticia do reconhecimento de Helena, e não podia negar a si mesmo que semelhante facto creava para a familia uma nova situação. Contudo, qualquer que ella fôsse, uma vez que seu pai assim o ordenava, levado por sentimentos de equidade ou impulsos da natureza, elle a acceitava tal qual, sem pezar nem reserva. A questão pecuniaria pezou menos que tudo no espirito do moço; não pezou nada. A occasião era dolorosa de mais para dar entrada a considerações de ordem inferior, e a elevação dos sentimentos de Estacio não lhe permittia inspirar-se dellas. Quanto á camada social a que pertencia a mãe de Helena, não se preocupou muito com isso, certo que elles saberiam levantar a filha até á classe a que ella ia subir.
No meio das reflexões produzidas pela disposição testamentária do conselheiro, occorreu a Estacio a conversa que tivera com o Dr. Camargo. Provavelmente era aquelle o ponto a que alludíra o médico. Interrogado acerca de suas palavras, Camargo hesitou um pouco; mas insistindo o filho do conselheiro:
—Aconteceu o que eu previa, um êrro, disse elle. Não houve lacuna, mas excesso. O reconhecimento dessa filha é um excesso de ternura, muito bonito; mas pouco prático. Um legado era sufficiente; nada mais. A estricta justiça.
—A estricta justiça é a vontade de meu pae, redarguiu Estacio.
—Seu pai foi generoso, disse Camargo; resta saber se podia sel-o á custa de direitos alheios.
—Os meus? Não os allego.
—Se os allegasse seria pouco digno de memoria delle. O que está feito, está feito. Uma vez reconhecida, essa menina deve achar nesta casa familia e affectos de familia. Persuado-me que ella sabera corresponder-lhes com verdadeira dedicação...
—Conhece-a? inqueriu Estacio, cravando no médico uns olhos impacientes de curiosidade.
—Via-a tres ou quatro vezes disse este no fim de alguns segundos; mas era então muito creança. Seu pae fallava-me della como de pessoa extremamente affectuosa e digna de ser amada e admirada. Talvez fossem olhos de pai.
Estacio desejára ainda saber alguma cousa ácerca da mãe de Helena, mas repugnou-lhe entrar em novas indagações. Como os filhos de Noé, lançou uma capa sobre a nudez de seu pae, e tentou encarreirar a conversa para outro assumpto. Camargo, entretanto, insistiu:
—O conselheiro falou-me algumas vezes no projecto de reconhecer Helena; procurei dissuadil-o, mas sabe como elle era obstinado ás vezes em suas resoluções, accrescendo neste caso o natural impulso de amor paterno. O nosso ponto de viste era differente. Não me tenho por homem mau; contudo, entendo que a sensibilidade não póde usurpar o que pertence á razão.
Camargo proferiu éstas palavras no tom sêcco e sentencioso, que tão natural e sem exforço lhe sabia. A velha amizade delle e do finado era sabida de todos; a intenção com que fallava podia ser hostil á familia? Estacio reflectiu algum tempo no conceito que acabava de ouvir ao médico, curta reflexão, que por nenhum modo lhe abalou a opinião ja assentada e expressa. Seus olhos, grandes e serenos, como o espirito que os animava, pousaram benevolamente no interlocutor.
—Não quero saber—disse elle,—se ha excesso na disposição testamentária de meu pae. Se o ha, é legitimo, justificavel pelo menos; elle sabia ser pai; seu amor dividia-se inteiro. Receberei essa irmã, como se fôra creada commigo. Minha mãe faria com certeza a mesma cousa.
Camargo não insistiu. Sôbre ser exforço baldado dissuadir o moço daquelles sentimentos, que aproveitava ja agora discutir e condemnar theoricamente a resolução do conselheiro? Melhor era executal-a lealmente, sem hesitação nem pezar. Isso mesmo declarou elle a Estacio, que o abraçou cordialmente. O médico recebeu o abraço sem constrangimento, mas sem fervor.
Estacio ficára satisfeito comsigo mesmo. Seu caracter vinha mais directamente da mãe que do pai. O conselheiro, se lhe descontarmos a unica paixão forte que realmente teve, a das mulheres, não lhe acharemos, nenhuma outra saliente feição. A fidelidade aos amigos era antes resultado do costume que da consistencia dos affectos. A vida correu-lhe sem crises nem contrastes; nunca achou occasião de experimentar a propria têmpera. Se a achasse, mostraria que a tinha mediana.
A mãe de Estacio era differente; possuíra em alto grau a paixão, a ternura, a vontade, uma grande elevação de sentimentos, com seus toques de orgulho,—daquelle orgulho que é apenas irradiação da consciencia. Vinculada si um homem que, sem embargo do affecto que lhe tinha, despendia o coração em amores adventicios e passageiros, teve a fôrça de vontade necessaria para dominar a paixão e encerrar em si mesma todo o resentimento. As mulheres que são apenas mulheres choram, arrufam-se ou resignam-se; as que tem alguma cousa mais do que a debilidade feminina lutam ou recolhem-se á dignidade do silêncio. Aquella padecia, é certo, mas a elevação de sua alma não lhe permittia outra cousa mais do que um procedimento altivo e calado. Ao mesmo tempo, como a ternura era elemento essencial da sua organisação, concentrou-a toda naquelle unico filho, em quem parecia adivinhar o herdeiro de suas robustas qualidades.
Estacio recebêra affectivamente de sua mãe uma boa parte destas. Não sendo grande talento, deveu á vontade e á paixão do saber a figura notavel que fez entre seus companheiros de estudos. Entregara-se á sciencia com ardor e afinco. Aborrecia a política; era indifferente ao ruido exterior. Educado á maneira antiga o com severidade o recato, passou da adolescencia á juventude sem conhecer as corrupções de espirito nem as influências delecterias da ociosidade; viveu a vida de familia, na edade em que outros, seus companheiros, viviam a das ruas e perdiam em cousas infimas a virgindade das primeiras sensações. Dahi veiu que aos dezoito annos conservava elle tal ou qual timidez infantil, que só tarde perdeu de todo. Mas se perdeu a timidez, ficara-lhe certa gravidade não incompativel com os verdes annos e muito propria de organisações como a delle. Na política seria talvez meio caminho andado para subir aos cargos publicos; na sociedade, fazia com que lhe catassem respeito, o que o levantava a seus proprios olhos. Convem dizer que não era essa gravidade aquella cousa enfadonha, pesada e chata, que os moralistas asseveram ser quasi sempre um symptoma de espirito chocho; era uma gravidade jovial e familiar,—egualmente distante da frivolidade e do tedio, uma compostura do corpo e do espirito, temperada pelo viço dos sentimentos e pela graça das maneiras, como um tronco rijo e recto adornado de folhagens e flores. Junctava ás outras qualidades moraes uma sensibilidade, não feminil e doentia, mas sobria e forte; aspero comsigo, sabia ser terno e mavioso com os outros.
Tal era o filho do conselheiro; e se alguma cousa ha ainda que accrescentar é que elle não cedia nem esquecia nenhum dos direitos e deveres que lhe davam a edade e a classe em que nascêra. Elegante e polido, obedecia á lei do decoro pessoal, ainda nas menores partes della. Ninguem entrava mais correctamente n'uma sala; ninguem saia mais opportunamente. Ignorava a sciencia das nugas, mas conhecia o segrêdo de tecer um comprimento.
Na situação creada pela clausula testamentária do conselheiro, Estacio aceitou a causa da irmã, a quem ja via, sem a conhecer, com olhos differentes dos de Camargo e D. Ursula. Esta communicou ao sobrinho todas as impressões que lhe deixára o acto do irmão. Estacio procurou dissipar-lh'as; repetiu as reflexões oppostas ao médico; mostrou que, ao cabo de tudo, tratava-se de cumprir a derradeira vontade de um morto.
—Bem sei que não ha ja agora outro remedio mais que aceitar essa menina e obedecer ás determinações solemnes de meu irmão, disse D. Ursula quando Estacio acabou de falar. Mas só isso; dividir com ella os meus affectos não sei que possa nem deva fazer.
—Comtudo, ella é do nosso mesmo sangue.
D. Ursula ergueu os hombros como repellindo semelhante consanguinidade. Estacio insistiu em trazel-a a mais benevolos sentimentos. Invocou, além da vontade, a rectidão do espirito de seu pae, que não havia dispor uma cousa contrária á boa fama da familia.
—Além disso, essa menina nenhuma culpa tem de sua origem, e visto que meu pae a legitimou, convem que não se ache aqui como engeitada. Que aproveitariam os com isso? Nada mais do que perturbar a placidez da nossa vida interior. Vivamos na mesma communhão de affectos; e vejamos em Helena uma parte da alma de meu pae, que nos fica para não desfalcar de todo o patrimonio commum.
Nada respondeu a irmã do conselheiro. Estacio percebeu que não mudára os sentimentos da tia, nem era possivel consegui-lo por meio de palavras. Confiou do tempo essa tarefa. D. Ursula ficou triste e só. Apparecendo Camargo dahi a pouco, ella confiou-lhe todo o seu modo de sentir, que o médico interiormente approvava.
—Conheceu a mãe della? perguntou a irmã do conselheiro.
—Conheci.
—Que especie de mulher era?
—Fascinante.
—Não é isso; pergunto-lhe se era mulher de ordem inferior, ou...
—Não sei; no tempo em que a vi não tinha classe e podia pertencer a todas; demais, não a tratei de perto.
—Doutor, disse D. Ursula, depois de hesitar algum tempo;—que me aconselha que faça?
—Que a ame, se ella o merecer, e se puder.
—Oh! confesso-lhe que me ha de custar muito! E merece-lo-ha? Alguma cousa me diz ao coração que essa menina vem complicar a nossa vida; além disso, não posso esquecer que meu sobrinho, herdeiro...
—Seu sobrinho aceita as cousas philosophicamente e até com satisfação. Não comprehendo a satisfação, mas concordo que nada mais ha do que cumprir textualmente a vontade do conselheiro. Não se deliberam sentimentos; ama-se ou aborrece-se, conforme o coração quer. O que lhe digo é que a trate com benevolencia; e caso sinta em si algum affecto, não o suffoque; deixe-se ir com elle. Ja agora não se póde voltar atraz. Infelizmente!
Helena estava a concluir seus estudos; semanas depois determinou a familia que ella viesse para casa. D. Ursula recusou a princípio ir buscal-a; convenceu-a disso o sobrinho, e a boa senhora aceitou a incumbencia depois de alguma hesitação. Em casa foram-lhe preparados os aposentos; e marcou-se uma tarde de segunda-feira para ser a moça transladada a Andarahy. D. Ursula metteu-se na carruagem, logo depois de jantar. Estacio foi nesse dia jantar com o Dr. Camargo, no Rio Comprido. Voltou tarde. Ao penetrar na chacara deu com os olhos nas janellas do quarto destinado a Helena; estavam abertas; havia alguem dentro. Pela primeira vez sentiu Estacio a extranheza da situação creada pela presença daquella meia-irmã e perguntou a si proprio se não era a tia quem tinha razão. Expelliu pouco depois esse sentimento; a memoria do pae restituiu-lhe a benevolencia anterior. Ao mesmo tempo, a ideia de ter uma irmã sorria-lhe ao coração como promessa de venturas novas e desconhecidas. Entre sua mãe e as demais mulheres, faltava-lhe essa creatura intermediaria, que elle ja amava sem conhecer, e que que seria a natural confidente de seus desalentos e esperanças. Estacio contemplou longo tempo as janellas; nem o vulto de Helena appareceu alli, nem elle viu passar a sombra da habitante nova.
CAPITULO III
Na seguinte manhã, Estacio levantou-se tarde e foi direito á sala de jantar, onde encontrou D. Ursula, pachorrentamente sentada na poltrona de seu uso, ao pe de uma janella, a ler um tomo do Saint-Clair das Ilhas, enternecida pela centesima vez com as tristezas dos desterrados da ilha da Barra; boa gente e moralissimo livro, ainda que enfadonho e massudo, como outros de seu tempo. Com elle matavam as matronas daquella quadra muitas horas compridas do inverno, com elle se encheu muito serão pacífico, com elle se desafogou o coração do muito lagryma sobresalente.
—Veiu? perguntou Estacio.
—Veiu, respondeu a boa senhora fechando o livro. O almôço esfria,—continuou ella dirigindo-se á mucama que alli estava de pe, juncto da mesa; já foram chamar... nhanhã Helena?
—Nhanhã Helena disse que ja vem.
—Ha dez minutos, observou D. Ursula ao sobrinho.
—Naturalmente não tarda, respondeu este. Que tal?
D. Ursula estava pouco habilitada a responder ao sobrinho. Quasi não vira o rosto de Helena; e ésta, logo que alli chegou, recolheu-se ao aposento que lhe deram, dizendo ter necessidade de repouso. O que D. Ursula pôde afiançar foi somente que a sobrinha era moça feita.
Ouviu-se descer a escada um passo rapido, e não tardou que Helena apparecesse á porta da sala de jantar. Estacio estava então encostado á janella que ficava em frente da porta e dava para a extensa varanda, donde se viam os fundos da chacara. Olhou para a tia como esperando que ella os apresentasse um ao outro. Helena detivera-se ao vel-o.
—Menina, disse D. Ursula com o tom mais doce que tinha na voz, este é meu sobrinho Estacio, seu irmão.
—Ah! disse Helena sorrindo e caminhando para elle.
Estacio dera egualmente alguns passos.
—Espero merecer sua affeição, disse ella depois de curta pausa. Peço desculpa da demora; estavam á minha espera, creio eu.
—Iamos para a meza agora mesmo, interrompeu D. Ursula como protestando contra a ideia de que ella os fizesse esperar.
Estacio procurou corrigir a rudez da tia.
—Tinhamos ouvido o seu passe na escada, disse elle. Sentemo-nos, que o almoço esfria.
D. Ursula ja estava sentada á cabeceira da mesa; Helena ficou á direita, na cadeira que Estacio lhe indicou; este tomou logar do lado opposto. O almoço correu silencioso e desconsolado; raros monosyllabos, alguns gestos de assentimento ou recusa, tal foi o dispendio da conversa entre os tres parentes. A situação não era commoda nem vulgar. Helena, posto forcejasse por estar senhora de si, não conseguia vencer de todo o natural acanhamento da occasião. Mas, se o não vencia de todo, podiam ver-se atravez delle certos signaes de educação fina. Estacio examinou aos poucos a figura da irmã.
Era uma moça de dezeseis a dezesete annos, delgada sem magreza, estatura um pouco acima de mediana, talhe elegante e attitudes modestas. A face, de um moreno-pecego, tinha a mesma imperceptivel penugem da fructa de que tirava a côr; naquella occasião tingiam-na uns longes côr de rosa, a principio mais rubros, natural effeito do abalo. As linhas puras e severas do rosto parecia que as traçára a arte religiosa. Se os cabellos, castanhos como os olhos, em vez de dispostos em duas grossas tranças, lhe cahissem espalhadamente sôbre os hombros, e se os proprios olhos alçassem as pupillas ao ceu, dissereis um daquelles anjos adolescentes que traziam a Israel as mensagens do Senhor. Não exigiria a arte maior correcção e harmonia de feições, e a sociedade bem podia contentar-se com a polidez de maneiras e a gravidade do aspeto. Uma só cousa pareceu menos aprazivel ao irmão: eram os olhos, ou antes o olhar, cuja expressão de curiosidade sonsa e suspeitosa reserva foi o unico senão que lhe achou, e não era pequeno.
Acabado o almôço, trocadas algumas palavras, poucas e sôltas, Helena retirou-se ao seu quarto, onde durante tres dias passou quasi todas as horas, a ler meia duzia de livros que trouxe comsigo, a escrever cartas, a olhar pasmada para o ar, ou encostada ao peitoril de uma das janellas. Alguma vez desceu a jantar com os olhos vermelhos e a fronte pezarosa, apenas com um sorriso pallido e fugitivo nos labios. Uma creança, subitamente transferida ao collegio, não desfolha mais tristemente as primeiras saudades da casa de seus paes. Mas a aza do tempo leva tudo; e ao cabo de tres dias, ja a physionomia de Helena trazia menos sombrio aspecto. O olhar perdeu a expressão que primeiro lhe achou o irmão, para tornar-se o que era naturalmente, mavioso e repousado. A palavra sahia-lhe mais facil, seguida e numerosa; a familiaridade tomou o lugar do acanhamento.
No quarto dia, acabado o almôço, Estacio encetou uma conversa geral, que não passou de um simples duo, por que D. Ursula contava os fios da toalha ou brincava com as pontas do fichu que trazia ao pescoço. Como falassem da casa, Estacio disse á irmã:
—Ésta casa é tão sua como nossa; faça de conta que nascemos debaixo do mesmo tecto. Minha tia lhe dirá o sentimento que nos anima a seu respeito; não o póde haver mais cordial.
Helena agradeceu com um olhar longo e profundo. E dizendo que a casa e a chacara lhe pareciam bonitas e bem dispostas, pediu a D. Ursula que lh'as fôsse mostrar mais detidamente. A tia fechou o rosto e seccamente respondeu:
—Agora não, menina; tenho por hábito descançar e ler.
—Pois eu lerei para a senhora ouvir, replicou a moça com graça; não é bom cançar os seus olhos; e, além disso, é justo que me acostume a servil-a. Não acha? continuou ella voltando-se para Estacio.
—É nossa tia, respondeu o moço.
—Oh! ainda não é minha tia! interrompeu Helena. Hade sel-o quando me conhecer de todo. Por emquanto somos extranhas uma á outra; mas nenhuma de nós é ma; o coração e a convivencia apertarão de vez os laços que a natureza atou frouxamente.
Éstas palavras foram ditas em tom de graciosa submissão. A voz com que ella as proferiu era clara, doce, melodiosa; melhor do que isso, tinha um mysterioso encanto, a que a propria D. Ursula não pôde resistir.
—Pois deixe que a convivencia faça falar o coração, respondeu a irmã do conselheiro em tom brando. Não aceito o offerecimento da leitura, por que não entendo bem o que os outros me lêm; tenho os olhos mais intelligentes que os ouvidos. Entretanto, se quer ver a casa e a chacara, seu irmão póde conduzi-la.
Estacio declarou-se prompto para acompanhar a irmã. Helena, entretanto, recusou. Irmão embora, era a primeira vez que o via, e ao que parece, a primeira que podia achar-se a sos com um homem que não seu pae. D. Ursula, talvez porque preferisse ficar só algum tempo, disse-lhe seccamente que fôsse. Helena acompanhou o irmão. Percorreram parte da casa, ouvindo a moça as explicações que lhe dava Estacio e inquirindo de tudo com zêlo e curiosidade de dona da casa. Quando chegaram á porta do gabinete do conselheiro, Estacio parou.
—Vamos entrar num logar triste para mim, disse elle.
—Que é?
—O gabinete de meu pae.
—Oh! deixe ver!
Entraram os dous. Tudo estava do mesmo modo que no dia em que o conselheiro fallecêra. Estacio deu algumas indicações relativas ao theor da vida doméstica de seu pae; mostrou-lhe a cadeira em que elle costumava ler, de tarde e de manhã; os retratos de familia, a secretária, as estantes; falou de quanto podia interessal-a. Sobre a mesa, perto da janella, estava ainda o último livro que o conselheiro lêra: eram as Maximas do marquez de Maricá. Helena pegou nelle e imprimiu um beijo na página aberta. Uma lagryma brotou-lhe dos olhos, como pingo do sereno que cahisse da aza da noite, não fria como elle, mas quente de todo o calor de uma alma apaixonada e sensivel; brotou, deslizou-se e foi cahir no papel.
—Coitado! murmurou ella.
Depois sentou-se na mesma cadeira em que o conselheiro costumava dormir alguns minutos depois do jantar, e olhou para fóra. O dia começava a aquecer. O arvoredo dos morros fronteiros estava coberto de flores de quaresma, com suas petalas roxas e tristemente bellas. O expectaculo ia com a situação de ambos. Estacio deixou-se levar ao sabor de suas recordações da meninice. De envolta com ellas, veiu pousar-lhe ao lado a figura de sua mãe; tornou a ve-la, tal qual se lhe fôra dos braços, uma crua noite de Outubro, quando elle contava dezoito annos de edade. A boa senhora morrêra quasi moça,—ainda bella, pelo menos,—daquella belleza sem outono, cuja primavera tem duas estações.
Helena ergueu-se.
—Amava-o muito? perguntou ella,
—Quem o não amaria?
—Tem razão. Era uma alma grande e nobre; ou adorava-o. Reconheceu-me; deu-me familia e futuro; levantou-me aos olhos de todos e aos meus proprios. O resto depende de mim, do juizo que eu tiver,—ou talvez da fortuna.
Ésta ultima palavra cahiu-lhe do coração com um suspiro. Depois de alguns segundos de silêncio, Helena enfiou o braço no do irmão e desceram â chacara. Fôsse influência do logar ou simples mobilidade de seu espirito, Helena tornou-se logo outra do que se revellára no gabinete de seu pae. Jovial, graciosa e travessa, perdêra aquella gravidade quieta e senhora de si com que apparecêra na sala de jantar; fez-se lepida e viva, como as andorinhas que antes, e ainda agora esvoaçavam por meio das árvores e por cima da gramma. A mudança causou certo espanto ao moço; mas elle a explicou de si para si, e em todo o caso não o impressionou mal. Helena pareceu-lhe naquella occasião, mais do que antes, o complemento da familia. O que alli faltava era justamente o gorgeio, a graça, a travessura, um elemento que temperasse a austeridade da casa e lhe désse todas as feições necessarias ao lar doméstico. Helena era esse elemento complementar.
A excursão durou cêrca de meia hora. D. Ursula viu-os chegar, ao cabo desse tempo, familiares e amigos, como se houvessem criado junctos. As sobrancelhas grisalhas da boa senhora contrairam-se e o labio inferior recebeu uma dentada de despeito.
—Titia, disse Estacio jovialmente; minha irmã conhece ja a casa toda e suas dependencias. Resta somente que lhe mostremos o coração.
D. Ursula sorriu,—um sorriso amarello e acanhado, que apagou nos olhos da moça a alegria que os tornava mais lindos. Mas foi breve a ma impressão; Helena caminhou para a tia, e pegando-lhe nas mãos, perguntou com toda a doçura da voz:
—Não quererá mostrar-me o seu?
—Não vale a pena! respondeu D. Ursula com affectada bonhomia; coração de velha é casa arruinada.
—Pois as casas velhas concertam-se, replicou Helena sorrindo.
D. Ursula sorriu tambem; desta vez, porém, com expressão melhor. Ao mesmo tempo, fitou-a; e era a primeira vez que o fazia. O olhar, a principio indifferente, manifestou logo depois a impressão que lhe causava a belleza da moça. D. Ursula retirou os olhos; porventura receiou que o influxo das graças de Helena lhe torcessem o coração, e ella queria ficar independente e inconciliavel.
CAPITULO IV
As primeiras semanas correram sem nenhum successo notavel, mas ainda assim interessantes. Era, por assim dizer, um tempo de espera, de hesitação, de observação reciproca, um tactear de caracteres, em que de uma e de outra parte procuravam conhecer o terreno e tomar posição. O proprio Estacio, não obstante a primeira impressão, recolhera-se a prudente reserva, de que o arrancou aos poucos o procedimento de Helena.
Helena tinha os predicados proprios a captar a confiança e a affeição da familia. Era docil, affavel, intelligente. Não eram estes, comtudo, nem ainda a belleza, os seus dotes por excellencia efficazes. O que a tomava superior e lhe dava probabilidade de triumpho era a arte de accomodar-se ás circumstâncias do momento e a toda a casta de espiritos, arte preciosa, que faz habeis os homens e estimaveis as mulheres. Helena praticava de livros ou de alfinetes, de bailes ou de arranjos de casa, com egual interesse e gôsto, frivola com os frivolos, grave com os que o eram, attenciosa e ouvida, sem entono nem vulgaridade. Havia nella a jovialidade da menina e a compostura da mulher feita, um accôrdo de virtudes domésticas e maneiras elegantes, complexo de cousas na apparencia oppostas, mas não inconciliaveis nem disparatadas entre si.
Além das qualidades naturaes, possuia Helena algumas prendas de sociedade, que a tornavam acceita a todos, e mudaram em parte o theor da vida da familia. Não falo da magnifica voz de contralto, nem da correcção com que sabia usar della, por que ainda então, estando fresca a memoria do conselheiro, não tivera occasião de fazer-se ouvir. Era pianista distincta, sabia desenho, falava correntemente a lingua franceza, um pouco a ingleza e a italiana. Entendia de costura e bordados e toda a sorte de trabalhos feminis. Conversava com graça e lia admiravelmente. Mediante os seus recursos, e muita paciencia, arte e resignação,—não humilde, mas digna,—conseguia polir os asperos, attrahir os indifferentes e domar os hostis.
Pouco havia ganho no espirito de D. Ursula; mas a repulsa desta ja não era tão viva como nos primeiros dias. Estacio cedeu de todo, e era facil; seu coração tendia para ella, mais que nenhum outro. Não cedeu porém sem alguma hesitação e dúvida. A flexibilidade do espirito da irmã afigurou-se-lhe a principio mais calculada que expontanea. Mas foi impressão que passou. Dos proprios escravos não obteve Helena desde logo a sympathia e boa vontade; esses pautavam os sentimentos pelos de D. Ursula. Servos de uma familia, viam com desaffecto e ciume a parenta nova, alli trazida por um acto de generosidade. Mas tambem a esses venceu o tempo. Um só de tantos pareceu vel-a desde princípio com olhos amigos; era um rapaz de 16 annos, chamado Vicente, cria da casa e particularmente estimado do conselheiro. Talvez esta ultima circunstância o ligou desde logo á filha do seu senhor. Despida de interesse, porque a esperança da liberdade, se a podia haver, era precaria e remota, a affeição de Vicente não era menos viva e sincera; faltando-lhe os gozos proprios do affecto,—a familiaridade e o contacto,—-condenado a viver da contemplação e da memoria, a não beijar sequer a mão que o abençoava, limitado e distanciado pelos costumes, pelo respeito e pelos instinctos, Vicente foi, não obstante, um fiel servidor de Helena, seu advogado convicto nos julgamentos da senzala.
Ás pessoas da intimidade da casa acolheram Helena com a mesma hesitação de D. Ursula. Helena sentiu-lhes a polidez fria e parcimoniosa. Longe de abater-se ou vituperar os sentimentos sociaes, explicava-os e tratava de os torcer em seu favor,—tarefa em que se esmerou superando as obstaculos na familia; o resto viria de si mesmo.
Uma pessoa, entre os familiares da casa, não os acompanhou no procedimento reservado e frio; foi o padre-mestre Melchior. Melchior era capellão em casa do conselheiro, que mandara construir alguns annos antes uma excellente capella na chacara, onde muita gente da vizinhança ouvia missa aos domingos. Tinha sessenta annos o padre; era homem de estatura mediana, magro, calvo, brancos os poucos cabellos, e uns olhos não menos sagazes que mansos. De compostura quieta, e grave, austero sem formalismo, sociavel sem mundanidade, tolerante sem fraqueza, era o verdadeiro varão apostolico, homem de sua Egreja e de seu Deos, integro na fe, constante na esperança, ardente na caridade. Conhecêra a familia do conselheiro algum tempo depois do consorcio deste. Seu olhar penetrante descobria a causa da tristeza que minou os ultimos annos da mãe de Estacio; respeitou a tristeza, mas attacou directamente a origem. O conselheiro era homem geralmente razoavel, salvo nas cousas do amor; ouviu o padre, prometteu o que este lhe exigia, mas foi promessa feita na areia; o primeiro vento do coração apagou a escriptura. Entretanto, o conselheiro ouvia-o sinceramente em todas as occasiões graves; e o voto de Melchior pesava em seu espirito. Morando na vizinhança daquella familia, tinha alli o padre todo o seu mundo. Se as obrigações ecclesiasticas não o chamavam a outro lugar, não se arredava elle de Andarahy, sítio de repouso apos trabalhosa mocidade.
Das outras pessoas que frequentavam a casa e residiam no mesmo bairro de Andarahy, mencionaremos ainda o Dr. Mattos, sua mulher, o coronel Macedo e dous filhos.
O Dr. Mattos era um velho advogado que, em compensação da sciencia do direito, que não sabia, possuía noções muito aproveitaveis de meteorologia e botanica, da arte de comer, do voltarete, do gamão e da política. Era impossivel a ninguem queixar-se do calor ou do frio, sem ouvir delle a causa e a natureza de um e outro, e logo a divisão das estações, a differença dos climas, influência destes, as chuvas, os ventos, a neve, as vasantes dos rios e suas enchentes, as marés e a pororoca. Elle fallava com egual abundancia das qualidades therapeuticas de uma herva, da nomenclatura scientifica de uma flor, da estructura de certo vegetal e suas peculiaridades. Alheio ás nobres paixões da política, se abria a boca em tal assumpto era para criticar egualmente de luzias e saquaremas,—os quaes todos lhe pareciam abaixo do paiz. O jogo e a comida achavam-no menos sceptico; e nada lhe avivava tanto a physionomia como um bom gamão depois de um bom jantar. Éstas prendas faziam do Dr. Mattos um conviva interessante nas noites que o não eram, como o loto é o jogo por excellencia nas occasiões em que outro qualquer é impossivel. O Dr. Mattos era o loto da sociedade, com a mesma monotonia dos anexins. Posto soubesse effectivamente alguma cousa dos assumptos que lhe eram mais prezados, não ganhou o peculio que possuia, professando a botanica ou a meteorologia, mas applicando as regras do direito, que ignorou até á morte.
A esposa do Dr. Mattos fôra uma das bellezas do primeiro reinado. Quando as graças physicas se alliam ás do espirito, a belleza póde esvair-se, que ainda lhe fica a alma. D. Leonor era uma rosa fanada, mas conservava o aroma da juventude. Algum tempo se disse que o conselheiro ardêra aos pes da mulher do advogado, sem repulsa desta; mas só era verdade a primeira parte do boato. Nem os principios moraes, nem o temperamento de D. Leonor lhe consentiam outra cousa que não fosse repellir o conselheiro sem o molestar. A arte com que o fez illudiu os malévolos; dahi o sussurro, ja agora esquecido e morto. A reputação dos homens amorosos parece-se muito como juro do dinheiro: alcançado certo capital, elle proprio se multiplica e avulta. O conselheiro desfructou essa vantagem, de maneira que se no outro mundo lhe levassem á collumna dos peccados todos os que lhe attribuiam na terra, receberia elle dobrado castigo do que mereceu.
O coronel Macedo tinha a particularidade da não ser coronel. Era major. Alguns amigos, levados de um espirito de rectificação, começaram a dar-lhe o titulo de coronel, que a princípio recusou, mas que afinal foi compellido a acceitar, não podendo gastar a vida inteira a protestar contra elle. Macedo tinha visto e vivido muito; e, sôbre o peculio da experiencia, possuia imaginação viva, fertil e agradavel. Era bom companheiro, folgazão e communicativo, pensando serio quando era preciso. Tinha dous filhos: um rapaz de vinte annos, que estudava em S. Paulo, e uma moça de vinte e tres, mais prendada que formosa.
Nos primeiros dias de agosto a situação de Helena podia dizer-se consolidada. D. Ursula não cedêra de todo, mas a convivencia ia produzindo seus fructos. Camargo era o unico irreconciliavel; sentia-se atravez de suas maneiras cerimoniosas uma a versão profunda, prestes a converter-se em hostilidade, se fôsse preciso. As demais pessoas, não só domadas, mas até enfeitiçadas, estavam ás boas com a filha do conselheiro. Helena tornara-se o acontecimento do bairro; seus ditos e gestos eram o assumpto da vizinhança e o prazer dos familiares da casa. Por uma natural curiosidade, cada um procurava em suas reminiscencias um fio biographico da moça; mas do inventário retrospectivo ninguem tirava elementos que podessem construir a verdade ou uma só parcella que fôsse. A origem da moça continuava mysteriosa; vantagem grande, porque o obscuro favorecia a lenda, e cada qual podia attribuir o nascimento de Helena a um amor illustre ou romanesco,—hypotheses admissiveis, e em todo o caso agradaveis a ambas as partes.
CAPITULO V
Por esse tempo resolveu Estacio dar um passo decisivo em sua vida. Ligado por amor á filha de Camargo, desde antes da morte do conselheiro, hesitára sempre em pedil-a ao pae, deferindo a resolução para quando fôsse propício o ensejo. A condição não era facil, por que o sentimento que elle nutria em relação a Eugenia tinha alternativas singulares de tibieza e fervor. A causa disso póde crer-se que estava tambem em seu coração; mas principalmente residia nella. N'um dos primeiros dias de Agosto, assentira Estacio de ir solicitar de Eugenia autorisação para fazer officialmente o pedido. Assim disposto, dirigiu-se á casa de Camargo.
Mal o avistou de longe, desceu Eugenia á porta do jardim. O chapellinho de palha, de abas largas, que lhe protegia o rosto dos raios do sol,—eram tres horas da tarde,—tornavam mais bella a figura da moça. Eugenia era uma das mais brilhantes estrêllas entre as menores do ceu fluminense. Agora mesmo, se o leitor, lhe descobrir o perfil, em camarote de theatro, ou se a vir entrar em alguma sala de baile, comprehenderá,—atravez de um quarto de seculo,—que os contemporaneos de sua mocidade lhe tivessem louvado, sem contraste, as graças que então alvoreciam, com o frescor e a pureza das primeiras horas.
Era do pequena estatura; tinha os cabellos de um castanho escuro, e os olhos grandes e azues,—dous pedacinhos do ceu; abertos em rosto alvo o corado, os quaes nem sempre lembravam tão alta origem, pois se eram muita vez quietos e modestos, não poucas os desmaiava tal ou qual expressão de languidez lasciva. Seu corpo, levemente refeito, era naturalmente elegante; mas se a dona sabia vestir-se com luxo, e até com arte, não possuia o dom de alcançar os maximos effeitos com os meios mais simples, dom preciosissimo, que faz as grandes elegantes, os grandes artistas e os grandes poetas.
Estacio contemplou-a namorado sem ousar dizer palavra; a primeira que lhe ia sahir dos labios, era justamente o pedido que o levava alli. Mas Eugenia deteve-lh'a mostrando o anel que sua madrinha, uma fazendeira de Cantagallo, lhe remettêra na vespera. Era uma opala magnifica, a tal ponto que Eugenia dividia os olhos entre o namorado e ella. Ésta simultaneidade esfriou o mancebo. Entraram ambos em casa, onde D. Thomasia os esperava. A mãe de Eugenia sabia combinar o decoro com os desejos de seu coração; não seria obstaculo aos dous namorados, infelizmente a presença de duas visitas veiu destruir o cálculo dos tres. Estacio espreitava uma occasião de pedir a Eugenia a autorisação que desejava; até o jantar não se lhe deparou nenhuma.
Depois do jantar, desceram todos ao jardim. D. Thomasia entreteve uma das visitas; Camargo foi mostrar á outra a sua collecção de flores. Estacio e Eugenia affastaram-se cautellosamente dos dous grupos, a pretexto de não sei que flor aberta na manhã daquelle dia. A flor existia; Eugenia colheu-a e deu a Estacio.
—Não va perdel-a; hade entregal-a a Helena da minha parte. Diga-lhe que estou com muitas saudades.
Estacio collocou a flor na casa do paletó.
—Vai cahir! disse Eugenia. Quer que pregue um alfinete?
Estacio não teve tempo de responder, por que a filha de Camargo, tirando um alfinete do cinto prendeu o pe da flor, gastando muito mais tempo do que o exigia a operação. A moça não era myope; todavia approximou de tal modo a cabeça ao peito do mancebo, que este teve impetos de lhe beijar os cabellos, e seria a primeira vez que seus labios lhe tocassem. Não o deteve o risco de ser visto; mas o simples respeito daquella creatura.
—Prompto! disse ella. Diga a Helena que é a flor mais bonita, do nosso jardim. Sabe que eu gósto muito de sua irmã?
—Acredito.
—Supponho que é minha amiga, hade se-lo com certeza. Oh! eu preciso muito de uma amiga verdadeira!
—Sim?
—Muito! Tenho tantas que não prestam para nada, e só me dão desgostos, como Cecilia... Se soubesse o que ella me fez!
—Que foi?
Eugenia desfiou uma historiazinha de toucador, que omitto em suas particularidades, por não interessar ao nosso caso, bastando saber que a razão capital da divergencia entre as duas amigas fôra uma opinião de Cecilia acerca da escolha de um chapeu.
Estacio não escutou a história com a attenção que a moça desejára; limitou-se a ouvir a voz de Eugenia, que era na verdade angelica. Alguma cousa porém lhe ficou, e quando ella poz termo ás suas queixas:
—O que me parece, observou o sobrinho de D. Ursula, é que não valia a pena brigar por tão pouca cousa...
—Pouca cousa! exclamou Eugenia. Parece-lhe pouco chamar-me caprichosa e de mau gôsto?
—Fez mal se o disse; em todo o caso...
Estacio fez uma pausa e continuou a andar. Eugenia, mollemente recostada em seu braço, esperou que elle continuasse o que ia dizer; mas o silêncio prolongou-se mais do que era natural.
—Em todo o caso? repetiu a moça erguendo para elle os seus olhos limpidos e curiosos.
—Eugenia, disse Estacio, quer saber a verdadeira razão do mau successo de suas affeições? é deixar-se levar mais pelas apparencias que pela realidade; é porque dá menos apreço ás qualidades solidas do coração do que ás frivolas exterioridades da vida. Suas amizades são das que duram a roda de uma valsa, ou, quando muito, a moda de um chapeu; podem satisfazer o capricho de um dia, mas são estereis para as necessidades do coração.
—Jesus! exclamou Eugenia estacando o passo um sermão por tão pouca cousa! Se tivesse algum pedaço de latim era o mesmo que estar ouvindo o padre Melchior.
Estacio não respondeu; contentou-se com erguer os hombros, e os dous continuaram a andar silenciosamente, acanhados e descontentes um do outro. A differença é que o enfado de Eugenia manifestava-se por um movimento nervoso de impaciencia e despeito.
—Se o offendi, perdoe-me, disse ella—com um leve tom de ironia.
—Oh! exclamou elle apertando-lhe a mão, como quem só esperava um pretexto para reatar a conversa interrompida.
—Talvez offendesse, continuou a moça; eu sei dizer as cousas como ellas me vem á boca, e parece que não são as mais acertadas...
—Não digo que o sejam sempre, replicou Estacio sorrindo. Agora, pelo menos, foi um pouco precipitada em zombar do que eu lhe dizia, que era justo e de boa intenção. Francamente, é para lastimar uma amizade, ganha entre duas quadrilhas e perdida por causa de um chapeu? Não vale a pena esperdiçar affectos, Eugenia; sentirá mais tarde que essa moeda do coração não se deve nunca reduzir a trocos miudos nem despender em quinquilharias.
Eugenia ouviu calada as palavras do moço; não as entendeu muito. Sabia-lhes a significação; não lhes viu porém nexo nem sentido; sobretudo não lhes sentiu a applicação. O que a irritou mais foi o tom pedagogo de Estacio; estouvada e voluntariosa, não admittia que ninguem lhe falasse sem submissão ou a reprehendesse por actos seus, que ella julgava legitimos e naturaes. A insistencia do moço foi o ponto de partida a um desses arrufos, não raros entre amantes, e communs entre aquelles dous. Os de Eugenia não eram simples silêncios; seu espirito rebelde e livre não adormecia nesses momentos de enfado; pelo contrário irritava-se e traduzia a irritação por meio de pirraças e accessos de mau humor. Estacio viu murmurar, crescer e desabar a tempestade. A moça deixava-lhe o braço e tornava a apoiar-se nelle, articulava algumas phrases sôltas, pedia a morte, batia no chão com o pesinho mimoso que por acaso esmagou uma pobre herva, alheia ás divergencias moraes daquellas duas creaturas. Ora parava ou desandava o caminho; mas logo se dirigia para o moço, com as palpebras trémulas de colera e um remoque nos labios; comprazia-se em torcer a ponta da manga até dilaceral-a, ou morder a ponta do dedo até imprimir-lhe o signal de seus dentes, côr de perola. Estacio, affeito a essas explosões, não lhes sabia remedio proprio, que tanto o silêncio como a réplica eram alli materias inflamaveis. Contudo, o silêncio era o menor dos dous perigos. Estacio limitava-se a ouvir calado, olhando á sorrelfa para a filha de Camargo, cujo rosto parecia mais bello, quando a raiva o coloria. Uma terceira pessoa era a unica esperança de pacificação; Estacio alongou o olhar pelo jardim em busca desse deus ex-machina. Appareceu elle enfim sob a forma de um Carlos Barreto,—estudante de medicina, que cultivava simultaneamente a pathologia e a comedia, mas promettia ser melhor Esculapio que Aristophanes. Mal os viu de longe, apertou o passo para o grupo.
—Vem gente, Eugenia,—disse Estacio; não demos expectaculos e... perdõe-me.
Eugenia ergueu os hombros, procurou com os olhos o intruso, que dahi a pouco estenda-lhes a mão.
O ceu não ficou logo claro; mas o vento amainou, e era de esperar que o sol se desfizesse enfim do seu capote de nuvens. Carlos Barreto deu a Eugenia a agradavel notícia de que trouxera a seu pae um convite para a soirée que daria no sabbado proximo uma de suas parentas. A perspectiva da soirée foi uma brisa salutar que dispersou o resto das nuvens que entenebreciam o ceu; Eugenia sorriu. J'ai ri; me voilà desarmée, como na comedia de Piron. Vinte minutos depois, não havia em Eugenia vestigio da scena do jardim. Mas a ideia do casamento estava adiada.
O effeito foi agro e doce para Estacio. Estimando ver dissipada a colera, doia-lhe que a causa fôsse, não a propria virtude do amor, mas um motivo comparativamente futil. A resolução de a consultar sôbre o pedido de casamento esvaiu-se-lhe como de outras vezes. Sahiu dalli á noite, antes do cha, aborrecido e azedo. Mas esse estado não durou muito; dez minutos depois de deixar a casa de Camargo sentiu alguma cousa semelhante á dentada de um remorso. O amor de Estacio tinha a particularidade de crescer e affirmar-se na ausencia e diminuir logo que estava ao pe da moça. De longe, via-a atravez da nevoa luminosa da imaginação; ao pe era difficil que Eugenia conservasse os dotes que elle lhe emprestava. Dahi, um dissentimento provavel e um remorso certo. Agora que a deixava, ia elle irritado contra si mesmo; achava-se ridiculo e cruel; chegava a adorar toda a graciosa futilidade de Eugenia; concedia, alguma cousa á edade, á educação, aos costumes, á ignorancia da vida.
Nesse estado de espirito entrou em casa, onde o esperava um incidente novo.
CAPITULO VI
Chegando a casa, achou Estacio um remedio a seu mau humor. Era uma carta de Luiz Mendonça, que dous annos antes partira para Europa, d'onde agora regressava. Escrevia-lhe de Pernambuco, annunciando-lhe que dentro de poucas semanas estaria no Rio de Janeiro. Mendonça fora o seu melhor companheiro de aula. Havia entre elles certos contrastes de genio. O de Mendonça em mais folgazão e activo. Quando este partiu para Europa quiz que o antigo collega o acompanhasse, e o proprio conselheiro opinára nesse sentido. Estacio recusou pelo receio de que, sendo differente o espirito de um e outro, a viagem tivesse de obrigar ao sacrificio de habitos e preferencias de um delles.
A noticia da volta de Mendonça encheu de contentamento o sobrinho de D. Ursula. D. Ursula estava então na sala de costura, relendo algumas páginas do seu Saint-Clair, encostada a uma meza. Do outro lado desta, ficava Helena, a concluir uma obra de crochet.
—Titia, disse elle, dou-lhe uma novidade agradavel para mim.
—Que é?
—O Mendonça chegou a Pernambuco: está aqui dentro de pouco tempo.
—O Mendonça?
—Luiz Mendonça.
—O que foi para a Europa, sei. Ha quanto tempo?
—Dous annos,
—Dous annos! Parece que foi hontem.
—Não lhe leio a carta que me escreveu por ser muito longa. Diz-me que devo ir tambem á Europa, quanto antes. Querem ir?
—Eu? disse D. Ursula marcando a página do livro com os oculos de prata que até então conservára sobre o nariz. Não são folias para gente velha. Daqui para a cova.
—A cova! exclamou Helena. Está ainda tão forte! Quem sabe se não me ha de enterrar primeiro?
—Menina! exclamou D. Ursula em tom de reprehensão.
Helena sorriu de alegria e agradecimento; era a primeira palavra de verdadeira sympathia que ouvia a D. Ursula. Bem o comprehendeu ésta; e talvez a mortificou aquella expontaneidade do coração. Mas era tarde. Não podia recolher a palavra, não podia sequer explical-a.
—Que tal virá o teu amigo? perguntou ella ao sobrinho. Era bom rapaz antes de ir; um pouco tonto, apenas.
—Ha de vir o mesmo, respondeu Estacio; ou ainda melhor. Melhor de certo, porque dous annos mais modificam o homem.
Estacio fez aqui um panegyrico do amigo, intercallado com observações da tia, e ouvido silenciosamente pela irmã. Vieram chamar para o cha. D. Ursula largou definitivamente o seu romance, e Helena guardou o crochet na cestinha de costura.
—Pensa que gastei toda a tarde em fazer crochet? perguntou ella ao irmão, caminhando para a sala do jantar.
—Não?
—Não, senhor; fiz um furto.
—Um furto!
—Fui procurar um livro na sua estante.
—E que livro foi?
—Um romance.
—Paulo e Virginia?
—Manon Lescaut.
—Oh! exclamou Estacio. Esse livro.
—Exquisito, não é? Quando percebi que o ora, fechei-o e la o puz outra vez.
—Não é livro para moças solteiras...
—Não creio mesmo que seja para moças casadas, replicou Helena rindo e sentando-se á mesa. Em todo o caso, li apenas algumas páginas. Depois abri um livro de geometria... e confesso que tive um desejo.
—Imagino! interrompeu D. Ursula.
—O desejo de aprender a montar a cavallo, concluiu Helena.
Estacio olhou espantado para a irmã. Aquella mistura de geometria e equitação não lhe pareceu sufficientemente clara e explicavel. Helena soltou uma risadinha alegre de menina que applaude a sua propria travessura.
—Eu lhe explico, disse ella; abri o livro, todo alastrado de riscos que não entendi. Ouvi porém um tropel de cavallos e cheguei á janella. Eram tres cavalleiros, dous homens e uma senhora. Oh! com que garbo montava a senhora! Imaginem uma moça de vinte e cinco annos, alta, esbelta, um busto de fada, apertado no corpinho de amazona, e a longa cauda do vestido cahida a um lado. O cavallo era fogoso; mas a mão e o chicotinho da cavalleira quebravam-lhe os impetos. Tive pena, confesso, de não saber montar a cavallo...
—Quer aprender commigo?
—Titia consente?
D. Ursula levantou os hombros com o ar mais indifferente que pôde achar no seu repertorio. Helena não esperou mais.
—Escolha voce o dia.
—Amanhã?
—Amanhã.
Estacio costumava dar um passeio a cavallo quasi todas as manhãs. O do dia seguinte foi dispensado; começariam as licções de Helena. Antes disso, porém, escreveu Estacio á filha de Camargo uma carta rescendente a ternura e affecto. Pedia-lhe desculpa do que se passára na vespera; jurava-lhe amor eterno; cousas todas que lho dissera mais de uma vez, com o mesmo estylo, se não com as mesmas palavras. A carta dissipou-lhe a ultima sombra de remorso. Antes que ella chegasse ao seu destino, reconciliara-se elle comsigo mesmo. O portador sahiu para o Rio Comprido, e elle desceu ao terreiro que ficava nos fundos da casa, ao pe da qual estava situada a cavallariça. Naquelle lado da casa corria a varanda antiga, onde a familia costumava ás vezes tomar cafe ou conversar nas noites de luar, que alli penetrava pelas largas janellas. Do meio da varanda descia uma escada de pedra que ia ter ao terreiro.
Ja alli estava Helena. D. Ursula enprestara-lhe um vestido de amazona, com que algumas vezes montára, antes da morte do irmão. O vestido ficava-lhe mal; era folgado de mais para o talhe delgado da moça. Mas a elegancia natural fazia esquecer o accessorio das roupas.
—Prompta! exclamou Helena apenas viu o irmão assomar no alto da escada.
—Oh! isso não vai assim! respondeu Estacio. Não supponha que hade montar ja hoje como a moça que hontem viu passar na estrada. Vença primeiramente o medo.
—Não sei o que é medo, interrompeu ella com ingenuidade.
—Sim? Não a suppunha valente. Pois eu sei o que elle é.
—O medo? O medo é um preconceito dos nervos. E um preconceito desfaz-se; basta a simples reflexão. Em pequena educaram-me com almas do outro mundo. Até a edade de dez annos era incapaz de penetrar n'uma sala escura. Um dia perguntei a mim mesma se era possivel que uma pessoa morta voltasse á terra. Fazer a pergunta e dar-lhe resposta era a mesma cousa. Lavei o meu espirito de semelhante tolice e hoje era capaz de entrar, de noite, n'um cemiterio. E dahi talvez não: os corpos que alli dormem tem direito de não ouvir mais um só rumor de vida.
Estacio chegára ao último degrau da escada. As derradeiras palavras ouviu-as elle com os olhos fitos na irmã e encostado ao poial do pedra.
—Quem lhe ensinou essas ideias? perguntou elle.
—Não são ideias, são sentimentos. Não se aprendem; trazem-se no coração. Senhor geometra, continuou brandindo caprichosamente o chicote,—veja se transcreve em algum compendio éstas figuras de minha invenção, e ande cavalgar commigo.
Com um movimento rapido travou da cauda do vestido, e caminhou para diante. Estacio acompanhou-a, a passo lento, como solicitado por dois sentimentos differentes: a affeição que o prendia á irmã, e a extranha impressão que ella lhe fazia sentir. Quando chegou á porta da cavallariça, viu aparelhados dous animaes, o cavalo de seus passeios, e a egua que a tia cavalgava uma ou outra vez.
—Que é isso? disse elle. Por ora vamos a algumas indicações somente, aqui no terreiro.
—Justamente! respondeu a moça.
Um escravo que alli estava trouxe um tamborete, Estacio approximou-se de Helena, que afagava com a mão alva e fina as crinas da egua.
—Como se chama? perguntou ella.
—Moema.
—Moema!! Ora espere... é um nome indigena, não é?
Estacio fez um signal affirmativo. Helena tinha um pe sobre o tamborete; repetiu ainda o nome da egua, como quem reflectia sobre elle, sem que o irmão percebesse que não era aquillo mais do que um disfarce. De repente; quando elle menos esperava, Helena deu um salto, e sentou-se no selim. A egua alteou o collo, como vaidosa do peso que recebêra. Estacio olhou para a irmã, admirado da agilidade e correcção do movimento, e sem saber ainda o que pensasse daquillo. Helena inclinou-se para elle.
—Fui bem? perguntou sorrindo.
—Não podia ir melhor; mas o que me admira...
As patas de Moema interromperam a reflexão do moço. A cavalleira brandira o chicotinho, e o animal sahíra a trote largo pelo terreiro fora. Estacio, no primeiro momento, deu um passo e estendeu a mão como para tomar a redea ao animal; mas a segurança da moça logo lhe deixou ver que ella não fazia alli os primeiros ensaios. Ficou parado, de longe, a admirar-lhe o garbo e a destreza. No fim de vinte passos, Helena torceu a redea e regressou ao ponto donde sahíra.
—Que tal? disse ella logo que estacou. Terei geito para a equitação?
—Creança!
—Que é isso? Ja aprendeu? interveio D. Ursula do alto da varanda, onde acabava de chegar.
—Estava caçoando comnosco, disse Estacio. Ve como sabe montar?
—Ella sabe tudo, murmurou D. Ursula entre dentes.
Estacio montou no seu cavallo. Consultou o relogio; eram sete horas e meia.
—Permitte que o acompanhe? perguntou Helena.
—Com uma condição, disse elle; é que hade ter juizo. Não quero temeridades; a egua é apparentemente mansa; convem não brincar com ella. Ja vejo que voce é capaz de muitas cousas mais...
—Prometto ir pacificamente.
Helena cumprimentou a tia com um gesto gracioso, deu de redea ao animal e seguiu ao lado do irmão. Transposto o portão, seguiram os dous para o lado de cima, a passo lento. O sol estava encoberto e a manhã fresca. Helena cavalgava perfeitamente; de quando em quando a agua, instigada por ella, adiantava-se alguns passos ao cavallo; Estacio reprehendia a irmã, a seu pesar, porque ao mesmo tempo que temia alguma imprudencia, gostava de lhe ver o airoso do busto e a firme serenidade com que ella conduzia o animal.
—Não me dirá voce, perguntou elle, porque motivo, sabendo montar, pedia-me hontem licções?
—A razão é clara, disse ella; foi uma simples travessura, um capricho... ou antes um cálculo.
—Um cálculo?
—Profundo, hediondo, diabolico, continuou a moça sorrindo. Eu queria passear algumas vezes a cavallo; não era possivel sahir só, e nesse caso...
—Bastava pedir-me que a acompanhasse.
—Não bastava. Havia um meio de lhe dar mais gosto era sahir commigo; era fingir que não sabia montar. A ideia momentanea de sua superioridade neste assumpto, era bastante para lhe inspirar uma dedicação decidida...
Estacio sorriu do cálculo; mas foi um sorriso passageiro, porque dentro de poucos segundos, seu rosto ficou serio, e elle perguntou era tom sêcco:
—Ja lhe negamos algum prazer que desejasse?
Helena estremeceu e ficou egualmente séria.
—Não! murmurou; minha dívida não tem limites.
Ésta palavra sahiu-lhe do coração. As palpebras cahiram-lhe e um veu de tristeza lhe apagou o rosto. Estacio arrependeu-se do que dissera. Sua sensibilidade apurada comprehendeu a irmã; viu que, por mais innocentes que suas palavras fossem, podiam ser tomadas á ma parte, e em tal caso o menos que se lhe podia arguir era a descortezia. Estacio timbrava em ser o mais polido dos homens. Inclinou-se para ella e rompeu o silêncio.
—Voce ficou triste, disse Estacio; mas eu desculpo-a.
—Desculpa-me? perguntou a moça erguendo para o irmão seus bellos olhos humidos.
—Desculpo a injúria que me fez, suppondo-me grosseiro.
Apertaram-se as mãos, e o passeio continuou nas melhores disposições do mundo. Helena deu livre curso á imaginação e ao pensamento; suas falas exprimiam, ora a sensibilidade romanesca, ora a reflexão da experiencia prematura, e iam direitas á alma do irmão, que se comprazia em ver nella a mulher como elle queria que fosse, uma Graça pensadora, uma sisudez amavel. De quando em quando faziam parar os animaes para contemplar o caminho percorrido, ou discretear acerca de um accidente do terreno. Uma vez, aconteceu que iam fallando das vantagens da riqueza.
—Valem muito os bens da fortuna, dizia Estacio; elles dão a maior felicidade da terra, que é a independencia absoluta. Nunca experimentei a necessidade; mas imagino que o peor que há nella não é a privação de alguns apetites ou desejos, de sua natureza transitorios, mas sim essa escravidão moral que submette o homem aos outros homens. A riqueza compra até o tempo, que é o mais precioso e fugitivo bem que nos coube. Ve aquelle preto que alli está? Para fazer o mesmo trajecto que nós, terá de gastar, a pe, mais uma hora ou quasi.
O preto de quem Estacio falára, estava sentado no capim, descascando uma laranja, emquanto a primeira das duas mulas que conduzia, olhava philosophicamente para ele. O preto não attendia aos dous cavalleiros que se aproximavam. Ia esburgando a fructa e deitando os pedaços de casca ao focinho do animal, que fazia apenas um movimento de cabeça, com o que parecia alegra-lo infinitamente. Era homem de cêrca de quarenta annos, ao parecer, escravo. As roupas eram rafadas; o chapeu que lhe cobria a cabeça, tinha ja uma côr inverossimil. No entanto, o rosto exprimia a plenitude da satisfação; em todo o caso, a serenidade do espirito.
Helena relanceou os olhos ao quadro que o irmão lhe mostrára. Ao passarem por elle, o preto tirou respeitosamente o chapeu e continuou na mesma posição e occupação que d'antes.
—Tem razão, disse Helena: aquelle homem gastará muito mais tempo do que nós em caminhar. Mas não é isto uma simples questão de ponto de vista? Em rigor, o tempo corre do mesmo modo, quer o experdicemos, quer o economisemos. O essencial não é fazer muita cousa no menor prazo; é fazer muita cousa aprazivel ou util. Para aquelle preto o mais aprazivel é, talvez, esse mesmo caminhar a pe, que lhe alongará a jornada, e lhe fara esquecer o captiveiro, se é captivo. É uma hora de pura liberdade.
Estacio soltou uma risada.
—Voce devia ter nascido...
—Homem?
—Homem e advogado. Sabe defender com habilidade as causas mais melindrosas. Nem estou longe de crer que o proprio captiveiro lhe parecerá uma bemaventurança, se eu disser que é o peor estado do homem.
—Sim? retorquiu Helena sorrindo; estou quasi a fazer-lhe a vontade. Não faço; prefiro admirar a cabeça de Moema. Veja, veja como se vai faceirando. Ésta não maldiz o captiveiro; pelo contrário, parece que elle lhe dá glória. Pudera! Se não a tivessemos captiva, receberia ella o gosto de me sustentar e conduzir? Mas não é só faceirice, é tambem impaciencia.
—De que?
—Impaciencia de correr por essa estrada da Tijuca fóra, e beber o vento da manhã, espreguiçando os musculos, e sentindo-se alguma cousa senhora e livre. Mas que queres tu, minha pobre egua? continuou a moça inclinando a cabeça até as orelhas do animal; vai aqui ao pe de nós um homem muito mau e medroso, que é ao mesmo tempo meu irmão e meu inimigo...
—Helena! interrompeu Estacio; voce é muito capaz de desparar a correr.
—E se fôsse?
—Eu deixava-a ir, e nunca a trazia em meus passeios. Voce monta bem; mas não desejo que faça temeridades. Nós somos responsaveis, não só por sua felicidade, mas tambem por sua vida.
Helena refletiu um instante.
—Quer dizer, perguntou ella, que se eu fôsse victima de um desastre não faltaria quem o imputasse á minha familia?
—Justo.
—Singular gente! Não há de ser tanto assim... Pois se eu me lembrasse—é uma supposição—se eu me lembrasse de deixar a vida por aborrecimento ou capricho, seria voce accusado de me haver propinado o veneno? Não ha melhor modo de me fazer evitar a morte.
—Deixemos conversas lugubres, e voltemos para casa, interrompeu Estacio.
—Ja!
—Raras vezes passo d'aqui; e não pense voce que é perto.
—Parece-me que ainda agora sahimos de casa. Vamos uns cinco minutos adeante? Sim?
Estacio consultou o relogio.
—Cinco minutos justos, disse elle.
—Até aquella casa que alli está com uma bandeira azul.
Havia effectivamente, cêrca de quatro minutos adiante, á esquerda da estrada, uma casa de insignificante apparencia, sôbre cujo telhado fluctuava uma bandeira azul presa a uma vara. Estacio conhecia a casa, mas era a primeira vez que via a bandeira. Helena pediu-lhe a explicação daquelle apendice.
—Va la saber, disse o irmão rindo.
Helena deu de redea á egua e adeantou-se alguns passos. Estacio apertou o animal e alcançou-a.
—Não va fazer tolices! disse elle em tom de branda reprehensão. Aquillo é fantasia do morador, ou algum signal de passaros, ou qualquer outra cousa que não vale a pena de uma travessura. Contemplemos antes a manhã, que está deliciosa.
Helena não attendeu á proposta do irmão e foi andando, a passo lento, na direcção da casa. A casa era velha, abrindo por uma porta para o alpendre antigo que lhe corria na frente. As collunnas deste estavam ja lascadas em muitas partes, apparecendo, aqui e alli, a ossada de tijolo. A porta estava meio aberta. Havia absoluta solidão, apparente ao menos. Quando elles lhe passaram pela frente, a porta abriu-se, mas se alguem espreitava por ella, ficou sumido na sombra, porque ninguem de fóra o viu.
Cêrca de cinco braças adeante, Estacio resolveu definitivamente regressar, e Helena não oppoz objecção nenhuma. Torceram a redea aos animais e desceram.
—Não poderei falar á bandeira? perguntou a moça. Deixe-me ao menos dizer-lhe adeus.
Tinha ja tirado da algibeira o seu fino lenço de cambraia; agitou-o na direcção da casa. Quiz o acaso que a bandeira, até então quieta, se movesse no sopro de uma aragem que passou.
—Ve como ella me respondeu? Não se póde ser mais cortez! exclamou Helena, rindo.
Estacio riu tambem da lembrança da irmã, e ambos desceram, a passo lento, como haviam subido. Helena vinha taciturna e pensativa. Seus olhos, cravados nas orelhas de Moema, não pareciam ver sequer o caminho que o animal seguia, Estacio, para arrancal-a ao silêncio, fez-lhe uma observação acerca de um incidente do caminho. Helena respondeu distrahidamente.
—Que tem voce? perguntou elle.
—Nada, disse ella; ia... ia embebida naquella toada. Não ouve?
Ouvia-se effectivamente, a algumas braças adeante, uma cantiga da roça, meia alegre, meia plangente. O cantor appareceu, logo que os cavalleiros dobraram a curva que a estrada fazia naquelle logar. Era o preto, que pouco tinham visto sentado no chão.
—Que lhe dizia eu? observou a irmã de Estacio. Alli vai o infeliz de ha pouco. Uma laranja chupada no capim e trez ou quatro quadras, é o bastante para lhe encurtar o caminho. Creia que vai feliz, sem precisar comprar o tempo. Nós poderiamos dizer o mesmo?
—Porque não?
A moça recolheu-se ao silêncio.
—Helena, isso que voce acaba de dizer. Vamos, estamos sos; confesse alguma tristeza que tenha.
—Nenhuma, respondeu a moca. Peço-lhe, entretanto, uma cousa.
—Diga.
—Peço-lhe que me comunique todas as más impressões que tiver a meu respeito. Explicarei umas, procurarei desvanecer-lhe outras, emendando-me. Sobretudo, peço-lhe que escreva em seu espirito esta verdade: é que sou uma pobre alma lançada n'um turbilhão.
Estacio ia pedir explicação mais desenvolvida daquellas últimas palavras; mas Helena, como se esperasse a pergunta, brandira o chicote, e deitou a egua a correr. Estacio fez o mesmo ao cavallo; dahi a alguns minutos entravam na chacara, elle aturdido e curioso, ella com a face vermelha e a bater-lhe violentamente o coração.
CAPITULO VII
Apearam-se os dous no terreiro e dirigiram-se para a escada que ia ter á varanda. Pizando o primeira degrau, disse Estacio:
—Helena, explique-me suas palavras de ha pouco.
—Quaes?
E como Estacio levantasse os hombros, com ar de despeito, continuou Helena:
—Perdõe-me; sua pergunta não tem nem podia ter outra resposta mais do que a simples recusa. Não lhe direi mais nada. Nunca se devem fazer meias confissões; mas neste caso a confissão inteira seria imprudencia maior. Se se tratasse de factos, creia que a ninguem melhor podia confia-los do que a voce; mas por que motivo irei perturbar-lhe o espirito com a narração de meus sentimentos, se eu propria não chego a entender-me?
Estacio não insistiu. Subiram a escada, atravessaram a varanda e entraram na sala de jantar, onde acharam D. Ursula dando as ordens daquelle dia, a dous escravos. Estacio entrou pensativo; Helena mudou totalmente de ar e maneiras. Alguns segundos antes era sincera a melancholia que lhe ensombrava o rosto. Agora regressara a jovialidade de costume. Dissera-se que a alma da moça era uma especie de comediante que recebêra da natureza ou da fortuna, ou talvez de ambas, um papel que a obrigava a mudar continuamente de vestuario. D. Ursula viu-a entrar risonha e ir a ella dar-lhe os costumados—bons dias—que era sempre um beijo,—ou antes dous,—um na mão, outro na face.
—Demorei-me muito? perguntou ella voltando rapidamente o corpo, de maneira a ver o relogio que ficava do outro lado da sala. Nove horas! Que passeio, Sr. meu irmão!
Estacio olhava para ella silencioso e não lhe respondeu. Seu olhar não era de censura, mas de curiosidade, pena e admiração. Os dous foram logo depois mudar de toilette, e o almôço reuniu a familia. D. Ursula propoz, durante elle, algumas mudanças na disposição da chacara, mudanças que foram longamente discutidas com o sobrinho, e aceitas afinal por este. O dia estava sombrio e fresco; D. Ursula desceu á chacara com Estacio. As alterações foram ainda estudadas e combinadas no proprio terreno, com assistencia do feitor. Logo que acabou a deliberação e que o projecto de D. Ursula foi definitivamente assentado, Estacio reteve-a e lhe disse:
—Preciso falar-lhe um instante.
—Tambem eu.
—Quaes são os seus sentimentos actuaes em relação a Helena? Oh! não precisa franzir a testa nem fazer esse gesto de aborrecimento. Tudo são meras apparencias. Não creio que seja absolutamente amiga della; mas não póde negar que a antipathia desapareceu ou diminuiu muito.
—Diminuiu, talvez.
—E com razão. Pensa que tambem eu não tive repugnancias depois que ella aqui entrou? Tive-as; mas se não houvessem desaparecido,—desapareceriam hoje de manhã.
—Como?
Estacio referiu á tia a scena do capitulo anterior e as palavras que lhe dissera Helena. D. Ursula sorriu ironicamente.
—Não a impressiona isto? perguntou Estacio.
—Não, respondeu D. Ursula com decisão; a phrase de Helena é achada em algum dos muitos livros que ella le. Helena não é tola; quer prender-nos por todos os lados, até pela compaixão. Não te nego que começo a gostar della; é dedicada, affectuosa, diligente; tem maneiras finas e algumas prendas de sociedade. Além disso, é naturalmente sympatica. Ja vou gostando della; mas é um gostar sem fogo nem paixão, em que entra boa dose de costume e necessidade. A presença de outra mulher nesta casa é conveniente, porque eu estou cançada. Helena preenche essa lacuna. Se alguma cousa, entretanto, a podia prejudicar nas nossas relações é esse dito.
Estacio tomou calorosamente a defesa da irmã.
—O que eu lhe contei, disse elle, foram apenas as palavras. Não pude nem poderei reproduzir a expressão sincera com que ella as proferiu e a profunda tristeza que havia em seus olhos. Não lhe nego que, ao vel-a mudar tão depressa e entrar alegre na sala, senti tal ou qual abalo de dúvida; mas passou logo. Sua natureza tem esse raro poder de concentrar a amargura no coração; tambem a dor tem suas hypocrisias...
—Mas que dor? que amargura? interrompeu: D. Ursula. A dor de ser legitimada? a amargura de uma herança?
Estacio protestou calorosamente contra aquelle caminho que a tia dava a suas ideias; emfim pediu-lhe que interrogasse com cautella a irmã.
—Um homem, concluiu elle, é menos apto para obter taes confissões; uma senhora, respeitavel e parenta, está mais no caso de lhe captar a confiança e obter tudo. Quer incumbir-se desse delicado papel?
—Pedes muito, respondeu D. Ursula. Verei se te posso dar metade disso. Era só o que tinhas para dizer?
—Só.
—Uma creancice! Eu tenho cousa mais séria. O Dr. Camargo escreveu-me: trata-se...
—Não precisa dizer mais nada, interrompeu Estacio; la vem elle.
Camargo apparecêra effectivamente a vinte passos de distância.
—Doutor,—disse D. Ursula, logo que este se approximou delles, chega um pouco fóra de proposito. Eu mal tive tempo de assustar meu sobrinho, que ainda não sabe o que o senhor lhe quer.
—Saberá agora; é só bastante que a senhora lhe diga que me approva.
—Completamente,
—Trata-se...—disse Estacio.
—De uma conspiração; todos conspiramos em seu beneficio.
D. Ursula retirou-se para casa; os dous ficaram sos. Uma vez sos, Camargo pousou a mão no hombro de Estacio, fitou-o paternalmente, emfim perguntou-lhe se queria ser deputado. Estacio não pôde reprimir um gesto de sorpreza.
—Era isso? disse elle.
—Creio que não se trata de um supplício. Uma cadeira na camara! Não é a mesma cousa que um quarto no aljube.
—Mas a que proposito...
—Ésta ideia apoquentava-me ha algumas semanas. Doia-me ve-lo vegetar os seus mais bellos annos n'uma obscuridade relativa. A política é a melhor carreira para um homem em suas condições; tem instrucção, caracter, riqueza; póde subir a posições invejaveis. Vendo isso, determinei-me a mettel-o na Cadeia... Velha. Fala-se em dissolução. Para facilitar-lhe o successo, entendi-me com duas influências dominantes, o negocio afigurasse-me em bom caminho.
Estacio ouviu com desagrado as notícias que lhe dava o médico.
—Mas doutor, disse elle depois de curto silêncio, houve de sua parte alguma precipitação. Pelo menos, de via consultar-me. Do modo por que arranjou as cousas, quasi me acho desobrigado de lhe agradecer a intenção. Quanto a acceitar, não acceito.
Camargo não perdeu a tramontana. Havia nelle a tenacidade do dogue e a tactica da serpente. Deixou passar por cima da cabeça a primeira onda de desagrado, surgiu fóra e insistiu tranquillamente:
—Vejamos as cousas com os oculos do senso-commum. Em primeiro logar, não creio que tenha outros projectos na cabeça.
—Talvez.
—Duvido que sejam mais vantajosos do que este. A sciencia é ardua e seus resultados fazem menos ruido. Não tem vocação commercial nem industrial. Medita alguma ponte-pensil entre a Côrte e Nictheroy, uma estrada até Matto-Grosso ou uma linha de navegação para a China? É duvidoso. Seu futuro tem por ora dous limites unicos, alguns estudos de sciencia e os alugueis das casas que possue. Ora, a eleição nem lhe tira os alugueis nem obsta a que continue seus estudos; a eleição completa-o dando-lhe a vida pública, que lhe falta. A unica objecção seria a falta de opinião política; mas ésta objecção não o póde ser. Hade ter, sem dúvida, meditado alguma vez nas necessidades públicas, e...
—Supponha,—é mera hypothese,—que tenho alguns compromissos com a opposição.
—Nesse caso, dir-lhe-ei que ainda assim deve entrar na camara—embora pela porta dos fundos. Se tem ideias especiaes e partidarias, a primeira necessidade é obter o meio de as expor e defender. O partido que lhe der a mão,—se não fôr o seu,—ficará, consolado com a ideia de ter ajudado a a um adversario talentoso o honesto. Mas a verdade é que não escolheu ainda entre os dous partidos; não tem opiniões feitas. Que importa? Grande numero de jovens politicos seguem, não uma opinião examinada, ponderada e escolhida, mas a do círculo de suas affeições, a que seus paes ou amigos immediatos honraram e defenderam, a que as circumstâncias lhe impõem. Dahi vem algumas legítimas conversões posteriores. Tarde ou cedo o temperamento domina as circumstâncias da origem, e do botão luzia ou saquarema nasce um magnifico lyrio saquarema ou luzia. Demais, a política é sciencia prática; e eu desconfio de theorias que só são theorias. Entre primeiro na camara; a experiencia e o estudo dos homens e das cousas lhe designarão a que lado se deve inclinar.
Estacio ouviu attento éstas vozes com que a serpente lhe apontava para a árvore da sciencia do bem e do mal. Menos curioso que Eva, entrou a discutir philosophicamente com o reptil.
—Entra-se na política,—disse elle,—por vocação legítima, ambição nobre, interesse, vaidade, e até por simples distração. Nenhum desses motivos me impelle a dobrar o cabo Tormentorio.
—Da Boa Esperança,—emendou Camargo rindo;—não supprima tres seculos de navegação.
Estacio riu-se tambem. Depois falou ao médico de sua indole e ambições. Não negava que tivesse ambições; mas nem só as havia políticas nem todas eram da mesma estatura. Os espiritos, disse elle, nascem condores ou andorinhas, ou ainda outras especies intermedias. A uns é necessario o horisonte vasto, a elevada montanha, de cujo cimo batem as azas e sobem a encarar o sol; outros contentam-se com algumas longas braças de espaço e um telhado em que vão esconder o ninho. Estes eram os obscuros, e, na opinião delle, os mais felizes. Não seduzem as vistas, não subjugam os homens, não os menciona a história em suas páginas luminosas ou sombrias; o vão do telhado em que abrigaram a prole, a árvore em que pousaram, são as testemunhas unicas, e morredoras da felicidade de alguns dias. Quando a morte os colhe, vão elles pousar no regaço commum da eternidade, onde dormem o mesmo perpétuo somno, tanta o capitão que subiu ao summo estagio por uma escala de mortos, como o cabreiro que o viu passar uma vez e o esqueceu duas horas depois. Suas ambições não eram tão infimas como seriam as do cabreiro; eram as do proprietario do campo que o capitão atravessasse. Um bom peculio, a familia, alguns livros e amigos,—não iam além seus mais arrojados sonhos.
Um sorriso de lástima foi a primeira resposta do médico.
—Meu caro Estacio,—disse, elle depois,—esse trocadilho de andorinhas e cabreiros é a cousa mais extraordinaria que eu esperava ouvir a um mathematico. Saiba que detesto egualmente a philosophia da obscuridade e a rhetorica dos poetas. Sobretudo gósto que me respondam em prosa quando falo em prosa.
—Parece-lhe que poetei? perguntou Estacio rindo.
—Despropositamente! Ora, eu falo de cousas sérias; e convem não confundir alhos, que são a metade prática da vida, com bugalhos, que são a parte ideológica e vã.
—Eu serei ideologo,
—Não tem direito de o ser.
—Pois bem, deixe-me com as minhas mathematicas, as minhas flôres, as minhas espingardas.
—Não! Ha de intercalar tudo isso com um pouco de política.
Puxando-o familiarmente pela gola do paleto, Camargo fel-o sentar ao pe de si, no banco que alli estava mais proximo. Depois falou. O novo discurso foi o mais longo que proferiu em todos os seus dias. Nenhuma das vantagens da vida pública deixou de ser apontada com uma complacencia de tentador; todas as glórias, pompas e satisfações da política, e não só as reaes, mas as ficticias ou duvidosas, foram inventariadas, pintadas, douradas e illuminadas pelo médico. Sua palavra revellou um poder de evocação, uma vehemencia, uma energia, que ninguem era capaz de suppor-lhe. O taciturno desabrochou tagarella. Para falar tanto e com tal fôrça era preciso que o animasse um grande sentimento ou um grande interesse.
Estacio, lisonjeado com a affeição que elle lhe mostrava, não teve ensejo de fazer essa reflexão. Nem se animou a repetir a recusa; adoptou o alvitre de deferir a resposta para outra occasião.
—Ja lhe disse o que sinto a tal respeito. Contudo, estou prompto a reflectir, e a consultar o padre Melchior e Helena.
O nome de Helena produziu em Camargo uma careta interior. Exteriormente não passou o effeito de um sorriso sardonico e dissimulado. Interveiu uma pitada de rapé, que o médico inseriu lentamente, depois de a extrahir lentamente de uma boceta de tartaruga, presente do conselheiro Valle.
—Helena! disse elle com alguma hesitação. Que vem fazer sua irmã neste negocio?
—É um voto,—redarguiu Estacio; e menos leve do que lhe parece. Ha nella muita reflexão escondida, uma razão clara e forte, em boa harmonia com as suas outras qualidades feminis.
Entre as sobrancelhas de Camargo projectou-se uma longa ruga, e foi toda a expressão de seu espanto e desgôsto. A resposta de Estacio revellara-lhe uma situação nova na familia: o voto de Helena, consultivo agora, podia vir a ser preponderante. Ésta solução, que porventura faria estremecer de alegria os ossos do conselheiro, não a previra o médico. Limitou-se a notal-a de si para si; e, terminando subitamente a conversa, disse:
—Consulte as pessoas de seu agrado. Quem não estiver com a minha opinião, não é seu amigo. Em todo o caso, ninguem lhe poderá affirmar que não é a amizade, a longa amizade.
Estacio cortou-lhe a palavra, apertando-lhe affectuosamente a mão. Tinham-se levantado. Era quasi meio dia; Camargo despediu-se alli mesmo; ia ver dous doentes no caminho da Tijuca. O filho do conselheiro atravessou sosinho a chacara; ia pensativo, e aborrecido. A política, na sua opinião, era uma noiva importuna; mas se todos conspirassem a favor della, não sería elle obrigado a desposal-a? A ésta reflexão respondeu a voz do padre Melchior, do alto de uma janella:
—Venha ca, senhor deputado; quando teremos o seu primeiro discurso?
CAPITULO VIII
D. Ursula tinha ja confiado ao velho capellão a proposta de Camargo. Consultado por Estacio, respondeu este que sua opinião era absolutamente inutil.
—Consulte suas fôrças e a responsabilidade do cargo, e escolha, concluiu o padre.
—Ja escolhi, disse Estacio; pedia seu conselho para apoiar melhor a minha propria decisão. Não é esse o destino de todos os conselhos? Decidi que não acceito a candidatura. A vida política é turbulenta de mais para o meu espirito. Estou prompto para a acção, mas não hade ser exterior. Dado o meu temperamento, que iria eu buscar á camara, além de algumas prerogativas e um papel accessorio? Eu só me meteria na política, se pudesse officiar; mas ser apenas sachristão...
—Entre o officiante e o sachristão, observou Melchior, está o prégador, que é cargo nobre e influente.
—Mas o thema do sermão, padre-mestre?—retorquiu Estacio rindo; falta-me o thema.
D. Ursula, a quem seduziam exclusivamente a posição e o rumor público em favor do sobrinho, viu naquellas razões um pretexto ou uma puerilidade. Defendeu, como pôde, a causa de Camargo; instou com o sobrinho para que reflectisse maduramente, antes de qualquer resposta definitiva. Estacio prometteu como promettêra ao médico, por simples condescendencia; mas sobretudo para pôr termo ao assumpto e ir saber a causa do sorriso quasi imperceptivel que viu roçar os labios de Helena. A moça erguera-se e dirigira-se para uma das janellas; Estacio foi até alli.
—Adivinhei pelo seu sorriso,—disse elle, que tudo isto lhe pareço pueril, e que eu faço bem em não acceitar o que se me offerece.
Helena olhou um pouco espantada para elle; mas respondeu com tranquillidade:
—Pelo contrário, penso que deve acceitar. Além de haver consentimento de minha tia, parece ser um grande desejo do pai de Eugenia.
Era a primeira vez que Helena alludia ao amor de Estacio, e fazia-o por modo encoberto e obliquo. Estacio escapou dessa vez á regra de todos os corações amantes: resvalou pela allusão e discutiu gravemente o assumpto da candidatura. Era pesado de mais para cabeça feminina; Helena intercalou uma observação sobre dous passarinhos que bailavam no ar, e Estacio aceitou a diversão, deixando em paz os eleitores.
Durante dous dias, não sahiu elle de casa. Tendo recebido alguns livros novos, gastou uma parte do tempo em os folhear, ler alguma página, collocal-os nas estantes, alterando a ordem e a disposição dos anteriores, com a prolixidade e o amor do bibliophilo. Helena ajudava-o nesse trabalho,—um pouco parecido com o de Penelope,—por que a ordem estabelecida ao meio dia era às vezes alterada às duas horas, e restaurada na seguinte manhã. Estacio, entretanto, não ficava todo entregue aos livros; admirava a solicitude da irmã, a ordem e o cuidado com que ella o auxiliava. Helena parecia não andar; seu vulto resvalava silenciosamente, de um lado para outro, obedecendo a uma indicação do irmão, ou pondo em experiencia uma ideia sua. Estacio parava às vezes fatigado; ella continuava imperturbavelmente o serviço. Se elle lhe fazia alguma observação, a moça respondia com um movimento de hombros ou um sorriso, e proseguia. Então Estacio segurava-lhe nos pulsos e exclamava rindo:
—Socega, borboleta!
Helena parava, mas eram só poucos minutos; volvia logo ao trabalho com a mesma serena agitação. Era assim que as horas se passavam na intimidade mais doce, e que a reciproca affeição ia excluindo toda a preocupação alheia; era assim que a influência de Helena assumia as proporções de voto preponderante.
No terceiro dia D. Thomasia e Eugenia foram jantar a Andarahy. Eugenia estava nesse dia mais sisuda e docil que nunca; dissera-se que trazia a alma tão nova como o vestido, e menos enfeitada que elle. Estacio sentiu-se satisfeito; o ideal reconciliava-se com o real. Poderam falar sosinhos mais de uma vez; todas as pessoas da casa pareciam conspiradas para lhes deixar a solidão. Foi ella quem recordou a proposta política do pai, da qual soubera casualmente, ouvindo a narração que este fizera a D. Thomasia. O desejo de Eugenia era pela affirmativa; e Estacio, receioso de despertar os caprichos adormecidos da moça, frouxamente resistiu, e consentiu ainda mais frouxamente em reconsiderar o assumpto.
—Deputado! exclamava Eugenia com os olhos no ceu.
Estacio acompanhou Eugenia e D. Thomasia na carruagem que as levou ao Rio Comprido. O dia fôra mais ou menos alegre; a viagem foi divertida e palreira como um regresso de romaria. Os cavallos mostravam-se tão lepidos como as pessoas que iam no carro, e encurtaram alguns minutos o caminho, com desgôsto de Eugenia.
Voltando a Andarahy, Estacio trazia a alma pura de todas as más impressões, que lhe deixavam usualmente as visitas á casa de Camargo. Nenhum dissentimento houvera naquelle dia. Eugenia parecia modificada. Em casa esperava-o porém uma desagradavel noticia: a tia sentira-se incommodada pouco depois que elle sahíra e recolhera-se ao quarto. O caso affligiu-o; mas não tardou a apparecer Helena, que o tranquilisou, dizendo-lhe que D. Ursula tinha apenas uma forte dor de cabeça, ja diminuida com o emprêgo de um remedio cazeiro.
No dia seguinte de manhã, informado de que a tia dormia socegadamente, Estacio abriu uma das janellas do quarto e relanceou os olhos pela chacara. A alguns passos de distância, entre duas larangeiras, viu Helena a ler attentamente um papel. Era uma carta, longa de todas as suas quatro laudas escriptas. Seria alguma mensagem amorosa?
Ésta ideia molestou-o singularmente. Affastou-se da janella, conchegou as cortinas, e pela fresta procurou observar a irmã. Helena estava de pe, no mesmo logar, e percorria rapidamente as linhas, até o final da ultima página. Alli chegando, deu dous passos, tornou a parar volveu ao princípio da carta, para a ler de novo, não ja depressa, mas repousadamente. Estacio sentiu-se movido de imperiosa curiosidade, á qual vinha misturar-se uma sombra de despeito e ciume. A ideia de que Helena podia repartir seu coração com outra pessoa desconsolava-o ao mesmo tempo que o irritava. A razão de semelhante exclusivismo não a explicou elle, nem tentou investigal-a; sentiu-lhe somente os effeitos, e ficou alli sem saber que faria. Duas vezes sahiu da janella para ir ter com a irmã, mas recuou de ambas as vezes, reflectindo que a curiosidade pareceria impolidez, se não era talvez, tyrania. Ao cabo de alguns minutos de hesitação, sahiu do quarto e dirigiu-se á chacara.
Quando alli chegou, Helena passeava lentamente com os olhos no chão. Estacio parou deante della.
—Ja fora de casa! exclamou em tom de gracejo.
Helena tinha a carta na mão esquerda; instinctivamente a amarrotou como para escondel-a melhor. Estacio, a quem não escapou o gesto, perguntou-lhe rindo se era alguma nota falsa.
—Nota verdadeira, disse ella alisando tranquillamente o papel, e dobrando-o conforme recebêra; é uma carta.
—Segredos de moça?
—Quer lel-a? perguntou Helena apresentando-lh'a.
Estacio fez-se vermelho e recusou com um gesto. Helena dobrou lentamente o papel e guardou-o na algibeira do vestido. A innocencia não teria mais puro rosto; a hypocrisia não encontraria mais impassivel máscara. Estacio contemplava-a a um tempo envergonhado e suspeitoso; a carta fazia-lhe cocegas; seu olhar ambicionava ser como o da Providencia que penetra nos mais intimos refolhos do coração. Vieram, entretanto, dizer a Helena que D. Ursula lhe pedia fôsse ter com ella. Estacio ficou só. Uma vez só, entregou-se a um inquerito mental sôbre a procedencia da mysteriosa missiva. Um indicio havia de que podia conter alguma cousa secreta; era o gesto com que ella a escondeu. Mas não podia ser de alguma antiga companheira do collegio, que lhe confiava segredos seus? Estacio abraçou com alvorôço ésta hypothese. Depois, occorreu-lhe que, ainda provindo de uma amiga, a carta podia tratar de algum idyllio de collegio, em que Helena fosse protagonista, idyllio vivo ou morto, página de esperança ou de saudade. Ainda nesse caso, que tinha elle com isso?
Fazendo ésta ultima reflexão, Estacio sacudiu do espirito o assumpto e seguiu a examinar as novas obras da chacara, entre as quaes figurava um vasto tanque. Ja alli estavam os operarios; ia começar o trabalho do dia. Estacio viu a obra feita e deu várias indicações novas. Algumas eram contrárias ao plano assentado; como lhe fizessem tal observação, Estacio rectificou-as. Depois admirou-se de não ver um vaso, que alias dous dias antes mandara remover; emfim recommendou a rega de uma planta, ainda humida da agua que o feitor lhe deitára nessa manhã.
D. Ursula não estava de todo boa, mas pôde almoçar á mesa commum. O sobrinho appareceu aborrecido; a sobrinha triste; o dialogo foi mastigado como o almôço. No fim deste, recebeu Estacio uma carta de Eugenia. Era uma tagarelice meia frivola, meia sentimental, mistura de risos e suspiros, sem objecto definido, a não ser pedir-lhe que escrevesse, se não pudesse ir vel-a.
Acabava elle de ler a carta, quando Helena lhe appareceu á porta do gabinete. Não a escondeu; teve um pensamento singular: mostral-a à irmã, na esperança de que ésta, pagando-lhe com egual confiança, lhe mostrasse a sua,—ideia que revellava o seu nenhum conhecimento do espirito das mulheres, porquanto só a indiscrição masculina era capaz de cahir em semelhante laço. Helena percorreu com os olhos a carta de Eugenia e esteve algum tempo silenciosa.