MACHADO DE ASSIS (continued 3)
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Quando Mendonça chegou a casa, nessa noite, ia mais que nunca cheio de commoção e nadando em plena glória. A cidade, apenas ahi entrou, pareceu-lhe transformada por uma vara magica; elle viu-a povoada de seres phantasticos e rutilantes que iam e vinham do ceu á terra e da terra ao ceu. A côr deste era unica entre todas as da palheta do divino scenographo. As estrêllas, mais vivas que nunca, pareciam saudal-o de cima com ventarolas electricas, ou fazerem-lhe figas de inveja e despeito. Azas invisiveis lhe roçavam os cabellos, e umas vozes sem boca lhe falavam ao coração. Seus pes como que não pousavam no solo; elle ia extatico e sem consciencia de si. Era aquelle o galhofeiro de ha pouco? O amor fizera esse milagre mais.
Um dos theatros estava aberto; comprou um bilhete e entrou. Não era desejo de divertir-se ou interessar-se pelo drama, que alias expirava de parceria com o protagonista; era necessidade de ver gente, de ater-se á realidade das cousas, tão chimerico se lhe affigurava tudo o que se passára desde manhã.
Um expectador,—o filho do coronel-major,—viu-o a alguma distância e foi sentar-se ao pe delle.
—O senhor que tem melhor vista,—disse o academico—desengane-me; aquella moça que alli está, naquelle camarote, não é a andorinha viajante?
—A andorinha viajante? repetiu Mendonça olhando para elle; que quer dizer esse nome?
—É a alcunha da irmã de Estacio. Sera ella que está alli, com uma senhora edosa?
—Mas porque lhe chamam assim?
—Eu sei! Naturalmente porque sae á rua todos os dias. Na verdade, é um passear! Mal amanhece, la vae trepada no cavallinho, com o pagem atraz...
—Quem lhe poz essa alcunha?
—As alcunhas são como as mofinas; não tem autor.
Cahíra o panno; Mendonça despediu-se alli mesmo e sahíu. Na rua repetiu mentalmente as palavras do joven academico. Ao cabo de alguns minutos sorriu; comprehendêra que, apenas suspeitada a sua felicidade, ja a inveja lhe deitava na taça uma gota de veneno. Ergueu os hombros, resoluto a supportar tranquillo essa livida companheira do successo.
Guiou para casa, onde entrou pouco depois. Helena volvêra a occupal-o exclusivamente. So, na alcova de solteiro, inventariou os acontecimentos daquelle dia e achou-se morgado da fortuna. Como precisava conversar com alguem, escreveu uma longa carta a Estacio, narrando-lhe toda a história do seu coração, suas esperanças e a prompta realisação dellas. A alma derramou-se no papel impetuosa e exhuberante. O estylo era irregular, a phrase incorrecta; mas havia alli a eloquencia e a sinceridade da paixão. Quando fechou a carta, anteviu o prazer que ia dar ao amigo, logo que ella lhe chegasse ás mãos, levando a notícia de que as vinculos atados na aula iam apertar se na familia. «Vem quanto antes, dizia elle ao terminar a missiva; tenho ancia de abraçar-te e ouvir de ti mesmo o consentimento que me fara o mais feliz dos homens!»
Quando esta carta chegou a Cantagallo, Estacio voltava de uma pequena excursão, que fizera com o pae de Eugenia. Conheceu a letra do sobrescripto; abriu negligentemente a carta; leu-a com assombro. Á impressão foi tão visivel, que Camargo lhe perguntou de que se tratava.
—Recebo uma noticia que me obriga a partir amanhã, disse elle.
—Negocio grave?
—Grave.
—Ainda assim, nesta occasião.
—Que tem? D. Clara póde ainda resistir á morte alguns dias; e posto que a minha ausencia não prejudique nada do facto a que alludo, comtudo é mister que me informe e providencie.
—Algum negocio relativo ao inventário?—aventurou Camargo, que nada conhecia mais grave que o dinheiro.
—Justamente, respondeu machinalmente Estacio.
Camargo consolou a filha do desgôsto que lhe causava a partida do noivo; falou-lhe a linguagem da razão; disse que havia assumptos praticos, a que os sentimentos tinham de ceder o passo alguma vez. No dia seguinte de manhã partiu Estacio na direcção da Corte, não sem prometter que voltaria, se a molestia ou qualquer outro motivo obrigasse a familia a demorar-se em Cantagallo.
Ninguem esperava por elle em Andarahy. Entrando na chacara,—era de noite,—viu Estacio que a sala que ficava no angulo esquerdo da frente da casa estava allumiada e tinha gente. A sala ficava ao rez do chão, e as janellas estavam abertas. Elle parou a pouca distância, e pôde distinguir o coronel-major e o Dr. Mattos a jogarem o gamão; a mulher do advogado falava a D. Ursula e Melchior, em um dos lados; do outro estava assentada Helena, tendo Mendonça deante de si.
Estacio deu volta aos fundos da chacara, e entrou pela varanda. Os escravos que o virara chegar deram signal da novidade, com vozes de alegria, que alias não chegaram até ás pessoas da sala. Estas só souberam do recem-chegado quando este assomou á porta. A satisfação de o ver foi geral e sincera em todos. Estacio distribuiu abraços e apertos de mão. Melchior, que se deixára ficar de lado, foi o último com quem elle falou.
—O Dr. Camargo veiu? perguntou D. Ursula ao sobrinho logo depois que este comprimentára a todos.
—Não, respondeu Estacio, a doente não póde escapar, mas ainda a deixei com vida.
—Imagino a impaciencia dos herdeiros.
Ésta observação philosophica do coronel-major não teve nenhum effeito. Melchior, que a reprovára anteriormente, fez mudar a conversa, informando-se da familia de Camargo. Estacio deu todas as notícias que podiam interessar; depois falou de alguns incidentes da viagem; afinal obteve licença para ir mudar de toilette.
Mendonça acompanhou o amigo, alcançando-o ainda na escada. Subiram junctos e junctos entraram no quarto.
—Agora que estamos sos, perguntou Mendonça, houve por la alguma cousa?
—Nada.
—Tanto melhor!
Um escravo entrou no quarto, afim de servir a Estacio; Mendonça, ancioso por lhe falar de Helena, contentou-se com trocar algumas vagas indicações.
—Recebeste a minha carta? disse elle.
—Recebi.
—Não esperavas por ella, aposto?
—Não.
—Como eu não esperava escrevel-a. Estás aborrecido, continuou elle depois de um silêncio.
—Estou cançado.
—Naturalmente, assentiu Mendonça abrindo um livro que achou sobre a mesa e tornando-o a fechar.
O silêncio prolongou-se alguns minutos, durante os quaes Mendonça tornou a abrir o livro, examinou uma espingarda de caça, preparou um cigarro e fumou. O escravo servia o senhor com a pontualidade de quem lhe conhecia os costumes. Estacio continuava mortalmente silencioso; Mendonça falou algumas vezes, sobre cousas indifferentes, e o tempo não correu, andou com a lentidão que lhe é natural quando trata com impacientes. Logo que Estacio se deu por pro rapto, e o escravo sahiu, Mendonça voltou directamente ao assumpto que o preoccupava.
—Estava ancioso por ver-te, disse elle. Não nos é possivel falar agora: não temos tempo. Mas quero dar-te um abraço, ao menos, um abraço de agradecimento pela felicidade...
—Parece que só esperavas a minha ausencia?
—Creio que não. Ja antes de seguires, começava a sentir alguma cousa nova, que vim a descobrir ser paixão violenta.
—Helena ama-te?
—Com egual amor, não creio; mas aceita-me; tem-me algum affecto.
—Tratarei de consultal-a.
Mendonça não pôde continuar, por que Estacio descia a escada ao dar-lhe a ultima resposta. Mendonça desceu tambem. Na sala estavam ainda as mesmas pessoas. Perto de uma janella conversava Helena com o padre. O cha foi logo servido; e a conversa tornou-se geral, mas sem grande animação. Melchior falou menos que todos.
Nem por isso foi o primeiro que sahiu; foi o último. Na chacara, dirigindo-se ao portão, ergueu os olhos ao firmamento, não para ver a lua e as estrêllas, mas para subir a região mais alta. O que disse ninguem o soube; mas o anjo das rogativas humanas por ventura colheu em seu regaço os pensamentos do ancião e os levou aos pes do eterno e casto amor.
CAPITULO XVIII
—Helena, disse Estacio no dia seguinte, logo que pôde falar a sos á irmã,—sabes porque vim mais depressa? Foi por tua causa. O Mendonça escreveu-me dizendo haver alcançado de ti uma promessa de casamento.
—É verdade.
—É verdade?
—Até o ponto em que a minha vontade tem um limite, que é a sua. Por mim só nada posso decidir; mas não creio que voce se opponha de nenhum modo. Não é certo que deseja a minha felicidade?
Estavam sentados em um banco de pau, defronte do grande tanque. Estacio ficou algum tempo a olhar para a agua.
—Não entendo, disse elle enfim.
—Porque?
—Mais de uma vez me confessaste não sei que paixão violenta, paixão que parecia conter a tua vida toda. Que, sem embargo de um amor unico e forte, uma mulher despose um homem que não é o preferido de seu coração, é caso não vulgar e muita vez justificavel. Mas que este casamento seja para ella a felicidade, confesso que não o poderei entender nunca.
—Recusa então o seu consentimento?
—Não recuso; desejo comprehender.
—Nada mais simples, retorquiu a moça.
—Ah!
—Falei-lhe de um amor forte, é certo, não extincto naquelle tempo, mas totalmente sem esperança. Que moça não tem dessas phantasias uma vez ao menos? A phantasia passou. Ou eu não devo casar nunca, ou posso desposar um homem digno, que me ame. Não casar, foi algum tempo o meu desejo; não o é hoje, desde que voce, titia e o padre Melchior ambicionam ver-me casada e feliz. Para obter a felicidade, além do casamento, escolhi pessoa que me parece capaz de dar a paz doméstica e os melhores affectos de seu coração.
—De maneira que sacrificas-te a um desejo nosso?
—Quando fôsse sacrificio, fal-o-hia de boa cara; mas não é.
—Não se trata do um sacrificio repugnante e odioso; mas cumpre examinar o que perdes. Dizes que a phantasia passou; não creio. Helena, não creio que ella passasse. Tu amas de certo; amas violentamente alguem; amas sem esperança nem futuro; isto é, levas para casa do teu marido um coração que te não pertence, um sentimento intruso e inimigo...
Helena quiz interrompel-o.
—Ouve, continuou Estacio. Esse sentimento, se vier a extinguir-se, e se fôr substituido pela affeição que creares a teu marido, não te fara desventurosa; mas suppõe que não morre esse amor, qual será a tua situação?
—Tudo isso é um castello no ar,—disse Helena sorrindo; eu amei, não amo; ou amo somente a meu futuro marido.
Estacio abanou a cabeça com ar de incredulidade. Seus olhos pousaram no rosto placido da irmã, como tentando arrancar-lhe uma confissão silenciosa. Os della, firmes e tranquillos, crusavam o olhar com os delle. Estacio conhecia ja o dominio que a moça exercia sôbre si mesma; sua tranquillidade não o convenceu. Assim o pensava, assim o disse—sem rebuço.
—Por que razão negaria eu a verdade? retorquiu Helena.
Estacio ergueu os hombros.
—Suppondo que voce tenha razão, tornou ella; não deverei casar nunca?
—Não digo isso; mas ha dous caminhos para a felicidade, além de Mendonça.
—Não os vejo.
—Esse amor mysterioso será realmente sem esperança? Nada ha definitivo no mundo, nem o infortunio nem a prosperidade. O que a tua imaginação suppõe estar perdido, acha-se apenas transviado ou occulto...
—Adivinho o segundo caminho, atalhou Helena; não casando agora, posso vir a amar um dia, mais do que a Mendonça, algum homem tão digno como elle.
—Parece-te absurdo isso?
—Não, mas é uma loteria; perco um bem certo, por outro duvidoso. O jogador não faz cálculo differente. Essa felicidade póde não vir; eu contento-me com a que me cabe agora. Mendonça ama-me devéras; senti-o desde algum tempo. O padre Melchior abriu-me os olhos; aceito o destino que os dous me offerecem. Ésta é a razão e a realidade; o mais é illusão e phantasia.
Em quanto ella falava, Estacio, que tirára o chapeu de Chile, occupava-se em fazer circular na copa a fita larga que o cingia. Houve entre ambos grande silêncio. Pela beira do tanque seguia uma longa carreira de formigas, conduzindo as mais dellas trechos de folhas verdes. Com um galho sêcco, Estacio distrahia-se em perturbar a marcha silenciosa e laboriosa dos pobres animaes. Fugiam todas, umas para o lado da terra, outras para o lado da agua, era quanto as restantes apressavam a jornada na direcção do domicilio. Helena arrancou-lhe o galho da mão; Estacio pareceu accordar de largas reflexões; ergueu-se, deu alguns passos e voltou a ella.
—Helena,—declarou elle,—não creio nada do que voce me diz; voce sacrifica-se sem necessidade e sem glória. Não consinto; é meu dever oppor-me a semelhante cousa...
Helena ergueu-se tambem.
—Mendonça começa a ser o fructo prohibido, observou ella sorrindo; é o meio seguro de o fazer amado.
A moça affastou-se na direcção da casa. Estacio via-a desaparecer por entre as árvores, e ficou algum tempo entre o banco e o tanque. As formigas, dispersas alguns minutos antes, tinham agora entrado no primeiro caminho, com a mesma ordem anterior. Viu-as o moço, e comparou-as a suas ideias, tambem necessitadas de que um galho, invisivel as não dispersasse e confundisse. No meio de suas reflexões lembrou-lhe o padre; Estacio atravessou a chacara, sahiu á rua e dirigiu-se á casa de Melchior.
Melchior habitava uma casinha, situada no centro de um jardim diminuto, a algumas braças da residencia de Estacio. Tinha duas salas o predio, janellas por todos os lados, uma porta na frente e outra nos fundos. A da frente abria entre duas janellas de venezianas. A sala de visitas era ao mesmo tempo gabinete de estudo e de trabalho. Simples era a mobilia, nenhuns adornos, uma estante de jacaranda, com livros grossos in-quarto e in-folio; uma secretária, duas cadeiras de repouso, e pouco mais.
Na occasião em que Estacio alli entrou, Melchior passeava de um para outro lado, com um livro aberto nas mãos, algum Tertuliano ou Agostinho, ou qualquer outro da mesma estatura, por que o padre amava contemplar os grandes espiritos do passado, quando não encarava os mysterios do futuro. Naquelle corpo mediano havia uma aguia captiva. Entre as quatro paredes da casa, limitada a vista pelos arbustos e as flores do jardim, Melchior olvidava o tempo e eliminava o espaço, vivendo a vida retrospectiva ou prophetica, doce e mysteriosa volupia das almas solitarias. Melchior era um solitario; sem embargo das relações sociaes, que elle cultivava, amava sobretudo estar separado dos homens. Nessas horas, que eram a maior parte do tempo, lia ou meditava, esquecido ou extranho a todas as cousas do seu seculo.
Naquella occasião lia. Vendo assomar á porta o vulto de Estacio, Melchior fechou o rosto; contudo, recebeu-o affavelmente.
—Vim interrompel-o, disse Estacio; mas era preciso.
Melchior depoz o livro sôbre a mesa redonda que havia no meio da sala, marcando a lauda com uma telha estampa. Depois sentaram-se ao pe de uma das janellas lateraes. Então não se atreveu a dizer logo o motivo que o levara alli; mas de sua propria hesitação, deduziu Melchior qual era elle.
—Era preciso? repetiu o padre.
—Trata-se de Helena. Sei que é nosso amigo; confio em seu conselho e discrição. Como deseja a felicidade da minha familia, buscou facilitar o casamento de Helena e Mendonça...
—Contando com a sim approvação, explicou o padre.
—Hesito em dal-a.
—Por que?
Estacio explicou que Helena não tinha inclinação ao noivo que se lhe propunha, ao que Melchior respondeu referindo singellamente a verdade.
—É certo que o não ama ardentemente; concluiu elle, mas aceita-o, aprecia-o, está a meio caminho da felicidade que lhe devemos dar.
—Ha uma difficuldade, padre-mestre; é que ella ama a outro.
Melchior empallideceu; seu olhar escrutador, como o de um juiz, cravou-se immovel e afiado no rosto de Estacio. A fronte severa do moço não se alterou, nem seus olhos baixaram a terra.
—Ama a outro, continuou elle; paixão violenta, mas sem esperança, e tão real qual mysteriosa. Uma ou duas vezes alludiu a ella; mas nada mais lhe pude arrancar. Agora mesmo, quando lhe falei a tal respeito, desviou dahi o sentido e a conversação. Nada mais sei; sei porém que ama, e casar com outro em taes circumstâncias, dá dous inconvenientes egualmente graves: priva-se da possibilidade de uma união feliz com o homem que interiormente elegeu, e leva para casa do marido um sentimento de pezar e de remorso. Parece-lhe isso toleravel?
—Não ha remorso não ha pezar, onde não ha esperança, redarguiu o padre. Helena aceita o Mendonça por expontanea vontade; e conheço-a tanto que não acho ja possivel que ella recuse.
—Salvo o meu consentimento.
—É claro; mas por que o não daria?
—Porque não desanimo de descobrir a pessoa a quem Helena entregou seu coração. Talvez ella ache impossivel aquillo que é simplesmente difficil. Demais, não esqueçamos que Helena mal tem dezesete annos.
—Valem por vinte e cinco.
—Pode ser; mas convem não aceitar de coração leve uma condescendencia ou um capricho, ou qualquer outro motivo occulto que a inspira nesta resolução.
—Que motivo seria?
—Eu sei! Talvez a suspeita de que estimassemos vel-a affastar-se de casa.
—Não a calumnie; Helena tem perfeita sciencia e consciencia dos affectos que a rodeam e da estima em que é tida. Suas objecções não valem nada deante da declaração que ella propria fez. Não compliquemos uma situação simples e definida.
Melchior proferiu éstas palavras com voz branda, mas em tom firme; Estacio não se animou a responder logo. Voltou porém ao primeiro argumento; depois aventurou uma objecção nova.
—Mendonça é bom coração, disse elle; mas não possue as qualidades que, em meu entender, devem distinguir o marido de Helena. Nunca exercerá, sôbre ella a influência que deve ter um marido. Entre os dois inverte-se a pyramide. Mas isto, ao menos, se destruia uma das condições do casamento, podia conservar a felicidade doméstica. O perigo maior é outro; é vir elle a perder a estima da mulher. Nesse caso que lhe dariamos nós a ella? Um casamento apparente e um divorcio real.
Não olhava pura elle o padre, mas para fóra, com uns olhos dolorosos e o gesto impaciente. Quando elle acabou, fitou-o com resolução; disse-lhe que se tratava de casar Helena, não com um marido especial, mas com o que ella propria escolhêra de sua vontade livre; casamento que cumpria fazer sem demora. Era certo que, como chefe de familia, Estacio podia oppor-se ao casamento ou marcar-lhe condições; mas nem convinha isso ao interesse de Helena nem ao proprio interesse da familia.
Estacio ergueu-se quando o padre acabou; percorreu a sala, calado e pensativo. No fim de alguns segundos, o padre foi a elle.
—Va contar tudo a sua tia, disse; approve sua irmã; casal-os-hei a todos no mesmo dia.
—Pois bem, disse Estacio como concluindo um raciocinio interior; consinto em que Helena se case; procuremos outro marido. Mendonça. não; hade ser outro. Vou casar tambem; receberei todas as semanas; algum rapaz apparecerá que a mereça e de quem ella venha a gostar seriamente... é a minha ultima resolução.
CAPITULO XIX
No momento em que Estacio proferia éstas palavras, transpunha Mendonça a porta do jardim do capellão. Preoccupado com a frieza de Estacio, lembrara-lhe expor a Melchior suas impressões e pedir-lhe conselho, Melchior ia responder ao sobrinho de D. Ursula, quando ouviu rumor de passos na areia do jardim.
—Ahi vem o noivo, disse elle.
Estacio deu dous passos para pegar no chapeu; mas reconsiderou e foi sentar-se ao pe da mesa redonda. Havia alli um exemplar das Escripturas. Abriu-as ao acaso; a página acertou ser um capítulo dos Proverbios; seus olhos cahiram neste versiculo: «Quem quer abrir mão de seu amigo, busca-lhe as occasiões; elle será coberto de opprobrio.» Envergonhado, voltou a folha. Mendonça, entrára na sala. Não contava com Estacio, mas estimou vel-o alli.
—Venha, disse Melchior; tratavamos justamente seu casamento.
Estacio lançou ao padre um olhar de exprobação. O padre não o viu; olhava para Mendonça, que immediatamente lhe respondeu:
—Não venho ca para outra cousa. Uma vez que a fortuna o fez nosso confidente, desejo constituil-o meu conselheiro e director.
—Antes de tudo sou advogado de sua causa, disse Melchior: estava expondo agora as vantagens della.
Mendonça olhou fixamente para o amigo, e, depois de curta pausa:
—Rejeitas ou aceitas o noivo? perguntou elle.
Posto entre a espada e a parede, Estacio não soube logo que respondesse; ficou a olhar para a lauda aberta, receioso de encontrar a vista dos dous. O silêncio era peor que a resposta; e nem o caso nem as pessoas permittiam tão grande pausa. Estacio fechou do golpe o livro e ergueu-se.
—Discutia somente as vantagens do casamento, disse elle.
—E qual é a tua opinião?
—Minha opinião é que Helena está ainda muito menina. Mas não é só essa, nem é a principal; o uso em todo o caso é a favor do casamento. A principal razão é o teu proprio crédito.
—Meu crédito?
—Helena póde vir a amar-te como lhe mereces: mas a verdade é que não sente ainda hoje egual paixão á tua; foi o padre-mestre que m'o disse. Estima-te, é certo; mas a estima é flor da razão; e eu creio que a flor do sentimento é muito mais propria no canteiro do matrimonio.
—Ha muita flor nesse ramalhete de rhetorica, interrompeu benevolamente o padre. Falemos linguagem singella e nua. Não creia litteralmente o que lhe diz este philosopho, proseguiu elle voltando-se para Mendonça; elle ama-os e quer vel-os felizes; é o proprio zêlo quem lhe faz falar assim. N'uma palavra; deseja que o senhor a conquiste depois de campanha formal...
Mendonça respondeu ao capellão com um sorriso pallido, que lhe arrebitou um pouco as pontas do bigode, recolhendo-se logo medroso e frio. Seu rosto ficára carregado e pensativo; a lingua de Estacio tocara-lhe o coração. Disposto a aceitar a estima e a sympathia de Helena com a esperança de converter esse pequeno dote em avultado capital, não lhe occorrêra que a olhos extranhos podia parecer que seu fim exclusivo era a riqueza da moça. Estacio rompêra o veu a essa probabilidade. Uma só palavra desfizera a illusão de poucos dias.
—Vamos la,—disse o padre,—abracem-se como irmãos.
Nenhum delles se mexeu, Melchior sentiu toda a gravidade da situação; viu perdidos seus esforços, desfeita a união assentada, um abysmo cavado entre os dous amigos, incerto o destino de Helena. Interveiu outra vez com palavras de brandura, que os dous ouviram sem interromper. Quando acabou:
—O Estacio tem razão, disse Mendonça; meu crédito padecerá desde que alguem se lembre de dizer que o casamento foi arranjado sem nenhuma preoccupação das preferencias de D. Helena. Ella me desobrigará, em troca da palavra que lhe restituo.
A phrase brotou-lhe dolorida, mas sem hesitação nem fraqueza. Estacio olhava para elle e sentia alguma cousa semelhante a um remorso. Uma voz interior parecia dizer-lhe:—«Somnambulo, abre os olhos, tem consciencia de tuas acções; teu abraço enforca; teus escrupulos fazem-te odioso; tua solicitude é peor do que a colera.» Via o mancebo cortejar o padre; deteve-o pelo braço.
—Onde vaes? disse elle.
—Vou aonde me leva o pundonor, disse singellamente Mendonça.
—Pobres rapazes! exclamou o padre. São dous estouvados, nada mais; um quer catar argumentos onde sua irmã só achou nobre o franca resolução; o outro rompe de coração leve uma promessa feita em presença de um sacerdote! Estouvados disse eu? São mais do que isso; são dous dementes. Ora, como só eu tenho juizo e consequente autoridade, digo que nem um ha de sahir assim desenganado, nem o outro ha de recusar a acquiescencia que lhe peço em nome de seu finado pae.
Estacio estremeceu; Mendonça conservou-se frio. A arma era rija, mas o golpe excedia a necessidade; Mendonça não quereria dever a espôsa á evocação do nome do conselheiro: equivalia a um rapto. Percebeu-o Melchior, quando viu Estacio estender a mão ao amigo, mão que este recebeu com dignidade e frieza. Contaria Estacio com essa mesma repulsa do pretendente? O certo é que lhe disse sem a menor sombra de hesitação:
—Meu zêlo foi talvez excessivo; mas a intenção é boa e pura. Que posso eu desejar senão ver felizes os meus? Amem-se; será a remate de minhas aspirações. Promettes fazel-a feliz?
—Não prometto nada, disse Mendonça; o casamento é ja impossivel. Tu abriste-me os olhos; não te quero mal por isso. Perco muito, é certo; mas não me exponho á lingua dos maus.
Mendonça foi buscar o chapeu e dispoz-se a sahir, não obstante a intervenção de Melchior, que procurou trazel-o a sentimentos de reconciliação. Não insistiu o padre; viu no rosto do mancebo uma resolução digna e firme, que era impossivel dobrar naquelle momento. Quando Mendonça, lhe estendeu a mão em despedida, elle apertou-lh'a com ternura e esperança. Estacio tentou ainda retel-o; foi inutil; Mendonça sahiu dalli sem rancor, mas sem pezar. O coração sangrava-lhe; mas a consciencia ia contente.
Melchior foi até á porta, a despedir-se do Mendonça. Quando este sahiu, elle voltou o rosto para dentro, cruzou os braços e fitou o sobrinho de D. Ursula. O moço desviou as olhos; não foi o medo que os torceu, mas a vergonha.
—Viu? perguntou o padre. Não sei qual seja a sua resolução; mais prometto-lhe que serei como Mahomet,—Deus me perdoe!—ainda que veja o sol á minha direita e a lua á minha esquerda, não deixarei de executar o meu designio. Va ter com sua familia; deixe-me alguns instantes com o meu breviario.
Estacio não pôde resistir á intimação do sacerdote; não achou uma palavra para lhe dizer. Sahiu aturdido, desconsolado, colerico. Na rua e na chacara, ia pensando na scena daquella ultima hora, e parecia apenas reconstruir um sonho. Desconhecia-se, apalpava a intelligencia, chamava em seu auxilio todas as fôrças da realidade; olhava para o chão suspeitoso de que ia calcando as nuvens. Quando a razão tomou pe no meio de lembranças tão desconcertadas, elle viu claramente o resultado de suas acções: perdia um amigo de longos annos e abdicava a direcção da familia, pelo menos em relação ao casamento da irmã. Se ésta lhe agradecesse a resistencia, Estacio dar-se-hia por bem pago de tudo. Não era em seu favor que elle conspirara? Este pensamento levantou-lhe o ânimo; tivesse a approvação de Helena, pouco lhe importaria o resto.
Helena ouviu-lhe a narração fiel do que se passára em casa de Melchior. Ouviu-a commovida; no fim reprovou tudo o que elle fizera.
—Mendonça é ja o fructo prohihido, concluiu a moça; começo a amal-o. Se ainda assim me obrigar a desistir do casamento, adoral-o-hei.
—Chegamos ao capricho! exclamou elle; é o fundo do coração de todas as mulheres.
Helena sorriu e voltou-lhe as costas. Subiu a seu quarto, travou de uma penna e escreveu um bilhetinho. A tinta seccou primeiro que duas grossas lagrymas cahidas no papel; mas as lagrymas seccaram tambem. Antes de fechar o bilhete, desceu Helena a mostral-o ao irmão.
Quando a moça entrou no gabinete, Estacio ia ter com ella. Sua resolução estava assentada. Uma vez que a irmã aceitava de boa feição o casamento, não havia mais que approval-o e celebral-o. Encontraram-se na porta; Estacio recuou para dentro.
—Helena, disse elle, faça-se a tua vontade.
—Consente?
Estacio fez um gesto affirmativo.
—Não basta isso, tornou a moça; Mendonça não voltará ca depois do que se passou. Peço-lhe a remessa deste bilhete.
Estacio abriu o bilhete; continha éstas poucas palavras: «Venha hoje a Andarahy; é o meu coração que o pede e a nossa felicidade que o exige.» Cinco minutos gastou o moço a ler as duas linhas; leu o que estava escripto e o que não estava. Helena desarmava os escrupulos de Mendonça, tirando á futura união qualquer suspeita de interesse. Leu e fechou lentamente o papel.
—Approva? perguntou a moça.
—Assim, pois, disse o moço tristemente, a tua felicidade exige que esse homem venha ca, que te cases com elle, que nos fujas? Não te basta a familia, a affeição de nossa tia, a minha propria affeição? Estes mezes de doce intimidade vão ser esquecidos em um só instante, sacrificados aos pes do primeiro homem que te apraz escolher e seguir? No dia em que penetraste nesta casa, entrou contigo um raio de luz nova, alguma cousa que nos faltava e que tu trouxeste contigo; nossa familia completou-se; nossos corações receberam um sentimento ultimo. Pensavamos que isto seria duradouro, e era simplesmente fugaz. Oh! Helena, melhor fôra não ter vindo!
Helena quiz responder; mas a voz travou-se-lhe na garganta, e a palavra retrocedeu ao coração. Apontou para o papel como pedindo-lhe ainda uma vez que o enviasse e saiu.
De tarde, appareceu Melchior; ia tranquillo e e resoluto a dar um golpe decisivo. Estacio rendeu-se antes que elle falasse.
—Padre-mestre, disse o moço logo que o viu; a reflexão venceu-me; faça-se a vontade de todos.
—Fala de coração?
—De coração.
—Pois bem, seja completo; tomou o padre. Sou ministro de uma religião que condemna o orgulho. Não ha dezar em curar as feridas de um amigo; va ter com o seu amigo; traga-o a esta casa como irmão.
—Irei amanhã.
—Não; va hoje mesmo.
A noite cahiu logo; Estacio foi dalli vestir-se. Não tendo enviado o bilhete de Helena, metteu-o na algibeira para entregal-o elle proprio; depois tirou-o e releu-o; tendo-o relido, fez um gesto para rasgal-o, mas conteve-se e perpassou-o ainda uma vez pelos olhos. A mão, á semelhança de mariposa indiscreta, parecia attrahida pela luz; resistiu, resistiu algum tempo; emfim chegou o bilhete, á vela e queimou-o.
CAPITULO XX
A visita de Estacio não causou nenhum espanto a Mendonça; elle a esperava com a confiança das indoles ingenuas e avessas ao odio. Não era crivel que um amigo de longos annos dormisse sobre a injustiça de um minuto; contudo dormiu. Foi na seguinte manhã que Estacio procurou o pretendente de Helena.
Entrou elle naturalmente em casa de Mendonça; sem expansão nem secura. A entrevista foi breve, mas cordial; houveram-se os dous com affectuosa dignidade. Estacio explicou seus escrupulos; declarou-se contente com a alliança. O contentamento podia existir; todavia a manifestação foi parca e sêcca. Houve mais calor e expansão quando elle lhe pediu que désse vida feliz á irmã.
—Sera para mim um eterno remorso, se Helena vier a ser desgraçada, disse elle. Não tivemos o mesmo berço; vivemos nossa infancia debaixo de tecto differente; não aprendemos a falar pelos labios da mesma mãe. Importa pouco; nem por isso lhe quero menos. Meu pae recommendou-a a nossa familia e ella correspondeu ao sentimento que dictou essa ultima e solemne vontade.
Mendonça nas respondeu nada; elle reflectira durante a noite nas palavras que ouvira a Estacio no dia anterior;—palavras que bem podiam ser ditas ou pensadas por outros, talvez por todos, logo que soubessem de seu casamento. Helena viria a amal-o, talvez; mas desde logo lhe levava para casa a chave da independencia. Mendonça recuou. Quando o padre Melchior o soube, não pode conter um gesto de admiração; mas se louvou o escrupulo, não approvou a resolução, que vinha derrubar tudo.
—Não tapará nunca a boca aos maus, disse o padre; elles acharão meio de envenenar sua propria generosidade.
—Paciencia! tornou o moço; é menor esse perigo. Se casar, dirão que faço uma operação vantajosa; talvez sua familia o supponha; talvez ella propria o pense.
Helena teve noticia dos receios de seu pretendente e da resolução a que parecia inclinar o coração. Foi a elle; perguntou-lhe se era verdade. Mendonça affirmou que sim. Ella contemplou-o longamente sem dizer palavra; travou-lhe das mãos, apertou-as com effusão; elle persistiu.
No desinteresse de Mendonça havia porventura um pouco de faceirice,—dessa que rara vez deixa de enfeitar os mais puros e nobres sentimentos. A moça o percebeu, mas nem por isso deixou de crer na sinceridade do rapaz. Creu; tentou dissuadil-o; e posto nada alcançasse nos primeiros minutos, estava certa de que triumpharia afinal do derradeiro obstaculo. Seus olhos seriam mais habeis e felizes que os labios do padre. Foi o que ella disse ao capellão.
—Tomo á minha conta effectuar este casamento, continuou Helena.
—Resolvida a tudo?
—A tudo.
—Mas se elle insistir...
—Se elle insistir, vencel-o-hei, ou por um modo ou por outro. Uma moça que quer ser noiva vale por um exercito; eu sou um exercito.
—Muito bem! Contudo, sua dignidade.
—Oh! em último caso abro mão da herança.
—Era capaz disso? perguntou Melchior.
—Se era capaz? Desejo-o até,—disse a moça com vehemencia.
E accrescentou em tom mais brando:
—Sobre o homem de minha escolha desejo que não paire a minima desconfiança.
Tal era a situação, dous dias depois da volta de Estacio. O casamento podia contar-se feito. Mendonça não resistiu ao nobre desinteresse de Helena. D. Ursula approvou tudo com effusão e amor, nada sabendo das incertezas e contradições dos ultimos dias.
Na noite desse dia, Estacio escreveu para Cantagallo dando notícias suas. Do casamento de Helena falou pouco; quasi nada. Tudo o descontentava: tanto o que elle fizera e dissera, sem proveito, como o desenlace da situação. Não soubera oppor-se com efficacia nem applaudir opportunamente.
Posto fôsse tarde o somno teimava em fugir-lhe dos olhos e elle velou até muito além de meia noite. Occupado, sem dúvida em adormecer organisações menos sensiveis e existencias menos complicadas, o somno fez-lhe apenas uma curta visita. Pelas cinco horas de manhã, Estacio accordou e ergueu-se. A manhã estava fresca; quasi toda a familia dormia. Estacio desceu; o unico escravo que achou levantado preparou-lhe uma chicara de cafe. Não tendo ainda chegado os jornaes, bebeu-a sem a leitura do costume.
Quem sabe o que é fortuito ou providencial, e por que fios tenues se prendem muitas vezes os acontecimentos humanos? Estacio ouviu o som longinquo de um tiro; era algum caçador, talvez; a supposição deu-lhe ideia de ir caçar. Elle não era um Nemrod na habilidade, mas era-o na vocação. Foi buscar a espingarda, proveu-se de polvora e chumbo, e sahiu.
Se a habilidade não era muita, parecia ter ainda diminuido naquella manhã, ou por que a mão estivesse menos firme, ou por que a vista andasse menos segura. Estacio caminhára longo tempo sem pensar no fim que o levava; ia absorto,—alheio ao logar e ás cousas. Fez algumas tentativas de caça; mas deixou de mão o recreio. Quando cançou de errar, consultou o relogio e viu que não era cedo. Tinha o braço cançado de suster a espingarda; só então reparou que uso trouxera cm pagem consigo. Dispoz-se a voltar. Vendo uma parasita, colheu-a com a intenção de a dar a Helena, como seu primeiro presente de nupcias. Depois desceu, em caminho para casa.
Vinha descendo, com a espingarda debaixo do braço, e os olhos no chão, a passo lento, apezar de serem oito horas dadas. De uma vez que ergueu os olhos viu um caso extranho que lhe fez deter o passo. Um pouco abaixo, sahia de traz de uma casa velha, o pagem de Helena, conduzindo a mola e a egua. Estacio não soube que pensar daquillo; mas, cedendo a um impulso que não pôde dominar, deu um salto por cima de uma cêrca do espinhos, agachou-se e esperou o resto.
O resto não se demorou muito. Assomou á porta da frente a figura de Helena. Depois de olhar cautellosamente para um e outro lado, sahiu e montou na egua; o pagem cavalgou a mula e os dous desceram a trote.
Estacio sentiu uma nuvem cobrir-lhe os olhos; ao mesmo tempo apertava o primeiro objecto que achou debaixo das mãos; era a cêrca de espinhos. A dor fel-o voltar a si; tinha a mão ensanguentada. Ao longe cavalgavam Helena e o pagem. Logo que os viu desaparecer, Estacio saltou de novo á estrada. Sem resolução nem plano, caminhou em direcção á casa d'onde vira sahir a irmã. Era a mesma da bandeirinha azul, que Helena comprimentá-la de longe, alguns mezes antes, e não esquecera de reproduzir na paisagem que dera ao irmão, no dia dos annos delle. Estas circumstâncias, antes indifferentes, appareciam-lhe agora como outros tantos artigos de um libello.
O prédio parecia ainda mais velho do que a primeira vez que o vira; a caliça das paredes e das columnas ia cahindo, e o esqueleto de tijolo estava a nu em mais de um logar. Alguma herva mofina brotava a custo juncto ás paredes, cobrindo com suas folhas descoloridas o chão desegual e humido. Por baixo de uma das janellas havia um banco de pau, gretado pelo tempo, com as bordas roliças do longo uso. Tudo alli respirava penuria e senilidade.
—Não, dizia Estacio consigo, não é este o asylo de um Romeo de contrabando. Mora aqui alguma familia pobre, que a caridade engenhosa de Helena vem afagar de longe em longe.
A solução do enigma pareceu-lhe tão natural, que o moço resolveu parar a meio da aventura, e chegou a dar alguns passos para traz. Mas a suspeita é a tenia do espirito; não perece em quanto lhe resta a cabeça. Estacio sentiu o desejo imperioso de indagar o que aquillo era, e voltou sôbre seus passos. Para entrar alli era necessario um motivo ou ura pretexto. Procurou algum; a aventura dera-lhe o melhor de todos. Olhou para a mão ferida e ensanguentada, e foi bater á porta.
CAPITULO XXI
Poucos instantes esperou Estacio. Veiu um homem abrir-lhe a porta; era o mesmo que elle vira alli uma vez. Entre ambos houve meio minuto de silêncio, durante o qual nem Estacio se lembrou de dizer o que queria, nem o desconhecido de lhe perguntar quem era. Olhavam um para o outro.
—Que desejava? disse enfim o dono da casa.
—Um favor, respondeu Estacio, mostrando-lhe a mão ferida. Ia a cahir ha pouco; procurando amparar-me, n'uma cêrca de espinhos, feri-me, como ve. Podia dar-me um pouco d'agua para lavar este sangue, e...
—Pois não, interrompeu o outro. Queira sentar-se ahi no banco,—ou, se prefere, entrar... É melhor entrar, concluiu abrindo-lhe caminho.
Em qualquer outra occasião, Estacio teria recusado o convite, porque o expectaculo da miseria repugnava aos olhos saturados de opulencia. Agora, ardia por haver a chave do enigma. Entrou. O desconhecido abriu uma das janellas para dar mais alguma luz, offereceu ao hóspede a melhor cadeira e foi por um instante ao interior.
Estacio pôde então examinar, á pressa, a sala em que se achava. Era pequena e escura. A parede, pintada a colla, ja de longa data, tinha em si todos os signaes do tempo; primitivamente de uma só côr, a pintura apresentava agora uma variedade triste e desagradavel. Aqui o bolor, alli uma grêta, acola o rasgão produzido por um movel; cada accidente do tempo ou do uso dava áquellas quatro paredes o aspecto de um asylo da desgraça. A mobilia era pouca, velha, mesquinha e desegual. Cinco ou seis cadeiras, nem todas sãs, uma mesa redonda, uma commoda e uma marqueza, um aparador com duas mangas de vidro cobrindo castiçais de latão, sôbre a mesa um vaso de louça com flôres, e na parede dous pequenos quadros cobertos de escomilha encardida, taes eram as alfaias da sala. So as flôres davam alli um ar de vida. Eram frescas, colhidas de pouco. Atentando nellas, Estacio estremeceu: pareceu-lhe reconhecer uma acacia plantada em sua chacara. Quando a suspeita germina na alma, o menor incidente assume um aspecto decisivo. Estacio sentiu um calafrio por todo o corpo.
Voltou o dono da casa, trazendo nas mãos uma bacia, e nos braços uma toalha, cuja alvura contrastava singularmente com a côr da parede e o aspecto senil da casa. Estacio ergueu-se.
—Deixe-se estar, disse o desconhecido.
—Estou perfeitamente bem.
—Nesse caso, faça o favor de chegar á janella.
A bacia foi posta na janella; o desconhecido quis lavar elle proprio a mão do hóspede; mas o moço não lh'o consentiu.
—Ao menos, disse o dono da casa, hade consentir que a enxugue. Eu entendo um pouco disto; infelizmente, não tenho aqui nenhum medicamento caseiro para applicar.
Estacio aceitou o offerecimento. O dono da casa abriu a toalha e começou cuidadosamente a operação. O sobrinho de D. Ursula pôde então examiná-lo á vontade.
Era um homem de trinta e seis a trinta e oito annos, forte de membros, alto e bem proporcionado. Uma cabelleira espessa e comprida, de um castanho escuro, descia-lhe da cabeça até quasi tocar nos hombros. A fronte elevada, tinha um ar de serenidade olympica. Os olhos eram grandes, e geralmente quietos, mas riam-se, quando sorriam os labios, animando-se então de um brilho intenso, ainda que passageiro. Havia naquella cabeça,—salvo as suiças,—certo ar de tenor italiano. O pescoço, cheio e forte, surgia d'entre dous hombros largos, e, pela abertura da camisa, que um lenço atava frouxamente na raiz do colo, podia Estacio ver-lhe a alva côr e a rija musculatura. Vestía pobre, mas limpamente, um rodaque branco, calça de ganga e collete de brim pardo. A toilette mas que disparatada e mesquinha, não diminuia a belleza mascula da pessoa; accusava somente a penuria de meios.
Quando elle acabou de lavar os arranhões de Estacio,—eram pouco mais do que isso,—propoz-se a ir buscar um pedaço de panno afim de atar-lhe a mão; Estacio, com a outra mão e os dentes, rasgou o lenço que trazia, e o dono da casa completou o summario curativo.
—Prompto! disse elle. Se tiver em casa algum medicamento apropriado, será conveniente applical-o. Toda a cautella é pouca; convem evitar alguma inflammação.
—Obrigado, respondeu Estacio. Realmente, vim dar-lhe uma massada, sem grande necessidade talvez.
—Porque?
—Podia fazer isto mesmo quando chegasse a casa.
—Mora perto?
—Um pedaço abaixo.
—Foi conveniente curar ja; nenhuma precaução é inutil em cousa, nenhuma da vida.
—Maxima de prudencia, observou Estacio procurando sorrir.
—Que só aprende tarde quem não a traz na massa do sangue, replicou o outro suspirando.
A não ser indiscreto ou fallador, era difficil levar a conversa por diante. O favor estava feito, o assumpto exgotado. Restava agradecer, despedir-se e sahir. Estacio, entretanto, tinha necessidade de mais tempo; queria arrancar áquelle homem uma palavra menos indifferente á situação, ou conhecer-lhe, se fôsse possivel, o caracter e os costumes. Para isso havia talvez um meio; contrafazer-se, affectar maneiras extranhas ás suas, apegar-se á occasião por todas as bordas. Estacio determinou-se a isso, confiando o resto do acaso. Voltou á cadeira e sentou-se.
—Consente que descance um pouco? Estou fatigadissimo.
—Não pelo que caçou, disse o desconhecido rindo.
—Volto com as mãos abanando. Nunca fui bom caçador; e tenho, não obstante, a mania de atirar aos passaros.
—Não é esse o defeito de muita outra gente, em mais elevada ordem de cousas? Eu fui victima desse defeito mortal.
—Ah! exclamou Estacio com certa entonação interrogativa.
O dono da casa sorria levemente; mas não pareceu molestal-o a curiosidade do hóspede;—talvez mesmo não desejasse outra cousa.
—É verdade,—disse elle; devo a minha actual penuria ao erro de teimar em cousas extranhas á minha indole e aptidão, extranhas e totalmente oppostas...
—Hade perdoar-me,—interrompeu Estacio com um ar de familiaridade indiscreta, que lhe não era habitual; eu creio que um homem, forte, moço e intelligente não tem o direito de cahir na penuria.
—Sua observação,—disse o dono da casa sorrindo,—traz o sabor do chocolate que o senhor bebeu naturalmente ésta manhã antes de sahir para a caça. Presumo que é rico. Na abastança é impossivel comprehender as lutas da miseria; e a maxima de que todo o homem póde, com esfôrço, chegar ao mesmo brilhante resultado, hade sempre parecer uma grande verdade á pessoa que estiver trinchando um peru. Pois não é assim; ha excepções. Nas cousas deste mundo não é tão livre o homem como suppõe; e uma cousa, que uns chamam mau fado, outros concurso de circumstâncias, e que nós baptisámos com o genuino nome brazileiro de caiporismo, impede a alguns ver o fructo de seus mais herculeos esforços. Cesar e sua fortuna! toda a sabedoria humana está contida nestas quatro palavras.
O desconhecido proferiu isto com o tom mais simples e natural do mundo, e uma facilidade de elocução, que Estacio mal lhe podia suppor. Era aquillo uma comedia ou a expressão da verdade? Estacio olhou fixamente para elle, como a querer penetral-o. Ao mesmo tempo ouviu-se um rumor na parte da casa que ficava além da sala; Estacio voltou a cabeça com um gesto de desconfiança. A porta abriu-se e appareceu uma preta velha trajando nas mãos uma bandeja. A creada estacou a meio caminho.
—Põe em cima da mesa, disse o dono da casa. É o meu almôço,—continuou elle, voltando-se para Estacio; almôço parco e hygienico. Ousarei offerecer-lh'o?
Estacio fez um gesto negativo, e dispoz-se a sahir.
—Ja! Não é meu intento despedil-o; almoçarei conversando. Vivo tão solitario, que a presença de alguma pessoa é para mim um encanto.
Estacio aceitou sem difficuldade o convite; sentou-se defronte do homem, ao pe da mesa, e assistiu ao almôço, que não podia ser mais escasso: um pão, duas hostias de queijo duro, e uma chavena de cafe. O que mais valia era o contentamento do dono da casa e a franqueza com que ostentava aos olhos de um extranho a simplicidade de seus habitos.
—Não é refeição de principe,—dizia elle,—mas satisfaz todas as ambições de um estomago sem esperança. Aqui é a sala de visitas e a sala de jantar; a cosinha é contigua; além, ficam duas braças de quintal; para la do quintal... o infinito da indifferença humana.
E depois de um silêncio:
—Não digo bem, emendou elle; nem sempre acho indifferença. Meu trabalho não me dá mais do que o escasso pão de cada dia; mas tenho algumas alegrias, no meio de minha perpétua quaresma; e essas recebo-as de mãos caridosas e puras.
Dizendo isto, o desconhecido exgotou a chavena, e reclinou-se sôbre a cadeira, fitando em cheio a cara do hóspede. Estacio reflectiu nas últimas palavras, e um raio de esperança veiu rasgar-lhe a nuvem que lhe entenebrecia a fronte. Os dous homens pareciam interrogar-se. O filho do conselheiro saccou do bolso um charuto e offereceu-o ao dono da casa.
—Obrigado, disse este.
—Não fuma?
—Ja fumei; hoje economiso esse vicio. Nem por isso faço mais lentamente a digestão.
—Mora só?
—Só.
—Não tem familia?
—Nenhuma.
—Hade achar-me singularmente indiscreto.
—Não; supponho que sua curiosidade tem uma causa honrosa e legítima.
—Acertou; sua pessoa inspira-me sympathia; e se eu conhecesse alguma dessas mãos puras, que lhe emendam as lacunas da sorte...
—Dar-me-hia, por intermedio dellas, o seu obolo?...
—Se o não offendesse...
—Não offendia, mas eu recusava, se soubesse; e peço-lhe desde ja que o não faça ás escondidas...
Estacio fez um gesto de assentimento.
—Não é orgulho, continuou o dono da casa; é um resto de pudor que a pobreza me não tirou ainda. Fiz-lhe agora um obsequio, um simples dever de visinho... Pareceria que o senhor m'o pagava com um beneficio. O beneficio seria menos expontaneo de sua parte, e menos agradavel para mim. Agradavel não exprime, talvez, toda a minha ideia; mas o senhor facilmente comprehenderá o que quero dizer.
—Entendeu-me mal; o meu obolo não seria na especie a que o senhor allude. Tenho amigos, e alguma influência; poderia arranjar-lhe melhor posição.
O desconhecido reflectiu um instante.
—Aceitaria? perguntou Estacio.
—Estou pensando na maneira de recusar. Ouro é o que ouro vale, Eu vexar-me-hia eternamente de dever qualquer melhoria da sorte ao cumprimento de um dever de caridade.
—Ja me não admira a vida pobre que tem tido.
—Excessivo escrupulo, talvez?
—Escrupulo desarrazoado.
—Antes de mais que de menos.
—Nem de menos nem de mais; mas só a porção justa.
—A porção varia conforme as necessidades moraes de cada um. Mas, eu mesmo, que lhe estou a falar nem sempre tive ésta virtude intratavel; e por ventura alguma vez fraqueei.
A fronte do desconhecido tornou-se sombria; a voz morreu-lhe nos labios, e os olhos cahiram naquella atonia que exprime uma grande concentração de espirito. Era occasião de interrogal-o directamente ou sahir. Estacio preferiu o último alvitre.
—Não o quero demorar mais,—disse o dono da casa quando o mancebo proferiu as palavras de despedida. Ja é tarde, e sua mãe talvez esteja anciosa...
Estacio limitou-se a olhar para elle em cheio,—dizendo:
—Se alguma vez resolver dar de mão a seu a escrupulos, mande procurar-me. Minha casa é conhecida em todo Andarahy pela—casa do Conselheiro Valle...
O desconhecido, era cujo rosto Estacio esperou ver um signal qualquer de abalo ou sorpresa, conservou-se impassivel e risonho. Curvou-se em signal de agradecimento; e como Estacio hesitasse em estender-lhe a mão, elle metteu as suas nas algibeiras.
—Talvez nos vejamos ainda, disse Estacio ja fóra da porta.
—Sim?
—Passeio algumas vezes por estes lados.
—Nem sempre estou em casa; mas ainda estando, conservo fechadas as cousas. Quando quizer descançar, bata; a casa é pobre, mas será amiga.
Estacio affastou-se rapidamente. Eram dez horas, e o sol aquecia; elle não deu pelo sol nem pelo tempo. Semelhante ao transviado florentino, achava-se no meio de uma seiva escura, a egual distância da estrada recta,—diritta via—e da fatal porta, onde temia ser despojado de todas as esperanças. Nada sabia; nada conjecturava; eram tudo novas dúvidas e oscillações. O homem com quem acabava de conversar parecia-lhe sincero; sua pobreza era authêntica; sensivel a nota de melancholia que por vezes lhe afrouxava a palavra. Mas onde cessava alli a realidade e começava a apparencia? Vinha de tratar com um infeliz ou um hypocrita? Estacio rememorou todos os incidentes da manhã, e todas as palavras do desconhecido; eram outros tantos pontos de interrogação suspeitos e irrespondiveis. Seu espirito repellia com horror a ideia do mal; mas custava-lhe a acceitar a ideia do bem; e a peor das angústias,—a dúvida,—continha-o todo e agitava-o, em suas mãos felinas. O sol e a agitação alastravam-lhe a testa de perolas de suor; ao offego da marcha apressada juntava-se o da violenta commoção. Estacio não via os objectos que ia costeando, nem as pessoas que lhe passavam ao lado; ia cego e surdo, até que o choque da realidade o despertasse.
Chegou enfim a casa. Ao portão estava um escravo, a quem deu a espingarda. Sua demora causára alguma inquietação á familia; logo que as duas senhoras souberam de seu regresso correram a recebel-o, ficando D. Ursula a uma janella, e descendo Helena até meio caminho. A apparição subita da moça, a alegria e o amor, que pareciam impelli-la, como duas azas sanctas, a perfeita ingenuidade de seu gesto, tudo produziu nelle a necessaria reacção,—reacção de um instante,—mas salutar, porque a crise era demasiado violenta. Estacio apertou as mãos da moça com a energia do náufrago. Um fluido subtil percorreu as fibras de Helena; e aquelle rapido instante teve toda a doçura de uma reconciliação.
Estacio contava recolher-se ao quarto para pôr em ordem suas ideias, comparal-as, extrahir uma conjectura pelo menos, e verifical-a ou desmentil-a. Mas nem a tia nem a irmã haviam almoçado, á espera delle; e forçoso lhe foi acompanhal-as na satisfação de uma necessidade que não sentia. Durante o almôço, Estacio procurou observar Helena; trabalho ocioso, porque o rosto da moça, se alguma cousa trahia nessa occasião, eram as alegrias ineffaveis da familia. Ella propria servia por suas mãos a Estacio e D. Ursula; inexcedivel na attenção com que sabia repartir-se entre os convivas não o era menos no carinho e na graça. Nos olhos parecia estampada a ignorancia do mal, e o sorriso em o das almas candidas. Poder-se-hia attribuir áquella creatura de dezesete annos corrupção e hypocrisia? Estacio envergonhou-se de tal ideia; sua alma sentiu as vertigens do remorso.
Mas o almoço acabou, dispersou-se a companhia, o mancebo recolheu-se ao gabinete, e, desfeita a visão, voltou a suspeita. Estacio buscou dominar a situação. Elle não ia ao ponto de suppor em Helena a completa perversão dos sentimentos; o limite do mal, que se lhe podia attribuir, era o de uma culposa leviandade. Se em vez de um acto leviano, fôsse aquillo um simples estratagema de caridade, Helena não mereceria menos uma advertencia, mas a pureza da intenção salvava tudo, e a paz da familia, não menos que o seu decoro, se restabeleceria inteira. Estacio examinou um por um todos os indicios de culpabilidade e de innocencia; buscou sinceramente os elementos de prova; não esqueceu um só argumento de inducção. Nesse trabalho despendeu longas horas, sem resultado apreciavel, pela razão de que, se a sentença era difficil de formular, o juiz era incompetente para decidir; entre a dignidade e a affeição, seu espirito balouçava incerto.
Quasi á hora do jantar, Estacio, que não sahira uma só vez do gabinete, chegou a uma das janellas, e viu atravessar a chacara a mais humilde figura daquelle enigma, humilde e importante ao mesmo tempo: o pagem. O pagem appareceu-lhe como uma ideia nova; até aquelle instante não cogitára nelle uma só vez. Era o confidente e o complice. Ao vel-o recordou-se que Helena lhe pedira uma vez a liberdade daquelle escravo. A ameaça rugiu-lhe no coração; mas a colera cedeu á angústia, e elle sentiu na face alguma cousa semelhante a uma lagryma.
Nesse momento duas mãos lhe taparam os olhos.
CAPITULO XXII
Não era preciso grande esfôrço para adivinhar a dona das mãos. Estacio, com as suas, affastou as mãos de Helena, segurando-lhe os pulsos de modo que lhe arrancou um leve gemido. Voltando-se, deu com os olhos na irmã, que lhe disse em tom de gracioso reproche:
—Voce é muito mau! Pagou-me a caricia com um apertão. Deixe estar que nunca mais cahirei em outra. Vim vel-o, por que voce hoje não se lembrou ainda de dar á gente um ar de sua graça... Doeu-me!—continuou ella olhando para os pulsos.—Mas... tenho os dedos molhados; seria... voce estaria... que é? que foi?
Estacio, que ouviu a discurso da irmã, com o rosto desfeito e o olhar ancioso, não lhe respondeu ás últimas interrogações, e continuou a olhar para ella, como a querer ler na physionomia da moça a explicação do enigma que o atordoava. Helena ainda insistiu, atterrada e afflicta. Indo pegar-lhe nas mãos, Estacio desviou o corpo, dirigiu-se á parede, despendurou o desenho que Helena lhe dera no dia de seus annos, e approximou-se da moça.
—Que é? repetiu ésta admirada.
A unica resposta de Estacio foi estender o dedo sôbre a mysteriosa casa reproduzida na paisagem. Helena olhou alternadamente para o desenho e para o irmão. A expressão interrogativa e imperiosa deste, fel-a attentar no ponto indicado. Subito empallideceu; seus labios tremeram como a murmurar alguma cousa, mas a alma falou tão baixo que a palavra não chegou á boca. Durou aquillo poucos instantes. A angústia lia-se no rosto dos dous; a moça, para occultar a sua, cobriu os olhos com as mãos. O gesto era eloquente; Estacio lançou para longe de si o quadro, com um movimento de colera. Helena atirou-se para o corredor.
D. Ursula aguardava os sobrinhos para jantar. Demorando-se estes, dirigiu-se ella propria ao gabinete de Estacio. A porta estava aberta; D. Ursula entrou e deu com elle, sentado n'uma poltrona, com o lenço na cara, como a soluçar. A tia correu com a velocidade que lhe permittiam os annos. Estacio não a ouviu entrar; só deu por ella quando as mãos da boa senhora lhe arrancaram as suas dos olhos. O assombro de D. Ursula foi indescriptivel, sobretudo quando Estacio, erguendo-se, atirou-se-lhe aos braços, exclamando:
—Que fatalidade!
—Mas... que é?... explica-te.
Estacio enxugou as faces molhadas do longo e silencioso pranto, com o gesto decidido de um homem que se envergonha de um acto de debilidade. O vestigio das lagrymas dava-lhe aquelle cunho tocante e severo, que as grandes dores imprimem no rosto humano. A explosão desabafara-lhe o espirito; elle podia enfim ser homem, o era preciso que o fôsse. D. Ursula pediu e ordenou que lhe confiasse a causa da inexplicavel afflicção em que viera achal-o. Estacio recusou dizel-a.
—Saberá tudo amanhã, ou logo. Agora só poderia dar-lhe um enigma, e eu sei o que elle me ha custado. Algumas horas mais, e precisarei de seu conselho e apoio.
D. Ursula resignou-se á demora. Quando chegou á sala de jantar achou um recado de Helena; mandava-lhe dizer que se sentira repentinamente incommodada e que a dispensasse naquella tarde e noite. D. Ursula suspeitou logo que o recado de Helena tivesse relação com a afflicção de Estacio, e correu ao quarto da sobrinha. Achou-a meia inclinada sobre a cama, com o rosto na almofada e o corpo tranquillo e como morto. Ao sentir os passos de D. Ursula, ergueu a cabeça. A pallidez era grande e profundo o abatimento; mas não houvera lagrymas. A dor, se a houve, e houve, parecia ter-se petrificado naquella face immovel e fria como o granito. O que restava ainda vivo na figura da moça eram os olhos, que não perderam o fulgor natural. Ella ergueu-os a medo, e abraçou a tia com um olhar de súpplica e de amor. D. Ursula travou-lhe das mãos, encarou-a silenciosamente, e murmurou:
—Conta-me tudo.
—Saberá depois! suspirou a moça.
—Não tens confiança em tua tia?
Helena ergueu-se e lançou-se-lhe nos braços; duas lagrymas rebentaram-lhe dos olhos, e foram as primeiras que elles verteram naquella meia hora. Depois beijou-lhe as mãos com ternura:
—Póde receber estes beijos,—disse ella,—os anjos não os tem mais puros.
Foram as últimas palavras que D. Ursula pôde arrancar-lhe; a moça recolheu-se ao profundo silêncio em que ella a encontrou. D. Ursula sahiu; e foi dalli ter com Estacio. O sobrinho encaminhava-se para a sala de jantar.
—Vamos para a mesa, disse elle,—não convem que os escravos saibam de taes crises.
D. Ursula referiu o estado em que achára Helena e as palavras que trocára com ella. Estacio ouviu-a sem nenhuma expressão de sympathia. O jantar foi um simulacro; era um meio de illudir a perspicacia dos escravos, que alias não cahiam naquelle embuste. Elles conheceram perfeitamente que algum acontecimento occulto trazia suspensos e concentrados os espiritos. As iguarias voltavam quasi intactas; as palavras eram trocadas com esfôrço entre a sinhá velha e o senhor moço. A causa daquillo era com certeza nanhã Helena, que estava ausente.
Estacio deu ordem para que a todas as pessoas extranhas se declarasse estar ausente a familia. A unica excepção era o padre Melchior. A esse escreveu pedindo-lhe que os fôsse ver.
—Não posso esperar até amanhã, disse D. Ursula; se tens de revellar alguma cousa a um extranho, por que o não fazes a mim primeiro? Dize-me o que ha. Não posso ver padecer Helena; quero consolal-a e animal-a.
—O que tenho para dizer é longo e triste,—retorquiu Estacio; mas, se deseja sabel-o desde ja, peço-lhe ao menos que espere a presença do padre Melchior. Eu não poderia dizer duas vezes as mesmas cousas; seria revolver o punhal na ferida.
A curiosidade de D. Ursula cresceu com éstas meias palavras do sobrinho; mas era forçoso esperar e esperou. Foi dalli ao quarto de Helena, Como a porta estivesse fechada, espreitou pela fechadura. Helena escrevia. Ésta nova circumstância veiu complicar as impressões de D. Ursula.
—Helena está encerrada no quarto, e escreve, disse ella ao sobrinho.
—Naturalmente, respondeu este com sequidão.
O padre Melchior não se demorou em acudir ao chamado de Estacio. O bilhete era instante e a letra febril. Algum acontecimento grave devia ter-se dado. A reflexão do padre era justa, como sabemos; elle o reconheceu desde logo, não só no aspecto lugubre da familia, como na ancia com que era esperado. Os tres recolheram-se a uma das salas interiores.
—Helena? perguntou Melchior.
—Vamos tratar della, respondeu Estacio.
Referir o que se passára naquella fatal manhã era mais facil de planear que de executar. No momento de expor a situação e as circumstâncias della, Estacio sentiu que a lingua rebelde não obedecia á intenção. Achava-se n'um tribunal doméstico, e o que até então fôra conflicto interior entre a affeição e a dignidade, cumpria agora reduzil-o ás proporções de um libello, claro, sêcco e decidido. Innocente ou culpada, Helena apparecia-lhe naquelle momento como uma recordação das horas felizes,—doce recordação, que os successos presentes ou futuros podiam somente tornar mais saudosa, mas não destruiriam nunca, porque é esse o mysterioso privilegio do passado. Reagiu, entretanto, sôbre si mesmo; e ainda que a custo referiu minuciosa e sinceramente o que se passára desde aquella manhã.
Não fôra talhado para tão melindrosas revellações o coração de D. Ursula. Desde o princípio da conversação sentiu o atordoamento que dão os grandes golpes. Esperava, de certo, um grande infortunio de Helena, um episodio de sua familia anterior, alguma cousa que desafiasse a compaixão, sem diminuir o sentimento da estima. Acontecia justamente o contrário; a estima era impossivel e a compaixão tornava-se apenas provavel.
—Mas não! é impossível! exclamou ella dahi a pouco, logo que a razão obscurecida pelo abalo, pôde readquirir alguma luz—não! eu a vi ha pouco; senti-lhe as lagrymas na minha face, ouvi-lhe palavras que só a innocencia póde proferir. E, além disso, seu procedimento irreprehensivel, um anno quasi de convivencia sem mácula, a elevação de seus sentimentos... não posso crer que tudo isso... Não! pobre Helena! Vamos chamal-a; ella explicará tudo. Interroguemos o Vicente.
Um gesto dos dous homens mostrou que nenhum delles julgava digno este último recurso para conhecer a verdade.
D. Ursula cahíra em prostração, recordava suas apprehensões do primeiro dia, e recuava com horror á ideia de ter acertado. Defronte della, Estacio occupava uma poltrona rasa, em cujos braços fincava os cotovellos, apoiando nas mãos a cabeça ardente e abatida. A alma ruminava a dor.
Um só dos tres vingada a dignidade da situação. O padre Melchior não sentira menor assombro que os dous parentes de Helena, nem padeceu menos profundo golpe; mas reergueu-se de um e outro; pôde vencer-se e conservar a razão clara, fria e penetrante. Entre os dous corações ulcerados e sem fôrça, comprehendeu Melchior que lhe cabia a principal acção, e não recuou ante a responsabilidade que dahi poderia deduzir. Viu de um lance a extensão possivel do mal, a desunião da familia, os desesperos da occasião, os odios do dia seguinte, as amarguras indeleveis e talvez as indeleveis saudades; mas nem este quadro o aterrou, nem elle o aceitou sem exame. Melchior não condemnava nem absolvia; esperava. Elle pertencia ao numero dessas virtudes singellas para as quaes o vicio é uma rara excepção; natureza sincera e franca, era-lhe difficil crer na hypocrisia. Em quanto Estacio proseguia calado e pensativo, e D. Ursula, ora sentada, ora de pe, intercalava o silêncio com exclamações de dor, Melchior observava-os e reflectia tambem comsigo. Emfim, proferiu éstas palavras de animação:
—Socegue, D. Ursula; a verdade hade apparecer, e não estamos certos que seja o que nos parece. Em todo o caso não antecipemos a afflicção. Seria padecer duas vezes. Ha tempo de chorar á larga.
Melchior levantou-se:
—Convem sacudir o abatimento, continuou dirigindo-se a Estacio; é a hora da acção e do vigor. Sobretudo é necessario não boquejar de semelhante assumpto por agora; daria azo ás vozes extranhas e seus naturaes commentarios. Eu tomarei nesta collisão o logar que me compete, se m'o não contestam...
—Oh! exclamou Estacio.
—... Mas desejo que desde ja se compenetrem bem de que, se a dignidade pede uma cousa, a caridade pede outra, e que o dever stricto é concilial-as. Nada do odios; perdão ou esquecimento.
—Mas, padre-mestre, que lhe parece? perguntou D. Ursula com anciedade.
—D. Ursula, disse o padre; é preciso agora que a razão fale e trabalhe; o sentimento deve retrahir-se e esperar. Examinarei o caso, e aconselharei o necessario remedio. Talvez estejamos a debater-nos no vacuo; quem sabe? trata-se de um equívoco, de uma apparencia...
—Oh! ella confessou tudo! interrompeu Estacio. Vi-lhe a expressão da culpa nos olhos. Mas, emfim, estou prompto para tudo, continuou elle erguendo-se. Não foi o senhor um dos melhores amigos de meu pae? Não o é ainda nosso? Ajude-nos, aconselhe-nos; faremos o que lhe parecer melhor. Na singular situação em que nos achamos nenhum de nós temos o espirito bastante senhor de si para colhêr os elementos da verdade, apural-a e resolver. Esse papel é seu.
Vieram trazer a Estacio uma carta. Era do Dr. Camargo, annunciando-lhe que a madrinha do Eugenia fallecêra, e que elle no prazo de alguns dias estaria na Corte. Era o peor momento para semelhante vinda; Estacio não pôde reprimir um gesto de desgôsto. O padre, dizendo-lhe o mancebo de que tratava a carta, observou que nenhum inconveniente podia haver no regresso do Camargo, uma vez que, sem demora, ficasse liquidado o assumpto que os affligia.
—D. Ursula,—continuou elle,—deixe-nos agora sos alguns instantes; va tranquilla, confie em Deus, e não faça suspeitar a ninguem o que se passa nesta casa.
D. Ursula obedeceu. Logo que ella sahiu. Melchior fechou a porta. Estacio sentou-se de novo, disposto a ouvir o capellão. Este deu alguns passos entre a porta e uma das janellas. Ia anoitecendo; Estacio accendeu um candelabro. Melchior sentou-se ao pe delle, sem lhe falar nem voltar-lhe sequer os olhos. Meditava ou luctava comsigo mesmo; a fronte pesada e merencoria traduzia a agitação interior. Ja não era a inalteravel placidez, reflexo de uma consciencia religiosa e pura. Se a consciencia era a mesma, não o era o coração, a braços com uma crise nova. Apos dez minutos de profundo silêncio entre ambos, o padre falou.
CAPITULO XXIII
—És forte? perguntou o padre.
—Sou.
—Cres em Deus?
Estacio estremeceu e olhou para o ancião, sem responder. Melchior insistiu:
—Cres?
—Essa pergunta...
—É menos ociosa do que parece. Não basta suppor que se cre; nem basta crer á ligeira, como na existencia de uma região obscura da Asia, onde nunca se pretende pôr os pes. O Deus de que te fallo não é só essa sublima necessidade do espirito, que apenas contenta alguns philosophos; fallo-te do Deus creador e remunerador, do Deus que le no fundo de nossas consciencias, que nos deu a vida, que nos hade dar a morte, e além da morte o premio ou o castigo. Cres?
—Creio.
—Pois bem, tu transgrediste a lei divina, como a lei humana, sem o saber. Teu coração é um grande inconsciente; agita-se, murmura, rebella-se, vaga á feição de um instincto mal expresso e mal comprehendido. O mal persegue-te, tentaste, envolve-te em seus liames dourados e occultos; tu não o sentes, não o ves; tens horror de ti mesmo, quando deres com elle de rosto. Deus que te lê, sabe perfeitamente que entre teu coração e tua consciencia ha com o um veu espesso que os separa, que impede esse accôrdo gerador do delicto.
—Mas que é, padre-mestre?
Melchior inclinou-se e encarou o moço. Seus olhos, fitos nelle, eram como tum espelho polido e frio, destinado a reproduzir a impressão do que lhe ia dizer.
—Estacio,—disse Melchior pausadamente,—tu amas tua irmã.
O gesto mesclado de horror, assombro e remorso, com que Estacio ouvira aquella palavra, mostrou ao padre, não só que elle estava de posse da verdade, mas tambem que acabava de a revellar ao mancebo. O que a consciencia deste ignorava, sabia-o o coração, e só lh'o disse naquella hora solemne. A consciencia, depois de tactear nas trevas, recuou apavorada, como affastando de si o clarão subito que accendêra nella a palavra do sacerdote. Estacio não respondeu nada: não podia responder nada. Com que vocabulo e em que lingua humana esprimiria elle a commoção nova e terrivel que lhe abalára a alma toda? que fio podéra atar-lhe as ideias rôtas e dispersas? Nem falou, nem se atreveu a erguer os olhos; ficou como estupido e morto, Melchior contemplou-o alguns minutos, silencioso e compassivo. Seus olhos, que eram de aguia para os mysterios da vida, eram de pomba para os grandes infortunios. Abaixo da cabeça mascula, havia um coração feminino.
A mudez de Estacio cessou emfim; o corpo agitou-se; o labio articulou algumas phrases desconcertadas. Vago era o sentido dellas; podia concluir-se que elle não cria na revellação de Melchior, que o supposto sentimento era tão absurdo e desnatural, que só a maus instinctos devia ser attribuido. Melchior ouviu-o e sorriu com satisfação. Não era aquillo mesmo um protesto de consciencia honrada?
—Maus instinctos, não,—respondeu Melchior; um desvio da lei social e religiosa, mas desvio inconsciente. Entra em teu coração, Estacio; revolve-lhe os mais intimos recantos, e la acharás esse germen funesto: lança-o fóra de ti, que é o preceito do Eterno Mestre. Não o sentiste nunca: a tentação usa essa tactica serpentina e dolosa; é insinuante, como a calúmnia, e pertinaz, como a suspeita. Mas eu sou a verdade, que affirma, e a caridade, que consola. Digo-te, não que peccaste, mas que ficaste á beira do peccado; e estendo-te a mão para que recues do abysmo.
—Padre-mestre! murmurou Estacio cujo coração recebia a influência da palavra de Melchior, a um tempo severa e meiga.
—Não fales, continuou o padre; negal-o é mentir; confessal-o é ocioso. Como nasceu em teu coração semelhante sentimento? Quiz a fortuna que entre voces dous não houvesse a imagem da infancia e a communhão dos primeiros annos; que, em plena mocidade, passassem do total desconhecimento um do outro, para a intimidade do todos os dias. Ésta foi a raiz do mal. Helena appareceu-te mulher, com todas as seduções proprias da mulher, e mais ainda com as de seu proprio espirito, por que a natureza e a educação accordaram em a fazer original e superior. Não sentiste a transformação lenta que se operou em ti, nem podias comprehendel-a. S. Paulo o disse: para os corações limpos, todas as cousas são limpas. Vias a affeição legitimo naquillo que era ja affeição espuria; dahi vieram os zelos, a suspicacia, um egoismo exigente, cujo resultado seria subtrahir a alma de Helena a todos as alegrias da terra, unicamente para o fim de a contemplares sosinho, como um avaro.
Ouvindo a palavra do padre, Estacio soletrava o proprio coração e lia claramente o que até então era para elle como um livro fechado. A situação tornava-se, entretanto, por demais afflictiva, profunda a vergonha, intenso o remorso. Estacio ergueu-se; erguendo-se deu com os olhos no retrato do Conselheiro, que, na penumbra em que ficava, parecia olhar para o filho, e interrogal-o. Ésta circumstância desorientou o moço.
—Não, padre-mestre! exclamou elle deixando-se cahir na cadeira.—É impossivel! isto que me está dizendo é um sonho mau, é um funesto equívoco; é impossivel; juro-lhe que é impossível. É certo que a amo... que a amava, com sentimento de irmão; mas esquecer-me, aninhar em minha alma tão odioso affecto... oh! era impossivel!
Melchior erguera-se. Apos meia duzia de passos, approximou-se de Estacio, sôbre cuja cabeça estendeu a mão direita, em quanto com a outra lhe erguia a barba, obrigando-o a olhar para elle.
—Digo-te que teus uma raiz de ma herva no coração; ésta é a cruel verdade. Ha no homem uma ligação de sentimento, ás vezes inexplicavel. Productos de climas oppostos ahi se alternam ou se confundem... Mas queres saber o resto?
—O resto?
—Ouve,—continuou o padre sentando-se. A planta ruim bracejou um ramo para o coração virgem e casto de Helena, e o mesmo sentimento os ligou em seus fios invisiveis. Nem tu o vias, nem ella; mas eu vi, eu fui o triste expectador dessa violenta e miseravel situação. São irmãos e amam-se. A poesia tragica póde fazer do assumpto uma acção theatral; mas o que a moral e a religião reprovam não deve achar guarida na alma de um homem honesto e christão.
—Impossivel! impossivel! exclamou Estacio. Mas, dado que assim fosse, por que accumular á difficuldade presente o horror de semelhante revellação?
—Por que a revellação explica a difficuldade. Helena não sabera que ama, mas ama. Ora, um amor clandestino, de parceria com esse outro amor incestuoso, embora inconsciente, provaria da parte de Helena uma perversão, que ella não póde ter, e que, em tal edade, faria della um monstro. Sera Helena esse monstro? Se o fosse, eu desesperaria da natureza humana. Não! essa casa, onde a viste entrar, é com certeza asylo de miseria; o que ella ahi vae levar é a esmola e a compaixão.
Um raio de esperança alumiou a fronte de Estacio. O raciocinio do padre era exacto; e por mais perigosa que fôsse a situação revellada por elle, ja agora não se podia desejar outra cousa; a dignidade da familia ficava intacta. Estacio reflectiu largo tempo no que acabava de ouvir. Mas, a esperança foi curta, embora a necessidade della grande.
—Helena continua recolhida? perguntou o padre.
Estacio fez um leve signal affirmativo.
—Falar-lhe-hei amanhã; por hoje convem não dizer palavra nem deixar transpirar cousa nenhuma.
Dizendo isto, Melchior recolheu-se ao silêncio, como se reflectisse ainda alguma cousa. Estacio erguera-se e entrára a passear lentamente. De quando em quando apertava a cabeça entre as mãos; tantas commoções bastavam para atordoar mais forte espirito. O mysterio o cercava de todos os lados. Elle ia até á janella, dahi até à porta, intercalando as reflexões interiores com sacudimentos nervosos do braço ou da cabeça. A intervallos, olhava a furto e de travez para o capellão, como o criminoso olha para a consciencia; não podia evitar o sentimento de terror, e ao mesmo tempo de respeito, que lhe infundia aquelle investigador exacto e profundo de seus sentimentos mais reconditos e inaccessiveis. Ruminava o que o padre lhe dissera; cada minuto lhe ia tornando mais clara a verdade revellada; e o que era obscuro fizera-se-lhe emfim transparente. É assim que a luz de um astro, accesa desde seculos, chega finalmente a ferir a retina de nossos olhos mortaes.
Uma vez, interrompendo os passos, ergueu os olhos para o retrato do Conselheiro. Não os retirou atterrado; cravou-os com um ar de reproche e de amargura, em que o padre reparou e que o fez sorrir tristemente. O olhar do filho pedia contas ao pae.
—Paz aos mortos! observou Melchior. Os actos de seu pae já não pertencem á jurisdicção deste seculo.
Melchior proferiu éstas palavras ja de pe.
—O Dr. Camargo, disse elle mudando de tom,—deve chegar um dia destes, segundo annuncia. Ha alguma razão para demorar o casamento?
—Nenhuma.
—Convem realisal-o immediatamente.
—Immediatamente.
Melchior caminhou para a porta. Ia dar volta á chave, e deteve-se.
—Antes de nos separarmos, disse elle,—desejo a promessa de que não falarás a Helena antes de amanhã.
—Prometto.
O padre reflectiu um instante; Estacio pareceu adivinhal-o.
—Quer ainda outra promessa? perguntou elle. Quer que a evite da todos os modos.
—Sim; que a considere como pessoa totalmente extranha.
—Poderia ser de outra maneira? observou melancholicamente Estacio. Os successos destes dias são, por em quanto ao menos, uma barreira entre ella e sua familia. Demais, eu seria destituido de todo o senso moral...
—Jura?
—Juro.
Melchior desabrochou a camisa, e aventou um crucifixo de marfim, que lhe pendia de uma fita preta, ao pescoço.
—Este, disse elle cora voz singella, é a effigie do teu Deus. Tão puro exemplo de castidade não viram os seculos nem antes nem depois que elle desceu á terra. Jura o que me promettes.
—Padre-mestre,—retorquiu Estacio; minha palavra era bastante. Mas, se é preciso affirmação mais solemne, eu a darei tal qual me pede.
Estacio inclinou a cabeça sôbre o crucifixo e beijou-o respeitosamente; depois beijou a mão ao padre. Melchior abençou-o e sahiu.
Sahindo do gabinete de Estacio, dirigiu-se para a sala de costura, onde achou D. Ursula um pouco menos agitada.
—Falou a Helena? perguntou ella dirigindo-se ao padre.
—Ainda não; sei que não quer sahir do quarto; deixemos passar a primeira commoção. Amanhã virei saber tudo. Por hoje é preciso que a senhora socegue.
—Oh! estou socegada! Não perdi a confiança.
D. Ursula proferiu éstas palavras com tamanha serenidade e tão profunda convicção que fortaleceu o espirito do proprio Melchior, alias não inclinado a crer no mal. O ancião deteve-se alguns instantes a contemplar o rosto placido de D. Ursula, a admirar a fôrça secreta que a tornava surda ao clamor da realidade,—pelo menos, da realidade apparente. Contemplou-a silencioso, e desceu á chacara.
CAPITULO XXIV
A noite era escura. Calcando a terra e a areia das largas calhes da chacara, Melchior, em sua imaginação, refloria o passado, nem sempre feliz, mas geralmente quieto, dessa quietação que é tanta vez a superficie da vida. Mais de uma vez buscára dissipar a sombra pezarosa que alguns erros do conselheiro accumularam na fronte da consorte. Haveria naquella casa uma geração de dores, destinadas a abater o orgulho da riqueza com o irremediavel expectaculo da debilidade humana?
—Não, dizia elle comsigo mesmo. A verdade é que tudo se encadeia e desenvolve logicamente. Jesus o disse: não se colhem figos dos abrolhos. A vida sensual do marido produziu o infortunio calado e profundo daquella senhora que se foi em pleno meio dia; o fructo hade ser tão amargo como a árvore; seu sabor é travado de remorsos.
Neste ponto chegava ao portão. Ahi deteve-se um instante. O passo cautelloso e timido de alguem fel-o voltar a cabeça. Um vulto, cujo rosto não via, tão escuro como a noite, alli estava e lhe tocava respeitosamente as abas da sobrecasaca. Era o pagem de Helena.
—Seu padre,—disse este,—diga-me por favor o que aconteceu em casa. Vejo todos tristes; nhanhã Helena não apparece; fechou-se no quarto... Me perdoe a confiança. O que foi que aconteceu?
—Nada, respondeu Melchior.
—Oh! é impossivel! Alguma cousa ha por fôrça. Seu padre não tem confiança em seu escravo. Nhanhã Helena está doente?
—Socega; não ha nada.
—Um! gemeu incredulamente o pagem. Ha alguma cousa que o escravo não pode saber; mas tambem o escravo póde saber alguma cousa que os brancos tenham vontade de ouvir...
Melchior reprimiu uma exclamação. A noite não lhe permittia examinar o rosto do escravo, mas a voz era dolente e sincera. A ideia de interrogal-o passou pela mente, do padre, mas não fez mais do que passar; elle a regeitou logo, como a regeitára algumas horas antes. Melchior preferia a linha recta; não quizera empregar um meio tortuoso. Iria pedir a Helena a solução das difficuldades. Entretanto, o pagem, como interpretasse de modo afirmativo o silêncio do sacerdote, continuou:
—Nhanhã Helena é uma sancta. Se alguem a accusa, accusa o bom procedimento della. Eu lhe direi tudo...
Melchior ia recusar, mas um incidente interrompeu a palavra do pagem, contra a vontade deste, e talvez contra o desejo de Melchior. Ouviram-se passos; era um escravo que vinha fechar o portão.
—Vem gente,—disse Vicente,—amanhã...
O pagem tacteou nas trevas em procura da dextra do capellão; achou-a emfim, imprimiu-lhe um ósculo do respeito e affastou-se. Melchior seguia para casa, abalado com a meia revellação que acabava de ouvir. Outro qualquer podia duvidar um instante da sinceridade do escravo; podia suppor que o acto delle em menos expontaneo do que parecia; emfim, que a propria Helena suggeríra aquelle meio de transviar a expectação e congraçar os sentimentos. A interpretação era verosimil; mas o padre não cogitou de tal cousa. A elle é principalmente applicavel a maxima apostolica; para os corações limpos, todas as cousas são limpas.
A seguinte aurora alumiou um ceu puro de nuvens. Estacio accordou com ella, depois de uma noite mal dormida. Nunca a manhã, lhe pareceu mais rumorosa e jovial; nunca o ar apresentára tão fina transparencia, nem a folhagem tão lustrosa, côr. Da janella a que se encostára via as flôres de todos os matizes, quebrando a monotonia da verdura, e enviando-lhe a elle uma nuvem invisivel de seus aromas: aspecto de festa e ironia da natureza. Estacio achava-se alli como um sahimento em horas de carnaval.
Almoçou sosinho; D. Ursula estava com Helena. Logo depois do almôço recebeu uma carta de Mendonça, que tendo ido na vespera a Andarahy, recebêra a resposta dada a todos, e mandava saber se havia molestia em casa. Estacio respondeu affirmativamente, accrescentando que, posto não se tratasse de cousa grave, só o esperava dous dias depois. A resposta podia ser mais circumspecta; no estado em que elle se achava, pareceu-lhe excellente.
Pela volta do meio dia, chegou Melchior. Na sala de visitas achou D. Ursula, que o espreitava de uma das janellas.
—Helena? perguntou elle ancioso.
—Ja hoje desceu,—respondeu D. Ursula. Está mais tranquilla. Não lhe perguntei nada, mas dizendo-lhe que o senhor viria falar-lhe, mostrou-se anciosa por vel-o, e pediu-me até que o mandasse chamar.
Seguiram os dous até á saleta que ficava ao pe da sala de jantar. Helena estava sentada, com a cabeça cahida sôbre as costas da cadeira, e os olhos meios cerrados. Logo que o padre entrou, Helena abriu os olhos e ergueu-se. Vivo e passageiro rubor coloriu-lhe as faces pallidas da vigilia e da afflicção. Ergueu-se e deu dous passos para o padre, que lhe apertou as mãos entre as suas.
—Imprudente! murmurou Melchior.
Helena sorriu, um sorriso pallido e tão passageiro como a côr que lhe tingira o rosto, D. Ursula dispoz-se a ir chamar Estacio, que estava no andar de cima. Apenas a viu sahir, Helena segurou em uma das mãos do padre.
—Queria vel-o! disse ella. Não tenho ânimo de falar a ninguem mais, de dizer tudo...
—É inutil; tudo sei, interrompeu Melchior sorrindo. O Vicente foi hoje de manhã á minha casa; foi de movimento proprio; relatou-me quanto sabia; disse-me que esse homem é seu irmão; que a senhora o ia ver, a occultas, não podendo ou não querendo apresental-o em casa de seus parentes. O escrupulo era excessivo, e o acto leviano. Porque motivo dar apparencia incorrecta a um sentimento natural? Teria poupado muita afflicção e muita lagryma a si e aos seus, se tomasse antes o caminho direito, que é sempre o melhor.
Helena ouvia éstas palavras do padre com a alma debruçada dos olhos. Não parecia sequer respirar. Quando elle acabou, perguntou soffrega:
—Com que intento lhe falou elle?
—Com o mais puro do todos; desconfiou que a senhora padecia por isso e veiu contar-me tudo.
Helena cruzou os dedos e ergueu os olhos. Melchior não a quiz interromper nessa ascenção mental ao ceu; limitou-se a contemplal-a. A belleza de Helena nunca lhe parecêra mais tocante do que nessa attitude implorativa. A contemplação não durou muito, por que a oração foi breve.
—Orei a Deus,—disse ella, descendo as mãos,—por que infundiu ahi no corpo vil do escravo tão nobre espirito do dedicação. Delatou-me para restituir-me a estima da familia. Aquillo que ninguem lhe arrancaria do coração, tirou-o elle mesmo no dia em que viu em perigo o meu nome e a paz de meu espirito. Infelizmente, mentiu.
Melchior empallideceu.
—Mentiu sem o saber, continuou a moça. Disse o que suppunha ser verdade,—o que eu lhe dei como tal. Não é meu irmão esse homem.
Melchior inclinou-se para a moça e pegando-lhe nos pulsos, disse imperiosamente.
—Então quem é? Seu silêncio é uma delação; não tem ja direito de hesitar.
—Não hesito, replicou Helena; em taes situações uma creatura, como eu, caminha direito a um rochedo ou a um abysmo; despedaça-se ou some-se. Não ha escolha. Este papel,—continuou, tirando da algibeira uma carta,—este papel lhe dira tudo; leia e refira tudo a Estacio e a D. Ursula. Não tenho ânimo de os encarar nesta occasião.
Melchior, atordoado, fez um leve signal de cabeça.
—Lido esse papel,—estão rotos os vínculos que me prendem a ésta casa. A culpa do que me acontece não é minha, é de outros; aceitarei contudo ás consequencias. Poderei contar ao menos com a sua benção?
A resposta do padre foi pousar-lhe um beijo na fronte, beijo de absolvição ou de clemencia, que ella lhe pagou com muitos na dextra enrugada e trémula de commoção. Helena precipitou-se depois para o corredor, deixando o padre só, com a carta nas mãos, sem ousar abril-a, receioso dos males que iam dalli sahir, sem certeza ao menos de que ficaria no fundo a esperança. Ia abril-a, e hesitou se o devia fazer na ausencia de Estacio e D. Ursula; venceu o escrupulo e leu.
D. Ursula, que entrou na occasião em que elle fechava a carta, recuou aterrada. Melchior estava pallido como um defuncto. Antes que nenhum, delles falasse, entrou Estacio na saleta. Melchior dirigiu-se a elle e entregou a carta. Leu-a Estacio e dizia assim:
«Minha boa filha. Sei pelo Vicente que alguma cousa ahi ha que te afflige. Presumo adivinhar o que é. O Estacio esteve commigo, logo depois que daqui sahiste a ultima vez. Entrou desconfiado, e deu como razão ou pretexto a necessidade de curar algumas feridas feitas na mão. Talvez elle proprio as fizesse para entrar aqui em casa. Interrogou-me; respondi conforme pedia o caso. Suppondo que elle soubesse de tuas visitas, não lhe occultei a minha pobreza; era o meio de attribuil-as a um sentimento de caridade. A virtude serviu assim de capa a impulsos da natureza. Não é isso em grande parte o theor da vida humana? Fiquei, entretanto, inquieto; talvez lhe não arrancasse o espinho do coração. Pelo que me disse o Vicente receio que assim acontecesse. Conta-me o que ha, pobre filha do coração; não me escondas nada. Em todo o caso, procede com cautella. Não provoques nenhum rompimento. Se fôr preciso, deixa de vir aqui algumas semanas ou mezes. Contentar-me-ha a ideia de saber que vives em paz e feliz. Abençoo-te, Helena, com quanta effusão pode haver no peito do mais venturoso dos paes, a quem a fortuna, tirando tudo, não tirou o gôsto de se sentir amado por ti. Adeus. Escreve-me.—Salvador.»
P.S. Recebi o teu bilhete. Pelo amor de Deus, não faças nada; não saias dahi; seria um escandalo.»
Estacio não comprehendeu desde logo o que acabava de ler. A verdade parecia inverossimil. Seu primeiro movimento foi sahir dalli e ter com Helena. Melchior deteve-o a tempo.
—Não precipitemos nada, disse elle. Socegue primeiro.
Estacio deixou-se cahir n'uma cadeira; Melchior communicou o conteudo da carta a D. Ursula, cujo pasmo foi ainda mais profundo que o do sobrinho, porque ella não soltou uma palavra, não fez um gesto; ficou a olhar estupidamente para o papel. Houve então entre aquelles tres personagens dez minutos de mortal silêncio. D. Ursula não pensava; olhava para a carta, logo depois para o sobrinho e o padre, como a esperar uma conclusão que seu proprio espirito não podia deduzir dos acontecimentos. Estacio ficára desorientado; em vão procurava um fio de deducção entre suas ideias; a revellação nova era uma complicação mais. Se a carta era sincera, como explicar a declaração testamentária de seu pae? Se o não era, como explicar a audacia de semelhante invenção? Elle não podia discernir o que era favoravel a Helena, nem ousava affirmar o que lhe era adverso.
No meio daquella familia, arriscada a dispersar-se, Melchior considerava a superioridade da morte sobre alguns lances terriveis da vida. Se o obito de Helena tomára o logar da carta, a dor seria violenta; mas o irremediavel desfecho e o consolo da religião teriam contribuido para sarar a alma dos que ficassem e converter o desespêro de alguns dias na saudade da vida inteira. Em vez disto, estava elle talvez diante de um destino aniquillado; via um abysmo possivel entre corações que a vontade de um morto vinculára. Qualquer que fôsse a veracidade da carta, o resultado era talvez esse.
Melchior foi dalli ter com Helena, para alcançar mais detida explicação do quê acabava de ler. Ella ergueu-se quando o viu, e pareceu reviver ao contemplar o gesto benevolo com que elle lhe falou. Um longo suspiro de alivio rompeu-lhe do coração; seus braços cahiram sobre os hombros do padre, em cujo seio escondeu o rosto e repousou emfim,—um minuto—das dores que a affligiam.
—Perdoaram-me? disse ella.
—Hão de perdoar; conte-me tudo.
—Oh! não posso, não sei; sei que é meu pae.
O capellão não insistiu; voltou aos outros dous, a quem achou na posição em que os deixára. Interrogaram-n'o com os olhos.
—Nada, disse elle. Seu coração não possue nesta occasião a necessaria fôrça para responder a quanto se lhe devia perguntar; demais não sabera tudo. Temos a primeira confissão da verdade....
—Da verdade? interrompeu melancholicamemte Estacio. Quem sabe se é verdade o que lemos nesse papel?
—É, deve ser. Faltam-nos, é certo, os fundamentos da asseveração; mas eu incumbo-me de ir buscal-os.
—Iremos ambos.
D. Ursula quiz dissuadir o sobrinho de ir á casa do homem, causa dos desastres da familia; não tanto por que lhe parecia que entre Estacio e elle nenhuma relação convinha estabelecer, mas sobretudo por que ella precisava de alguem que a acompanhasse em tão graves circumstâncias. Melchior inclinou-se ao alvitre de D. Ursula.
—Irei eu só, disse elle; depois conduzil-o-hei até ca, se fôr preciso.
—Não posso esperar, insistiu Estacio; preciso falar a esse homem, ouvil-o, ler-lhe a verdade ou o embuste nas linhas do rosto. Talvez o decoro da familia exigisse outra cousa; mas, padre-mestre, meu coração goteja sangue.
Era impossivel dissuadil-o; Melchior tratou somente de o moderar. De resto, a crise era violenta; cumpria resolvel-a sem demora nem hesitação. O padre animou D. Ursula, e sahiu acompanhado de Estacio, cujo coração, convalecido do primeiro abalo, deixava as regiões da dúvida para entrar na atmosphera da verdade,—pelo menos da esperança. Quaesquer que fossem as consequencias da nova revellação, vinha ésta como um balsamo, apos tão dolorosas commoções; era um rasgão azul no ceu tempestuoso daquelles dias. Ia elle pensando assim,—ou antes sentindo,—por que o pensamento não ousava regel-o, desde que a vida inteira do moço se lhe concentrára no coração.
Chegando em frente da casa, Estacio desviou os olhos; custava-lhe encaral-a, mas venceu-se. Houve demora em abrir a porta; abriu-se ésta emfim, e a figura do dono da casa appareceu aos dous. Vendo-os, empallideceu um pouco, mas um sorriso procurou disfarçar a impressão. Estacio foi direito ao fim.
—Supponho que se lembra de mim? disse elle.
—Perfeitamente.
—Sabe que motivo nos traz a sua casa?
—Não, senhor.
—Confessa a autoria desta carta?
Salvador estremeceu; depois respondeu com um gesto affirmativo.
—Pretende que Helena é sua filha, disse o moço depois de um instante. Confirma verbalmente o que escreveu?
—Helena é minha filha.
Melchior interveiu.
—Ha um anno, fallecendo, o meu velho amigo conselheiro Valle, reconheceu Helena, por uma clausula testamentária; recommendava á familia que a tratasse com affecto e carinho e designava o collegio em que ella estava sendo educada. O facto do reconhecimento e as circumstâncias que apontou dão toda a veracidade á palavra do morto. Que prova apresenta o senhor em contrário a ella?
—Nenhuma, disse Salvador; não tenho prova de nenhuma natureza.
—Na falta de provas, proseguiu o capellão, poderia dizer-nos como suppor da parte do conselheiro uma falsificação tratando-se de disposição tão grave como essa de introduzir uma pessoa extranha na familia?
Salvador sorria amargamente.
—Supponha,—disse elle,—que eu havia illudido a confiança do conselheiro, e que elle acreditava ser pae de Helena.
—Era isso?
—Não era. Na posição em que nos achamos já não ha logar para meias palavras. Fôrça é referir tudo. Dez minutos apenas.
Os tres sentaram-se. Melchior olhava para o dono da casa com a persistencia e a curiosidade naturaes da occasião. Salvador esteve alguns instantes calado; emfim voltou-se para o capellão.
—Estimo, disse elle, que o Sr. padre viesse; sua caridade temperará a legítima indignação deste mancebo; e eu farei as declarações indispensaveis na presença das duas pessoas a quem mais amo, abaixo de Helena.
—Queira falar, disse seccamente Estacio.
CAPITULO XXV
—A mãe de Helena, disse Salvador, cuja belleza foi a causa, a um tempo, da sua ma e boa fortuna, era filha de um pobre lavrador do Rio Grande do Sul, onde tambem nasci. Apaixonamo-nos um pelo outro. Meu pae oppoz-se ao casamento; tinha alguns bens, mandara-me estudar, queria ver-me em posição brilhante. Angela podia ser obstaculo á minha carreira, dizia elle. Oppoz-se, e eu resisti; raptei-a; fomos viver na campanha oriental, d'onde passamos a Montevideo, e mais tarde ao Rio de Janeiro. Tinha vinte annos quando deixei a casa paterna; possuia alguns estudos poucos, meio duzia de patacões, muito amor e muita esperança. Era de sobra para a minha edade, mas insuficiente para o meu futuro. A lua de mel foi desde logo uma noite de privações e trabalhos. Minha vida começou a ser um mosaico de profissões; aqui onde me veem, fui mascate, agente do foro, guarda-livros, lavrador, operario, estalajadeiro, escrevente de cartorio; algumas semanas vivi de tirar cópias de peças e papeis para theatro. Trabalhava com energia, mas a fortuna não correspondia á constancia, e o melhor dos annos gastei-o em luta aspera e desegual. Uma compensação havia, a mais doce de todas: era o amor e o contentamento de Angela, a egualdade de animo com que ella encarava todas as vicissitudes. Pouco tempo depois da nossa fuga havia outra compensação mais: era Helena. Essa menina nasceu em um dos momentos mais tristes da minha vida. Os primeiros caldos da mãe foram obtidos por favor de uma mulher da visinhança. Mas nasceu, em boa hora, e foi um laço mais que nos prendeu um ao outro. A presença de um ente novo, sangue do meu sangue, fez-me redobrar de energia. Trabalhava com alma, luctava resoluto contra todas as fôrças adversas, certo de encontrar á noite a solicitude da mãe e as ingenuas caricias da filha. Os senhores não são paes; não podem avaliar a fôrça que possue o sorriso de uma filha para dissolver todas as tristezas accumuladas na fronte de um homem. Muita vez, quando o trabalho me tomava parte da noite, e eu, apezar de robusto, me sentia cançado, erguia-me, ia ao berço de Helena, contemplava-a um instante e parecia cobrar fôrças novas, Se o proprio berço era obra de minhas mãos! Fabriquei-o de alguns sarrafos de pinho velho; obra grosseira e sublime: servia a adormecer metade da minha felicidade na terra.
Salvador interrompeu-se commovido.
—Perdoem-me,—continuou elle depois de alguns instantes, se éstas memorias me abalam o coração. Eu era pobre, tão pobre como hoje. Desse tempo só resta um echo doloroso e consolador. Crescia Helena e cresciam suas graças. Era o encanto e a esperança do meu albergue. Quando pôde aprender os rudimentos da leitura, dei-lhe as primeiras licções; assisti pasmado á aurora daquella intelligencia que os senhores veem hoje tão desenvolvida e lucida. Aprendia com facilidade, por que estudava com amor. Angela e eu construiamos os mais lindos castellos do mundo. Nós a viamos ja mulher, formosa como viria a ser, porque ja o era, intelligente e prendada, espôsa de algum homem que a adorasse e elevasse. Viviamos dessa antecipação, que era apenas um sonho, e não sentíamos os golpes da fortuna.
—Porque razão,—perguntou Melchior,—dado esse amor e nascida uma filha, não sanctificou o senhor a situação singular em que se achavam?
—A curiosidade é justa, replicou Salvador, mas a resposta é decisiva. Casar era a nossa justificação; era um argumento contra o resentimento de meu pae. Nos primeiros dias da nossa fuga do Rio Grande a propria embriaguez da felicidade desviou qualquer ideia de sanctificar e legalisar uma união consentida pela natureza. Depois vieram os trabalhos e as necessidades. Como eu tinha certeza de não fugir ao dever que tomára em meus hombros, ia adiando o acto de mez para mez, de anno para anno. Afinal o projecto esvaiu-se de todo. Estavamos ligados pela miseria e pelo coração, não pretendiamos o respeito da sociedade; triste desculpa, e ainda mais triste recordação, por que o casamento teria talvez obstado aos acontecimentos posteriores. Helena contava seis annos. Minha fortuna, adversa sempre, com intermittencias favoraveis, parecia abrandar um pouco. Ia encetar um novo meio de vida, quando uma circumstância grave me chamou ao Rio Grande. Meu pae adoecêra; mandava-me o seu perdão, ordenando-me que o fôsse ver sem demora. Obedeci promptamente. Do que elle me remetteu para as despezas dr viagem e outras, deixei alguma cousa a Angela e Helena, e parti. Vinte e quatro horas depois de ver meu pae, tive a dor de o perder. A liquidação dos negocios foi curta; os bens todos ficaram pertencendo aos credores; restavam-me alguns patações. Recebi esse golpe novo com a philosophia da insensibilidade. Quem sabe se não era eu o culpado do acontecimento? Os negocios entretanto, apezar de curtos, demoraram-me mais do que eu pretendia e convinha. A ancia de voltar cresceu desde que não recebi a resposta das últimas cartas que escrevi a Angela. Enfim, pude regressar ao Rio de Janeiro com um luto mais e uma esperança menos. Neste ponto entra a pessoa de seu pae.
Estacio desviou os olhos.
—Logo que cheguei,—continuou Salvador,—corri a casa; achei-a fechada. Um visinho, testemunha da minha afflicção, deu-me notícia de que Angela se mudára para S. Christovão. Não sabia nem o numero nem a rua; mas deu-me algumas indicações, que me guiaram. Ainda hoje tenho ante os olhos o sorriso com que aquelle homem me respondia. Era um sorrir de compaixão que humiliava. Sem nunca haver recebido de mim a menor offensa, vejo que elle tinha um prazer secreto com o meu infortunio. Porque? Deixo aos philosophos liquidarem esse enigma da natureza humana. Voei a S. Christovão; gastei tempo em procurar a casa, mas dei com ella. Quando a vi, duvidei de meus olhos ou das indicações. Era uma casa elegante, escondida entre o arvoredo, no meio de um pequeno jardim. Podia ser aquella a residencia da companheira de minha miseria? Receioso de ir bater alli, vi assomar ao portão um homem, que me pareceu ser o jardineiro. Perguntei pela dona da casa, a quem dei o seu proprio nome, dizendo que lhe desejava falar. «A senhora sahiu,» respondeu elle distrahidamente. Dispuz-me a esperar, mas o jardineiro observou-me que ia sahir e fechar o portão, e que a senhora só voltaria á noite. «Esperarei até a noite», redargui. O jardineiro mediu-me de alto a baixo, circulou um olhar cautelloso pela rua e disse-me baixinho: «Aconselho ao senhor que não volte; o patrão não hade gostar.» Não escrevo um romance; dispenso-me de lhes pintar o efeito que produziram essas palavras. O que senti excede a toda a descripção. Ha catastrophes mais solemnes, ha situações mais patheticas; mas naquella occasião parecia-me que todas as dores do mundo se tinham convergido para meu coração. O jardineiro era verdadeiramente compassivo; lendo em meu rosto o effeito de suas palavras, disse-me alguma cousa de que absolutamente me não lembro. Convidou-me com brandura a sahir; obedeci machinalmente. Podendo informar-me acerca de Angela, não o fiz. A febre reteve-me tres dias de cama, n'uma pobre cama alugada em pessima estalagem da Cidade Nova. No terceiro dia recebi uma carta de Angela. Pedia-me que lhe perdoasse o passo que dera; que uma paixão nova e delirante a havia guiado, e que, se viesse a arrepender-se, seria essa a minha vingança. Quando li a carta, tive impeto de ir ter com ella e esganal-a; mas o impeto passou, e a dor desfez-se em reflexões. Poucos dias antes, a bordo, um engenheiro inglez que vinha do Rio Grande para esta Côrte, emprestara-me um volume truncado de Shakespeare. Pouco me restava do pouco inglez que aprendi; fui soletrando como pude, e uma frase que alli achei fez-me estremecer, na occasião, como uma profecia; recordei-a depois quando Angela me escreveu. «Ella enganou seu pai, diz Brabantio a Otelo, há de enganar-te a ti tambem.» Era justo; pelo menos, era explicavel. Dous dias depois da carta de Angela, escrevi-lhe pedindo meia hora de conversação; nada mais. Angela concedeu-me a entrevista. Meu plano era arrebatar-lhe Helena; ela parece que o previu, recebendo-me sosinha, no jardim, ás nove horas da noite.