MACHADO DE ASSIS (continued 4)
Reading edition
—Por que razão recorda todas essas minucias? interrompeu Melchior com brandura; nós desejamos somente saber o essencial.
—Tudo é essencial na minha narração, disse Salvador. Aquella entrevista mostrou-me a toda a luz o caracter de Angela. Que outra mulher se arriscaria, em taes circumstâncias, a affrontar a colera do homem desprezado? Angela era um complexo de qualidades singulares. Capaz de supportar as maiores angústias, forte e risonha no meio das maximas privações, esqueceu n'um instante as virtudes que tinha para correr atraz de uma fantasia do amor. Não foi a riqueza que a seduziu; ella iria, ainda que tivesse de trocar a riqueza pela miseria. Angela nasceu metade freira e metade bailarina; capaz das austeridades de um claustro, não o era menos das pompas da scena. E dahi... não fui eu mesmo que a desviei da estrada real para mettel-a por um atalho obscuro? Disse-lh'o naquella noite em que procurei ser tranquillo e superior aos acontecimentos. «Meu fim,—declarei eu,—é só um: levar Helena; Helena é minha filha, não quero deixal-a entregue a seus maus exemplos.» As lagrymas com que me banhou as mãos, as rogativas que me fez, ajoelhada a meus pes, para que lhe deixasse Helena, não ha negar que foi tudo sincero. Cedi apparentemente. Minha resolução estava assentada; sem Helena a vida parecia-me impossivel. Que outro vínculo me prendia ao mundo? A morte e a miseria tinham feito em redor de mim completa solidão. A unica felicidade sobrevivente era ella.
—Segundo rapto, observou o padre. O senhor condemnava-se a só adquirir um vislumbre de felicidade por meios violentos.
—Tem razão, respondeu Salvador com tristeza; um abysmo chamava outro abysmo... Felizes os que sabem o caminho recto da vida, e nunca se arredaram delle! Quiz arrebatar Helena; espreitei-a noite e dia. Não a via nunca; a propria casa rara vez tinha uma porta ou janella aberta. Havia alli o recato e o mysterio. Um dia resolvi ir ter com o protector de Angela. A noticia que me deram do conselheiro Valle era a mais honrosa do mundo. Assentei que me ouviria e cederia a meus justos rogos. O demonio do orgulho impediu a execução do plano. Quasi a entrar em casa do conselheiro, recuei. Decorreram assim cêrca de dous mezes. Emmagreci; as longas vigilias fizeram-me pallido; o trabalho não me attrahia; cheguei a padecer fome. O poeta que disse que a saudade é um pungir delicioso não consultou meu coração. Acerbo o achei eu; é certo que a ella misturava-se a colera, a colera da impotencia e o desgôsto mortal do abandono. Um dia, dirigi-me para S. Christovão, disposto a empregar a violencia, com tanto que trouxesse Helena ou fôsse dalli para o Aljube. Era á tardinha. Approximei-me do jardim de Angela, ouvi a voz de minha filha. Era a primeira vez depois de longos mezes! Parou-me o sangue todo. Passado o primeiro abalo, caminhei cautelloso encostado á cêrca, Helena falava a alguem. Por uma abertura da cêrca, pude espreital-a. Estava ao collo de um homem. Esse homem era o conselheiro. Olhei para um e outro; ora para o meu rival, ora para a minha Helena. Helena acariciava as barbas delle; este sorria para ella com um ar de ternura, que o absolvia quasi da offensa a mim feita. O coração porém apertou-se-me, ao ver dar a outro, affagos a que só eu tinha direito. Era um roubo feito á natureza; mas, se meu proprio sangue me repudiava, que podia eu exigir de alheios corações? Dahi a algum tempo,—não sei se foi curto ou longo, por que eu ficára a olhar para ambos, pasmado de amor e de colera, ouvi que falavam de mim. «Mas, olhe,—dizia Helena,—papae quando vem?» O conselheiro deu um beijo na menina, e falou de uma borboleta que nesse momento pairara sôbre a cabeça della. As creanças porém são implacaveis; aquella repetiu a pergunta. «Papae não volta» respondeu o conselheiro. Helena ficou muito séria. «Não volta? porque?» «Tua mamãe disse hontem que papae está ao ceu.» Helena levou as mãos aos olhos, donde lhe rebentaram lagrymas copiosas. Uma nuvem passou-me pelos olhos, tentei dar alguns passos, entrar no jardim, dizer quem era e exigir minha filha. Os musculos não corresponderam á intenção; senti fraqueza nas pernas; achei-me de bruços. Quando dei accôrdo de mim, volvi de novo os olhos para o logar onde os víra. Ainda alli estavam, mas a attitude era differente. O conselheiro erguera-se, tendo nos braços Helena, que ja não chorava. Elle beijava-lhe as mãosinhas e dizia-lhe: «Se papae foi para o ceu, fiquei eu no logar delle, para dar-te muito beijo, muito doce e muita boneca. Queres ser minha filha?» A resposta de Helena foi a do náufrago; estendeu-lhe os braços em volta do pescoço, como se dissesse; «Se não tenho ninguem mais no mundo!» O gesto foi tão eloquente que eu vi borbulhar uma lagryma nos olhos do conselheiro. Essa lagryma decidia do meu destino; vi que elle a amava, e de todos os sacrificios que o coração humano póde fazer, aceitei o maior e mais doloroso: eliminei a minha paternidade, desisti da unica herança que tinha na terra, fôrça da minha juventude, consolo de minha miseria, coroa de minha velhice, e voltei á solidão mais abatido que nunca!
Salvador interrompeu a narração; levou a mão direita aos olhos; por entre seus dedos escorreram algumas lagrymas, que elle, de envergonhado, enxugou rapidamente.
—Essas recordações são penosas, disse o padre; não convem despertal-as de uma vez; seria abrir feridas que o tempo cicatrisou. Sabemos o essencial...
—Não, resta ainda alguma cousa, disse Salvador.
Estacio erguera-se. Visivelmente commovido, procurava luctar contra o sentimento que o dominava, afim de conservar a necessaria independencia de espirito para julgar da narrativa e do alcance que ella podia ter. Tinha involuntariamente apertado a mão de Salvador, ao escutar-lhe as últimas palavras; e arrependera-se desse primeiro movimento, que podia parecer uma absolvição summaria. A verdade é que elle não reflectia nem sentia claramente; sua mente e seu coração eram um campo de ideias e commoções contrárias.
—Vou acabar,—disse Salvador depois de alguns minutos. Resta explicar o procedimento de Helena.
CAPITULO XXVI
—Seu pae,—continuou Salvador dirigindo-se a Estacio, que, para acabar de compor o rosto, tinha ido até á janella e voltára a sentar-se, seu pae era honrado e cavalheiro. Arrebatando-me Angela, não me trahiu, por que não me vira nunca; não contribuiu directamente para a traição della, por que suppunha cortadas nossas relações. Soube depois que Angela, quando elles se apaixonaram um pelo outro, lhe occultára completamente o motivo da minha viagem; dera-se como separada de mim. Mentiu, como mentiu mais tarde, dizendo que eu havia morrido, O conselheiro não sabia sequer o meu nome. A mentira no primeiro caso, não teve fim nenhum; não houve cálculo; foi uma suggestão de amor ou um esquecimento; foi talvez um modo de respeitar-me: no segundo caso, houve cálculo; era o de redobrar o affecto que o conselheiro tinha a Helena. Assim aconteceu, por que o conselheiro sentiu-se pae de Helena, e assumiu esse caracter desde aquella tarde. Do contracto, feito alli entre o homem e a creança, cumpriu elle toda as clausulas com generosa pontualidade. Póde crer que lhe fiquei profundamente grato. Uma vez, passando por uma lithographia, vi um retrato delle; comprei-o e conservo-o alli ao lado do de Helena.
Melchior e Estacio olharam para a parede, onde pendiam dous quadrinhos, ainda cobertos, conforme Estacio os vira, no primeiro dia em que alli foi.
—Os mezes e os annos passaram,—continuou Salvador,—Helena deu entrada em um collegio de Botafogo, onde recebeu apurada educação. O conselheiro a levou alli, dando-a como orphã de um amigo, de Minas; Angela, que se dera por sua tia, ia buscal-a aos sabbados. Omitto mil circumstâncias intermediarias, e as vezes, poucas, em que pude ver minha filha, de passagem e a occultas. Se o tempo houvesse produzido em mim os seus naturaes effeitos, se a natureza não se ajustasse em fazer contraste com a fortuna, conservando-me o vigor e o viço da mocidade, é possivel que eu achasse meio de empregar-me no collegio ou nas immediações, afim de ver mais frequentemente Helena. Mas eu era o mesmo: passado o primeiro abalo, voltaram-me as carnes, voltou-me a côr, e eu era e mesmo que antes de partir para o Rio Grande. Helena podia reconhecer-me; e eu faltava á convenção tacita que fizera com o conselheiro. Um sabbado, porém, tinha Helena doze annos, vindo ambas do collegio, parou o carro defronte do Passeio Publico. Vi-as descer e entrar. Levado por um impulso irresistivel, entrei tambem. Queria contemplal-as de longe sem lhes falar; mas a resolução estava acima das minhas fôrças. Que pae não faria outro tanto? No logar mais solitario do Passeio, corri para Helena. Vendo-me, a menina pareceu não reconhecer-me logo; mas attentou um pouco, recuou espavorida e agarrou-se á mãe, abraçando-a pela cintura. Conheci que não estava alli um pae, mas um espectro que regressava do outro mundo. Ia affastar-me, quando ouvi a voz de Helena perguntar á mãe: «Papae?» Voltei-me. Angela envolvêra o rosto da creança entre seus vestidos. O gesto equivalia a uma confissão; mas ésta foi ainda mais clara quando a mãe, cedendo á boa parte da sua natureza, ergueu resoluta os hombros, descobriu o rosto da filha, pousou-lhe um beijo na testa, fitou-a e fez com a cabeça um gesto affirmativo. A menina não exibiu mais; correu para mim e atirou se me nos braços. Angela não se atreveu a impedir o movimento da filha; o passado e o sacrificio falavam em meu favor. Abracei Helena e beijei-a como doudo. Angela interveio: «Basta!» disse ella. Pegou na mão da filha e estendeu-me a sua. Apertei-a machinalmente; meus olhos estavam pregados na creança. Era tão gentil, com o vestido rico que trazia, os cabellos enlaçadas com fitas azues, um chapellinho de palha e os pesinhos calçados com botinas de seda! «Fez bem, disse eu a Angela, depois de alguns instantes; deu-lhe um pae melhor do que eu.» Reparei então que ella propria se transformára; trajava com elegancia e estava superiormente bella. A abastança aperfeiçoára a natureza. Olhei-a sem inveja nem colera,—mas com saudade,—dessa vez deliciosa, porque rememorei os bons tempos da nossa ebriedade e loucura. O passado é um peculio para os que ja não esperam nada do presente ou do futuro; ha alli sensações vivas que preenchem as lacunas de todo o tempo. «Fez mal,»—disse-me ella baixinho. E suspirou. «Sei que morri,—disse eu, e não pretendo resuscitar.» Depois voltei-me para Helena:—«Minha filha, faze de conta que me não viste; morri, para ti e para o mundo. Teu pae é outro. Promettes que não dirás nada?» Helena fez um leve signal de cabeça e beijou-me a mão a furto, como se não quizesse ser vista de Angela. Nesse simples gesto reconheci que ella ia obedecer-me; mas a tristeza que lhe ficou foi o castigo de sua mãe. Pediamos á natureza mais do que ella podia dar.
Salvador fez uma pausa, ergueu-se foi à commoda, e de uma das gavetas tirou uma caixinha, que collocou sôbre a mesa. Melchior e Estacio trocaram um olhar de curiosidade. Salvador sentara-se de novo.
—Angela morreu,—proseguiu elle,—dahi a um anno. Seu pae e alguns amigos poucos foram leval-a á sepultura. Tambem eu la me achei. A differença é que elle enterrava uma aventura, e eu via enterrar o meu passado. Vi-o triste e taciturno, como sinceramente pezaroso da creatura que perdéra. Helena, entretanto, não podendo estar só na mesma casa, foi removida para o collegio, onde ficou residindo definitivamente. O conselheiro ia visital-a todas as semanas. Pela minha parte, certo da discrição de minha filha, encetei com ella uma correspondencia que era toda a consolação que me podia caber. Uma escrava do collegio servia de intermediaria entre nós. Então, como hoje, achei uma alma compassiva que me ajudou a ser feliz com mysterio; a differença é que naquelle tempo era precisa a intervenção pecuniaria. Eu tinha pouco, mas dava o jantar de um dia para ler cartas de Helena. Conservo-as todas, tanto as de outr'ora, como as destes últimos mezes; estão fechadas aqui.
Salvador mostrou a caixinha que collocára sôbre a mesa.
—Um dia, almoçando em um botequim, li a notícia da morte do conselheiro. O facto consternou-me; mas eu peço licença para lhes dizer tudo; de envolta com o sentimento, de pezar, houve em mim alguma cousa semelhante a uma satisfação. Respirava enfim! O contracto expirava com elle; eu ia entrar na posse de minha filha. Não escrevi desde logo a Helena; fil-o ao cabo de alguns dias. Tive duas respostas: a primeira era no sentido da minha carta; a segunda annunciava-me que o conselheiro a reconhecêra por testamento. Podia procurar e ler-lhes a segunda carta: é um documento da elevação dos sentimentos daquella menina. Exprimia-se com a maior gratidão e saudade a respeito do conselheiro; mas negava-se a aceitar o favor posthumo. Sabendo a verdade, não queria escondel-a ao mundo. Acceitando o reconhecimento, entendia que prejudicava direitos do terceiro, além de repudiar-me solennemente, o que não queria fazer desde que adquiria a liberdade de acção. Entre a herança e o dever, dizia ella, escolho o que é honesto, justo e natural. Esta carta tirou-me o somno uma noite inteira, perplexo como fiquei entre o acto do finado e a resolução da herdeira. Que mão invisivel tocára no coração do conselheiro essa corda de sensibilidade? Melhor fora que elle houvesse traduzido era uma simples lembrança a affeição que tinha a Helena. Longo tempo reflecti nisso; o pae luctava com o pae. Tel-a commigo era a minha ventura, o meu sonho, a minha ambição; era a realidade que eu chegára a tocar com as mãos. Mas podia atal-a ao carro decrepito da minha fortuna, dar-lhe o pão amargo, que era o meu lote de todos os dias? A familia do conselheiro ia afiançar-lhe futuro, respeito, prestigio; a lei ia amparal-a. Perguntei a mim mesmo, se depois de haver morrido para o mundo, me era licito resuscitar para reclamar e rehaver um titulo de que me havia despojado; finalmente se possuia ja o direito de fazer um escandalo. Éstas reflexões, se viessem sos, teriam triumphado desde logo; mas, em opposição a ellas, vieram as suggestões do coração. Adverti que, cedendo á vontade do morto, cavaria um abysmo entre mim e Helena, e que não mais, ou só raramente e a o occultas, podia desfructar, a felicidade de lhe dizer que a amava, de ouvir a mesma palavra de seu coração. Nessa lucta gastei tres longos dias. Helena escreveu-me outra carta, insistindo na resolução que dizia haver tomado. Urgindo responder-lhe, fil-o sacrificando-me, não a convenci. Procurei ter uma entrevista com ella. Não era facil; mas o interesse venceu tudo; a escrava intermediaria augmentou o preço da complacencia. O que se passou entre nós não o poderei repetir agora; curto era o prazo concedido, mas a lucta foi renhida e longa. Busquei persuadil-a com reflexões e súpplicas; ella resistiu com indignação e lagrymas. Sua nobre alma repudiava a complicidade e o lucro de uma usurpação. Eu não via usurpação, por que a meus olhos nem os interesses da familia do conselheiro, nem as noções da simples moral prevaleciam: eu via minha filha e seu futuro: nada mais. Talvez os culpados desse meu proceder fossem somente Angela e seu bemfeitor. Elles me acostumaram a amal-a de longe, a não disputar a outrem o beneficio que ella recebia. Emfim, meu coração, egoista e ulcerado, entendia que o reconhecimento daquella pobre creança era o simples retorno das caricias de que eu havia sido defraudado; taes foram os motivos da minha consciencia. Helena resistiu até á ultima; cedeu somente á necessidade da obediencia, á imagem de sua mãe que eu invoquei, como um supremo esfôrço, á fiança que lhe dei de que a acompanharia sempre, de que iria viver perto della, onde quer que o destino a levasse; cedeu exhausta, sem convicção nem fervor. Se nesse acto decisivo de Helena ha culpa, é toda minha, por que eu fui o o autor unico; ella não passou de simples instrumento, instrumento rebelde e passivo. Seu êrro foi não ter a prudencia necessaria para não transpor o abysmo que nos separava. Eu devia contar com na resoluções subitas e promptas dessa menina; ha alli uma costella de sua mãe. Mandando-lhe dizer com as indicações precisas, onde morava, estava longe de esperar que ella viesse ver-me. A principio fiquei atterrado com as possiveis consequencias; mas se o homem se habitua ao mal e á dor, por que se não hade acostumar ao prazer e ao bem? Helena veiu mais vezes; o gôsto de a ver fez olvidar o perigo, e eu bebi, em horas escassas e furtivas, a unica felicidade que mo restava na terra, a de ser pae e a de me sentir amado por minha filha.
CAPITULO XXVII
Tinha acabado; grossas lagrymas, retidas a custo, emfim lhe rebentaram dos olhos e rolaram pelo rosto abaixo do narrador. A commoção não ficou só nelle; seus dous ouvintes a sentiram tambem. Acabára; e o peor que podia acontecer era isso mesmo. Uma vez finda a narração, ficaram os dous calados e perplexos, sem que ousassem contradizel-o. Depois de curta pausa, Salvador rematou assim:
—De tudo o que lhes disse não tenho outras provas, além destas cartas, que seriam bastantes, o de minhas lagrymas, que hão de ser eternas. Mas ainda quando haja outras, creio que não serão precisas. Na situação em que estamos só ha duas soluções possiveis; ou nada se altera do que o conselheiro estatuiu, e somente eu carregarei as consequencias da sorte, desaparecendo; ou a familia regeita Helena, e eu a levarei commigo. Dir-se-ha que a lei a protege a todo trance? Pois ella assignará todas as desistencias necessarias.
Estacio cortou-lhe a palavra dizendo que opportunamente lhe dariam sua resolução. Sahiram elle e Melchior logo depois; não trocaram uma só palavra; cada um delles ia absorto. Comtudo, o padre observava de quando em quando o sobrinho de D. Ursula, buscando adivinhar-lhe os pensamentos.
Chegando á porta da chacara, o padre perguntou ao moço:
—Que pretende fazer?
—Não sei ainda.
—Sei eu o que deve fazer: nada.
—Conservar ésta situação?
—De certo. Helena obedeceu á vontade de seus dous paes, aceitando o equívoco em que ambos a vieram collocar. Obedeceu á fôrça. Agora, está reconhecida; é um facto que não podemos discutir nem alterar.
Estacio esteve silencioso alguns instantes.
—Mas posso eu, á vista do que acabamos de ouvir, conservar a Helena um titulo que rigorosamente lhe não pertence? Helena não é minha irmã; é absolutamente extranha á nossa familia; o titulo que nos ligava desaparece. Por que motivo continuariamos nós uma falsificação...
—De seu pae? atalhou Melchior.
—Padre-mestre!
—Aquelle homem falou verdade; mas nem a lei nem a Egreja se contentam com essa simples verdade. Em opposição a ella, ha a declaração derradeira do um morto. A justiça civil exige mais do que palavras e lagrymas; a ecclesiastica não extingue, com um traço de penna, a affirmação posthuma. Demais, não espere que esse homem reproduza perante ninguem as declarações de ha pouco; só o fará quando perder a ultima esperança. É evidente que elle nada quer alterar do que seu pae estabeleceu, e antes se sacrificará do que envergonhará a filha. Sente-se disposto a fazer o que elle recusa?
Estacio não respondeu; tinham entrado na chacara, e caminhavam lentamente na direcção da casa. Melchior deteve-o.
—Estacio! disse o padre depois de olhar para elle um instante. Eu leio no fundo de seu pensamento; quizera despojar Helena do titulo que seu pae lhe deixou para lhe dar outro, e ligal-a á sua familia por differente vínculo...
Estacio fez um gesto como protestando.
—Esquece duas cousas graves; o escandalo e o casamento de um e outro; ja se não pertence, nem ella se pertence a si. Vamos la; seja homem. Sepultemos quanto se passou no mais profundo silêncio; e a situação de hontem será a mesma de amanhã.
Quando Estacio e Melchior entraram era casa, ja D. Ursula sabia tudo; lográra desatar a lingua de Helena. Abatida com a leitura da carta, não lhe levantára o ânimo a narração verbal da moça; seu coração preferia talvez que Helena fôsse verdadeiramente filha do conselheiro. Alguns mezes de espaço e a convivencia affectuosa produziram a differença de sentimento entre o primeiro e o último dia.
—Nada podemos fazer ja agora, disse o padre; provocariamos um escandalo sem esperança do resultado.
D. Ursula fez um gesto de assentimento. Chamada a ouvil-os. Helena desceu dahi a alguns minutos. A côr da vergonha tingiu-lhe a face logo que ella deu com Estacio, que a esperava, ao lado de Melchior, ambos calados, mas sem nenhum vislumbre de irritação. Apos um silêncio longo e abafado, Estacio communicou a Helena a resolução da familia e seus sentimentos de generosidade e confiança; concluiu dizendo que sôbre todas as cousas prevalecia a vontade derradeira de seu pae. Helena empallideceu e cerrou os olhos; D. Ursula correu a amparal-a. O organismo debilitado pelas vigilias e commoções das últimas horas não pudera resistir; mas o deliquio foi leve e curto. Voltando a si, Helena beijou ardentemente as mãos de D. Ursula e as do padre, estendeu a dextra a Estacio, que a apertou; depois, com voz trémula, mais firme resolução, disse:
—Meu coração ficará eternamente grato ao resto de estima que não perdi; mas a situação mudou, e fôrça é mudar com ella. Não quero a protecção da lei, nem poderia receber a complacencia de corações amigos. Commetti um erro, e devo expial-o. Emquanto a vergonha vivia só commigo, era possivel continuar nesta casa; eu atordoava-me para esquecel-a; mas agora, que é patente, vel-a-hei nos olhos de todos e no sorriso de cada um. Peço-lhes que me perdoem e me deixem ir! Não devêra ter entrado, é certo. Expio a fraqueza de um coração que eu me habituára a amar de longe, com o prestigio de mysterio, e o encanto do fructo prohibido. De hoje em diante, amal-os-lei de longe ou de perto, mas extranha... e perdoada!
Dizendo isto, Helena abraçou D. Ursula como a pedir o beneficio da sua intervenção. D. Ursula abraçou-a egualmente, mas fez com a cabeça um gesto negativo. Melchior observou que a repulsa era pelo menos um symptoma de desprendimento pouco explicavel em relação á familia, que, sem embargo dos ultimos successos, não lhe retirára nem a estima nem a protecção.
—Herdou o orgulho de seu pae! murmurou Estacio.
A phrase foi dita em voz baixa, mas Helena ouviu-a, e seus olhos fulgiram de momentanea satisfação. Attribuir a orgulho, o que era vergonha e remorso, dava-lhe certa superioridade que a moça julgava não ter naquelle lance. Protestou em favor de seus sentimentos de gratidão, com a palavra viva, animada, cordial que todos tres lhe conheciam, mas interrompida a intervallos pela commoção interior, e pelos lagrymas que lhe escorriam dos olhos, quasi exhaustos de chorar. Estacio poz termo a todas as hesitações.
—Pois bem, disse elle, será isso mais tarde; a lei é por nós; e nossa vontade é que nos obedeça.
Helena mordeu o labio com desesperação, mas não respondeu. A cabeça descahiu-lhe lentamente como ao pêso de uma ideia a mais e mais oppressora. Depois ergueu-a; seus olhos tristes, mas animados dos ultimos raios de uma esperança, dirigiram-se para os de Estacio, que nessa occasião pareciam falar as dores todas da paixão suffocada e rebelde. Ambos elles os baixaram á terra, medrosos de si mesmos.
—Não creio que ella aceite facilmente a sua decisão,—disse Melchior a Estacio, logo que pôde achar-se só com elle. Acautele-se: é capaz de fugir-nos.
—Cre?
—Não a conhece ainda? A posição em que estes acontecimentos a deixaram repugna-lhe mais que tudo. Prefere a miseria á vergonha; e a ideia de que interiormente não a absolvemos, é o verniz que lhe fica no coração.
De noite, recebeu Estacio uma carta de Salvador, acompanhada de um pacote.
«Reflecti muito durante éstas duas horas,—dizia elle,—e cheguei a uma conclusão unica. Elimino-me; é o meio de conservar a Helena a consideração e o futuro que lhe não posso dar. Quanto ésta carta lhe chegar ás mãos, terei desaparecido e para sempre. Não me procure, que é inutil. Irei abençoal-o de longe. Recaia, entretanto, sobre mim todo o resentimento; eu só o mereço, porque só eu o provoquei. Vão as cartas de Helena; guardo tres apenas, como recordação da felicidade que perdi.»
Estacio teve vontade de ler as cartas de Helena; mas a tempo recusou; mandou-a dar á moça. Helena, que estava com D. Ursula, entregou-as a ésta.
—São a minha história, disse ella; peço-lhe que as leia e me julgue.
Havia em seus olhos uma expressão que não era usual. Recolheu-se immediatamente a seu quarto, onde jazeu longo tempo, calada, quieta, sinistra, o corpo atirado em um sopha, a alma sabe Deus em que regiões de infinito desespêro.
CAPITULO XXVIII
Naquella noite, a segunda de tão singulares successos, foi que Estacio sentiu toda a violencia do amor que lhe inspirára Helena. Em quanto os detinha um vínculo sagrado, amára sem consciencia; e ainda depois de esclarecido pelo padre, o esfôrço empregado em vencer-se, e a propria natureza da catastrophe, não lhe permmittiram ver a extensão do mal. Agora, sim: roto o vínculo, restituida a verdade, elle conhecia que a voz da natureza, maia sincera e forte que as combinações humanas, os chamava um para o outro; e que a mulher destinada a amal-o e ser amada, era justamente a unica que as leis sociaes lhe vedavam possuir.
Durante as primeiras horas seu coração mordeu rebelde o freio da necessidade. A vigilia foi longa e crua; e a reflexão veiu emfim dominar a tempestade interior, ou antes alumiar seus destroços. Elle viu que o padre tinha razão; que era fôrça desfolhar a esperança de um dia. Ao mesmo tempo, o exemplo de Helena deu-lhe ânimo. Senhora do segrêdo de seu nascimento, e consciente de amar sem crime, a moça apressára, não obstante, o casamento de Estacio e escolhêra para si um noivo estimado apenas. Se uma vez a palavra delatora lhe rompeu dos labios, ella a retrahiu logo, fazendo o mais obscuro dos sacrificios.
Não quiz Estacio ser menos generoso. Logo de manhã escreveu a Mendonça, pedindo-lhe que não deixasse de os ir visitar nesse dia. Não o fez sem custo, mas fel-o sem arrependimento. Tinha por fim apressar o casamento de Helena e o seu, condemnando-se a soffrer calado os golpes do avêsso destino.
A manhã, entretanto, não trouxe a Helena o esquecimento e a paz. A noite não lhe serviu de remedio, antes legou á aurora toda a sua mortal angústia. Debilitada, nervosa, impaciente, não podia a moça vencer-se nem supportar-se. Ora repellia com sequidão as boas palavras de D. Ursula; ora lhe pedia intercedesse com Estacio para a resolução que ella admittia como unico meio de a poupar á vergonha. A excitação moral era grande; cumpria aquietal-a por meios persuasivos. Helena fugia a todos: não encarava Estacio e D. Ursula sem que o pêjo lhe colorisse a face, mudança tanto mais visivel, quanto que a vigilia e a dor a tinham empallidecido singularmente. Diziam-lhe que a vontade do conselheiro estatuira uma lei na familia, segundo a qual ella continuava a ser parenta como d'antes, e tão amada como era. A moça agradecia a generosidade, mas não podia fugir á ideia de haver contribuido para uma usurpação. Seu desejo capital era que a deixassem ir ter com o pae, ao pe de quem a natureza e sua consciencia lhe indicavam que poderia estar sem remorso. Estacio e D. Ursula respondiam-lhe com affagos e protestos; mas quando viram que estes eram inuteis, não houve mais que revellar-lhe a carta de Salvador.
O padre Melchior incumbiu-se de lhe fazer essa delicada communicação.
—Seu pae, disse elle, praticou em seu favor um acto heroico; fugiu para lhe não fazer perder a consideração e o futuro. Leia ésta carta, e veja se ella lhe dá a fôrça necessaria para resistir.
Helena pegou na carta com soffreguidão; leu-a de um lance d'olhos. O gemido que lhe rompeu do coração mostrou bem a profundez da ferida que acabava de receber. O padre acolheu-a lacrymosa e esvaecida em seus braços; disse-lhe palavras de conforto e de esperança. Nos primeiros minutos, Helena nada pôde ouvir; o golpe ensurdecêra a alma. Melchior fel-a sentar ao pe de si; ella obedeceu sem consciencia. Apos alguns minutos de silêncio e concentração, a moça dirigiu a palavra ao padre, e agradeceu-lhe a caridade. Depois referiu-lhe os acontecimentos de sua infancia, os mesmos que o capellão ouvira. A sagacidade natural de seu espirito cedo lhe fizera ver que a posição de sua mãe não era a mesma das outras mães; essa descoberta porém não teve outra virtude mais que communicar a seu amor de filha uma intensidade e energia capazes de affrontar os mais fortes obstaculos, como se ella quizesse reunir em si toda a somma de affectos e respeitos que a sociedade afiança ás situações regulares. Melchior ouviu-a commovido; seu coração, nutrido da medulla do Evangelho, reconheceu um effeito da graça divina nesse amor immaculado, que valia por todas as absolvições da terra. Elle a applaudiu e confortou; falou-lhe do futuro, do carinho de sua familia,—sua, a despeito de tudo; emfim da obrigação em que ella estava de corresponder a tanta confiança.
Talvez Helena, em sua razão, correspondesse aos conselhos de Melchior; mas a razão é o que menos a dirigia naquellas circumstâncias afflictivas. Ella deixou o padre para recolher-se a seus aposentos, Quando D. Ursula alli foi, meia hora depois, achou-a profundamente abatida; a violencia da crise passára. A linguagem que lhe falou foi maternal, ungida de amor e perdão; Helena ouviu-a agradecida, mas um sorriso descorado e sem convicção lhe entre-abria os labios. Suppunha ler commiseração onde havia affecto e respeito; e seu orgulho rebellava-se de inspirar o unico sentimento que a consciencia lhe dizia merecer.
As instancias de D. Ursula para que Helena se alimentasse foram inuteis; ella apenas recebia o que bastava para não sucumbir á fome. A companhia repugnava-lhe; assim, poucas vezes a viram desde os dias que se seguiram áquella funesta manhã. Mendonça não conseguiu mais do que os outros. A familia teve o cuidado de annunciar que Helena se achava enferma. A afflicção do noivo foi grande; mas todos buscaram tranquilizal-o. Nada havendo transpirado do acontecimento, facil foi sustentar aquella explicação.
Melchior encommendára muito á familia que vigiaste a moça, cujo espirito lhe parecia atrevido e tenaz; elle receiava que Helena ou fugisse de casa, ou recorresse a algum acto de desespêro. O summo padre desvellou-se em trazer a alma de Helena ao sentimento da resignação, A autoridade de seu caracter religioso, a influência que elle tinha no espirito de Helena eram armas poderosas, temperadas como amor verdadeiro e paternal que o ligava á donzella. Nada poupou; mas seus esforços não tiveram mais fructo, que os da familia. Helena mal podia tolerar a situação.
Uma vez, como ella descesse á chacara, sahiu Estacio a procural-a, não a encontrando senão ao cabo de alguns minutos. Achou-a ao pe do tanque, no lugar em que lhe falára poucos dias antes, sentada no mesmo banco de pau. Vendo-o, estremeceu; elle approximou-se contente de a haver encontrado emfim. O dia estava feio; grossas nuvens negras pejavam o ar, humidas de temporal proximo. Estacio convidou-a a recolher-se.
—Deixe-me estar aqui um instante mais, respondeu ella.
—Dous minutos apenas.
Sentou-se ao pe della e ficaram calados. Helena tinha uma taquara na mão; Estacio quiz tomar-lh'a; ella arremessou-a para longe. Ergueu-se então o moço e foi buscal-a; só então viu que estava molhada até certa altura; calculou que seria o fundo do tanque. O tanque era raso; não poderia dar a morte; mas a suspeita de que Helena não recuaria deante do suicidio aterrou naturalmente o espirito de Estacio. Parecendo-lhe que a causa não comportava o effeito, perguntou a si mesmo se os successos daquelles dias não teriam velado a consciencia da moça. Sentou-se de novo e falou-lhe com brandura.
Ao escutal-o, sentiu Helena como uma ressurreição de outras horas, que ella julgava escoadas para sempre; um sorriso lhe animou os labios sem côr, ao passo que os olhos doridos e murchos pareciam reviver de um resto de luz. Estacio falou-lhe de si, da tia, do padre e de Mendonça, dos proximos casamentos, da felicidade futura. Depois insistiu com ella para que entrasse. Uma brisa mais forte começava a agitar as árvores, e a tempestade ameaçava cahir de repente.
—Ainda não,—disse a moça; alguns minutos mais.
—Mas póde adoecer...
—Talvez, se todos quizerem a minha saude. Ha creaturas tão malfadadas, que aquelles mesmos que as desejam fazer venturosas não alcançam mais do que preparar-lhe o infortunio. Tal foi o meu destino. Seu pae e minha mãe não tiveram outro pensamento; meu proprio pae foi levado do mesmo impulso, quando me obrigou a ser complice de uma generosa mentira. Agora mesmo que elle me foge, com o fim unico de me não tolher a felicidade, arranca-me o ultimo recurso em que eu tinha posto a esperança.
—Helena! interrompeu Estacio.
—O ultimo, repetiu a moça.
Esvaira-se-lhe o sorriso, e o olhar tornara a ser opaco. Estacio teve medo daquella atonia e concentração; travou-lhe do braço; a moca estremeceu toda e olhou para elle.
A princípio foi esse olhar um simples encontro; mas dentro de alguns instantes era alguma cousa mais. Era a primeira revellação, tacita mas consciente, do sentimento que os ligava. Nenhum delles procurára esse contacto de suas almas, mas nenhum fugiu. O que elles disseram um ao outro, com os simples olhos, não se escreve no papel, não se póde repetir ao ouvido; confissão mysteriosa e secreta, feita de um a outro coração, que só ao ceu cabia ouvir, por que não eram vozes da terra, nem para a terra as diziam elles. As mãos, de impulso proprio, uniram-se como os olhares; nenhuma vergonha, nenhum receio, nenhuma consideração deteve essa fusão de duas creaturas nascidas para formar uma existencia unica.
O vento tornara-se mais rijo; uma lufada os despertou,—em ma hora, por que ha sonhos que deviam acabar na realidade do outro seculo. Estacio ergueu-se; sacudiu valorosamente o torpor da felicidade, e reassumiu o papel que seu pae lhe assignára ao pe de Helena. Ésta desviou os olhos e cravou-os na agua, fascinada e absorta. A ideia do suicidio roçaria devéras sua aza invisivel pela fronte da moça? Estacio foi a ella, pegou-lhe nas mãos e convidou-a a sahir dalli.
—Entremos,—disse elle pela terceira vez, olhe que vae chover.
Helena deixou-se levantar; um calafrio percorreu-lhe o corpo todo, e as mãos, que o moço ainda tinha entre as suas, estavam muito mais quentes que o natural.
—Ande repousar, continuou Estacio; póde adoecer, e não tem direito para tanto; nossa affeição não o consentirá nunca. Vamos.
—Amar-me-hão sempre? perguntou Helena.
—Oh! sempre!
—Impossivel! Ha uma voz no fundo de seu coração, que lhe dirá, de quando em quando, ésta triste palavra: aventureira!
—Helena!
—Não posso ser outra cousa a seus olhos, proseguiu a moça tristemente. Quem o convencerá de que a declaração de seu pae não foi obtida por artificios de minha mãe? Quem lhe dará a prova de que, cedendo aos rogos de meu pae, não fiz mais do que executor ura plano preparado ja? São dúvidas que lhe hão de envenenar o sentimento e tornar-me suspeita a seus olhos. Resista quem puder; é me impossivel encarar semelhante futuro!
Helena cahíra offegante no banco. Estacio falou-lhe com abundancia e ternura; jurou-lhe que sua familia era incapaz da minima suspeita; pediu-lhe por seu pae que não julgasse mal delles. Ella sorriu, mas foi um sorrir de incredula.
Grossos pingos de chuva começavam a rufar nas árvores. Estacio pegou na mão de Helena para conduzil-a a casa. A moça fugiu-lhe, indo collocar-se alguns passos adeante, onde a chuva lhe cabia mais em cheio na cabeça nua e no corpo levemente coberto. Quando Estacio, desvairado de terror, correu para ella, Helena affastou-se delle; mas nem seus pes o poderiam vencer nunca, nem lh'o permittiam agora as fôrças quebradas por tantas e tão profundas commoções. Elle alcançou-a; estendeu o braço em volta da cintura da moça, dizendo:
—Que capricho é esse? Vamos embora; eu quero que venha commigo para dentro.
Ao sentir o braço de Estacio, Helena estremeceu e fez um movimento para arredal-o de si; mas a fraqueza trahiu-lhe o instincto de seu melindroso pudor. Ella fitou no moço uns olhos de corça moribunda; as pernas fraquearam, e o corpo esmorecido iria a terra, se lh'o não sustivessem as mãos de Estacio.
—Deixe-me morrer! murmurou ella.
—Não! bradou o mancebo.
Com um gesto rapido, tomou nos braços, estendida, o corpo exhausto de Helena, e caminhou na direcção da casa. O vento flagellava-os; a chuva, que subitamente cahia a jorros, alagava-os sem misericordia; elle ia andando, o mais depressa que lhe permittia o pêso de Helena, cuja cabeça pendia para a terra, e de cujos labios brotavam trechos soltos de phrases sem sentido.
D. Ursula viu entrar aquelle doloroso expectaculo; correu a receber Helena, que Estacio depositou em um sopha, donde foi transferida ao leito. A febre, ja começada antes della sahir, tomára conta emfim da pobre moça. Um médico foi chamado á pressa; o padre Melchior correu por baixo d'agua até a casa de Estacio. As primeiras horas foram de anciedade e susto; o estado da doente era grave; assim o disse o médico; assim o tinham já sentido os corações amigos.
D. Ursula pagou naquella occasião os serviços que, em caso analogo, lhe prestára Helena, mau grado e pêso dos annos, que lhe não permittiam longas vigilias nem aturado trabalho. Velou a boa senhora á cabeceira da enferma, durante essa primeira noite de incerteza e terror. Mendonça, que alli fôra sem suspeitar nada, por que a doença que lhe disseram ter padecido Helena, suppunha elle ser passageira, e em tudo caso, estar quasi extincta, Mendonça recebeu essa triste notícia com a morte no coração.
Durante sete dias o estado de Helena apresentou alternativas que lançavam na alma dos seus a confiança e a desesperação. Algumas horas houve de delirio, durante o qual dous nomes volviam frequentemente aos labios da enfêrma,—o de Estacio e o de seu pae. Nas horas da razão, falava pouco, não proferia nenhum nome, salvo o de Melchior que ella queria ver juncto de si. O capellão obedecia docilmente. Ao pe della, via-a com pena, mas sem desesperação; primeiramente, por que elle aceitava sem murmurio os decretos da vontade divina; depois, porque não sabia ao certo se, em tal situação, era a vida melhor do que a morte. Em todo o caso consolava-a; e suas palavras cahiam no coração de Helena como um orvalho do ceu.
No quarto dia chegou a familia de Camargo, sabendo da doença de Helena apressou-se a ir a Andarahy. Ao ver Eugenia, a moça sorriu tristemente, lampejo de inveja, que para logo se apagou e morreu no coração.
Estacio mal ousava entrar na alcova da doente e não podia viver fóra della. Sua afflicção era patente. Elle promettia a si mesmo todos os sacrificios em troca da vida de Helena, espreitava uma esperança no rosto do médico, e interrogava o coração da tia e do padre. Na noite do setimo dia da scena do jardim, D. Ursula, que ficára ao pe de Helena, mandou chamar á pressa o sobrinho e o padre Melchior, que estavam na sala contigua. Accorreram os dous. Helena tivera uma syncope, que D. Ursula cuidára ser a morte. Voltando a si, leu a moça a sua sentença no rosto de todos tres.
—Ainda não, murmurou ella: ainda não é a morte.
D. Ursula chegou-se-lhe mais perto, beijou-a, disse-lhe algumas palavras de conforto.
—Deixe estar, respondeu ella, deixe que eu não morro; estou só muito doente.
Estacio buscou animal-a, mas a voz morreu-lhe ás primeiras expressões, e elle sahiu. Melchior acompanhou-o.
—Uma cousa poderia talvez saval-a, disse afflicto o moço; era o presença do pae. Vou mandal-o procurar por toda a parte. Havemos de achal-o; é preciso que o achemos.
Melchior approvou a ideia do mancebo: e não lhe disse que o remedio viria talvez tarde, se viesse. Estacio ordenou as cousas para a seguinte manhã. Voltaram á alcova da enferma. Ésta fechara os olhos como se dormisse. Houve então entre aquellas quatro paredes meia hora de silêncio, interrompido apenas, de quando em quando, pelos movimentos que a doente fazia, como a querer mudar de posição. No fim desse tempo, abriu os olhos e murmurou algumas palavras. Chegou o médico, viu-a e desenganou a familia.
Em quanto Melchior dava as ordens precisas para que Helena tivesse os socorros espirituaes, Estacio sahiu dalli, para ir, longe, desabafar seu desespêro; desceu á chacara, vagou por ella delirante, a soluçar como uma creança, ora abraçado a uma árvore, ora ajoelhado e pedindo a Deus a vida de Helena. Seu coração não conhecia o fervor religioso; mas a imagem da morte deu-lhe o que a vida lhe levára, e elle rezou, rezou sosinho, sem hypocrisia nem dúvida. Mendonça veiu achal-o nessa lucta derradeira entre a realidade e a esperança. Não o consolou; seu peito não tinha consolações que distribuir, porque tambem a dor lhe devastára o coração. Nos braços um do outro, choraram o mesmo bem que se lhes ia embora.
Um escravo veiu chamar Estacio á pressa; elle subiu tropego as escadas, atravessou as salas, entrou desvairado no quarto, e foi cahir de joelhos, quasi de bruços, juncto ao leito do Helena. Os alhos desta, ja volvidos para a eternidade, deitaram um derradeiro olhar para a terra, e foi Estacio que o recebeu,—olhar de amor, do saudade e de promessa. A mão pallida e transparente da moribunda procurou a cabeça do mancebo; elle inclinou-a sobre a beira do leito, escondendo as lagrymas e não se atrevendo a encarar o final instante. Adeus!—suspirou a alma de Helena rompendo o envolucro gentil. Era defuncta.
A noite foi cruel para todos. D. Ursula, profundamente abatida pela dor e pelas vigilias, não consentiu, ainda assim, que outras mãos amortalhassem Helena; ella mesma lhe prestou esse derradeiro e triste obsequio. A morte não diminuíra a belleza da donzella; pelo contrário, o reflexo da eternidade parecia dar-lhe um encanto mysterioso e novo. Estacio contemplou-a com os olhos exhaustos, o padre com os seus humidos. Melchior supportára a dor até o momento da definitiva separação; agora, que a moça se ia de vez, deixou-se abater emfim, ao pe daquelles pallidos restos, despôjo último de generosas illusões.
No dia seguinte, prestes a sahir o entêrro, as senhoras deram á donzella morta as despedidas derradeiras. D. Ursula foi a primeira que lhe prestou esse dever; seguiu-se Eugenia e seguiram as outras. Estacio viu-as subir, uma a uma, o estrado em que repousava a eça. Depois, quando ia fechar-se o feretro, caminhou lentamente para elle; trepou ao estrado, e pela ultima vez contemplou aquelle rosto,—séde ha pouco de tanta vida,—e a coroa de saudades que lhe cingia a cabeça, em vez de outra, que seu coração tinha direito de pousar nella. Emfim inclinou-se tambem, e a fronte do cadaver recebeu o primeiro beijo de amor.
Fecharam o feretro; ao moço pareceu que o encerravam a elle proprio. Sahindo o entêrro, deixou-se Estacio cahir n'uma cadeira, sem pensar nada, sem sentir nada. Pouco a pouco despovoou-se a casa; os amigos sahiram; um só de tantos ainda alli ficou, a lastimar consigo a noiva, tão cedo promettida e tão cedo roubada. Esse mesmo sahiu, emfim, não ficando mais do que a familia, cujo pae espiritual era Melchior.
Sosinho com Estacio, o capellão contemplou-o longo tempo; depois, alçou os olhos ao retrato do conselheiro, sorriu melancholicamente, voltou-se para o moço, ergueu-o e abraçou com ternura.
—Animo, meu filho! disse elle.
—Perdi tudo, padre-mestre! gemeu Estacio.
Ao mesmo tempo, na casa do Rio Comprido, a noiva de Estacio, consternada com a morte de Helena, e aturdida com a lugubre cerimonia, recolhia-se tristemente ao quarto de dormir, e recebia á porta o terceiro beijo de seu pae.