MACHADO DE ASSIS (continued 2)
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—Permitte-me um conselho? perguntou ella.
E como Estacio respondesse com um gesto de assentimento:
—Va ter com Eugenia, solicite licença para ir pedil-a a seu pai, e conclua isso quanto antes. Não é verdade que se amam? della creio poder affirmar que sim; de voce...
—De mim?
—Penso que é mais duvidoso; ou voce é mais habil. Hade ser isso. Naturalmente parece-lhe fraqueza amar,—isto é, a cousa mais natural do mundo,—a mais bella,—não direi a mais sublime. Os homens serios tem preconceitos extravagantes. Confesse que ama,—que não é indifferente a esse sentimento inexprimivel que liga, ou para sempre, ou por algum tempo, duas creaturas humanas.
—Ou por algum tempo! repetiu mentalmente Estacio.
E éstas quatro palavras tão naturaes e tão communs tinham ares de uma revellação nova no estado de espirito em que elle se achava. Se Helena tivesse proposito de lhe lançar a perplexidade na alma não empregaria mais efficaz conceito. Sería na verdade aquelle amor tão travado de desanimos, dissentimentos e alternativas, tão discutido em seu proprio coração, seria uma affeição destinada a perecer no occaso da primeira lua matrimonial?
—Pois bem, concordou elle, ao cabo de alguns instantes; é verdade. Eugenia não me é indifferente; mas poderei estar certo dos sentimentos della? Ella mesma poderá affirmar alguma cousa a tal respeito? Ha alli muita frivolidade que me assusta; illude-a talvez uma impressão passageira.
—Pode ser; mas ao marido cabe a tarefa de fixar essa impressão passageira... O casamento não é uma solução, penso eu; é um ponto de partida. O marido fara a mulher. Convenho que Eugenia não tem todas as qualidades que voce desejaria; mas não se póde exigir tudo; alguma cousa é preciso sacrificar, e do sacrificio recíproco é que nasce a felicidade doméstica.
As reflexões eram exactos: por isso mesmo Estacio as interrompeu. O filho do conselheiro achava-se n'uma posição difficil. Caminhara para o casamento com os olhos fechados; ao abril-os viu-se á beira de uma cousa que lhe pareceu abysmo, e era simplesmente um fôsso estreito. De um pulo poderia transpol-o; mas, se não era irresoluto nem debil, tinha elle acaso vontade de dar esse salto?
Insistindo Helena, prometteu elle que nessa tarde iria visitar Camargo. De tarde desabou um temporal violento. A fôrça do vento e da trovoada abrandou; mas a chuva continuou a cahir com a mesma violencia; era impossivel ir ao Rio Comprido. Estacio estimou aquelle obstaculo; era melhor adorar de longe a imagem da moça do que ir colhêr algum desgôsto juncto della.
De pe, encostado a uma das vidraças da sala de visitas, via elle cahir os grossas toalhas de agua. A seu lado estava sentada Helena, não alegre, mas taciturna e melancholica.
—É tão bom ver chover quando estamos abrigados, exclamou elle. Tenho la na estante um poeta latino que diz alguma cousa neste sentido... Que tem voce?
—Estou pensando nos que não tem abrigo, ou o tem mau; nos que não tem neste momento nem tectos solidos nem corações amigos ao pe de si.
A voz da moça era trémula; uma lagryma lhe brotou dos olhos, tão rapida que ella não teve tempo de a dissimular. Sorprehendida nessa manifestação de sensibilidade, inexplicavel talvez para o irmão, ergueu-se e procurou gracejar e rir. O riso parecia uma cristalisação da lagryma; e o gracejo tinha ares do responso. Estacio não se illudiu; nada daquillo era claro,—ou era tão claro como a carta. Seu olhar, severo e frio, interrogou mudamente a moça. Helena, que tivera tempo de tranquillisar-se, voltou o rosto para a rua, e começou a rufar com os dedos na vidraça.
CAPITULO IX
Naquella mesma noite D. Ursula, que não havia de todo melhorado, adoeceu devéras. A familia, mal convalecida da perda de seu velho chefe, via-se agora ameaçada de uma nova dor, em todo o caso exposta a novos receios. O Dr. Camargo declarou que o caso era grave, e deu principio a rigoroso tratamento.
Helena era naquella occasião a natural enfermeira. Pela primeira vez patenteou-se em todo o explendor a dedicação filial da moça, sua constancia, solicitude e tino. As horas do dia, e não poucas noites inteiras, passava-as na alcova de D. Ursula, attenta a todos os cuidados que a gravidade da enfêrma exigia. Os remedios e o pouco alimento que ésta podia receber não lhe eram dados por outras mãos. Helena velava á cabeceira durante o somno leve e interrompido da doente, achando em suas proprias fôrças a resistencia que a natureza confiou especialmente ás mães. Quando dava algum repouso ao corpo, não era elle ininterrupto nem longo; e mais de uma vez, alta noite, erguia-se do leito, collocado provisoriamente no quarto contiguo, para ir espreitar a mucama que em seu logar acompanhava a enfêrma. As prescripções do médico era ella quem as recebia e cumpria. A voz dura e sêcca com que Camargo lhe falava não era propria a tornal-o amavel e aceito, mas Helena cerrava os ouvidos á antipathia do homem para só obedecer ao médico. Este não tinha outra pessoa a quem interrogasse acerca dos phenomemos da doença; nem podia achar quem melhor os observasse e referisse; fôrça lhe era acceital-a. Assim que, essas duas pessoas que se repeliam e detestavam, iam de accordo desde que se tratava da vida de um terceiro.
O que completava a pessoa de Helena e ainda mais lhe mereceu o respeito de todos é que, no meio das occupações e preocupações daquelles dias, não fez padecer um só instante a disciplina da casa. Ella regeu a familia e serviu a doente, com egual desvello e beneficio. A ordem das cousas não foi alterada nem esquecida fóra da alcova de D. Ursula; tudo caminhou do mesmo modo que antes, como se nada extraordinario se houvesse dado. Helena sabia dividir a attenção sem dispersal-a, que é o principal segrêdo do trabalho fecundo.
De si é que ella não curou muito. A toilette era singella e descuidada. Os cabellos, colhidos á pressa e presos por um pente no alto da cabeça, não receberam de sua dona, em todo aquelle tempo, a fórma elegante e graciosa, com que ella os saiba realçar. Accrescia o abatimento e pallidez, que era impossivel evitar no meio de tanta fadiga, certo cançasso dos olhos, que os fazia molles e talvez mais adoraveis, um rosto sem riso nem viveza, um silêncio attento e laborioso.
A doença durou cêrca de vinte dias. Afinal, triumphou a sciencia e a propria natureza de D. Ursula, robusta apezar dos annos. A convalecença começou; com ella volveu a satisfação da familia. O papel de Helena não estava acabado; diminuia, contudo, e Estacio interveio para que a irmã tivesse, enfim, alguns dias de absoluto repouso. Ella recusou, dizendo que o repouso perdido aos poucos seria aos poucos recuperado.
Havia no coração de D. Ursula uma fonte de ternura, que Helena devia tocar, para jorrar livre e impetuosamente. Sua dedicação, em tal crise foi a vara mysteriosa daquella Oreb. A affeição da tia era até então frouxa, voluntaria e deliberada. Depois da molestia, avultou expontanea. A experiencia do caracter da moça dera esse resultado inevitavel. Toda a prevenção cessou; a gratidão da vida ligou fortemente o que tantas circumstâncias anteriores pareciam separar. Não o occultou a irmã do conselheiro; suas maneiras não tinham ja acanhamento nem reserva; as palavras subiam do coração á boca sem atenuação nem cálculo; fez-se carinhosa e mãe.
No dia em que ella pôde sahir do quarto pela primeira vez, Helena deu-lhe o braço e levou-a até á sala de costura e das reuniões íntimas. Estacio amparou-a do outro lado. Alli chegando, foi ella sentada n'uma poltrona. Estacio abriu um pouco a janella, para penetrar além da luz, um pouco de ar. D. Ursula respirou á larga, como lavando o pulmão cora aquella primeira onda de vida. Depois, segurando as mãos de Helena, que ficára de pe a seu lado, fel-a inclinar a fronte e imprimiu-lhe um beijo longo e verdadeiramente maternal. Estacio approximara-se; aquella manifestação encheu-o de júbilo.
—Bem merecido beijo!—exclamou elle. Helena foi um anjo em todo este tempo.
—Bem sei,—retorquiu D. Ursula; foi um verdadeiro anjo, foi mulher, mãe e filha. Obrigada, Helena! Póde ser que a medicina tenha ajudado a cura, mas o principal merito é só teu.
Helena abraçou a convalecente.
—Estacio,—disse ésta; agradece a tua irmã, como eu fiz.
Estacio inclinou-se para Helena afim de lhe pousar na fronte o casto ósculo de irmão. Não o conseguiu, porque Helena desviando o busto e reclinando a cabeça para traz, estendeu-lhe sorrindo a mão esquerda e disse:
—Não foi serviço que merecesse tanta paga; basta um apêrto de mão e o affecto de todos.
Estacio apertou-lhe a mão, e sentiu-lh'a trémula. Aquelle movimento de castidade não lhe pareceu exagerado nem descabido; achou-a assim mais bella. Uma creatura tão ciosa de si mesma que nem admittia a caricia do irmão, não era digna de honrar o nome da familia?
A convalecença de D. Ursula foi lenta, e não a houve mais rodeada de cuidados e attenções. Os dous sobrinhos não a deixaram um instante sosinha, e inventavam toda a sorte de recreio com que pudessem distrahil-a: jogos de familia ou leitura, musica ou simples palestra íntima. Uma vez lembraram-se de representar, só para ella, uma comedia de duas pessoas. Outra vez, Helena organizou um sarau musical, em que tomaram parte Eugenia Camargo, e mais tres moças da visinhança. Foi a primeira vez que a ouviram cantar. O successo não podia ser mais completo. Como o applauso que lhe deram pareceu desconsolar um pouco a filha do médico, Helena preparou-lhe habilmente um triumpho, fazendo-a executar ao piano uma composição brilhante, sua favorita. Estacio, que quasi não tirava os olhos da irmã, percebeu-lhe a intenção, e disse-lh'o. Helena esquivou-se à allusão; mas, insistindo elle:
—Não ha nada que admirar, disse ella; Eugenia toca perfeitamente; ora justo que tambem fosse applaudida. Se ha arte no que fiz, parece-me que é a mais singella do mundo. O melhor modo de viver em paz, é nutrir o amor proprio dos outros com pedaços do nosso. Mas, olhe; Eugenia nem precisa disso; tem a primazia da belleza. Veja se ha creatura mais deliciosa.
Estacio dirigiu os olhos para onde Helena lhe indicava. Era um grupo de duas moças e dous rapazes. Eugenia pelo braço de um delles, estava de pe, ouvindo sem attender as palavras, que alli diziam, por que seus olhos inquietos derramavam-se por toda ella e pela sala. Admirava-se e espreitava a admiração dos outros. A figura era realmente graciosa; mas Estacio quizera-a mais inconsciente, menos preoccupada do effeito que produzia.
—Ha cem bellezas como aquella, disso elle.
—Estacio! exclamou Helena com ar de reprehensão.
—A belleza é como a bravura; vale mais se não a mettem á cara dos outros.
—Voce é um ingrato!
Naquella noite ficou mais patente que nunca a preponderancia ganha por Helena, que se tornara a verdadeira dona da casa, a directora ouvida e obedecida. D. Ursula cedêra, em poucas semanas, o que lhe negára durante mezes.
Por que razão, pensando em todas as cousas, não conseguíra ella apressar o casamento de Estacio? Estacio continuava a hesitar, a recuar, a adiar; pedia tempo para reflectir. Suas ausencias no Rio Comprido iam-se tornando mais longas; os dias, quasi todos, eram desfiados no remanso da familia. Mas Helena insistiu tanto que elle prometteu fazer o solemne pedido no primeiro dia do anno.
Estacio não havia esquecido a carta lida pela irmã; mas por mais que a espreitasse e a estudasse nada descobria que lhe fizesse suppor affeição encoberta. Nenhum dos homens que iam alli,—e eram poucos,—parecia receber de Helena mais do que a cortezia commum. D. Ursula, a quem elle incumbira de interrogar a irmã acerca das palavras que ésta lhe dissera na manhã do primeiro passeio, não obteve resposta mais decisiva.
A promessa de ir pedir Eugenia, fel-a Estacio na segunda semana de Dezembro, em uma noite sem visitas que eram as melhores noites para elle. No dia seguinte de manha, erguendo-se tarde, soube que Helena sahíra a cavallo logo cedo.
—Sosinha?
—Com o Vicente.
Vicente era o escravo que, como sabemos, se affeiçoára, primeiro que todos, a Helena; Estacio designara-o para servil-a. A notícia do passeio não lhe agradou. O tempo andava com o mesmo passo de costume; mas á anciedade do mancebo affigurava-se que era mais longo. Estacio chegava á janella, ia até o portão da chacara, cora ar de apparente indifferença, que a todos illudia, a começar por elle proprio. N'uma das vezes em que voltou a casa, achou levantada D. Ursula; falou-lhe; D. Ursula sorriu com tranquillidade.
—Que tem isso? disse ella. Ja uma vez sahiu a passeio com o Vicente e não aconteceu nada.
—Mas não é bonito, insistiu Estacio. Não está livre de um acto de desattenção.
—Qual! Toda a visinhança a conhece. Demais, Vicente ja não é tão creança. Tranquillisa-te, que ella não tarda. Que horas são?
—Oito.
—Dez ou quinze minutos mais. Parece-me que ja ouço um tropel.
Os dous estavam na sala de juntar: passaram á varanda, e viram effectivamente entrar no terreiro Helena e o pagem. Helena deu um salto e entregou a redea de Moema ao pagem que acabava de apear-se. Depois subiu a escada da varanda. Ao collocar o pe no primeiro degrau, deu com os olhos nu irmão e na tia. Fez-lhes um comprimento com a mão, e subiu a ter com elles.
—Ja de pe! exclamou abraçando D. Ursula.
—Ja, para lhe ralhar,—disse ésta sorrindo. Que ideia foi essa de bater a linda plumagem? É a segunda vez que voce se lembra de sahir sem o urso do seu irmão.
—Não quiz incommodar o urso, replicou ella voltando-se para Estacio. Tinha immensa vontade, de dar um passeio, e Moema tambem. Apenas hora e meia.
Aquelle dia foi o de maior tristeza para a moça. Estacio passou quasi todo o tempo em seu gabinete; nas poucas occasiões em que se encontraram, elle só falou por monosyllabos, ás vezes por gestos. De tarde, acabado o jantar, Estacio desceu á chacara. Ja não era só o passeio de Helena que o mortificava; ao passeio jantava-se a carta. Teria razão a tia em suas primeiras repugnancias? Como elle fizesse essa pergunta a si mesmo, ouviu atraz de si um passo apressado e o farfalhar de um vestido.
—Está mal commigo? perguntou Helena com doçura.
Ao ouvir-lhe a voz, fundiu-se a colera do mancebo. Voltou-se; Helena estava deante delle, com os olhos submissos e puros. Estacio reflectiu um instante.
—Mal? disse elle.
—Parece que sim. Não me fala, não se importa commigo,—anda carrancudo... Seria por que eu sahi do manhã?
—Confesso que não gostei muito.
—Pois não sahirei mais.
—Não; póde sahir. Mas está certa de que não corre nenhum perigo indo só com seu pagem?
—Estou.
—E se eu lhe pedir que não saia nunca sem mim?
—Não sei se poderei obedecer. Nem sempre voce poderá acompanhar-me; além disso, indo com o pagem, é como se fosse só; e meu espirito gosta ás vezes de trotar livremente na solidão.
—Naturalmente a pensar de cousas amorosas... acrescentou Estacio cravando os olhos interrogadores na irmã.
Helena não respondeu; tomou-lhe o braço e os dous seguiram silenciosamente uns dez minutos. Chegando a um banco de madeira, Estacio sentou-se; Helena ficou de pe diante delle. Olharam um para outro sem proferir palavra; mas o labio de Estacio tremêra duas ou tres vezes como hesitando no que ia dizer. Por fim, o moço venceu-se.
—Helena, disse elle, voce ama.
A moca estremeceu e corou vivamente; olhou em volta de si como assustada e pousou as mãos nos hombros de Estacio. Reflectiu ella no que disse depois? É duvidoso; mas a voz, que nessa occasião parecia concentrar todas as melodias da palavra humana, suspirou lentamente:
—Muito! muito! muito!
Estacio empallideceu. A moça recuou um passo, e, trémula, poz o dedo na boca como a impor-lhe silêncio. A vergonha flamejava em seu rosto; Helena deu as costas ao irmão e affastou-se rapidamente. Ao mesmo tempo, a sineta do portão era agitada com fôrça, e uma voz atroava a chacara:
—Licença para o amigo que vem do outro mundo!
CAPITULO X
Estacio dirigiu-se ao portão. Abria-o; um moço que alli estava entrou precipitadamente. Era Mendonça. Os dous mancebos lançaram-se nos braços um do outro. Helena, a alguma distância, presenciou aquella effusão, e não lhe foi difficil adivinhar quem era o recem-chegado.
A effusão cessou, ou antes interrompeu-se, para repetir-se. Quando os dous rapazes se julgaram assaz abraçados, tomaram o caminho da casa. Helena, que estava um pouco adiante delles, foi apresentada a Mendonça. Ao ouvir que era irmã de Estacio, Mendonça ficou naturalmente espantado. Cortejou ceremoniosamente a moça, e os dous seguiram até a casa, onde pouco depois entrou Helena.
Mendonça era da mesma estatura que Estacio, um pouco mais cheio, hombros largos, physionomia risonha e franca, natureza mobil e expansiva. Vestia com o maior apuro, como verdadeiro parisiense que era, arrancado de fresco ao boulevard de Gand, ao cafe Tortoni e ás recitas do Vaudeville. A mão larga e forte calçava fina luva côr de palha, e sôbre o cabello, penteado a capricho, pousava um chapeu de fabrica recente.
Estacio, antes de entrar, explicou ao amigo a situação de Helena, cujas qualidades e educação louvou, com o fim de lhe fazer comprehender o respeito e a affeição que ella de todos merecia. Helena adivinhou esse trabalho preparatorio do irmão logo que entrou na sala.
Mendonça divertiu a familia uma parte da noite contando os melhores episodios da viagem. Era narrador agradavel, fluente e pitoresco, dotado de grande memoria e certa fôrça de observação. Seu espirito galhofeiro achava mais facilmente o lado comico das cousas; e mais se comprazia em dizer os accidentes de um jantar de hotel ou de uma noite de theatro que em descrever as bellezas da Suissa ou os destroços de Roma.
A visita durou pouco mais do hora. Estacio quiz acompanhal-o até a cidade; elle não consentiu que fosse além do portão. Atravessando a chacara, falaram do passado, e um pouco do futuro, a trechos soltos, como o lugar e a occasião lhes permittiam. Mendonça, vendo que Estacio não tocava em um ponto essencial, foi o primeiro que o aventou.
—Fallaste-me em uma de tuas cartas de certa Eugenia...
—A filha do Camargo.
—Justo. Negocio roto?
—Quasi terminado.
—Terminado... na egreja, supponho?
—Tal qual.
—Quando?
—Brevemente.
—Marido, emfim! Era só o que te faltava. Nasceste com a bossa conjugal, como eu com a bossa viajante, e não sei qual de nós terá razão.
—Talvez ambos.
—Creio que sim. Tudo depende do gôsto de cada um. O casamento é a peor ou a melhor cousa do mundo; pura questão de temperamento. Eu vi algumas vezes essa moça; era então muito menina. Não te pergunto se é um anjo...
—É um anjo.
—Como todas as noivas. Feliz Estacio! Segues a carreira de tua vocação, em quanto que eu...
—Tu?
—Interrompo a minha e talvez para sempre. Preciso cuidar da vida; não sou capitalista, nem meu pae tão pouco. Adeus, viagens!
—Tanto melhor! Arranjo-te noiva. Não é a tua vocação, mas não serás o primeiro que a erre, sim que dahi venha mal ao mundo.
—Pois arranja la isso. Em todo caso não será tua irmã.
—Oh! não, disse vivamente Estacio.
—Na verdade, é bonita; mas... se permittes a franqueza de outr'ora, acho-lhe uma costella de desdem...
—Que ideia! É a mais affavel creatura do mundo. Veras mais tarde; hoje estava talvez preoccupada. Em todo o caso, não havias de querer que ella saltasse a dansar contigo na sala, de mais a mais sem musica.
Mendonça acabava de accender um charuto; apertou a mão de Estacio e sahiu. Estacio accordou de um sonho. A realidade poz-lhe suas mãos de chumbo e repetiu-lhe ao ouvido a confissão interrompida de Helena. Ancioso por saber o resto, entrou elle immediatamente em casa. A diligencia foi esteril, por que a irmã recolhera-se a seu aposento. Estacio imitou-a. Era forçoso esperar uma noite inteira, demora que o affligia, porque, dizia elle consigo mesmo, cumpria-lhe velar pela sorte de Helena, como irmão e chefe de familia, indagar de seus sentimentos, e ordenar o que fôsse melhor. Uma noite não em muito; comtudo, a preoccupação retardou-lhe o somno. A confissão subita, laconica e eloquente da irmã ficara-lhe no espirito como se fôra o echo perpétuo de uma voz extincta.
Nem no dia seguinte nem nos subsequentes alcançou o que esperava. Helena, ou evitava ficar a sos com elle, ou esquivava-se a maior explicação. Nos passeios matinaes, que eram frequentes, procurou Estacio mais de uma vez enterreirar a conversa no assumpto que, mais que nenhum outro, o preoccupava. Helena ouvia com um sorriso, e respondia com uma gracejo; depois dava de redea á conversação e galopada na direcção opposta. Como a fantasia era campo vasto, nunca mais o moço lograva trazel-a ao ponto de partida.
Um dia, a insistencia de Estacio teve tal caracter de autoridade, que pareceu constranger e molestar Helena. Ella replicou com remoque; elle redarguiu com uma advertencia aspera. Iam ambos a pe, levando os animaes pela redea. Ouvindo a palavra do irmão, Helena susteve o passo, e fitou-o com um olhar digno, um desses olhares que parecem vir das estrêllas, qualquer que seja a estatura da pessoa. Estacio possuia essas duas cousas que nunca hão de conhecer corações mediocres: a nobre retratação do êrro e a generosidade do perdão. Viu que cedêra a um mau impulso, e confessou-o; mas confessou-o com palavras taes, que Helena travou-lhe da mão e lhe disse:
—Obrigada! Se me não dissesse isso, ver-me-hia desparar por este caminho fóra até o fim do mundo ou até o fim da vida.
—Helena!
—Oh! não é vão melindre, é a propria necessidade da minha posição. Voce póde encaral-a com olhos benignos; mas a verdade é que só as azas do favor me protegera. Pois bem, seja sempre generoso, como foi agora; não procure violar o sacrario de minha alma. Não insista em pedir a explicação de palavras mal pensadas e ditas em ma hora...
—Mal pensadas? Póde ser; mas por isso é que são verdadeiras; se voce tivera tempo de as meditar, guardal-as-hia comsigo, avara de seus segredos e suspeitosa de corações amigos. Meu fim era somente ajudal-a a ser venturosa, destruir...
—É tarde! interrompeu a moça consultando o reloginho preso á cintura. Vamos?
Estacio sorriu melancholicamente; offereceu-lhe o joelho, ella pousou nelle o pesinho afilado e leve e saltou no selim. A volta foi menos alegre do que costumava ser. Elles falavam, mas a palavra vinha aos labios, como uma onda vagarosa e surda; nenhuma colera, mas nenhuma animação. Assim correu aquelle dia; assim correriam outros, se não fôra a vara magica de Helena. Seu natural influxo era tão forte, que o irmão voltou desde logo ás boas, sendo as melhores horas as que passava ao pe della, a escutal-a e a vel-a, ambos contentes e felizes. O episodio da confissão vinha as vezes, como hóspede importuno, projectar entre elles seu nebuloso perfil; mas o espirito de Estacio repellia-o, e a alegria da irmã fazia o resto.
Entretanto, graças ao amigo recem-chegado, o filho do conselheiro sahiu um pouco de suas regras habituaes, e começou a provar alguma cousa mais da vida exterior. Mendonça buscava realizar, em miniatura, o seu esvaido ideal parisiense; havia nelle o movimento, a agitação, a galhofa, que absolutamente faltavam a Estacio, e vieram dar-lhe á vida a variedade que ella não tinha. Alguns expectaculos e passeios, uma ou outra ceia alegre, mas casta, tal foi o programma de uma parte infima da existencia de Estacio. Para contrastar com ella, tinha elle as manhãs do Andarahy e algumas noites do Rio Comprido. Ao amigo e á sua consciencia, dizia o moço que estava a despedir-se da liberdade.
A influência de Mendonça estendeu-se á propria casa de Estacio. Mendonça gostava sobretudo da variedade ao viver; não tolerava os mesmos prazeres, nem os mesmos charutos; para os apreciar tinha necessidade do os alternar frequentemente. Se fôsse possivel, era capaz de fazer-se monge durante um mez, antes do carnaval, trocar o hábito por um dominó, e atar as últimas notas das matinas com os preludios da contradança. Sua fidelidade á moda custava-lhe um pouco quando ésta não ia a passo com a sua impaciencia. Em sua opinião o que distinguia o homem do cão era a faculdade de fazer com que uma noite se não parecesse com outra. O Rio de Janeiro não lhe offerecia a mesma variedade de recursos que Paris; mas seu genio era inventivo e fertil, e não lhe faltaria meio de fugir á uniformidade dos habitos.
O peor que lhe acontecia era a disparidade entre os desejos e os meios. Filho de um commerciante, apenas remediado, não teria elle podido realizar a viagem á Europa, nas proporções largas em que o fez, a não ser a intervenção benefica de uma parenta velha, que se incumbira de lhe ministrar os recursos de que elle carecesse durante aquella longa ausencia. Nem a parenta continuaria a abrir-lhe a bolsa, nem pae queria crear-lhe habitos de ociosidade. Tratava este, portanto, de obter-lhe um emprêgo público. Mendonça estava longe de recusar; pedia somente que o emprêgo o não deslocasse da Côrte.
Inquieto, amigo da vida ruidosa e facil, intelligente sem largos horisontes, possuindo apenas a instrucção precisa para desempenhar-se regularmente de qualquer commissão de certa ordem, Mendonça, com todos os seus defeitos e boas qualidades, era homem agradavel e acceito. Seus defeitos eram antes do espirito que do coração. A variedade que elle pedia para as cousas externas e de menor tomo, não a praticava em suas affeições, que eram geralmente inalteraveis e fieis. Era capaz de sacrificio e dedicação; sobretudo, se lhe não pedissem o sacrificio deliberado ou a dedicação reflectida, mas aquelles que exige uma circumstância imprevista e subita.
Não admira que a presença de tal homem viesse modificar o tom da sociedade de que era centro a familia de Estacio, quando elle alli fazia alguma apparição. Era o sal daquella terra. Não tinha a rijeza do figurino, nem a morgue do estrangeirado. A tesoura do alfaiate não lhe dissimulára a indole expansiva e franca. Acolhido como um filho, tinha alli uma porção de sua casa. Que melhor aspecto podia ter a vida em taes condições, naquella familia ligada por um sentimento de amor?
A noite do ultimo dia do anno veiu turvar a limpidez das aguas.
CAPITULO XI
Naquelle dia fazia annos Estacio, e D. Ursula assentira receber algumas pessoas a jantar, e outras mais á noite, em reunião íntima. Ella e Helena tomavam a peito fazer com que a pequena festa de familia fosse digna do objecto. Estacio opinou pela suppressão do sarau; mas era difficil alcançar a desistencia de corações que o amavam.
Logo de manhã, como elle se levantasse cedo, encontrou Helena que o convidou a seguil-a á sala de costura.
—Quero dar-lhe o meu presente de annos, disse ella.
Alli entrados, abriu a moça uma pasta de desenhos, na qual havia um só, mas significativo: era uma parte da estrada de Andarahy—a mesma por onde elles costumavam passear, mas com algumas particularidades do primeiro dia. Dous cavalleiros, elle e ella, iam subindo a passo lento; ao longe, e acima via-se a velha casa da bandeira azul; no primeiro plano, desciam o preto e as mulas. Por baixo do desenho uma data; 25 de Julho de 1850.
Estacio não pôde conter um gesto de admiração, quando a moça retirou de cima do desenho a folha de papel de seda que o cobria. Apertou a mão de Helena e examinou o trabalho. Notou a firmeza das linhas, a exacção das circumstâncias locaes, as impressões de uma hora fugitiva que o lapis da irmã tivera a arte de fixar no papel.
—Não podia fazer-me presente melhor, disse elle; da-me uma parte de si mesma, um fructo de seu espirito. E que fructo! Não ha muita moça que desenhe assim. Era talvez por isso que voce sahia algumas vezes sosinha com o pagem?
Estacio contemplou ainda instantes o desenho; depois levou-o aos labios e beijou-o. O ósculo acertou de cahir na cabeça da cavalleira. Foi o original que corou.
—Andavam a gabar meus talentos,—disse Helena apos um instante; tive a vaidade de dar uma pequena amostra...
—Excellente amostra! Não acha, titia? disse, o moço a D. Ursula, que nesse instante apparecêra á porta, trazendo o seu presente, n'uma bocetinha de joalheiro.
D. Ursula não tinha, de certo, o instincto da arte; mas o amor da familia lhe ensinára uma esthetica do coração, e essa bastou a fazel-a admirar o trabalho de Helena.
—Mas que digo eu todos os dias? exclamou D. Ursula. Ésta pequena sabe tudo!
—Quasi tudo, emendou Helena; ignoro, por exemplo, como lhes hei de agradecer...
—O que, tontinha? interrompeu a tia. Algum, disparate, naturalmente, improprio em qualquer dia, mas muito mais ainda no dia de hoje.
Em quanto as duas senhoras foram tratar das disposições do dia, Estacio mandou sellar o cavallo e sahiu. Queria comparar ainda uma vez o desenho do Helena com o sitio copiado. A fidelidade era completa, e o quadro seria absolutamente o mesmo, se dessem algumas circumstâncias da primeira occasião. Helena não ia ao lado delle; mas a vinte braças de distância fluctuava a bandeira azul da casa do alpendre. Estacio afrouxou o passo do cavallo, como saboreando as recordações da primeira manhã, quando Helena se lhe mostrára tão singularmente commovida. Volveu a reflectir na situação della, e na paixão que lhe confessára, dias antes, com tamanha vehemencia. Se se tratava de uma felicidade possivel, embora difficil, Estacio prometteu a si mesmo alcançar-lh'a. Não era isso servir o sangue do seu sangue?
A casa do alpendre, até alli indifferente a Estacio, creava agora para elle um interesse especial. Á medida que se approximava, ia achando no edificio a fiel reproducção do desenho. Este não apresentava todas as particularidades da vetustez; mas continha as mesmas disposições exteriores, como se fôra feita deante do original.
A uma das janellas estava um homem, com a cabeça inclinada, attento a ler o livro que tinha sobre o peitoril. Nessa attitude não era facil examinal-o; affigurava-se, entretanto, uma creatura mascula e bella. A duas braças de distância, o individuo levantou a cabeça, e cravou em Estacio um par de olhos grandes e serenos; immediatamente os retirou, baixando-os ao livro.
—Mal sabes tu, philosopho matinal, disse Estacio comsigo,—mal sabes tu que a tua casa teve a honra de ser reproduzida pela mais bella mão do universo!
O philosopho continuou a ler, e o cavallo continuou a andar. Quando Estacio regressou dahi a alguns minutos, achou somente a casa; o morador desaparecêra; circumstância indifferente, que escapou de todo à attenção do moço. Nem elle pensava mais naquillo; seu pensamento trotava largo, á ingleza, como o ginete, e ambos bebiam o ar, como anciosos de chegar ao ponto da partida.
CAPITULO XII
A festa correu animada, posto o reunião fôsse restricta. Algumas voltas da valsa, duas ou tres quadrilhas, jogo e musica, muita conversa e muito riso, tal foi o programma da noite, que a encheu e fez mais curta.
Se as honras da casa foram feitas por Helena, a alma da festa era Mendonça, cujo espirito havia ja recebido e colhido o suffragio universal. Eugenia dera-lhe, antes de todos, o seu voto. Havia entre ambos tal ou qual afinidade de indole, que naturalmente os approximava. Mendonça lisongeava os caprichos de Eugenia, applaudia-a, comprehendia-a, obedecia-lhe sem constrangimento nem reparo. Quando Mendonça valsava com Eugenia, todos os olhos se concentravam nelles. Eram valsitas de primeira ordem. As ondulações voluptuosas do corpo de Eugenia e a serenidade e segurança de seus passos, adaptavam-se maravilhosamente áquella especie de dança,—a unica que nossos costumes formalistas possuem. Era bello vel-os percorrer o vasto círculo deixado a seus movimentos; vel-os emfim parar com a mesma precisão e sem o menor symptoma de cançasso. Eugenia punha toda a sua attenção naquelle gesto de braço com que as mulheres, logo que interrompem ou cessam de todo a valsa, conchegam ao corpo a saia do vestido, cujo movimento rotatorio póde dar lugar a alguma indiscrição. O prazer com que ella fazia esse gesto, e a graça com que o acompanhava de uma leve inclinação do corpo mostravam que, mais ainda a faceirice do que a necessidade, lhe movia o corpo e a mão.
Ésta sorte de triumphos enchia a alma de Eugenia; e, porque ella não possuia nem a modestia nem a arte de o simular, via-se-lhe no rosto o orgulho e a satisfação. A dança não era para a filha de Camargo um goso ou um recreio somente; era tambem um adorno e uma arma. Dahi vinha que o valsista mais intrepido e constante era tambem o principal parceiro do seu espirito; e ninguem disputava esse papel ao filho do commerciante.
—Sua filha é a rainha da noite, murmurou o Dr. Mattos ao ouvido de Camargo, em um intervallo do voltarete.
—Não é verdade? acudiu o médico.
E a alma do pae voava enrolada nas pontas da fita que apertava a cintura de Eugenia, não regressando ao domicilio se não quando a moça parava. Então volvia Camargo um olhar em torno de si, como pedindo egual admiração. Depois ficava sombrio, e mais do que usualmente, cahia em longos e mortaes silêncios. Tres ou quatro vezes approximára-se de Helena sem lograr detel-a, nem adiarem si mais que duas palavras triviaes. Insistia; não a perdia de vista, parecia ancioso de a conversar sôbre alguma cousa.
Helena repartia-se entre todas as pessoas, attenta aos mil cuidados que a noite requeria. Cantou uma vez, dansou uma quadrilha, e não valsou. Em vão Mendonça insistira com ella; a moça desculpou-se dizendo que a valsa lhe fazia vertigens. Na opinião do filho do coronel-major ésta razão encobria somente a ignorancia de Helena. Estacio pensava antes que era a castidade selvagem da irmã que lhe não permittia o contacto de um homem, ideia que lhe fez bem ao coração.
Pela volta da meia noite, terminada a ceia, começou aquella hora de repouso, que precede a total dispersão. As senhoras trocavam impressões e commentarios, os rapazes fumavam, os jogadores decidiam as últimas remissas. A noite não refrescara, e a agitação augmentára o calor. Helena, tão cançada como D. Ursula, retirára-se por alguns instantes para a sala contigua á principal; alli sentou-se n'um sopha, e derreou levemente o corpo, deixando cahir os cilios, não sei se pensativos, se pesados de somno. Seu espirito não tivera tempo de encadear duas ideias ou esboçar um sonho, quando uma voz a accordou:
—Ja dormindo!
Era Camargo.
Helena abriu os olhos sobresaltada. A voz de Camargo, produzira-lhe a impressão de desagrado, que lhe fazia sempre. Sorriu a moca contrafeitamente, e vendo que elle se dispunha a sentar-se no sopha, não arredou o vestido, como se quizesse deixar entre ambos larga distância: Camargo sentou-se.
—Parece que se assustou? disse elle.
—Um pouco.
Camargo agitou entre as mãos os perendengues do relogio,—tão numerosos como elles se usavam naquelle tempo; depois pegou familiarmente no leque da moça, abriu-o, contou as varetas, tornou a fechal-o e restituiu-o com um elogio. Helena respondeu-lhe com um sorriso. Ia levantar-se, quando elle a deteve com éstas palavras:
—Estimei achal-a só, por que precisava pedir-lhe um conselho.
A testa de Helena contrahiu-se interrogativamente.
—Um conselho e um favor, continuou o médico. Não será, creio eu, a primeira vez que a velhice consulte a mocidade. Demais, trata-se de assumpto em que a gente moça lê de cadeira.
Helena olhou para elle desconfiada. Nunca vim o médico tão affavel, e essa mudança de maneiras e de tom é que lhe fazia medo. Verdade é que elle ia pedir-lhe alguma cousa; e a experiencia ensina que o interesse é muito mais eloquente que o vinho e muito mais meigo que o amor. Camargo não se deteve. Fez uma exposição rapida de suas relações com a familia do conselheiro, do sentimento de amizade que o ligava a ella.
—A perda do meu finado amigo,—concluiu elle, não póde ser supprida por nenhuma cousa; mas ha alguma compensação na affeição que sobrevive e me faz considerar ésta familia como minha propria. Estou certo de que seu irmão e D. Ursula sentem a meu respeito do mesmo modo. Quanto á senhora, é recente na familia, mas não tem menor direito que ella. Vi-a tão pequena!
—A mim? perguntou Helena.
Camargo fez um gesto affirmativo, em quanto a moça olhava em volta da sala, receiosa de que alguem tivesse entrado e ouvido. Uma vez segura de que ninguem havia, recebeu impressão contrária á primeira; envergonhou-se daquelle receio. A vergonha augmentou quando o médico accrescentou em voz baixinha:
—Não falemos nisso...
—Pelo contrário! exclamou ella. Pode falar com franqueza; diga tudo. Era minha mãe. Não sei o que foi para o mundo; mas se me perdoaram a irregularidade do nascimento, não creio que me pedissem em troca a renúncia do meu amor de filha; a lei que o poz em meu coração é anterior á lei dos homens. Não repudio uma só das minhas recordações de outro tempo. Sei e sinto que a sociedade tem leis e regras dignas de respeito; aceito-as taes quaes; mas deixem-me ao menos o direito de amar o que morreu. Minha pobre mãe! Vi-a expirar em meus braços; recolhi o seu último suspiro. Tinha apenas doze annos; contudo, não consenti, que outra pessoa velasse á cabeceira a ultima noite que passou sobre a terra... Oh! não a esquecerei nunca! nunca! nunca!
Helena proferiu éstas palavras n'um estado de exaltação que até alli se lhe não vira. Em vão Camargo procurou duas ou tres vezes interrompel-a, receioso de que a ouvissem fóra, por que a moça tinha levantado a voz. Helena não obedeceu; não viu se quer o gesto supplicante do médico. O seio, castamente velado pelo corpinho, que subia até ao pescoço, estava offegante e onduloso como a agua do mar batida pelo vento. Á ultima palavra sahiu-lhe como um soluço. Camargo sentiu-se sorprehendido com aquella explosão de ternura. Era evidente que elle esperava outra cousa. Seguiu-se um breve silêncio, durante o qual Helena mordia a ponta do lenço, como para conter a palavra que lhe tumultuava no coração. O médico proseguiu emfim:
—Ninguem lhe pede que a esqueça, disse elle; todos respeitam esses sentimentos de piedade filial. O passado morreu, e o menos que se deve aos mortos é o silêncio. A senhora tem o direito de lhe dar o amor e a saudade. Mas falemos dos vivos; e perdoe-me se lhe toquei, sem querer, em tão dolorosa recordação.
—Não! não é dolorosa! disse ella abanando a cabeça.
—Falemos dos vivos. Não está certa do amor de sua familia?
Helena fez um gesto affirmativo.
—Não poderia encontrar outra melhor nem tão boa. D. Ursula é uma sancta senhora; Estacio um caracter austero e digno. Venhamos agora ao conselho. Ha muito tempo ando com ideia de ir á Europa; estou caminhando para a velhice; não quero deixar de ir ver alguma cousa além do nosso Pão d'Assucar. Ja desfiz o projecto mais de uma vez. Cuido que agora vou definitivamente realisal-o. Dá-se porém uma circumstância grave. Sabe que minha filha ama seu irmão? Meus olhos descobriram desde muito essa inclinação de um e outro, por que tambem seu irmão ama minha filha. Merecem-se; e de algum modo continuam si affeição dos paes; a natureza completa a natureza. Ésta é a situação. O que eu desejava, porém, é que me dissesse se devo partir ja, levando-a; ou se é melhor esperar que elles se casem.
Helena ouvira o médico sem olhar para elle; quando elle acabou, fitou-o admirada e curiosa. A puerilidade da pergunta era tão evidente que a moça procurou ler no rosto do interlocutor o pensamento verdadeiro e occulto. Camargo apressou-se a explicar-se.
—Estacio,—disse elle,—póde amar Eugenia com ideias matrimoniaes; mas tambem pode não passar isso de um capítulo de romance, como o que se lê em uma viagem da Corte a Nictheroy. Seu caracter é serio; mas o coração tem leis especiaes. Confesso que o procedimento de Estacio nada me affirma a tal respeito. Ha nelle umas mudanças pouco explicaveis. O tempo decorrido é mais que muito sufficiente para que... Está reflectindo!
—Estou.
—E...
—Supponho que pede mais do que me disse. Quer que eu indague a tal respeito as intenções, de Estacio!
—Isso.
—Mas porque não se dirige a elle mesmo?
—Não havia inconveniente; estabeleceu-se porém que um pae não deve ser o primeiro a falar em taes cousas. É preciso respeitar a dignidade paterna. Accresce que Estacio é rico, e tal circumstância podia fazer suppor de minha parte um sentimento de cobiça, que está longe de meu coração. Podia falar a D. Ursula; creio porém que ella não tem a sua habilidade, e... porque o não direi? a sua influência no espirito de Estacio.
—Eu!
—Oh! influência incontestavel! A senhora veiu completar a alma de seu irmão. É visivel a affeição e o respeito que elle lhe tem. Demais, em taes assumptos urna irmã é natural confidente e conselheira.
Helena deu tres pancadinhas no joelho com a ponta do leque, e enfiou os olhos pela porta de communicação entre aquella e a salla principal. Depois voltou-se para o médico.
—Sei que elles se amam,—disse ella,—e ja dei a minha opinião a tal respeito. Eugenia parece ser minha amiga; meu irmão é meu irmão; desejo-lhes todas as felicidades. Ha porém um limite á intervenção de uma irmã; e não desejo ir além. Demais, seu pedido é ocioso.
—Porque?
—Annuncie a viagem; e Estacio, se apressará a pedir-lhe sua filha. Se o não fizer, é por que a não ama, conforme ella merece, e em tal caso mais vale perder um casamento que fazel-o mau.
—Sim? perguntou Camargo.
—Naturalmente.
—O conselho é excellente,—disse o médico depois de um instante, mas tem o defeito substancial de supprimir a sua intervenção, que me é necessaria. Vejamos o meio de combinar as cousas. Supponhamos que, annunciada a viagem, Estacio não corresponde ás minhas esperanças. Que devo fazer?
—Embarcar.
—Embarcar é arriscar o casamento. Ora, este casamento... é um de meus sonhos. Desejo que os filhos continuem a affeição dos paes. Se Estacio recuar, minhas esperanças esvaem-se-me como fumo; o tempo cavará um abysmo entre os dous; Eugenia amará outro... Emfim, conto com a senhora.
—Commigo?
—A senhora tem uma fôrça de resolução, uma fertilidade de expedientes, um espirito capaz de emprezas delicadas, e, tratando-se da felicidade de um irmão. Creio que empenhará todas as fôrças para levar a cabo a mais pura das ambições. Não lhe peço um absurdo, peço-lhe a felicidade de minha filha.
Helena não respondeu; olhou de revez para elle, e cravou depois os olhos no aguia branca tecido no tapete, sobre o qual pousava seu pe impaciente e colerico. Podia referir mais detidamente qual o seu papel juncto de Estacio, a respeito de Eugenia, seus pedidos, e a promessa do irmão, que deveria ser cumprida, se o fosse, em algum dos seguintes dias. Mas nem quiz dar esperanças que os acontecimentos podiam dissipar, nem o coração lhe consentia mais larga confidencia. Ambos elles viam que se detestavam cordialmente; mas se em Helena havia colera abafada, em Camargo havia tranquillidade e observação. Elle contemplava a moça, com o olhar fixo e metalico dos gatos; a mão esquerda, pousada sobre o joelho, rufava com os dedos magros e pelludos. Nada dizia; mas todo elle em uma interrogação imperiosa. Helena olhou ainda uma vez para o médico.
—Dá-me o seu braço até á sala? perguntou.
Camargo sorriu.
—Só isso? Eu dizia commigo outra cousa.
—Que dizia então? perguntou Helena com aquelle ar de esmagadora indifferença que só as mulheres possuem.
—Dizia que muito se devia esperar da dedicação de uma moça, que acha meio de visitar ás seis horas da manhã uma casa velha e pobre, não tão pobre, que a não adorne garridamente uma flamula azul..
Helena fez-se livida; sua mão apertou nervosamente o pulso de Camargo. Nos olhos pareciam falar-lhe ao mesmo tempo o terror, a colera e a vergonha. Atravez dos dentes cerrados Helena gemeu ésta palavra unica:
—Cale-se!
—Falo entre nós e Deus, disse Camargo.
Uma onda de sangue invadiu a face da moça, com a mesma rapidez com que ella lhe empallidecêra. Helena quiz erguer-se; mas sentiu-se exhausta. Ninguem da sala pôde perceber a impressão e o movimento; ninguem olhava para alli. Camargo, entretanto, inclinou-se para Helena e proferiu algumas palavras de animação, que ella interrompeu, murmurando com amargura:
—O senhor é cruel!
—Sou pae, respondeu o médico; pae extremoso e discreto, mais discreto ainda que extremoso, Conto com a senhora.
CAPITULO XIII
Dissolvida a reunião, Helena recolheu-se à pressa, com o pretexto de que estava a cahir de somno, mas realmente para dar á natureza o tributo de suas lagrymas. O desespêro comprimido tumultuava no coração, prestes a irromper. Helena entrou no quarto, fechou a porta, soltou um grito e lançou-se de golpe á cama, a chorar e a soluçar.
A belleza dolorida é dos mais patheticos expectaculos que a natureza e a fortuna podem offerecer á contemplação do homem. Helena torcia-se no leito como se todos os ventos do infortunio se houvessem desencadeado sôbre ella. Em vão tentava abafar os soluços, cravando os dentes no travesseiro. Gemia, intercortava o pranto com exclamações sôltas, enrolava no pescoço os cabellos deslaçados pela violencia da afflicção, buscando na morte o mais prompto dos remedios. Colerica, rompeu com as mãos o corpinho do vestido, e o joven seio, livre de sua. casta prisão, pode á larga desaffogar-se dos suspiros que o enchiam. Chorou muito; chorou todas as lagrymas poupadas durante aquelles mezes placidos e felizes,—leite da alma com que fez calar a pouco e pouco os vagidos de sua dor.
Calar somente, não adormecel-a, por que ella ahi lhe ficou,—companheira daquella noite cruel, para velarem ambas. Quando os olhos cançaram, e foram mais intervallados os soluços, Helena jazeu immovel no leito, com o rosto sobre o travesseiro, fugindo com a vista á realidade exterior. Uma hora esteve assim, muda, prostrada, quasi morta, uma hora longa, longa, longa,—como só as tem o relogio da afflicção e da esperança.
Quando a tormenta pareceu extincta, a moça sentou-se na cama e olhou vagamente em torno de si. Depois ergueu-se; dirigiu-se tropega á toilette, que communicava com a alcova por uma porta; alli parou deante do espelho, mas fugiu logo, como se lhe pesasse encarar consigo mesma. Uma das janellas estava aberta; Helena foi alli aspirar um pouco do ar da noite. Ésta era clara, tranquilla e quente. As estrêllas tinham uma scintillação viva que as fazia parecer alegres. Helena enfiou um olhar por entre ellas como procurando o caminho da felicidade. Esteve á janella cêrca de meia hora; depois entrou, sentou-se e escreveu uma carta.
A carta era longa, escripta a golphadas, sem nexo nem ordem; continha muitas queixas e imprecações; uma ternura expansiva de mistura com um desespêro profundo; fallava daquelles que, tendo nascido sob a influência de ma estrêlla, só tem felicidades intermittentes e mutaveis; dizia que para ella a propria felicidade era um germen de morte e dissolução,—ideia que repetia tres vezes, como se tal observação fosse o transumpto de suas experiencias certas. A carta fallava tambem de um homem, cujo egoismo de pae não conhecia limites, e que a todo o trance queria que a filha desposasse uma grande riqueza e uma grande posição,—«homem—dizia ella, que me viu a principio com olhos avessos, pela diminuição que eu trazia á herança.» No fim dizia que havia naquellas linhas muito de obscuro e incompleto; que opportunamente contaria tudo; mas que desde ja podia dar a triste notícia de que lhe era forçoso abster-se de sahir.
Helena releu o escripto e meditou longo tempo sôbre elle; accrescentou ainda algumas linhas; depois, rasgou o papel em dous pedaços, chegou-os á vela, e os destruiu. Como arrependida, voltou a escrever outra carta, mas não chegou a acabar seis linhas; rasgou-a como fizera á primeira, e só então recorreu ao remedio melhor de uma alma ulcerada e pia: rezou. A prece é a escada mysteriosa de Jacob: por ella sobem os pensamentos ao ceu; por ella descem as divinas consolações.
Entretanto, a noite começava a inclinar a urna das horas ás mãos da madrugada. O somno fugira dos olhos de Helena; mas era forçoso repousar. Assim mesmo vestida atirou-se sôbre o leito. Não dormiu, não se póde dizer que dormisse; ficou alli n'um estado, que não era vigilia nem somno, até que a manhã rompeu inteiramente. Abrindo os olhos, pareceu accordar de um sonho; sua imaginação recompoz as phases todas do acontecimento da vespera. Depois suspirou, e ficou longo tempo a olhar para o chão, com a fixidez tragica e solemne da morte.
—Era justo! murmurava de quando em quando.
Levantou-se emfim; levantou-se abatida e cançada. Viu-se ao espelho; a descorada face e a linha roxa que lhe circulava as palpebras difficilmente podiam deixar de impressionar a familia. Helena disfarçou como pôde esses vestígios da tempestade; explicou-os do modo mais verosimil: o cançasso da vespera e a insomnia de toda uma noite. A explicação não achou obstaculo no ânimo da tia e do irmão. Somente o padre Melchior, presente a ella, fitou na moça um olhar dubitativo, que a obrigou a baixar os cilios.
Se Helena padecia, o logar de Estacio não era ao pe della? Assim o pensou o sobrinho de D. Ursula, que em todo esse dia resolveu não sahir de casa. Cercou-a de cuidados, buscou distrahil-a, pediu-lhe que fosse repousar um instante. Para justificar a explicação que dera, Helena obedeceu ás instrucções do irmão. Este foi encerrar-se no gabinete, onde se occupou em examinar e colleccionar alguns papeis. Era o dia marcado para solicitar de Eugenia o consentimento matrimonial, e elle não cogitava em ir ao Rio Comprido. Na irmã, sim; na irmã pensava elle, ora relendo as páginas de sua predilecção, ora mandando saber se dormia socegada, ora contemplando o desenho com que ella o presenteára na vespera. Sentia-se tão feliz naquella aurora do anno!
Pouco antes do jantar ouviu no corredor um rumor de saias, e não tardou que a irmã apparecesse á porta. Vinha como fôra; mas a Estacio pareceu que effectivamente o descanço e o somno lhe haviam restaurado as fôrças. A razão era o sorriso estudado que lhe avivava o rosto. Helena parou e Estacio foi ter com ella, travou-lhe da mão, fel-a entrar.
—Estás melhor? perguntou.
—Estou boa.
—Não dizia eu que era melhor desistir da ideia da reunião? Éstas festas prolongam-se, e fatigaram, sobretudo as pessoas franzinas...
Helena ergueu os hombros.
—Anda sentar-te um pouco.
—Primeiro hade responder-me a uma cousa.
—Que é?
—Que dia é hoje? perguntou ella.
—Anno bom.
—Lembra-se do que me prometteu?
—Perfeitamente. Ves estes papeis? disse elle mostrando sôbre a secretária uma porção de papeis classificados e postos por ordem. Occupei-me até agora em liquidar o passado; faltam-me umas últimas contas, que o procurador hade trazer amanhã. Depois, irei...
Helena abanou a cabeça com ar de desaprovação.
—Não, disse ella; não hade ir depois, hade ir hoje mesmo. Que tem as contas com a autorisação que deve pedir a Eugenia? Va logo de noite. Sou supersticiosa; creio que o pedido feito no dia de hoje é de excellente agouro. Dará um anno feliz.
—Minha intenção era ir dentro de quatro ou cinco dias, respondeu Estacio depois de silêncio; mas não tenho dúvida em fazel-o ja. Uma vez preenchida a formalidade.
—Pedil-a-ha immediatamente ao pae.
—Não!
—Porque?
—Porque precisarei meditar ainda vinte e quatro horas, pelo menos. Vinte e quatro horas não é muito para quem tem de amarrar-se eternamente. Quero sondar meu proprio espirito, e...
—Mas tudo isso é uma estravagancia! interrompeu Helena sentando-se na borda da rede em que Estacio costumava ler. Pretenderá voce recuar depois de lhe falar a ella?
—Oh! não! Mas uma vez que caminho para solução tão grave, não ha inconveniente em ir pe ante pe. Admiras-te? perguntou elle vendo que a irmã fazia um gesto de impaciencia.
—Zango-me.
—Mas...
—Voce é insupportavel. Falta ao que prometteu.
—Ja disse que hei de cumprir.
—Não recuará?
—Não.
—Irá pedil-a hoje mesmo?
—A ella.
—A ella e ao pae.
—Ao pae escreverei uma carta.
—Pois seja uma carta! Contanto que acabe com isso. O casamento será...
—Quando convier ao Dr. Camargo.
—Antes do fim do mez.
—Tão cedo!
—Dou-lhe mez e meio. Nem uma hora mais! Estou morta por vel-os casados, tanto por voce como por ella, coitada! que o ama tanto...
—Cres? perguntou vivamente Estacio.
—Se creio! Posso affirmal-o. Não será amor como voce quizera que fôsse, mas é o amor que ella lhe pode dar, e é muito. Está dito! Palavra?
Estacio estendeu silenciosamente a mão, que Helena apertou.
—Vou confiar todo o meu destino á cabeça mais leve do universo, disse Estacio com os olhos fitos no chão. Não é de seu coração que me queixo; mas de seu espirito, que nunca deixou as roupas da infancia. Demais, á medida que me approximo da hora solemne, sinto que me repugna o estado conjugal. É tão boa a minha vida de solteiro! tão cheios os meus dias...
Helena tapou-lhe a boca com uma das mãos; com a outra fez-lhe um gesto para que se calasse. Depois, fugiu. Uma vez só, Estacio reflectiu longamente na situação em que se achava; reconheceu que estava moralmente obrigado a pedir Eugenia, desde que seus corações se tinham aberto um para o outro, celebrando um contracto, que elle só não podia romper. A consciencia rebellou-se contra as resoluções do coração, e a decisão foi curta.
Naquella mesma noite, ouviu Eugenia a esperada palavra. A alegria que se lhe derramou nos olhos foi immensa e caracteristica. Um pouco mais de recato não era descabido em tal occasião. Não houve nenhum; seu primeiro acto de mulher foi uma meninice. Eugenia ignorava tudo, até a dissimulação de seu sexo. Concedendo a mão a Estacio, não era uma castellã que entregava o premio, mas um cavalleiro que o recebia com alvorôço e submissão.
Transposto o Rubicon, não havia mais que caminhar direito á cidade eterna do matrimonio. Estacio escreveu no dia seguinte uma carta ao Dr. Camargo pedindo-lhe a mão de Eugenia, carta sêcca e digna, como as circumstâncias a pediam. Antes de a remetter, mostrou-a a Helena, que recusou lel-a. Não a leu, nem lhe pegou. Elle teve-a alguns instantes na mão, sem atrever-se a dal-a ao escravo que esperava por ella. Por fim, deitou-a sôbre a secretária.
—Amanhã, disse elle sorrindo para Helena.
Helena lançou mão da carta e deu-a ao escravo.
—Leva á casa do Sr. Dr. Camargo, ordenou a moça. Não tem resposta.
CAPITULO XIV
Camargo ia sentar-se á mesa quando lhe entregaram a carta de Estacio; leu-a pura si, mas a filha leu-a nos olhos delle. Uma aura de bemaventurança desrugou a fronte do médico; seus labios,—cousa pasmosa!— abriram-se n'um sorriso perenne e franco, sorriso que uma vez chegou a desabrochar em gargalhada, a primeira que D. Thomasia lhe ouviu. Acabado o jantar, Camargo deu conta do pedido á mulher, e os dous paes chamaram a filha á sala. Eugenia ouviu a notícia sem baixar os olhos nem corar. Interrogada, respondeu que era muito do seu gosto o casamento.
—Sim? perguntou Camargo simulando um espanto que não sentia.
Eugenia fez uma leve inclinação de cabeça, com certo ar de quem dizia não acreditar no espanto do pae. Este pegou nas mãos da filha e puxou-a para si.
—Assim, pois, meu anjo,—disse elle,—casas-te por tua livre vontade? Estacio é o eleito de teu coração? Louvo a escolha, que não podia ser mais digna. Serás herdeira das virtudes de tua mãe, que te proponho como o melhor modelo da terra.
—O mais consciencioso pelo menos, acudiu D. Thomasia satisfeita e vaidosa do louvor do marido. Ha de ser boa espôsa, modesta, solicita, e economica.
—Economica, sem avareza,—emendou Camargo. A riqueza não deve ser dissipada; mas é certo que impõe obrigações imprescindiveis, e seria da maior inconveniencia viver a gente abaixo de seus meios. Não farás isso, nem cahirás no extremo opposto; procura um meio termo, que é a posição do bom senso. Nem dissipada, nem miseravel.
D. Thomasia concordou com ésta explicação do marido, em quanto Eugenia, olhando alternadamente para um e outro, parecia não lhes dar a minima attenção. Seu pensamento estava em Andarahy; ella viaja na imaginação, a cerimonia do consorcio, as carruagens, o apuro do noivo, a sua propria graça, a coroa de flores de larangeira, que a havia de adornar, emfim talhava ja o vestido branco e pregava as rendas de Malines com que havia de levar os olhos a ambas as metades do genero humano. Daquelle sonho foi despertada pelo pae, que lhe imprimiu na testa o seu segundo beijo, o primeiro, como o leitor se hade lembrar, foi dado na noite da morte do conselheiro. O terceiro seria provavelmente no dia em que ella casasse.
—Sabes que te amo, Eugenia? disse Camargo olhando para ella.
—Papae!
Camargo não pôde dizer mais nada. Seu amor, um instante expansivo, volveu a aninhar-se no fundo do coração, onde sempre estiveram. A satisfação do médico precisava do silêncio e do recolhimento para saborear-se. Foi então que Eugenia passou ás mãos de D. Thomasia. A mulher do Dr. Camargo via aquelle casamento com olhos differentes do marido. O que ella sobretudo viu eram as vantagens moraes da filha. Sentou-a ao pe de si e recitou-lhe um catecismo de deveres e costumes, que Eugenia interrompia de quando em quando, com exclamações de obediencia filial:
—Sim, mamãe!... Deixe estar!... Mamãe hade ver!...
D. Thomasia sentia-se feliz. Seu rosto, cuja expressão era vulgar, tinha naquella occasião alguma cousa que o tornava sublime. Ella fez com que a filha se lhe sentasse ao collo; e ésta, sentindo que a molestava, deixou-se lentamente cahir de joelhos, ficando entre os della, a olhar para ella.
Camargo, entretanto, ja não era daquelle mundo. Passeava de um para outro lado, com as mãos para traz, a morder a ponta do bigode. De quando em quando parava e olhava para o grupo das duas senhoras, mas era só machinalmente; seu olhar baço indicava que elle ia mergulhado em profundas cogitações.
Naquelle homem sceptico, moderado e taciturno, havia uma paixão verdadeira, exclusiva e ardente: era a filha. Camargo adorava Eugenia: era a sua religião. Concentrára esforços e pensamentos em fazel-a feliz, e para o alcançar não duvidaria empregar, se necessario fôsse, a violencia, a perfidia e a dissimulação. Nem antes nem depois sentira egual sentimento; não amou a mulher; casou por que o matrimonio é uma condição de gravidade. O maior amigo que teve foi o conselheiro Valle; mas essa mesma amizade que o ligára ao pae de Estacio nunca recebêra a contra-prova do sacrificio; alias appareceria em toda a sinceridade a natureza do médico. Elle só conhecia os affectos por assim dizer caseiros e inertes, os que não sabem nem podem afrontar as intemperies da vida. Nas relações moraes dos homens possuia somente o trôco miudo da polidez; a moeda de ouro dos grandes affectos nunca lhe entrára nas arcas do coração. Um só existia alli: o amor de Eugenia.
Mas esse mesmo amor, alias violento, escravo e cego, era uma maneira que o pae tinha de amar-se a si proprio. Entrava naquillo uma somma larga de fatuidade. Menos graciosa, Eugenia seria talvez menos amada. Elle contemplava a com o mesmo orgulho, com que o joalheiro admira o aderêço que lhe sahiu das mãos. Era a ternura do egoista: amava-se na propria obra. Caprichosa, rebelde, superficial. Eugenia não teve a fortuna de ver emendados seus defeitos, antes fui a educação que lh'os deu. Dos labios de Camargo nunca sahiu a expressão correctiva; nenhum de seus actos revellou esse procedimento vigilante e director, que é a nobre attribuição da paternidade. Se a indole da filha fosse ma, a complicidade do pae fal-a-hia pessima.
Não era felizmente; seu coração conhecia as doçuras da bondade; sua rebeldia era um hábito, não um vicio nativo. A propria frivolidade foi-lhe desenvolvida pela educação, nada podendo o zelo da mãe contra as complacencias do pae. Ésta era a explicação tambem da fascinação que exercia nella o tumulto exterior da vida. Quasi se póde dizer que ella não conhecêra o vestido curto: a modista a desmamou; uma contradança foi a sua primeira communhão.
Não era facil dar a Eugenia a felicidade que o pae ambicionava e a que mais lhe apetecia a ella. Posto não fosse perdulario, eram poucos os haveres do médico, de modo que á filha não podia caber peculio sufficiente a satisfazer todas as velleidades. Elle espreitou durante longo tempo um noivo, armando com algum dispendio a gaiola em que o passaro devia cahir. No dia em que percebeu a inclinação de Estacio, fez quanto pode para prendel-o de vez. Esperou muitos mezes a iniciativa de Estacio; e quando ella lhe entrou a fugir para a região das cousas problematicas, suspeitou a influência de Helena. Ja era muito que ésta moça diminuisse a herança do futuro genro; arrancar-lhe o genro era de mais. Camargo não hesitou um instante; foi direito ao fim. O resultado confirmou-lhe a suspeita.
O casamento era muito, mas não bastava. Camargo cuidára na carreira política de Estacio, como um meio de dar certo relevo público ao marido da filha, e, por um effeito retroactivo, a elle proprio, cuja vida fora tanto ou quanto obscura. Se o marido de Eugenia se confinasse no repouso doméstico, entre a horta e a algebra, a ambição de Camargo padeceria immenso. Vimol-o apresentar a Estacio a maçan política; recusada a princípio, foi-lhe de novo apresentada, e finalmente acceita com a noiva. Ésta dupla victória foi o momento maximo da vida do médico. Elle ouvia ja o rumor público; sentia-se maior,—ante-gostava as delícias da notoriedade;—via-se como que sogro do Estacio e pae das instituições.
—Vou entrar na cova dos leões, sem a convicção de Daniel,—suspirou Estacio na occasião em que cedeu ás instancias de Camargo.
—Seu talento amansará os leões,—acudiu este.
Assentou-se logo alli que o casamento seria celebrado na primeira semana de março. Os dous mezes de intervallo foram destinados ás formalidades ecclesiasticas e ao preparo do enxoval. Estacio aceitou tudo sem objecção. D. Ursula e Helena approvaram o plano. A primeira accrescentou uma clausula:—os noivos viriam morar com ellas em Andarahy.
O padre Melchior, consultado sôbre o casamento, deu-lhe inteira approvação, e só lhe pareceu que o prazo era longo de mais. A effusão com que abraçou Estacio, as palavras de applauso que lhe disse impressionaram vivamente o mancebo.
—Desejava muito este casamento? perguntou elle.
—Muito! Seu pae ha de approval-o no ceu!
Até os mortos conspiravam contra elle; Estacio aceitou resolutamente seu destino. A alegria do padre, ordinariamente contida e digna, transpoz os limites do costume, para se mostrar quasi infantil; D. Ursula não cabia em si do contente; Helena parecia colhêr naquelle casamento a sua propria felicidade. Era a bemaventurança universal que Estacio ia comprar a trôco de um vínculo eterno.
Surgiu, entretanto, um obstaculo temporario. A madrinha de Eugenia, a fazendeira que lhe mandara um dia a opala, que a moça admirou namorando ao mesmo tempo os olhos do futuro noivo, a madrinha de Eugenia adoeceu gravemente, menos ainda da molestia que a accommetteu que dos annos que lhe pesavam nos hombros. Era senhora rica, viuva, flanqueada por duas sobrinhas solteiras, uma cunhada, um primo, dous filhos destes e uma vintena de afilhados. Ja daqui se póde inferir a estreiteza das esperanças de Camargo. Posto que elle não tivesse nunca preterido os deveres que lhe impunha o vínculo espiritual, dando á fazendeira todas as provas possiveis de um grande affecto, ainda assim era de recear que a ultima vontade da moribunda não trouxesse o cunho da estricta justiça, ou, quando menos, de razoavel equidade. Nestas circumstâncias, a viagem a Cantagallo era urgentissima, e cumpria realizal-a á custa dos maiores incommodos. Todo o incommodo é aprazivel quando termina em legado. Camargo não perdia a esperança desse desenlace egualmente affectuoso e pecuniario. Resolveu ir com a familia toda, e avisou por carta ao futuro genro.
Estacio estimou o obstaculo, mas não contou com o que elle trazia no bojo. Chegando ao Rio Comprido achou afflictos o médico e D. Thomasia; Eugenia recusava sair da Corte. Em vão lhe mostravam a conveniencia de corresponder, em occasião tão grave, á affeição da madrinha; debalde lhe diziam que era ser ingrata não ir recolher o último suspiro da veneravel senhora, sua mãe espiritual. Eugenia recusava a pes junctos.
Assistiu o noivo á ultima phase da lucta entre os paes e a filha. Ésta trazia os olhos vermelhos de chorar; batia com as mãos uma na outra, declarando que só iria á fôrça. Estacio procurou chamal-a á razão, apoiando as reflexões do pae, sem alcançar mais do que elle. Emfim, Eugenia poz uma condição á sua acquiescencia:
—Irei, se o Dr. Estacio fôr comnosco.
Camargo approvou a condição in petto; verbalmente, oppoz-se ao sacrificio. Estacio enfiára; posto entre a espada e a parede, ja a viagem de Eugenia lhe parecia superflua.
—Acompanha-nos? insistiu a moça,
—Não é possivel, acudiu o médico; tamanho incommodo por um simples capricho.
—Pois então não vou!
D. Thomasia ficou um tanto vexada com a teima de Eugenia. Estacio mordia o labio, olhando para a moça, cujo rosto o interrogava instantemente. Venceu-o o decoro; considerando Eugenia sua mulher, quiz cortar por uma scena que lhe parecia ridicula.
—Acompanhal-os-hei,—disse elle sem enthusiasmo.
A solução era favoravel a todos: os tres aceitaram de boa feição. Marcou-se a viagem para dous dias depois. D. Ursula, apezar dos bons olhos com que via o casamento, achou desnecessaria a ida do sobrinho, mas não emprehendeu dissuadil-o. Helena approvou tudo. Elle fez sentir ás duas parentes a extensão do sacrificio, e esteve a ponto de retirar a palavra. Era tarde. A ultima noite passada em Andarahy foi cruel para elle; as horas voaram ligeiras como nunca. Como devia sahir no dia seguinte, logo cedo, alli mesmo se despediu da tia e da irmã, despedida de alguns dias que lhe custou como si fôra de annos. Prometteu, entretanto, que o regresso seria breve.
O que elle não podia prometter era conjurar o drama que se lhes preparava, drama que ia em fim devolver-se, intenso, funesto e irremediavel,—do qual não o consolariam jamais nem as doçuras da paz doméstica, nem as glórias da vida pública.
CAPITULO XV
Estacio levantou-se ao amanhecer. Uma vez prompto, quiz sorprehender a tia e a irmã com uma lembrança sua, e escreveu n'uma folha de papel éstas simples palavras: «Até á volta; 6 horas da manha.» Dobrou-a e foi pol-a sôbre a mesa de costura de D. Ursula. Dalli passou á sala de jantar, depois á varanda. Aqui chegando deu com os olhos em Helena, que o esperava ao pe da escada.
—Silêncio! disse graciosamente a moça. Não faça espantos que póde accordar titia. Vim saber se voce precisa de alguma cousa.
—De nada, respondeu Estacio commovido. Mas que imprudencia foi essa de se levantar tão cedo?
—Cedo! O sol não tarda comprimentar-nos. Adeus! muitas recommendações a Eugenia. Não lhe falta nada, não é?
—Nada.
Estacio recebeu a mão que Helena lhe estendêra e ficou a olhar para ella.
—Olhe que é tarde!
Dizendo isto, Helena apertou-lhe a mão e procurou retirar a sua; Estacio reteve-a.
—Se soubesses como me custa ir!
—São apenas alguns dias...
—Valem por mezes, Helena! Adeus, não te esqueças de mim. Escreve-me; eu escreverei logo que chegar. Não faças imprudencias; não saias a passeio em quanto eu estiver ausente.
—Adeus!
—Adeus!
Estacio quiz dar-lhe o abraço da despedida; mas a moça, menos ainda com a palavra que com o gesto, fel-o recuar.
—Não, disse ella affastando-se; as despedidas mais longas são as mais difficeis de supportar.
Recuou até á porta da sala de jantar, fez um gesto de despedida e entrou. Estacio desceu a custo as escadas. Helena viu-o descer e sahir; depois subiu cautellosamente ao seu aposento. Alli sentou-se alguns minutos, pensativa e triste. Ergueu-se enfim, vestiu rapidamente as roupas de montar; collocou o chapellinho preto sôbre os cabellos penteados á ligeira, e desceu. Na chacara esperava-a Vicente, com a egua ajaezada e prompta. Helena montou sem demora; o pagem cavalgou uma das duas mulas que havia na cavallariça e os dous sahiram a trote na direcção da casa do alpendre e da bandeira azul.
A casa estava ainda silenciosa; porta e janellas conservavam-se hermeticamente fechadas. Helena apeou-se e bateu de mansinho; repetiu as pancadas progressivamente mais fortes. Ninguem lhe respondeu. Helena impaciente rodeou a casa; mas parece que achou egualmente fechadas as portas do fundo, por que volveu logo. Collou o ouvido á porta e esperou. Quando lhe pareceu que era baldado o esfôrço, tirou da algibeira um lapis e um pedacinho de papel; collocou o pe no degrau de tijolo e sôbre o joelho escreveu algumas palavras; dobrou depois o papel e introduziu-o por baixo da porta. Esperou ainda alguns minutos, caminhou para a egua, montou e regressou a casa.
Vinha triste e pensativa. A egua, a passo vagaroso, não sentia o esfôrço da cavalleira, que a deixava ir, frouxa a redea, inutil o chicote. O pagem levava os olhos na moça com um ar de adoração visivel; mas, ao mesmo tempo, com a liberdade que dá a confiança e a complicidade, fumava um grosso charuto havanez, tirado ás caixas do senhor.
D. Ursula não estava ainda levantada; mas Helena não lhe occultou o passeio. O dia correu triste e solitario, como os seguintes, sem embargo da companhia que iam fazer ás duas senhoras as pessoas mais íntimas. Mendonça, a quem Estacio as recommendára, era alli pontual; seu espirito conseguia disfarçar um pouco as saudades do moço ausente. O padre Melchior prolongava suas visitas quotidianas; um mesmo sentimento ligava a todas as pessoas.
O mesmo era, e não unico, por que outro e mais egoista e pessoal veiu alli viçar tambem. Mendonça sentiu que metade de seu destino estava acabada, e que a outra metade ia começar, mais circunspecta que a primeira. O relogio em que elle viu bater essa hora fatidica foram os olhos, de Helena. Mendonça começava a amar, Estouvado, e não corrupto, atravessára o delirio dos primeiros annos sem perder a flor dos castos affectos, sem sequer a haver colhido. Helena sentiu nascer e crescer essa adoração silenciosa, sem parecer que a descobrira. Não animou o mancebo nem o repelliu; redobrou de confiança,—dessa confiança, que só se dá aos simples familiares, e que mostra claramente a um namorado a inanidade de suas esperanças. Ao parecer de extranhos, a situação affigurava-se de perfeita concordia. O coronel-major piscou um dia os olhos ao Dr. Mattos; o Dr. Mattos proferiu um—latet anguis in herba—e ambos foram repartir o pão das conjecturas com a espôsa do advogado, senhora muito perspicaz nos namoros de salão. A opinião dos tres é que o casamento era cousa provavel e talvez certa. Um só obstaculo podia haver; eram os escrupulos do pae de Mendonça. Esse mesmo obstaculo não existia, por quanto, além das qualidades estimaveis da moça, havia o reconhecimento legal e social, público e doméstico; accrescendo (observação do Dr. Mattos) que duzentas e tantas apolices mereciam um comprimento de chapeu e não davam logar a cinco minutos de reflexão.
As primeiras cartas de Estacio chegaram uma tarde, em que as duas senhoras e Mendonça se achavam na varanda, acabado o jantar, bebendo as últimas gotas de cafe. D. Ursula, depois de pôr em actividade tres mucamas para lhe irem procurar os oculos, levantou-se e foi ella propria á cata delles, coma sua carta na mão. Helena ficou com a que lhe era dirigida estava sentada juncto a uma das janellas; abriu-a e leu-a para si:
ESTACIO A HELENA.
«Quando ésta carta te chegar ás mãos estarei morto, morto de saudades de minha tia e de ti. Nasci para os meus, para a minha casa, os meus livros, os meus habitos de todos os dias. Nunca o senti tanto como agora, que estou longe do que ha mais caro neste mundo. Poucos dias la vão, e ja me parecem mezes. Que seria se a separação não fosse tão limitada?
«Na carta que escrevo a ti tia dou conta de nossa viagem e da saúde de todos. D. Clara está, na verdade, á beira da morte; mas pode durar ainda alguns dias, e o Dr. Camargo resolveu esperar até dar-lhe os ultimos adeuses. A recepção que nos fez a familia foi cordialissima. Ha aqui uma cunhada da enfêrma, um primo, tres sobrinhos, outros parentes e varios afilhados. O primo é commendador e tenente-coronel; elle e os outros são a gente mais affavel do mundo. Os homens da familia são influências eleitoraes; quando souberam da minha candidatura, offereceram-me logo os seus serviços, com a clausula unica de que haja prévia recommendação do Rio do Janeiro. Agradeci o favor, com muita abundancia d'alma porque a tal candidatura, que não me seduzia nem seduz, não ha remedio se não cuidar della, de modo que o meu nome não padeça, a injúria da derrota. Que te parece ésta pontasinha de vaidade?
«Mudemos de assumpto, que este me afflige, e não quero philosofar sem ti, que es a minha companheira nestas vadiações de espirito. Ahi não te lembrarás, talvez, das nossas palestras; aqui lembra-me tudo. De manhã, dou o meu passeio equestre, como la; mas que differença! Quem vae a meu lado é o tenente-coronel, excellente homem, coração de pomba, com o defeito unico e enorme de se não chamar D. Helena do Valle, a minha boa Helena, que la está na Côrte a divertir-se sem seu irmão. Elle fala de tudo e muito: do cafe, do governo, das eleições, dos escravos, dos impostos. Eu ouço-o, que é o menos que posso fazer, e deixo-o ir sem interrupção. Ás vezes, como que desconfiado, recolhe-se ao silêncio; eu ato o fio da conversa e elle encarrega-se de desenrolar o novello. Tão pouca cousa o faz feliz! Já cacei uma vez; confesso-te que é o que me pode distrahir um pouco. Pensava ter perdido o costume; mas não perdi. A modestia impede-me dizer mais.
«A fazenda é vasta e a casa excellente. Não te direi que gósto da vida agricola; não gósto, não me dou com ella. Mas viver num recanto como este, a dous passos do mato, a tantas legoas da rua do Ouvidor, isso creio que se dá com a minha indole. Consultaremos titia. Eu não sei o que é amar o tumulto exterior; acho que é dispersar a alma e crestar a flor dos sentimentos. Nasci para monge... e creio que tambem para despota, porque estou a planear uma vida ignorada e deserta, sem consultar tuas preferencias. Sou um Cromwell com tendencias de frade; ou, por dizer tudo n'uma só palavra: sou um Lutero... muito inferior.
«Pobre Helena! Ja la vão quatro páginas só a falar de mim. Vejamos ó que tens feito. Andas muito triste? passeas? lês? jogas? tocas? Conta-me a tua vida o mais miudamente que puderes; conta-me a vida de todos. Não me escondas nada; se, por exemplo, ao abrir um livro ou tocar uma tecla do piano, pensares em mim, escreve isso mesmo, marcando o dia e até a hora, se puder ser. E depois dou-te o direito de perguntar onde ficou a minha gravidade, e responderei que ha uma puerilidade séria, e que os extremos tocam-se. Quando assim não seja, a culpa é do ceu, que me não deu uma irmã creança; agora é preciso que comecemos pela primeira phase da vida.
«Deixei muito recommendado ao Mendonça que fôsse a nossa casa com frequencia. Não sei se elle se terá lembrado e cumprido a promessa que me fez. Se não tiver cumprido, has de mandar-lhe dizer que eu o detesto e abomino, que elle é o maior traidor que o ceu cobre; que tudo fica acabado entre mim e elle; que a amizade é um culto, etc. Dize o que te parecer e pelo modo que te é usual.
«Lembro-me de ti a proposito de tudo. Hoje de tarde, por exemplo, o terreiro offerecia ura aspecto bonito e caracteristico. Se ella estivesse aqui, disse commigo, faria um magnifico desenho. Peguei de um lapis que trouxe, meia folha de papel, e quiz reproduzir o panorama. Escrevi um problema algebrico! Foi um conselho que me deu o lapis: ninguem se metta a fazer aquillo que ignora. Eu ignorava o que era estar ausente da familia; por que motivo me determinei a tental-o?
«Interrompi ésta carta para receber o Dr. Froes, que é o médico de D. Clara; veiu ao meu quarto para me dizer que o estado da doente é perdido; que a morte é certa; mas que a vida póde prolongar-se ainda por muitos dias. Ve que perspectiva! Estou com raiva de mim mesmo; esses ultimos dias da enfêrma pesam sôbre mim como se fôra o punho fechado do destino. Se a morte é certa, por que viver alguns dias mais? E é vida isso, ou é morrer aos goles, sem consciencia do que se perde nem do que se vae ganhar?
«Está decidido; posso ir daqui a seis dias ou daqui a um mez. Sera o que Deus quizer. Manda-me, entretanto, alguns livros. No meu quarto só achei um Manual de medicina prática. Manda-me alguma cousa que me faça lembrar Andarahy. Tira da estante oito ou dez volumes, á tua escolha. Manda tambem algum trabalho de agulha teu; quero mostral-o á cunhada de D. Clara, a quem gabei muito os teus talentos. Se puderes desenhar alguma cousa, á pressa, o tanque, a varanda, ou qualquer outro logar, faze-o, e manda com o resto. Escreve-me longamente; conta-me tudo o que houver interessante; fala-me de ti, que é o meio de consolar minhas saudades, que são immensas, immensas como este amor que tenho a minha familia toda. Vou fazer por voltar breve. Adeus, minha boa Helena; adeus, minha vida, adeus, ó mais bella e doce de todas as irmãs!
«P.S. Reli a carta, e fiquei envergonhado do trecho a respeito da vida da doente. Perdoa-me a ferocidade, e leva-a em conta da solidão.»
CAPITULO XVI
Helena leu e releu a carta. Depois ficou silenciosa a olhar para as folhas da trepadeira, que do lado de fóra viera a subir pela muralha da varanda, e a debruçar-se emfim do parapeito para dentro. A carta ficára aberta sôbre os joelhos da moça. Mendonça, a poucos passos, olhava para ésta, sem ousar falar-lhe.
Goethe escreveu um dia que a linha vertical é a lei da intelligencia humana. Póde dizer-se, do mesmo modo, que a linha curva é a lei da graça feminil. Mendonça o sentiu contemplando o busto de Helena e a casta ondulação da espadua e do seio, cobertos pela caça fina do vestido. A moça estava um pouco inclinada. Do logar em que ficava, Mendonça via-lhe o perfil correcto e pensativo, a curva molle do braço, e a ponta indiscreta e curiosa do sapatinho raso que ella trazia. A attitude convinha á belleza melancholica de Helena. O rapaz olhava para ella sem movimento nem voz.
A tarde expirava; a côr verde do morro fronteiro ia tomando o aspecto cinzento-escuro que precede a côr fechada da noite. A propria noite desceu; e um escravo entrou na varanda, a accender as duas lampadas que pendiam do tecto. Ésta circumstância accordou a moça, e bastou-lhe voltar um pouco a cabeça para ver o amigo de Estacio a alguns passos de distância.
—Estava ahi? perguntou Helena estremecendo.
—D. Ursula não voltou, respondeu Mendonça com timidez; não quiz interromper a leitura que a senhora fazia.
—A leitura? A leitura acabou ha muito tempo.
—Mas tambem se lê com o espirito.
Helena lançou-lhe um olhar suspeitoso.
—Não sei ler de cór, disse ella, erguendo-se e sahindo da varanda.
Mendonça ficou aturdido. Que lhe dissera elle tão grave que a pudesse offender? Repetiu suas proprias palavras e não lhes achou sentido mau. Certo, porém, de que a molestára, alli ficou aborrecido de si mesmo, desejoso de lhe explicar tudo, se alguma cousa houvesse explicavel. Apos alguns instantes, resolveu entrar tambem. Entrou; Helena não estava nem na sala de jantar, nem na do jogo, onde achou D. Ursula com o Dr. Mattos e o coronel-major. Dalli passou á sala de visitas. Helena não o viu entrar; estava mergulhada n'uma poltrona com a cabeça nas mãos. Commovido, deteve-se alguns instantes a contemplal-a; depois caminhou para ella e falou-lhe.
Helena ergueu a cabeça.
—Perdõe-me, disse elle, se alguma cousa lhe disse que a magoou. Confesso que não sei o que poderia haver em minhas palavras. Ficou triste por isso?
A moca cravou nelle um olhar ainda suspeitoso, e não lhe respondeu logo. Mendonça adoptou o melhor dos alvitres naquella occasião; inclinou-se e recuou para sahir. Helena chamou-o; elle approximou-se outra vez, com um ar de tão doce resignação, que lisonjearia o mais levantado orgulho. Helena estendeu-lhe a mão; elle apertou-a e teve impetos de a beijar uma e muitas vezes, triumphando naquelle unico instante da hesitação de todos os dias; faltou-lhe resolução. Helena mostrou-lhe o trecho da carta em que Estacio se referia a elle; falaram dos ausentes e dos presentes, de todos e de tudo, menos do assumpto que exclusivamente preoccupava o moço. Elle sahiu dalli sem ter dito nada de seu coração. Chegando á rua achou-se poltrão e ridiculo, disse mil nomes feios a si proprio; emfim, prometteu declarar tudo a Helena no dia seguinte.
No dia seguinte, que era domingo, Helena dirigiu-se á capella a ouvir a missa do padre Melchior. Acabada a cerimonia, não seguiu para casa, com D. Ursula, mas foi ter á sacristia, onde o padre acabava de tirar os paramentos. Melchior, logo que soubera da carta de Estacio, nessa manha, pedira a Helena que lh'a deixasse ver.
—Falam sempre ao coração as lettras dos amigos, dissera elle.
Helena deu-lhe a carta, que o padre recebeu com uma expressão antes de curiosidade que de affecto. Leu-a vagarosamente, como escrutando o sentido e as palavras; e sendo longa a epistola, longo foi o tempo que elle despendeu em a interpretar. Durante esse tempo, Helena admirava-lhe a figura austera, a serenidade religiosa, que é a coroa mystica do verdadeiro ecclesiastico. A sacristia era pequena; duas altas janellas deixavam entrar a luz, o ar e o aroma das folhas e das flôres da chacara. Entre a cimalha e o telhado algumas andorinhas haviam fabricado os ninhos, donde sabiam, como pensamentos de juventude, a adejar ao sol da manha. Ao pe daquelle quadro exterior de alegria e verdura, a sacristia tinha certo ar melancholico e severo, que lançava n'alma o esquecimento das vicissitudes humanas. Helena deixou-se captivar desse sentimento de abstenção e elevação; se alguma dor ou remorso a pungia, esqueceu-os, por um minuto ao menos, entra aquellas paredes desataviadas, deante de um padre, entre uma imagem de Jesus e as obras vivas do Creador.
Lida a carta, Melchior dobrou-a com ar pensativo; depois entregou-a á moça.
—Ja respondeu? perguntou elle.
—Ja; trouxe-lhe a carta que vou mandar hoje mesmo.
Melchior abriu-a e leu; não gastou menos tempo, ainda que era de menores dimensões. O estylo era affectuoso, mas muito menos exhuberante que o da carta de Estacio. Ella contava-lhe, em suas feições geraes, a vida que alli passavam, desde que elle partira, as occupações de cada dia e as distrações da noite.
«Vivemos, dizia a moça, como podem viver duas creaturas que sabem a affeição que lhes tem um parente amigo, ausente embora, mas não esquecido,—nem ingrato. O padre Melchior, algum dos visinhos, e o Dr. Mendonça são as nossas visitas habituaes. Voce sabe o que vale o padre; é a mais bella alma que Deus mandou ao mundo. Os risinhos são affaveis, como sempre. O Dr. Mendonça é verdadeiramente digno da nossa affeição e confiança. Disse-lhe o que voce me escreveu; elle riu, como homem seguro de escapar á punição.
«Pena é que voce tenha de se demorar ahi tanto tempo; mas, se alguma esperança pode haver de salvar a doente, damo-nos por bem pagas da demora. É verdade que voce não é médico; mas ha ahi outra doente, para quem é, não só médico, mas até toda a medicina. Porque razão me não escreveu Eugenia? Eu não cuidei que essa amiga me esquecesse na vespera de ser rainha cunhada. Se estivessemos mais perto ia puxar-lhe as orelhas. Diga-lhe isto; e se tiver occasião de emprestar-me os seus dedos, applique-lhe o castigo, declarando-lhe o delicto commettido e o juiz que a sentenciou.
«O que voce diz da vida solitaria é muito justo, mas impraticavel. Os amigos não nos iriam ver; e poderiamos nós dispensal-os? Tal é a opinião de titia e a minha. O melhor de tudo é este meio termo de Andarahy; nem estamos fóra do mundo, nem, no meio delle. O ruido externo pode ter os effeitos de que voce fala; mas elle é ás vezes preciso para aturdir e distrahir o espirito. Tambem a solidão tem suas dores, e fundas: tambem ella abala o coração. Nem um extrema nem outro.»
A carta continha alguns periodos mais, não muitos; tres ou quatro vezes falava em Eugenia, com tamanha insistencia que punha em relevo o silêncio a tal respeito conservado por Estacio; falava-lhe da belleza da noiva, do casamento proximo, do amor que os faria felizes, e da ventura que ambos dariam a todos os seus.
Quando o padre acabou de ler a resposta; abriu os braços a Helena; depois abrangeu com as mãos a cabeça da moça e contemplou-a durante alguns segundos.
—Toda a sua alma está nesse escripto, disse elle; vejo ahi a reflexão e o affecto. Tanto melhor! Ha comtudo uma lacuna: não transmitte a seu irmão as minhas saudades; mas ha tambem uma excrescencia: louva meritos que não possuo. Embora! Mande-a...
—Escreverei duas linhas mais.
—Pois sim. Diga-lhe que se apresse porque estou velho e posso morrer antes.
—Oh! protestou Helena.
Melchior olhou para ella silenciosamente.
—Cre que Estacio seja feliz? perguntou elle emfim.
—Creio.
—Tambem eu.
Outro silêncio. O primeiro que o rompeu foi o padre.
—Por que se não casa tambem? disse elle.
—Eu?
—De certo. Póde ser que muito breve, talvez...
—Talvez, nunca.
Melchior franziu a testa; sua physionomia, de ordinario meiga, tornou-se severa, como a consciencia delle. O padre tinha uma das mãos de Helena entre as suas; deixou-a insensivelmente cair. Entre os dous estabeleceu-se um silêncio que os acabrunhava e que não ousavam romper; como subjugados por um mysterio, receiava cada um delles que o outro lh'o lesse na fronte; instinctivamente desviaram os olhos.
Melchior foi o primeiro que voltou a si. A reflexão corrigiu a expontaneidade; e o padre reassumiu o gesto usual, com essa dissimulação, que é um dever, quando a sinceridade é um perigo.
—Vamos la, disse elle; ninguem póde decidir o que hade fazer amanhã; Deus escreve as páginas do nosso destino; nós não fazemos mais do que transcrevel-as na terra.
—É verdade! confirmou ella com um gesto de cabeça, e sem erguer os olhos.
—Amanhã, continuou o padre, o acaso,—isso que os incredulos chamam acaso, e que é a deliberação da vontade infinita,—lhe apontará um homem digno da senhora; e seu coração lhe dirá; é este; e o suspiro desalentado de hoje converter-se-ha n'um olhar de graças ao ceu. Ora, o que eu lhe peço, o que eu desejo, é que se apresse tanto que eu possa casal-os...
—Oh! mas não vae morrer amanhã, interrompeu Helena.
—Estou velho, minha filha; estes cabellos brancos são ja a neve desse mar polar para onde navegamos todos. Conto sessenta annos. A morte póde colher-me um dia proximo...
—Vamos almoçar, disse Helena sorrindo.
Sahiram da sacristia, atravessaram a capella, e penetraram na chacara. Na occasião em que iam transpor a porta da capella, viram Mendonça entrar em casa. Melchior estacou, e olhou para Helena. Ésta ia como acabrunhada e absorta. O gesto do padre, quando ella lhe declarou que não se casaria talvez nunca, ficára-lhe gravado na memoria, como um enigma, que talvez receiava decifrar. Poucos minutos eram passados; contudo, ella pôde reflectir, e colligir os elementos de uma resolução. Detendo-se, com o padre, á porta da capella, viu tambem entrar Mendonça, Os olhos da moca e do padre interrogaram-se de novo, mas desta vez nenhum delles os desviou.
—Vê aquelle homem? perguntou Helena. Parece-lhe que seria bom marido?
—Excellente, de certo, disse vivamente Melchior; caracter, educação, sentimentos.
—Tem ainda uma virtude particular: ama-me.
—Sei.
—Elle lh'o disse?
—Não, mas ve-se. É sabido de todos os que frequentam ésta casa. A probabilidade do casamento é objecto de commentarios; e a opinião geral é que elle se fara dentro de pouco tempo. Confessou-lhe alguma cousa?
—Nada; mas os olhos da mulher amada não são menos sagazes que os dos padres amigos. Acha que devo confirmar a opinião dos outros?
—Acho; consulte porém seu coração.
—Ja consultei.
—Neste unico instante?
—Nada menos.
—Devéras? disse Melchior derramando um olhar de paternal ternura no rosto serio de Helena.
—Não digo que o ame desde ja; mas a affeição que elle me tem reflectirá em meu coração, e eu virei a amal-o. O que importa saber é que é digno de mim. De todos os que me pretendessem nenhum lhe seria superior.
—Ainda bem! Contudo, repare que vae contrahir uma obrigação perpétua, e que um contracto destes não póde ser deliberado em poucos instantes.
—Oh! nesse ponto a minha ignorancia sabe mais do que a sua theologia. Que são minutos e que são mezes? Paixões de largos annos, chegando ao casamento, acabam muitas vezes pela separação ou pelo odio, quando menos pela indifferença. O amor não é mais que um instrumento de escolha; amar é eleger a creatura que hade ser companheira na vida, não é afiançar a perpétua felicidade de duas pessoas, por que essa póde exvair-se ou corromper-se. Que resta à maior parte dos casamentos, logo apos os annos da paixão? Uma affeição pacifica, a estima, a intimidade. Não peço mais ao casamento, nem lhe posso dar mais do que isso.
—Não gósto de tanta reflexão era tão verde edade, replicou benevolamente Melchior; todavia encanta-me esse raciocinio, que ao cabo de tudo póde ser verdadeiro. Mas não me desdigo; alguns minutos é pouco tempo; reflicta ainda vinte e quatro horas.
—Nem um instante mais, insistiu Helena. Minhas reflexões são lentas ou subitas: ou cinco minutos ou um anno; escolha.
—Pois reflicta cinco minutos, replicou o padre sorrindo.
—Ja la vão quatro; aproveitarei o último para lhe dizer que em nada disto falaria se não fossem as qualidades notaveis desse moço; e para accrescentar que a elle me liga certa sympathia de genios... é talvez a semente do amor.
Tinham chegado ao primeiro degrau da escada da varanda. Subiram e penetraram na sala de jantar, onde acharam D. Ursula e Mendonça, este a percorrer com os olhos um jornal do dia. O almoço serviu-se immediatamente.
—Padre-mestre, disse D. Ursula, demorou-se tanto que cuidei... tivesse ideia de me arrebatar Helena.
—Estive-a ouvindo de confissão, respondeu Melchior.
—E pode absolvel-a?
—De certo.
—Mas com grande penitencia, não?
—A mais facil de todas, acudiu Helena olhando para o padre.
—Oh! então é que os peccados são leves! concluiu D. Ursula. Não lhe parece?
Éstas ultimas palavras foram dirigidas a Mendonça, na occasião em que todos caminhavam para a mesa. Mendonça não disse nada. Seus olhos ousavam apenas resvalar pela moça; contra o costume, elle falava pouco,—menos ainda que na vespera e nos dias anteriores. D. Ursula via a differença, mas não a comprehendia.
—Não quero saber que peccados confessou,—disse ella sentando-se; mas estou certa que o maior delles não levaria ninguem ao purgatorio.
—Veja o que é uma tia indulgente, observou Helena a Mendonça, sentando-se a seu lado.
Preoccupado com a conversa que acabava de ter na sacristia e na chacara, Melchior pouca attenção prestou a principio ao filho do commerciante. Seu espirito analysava as circumstâncias do momento e pesava a responsabilidade que lhe podia vir de qualquer resolução que adoptasse. Apos um longo dialogo com a sua consciencia, o velho sacerdote inclinou os olhos ao mancebo, que lhe ficava defronte, ao lado de Helena. Viu-os conversar com essa familiaridade de bom gôsto, que é a pedra de toque dos costumes polidos. Ella mostrava-se graciosa, solicita e attenta, como uma espôsa amante; elle parecia enamorado da voz e das falas da donzella; como que um clarão interior lhe desvendára à alma os horizontes infinitos da esperança. Familiarisado com Helena, tratado por ella com exquisita attenção, era comtudo a primeira vez que ella lhe falava, não como a um confidente amigo, mas como a um homem que poderia vir a ser seu esposo. Alguma seriedade, um olhar submisso, uma attenção continuada, fizeram essa differença que antes foi sentida pelo coração do que descoberta pelos olhos.
No fim do almôço, Melchior dirigiu-se para a sala de visitas, com Helena. Mendonça acompanhou-os. A resolução do padre estava assentada de raiz; elle acceitava aquelle casamento como um presente do ceu. Apenas entrados ha sala, travou das mãos de um e outro e lhes disse, com voz commovida:
—Promettem não zangar-se commigo?
—Por que? interrogou Mendonça com os olhos.
Helena baixára os seus.
—Promettem?
—Padre-mestre... começou Mendonça sem poder concluir a phrase.
O padre olhou silenciosamente para um e outro. Talvez hesitava falar; talvez buscava o melhor meio de dizer o que tinha no coração. Urgia romper o silêncio; fel-o com solemnidade:
—Serei duas vezes padre: segundo a natureza e segundo o Evangelho. Quando duas creaturas se merecem, é servir a Deus emprestar a voz ao coração que não ousa falar. O senhor ama ésta menina; leio-lhe dos olhos o sentimento que o arrasta para ella; são dignos um do outro. Se é a timidez que lhe fecha os labios, eu sou a voz da verdade e do amor infinito; se outro motivo, serei juiz complacente para escutal-o.
Ouvindo éstas palavras, Mendonça ficou aturdido e mudo. Não só a fortuna lhe chegava ás mãos, quando elle menos esperava, mas até escolhêra um caminho desusado e extranho. A realidade confundia-se alli cora o sonho. A presença de um terceiro era sufficiente motivo para acanhar os mais resolutos; accrescia a veste sacra do sacerdote que dava aquillo um ar de solemnidade e consagração. Mendonça recobrou enfim o uso dos sentidos; sua resposta unica e eloquente, foi estender a mão a Helena, gesto a que a moça correspondeu com simplesa e naturalidade.
—Não se enganaram meus olhos, disse o padre. Ama-a, e póde dar-lhe a felicidade que lhe desejo a ella. Tambem Helena o fara venturoso, não? perguntou elle voltando-se para á moça.
—Mas é isto um sonho? perguntou enfim Mendonça.
—A vida não é outra cousa, retorquiu o capellão; velho pensamento e velha verdade. Façamos por que o sonho seja agradavel e não arido ou triste. Promettem-me que se farão felizes?
—Não ambiciono outra cousa, disse o rapaz; será o meu cuidado e a minha glória.
—Seu amor, continuou Melchior, é mais forte que o de Helena; eu consultei-a antes, e li em seu coração. Elege-o com prazer, embora sem enthusiasmo. Não é a paixão cega que a faz falar é um sentimento brando e singello, por isso mesmo duradouro. A reflexão de um corrigirá a violencia do outro, e os dous sentimentos se completarão pela virtude especial de cada um.
Ésta explicação franca de Melchior teve o condão de ser agradavel aos dous. Helena estimou que elle nem lisonjeasse as illusões de Mendonça, nem a désse como acceitando indifferente e estouvada o casamento proposto. Pela sua parte, Mendonça viu nas palavras do padre um indicio da sinceridade de Helena, e aceitou o pouco offerecido, com a certeza de multiplical-o. O caracter de Melchior e a veneração que mereciam suas virtudes, eram fianças de veracidade e davam ao acto singello que alli se passava um forte cunho de santidade e elevação. Não era uma vulgar declaração de amor, sugeita ás variações do espirito ou do interesse; mas verdadeiros esponsaes, em que a religião era inspiradora e testemunha.
CAPITULO XVII
Aquelle dia foi marcado no calendario de Mendonça com lettras de ouro e setim; a noite desceu coroada de murta e rosas. Elle viveu essas horas todas n'um estado de somnambulismo e extasis. Tencionava referir tudo á mãe, logo que entrou em casa ao meio dia; mas não se atreveu, porque elle mesmo não estava certo se vivia a realidade ou se voava nas azas de uma chimera. De noite voltou a Andarahy; achou em Helena o mesmo modo affectuoso, a mesma solicitude e carinho; nenhuma ternura expansiva, nenhuma contemplação namorada; um meio termo que o continha a elle proprio, e não era menos aprazivel ao coração. A nova situação era, entretanto, sensivel, porque os vigilantes de fóra, trocaram entre si olhares profundos e inundados de graves descobertas; um delles, o coronel-major, chegou a proferir uma allusão, que os interessados fingiram não perceber.