CAPITULO XI
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Como o Conde foi cercar o Castello de Coimbra, que tinha Martim de Freitas, por El Rei Dom Sancho, e das afrontas que passou no cerco
O Conde
como chegou a Coimbra antes de fazer grandes aparelhos pera o cerco e combates mandou dizer a Dom Martim de Freitas: «Que lhe entregasse a Cidade, e o Castello, como por muitas vezes já lhe mandara requerer, e por esso lhe faria muita mercê, porque se o assi não fizesse, que o combateria, e o cobraria tudo com sua perda, e dano». E Dom Martim de Freitas lhe respondeo: «Que sua mercê poderia comprir sua vontade, e fazer o que quizesse, porém que fosse certo, que em quanto soubesse que El-Rei Dom Sancho seu Rei, e Senhor, era vivo, que lho não entregaria sem seu mandado, ou sabendo, que era morto, e que o não ameaçasse com morte, nem perigos, porque tudo padeceria com bom coração por inteiramente comprir com sua lealdade». Pelo qual o Conde assentou seu cerco sobre o Castello, e ordenou seus combates, com que logo, e depois o combateo muitas vezes, em que de uma parte, e da outra houve mortos e feridos.
Mas o alcaide, e os que por sua defenção comsigo tinha eram taes, que os cometimentos do Conde não aproveitavam pera cobrar o Castello por força, da qual cauza anojado o Conde fez juramento a Deos de nunca se alevantar de sobre elle até o tomar por força, ou por fome, e assi o fez porque o cerco foi tão porlongado, que os de dentro por falecimento dagoa, e de provizões, que já não tinham, como desesperados comiam, e bebiam couzas mui contrairas, e descostumadas da natureza humana, que não ficáram bestas, cães, gatos vivos, nem os couros das alimarias mortas. E sendo o Conde desto certificado os mandava afrontar, e requerer cada dia: «Que se dessem, e não padecessem sem cauza, e por contumacia tão asperas cruezas, que a sua tal façanha era vã, que não podia, nem devia levar ao diante».
Ao que Dom Martim de Freitas por sua honra, e fama não queria obedecer, e dice, que durando este cerco, padecendo já de dentro grande, e mortal necessidade de sede, que porque viram um Cavalleiro do Conde cavalgado pelo rio do Mondego passar, e que o cavallo de farto não provou agoa, e que os de dentro magoados por sua mingoa, e envejozos da bemaventurança da alimaria, fizeram sobresso grandes lamentações, com que alguns parentes, e amigos do Alcaide lhe aconselhavam: «Que pois os padecimentos incomportaveis que sofriam sem esperança de ajuda, nem soccorro estranho eram taes, que já se não podiam comportar, e elle no Regno era só o que sostinha tal profia, que por dar a elle, e aos seus as vidas, désse o Castello ao Conde».
Dom Martim de Freitas lhes respondeo: «Parentes, e meus amigos, que aqui estaes, nunca Deos queira, que obedecendo a esse vosso concelho eu ponha tão grande magoa sobre minha limpeza, nem consinta tamanha traição sobre minha honra, e lealdade, nas quaes todas encorreria se desse este Castello senão a quem por minha menagem mo deu, em quanto elle for vivo, e ami não fica por ver, e conhecer craramente as grandes tribulações que vós, e eu, e todos aqui padecemos, mas se vós quizerdes trazer a vossas memorias, e poer ante estas vossas necessidades outras muito maiores fomes, e males, que muitos sendo cercados já padeceram, achareis que por manterem suas lealdades depois que todalas couzas lhe faleciam a comerem as raizes das viz ervas, se sostiveram, pelo qual deste temor e afronta prazerá a Deos por sua piedade, que bom nome, e segurança nossa sedo nos livrará, e em algum tempo vos alegrareis contardes a vossos filhos e amigos estes males que padeceis, com que não acrecentareis pouco em vosso louvor e merecimento, e obrigação de bondade, e lealdade, que a outros em semelhantes cazos confrangeo, e essa mesma neste cazo nosso nos não desobriga, ca em outra maneira as vidas, que salvamos, durarão poucos dias, e a infamia, e deshonra, que por esso recebemos, durarão pera sempre, pelo qual vos rogo, que em quanto poderdes não faleçais, e me ajudeis, ca Deos nos acorrerá, e este mal prazendo a elle não durará muito, e por ventura se algum de vós pera seu serviço, ou pera outra sua deleitação tiverem dezejos de molheres dizei-mo, que aqui está minha filha, que é boa donzella, e que muito amo a que eu mandarei que em tudo vos sirva de boamente, porque com melhor vontade consentirei, e menos me doerá, que ella perca a vertude de sua virgindade, que por mingoa de vós outros, perder eu minha lealdade, e ser constrangido a fazer tamanha traição, como seria dar como não devo este Castello a quem mo não deu».
Com estas palavras, que Dom Martim de Freitas dice, ficaram todos muito maravilhados, e louvando muito sua bondade, se esforçaram, e lhe prometeram, que ora fosse com rezão, ou sem ella, elles por satisfazer a seu dezejo por algum cazo, e afronta, que sobreviesse, o não leixariam, antes todos morreriam primeiro com elle.