CAPITULO X
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Como o Conde cercou em Celorico da Beira a Dom Fernão Rodrigues Pacheco, que lhe não quiz obedecer, e como por causa de uma truita se alevantou o cerco
O Conde
de Bolonha governador como entrou no Regno segundo atraz já dice, logo por força, ou por vontade, ou a sua obediencia todalas Cidades, Villas, e Castellos do Regno, em que entraram todalas que El-Rei Dom Sancho tinha dado em Portugal ao Ifante Dom Affonso de Molina por entrar com elle, e em sua ajuda no Regno, do que o dito Ifante se mandou queixar ao Papa, e assi com elle outros Cavalleiros, e Alcaides de Portugal, pelo Conde de Bolonha lhes tomar contra suas vontades os Castellos que tinham por suas menagens, e destes o Papa se escuzou havendo que o Conde pera asecego, e boa governança do Regno fazia o que devia, mas sómente escreveo ao Conde rogando-lhe pelos Castellos, que por El-Rei Dom Sancho eram dados ao Ifante Dom Affonso de Molina, ao que não satisfez pelos grandes inconvenientes que nesto havia, e porque soube que eram cartas, e rogos de comprimento.
Neste tempo depois del-Rei D. Sancho ser em Castella, porque o Castello de Celorico da Beira, que tinha Dom Fernão Rodrigues Pacheco, e o de Coimbra, que tinha Dom Martim de Freitas, ficaram sómente por El-Rei, como atrás dice, o Conde depois de sua partida lhes mandou dizer, e rogar que lhos quizessem entregar, como os outros tinham já feito em todo o Regno, prometendo-lhe por esso além de fazerem o que deviam mercê, e bom galardão. E cada um por si lhe respondeo: «Que elles tinham feita menagem a El-Rei Dom Sancho, seu Rei e Senhor, e que em quanto elle fosse vivo, posto que andasse em Castella, não deviam de entregar seus Castellos, se não a elle, de cuja mão os receberam, ou por seu especial mandado, e do Papa, nem por outro algum temor, os não haviam de entregar, em cazo, que sobresso fossem excommungados, e padecessem cercos, e quaesquer outras fadigas, e tormentos».
Pelo qual vendo o Conde sua tão firme determinação, e que pera o que dezejava não aproveitavam muito suas repricas brandas, que fez, detreminou cerca-los, e poz logo cerco em pessoa sobre Celorico, ca este por ser mais junto á frontaria de Castella houve por melhor cobrar-se logo, e este mandou combater muitas vezes, mas por sua fortaleza, e por a boa gente que o defendia, não se podia cobrar por força, e durou o cerco tanto tempo, que por o Castello não ter soccorro, nem lhe poder vir provizão de mantimentos de fóra, foram os de dentro postos em tanta estreiteza de fome, e doutras necessidades que por não morrerem, tão cruas e dezesperadas mortes, como se lhes ofereciam, estavam pera se dar, e entregar o Castello, e não sofrer mais apertos de tão perversa lealdade.
E estando nesta afronta se diz, que Dom Fernão Rodrigues Pacheco se alevantou um dia muito cedo, e andando pelo muro cuidando na preça, em que estava, e sobresso posto em desvairados pensamentos sem determinadamente saber o que faria, lembrando-se de Deos, lhe pedia muito de coração, que por sua misericordia por alguma maneira lhe socorresse, por tal, que não cahisse em tamanha mingoa de sua honra, como seria dar aquelle Castello se não a El-Rei, que lho dera, e porque lhe tinha feita menagem, e que durando nesta maginação, e oração, que vio vir contra a ribeira do Mondego, que é ahi junto, uma Aguia, que trazia nas unhas uma grande truita, e que voando por sima do Castello lhe cahio dentro, ainda mui fresca, com que algum tanto logo se alegrou, e que a mesma truita, e com desse melhor pão, que no Castello se pode haver, e aparelhar, mandou todo em prezente ao Conde no arraial, que tinha cercado, e lhe mandou dizer: «Que bem o poderia ter cercado quanto fosse sua mercê, mas que se por fome o esperava tomar, que visse se os homens, que daquella vianda eram bem bastecidos, se teriam rezão de entregar-lhe contra suas honras o Castello». Da qual couza o Conde, e estes a que do prezente deu parte, foram assás maravilhados, e vendo, que por longar mais o cerco alli, não aproveitava, e em outras muitas partes danaria, alevantou o cerco sobre Celorico, e o foi pôr sobre Coimbra.