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Cantos

VISÕES.

Reading edition

I. PRODIGIO.

N’aquelle instante em que vacilla a mente Do somno ao despertar, quando pejada Vem doutros mundos de visões ethereas: Quando sobre a manhã surge brilhante A luz da madrugada,—eu vi!... nem sonhos Era a minha visão, real não era; Mas tinha d’ambos o talvez.—Quem sabe? Foi caprixo fallaz da phantasia, Ou foi certo aventar d’eras venturas? A ira do Senhor baixou tremenda Sobre uma vasta capital!—em pedra Tomou-se a gente impura. Muitos homens As portas ferreas, largas, vi sentados. Melhor do que um pintor ou statuario A morte, que de subito os colhera No ardor, no afan da vida, conservou-lhes A acção—partida em meio, com tal força, Que a mente seo máo grado a completava. Um tinha os labios entre-abertos; outro Parecia sorrir; mais longe aquelle Derramava um segredo, baixo, á medo, Nos ouvidos do amigo; austero o guarda Com rosto carregado e barba hirsuta Nas mãos callosas sopesava a lança. Dos mercadores na comprida rua Passavão muitos compradores;—este Contava montes d’oiro;—á luz aquelle Expunha a seda do Indostão, de Tyro A purpura brilhante, a damasquina Custosa tela entretecida d’oiro. Cortez sorrindo, o mercador gabava As cores vivas, o tecido, o corpo Do estofo que vendia. Nos serralhos Era o Eunucho imperfeito; das Mesquitas Bradava á prece o Muezzin... —N’um largo, Fofo e vasto divan sentado, um velho Os versos lia do Alcorão;—só elle D’entre tanto punir ficára illeso.

II. A CRUZ.

Era um templo d’arabica structura, Magestoso, elegante;—alem das nuvens Se entranhava nos céos subtil a agulha; Sobre o zimborio retumbante e vasto Ondas e ondas de vapor crescião. Dentro corrião tres compridas naves Sobre dois renques de columnas, onde Baixos relevos da sagrada historia Da base ao capitel se emmaranhavão. Ardia a luz na alampada sagrada; No sagrado instrumento o som dormia. Junto á cruz—da fachada egregia pompa— Muitos homens eu vi de torvo aspecto; Muitos outros, servís, com mão armada Profundos golpes entalhavão nella. Um daquelles no emtanto assim fallava: «Quando esta humilde cruz rojar por terra; «Levando a crença de Jesus comsigo «Nós outros, da verdade Sacerdotes, «Nós Doutores do mundo, nós Luzeiros «Que desvendamos a impostura, o erro, «A mentira sagaz, a crença louca, «Entrada facil da razão no templo «Teremos todos; e de então no throno, «Do nescio vulgo imparciaes sob’ranos, «Sanctos juises da verdade sancta, «Pregaremos o justo, a paz, concordia «E os seus deveres que dimanão faceis «Do amor do lucro e do interesse; todos «—Vasallos da razão, nossos vassallos— «Um eden terreal farão do mundo.» No emtanto aos crebros golpes do machado A cruz pendia obliqua sobre a terra. Creando novas forças com tal vista, Os operarios mais frequentes golpes Repetem, vibrão, continuão;—sôa Por toda a parte o echo,—o som, mais longe, Retumba, morre—e novamente echôa. Nisto a cruz—geme—estrala; um grito sóbe Unisono e geral!... Como sois grande, Senhor, Senhor meo Deos!—Eu vi, morrendo Os obreiros cahir; e a cruz erguer-se, Como aos raios do sol a flor mimosa Que a raiva do tufão vergára insana.

III. PASSAMENTO.

Era um quarto espaçoso;—alli se vião Rojar no pavimento, ha pouco, as sedas, Ricos tapetes multicor bordados, E franjas complicadas d’um céo d’oiro Pendentes,—vastos rases narradores De lenda pia ou de briosos feitos. Mas de tanto luzir, de tanto ornato Ora por mãos aváras depredado O vasto d’área revelava aos olhos, Tendo n’um canto escuro um leito apenas. Do leito alguem rasgára o cortinado. E da curva amação polida e bella Aqui, alli, pendia a seda em fios, Bem como tranças de mulher formosa Por sobre o seio nú.—Alli no leito Jazia um moribundo; em torno os olhos Cheios de pasmo e de terror volvia, Bebendo pelos sofregos ouvidos Mal sentido rumor d’outro aposento. Confusas vozes, altercar ruidoso, E o tinir de metal ouvia apenas! Então por vezes tres no leito afflicto Erguer-se maquinou de raiva insano! Por tres vezes cahio, gemendo, sobre O leito que da queda se sentia. Da morte o cru torpor nos membros frios Pouco e pouco s’espalha; mas teimoso Da vida o amor debate-se nas ancias Desse passo fatal... —Eis nisto á porta. Um Padre assoma,—d’entre as mãos erguidas Da hostia sancta resplendor luzia; E palavras de paz, de amor, divinas, Que nos labios do justo Deos entorna, Abundantes soltava. Longos annos De piedoso soffrer o corpo enfermo Alquebrárão por fim; as cãs nevadas Raras tremião sobre a testa, como Tremia na garganta a voz cançada. Dizia o bom do velho:—«Irmão, nas ancias, «No extremo agonisar da morte amiga «Ergue os olhos ao céo;—do céo te venha «Esse divino amor, que só lá mora, «Que filtra por nossa alma, que nos deixa «Mais celeste prazer, mais doce arroubo, «Do que a terra sóe dar... «Infames, trédos, «Bufarinheiros de palavras, corvos «De negro, feio agoiro, que esvoação «Com grito grasnador por sobre o campo, «Onde a peleja de reinar começa; «Dizes-me tu—a mim! a mim que ao fóro «Caminho inda hoje entre alas de clientes, «Que so me visto de velludo e d’oiro, «Em quanto vives de burel coberto, «Co’os labios sobre o pó mordendo a terra! «Dizes-me tu—a mim!...» Ergueo-se,... e o corpo Cahio de fraco sobre o leito; o velho No emtanto humilde orava, que alma sancta Do mal cabido insulto não se offende. Jehovah, que entre myriadas Vives de estrellas formosas, Que das flôres melindrosas Da terra—os anjos formaste; Jehovah, que pela agoa Lustrar quizeste o Messias, Que ao beato, ao sancto Elias Nas chammas purificaste; Jehovah, que a mente apuras No fogo do soffrimento, Que divino, alto portento Déste fazer á Moisés, Quando a negra rocha dura Tocando co’a tenue vara, Rebentou a lympha clara, Lambendo-lhe mansa os pés; Jehovah, que eterno existes, Cujo ser em si se encerra, Que formaste o céo e a terra, Que te chamas—o que é,[2] —Faz, Senhor d’altos prodigios, Com que a mente empedernida Não se aparte desta vida Sem sentir a sancta fé. E tu, Christo, que soffreste Martyrios por nosso amor, Tu que foste o Salvador, Salva-o, Senhor, por quem es. Dá que em palavras piedosas Se derrame contristado, Como o rochedo tocado Pela vara de Moisés. E o confuso rumor do outro aposento Crescia mais e mais.—Do moribundo Os cúpidos herdeiros dividião Por si a vasta herança; os torvos olhos Ião de rosto a rosto, fusilando Ameaças de morte. No entanto o velho exanime e sem forças Curtia amargos transes, que avarento, E tendo a vida inutil presa a terra Com toda a força d’alma,—agora em ancias Sentia o halito vital fugir-lhe, E a terra abandonal-o. Estuava-lhe a dôr no peito afflicto!... Só não chorava, que do pranto a fonte Jazia extincta; mas pensava triste: —Não tinha alguem que lhe cerrasse os olhos Nem quem chorando lhe abrandasse o amargo Do extremo agonisar. E a mente, já medrosa, em feio quadro Lhe pintava os seos feitos;—a vingança, Que tão grande prazer lhe tinha sido, Ora em martyrios se tomava; a chusma Dos homicidios seus crescia torva, E no leito o cercava. Crença infantil! dizia; loucos, cegos Prejuizos do vulgo;—e assim dizendo Os vãos phantasmas repellir buscava. Mas a crença infantil, os prejuizos Do nescio vulgo, rispidos tornavão, Como insecto importuno. Debalde por não ver cerrava os olhos, Sobre os olhos debalde as mãos crusava, Que as sombras nos ouvidos lhe fallavão, E mais distinctas se pintavão n’alma —Tão bem molesta, qual se pinta o corpo Do espelho no polido. E do seo passamento o caso infando Narrava uma após outra, sobre o peito Mostrando o golpe funebre e cruento; Sorvendo o fel da taça amarga o enfermo Parecia sorrir!... era qual louco Que soffre e um riso finge. E das visões indo a fugir se arroja De sobre o leito delirante; as sombras Vôão sobre elle, e em circulo se ordenão. O moribundo a esta, a aquella, a todas Volvo o pavido rosto, no mover-se Progressivo, incessante. E preso ao duro embate da vertigem. As mestas sombras ao redor com elle Fugir sentia; o pavimento, a casa Rapido rodava; a terra e tudo, Como aos soluços d’um vulcão tremendo, As forças lhe tolhião. E o orgulhoso que feliz vivera, Movendo a seo bom grado mil escravos, Querendo a terra dominar co’um gesto; Ora mesquinho, solitario e louco, Face a face lutando com seos crimes, Morria impenitente.

IV. ——

Era o vulto de um homem morto que afastando o sudario se hia erguer do tumulo para revelar alguns dos temerosos mysterios, que encerra a apparente quietação dos sepulchros.

O PRESBYTERO.

O negrume da noite avulta; e cresce Mais feia a escuridão Á luz da sacra pyra que derrama Frouxo e tibio clarão. Calou-se o canto, a prece,—é mudo o templo; Apenas fraco sôa Da torre o bronze, que a nocturna brisa De rumores povôa. Mas eis que de um sepulchro a pedra fria S’ergue e sobre outras cáe. Não se escuta rumor!—da campa livre Medroso espectro sáe. O rosto ossificado em torno volve, Volve a suja caveira; Do liso craneo os longos dedos varrem A funebre poeira. Mas inda inteiro o coração se via Do peito nas cavernas, Inda sangrento lagrimas chorava De negro sangue eternas. E caminhando, qual se move a sombra, Ao orgão e assentou! Já não dormem os sons, não dormem echos... —O triste assim cantou: «Onde estás, meo amor, meos encantos Por quem só me pezava morrer, Doce encanto que a vida me prendes, Que inda em morto me fazes soffrer? «Doce amor, minha vida no mundo, Desse mundo em que parte serás; Em que scismas, que pensas, que fazes, Onde estás, meo amor, onde estás? «Ah! debalde na campa gelada Fria morte me poude deitar! Foi debalde,—que eu sinto, que eu ardo; Foi debalde, que eu amo a penar. «Ah! si eu triste no mundo podesse Como outr’ora viver, respirar.... Não soubera dizer-te os ardores Que o sepulchro não poude apagar. «Onde estás?—Já da morte o bafejo Por teo rosto divino roçou; Já na campa descanças finada, Que o teo corpo sem vida tragou? «Mas a morte não poude impiedosa Crua foice vibrar contra ti! Ah! tu vives, que eu sinto, que eu soffro Crús ardores quaes sempre soffri. «E eu não posso o teo nome á noitinha Entre as folhas saudoso cantar, Nem seguir-te nas azas da brisa, Nem teo somno de sonhos doirar. «Nem lembrar-te os queridos instantes Que a teo lado arroubado passei, Sem cuidados de incerto futuro, Só cuidoso da vida que amei. «Não te lembras da noite homicida Em que um ferro meo peito varou, Quando a facil conversa de amores Teo marido cioso quebrou?! «Desde então hei penado sósinho, Verte sangue meo peito—de então; Poude a morte acabar-me a existencia, Mas delir-me não poude a paixão! «Nosso adultero affecto no mundo Não se acaba;—assim quiz o Senhor! Não se acaba...—qu’importa?—hei gozado Teos encantos gentis, teo amor. «Por te amar outras fragoas soffrera, Outros transes e dôr e penar; Oh! poder que eu podesse outra vida E outro inferno soffrer por te amar!» Mas da aurora ja raiava Macio e brando clarão; Macia e branda a canção Do negro espectro soava. E medroso se collava Ao orgão seo negro véo, Que imiga não se ajuntava Ao seo vulto a luz do céo. Pouco a pouco se perdia O negro espectro; a canção Pouco a pouco enfraquecia: Do dia ao tenue clarão, Era o cantar um soído Fraco, incerto e duvidoso; Era o vulto pavoroso D’uma sombra vão tremido.

V. A MORTE.

Dans sa douleur elle se trouvait malheureuse d’être immortelle.

FÉNÉLON.

Da aurora vinha nascendo O grato e bello clarão; Eu sonhava! já mais brandos Erão meos sonhos então. Condensou-se o ar n’um ponto, Cresceo o subtil vapor; Vi formada uma belleza, Cheia de encantos, de amor. Mas na candura do rosto Não se pintava o carmim; Tinha um quê de cera juncto Á nitidez do marfim. —Quem es tu, visão celeste, Bello Archanjo do Senhor? Respondeo-me:—Sou a Morte, Cru phantasma de terror! —Ah! lhe tornei: Es a morte, Tão formosa e tão cruel! —Correndo o mundo sósinha No meo pallido corsel,[3]— Assim dizia—«Tu julgas Que não tenho coração, Que executo os meos deveres Sem pesar, sem afflicção? —Que inda em flôr da vida arranco Ao joven, sem compaixão, Á donzella pudibunda Ou ao longévo ancião? —Oh! não, que eu soffro martyrios Do que faço aos mais soffrer, Soffro dôr de que outros morrem, De que eu não posso morrer; —Mas em parte a dôr me cura Um pensamento, que é meo,— Lembro aos humanos que a terra É só passagem pr’a o céo. —Faço ao triste erguer os olhos Para a celeste mansão; Em labios que nunca orárão Derramo pia oração. —É meo poder quem apura Os vicios que a mente encerra, Ao fogo da minha dôr; Sou quem prendo aos céos a terra, Sou quem prendo aos céos a terra, Ao ser do seo Creador. —Mas qu’importa? Sem descanço É-me forçoso marchar, Abater impías frontes, Regias frontes decepar. —Passar ao travez dos homens Como um vento abrasador; Como entre o feno maduro A foice do segador. —E prostrar uma após outra Geração e geração, Como peste que só reina Em meio da solidão.»— Desponta o sol radioso Entre nuvens de carmim; Cessa o canto pesaroso, Como corda aurea de Lyra; Que se parte, que suspira Dando um gemido sem fim.

O VATE.

NO ALBUM DE UM POETA.

Moi ... j’aimerai ta victoire; Pour mon coeur, ami de toute gloire, Les triomphes d’autrui ne sont pas un affront. Poète, j’eus toujours un chant pour les poètes, Et jamais le laurier qui pare d’autres têtes Ne jeta d’ombre sur mon front. V. HUGO.

Vate! vate! que es tu?—Nos seos extremos Fadou-te Deos um coração de amores, Fadou-te uma alma accesa borbulhando Hardidos pensamentos, como a lava Que o gigante Vesuvio arroja ás nuvens. Vate! vate! que es tu?—Foste no principio Sacerdote e propheta; Erão nos céos teos cantos uma prece, Na terra um vaticinio. E elle cantava então:—Jehovah me disse, Magestoso e terrivel. «Vês tu Jerusalém como orgulhosa «Campêa entre as nações, como no Libano «Um cedro a cuja sombra a hyssope cresce? «Breve a minha ira transformada em raios «Sobre ella cahirá; «Um fero vencedor dentro em seos muros «Tributaria a fará; «E quando escravos seos filhos, sobre pedra «Pedra não ficará.» E os reprobos de sacco se vestião; Em pó, em cinza involtos; E collando co’a terra os torpes labios, E açoitando co’as mãos o peito imbelle, Senhor! Senhor!—clamavão. E o vate emtanto o pallido semblante Meditabundo sobre as mãos firmava, Supplicando ao Senhor do interno d’alma. Forão sanctos então.—Homero o mundo Creou segunda vez,—o inferno o Dante,— Milton o paraiso,—forão grandes! E hoje!... em nosso exilio erramos tristes, Mimosa esp’rança ao infeliz legando, Maldizendo a soberba, o crime, os vicios; E o infeliz se consola, e o grande treme. Damos ao infante aqui do pão que temos, E o manto além ao misero rachitico; Somos hoje Christãos.

Á MORTE PREMATURA DA ILLma Sra D.....

(No album de seo Irmão Dr. J. D. Lisboa Serra.)

Il semble que le ciel aux coeurs les plus magnanimes Mesure plus de maux. LAMARTINE.

Perfeita formosura em tenra idade Qual flôr, que anticipada foi colhida, Murchada está da mão da sorte dura. CAMÕES, Soneto.

Lá, bem longe d’aqui, em tarde amena, Gozando a viração das frescas auras, Que do Brazil os bosques brandamente Fazião balançar,—e que espalhavão No ether encantado odor, pureza— Do que a rosa mais bella,—meiga e casta, Como as virgens do sol, Que de vezes não foi ella pendente Dos braços fraternaes em meigo abraço; Como mimosa flôr presa, enlaçada A tenro arbusto que a vergontea debil Lhe ampara docemente!... E o Irmão que só n’ella se revia, O Irmão que a adorava, qual se adora Um mimo do Senhor; Que a tinha por pharol, conforto e guia, Os seos dias contava por encantos; E as virtudes co’os dias pleiteavão. E ella morreo no viço de seos annos!... E a lagem fria e muda dos sepulchros Se fechou sobre o ente esmorecido Ao despontar de vida Tão rica de esperanças e tão cheia De formosura e graças!... Campa! campa! que de terror incutes! Quanto esse teo silencio me horrorisa! E quanto se assemelha a tua calma A do cruel malvado que impassivel Contempla a sua victima torcer-se Em convulsões horriveis, desesp’radas; Crúas vascas da morte!... Quem tão má te creou? Tu que tragas o ente que esmorece Ao despontar de vida Tão rica de esperanças e tão cheia De formosura e graças?! O pharol se apagou! a luz sumio-se! Como o fugaz clarão do meteóro, Extinguio-se a esperança;—e o mal-fadado Sobre a terra deserta em vão procura Traços d’essa que amou, que tanto o amára; Da joven companheira de seos brincos, Pezares e alegrias. Elle a procura!... o viajor pasmado Nos campos de Pompéia, alonga a vista Pela amplidão do praino, Destroços e ruinas encontrando, Onde esperava movimento e vida. Não poder eu a troco de meu sangue Poupar-te dessas lagrimas metade! Oh! poder que eu podesse!—e almo sorriso, Que tanto me compraz ver-te nos labios, Inda uma vez brilhasse! E essa existencia, Que tão cara me é, t’a visse eu leda, E feliz como a vida dos Archanjos! Infeliz é quem chora: ella finou-se, Porque os anjos á terra não pertencem; Mas lá dos immortaes sobre os teos dias A suspirada irmã vela incessante. Vinde, candidas rosas, açucenas, Vinde, roxas saudades; Orvalhai, tristes lagrimas, as c’roas, Que hão de a campa adornar por mim depostas Em holocausto á victima da morte. Innocencia, pudor, belleza e graça Com ella n’essa campa adormecêrão. Anjo no coração, anjo no rosto, Devera o amor chorar sobre o teo seio, Que não grinaldas funebres tecer-te; Devera voz d’esposo acalentar-te O somno da innocencia,—não grosseira Canção de trovador não conhecido. COIMBRA, Junho de 1841.

A MENDIGA.

Donnez:— Et quand vous paraîtrez devant le juge austère, Vous direz: J’ai connu la pitié sur la terre, Je puis la demander aux cieux! TURQUETY.

I.

Eu sonhei durante a noite... Que triste foi meo sonhar! Era uma noite medonha, Sem estrellas, sem luar. E ao travez do manto escuro Das trevas, meos olhos vião Triste mendiga formosa, Qu’infortunios consumião. Era uma pobre mendiga, Porém candida donzella; Pudibunda, affavel, doce, Amorosa, e casta, e bella. Vestia rotos andrajos, Que o seo corpo mal cubrião; Por vergonha os olhos d’ella Sobre ella se não volvião. Pelas costas descobertas Cortador o frio entrava; Tinha fome e sede,—e o pranto Nos seus olhos borbulhava. E qual vemos dos céos descendo rapido Um fugaz meteóro, vi descendo Um anjo do Senhor;—parou sobre ella, E mudo a contemplava.—Uma tristeza Sympathica, indizivel pouco e pouco Do anjo nas feições se foi pintando: Qual tristeza de irmão que a irmã mais nova Conhece enferma e chóra.—Ella no peito Menor sentiu a dôr, e humilde orava.

II.

De um vasto edificio nas frias escadas Eu vi-a sentada;—era um templo, dizião Secreto concilio de socios piedosos, Que o bem tinha juntos, que bem só fazião. Defronte um palacio soberbo se erguia, E d’elle partia confuso rumor: —A dança girava, e a orchestra sonora Cantava alegria, prazeres e amor. E quando ao palacio um conviva chegava, Rugindo-se abria o ruidoso portão; Effluvios de incenso nos ares corrião Da rua esteirada com vivo clarão. E a triste mendiga alli ’stava ao relento, Com fome, com frio, com sede e com dôr; E eu vi o seo anjo, mais triste no aspecto, Mais baço, mais turvo da gloria o fulgor. E á porta do vasto sombrio edificio Um vulto chegou. —Senhor, uma esmola!—bradou-lhe a mendiga: E o vulto parou. E rude no accento, no aspecto severo, Lhe disse:—O teo nome?— Tornou-lhe a mendiga:—Senhor, uma esmola, Que eu morro de fome. —Não dizes teo nome?—lhe torna o soberbo. —Sou orphã, sosinha; Meo nome qu’importa, se eu soffro, se eu gemo, Se eu chóro mesquinha! Em vís meretrises não cabe esse orgulho, Tornou-lhe o Senhor, Que á noite, nas trevas, contractão no crime, Vendendo o pudor. E a porta do templo—erguido á piedade Com força batia; Co’o peso do insulto accrescido a crueza A triste gemia.

III.

Ouvi depois um rodar que a todo o instante Mais distincto se ouvia; e logo um forte, Fascinador clarão por toda a rua Se derramou soberbo.—Infindos pagens Ricas librés trajando, mil archotes Nos ares revolvião;—fortes, rapidos, Fumegantes corseis, sorvendo a terra, Tiravão rica sege melindrosa. Sobre a terra saltou airosa e bella A dona, em frente do festivo paço; E a mendiga bradou:—Senhora minha, Dai uma esmola, dai!—Á voz dorida Volveo-se o rosto d’anjo, porém d’anjo Não era o coração;—foi-lhe importuno, Mais que importuno ... da mesquinha o grito! E da mendiga o protector celeste Parecia fallar em favor d’ella; E a rica dona o escutava, como Se ouvisse a interna voz que dentro mora. E eu dizia tambem:—Ó bella Dona, Dai-lhe uma esmola, dai;—de que vos serve Um óbolo mesquinho, que não póde Siquer um diche sem valor comprar-vos? Ah! bella como sois, que vos importão Custosas flôres, com que ornais a fronte? Para a salvar do vortice do crime, O preço d’ellas, de uma só, da coisa, Que sem valor julgardes, é bastante. Sabeis?—Além da vida, além da morte, Quando deixardes o oiropel na campa, Quando subirdes do Senhor ao throno, Sem andrajos siquer, tambem mendiga, Alli tereis as lagrimas do pobre, A benção do affligido, a prece ardente Do que soffrendo vos bemdice,—ó Dona... ........................................ Fechou-se a porta festival sobre ella! E a donzella se ergueo, córou de pejo, Lançando os olhos pela rua escusa, E segura no andar, e firma, á porta Do palacio bateo—entrou—sumio-se. E o anjo, como afflicto sob um peso, Um gemido soltou; era uma nota Melancolica e triste,—era um suspiro Mavioso de virgem,—um soído Subtil, mimoso, como d’Harpa Eolia, Que a brisa da manhã roçou medrosa.

IV.

Dos muros ao travez meos olhos virão Soberba roda de convivas,—todos Velludos, sedas, e custosas galas Trajavão senhoris.—Reinava o jogo Aváro e grave, leda e viva a dança Em vortices girava, a orchestra doce Cantava occulta; condensados, bastos, Em redor do banquete estavão muitos. A mendiga alli estava,—não trajando Sujos farrapos, mas delgadas telas. Chovião brindes e canções e vivas Á Deosa airosa do banquete; todos Um volver dos seos olhos, um sorriso, Uma voz de ternura, um mimo, um gesto Cubiçavão rivaes;—e alli com ella, Como um raio do sol por entre as nuvens Lá na quadra hibernal penetra a custo Quasi sem vida, sem calor, sem força, Menos brilhante vi seo anjo bello. Nos curtos labios da feliz mendiga Passava rapido um sorriso ás vezes; Outras chorava, no volver do rosto, Na taça do prazer sorvendo o pranto. Encontradas paixões sentia o anjo: Parecia chorar co’o seo sorriso, Parecia sorrir co’o choro della.

A ESCRAVA.

O bien qu’aucun bien ne peut rendre, Patrie, doux nom que l’exil fait comprendre! MARINO FALIERO.

Oh doze paiz de Congo, Doces terras d’além mar! Oh! dias de sol formoso! Oh! noites d’almo luar! Desertos de branca areia De vasta, immensa extensão, Onde livre corre a mente, Livre bate o coração! Onde a leda caravana Rasga o caminho passando, Onde bem longe se escuta As vozes que vão cantando! Onde longe inda se avista O turbante musulmano, O Yatagan recurvado, Preso a cinta do Africano! Onde o sol na areia ardente Se espelha, como mar; Oh! doces terras de Congo, Doces terras d’além mar!

Quando a noite sobre a terra Desenrolava o seo véo, Quando siquer uma estrella Não se pintava no céo; Quando só se ouvia o sopro De mansa brisa fagueira, Eu o aguardava—sentada Debaixo da bananeira. Um rochedo ao pé se erguia, D’elle á base uma corrente Despenhada sobre pedras, Murmurava docemente. E elle ás vezes me dizia: —Minha Alsgá, não tenhas medo; Vem commigo, vem sentar-te Sobre o cimo do rochedo. E eu respondia animosa: —Irei comtigo, onde fores!— E tremendo e palpitando Me cingia aos meos amores. Elle depois me tornava Sobre o rochedo—sorrindo: —As agoas d’esta corrente Não vês como vão fugindo? Tão depressa corre a vida, Minha Alsgá; depois morrer Só nos resta!...—Pois a vida Seja instantes de prazer. Os olhos em tomo volves Espantados—Ah! tão bem Arfa o teo peito anciado!... Acaso temes alguem? Não receis de ser vista, Tudo agora jaz dormente; Minha voz mesmo se perde No fragor d’esta corrente. Minha Alsgá, porque estremeces Porque me foges assim? Não te partas, não me fujas, Que a vida me foge a mim! Outro beijo acaso temes, Expressão de amor ardente? Quem o ouvio?—o som perdeo-se No fragor d’esta corrente. Assim praticando amigos A aurora nos vinha achar! Oh! doces terras de Congo, Doces terras d’além mar!

Do rispido Senhor a voz irada, Rabida sôa, Sem o pranto enchugar a triste escrava Pavida vôa. Mas era em mora por scismar na terra, Onde nascera, Onde vivera tão ditosa, e onde Morrer devera! Soffreo tormentos, porque tinha um peito, Qu’inda sentia; Misera escrava! no soffrer cruento, Congo! dizia.

AO DR. JOÃO DUARTE LISBOA SERRA.

23 de Agosto.

Mais um pungir de acerrima saudade, Mais um canto de lagrimas ardentes, Oh! minha Harpa,—oh! minha Harpa desditosa. Escuta, ó meu amigo: da minha alma Foi uma lyra outr’ora o instrumento; Cantava n’ella amor, prazer, venturas, Até que um dia a morte inexoravel Triste pranto de irmão veio arrancar-te! As lagrimas dos olhos me cahirão, E a minha lyra emmudeceo de magoa! Então aventei eu que a vida inteira Do bardo, era um perenne sacerdocio De lagrimas e dôr;—tomei uma Harpa: Na corda da afflicção gemeo minha alma, Foi meo primeiro canto um epicedio; Minha alma baptizou-se em pranto amargo, Na fragoa do soffrer purificou-se! Lancei depois meos olhos sobre o mundo, Cantor do soffrimento e da amargura; E vi que a dôr aos homens circumdava, Como em roda da terra o mar se estreita; Que apenas desfructamos,—miserandos! Desbotado prazer entre mil dôres, —Uma rosa entre espinhos aguçados, Um ramo entre mil vagas combatido. Voltou-se então p’ra Deos o meo esp’rito, E a minha voz queixosa perguntou-lhe: —Senhor, porque do nada me tiraste, Ou porque a tua voz omnipotente Não fez seccar da minha vida a seve, Quando eu era principio e feto apenas? Outra voz respondeo-me dentro d’alma: —Ardão teos dias como o feno,—ou durem Como o fogo de tocha resinosa, —Como rosa em jardim sejão brilhantes, Ou baços como o cardo montesinho, Não deixes de cantar, ó triste bardo.— E as cordas da minha harpa—da primeira Á extrema—da maior á mais pequena, Nas azas do tufão—entre perfumes, Um cantico de amores exaltárão Ao throno do Senhor;—e eu disse ás turbas: —Elle nos faz gemer porque nos ama; Vem o perdão nas lagrimas contritas, Nas azas do soffrer desce a clemencia; Sobre quem chora mais elle mais vela! Seo amor divinal é como a lampada, Na abobada d’um templo pendurada, Mais luz filtrando em mais opácas trevas. Eu o conheço:—o cantico do bardo É balsamo ao que morre,—é lenitivo, Mas doloroso, mas funereo e triste A quem lhe carpe infausto a morte crúa. Mas quando a alma do justo, espedaçando O envolucre de lodo, aos céos remonta, Como estrada de luz correndo os astros, Seguindo o som dos canticos dos anjos Que na presença do Senhor se elevão; Choro ... tão bem Jesus chorou a Lazaro! Mas na excelsa visão que se me antolha Bebo consolações,—minha alma anceia A hora em que tão bem ha de asilar-se No seio immenso do perdão do Eterno. Chora amigo; porém quando sentires O pranto nos teos olhos condensar-se, Que já não póde mais banhar-te as faces, Ergue os olhos ao céo, onde a luz móra, Onde o orvalho se cria, onde parece Que a timida esperança nasce e habita. E se eu—feliz!—poder inda algum dia Ferir por teo respeito na minha harpa A leda corda onde o prazer palpita, A corda do prazer que ainda inteira, Que virgem de emoção inda conservo, Suspenderei minha harpa d’algum tronco Em off’renda á fortuna;—alli sosinha, Tangida pelo sopro só do vento, Ha de mysterios conversar co’a noite, De acorde extreme perfumando as brisas; Qual Harpa de Sião presa aos salgueiros Que não ha de cantar a desventura, Tendo cantos gentis vibrado n’ella.

O DESTERRO DE UM POBRE VELHO.

Et dulces moriens reminiscitur Argos.

VIRG.

O! schwer ist’s, in der Fremde sterben unbeweint!

SCHILLER.

A aurora vem despontando, Não tarda o sol a raiar; Cantão aves,—a natura Já começa a respirar. Bem mansa na branca areia Onda queixosa murmura, Bem mansa aragem fagueira Entre a folhagem susurra. É hora cheia de encantos, É hora cheia de amor; A relva brilha enfeitada, Mais fresca se mostra a flôr. Esbelta joga a fragata, Como um corsel a nitrir; Suspensa a amarra tem presa, Suspensa, que vai partir. Em demanda da fragata, Leve barco vem vogando; Nelle um velho cujas faces Mudo choro está cortando. Quem era o velho tão nobre, Que chorava, Por assim deixar seos lares, Que deixava? «Ancião, porque te ausentas? Corres tu traz de ventura? Louco! a morte já vem perto, Tens aberta a sepultura. «Louco velho, já não sentes Bater frouxo o coração? Oh! que o sente!—É lei d’exilio A que o leva em tal sazão! «Não ver mais a cara patria, Não ver mais o que deixava, Não ver nem filhos, nem filhas, Nem o casal, que habitava!... «Oh! que é má pena de morte, A pena de proscripção; Traz dôres que martyrisão, Negra dôr de coração! «Pobre velho!—longe, longe Vás sustento mendigar; Tens de soffrer novas dôres, Novos males que penar. «Não t’ha de valer a idade, Nem a dôr tamanha e nobre; Tens de tragar vis affrontas, —Insultos que soffre o pobre! «Nada acharás no degredo, Que falle dos filhos teos; Ninguem sente a dôr do pobre... Só te fica a mão de Deos. «O sol, que além vês raiando Entre nuvens de carmim, N’outros climas, n’outras terras Não verás raiar assim. «Não verás a rocha erguida, Onde t’ias assentar, Nem o som bem conhecido Do teo sino has de escutar. «Ha de cahir sobre as ondas O pranto do teo soffrer, E n’esse abysmo salgado, Salgado, se ha de perder.» Já chegou junto á fragata, Já na escada se apoiou, Já com voz intercortada Ultimo adeos soluçou. Canta o nauta, e sólta as velas Ao vento que o vai guiar; E a fragata mui veleira Vai fugindo sobre o mar. E o velho sempre em silencio A calva testa dobrou, E pranto mais abundante O rosto senil cortou. Inda se vê branca a vela Do navio, que partio; Mais além—inda se avista! Mais além—já se sumio!

O ORGULHOSO.

Eu o vi!—tremendo era no gesto, Terrivel seo olhar; E o senho carregado pretendia O globo dominar. Tremendo era na voz, quando no peito Fervia-lhe o rancor! E aos demais homens, como um cedro á relva, Se cria sup’rior. E o pobre agricultor, junto a seus filhos, Dentro do humilde lar, Quizera, antes que os d’elle, ver de um Tigre Os olhos fusilar: Que a um filho seo talvez quizera o nobre Para um Executor; Ou para o leito infesto alguma filha Do triste agricultor. Quem ousaria resistir-lhe?—Apenas Algum pobre ancião Já sobre o seo sepulchro, desejando A morte e a salvação.

Alguns dias apenas decorrêrão; E eis que elle se sumio! E a lagem dos sepulchros fria e muda Sobre elle já cahio. E o barbaro tropel dos que o servião Exulta com seo fim! E a turba applaude; e ninguem chora a morte De homem tão ruim.

O COMETA.

AO SR. FRANCISCO SUTERO DOS REIS.

Non est potestas, quae comparetur ei qui factus est ut nullum timeret.

JOB.

Eis nos céos rutilando igneo cometa! A immensa cabelleira o espaço alastra, E o nucleo, como um sol tingido em sangue, Alvacento luzir vérte agoireiro Sobre a pavida terra. Poderosos do mundo, grandes, povo, Dos labios removei a taça ingente, Que em vossas festas gyra; eis que rutila O sanguineo cometa em céos infindos!... Pobres mortaes,—sois vermes! O Senhor o formou terrivel, grande; Como indocil corsel que morde o freio, Retinha-o só a mão do Omnipotente. Alfim lhe disse:—Vai, Senhor dos Mundos, Senhor do espaço infindo. E qual louco temido, ardendo em furia, Que ao vento solta a coma desgrenhada, E vai, nescio de si, livre de ferros, De encontro ás duras rochas,—tal progrede O cometa incansavel. Se na marcha veloz encontra um mundo, O mundo em mil pedaços se converte; Mil centelhas de luz brilhão no espaço A esmo, como um tronco pelas vagas Infrenes combatido. Se junto d’outro mundo acaso passa, Comsigo o arrastra e leva transformado; A cauda portentosa o enlaça e prende, E a astro vai com elle, como argueiro Em turbilhão levado. Como Leviathan perturba os mares, Elle perturba o espaço;—como a lava, Elle marcha incessante e sempre;—eterno, Marcou-lhe largo gyro a lei que o rege, —As vezes o infinito. Elle carece então da eternidade! E aos homens diz—e magestoso e grande Que jamais o verão; e passa, e longe Se entranha em céos sem fim, como se perde Um barco no horisonte!

O OIRO.

Oiro,—poder, encanto ou maravilha Da nossa idade,—regedor da terra, Que dás honra e valor, virtude e força, Que tens offertas, oblações e altares,— Embora teo louvor cante na lyra Vendido Menestrel que pôde insano Do grande á porta renegar seo genio! Outro, sim, que não eu.—Bardo sem nome, Com pouco vivo;—sobre a terra, á noite, Meo corpo lanço, descançando a fronte N’um tronco ou pedra ou mal nascido arbusto. Sou mais que um rei co’o meo docel de nuvens Que tem gravados scintillantes mundos! Com a vista no céo percorro os astros, Vagueia a minha mente além das nuvens, Vagueia o meo pensar—alto, arrojado Além de quanto o olhar nos céos alcança. Então do meo Senhor me calão n’alma D’amor ardente enlevos indiziveis; Se tento ás gentes redizer seo nome, Queimadoras palavras se atropellão Nos meos labios;—prophetica harmonia Meo peito anceia, e em borbotões se expande. Grandes, Senhor, são tuas obras, grandes Tens prodigios, teo poder immenso: O pae ao filho o diz, um sec’lo a outro, A terra ao céo, o tempo á eternidade! Do mundo as illusões, vaidade, engano, Da vida a mesquinhez—prazer ou pranto— Tudo esse nome arrastra, prostra e some; Como aos raios do sol desfeito o gelo, Que em ondas corre no pendor do monte, Precipite e ruidoso,—arbustos, troncos Comsigo no passar rompidos leva.

A UM MENINO.

OFFERECIDA Á EXma Sra D. M. L. L. V.

I.

Gentil, engraçado infante Nos teos jogos inconstante, Que tens tão bello semblante, Que vives sempre a brincar, —Dos teos brinquedos te esqueces Á noitinha,—e te entristeces Como a bonina,—e adormeces, Adormeces a sonhar!

II.

Infante, serão as côres De varias, viçosas flôres, Ou são da aurora os fulgores Que vem teos sonhos doirar? Foi de algum ente celeste, Que de luzeiros se veste, Ou da brisa é que aprendeste, Que aprendeste a suspirar?

III.

Tens no rosto afogueado Um qual retrato acabado De um sentir aventurado, Que te ri no coração; É talvez a voz mimosa De uma fada caprichosa, Que te promette amorosa Algum brilhante condão!

IV.

Ou por ventura es contente, Porque no sonho, que mente, Phantasiaste innocente Algum dos brinquedos teos!... Senhor, tens bondade infinda! Fizeste a aurora bem linda, Creaste na vida ainda Um’outra aurora dos céos.

V.

O som da corrente pura, A folhagem que susurra, Um accento de ternura, De ternura divinal; A indizivel harmonia Dos astros no fim do dia, A voz que Memnon dizia, Que dizia matinal;

VI.

Nada d’isto tem o encanto, Nada d’isto póde tanto Como o risonho quebranto, Divino—do seo dormir; Que nada ha como a Donzella Pensativa, doce e bella, E a comparar-se com ella... Só de um infante o sorrir.

VII.

Mas de repente chorando Despertas do somno brando Assustado e soluçando... Foi uma revelação! Esta vida acerba e dura Por um dia de ventura Dá-nos annos de amargura E fragoas do coração.

VIII.

Só aquelle que da morte Soffreo o terrivel córte, Não tem dôres que supporte, Nem sonhos o acordarão: Gentil infante, engraçado, Que vives tão sem cuidado, Serás homem—mal peccado! Findará teo sonho então.

O PIRATA.

(EPISODIO.)

Nas azas breves do tempo Um anno e outro passou, E Lia sempre formosa Novos amores tomou. Novo amante mão de esposo, De mimos cheia, lh’off’rece; E bella, apesar de ingrata, Do que a amou Lia se esquece. Do que a amou que longe pára, Do que a amou, que pensa n’ella, Pensando encontrar firmeza Em Lia, que era tão bella! N’esse palacio deserto Já luzes se vêm luzir, Que vem nas sedas, nos vidros Cambiantes reflectir. Os echos alegres sôão, Sôa ruidosa harmonia, Sôão vozes de ternura, Sons de festa e d’alegria. E qual ave que em silencio A face do mar desflora, Á noite bella fragata Chega ao porto, amaina, ancóra. Cáe da popa e fere as ondas Inquieta, esguia falua, Que resvala sobre as agoas Na esteira que traça a lua. Já na vacua praia toca; Um vulto em terra saltou, Que na longa escadaria Preságo e torvo enfiou. Malfadado! por que aportas A este sitio fatal! Queres o brilho augmentar Das bodas do teo rival? Não, que a vingança lhe range Nos duros dentes cerrados, Não, que a cabeça referve Em mãos projectos damnados! Não, que os seos olhos bem dizem O que diz seo coração; Terriveis, como um espelho, Que retratasse um vulcão. Não, que os labios descorados Vociferão seo rival; Não, que a mão no peito aperta Seo pontagudo punhal. Não, por Deos, que taes affrontas Não as sóe deixar impunes, Quem tem ao lado um punhal, Quem tem no peito ciumes! Subio!—e vio com seus olhos Ella a rir-se que dançava, Folgando, infame! nos braços Porque assim o assassinava. E elle avançou mais avante, E vio ... o leito fatal! E vio ... e cheio de raiva Gravou no meio o punhal. E avançou ... e á janella Sosinha a vio suspirar, —Saudosa e bella encarando A immensidade do mar. Como se vira um espectro, De repente ella fugio! Tal foge a corça nos bosques Se leve rumor sentio. Que foi?—Quem sabe dizel-o? Forão vislumbres de dôr; Coração, que tem remorsos, Sente continuo terror! Elle á janella chegou-se, Horrivel nada encontrou... Sómente, ao longe, nas sombras, Sua fragata avistou. Então pensou que no mundo Nada mais de seo contava! Nada mais que essa fragata! Nada mais de quanto amava! Nada mais!...—que lh’importava De no mundo só se achar? Inda muito lhe ficava— Agoa e céos e vento e mar. Assim pensava, mas n’isto Descortina o seo rival, Não visto;—a mão na cintura Cingio raivosa o punhal! Mas pensou...—não, seja d’ella, E tenha zelos como eu!— Larga o punhal, e um retrato Na dextra mão estendeo. Porém sentio que inda tinha Mais que branda compaixão; Miserando! inda guardava Seo amor no coração. Infeliz! não foi culpada; Foi culpa do fado meo! Nada mais de pensar n’ella; Finjamos que ella morreo. Por entre a turba que alegre No baile—a sorrir-se estava, Mudo, triste, e pensativo Surdamente se afastava. De manhã—quando o saráu Apagava o seo rumor, Chegava Lia a janella, Mais formosa de pallor. Chegou-se;—e além—no horisonte Uma vela inda avistou; E co’a mão tremula e fria O telescopio buscou! Um pavilhão vio na pôpa, Que tinha um globo pintado; E no mastro da mesena Um negro vulto encostado. Erão chorosos seos olhos, Os olhos seos enxugou; E o telescopio de novo Para essa vela apontou. Quem em o vulto tão triste Parece reconheceo; Mas a vela no horisonte Para sempre se perdeo.

A VILLA MALDICTA, CIDADE DE DEOS.

AO SEO QUERIDO E AFFECTUOSO AMIGO

A. T. DE CARVALHO LEAL.

Peccata peccavit Jerusalem, et propter ea instabilis facta est; omnes qui glorificabant eam, spreverunt illam, quia viderunt ignominiam ejus; ipsa autem gemens conversa est retrorsum.

LAMENT.

I.

O immenso aposento a luz alaga Com soberbo clarão, E as mezas do banquete se devolvem Pelo vasto salão; E os instrumentos palpitantes sôão Frenetica harmonia; E o côro dos convivas se levanta Pleno d’ebria alegria! Alli se ostenta o nobre vicioso Rebuçado em orgulho,—o rico infame, Cheio de mesquinhez,—o envilecido, Immundo pobre no seo manto involto De miserias, torpeza e villanias; —A prostituta que alardêa os vicios, Menospresando a castidade e a honra, Sem pejo, sem pudor, d’infamia eivada. E o livre dithyrambo, a atroz blasphemia, Os cantos immoraes, canções impudicas, Gritos e orgia involta em negro manto De fumo e vinho,—os ares aturdião; E muito além, no meio d’alta noite, Nos echos, ruas, praças rebatião.

II.

Depois, ainda suja a bocca, as faces, D’immundo vomitar, Com vacillante pé calcando a terra Os viras levantar. A larga porta despedia em turmas A nocturna cohorte; Ouviu-se depois por toda a parte Gritos, horror de morte! E ninguem vinha ao retinir de ferro, Que assassinava; Porque era d’um valente o punhal nobre, Que as leis dictava. Outra vez a cahir se emmaranhavão Da porta pelo umbral: Tinhão tinctas de sangue a face, as vestes, Em sangue tincto o punhal. E vinha o sol manifestar horrores Da noite derradeira; E a morte vária revelava a furia Da turba carniceira. E o sacrilego padre só vendia O tum’lo por dinheiro; Vendia a terra aos mortos insepultos, O vil interesseiro! Ou lá ficavão, como pasto aos corvos, Por sobre a terra núa; E ninguem de tal sorte se pesava, Que ser podia a sua! «E Deos maldisse a terra criminosa, «Maldisse aos homens della, «Maldisse a cobardia dos escravos «D’essa terra tão bella.»

III.

E a mortifera peste luctuosa Do inferno rebentou, E nas azas dos ventos pavorosa Sobre todos passou. E o mancebo que via esperançoso Longa vida futura, Doido sentio quebrar-lhe as esperanças Pedra de sepultura. E a donzella tão linda que vivia Confiada no amor, Entre os braços da mãi provou bem cedo Da morte o dissabor. E o tremulo ancião qu’inda esperava Morrer assim Como um fructo maduro destacado D’arvore emfim, Sentio a morte esvoaçar-lhe em torno, Como um bulcão, Que affronta o nauta quando avista a terra Da salvação. Era deserta a villa, a casa, o templo— Ar de morte soprou! Mas a casa dos vis nos seos delirios Ebria continuou! «E Deos maldisse a terra criminosa, «Maldisse os homens d’ella, «Maldisse a cobardia dos escravos «Dessa terra tão bella.»

IV.

Eis o aço da guerra lampeja, Do fogoso corsel o nitrido, Eis o bronzeo canhão que rouqueja, Eis da morte represso o gemido. Já se aprestão guerreiros luzentes, Já se enfreião corseis bellicosos, Já mancebos se partem contentes, Augurando a victoria briosos. Brilha a raiva nos olhos;—nas faces O interno rancor pódes ler; Eia, avante!—clamarão os bravos, Eia, avante!—ou vencer ou morrer! Eia, avante!—briosos corramos Na peleja o imigo bater; Crua morte na espada levamos! Eia, avante!—ou vencer ou morrer! Eis o aço da guerra lampeja, Do corsel bellicoso o nitrido, Eis o bronzeo canhão que rouqueja E da morte represso o gemido.

V.

E a selva vomitou homens sem conto A voz do omnipotente, Como a neve hibernal que o sol derrete, Engrossando a corrente. E em redor d’essa villa se estreitarão, Cingidos d’armadura; E a villa se doeo no intimo seio De tão acre amargura. Mas os fortes bradarão:—Eia, avante!— Promptos a batalhar; Mas o braço e valor ante os imigos Se vierão quebrar. E um anno inteiro sem cessar lutarão, Cheios de bizarria, Como dois crocodilos que brigassem D’um rio a primazia! E renderão-se emfim, mas de famintos, De sequiosos; Valentes lidadores forão elles, Se não briosos.

VI.

E o exercito contrario entra rugindo Na villa, que as suas portas lhe franqueia: Rasteiro corre o incendio e surdamente O custoso edificio ataca e mina. Eis que a chamma roaz amostra as fendas Das portas que se abrasão; descortina O torvo olhar do vencedor—apenas— Lá dentro o incendio só, fóra só trevas! Urros de frenesi, de dôr, de raiva Escutão dos que, ás subitas colhidos, Contra os muros em brasa se arremeção; Dos que, perdido o tino, intentão loucos Achar a salvação, e a morte encontrão. Lá dentro confusão, silencio fóra! São carrascos aqui, victimas dentro. Geme o travejamento, estrala a pedra, Cresce horror sobre horror, desaba o tecto, E o fumo ennegrecido se ennovella Co’o vertice sublime os céos roçando. Como o vulcão que a lava arroja ás nuvens, Como ignea columna que da terra Hiante rebentasse,—tal se eleva, Tal sobe aos ares, tal se empina e cresce A labareda portentosa; e baixa, E desce á terra, e o edificio enrola, E o sorve inteiro, qual se forão vagas Que a dura rocha do alicerce abalão, Que a enlação, como a prêa,—e ao fundo pégo Levão, deixando o mar branco d’espuma. No horror da noite, sibilando os ventos, Lingoas pyramidaes do atroz incendio, Fumosas pelas ruas estalando, Tingem da côr do inferno a côr da noite, Tingem da côr do sangue a côr do inferno! —O ar são gritos, fumo o céo, e a terra fogo.

VII.

E aquelles que inda sãos e immunes erão, Os que a peste engeitou, Que fome e sede e privações soffrerão... A espada decepou. E a donzella tremeo, da mãi nos braços Não salva ainda, Que incitava os prazeres do soldado A face linda. E o fido amante, que de a ver tão bella Sentio prazer, Sente martyrios por que a vê formosa No seo morrer. Coisa alguma escapou!—Já tudo é cinzas, Tudo destruição: A columna, o palacio, a casa, o templo, O templo da oração! Meninos, homens e mulheres,—todos Já rojão sobre o pó; Mas o Deos, o Deos bom já está vingado, Por ella já sente dó. E a villa d’outr’ora mais ruidosa, Lá resurgio cidade; Por que o Deos da justiça, o das armadas, O Deos é de bondade.

QUADRAS DA MINHA VIDA. RECORDAÇÃO E DESEJO.

AO MEO BOM AMIGO O DR. A. REGO.

Sol chi non lascia eredità d’affetti Poca gioia ha dell’urna. FOSCOLO.

I.

Houve tempo em que os meos olhos Gostavão do sol brilhante, E do negro véo da noite, E da aurora scintillante. Gostavão da branca nuvem Em céo de azul espraiada, Do terno gemer da fonte Sobre pedras despenhada. Gostavão das vivas côres De bella flôr vicejante, E da voz immensa e forte Do verde bosque ondeante. Inteira a natureza me sorria! A luz brilhante, o susurrar da brisa, O verde bosque, o rosicler d’aurora, Estrellas, céos, e mar, e sol, e terra, D’esperança e d’amor minha alma ardente, De luz e de calor meu peito enchião. Inteira a natureza parecia Meos mais fundos, mais intimos desejos Perscrutar e cumprir;—almo sorriso Parecia enfeitar co’os seos encantos, Com todo o seo amor compor, doiral-o, Porque os meos olhos deslumbrados vissem-no, Porque minha alma de o sentir folgasse. Oh! quadra tão feliz!—Se ouvia a brisa Nas folhas susurrando, o som das agoas, Dos bosques o rugir;—se os desejava, —O bosque, a brisa, a folha, o trepidante Das agoas murmurar prestes ouvia. Se o sol doirava os céos, se a lua casta, Se as timidas estrellas scintillavão, Se a flôr desabrochava involta em musgo, —Era a flôr que eu amava,—erão estrellas Meos amores sómente, o sol brilhante, A lua merencoria—os meos amores! Oh! quadra tão feliz!—doce harmonia, Acordo extreme de vontade e força, Que atava minha vida á natureza! Ella era para mim bem como a esposa Recem-casada, pudica sorrindo; Alma de noiva—coração de virgem, Que a minha vida inteira abrilhantava! Quando um desejo me brotava n’alma. Ella o desejo meo satisfazia; E o quer que ella fizesse ou me dissesse, Esse era o meo desejo, essa a voz minha, Esse era o meo sentir do fundo d’alma, Expresso pela voz que eu mais amava.

II.

Agora a flôr que m’importa, Ou a brisa perfumada, Ou o som d’amiga fonte Sobre pedras despenhada? Que me importa a voz confusa Do bosque verde-frondoso. Que m’importa a branca lua, Que m’importa o sol formoso? Que m’importa a nova aurora, Quando se pinta no céo; Que m’importa a feia noite, Quando desdobra o seo véo? Estas scenas, que amei, já me não causão Nem dôr e nem prazer!—Indifferente, Minha alma um só desejo não concebe, Nem vontade já tem!... Oh! Deos! quem pôde Do meo imaginar as puras azas Cercear, desprender-lhe as niveas plumas, Roja-las sobre o pó, calca-las tristes? Perante a creação tão vasta e bella Minha alma é como a flôr que pende murcha; E qual profundo abysmo:—embalde estrellas Brilhão no azul dos céos, embalde a noite Estende sobre a terra o negro manto: Não póde a luz chegar ao fundo abysmo, Nem póde a noite ennegrecer-lhe a face; Não póde a luz á flôr prestar mais brilho, Nem viço e nem frescor prestar-lhe a noite!

III.

Houve tempo em que os meos olhos Se extasiavão de ver Agil donzella formosa Por entre flôres correr. Gostavão de um gesto brando, Que revelasse pudor; Gostavão de uns olhos negros, Que rutilassem de amor. E gostavão meus ouvidos De uma voz—toda harmonia,— Quer pesares exprimisse, Quer exprimisse alegria. Era um prazer, que eu tinha, ver a virgem Indolente ou fugaz—alegre ou triste, Da vida a estreita senda desflorando Com pé ligeiro e animo tranquillo; Improvida e brilhante parecendo Seos dias desfolhar, uns após outros, Como folhas de rosa;—e no futuro— Ver luzir-lhe sómente a luz d’aurora. Era deleite e dôr vê-la tão leda Do mundo as afflicções, angustias, prantos Affrontar co’um sorriso; era um descanso Interno e fundo, que sentia a mente, Um quadro em que os meos olhos repousavão, Ver tanta formosura e tal pureza Em rosto de mulher com alma d’anjo!

IV.

Houve tempo em que os meos olhos Gostavão de lindo infante, Com a candura e sorriso Que adorna infantil semblante. Gostavão do grave aspecto De magestoso ancião, Tendo nos labios conselhos, Tendo amor no coração. Um representa a innocencia, Outro a verdade sem véo; Ambos tão puros, tão graves, Ambos tão perto do céo! Infante e velho!—principio e fim da vida!— Um entra neste mundo, outro sae delle, Gozando ambos da aurora;—um sobre a terra, E o outro lá nos céos.—O Deos, que é grande, Do pobre velho compensando as dôres, O chama para si; o Deos clemente Sobre a innocencia de continuo vela. Amei do velho o magestoso aspecto, Amei o infante que não tem segredos, Nem cobre o coração co’os folhos d’alma. Amei as doces vozes da innocencia, A rispida franqueza amei do velho, E as rigidas verdades mal sabidas. Só por labios senis pronunciadas.

V.

Houve tempo, em que possivel Eu julguei no mundo achar Dois amigos extremosos, Dois irmãos do meu pensar; Amigos que compr’hendessem Meo prazer e minha dôr, Dos meos labios o sorriso, Da minha alma o dissabor; Amigos, cuja existencia Vivesse eu co’o meo viver: Unidos sempre na vida, Unidos—té no morrer. Amizade!—união, virtude, encanto— Consorcio do querer, de força e d’alma— Dos grandes sentimentos cá da terra Talvez o mais reciproco, o mais fundo! Quem ha que diga: Eu sou feliz!—se acaso Um amigo lhe falta?—um doce amigo, Que sinta o seo prazer como elle o sente, Que soffra a sua dôr como elle a soffre? Quando a ventura lhes sorri na vida, Um a par d’outro—ei-los lá vão felizes; Quando um sente afflicção, nos braços do outro A afflicção, que é só d’um, carpindo juntos, Encontra doce alivio o desditoso No thesouro que encerra um peito amigo. Candido par de cysnes, vão roçando A face azul do mar co’as niveas azas Em deleite amoroso;—acalentados Pelo sereno espreguiçar das ondas, Aspirando perfumes mal sentidos, Por vesperina arajem bafejados, É jogo o seo viver;—porém se o vento No frondoso arvoredo ruge ao longe, Se o mar, batendo irado as ermas praias, Crusadas vagas em novello enrola, Com grito de terror o par candente Sacode as niveas azas, bate-as,—fogem.

VI.

Houve tempo em que eu pedia Uma mulher ao meo Deos, Uma mulher que eu amasse, Um dos bellos anjos seos. Em que eu a Deos só pedia Com fervorosa oração Um amor sincero e fundo, Um amor do coração. Qu’eu sentisse um peito amante Contra o meu peito bater, Sómente um dia ... sómente! E depois delle morrer. Amei! e o meo amor foi vida insana! Um ardente anhelar, cauterio vivo, Posto no coração, a remorde-lo. Não tinha uma harmonia a natureza Comparada a sua voz; não tinha côres Formosas como as della,—nem perfumes Como esse puro odor qu’ella esparzia D’angelica dureza.—Meos ouvidos O feiticeiro som dos meigos labios Ouvião com prazer; meos olhos vagos De a ver não se cansavão; labios d’homens Não poderão dizer como eu a amava! E achei que o amor mentia, e que o meo anjo Era apenas mulher! chorei! deixei-a! E aquelles, que eu amei co’o amor d’amigo, A sorte, boa ou má, levou-m’os longe, Bem longe quando eu perto os carecia. Conclui que a amizade era um phantasma, Na velhice prudente—habito apenas, No joven—doudejar; em mim lembrança; Lembrança!—porém tal que a não trocára Pelos gozos da terra,—meos prazeres Forão só meos amigos,—meos amores Hão de ser neste mundo elles sómente.

VII.

Houve tempo em que eu sentia Grave e solemne afflicção, Quando ouvia junto ao morto Cantar-se a triste oração. Quando ouvia o sino escuro Em sons pesados dobrar, E os cantos do sacerdote Erguidos junto do altar. Quando via sobre um corpo A fria lousa cahir; Silencio debaixo della, Sonhos talvez—e dormir. Feliz quem dorme sob a lousa amiga, Tepida talvez com o pranto amargo Dos olhos da afflicção;—se os mortos sentem, Ou se almas tem amor aos seos despojos, Certo dos pés do Eterno, entre a alleluia, E o gozo lá dos céos, e os córos d’anjos, Hão de lembrar-se com prazer dos vivos, Que chorão sobre a campa, onde já brota O denso musgo, e já desponta a relva. Lagem fria dos mortos! quem me dera Gozar do teo descanço, ir asilar-me Sob o teo sancto horror, e nessas trevas Do bulicio do mundo ir esconder-me! Oh! lagem dos sepulchros! quem me désse No teo silencio fundo asilo eterno! Ahi não pulsa o coração, nem sente Martyrios de viver quem já não vive.

Notes in this chapter

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