POESIAS DIVERSAS.
Reading edition
NENIA Á MORTE SENTIDISSIMA DO SERENISSIMO PRINCIPE IMPERIAL O SENHOR D. PEDRO.
Á SUA MAGESTADE O IMPERADOR.
I.
Morreste, como a folha verde e linda, Que não vio murcho o esmeraldino encanto; Bem como um ai que melindroso finda, Em quanto as faces não roreja o pranto! Bem como a flôr inda em botão cortada, Em quanto aromas recendia pura; Bem como a onda quando mal formada, Nos brancos frisos do areal murmura! Bem como a aurora timida que morre, Em quanto os céos de rosicler matisa; Bem como o sopro de ligeira brisa, Que entre os olores da manhã discorre! Mimosa espr’ança do Brasil, batendo Ás ferreas portas da existencia, viste O mundo afflicto e a humanidade triste Seu negro fado e sua dôr soffrendo! Cheio de compaixão atraz voltaste Do horrifico espectaculo, tapando Com as azas do anjo o rosto brando, E no seio do Eterno te asylaste. Morreste! como aurora sem poente, Como flôr, que perfume inda exhalava, Como o sopro da brisa recendente, Como a onda, que apenas se formava! Morreste! como a folha verde e bella N’um tronco forte a despontar louçã, Não arrancada á sanha da procella, Mas leve solta aos beijos da manhã. Morreste! como lampada brilhante, Inda virgem, sem dar mystica luz; Ou turib’lo d’incenso crepitante, Esquecido nos braços de uma cruz. Morreste! e os anjos da eternal morada Levárão entre palmas e capellas Tua alma, como uma harpa não tocada, Áquelle, cujo throno é sobre estrellas. Morreste! como aurora sem poente, Como flôr que perfume inda exhalava, Como o sopro da brisa recendente, Como a onda que apenas se formava. Nenhum bulcão toldou a aurora maga, Em quanto no horisonte apavonou-se, A brisa em vendaval não transtornou-se, A folha em cinza, nem a onda em vaga.
II.
Não ouviste, ó bello anginho, Na hora do passamento Para abrandar teu tormento Do berço teu ao redor, Dos teus irmãos a phalange Com opas de luz brilhante, Nas harpas de diamante Cantar hosanna ao Senhor? Teu espirito innocente, Tocado da luz divina, Que a fraca mente illumina Dos resplendores de Deos, Não antevio outros gozos, Não correu nos frouxos ares, Não foi roçar nos palmares, Nas rosas puras dos céos? Viste-os, sim; porêm voltando Outra vez á vida escassa, Tua alma triste esvoaça Sobre os teus restos mortaes; E entre os rostos que divisas, Que a tua vida pranteião, Entre quantos te rodeião, Tu não enchergas teus paes! Corres então a trazer-lhes Nas meigas azas brilhantes Dos teus ultimos instantes O teu alento final; E em redor delles choraste De não ter deixado a vida, Por extrema despedida, N’um amplexo paternal! Vai, ó anjo, sobe, vôa, Deixa a terra ingrata e rude; Vai onde móra a virtude, E premio a innocencia tem; Mas nos divinos prazeres, Mas no celeste cortejo, Terás o materno beijo, Não serás orphão tambem?
III.
Desprega tuas azas de cores suaves, Adeja no espaço, procura o teu Deos: O aroma das flores, o canto das aves, O que ha de mais puro se entranha nos céos. Oh! foge da terra: bem como a neblina Que em rolos de neve, que espuma figura, Mais frouxa, mais leve, na luz matutina, Qual nuvem d’incenso, do céo se pendura. Mas quando a balança dos nossos destinos, Na grávida concha dos nossos peccados Sumir-se no abysmo—dos raios divinos Os golpes apára nos contos dourados. Não caia do Eterno a justa inclemencia No povo, que soube teu berço guardar; Ampara-o nas azas da tua innocencia, Que os prantos de um anjo nos podem salvar. Desdobra tuas azas de cores suaves, Adeja no espaço, procura o teu Deos: O aroma das flores, e o canto das aves E o que ha de mais puro se perde nos céos.
IV.
SENHOR, se na afflicção que te consome, Na dôr immensa, que teu peito acanha, Póde erguer-se do bardo a voz sentida E aos teus soluços misturar seu pranto; Se a dôr do pae não absorve inteiro O peito augusto do Monarcha excelso, Enxuga as tristes lagrimas que vertes! Melhor, talvez, que o throno é ver chorando Um povo inteiro em torno de um sepulchro, Um vacuo berço de seu pranto enchendo! Á sorte pois te curva, e á lei d’aquelle (Involta em seus reconditos designios) A quem aprouve nivelar, cortando Co’o mesmo golpe as esperanças de ambos, —A dôr de um pae e as afflicções de um povo!— JANEIRO 10 de 1850.
OLHOS VERDES.
Elles verdes são: E tem por usança, Na côr esperança, E nas obras não. CAM., Rim.
São uns olhos verdes, verdes, Uns olhos de verde-mar, Quando o tempo vai bonança; Uns olhos côr de esperança, Uns olhos por que morri; Que ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! Como duas esmeraldas, Iguaes na forma e na côr, Tem luz mais branda e mais forte, Diz uma—vida, outra—morte; Uma—loucura, outra—amor. Mas ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! São verdes da côr do prado, Exprimem qualquer paixão, Tão facilmente se inflammão, Tão meigamente derramão Fogo e luz do coração; Mas ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! São uns olhos verdes, verdes, Que podem tambem brilhar; Não são de um verde embaçado, Mas verdes da côr do prado, Mas verdes da côr do mar. Mas ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! Como se lê n’um espelho Pude lêr nos olhos seus! Os olhos mostrão a alma, Que as ondas postas em calma Tambem reflectem os céos; Mas ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! Dizei vós, ó meos amigos, Se vos perguntão por mi, Que eu vivo só da lembrança De uns olhos côr de esperança, De uns olhos verdes que vi! Que ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi! Dizei vós: Triste do bardo! Deixou-se de amor finar! Vio uns olhos verdes, verdes, Uns olhos da côr do mar: Erão verdes sem espr’ança, Davão amor sem amar! Dizei-o vós, meus amigos, Que ai de mi! Não pertenço mais a vida Depois que os vi!
CUMPRIMENTO DE UM VOTO
Feito ás Sras. de Itapacorá, que abrilhantarão a festa do Illm. Sr. ANTONIO JOSÉ RODRIGUES TORRES.
PORTO DAS CAIXAS—25 de agosto 1850.
Se ao misero cantor vos praz mandar-lhe Cantar voltas de amor, á graça tanta Será mudo o cantor, nem ha de aos echos A cythara incivil fallar de amores? Mandaes, que sois, senhoras, minhas musas; Quando a senhora manda, o escravo cumpre E ás supplicas da musa o vate cede! Afinada por vós a lyra humilde, Já desafeita aos sons que o peito abrandão, Á nova esphera se remonta agora. O frescor juvenil dos vossos annos, E as, que vos ornão, deleitosas graças, Hão de ameigar-lhe as cordas, perfumal-as, Dictar-lhe os faceis, inspirados carmes.
A estrella, que fulge no céo anilado, Com placido brilho de noite s’inflamma; Na fonte e no prado Reflexos luzentes esparge e derrama. Nos ramos cobertos de ameno rocio As aves descantão á luz da alvorada, E a meiga toada Repetem aos echos do bosque sombrio. Na gleba virente, do sol bafejada, Recende perfumes a flôr matutina, Que á luz da alvorada Ao sopro da brisa de leve s’inclina. A flôr que trescala perfumes suaves, A estrella que brilha no céo anilado, E o canto das aves, Que sôa no bosque virente e copado; Se cantão, perfumão, despedem fulgores, É tal o seu fado:—vós sois qual são ellas, Sois como as estrellas, Na graça e no canto, sois aves, sois flôres. Como ellas, pagai-vos de ver quão fugaces Encurtão-se as horas de nosso viver, De ver como as faces, Que tendes em torno, resumbrão prazer.
Estes versos na mente susurravão Do vate, cuja lyra merencoria Foi por vós de festões engrinaldada; Por vós, cujo sorriso mavioso Melhor perfume exhala, do que as notas Concertadas com arte; dai um riso Dos vossos, um volver dos brandos olhos, Aos alegres convivas; e um reflexo Do vosso meigo olhar e brando riso Venha morrer na lyra do poeta, Como do astro-rei, quando no occaso Doura no campo as folhas mais humildes.
LYRA QUEBRADA.
Ah! ya agostada Siento mi juventud, mi faz marchita, Y la profunda pena que me agita Ruga mi frente de dolor nublada. HEREDIA.
Pede cantos aos ledos passarinhos, Pede clarão ao sol, perfume ás flores, Ás brisas suspirar, murmurio aos ventos, Doces querelas ao correr das fontes; E o sol, a ave, a flôr, a brisa, os ventos E as fontes que murmurão docemente, Na festa da tua alma hão de seguir-te, Como um som pelos echos repetido. Mas não peças á lyra abandonada Um alegre cantar,—já murchas pendem As grinaldas gentis, de que a toucárão Donzeis louçãos, enamoradas virgens. Hoje mal partem roucos sons dos nervos, Que amargo pranto destendeu sem custo; Quem ha que se não dóe de ouvir cantados Uns versos de prazer entre soluços? Não peças pois um hymno ao triste bardo! Verde ramo d’uma arvore gigante O raio no passar queimou-lhe o viço, Deixando-o por escarneo entre verdores. Uma febre, um ardor nunca apagado, Um querer sem motivo, um tedio á vida Sem motivo tambem,—caprichos loucos, Anhelo d’outro mundo e d’outras coisas; Desejar coisas vãs, viver de sonhos, Correr após um bem logo esquecido, Sentir amor e só topar frieza, Scismar venturas e encontrar só dores; Fizerão-me o que vês: não canto, soffro! Lyra quebrada, coração sem forças De poetico manto os vou cobrindo, Por disfarçar desta arte o mal que passo. Mas se inda tens prazer á luz da aurora, Se te ameiga fitar longos instantes, Sentada á beira mar, na paz de um ermo, Uma flôr, uma estrella, os céos e as nuvens; Pede cantos aos ledos passarinhos, Á brisa, ao vento, á fonte que murmura; Mas não peças canções ao triste bardo, A quem té para um ai já falta o alento.
A PASTORA.
Forão as trevas fugindo, E luzindo Nasce o sol sobre o horisonte; Quando a pastora formosa E mimosa Já caminho vai do monte! A relva tenra e molhada, Orvalhada, Que de noite despontou, Se levanta melindrosa, Mais viçosa Depois que o sol a afagou! Nos ramos cantão, trinando E saltando, As aves seu casto amor; Aqui, alli, scintillante E brilhante Desabrocha a linda flôr. E a pastorinha engraçada, Bem fadada, Na fresca manhã de abril, Vai cantando maviosa, E saudosa Pensando no seu redil. Para as serras do Gerez Toca a rez, Toca a rez, gentil pastora; Lá te aguarda o bom pastor, Teu amor, Que te chama encantadora. Vai, pastora, vai depressa, Já começa O sol no valle a brilhar; Vai, que as tuas companheiras, Galhofeiras, Lá ’stão com elle a folgar! Pela aldeia entre os pastores Vão rumores De que tens uma rival, Nessa Alteia, a tua antiga, Doce amiga, Que te quer hoje tão mal! Tu não sabes que os amores São traidores, Que o homem não sabe amar; E que diz: Esta é mais bella; Mas aquella É que me sabe agradar! Tenho d’Alteia receios, Que tem meios De prender um coração; É viva, bella, engraçada, Festejada Nos cantares do serão. Como a neve em seus lavores, Nos amores Que caprichosa não é! Zomba delle quando o topa, E o provoca De mil maneiras, á fé! Té dizem—será mentira— Que lhe atira Seus motetes muita vez; Dizem mais, que ha prendas dadas E trocadas:... Não sei; mas será talvez! Triste de ti, se assim fôra, Ó pastora, Triste de ti sem amor! Foras alvo dos festejos, Dos motejos, E do canto mofador! Cheia de pudico medo, Ao folguedo Do domingo festival, Não irias, ó formosa, Vergonhosa Dos olhos d’uma rival! Para as serras do Gerez Toca a rez, Toca a rez, gentil pastora; Lá te aguarda o bom pastor, Teu amor, Que te chama encantadora! GEREZ....
A INFANCIA.
A Mlle J. PICOT.
I.
Bello raio do sol da existencia, Meninice fagueira e gentil, Doce riso de pura innocencia Sempre adorne teu rosto infantil. Sempre tenhas, anginho innocente, Quem se apresse a teus passos guiar, E uma voz que o teu somno acalente, E um sorriso no teu acordar. Enlevada nos sonhos jucundos, Voz etherea te venha fallar, E visão d’outros céos, d’outros mundos, Venha amiga tua alma encantar.
Leda infancia gentil! e quem não te ama? Quem tão de pedra o coração não sente Aos teus encantos meigos mais tranquillo? Quem não sente memorias d’outras eras Travarem-lhe da mente, ao recordar-se Aquelle gozo puro e suavissimo De vida, que jámais não tem logrado? Recordações de um mundo adormecido Lá lhe estão dentro d’alma esvoaçando, Como harpejos de musica longinqua! E a mente nos seus quadros embebida, Por magica illusão enfeitiçada, Como outr’ora, talvez sómente veja Na terra—um chão de flôres estrellado, E nos céos—outro chão de flôres vivas!
II.
Afagada e bem vinda e querida, Travessuras scismando infantis, Nos caminhos floridos da vida Vai mimosa, imprudente e feliz! É-lhe a vida continuo festejo, Sonhos d’oiro só sabe sonhar, Toda ella um afan, um desejo D’outros jogos contente brincar. Puro riso o semblante lhe adorna, Logo pranto começa a verter, E depois outro riso lhe torna, E depois outro pranto a correr.
Tão perto jaz a fonte da amargura Da fonte do prazer!—porêm tão doces Essas lagrimas são!—tão abundantes, Tão sem causa e sympathicas gotejão N’uma tez de carmim, n’um rosto bello! Quem a vê, que sorrindo as não enchuga? Mas não todo consumas o thesouro Unico e triste, que ao infeliz sobeja Nas horas do soffrer; no tempo amargo, No qual o rosto pallido se enruga, E os olhos seccos, aridos chammejão, Será talvez bem grato refrigerio Uma lagrima só, em que arrancada A força da afflicção dos seios d’alma. Mas tu, feliz, sorri, em quanto a vida, Como um rio entre flores, se deslisa Macio, puro e recendendo aromas.
III.
Bello raio do sol da existencia, Flôr da vida, mimosa e gentil, Fonte pura de meiga innocencia, Leve gozo da quadra infantil! Quem fruir-te outra vez não deseja, Quando vê sobre a veiga formosa A menina travessa e ruidosa, Borboleta, que alegre doudeja? A menina é uma flôr de poesia, Um composto de rosa e jasmim, Um sorriso que Deos alumia, Um amor de gentil serafim!
Folga e ri no começo da existencia, Borboleta gentil! a flôr dos valles, Da noite á viração abrindo o calix, O puro orvalho da manhã te guarda; Inda perfumes dá, que te embriagão, Inda o sol quando aquece os vivos raios, Nas azas multicores scintillando, Com terno amor de pae, em torno esparge Pó subtil de rubins e de safiras. Folga e ri no começo da existencia, Humano serafim, que esse perfume São das azas do anjo, que s’impregnão Dos aromas do céo, quando atear-se, Roaz fogo de vida começando, Quanto havemos de Deos consome e apaga.
IV.
Porêm tu, afagada e querida, Com requebros donosos, gentis, Vai contente caminho da vida, Bello anginho, mimoso e feliz! E do bardo a canção magoada, Quando a possas um dia escutar, Ha de ser como rota grinalda, Que perfumes deixou de exhalar! E esta mão talvez seja sem vida, E este peito talvez sem calor, E memoria apagada e sumida, Talvez seja a do triste cantor!
URGE O TEMPO.
Move incessante as azas incansaveis O tempo fugitivo; Atraz não volta! A. DE GUSMÃO.
Urge o tempo, os annos vão correndo, Mudança eterna os seres afadiga! O tronco, o arbusto, a folha, a flôr, o espinho, Quem vive, o que vegeta, vai tomando Aspectos novos, nova forma, em quanto Gyra no espaço e se equilibra a terra. Tudo se muda, tudo se transforma; O espirito, porêm, como centelha, Que vai lavrando solapada e occulta, Até que emfim se torna incendio e chammas, Quando rompe os andrajos morredouros, Mais claro brilha, e aos céos comsigo arrasta Quanto sentio, quanto soffreu na terra. Tudo se muda aqui! sómente o affecto, Que se gera e se nutre em almas grandes, Não acaba, nem muda; vai crescendo, Co’ o tempo avulta, mais augmenta em forças, E a propria morte o purifica e alinda. Simelha estatua erguida entre ruinas, Firme na base, intacta, inda mais bella Depois que o tempo a rodeou de estragos.
SOBRE O TUMULO DE UM MENINO.
25 de Outubro de 1848.
O involucro de um anjo aqui descança, Alma do céo nascida entre amargores, Como flôr entre espinhos!—tu, que passas, Não perguntes quem foi.—Nuvem risonha, Que um instante correu no mar da vida; Romper da aurora que não teve occaso, Realidade no céo, na terra um sonho! Fresca rosa nas ondas da existencia, Levada á plaga eterna do infinito, Como off’renda de amor ao Deos que o rege; Não perguntes quem foi, não chores: passa.
MENINA E MOÇA.
Ma bienvenue au jour me rit dans tous les yeux! CHENIER.
É leda a flôr que desponta Sobre o talo melindroso, E o arrebento viçoso Crescendo em floreo tapiz; É doce o romper da aurora, Doce a luz da madrugada, Doce o luzir da alvorada, Doce, mimoso e feliz! É bella a virgem risonha Com seus musicos accentos, Com seus virgens pensamentos, Com seus mimos infantis; Como quanto enceta a vida, Que á luz sorri da existencia, Que tem na sua innocencia Da mocidade o verniz. Vinga a flôr a pouco e pouco, Cada vez mais bem querida, Tem mais encantos, mais vida, Tem mais brilho, mais fulgor: De cada gota de orvalho Extrahe celeste perfume, E do sol no raio assume Cada vez mais viva côr. Assim á virgem mimosa, Pouco e pouco, noite e dia, Mais viva flôr de poesia Do rosto lhe tinge a côr; E um anjo nos meigos sonhos, Do seu peito na dormencia Derrama o odor da innocencia, Um doce raio de amor! Porque tudo, quando nasce, Seja a luz da madrugada, Seja o romper da alvorada, Seja a virgem, seja a flôr; Tem mais amor, tem mais vida, Como celeste feitura, Que sahe melindrosa e pura D’entre as mãos do creador. 28 de Julho.
COMO EU TE AMO.
Como se ama o silencio, a luz, o aroma, O orvalho n’uma flôr, nos céos a estrella, No largo mar a sombra de uma vela, Que lá na extrema do horisonte assoma; Como se ama o clarão da branca lua, Da noite na mudez os sons da flauta, As canções saudosissimas do nauta, Quando em molle vai-vem a náo fluctua; Como se ama das aves o gemido, Da noite as sombras e do dia as cores, Um céo com luzes, um jardim com flores, Um canto quasi em lagrimas sumido; Como se ama o crepusculo da aurora, A mansa viração que o bosque ondeia, O susurro da fonte que serpeia, Uma imagem risonha e seductora; Como se ama o calor e a luz querida, A harmonia, o frescor, os sons, os céos, Silencio, e cores, e perfume, e vida, Os paes e a patria e a virtude e a Deos.
Assim eu te amo, assim; mais do que podem Dizer-t’o os labios meus,—mais do que vale Cantar a voz do trovador cançada: O que é bello, o que é justo, sancto e grande Amo em ti.—Por tudo quanto soffro, Por quanto já soffri, por quanto ainda Me resta de soffrer, por tudo eu te amo. O que espero, cobiço, almejo, ou temo De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas Com quanto amor eu te amo, e de que fonte Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo! Esta occulta paixão, que mal suspeitas, Que não vês, não suppões, nem te eu revelo, Só pode no silencio achar consolo, Na dôr augmento, interprete nas lagrimas.
De mim não saberás como te adoro; Não te direi jámais, Se te amo, e como, e a quanto extremo chega Esta paixão voraz! Se andas, sou o echo dos teus passos; Da tua voz, se fallas; O murmurio saudoso que responde Ao suspiro que exhalas. No odor dos teus perfumes te procuro, Tuas pegadas sigo; Velo teus dias, te acompanho sempre, E não me vês comtigo! Occulto e ignorado me desvelo Por ti, que me não vês; Aliso o teu caminho, esparjo flôres, Onde pisão teus pés. Mesmo lendo estes versos, que m’inspiras, —Não pensa em mim, dirás: Imagina-o, si o podes, que os meus labios Não t’o dirão jámais!
Sim, eu te amo; porêm nunca Saberás do meu amor; A minha canção singela Traiçoeira não revela O premio sancto que anhela O soffrer do trovador! Sim, eu te amo; porêm nunca Dos labios meus saberás, Que é fundo como a desgraça, Que o pranto não adelgaça, Leve, qual sombra que passa, Ou como um sonho fugaz! Aos meus labios, aos meus olhos Do silencio imponho a lei; Mas lá onde a dôr se esquece, Onde a luz nunca fallece, Onde o prazer sempre cresce, Lá saberás se te amei! E então dirás: «Objecto Fui de sancto e puro amor: A sua canção singela, Tudo agora me revela; Já sei o premio que anhela O soffrer do trovador. «Amou-me como se ama a luz querida, Como se ama o silencio, os sons, os céos, Qual se amão cores e perfume e vida, Os paes e a patria, e a virtude e a Deos!»
AS DUAS CORÔAS.
Hermosa, en tu linda frente El laurel sienta mejor, Que con su regio esplendor Corona de rei potente. G. y S.
Ha duas c’rôas na terra, Uma d’ouro scintillante Com esmalte de diamante, Na fronte do que é senhor; Outra modesta e singela, C’rôa de meiga poesia, Que a fronte ao vate alumia Com a luz d’um resplendor. Ante a primeira se curvão Os potentados da terra: No bojo, que a morte encerra, Sobre a liquida extensão, Levão náos os seus dictames Da peleja entre os horrores; Vis escravos, crús senhores, Preito e menagem lhe dão. E quando o vate suspira Sobre esta terra maldicta, Ninguem a voz lhe acredita, Mas riem dos cantos seus: Os anjos, não; porque sabem Que essa voz é verdadeira, Que é dos homens a primeira, Em quanto a outra é de Deos! Se eu fora rei, não te dera Quinhão na regia amargura; Nem te qu’ria, virgem pura, Sentada sob o docel, Onde a dôr tão viva anceia, Tão cruel, tão funda late, Como no peito que bate Sob as dobras do burel. Não te quizera no throno, Onde a mascara do rosto, Cobrindo o interno desgosto, Ser alegre tem por lei; Manda Deos, sim, que o rei chore; Mas que chore occultamente, Porque, se o soubera a gente, Ninguem quizera ser rei! Mas o vate, quando soffre, Modula em meigos accentos, Seus doridos pensamentos, A sua interna afflicção; E das lagrimas choradas Extrahe um balsamo sancto, Que vale estancar o pranto Nos olhos do seu irmão. Se eu fôra rei, não quizera Roubar-te á senda florida, Onde corre doce a vida No matutino arrebol; Gozas o sopro das brisas E o leve aroma das flores, E as nuvens, que mudão cores No nascer, no pôr do sol. Gozão disto as que repousão Em taboas de vis grabatos; Não quem vive entre os ornatos D’um throno d’ouro e marfim! No solio triste, sentada, Não viras um rosto amigo, Nem mais viveras comtigo, Fôras escrava—por fim! Vive tu teu viver simples, Mimosa e gentil donzella, D’entre todas a mais bella, Flôr de candura e de amor! C’rôa melhor eu t’offreço, D’ouro não, mas de poesia, C’rôa que a fronte alumia Com a luz d’um resplendor!
HARPEJOS.
Sweetest music!... SHAKSPEARE.
Da noite no remanso Minha alma se extasia, E praz-me a sós commigo Pensar na solidão; Deixar arrebatar-me De vaga phantasia, Deixar correr o pranto Do fundo coração. Tudo é silencio harmonico E doce amenidade, E uma expansão suave Do mais fino sentir; Existo! e no passado Só tenho uma saudade, Desejos no presente, Receios no porvir! Como licor que mana De cava, humida rocha, Que o sol nunca evapora, Nem limpa amiga mão; A dôr que dentro sinto Minha alma desabrocha; Que livre o pranto corre Da noite na solidão! Attendo! ao longe escuto D’uma harpa os sons queixosos, Attendo! e logo sinto Minha alma se alegrar! Attendo! são suspiros De seres vaporosos, Que mil imagens vagas Me fazem recordar! Tu que eras minha vida, Que foste os meus amores, Imagem grata e bella D’um tempo mais feliz, Que tens, que assim chorosa Suspiras entre as flores? Teu sou,—do juramento Me lembro, que te fiz. Te vejo, te procuro, Teus mudos passos sigo, Em quanto, leve sombra, Fugindo vais de mi’! Unido ás notas da harpa Percebo um som amigo, Que me recorda o timbre Da voz que já te ouvi! Na brisa que soluça, Na fonte que murmura, Nas folhas que se movem Da noite á viração, Ainda escuto os echos D’uma fugaz ventura, Que assim me deixou triste Em mesta solidão. Prosegue, harpa ditosa, Nas doces harmonias, Que da minha alma sabes A magoa adormecer; Prosegue! e a doce imagem Dos meus primeiros dias Veja eu ante os meus olhos De novo apparecer! Ai, forão como a virgem Que em sitio solitario Acaso um dia vimos Sósinha a divagar! Memoria bemfazeja, Que o gelido sudario, Que a morte em nós estende Só vale desbotar.
TRISTE DO TROVADOR.
E ella era esbelta e bem proporcionada; sua alma era como a sensitiva, e suas palavras erão doces e tinhão um perfume, que se não pode comparar.
(Duas noites de luar.)
E ella era como a rosa matutina Formosa e bella, Como a estrella que á noite ao mar se inclina, Saudosa era ella. Seus olhos negros, vivos e rasgados, Eram delicias vel-os; E co’ a alvura do rosto contrastava A côr dos seus cabellos. Quando alguem lhe fallava, então fallava Com voz macia, Que triste dentro d’alma nos filtrava Doce alegria. E o seu timbre de voz movia as fibras Do coração, Como sons que a mudez da noite quebrão Na solidão. Seu mais leve sentir patenteava No rosto ameno; Nuvemzinha da tarde, que se encherga Em céo sereno. Topou-a acaso pensativa, errante, O trovador: «Feliz, disse elle, quem gozára os mimos Do seu amor!» E ella deu-lhe do seio uma saudade Murcha, e no em tanto bella; E elle um culto votou, scismando extremos, Á pallida donzella. Como fosse, porêm, breve a sua vida Como uma flôr, Em breves dias era mudo e triste O trovador.
Se alguma vez cantava,—então dizia Ao seu anjo do céo, que lá morava, Que de ter junto delle só pedia A vida sua, que tão erma estava.
VELHICE E MOCIDADE.
Eu levo á sepultura, uns após outros, A donzella gentil, o velho enfermo E o mancebo que folga descansado Á sombra da ventura. ...
«Minha filha, mais depressa, Mais depressa um pouco andemos, E da aurora que desponta Saudavel frescor gozemos! «Senta-me em baixo do chorão, que dobra A verde rama sobre a campa núa De um ser de peito bom, de rosto bello, Que foi minha mulher, que foi mãi tua! «O sol, nascendo apenas, vem primeiro Seus raios nessa campa dardejar, E á cançada velhice é bem fagueiro Esses restos da vida desfructar.»
Um cego e triste velho que tremia Á força dos invernos que passarão, Á filha nova e bella, assim dizia, Á filha que os amores cubiçarão. E tinha o velho pae nos hombros della A mão crestada e morta e já rugosa, E ella ao pae, sollicita, extremosa, Guiava como um anjo e alva e bella.
«Nem sempre o que ora vês teu pae tem sido, Oh filha da minha alma, oh meu thesouro, Tambem um tempo foi que entretecido Tive o fio vital de seda e d’oiro! «Tambem meus olhos se expraiarão longe, Pela vasta extensão destas campinas; Tambem segui a tortuosa veia Desta linda corrente que se perde Além, por entre penhas; E a esmeraldina côr, de que se arreia A relva destes prados, destas brenhas, Meus olhos juvenis encheu de gozo, Que agora os olhos teus tambem recreia! «E que prazer tão grande! o sol nascia N’um mar de luz brilhante! Levantava-se mais, brilhava, ardia, No prado verdejante, Na fonte e na devesa; E o mundo e a natureza De puro amor enchia! Destoucavão-se os montes de neblina, Que meiga e adelgaçada Pendia, como um véo de gaza fina Da celeste morada, Quando n’um mar formoso o sol nascia! «O mundo era então luz—hoje é só trevas! O céo de puro azul via tingido, Via a terra de cores adornada, E na immensa extensão d’agua salgada Via a esteira de luz do sol luzido! «Breve as horas passei de ser ditoso Aqui, neste lugar, ledo escutando Tão amavel tua mãi, tão carinhosa, Qu’instantes curtos me teceu fallando! «Hoje existo somente porque existes, Desfructo outro viver que não vivia, Quando escutão-te a voz os meus ouvidos, Como sons de celeste melodia. «Oh falla, falla sempre.—É doce ao velho Som d’argentina voz, que as fibras todas Do semivivo coração abalão, Como d’uma harpa antiga As deslembradas cordas, Que á mão experta e amiga Do trovador, n’um canto alegre estalão. «É doce ao solitario a voz de um anjo Na sua solidão; E ao velho pai a voz da casta filha, Que falla ao coração. «É doce, qual perfume matutino, Que a flôr exhala, Que pelo peito da mulher amante S’interna e cala; «É doce, como a luz que se derrama Pela face do mar, Quando brando luar, da noite amigo, Vem nelle se espelhar. «Falla, bem sei que amarga é tua vida, Que amargo é teu penar; No silencio da noite tenho ouvido Teu peito a soluçar! «Oh falla, tu bem vês que se a tormenta Tetrica voa, Ao ninho de seus paes o passarinho Rapido voa.»
—Oh meu pai, como eu quizera Meus pezares te esconder; Mas tua filha, coitada, Em breve tem de morrer! —Sinto que alento me falta, Que longe foge de mim; Sinto minha alma rasgar-se Por te deixar só assim; Meu bom pai, como está breve Da tua filha o triste fim! —Alta noite, ouvi em sonhos, A chamar-me um serafim; Tinha alegria no rosto, Mas chorava sobre mim; Meu bom pai, como está breve Da tua filha o triste fim! —E tu cá ficas sosinho, E tu cá ficas sem mim! Oh que n’alma só me peza Por te deixar só assim; Meu bom pai, que é já chegado Da tua filha o triste fim!— E o velho, baixo fallando, Tristemente assim dizia: «Já fui feliz, já fui novo, Já fui cheio de alegria! «Eu tive paes extremosos, Irmãos que m’idolatrarão, Eu tive castos amores, Que antes de mim se acabarão! «Eu tive tantos no mundo Quantos se póde chorar; Perdi todos, tudo; ai, triste, Só eu não pude acabar! «Ao sopro da desventura Só eu me não abalei, Que a todos—novos e velhos— Á campa todos levei! «Minha filha me restava! Eu já fantasma impotente, Sobre os torrões tropeçava Da cova aberta recente! «Anjo de amor e bondade, Porque me deixaste assim! Tu morta, e na sepultura Que eu tinha aberto pr’a mim! «Deos, Senhor, quanto foi longo O vaso em que fel traguei, Findo o julguei; restão fezes, As fezes esgotarei.»
E sobre a rosea face, ora amarella, A aurora sempre bella radiava, E o pai, ancião, que a dôr rasgava, Cingia ao corpo seu o corpo della. Nem pranto nos seus olhos borbulhava, E nem nos labios seus a dôr gemia, E sua alma, qual vaso em calmaria, Entre vida e morrer n’um ponto estava. O beijo paternal, por fim, lhe estampa Na filha, que prazeres só lhe dera; E filha e pensamento—alguem dissera Ter juntos sepultado a mesma campa! Nos céos não tens, Senhor, bastantes anjos, Por que os venhas assim buscar á terra? Brilhe a virtude, quando reina o crime, O crime impune e vil, que ás tontas erra.
AS FLORES.
Ao Snr. JOSÉ PRAXEDES PEREIRA PACHECO, incançavel Botanico-florista, a quem devemos a introducção no paiz das mais bellas e curiosas especies de flores, que jámais aqui se virão.
Simples tributs du coeur, vos dons sont chaque jour Offerts par l’amitié, hasardés par l’amour. Les Jardins.—DELILLE.
Tu que com tanto afan, com tanto custo, Estudando, inquirindo, e meditando, De estranhos climas transplantaste aos nossos As flores varias no matiz, nas formas, Modesto horticultor, dos teos desvelos Este só galardão recebe ao menos! Recebe-o: tambem eu gosto das flores, Folgo tambem de as ver n’um campo estreito De estranhas terras revelando os mimos E as galas d’outros céos:—aqui perfumão Nossos jardins de peregrina essencia! Melhorão-se talvez, que as não contristão Raios tibios do sol, nem turvos ares, Nem do inverno o furor lhes cresta o brilho. Meigas flores gentis, quem vos não ama? Em vós inspirações o bardo encontra, Devaneios de amor a ingenua virgem, A abelha o mel, a humanidade encantos, Odores, nutrição, balsamo e cores. Meigas flores gentis, quem vos não ama? Linda virgem no albor da vida incerta, No meio das vivaces companheiras, Em forma de capella as vai tecendo Para cingir com ella a fronte e a coma, Que os annos no passar não enrugarão, Nem as cans da velhice embranquecerão. Resplendor d’innocencia, onde casados A açucena, e os jasmins aos brancos lirios Um só perfume grato aos céos envia; Meiga c’rôa d’angelica pureza, Ornamento da vida—que se rompe Ou quando os membros delicados vestem O grosseiro burel da penitencia, Ou do noivado as galas!—lá se acaba, Por fim aos pés do thalamo ou n’um tumulo! Meigas flores gentis, quem vos não ama? Quantas vezes, nas horas da ventura, A fallaz sensação d’um peito ingrato Não julgamos eterna, immensa, infinda!.... Alli nossos anhelos se concentrão, Nossa vida alli jaz:—cifra-se inteira N’um brando volver d’olhos, n’um accento, Que a ternura repassa, inspira, exhala! Um gemido, um suspiro, um ai, um gesto, Valem thronos, e mais,—o mundo e a vida! Mas esvae-se a paixão!... que fica? Apenas Um saudoso lembrar d’éras passadas, De scismadas venturas, não fruidas, Ás vezes uma flor!...—Flor dos amores, Quando extincta a paixão, porque inda existes? Espinhos de uma rosa emmurchecida, Porque sobreviveis ás folhas d’ella? Mais firme, mais leal, mais vivedoura Que a voluvel paixão, a flôr mimosa Talvez irrita a dôr, talvez a acalma. Emblemas do prazer, do soffrimento, Mensageiras do amor ou da saudade, Meigas flores gentis, quem vos não ama? Geme a fresca odalisca entre ferrolhos, Importuna presença a voz lhe tolhe Do não piedoso eunucho;—e estatua negra Respeitosa e cruel lhe espreita os gestos: Chora a guzla mourisca ao som dos ferros, Lastima-se a cadeia ao som dos passos, E a humana flôr definha entre as mais flores; Mil ouvidos a voz lhe escutão sempre, E cingidos de ferro, crús soldados D’entorno ao mésto harem velão sanhudos! Ruge, fero soldão! treplíca os bronzes Da masmorra cruel:—a planta humilde, E a escrava que recatas tão cioso, Zombão dos feros teus! Muda e singela, Ao través das prisões, dos teus soldados, Passa a modesta flôr! Vai n’outro peito, Mysterios não sabidos relatando, Contar do infausto amor as provas duras, Os martyrios da ausencia, as tristes lagrimas Que chora—ao reiterar protestos novos! Bem-fadadas do sol, do amor bemquistas, O orvalho as cria, as lagrimas as murchão: Meigas flores gentis, quem vos não ama? Quem tem o coração a amor propenso, Quem sente a interna voz que dentro falla, Delicado sentir d’um brando peito, Alma virgem que os homens não mancharão; Quem soffre ou tem prazer, ou ama, ou espera E vive e sente a vida, esse vos ama: Encantos da existencia em quanto vivos, Do revés, do triumpho companheiras, No berço, no docel, no mudo esquife, Sempre amigas eis vos encontramos. Meigas flores gentis, quem vos não ama? Modesto horticultor, dos teus desvelos Este só galardão recebe ao menos; Paga-te sequer de ver mais bella, Mais vaidosa, melhor, do sol na terra, A flôr modesta, producção sublime De estranhos climas transplantada ao nosso. Rio, 29 de janeiro de 1849.
O QUE MAIS DÓE NA VIDA.
I cannot but remember such things were, And were most dear to me. SHAKESPEARE.
O que mais dóe na vida não é ver-se Mal pago um beneficio, Nem ouvir dura voz dos que nos devem Agradecidos votos, Nem ter as mãos mordidas pelo ingrato, Que as devera beijar! Não! o que mais dóe não é do mundo A sangrenta calumnia, Nem ver como s’infama a acção mais nobre, Os motivos mais justos, Nem como se deslustra o melhor feito, A mais alta façanha! Não! o que mais dóe não é sentir-se As mãos dum ente amado Nos espasmos da morte resfriadas, E os olhos que se turvão, E os membros que entorpecem pouco e pouco, E o rosto que descora! Não! não é o ouvir d’aquelles labios, Doces, tristes, compassivas, Sobre o funereo leito soluçadas As palavras amigas, Que tanto custa ouvir, que lembrão tanto, Que não s’esquecem nunca! Não! não são as queixas amargadas No triumphar da morte; Que, se se apaga a luz da vida escassa, Mais viva a luz rutila; Luz da fé que não morre, luz que espanca As trevas do sepulchro. O que dóe, mas de dôr que não tem cura, O que afflige, o que mata, Mas de afflicção cruel, de morte amara, É morrermos em vida No peito da mulher que idolatramos, No coração do amigo! Amizade e amor!—laço de flores, Que prende um breve instante O ligeiro batel á curva margem De terra hospitaleira; Com tanto amor se ennastra, e tão depressa, E tão facil se rompe! Á mais ligeira ondulação dos mares, Ao mais ligeiro sopro Da viração—destranção-se as grinaldas; O baixel se afasta, Veleja, foge, até que em plaga estranha Naufragado soçobre! Talvez permitte Deos que tão depressa Estes laços se rompão, Por que nos peze o mundo, e os seus enganos Mais sem custo deixemos: Sem custo assim a brisa arrasta a planta, Que jaz solta na terra!
FLÔR DE BELLEZA.
Não vejas!... se a vires...—Eu sei porque o digo: Tu morres de amor. MACEDO.
Se fosse rainha aquella Em cuja fronte singela, Como em tela delicada Luz da belleza o condão, Fôras rainha adorada; Mas rainha seductora, Que exige preitos n’uma hora E n’outra hora adoração. Fôras rainha! e ditosos Teus vassallos extremosos, Que a renderem-te seus preitos Beijárão-te a nivea mão. Pedes amor e respeitos! Quem não ama a formosura, Quem não respeita a candura D’um sincero coração? Mas antes que nos curvemos Ante a belleza que vemos, Tua angelica bondade Conquista a nossa affeição: Não es mulher, mas deidade, Uma fada seductora, Que nos pede amor agora, Logo mais—adoração. Quando pois, cheia de graças, Entre a turba alegre passas, Entre a turba sequiosa De beijar-te a nivea mão; Dizem uns: quanto é formosa! Eu porêm, sei que es mais bella Nos dotes da alma singela, Nas prendas do coração. Passa rapida a belleza, Como flôr que a natureza Cria em jardim melindroso, Ou n’um agreste torrão: Passa como um som queixoso, Como felizes instantes, Como as juras dos amantes, Como extremos da paixão. Mas d’alma a vida é mais fina, Exhala essencia divina, Que avigora e fortifica O dorido coração; Morto o corpo, ainda fica, Como em rosal arrancado, Leve aroma derramado, Dos espaços na extensão.
O ANJO DA HARMONIA.
Respira tanta doçura O teu canto, que por certo Abranda a penha mais dura. BOCAGE.
Revela tanto amor, tão branda sôa A tua doce voz canora e pura, Que o homem de a escutar sente no peito Infiltrar-se-lhe um raio de ventura. Solta-se a alma das prisões terrenas, O mundo, a vida, o soffrimento esquece, E embalada n’um ether deleitoso, Como Alcyon nas aguas, adormece! Da noite a placidez é menos grata A quem sósinho e taciturno vela, Quando, perdido n’outros mundos, nota A meiga luz de fugitiva estrella. Sensações menos doces, menos vagas, Desperta o barco leve, que se avista Ao pôr do sol, na extrema do horisonte, Quando n’um mar de luz nos foge á vista. Das aves o cantar é menos fresco, É menos triste a fonte que serpeia, Menos queixoso o mar, que enternecido, Beija na praia a scintillante areia. Vagas na terra, suspiroso archanjo, Derramando torrentes de harmonia Sobre as chagas mortaes,—balsamo sancto Que as mais profundas magoas alivia. Vagas na terra, merencoria e bella; Mas quando deste mundo ao céo tornares, Juntarás teus ternissimos accentos Aos puros sons dos mysticos altares. E os anjos na mansão das harmonias, Encostados ás harpas diamantinas, Folgarão de te ouvir celestes carmes Deduzidos em notas peregrinas. E dirão:—Nunca ás plagas do infinito Subio mais terna voz, mais fresca e pura! Se o corpo é de mulher, sua alma é vaso, Onde o incenso de Deos se afina e apura.
A HISTORIA.
The flow and ebb of each recurring age. BYRON.
Triste licção de experiencia deixão Os evos no passar, e os mesmos actos Renovados sem fim por muitos povos, Sob nomes diversos se encadeião: Aqui, além, agora ou no passado, Amor, dedicação, virtude e gloria, Baixeza, crime, infamia se repetem, Quer gravados no socco de uma estatua, Quer em vil pelourinho memorados. Eis a historia!—rainha veneranda, Trajando agora sedas e velludos, Depois vestindo um sacco despresivel, D’immunda cinza apolvilhada a fronte. Se as virtudes do pobre não tem preço, Tambem dos vicios seus a nodoa exigua Não conspurca as nações; mas ai dos grandes, Que trilhão senda errada, a cujo termo Se levanta a barreira do sepulchro, Onde se quebra a adulação sem força. Se virtuoso, as gerações passando As cinzas lhe beijarão; se malvado, Cospem-lhe affrontas na vaidosa campa, Jámais de amigas lagrimas molhada. E qual do Egypto nos festins funereos, Maldizem bons e máos sua memoria, Lançando á face da real mumia Dos crimes seus a lacrymosa historia. Talvez, porêm, um infortunio grande, Um exemplo sublime de virtude, Cobre dourada pagina, que aos olhos Pranto consolador sem custo arranca. Eis a historia! um espelho do passado, Folhas do livro eterno desdobradas Aos olhos dos mortaes;—aqui sem mancha, Além golfeja sangue e súa crimes. Tal foi, tal é: retrato desbotado, Onde se mira a geração que passa, Sem côr, sem vida,—e ao mesmo tempo espelho, Que ha de ser nova copia á gente nova, Como os annos aos annos se succedão. Ondas de mar sereno ou tormentoso, As mesmas na apparencia, que se quebrão Sobre as d’areia fluctuantes praias.
A CONCHA E A VIRGEM.
Linda concha que passava, Boiando por sobre o mar, Junto a uma rocha, onde estava Triste donzella a pensar; Perguntou-lhe:—Virgem bella, Que faces no teu scismar? —E tu, pergunta a donzella, Que fazes no teu vagar? Responde a concha:—Formada Por estas aguas do mar, Sou pelas aguas levada, Nem sei onde vou parar! Responde a virgem sentida, Que estava triste a pensar: —Eu tambem vago na vida, Como tu vagas no mar! —Vais d’uma a outra das vagas, Eu d’um a outro scismar; Tu indolente divagas, Eu soffro triste a cantar. —Vais onde te leva a sorte, Eu, onde me leva Deos: Buscas a vida,—eu a morte; Buscas a terra,—eu os céos!
SEI AMAR.
Amor amore. Proverbio.
Sei amar com paixão ardente e fida, Como o nauta ama a terra, como o cego A luz do sol, como o ditoso a vida. Sim, sei amar; porêm do immenso pégo D’uma existencia misera e cançada, Quero uma hora, um instante de socego. Dera a vida a uma alma apaixonada, A um peito de mulher que me entendesse, Onde eu pousasse a fronte acabrunhada. Porêm, que fosse minha, e que eu soubesse Que os labios que beijei são meus somente, Nem pensa em outro, nem de mim se esquece. Nem vai de prompto derramar demente N’outros ouvidos a palavra, o accento, Que em extasis de amor criei fervente. Nem corre o seu volatil pensamento, Quando fallo, a pensar n’outros amores, N’outra voz, n’outros sons, n’outro momento. Demais, acostumado a teus rigores, Não me queixo, bem vês, mas despedaço A prisão vil, embora occulta em flores. Se entro furtivo, onde outro mais de espaço Como senhor campeia—ao mais querido Cede o ingresso, ao mais ditoso o passo. Não me contenta um coração partido, Um só amor que a dous pertence,—um peito, Que bate por dous homens, fementido. Se eu unico não sou,—vil, não aceito Ser segundo em amor,—inteiro é nobre, Vale um throno;—partido, é dom tão pobre, Qu’eu pobre, como sou, de altivo engeito.
AMANHÃ.
Amanhã!—é o sol que desponta, É a aurora de roseo fulgor, É a pomba que passa e que estampa Leve sombra de um lago na flôr. Amanhã!—é a folha orvalhada, É a rola a carpir-se de dôr, É da brisa o suspiro,—é das aves Ledo canto,—é da fonte o frescor. Amanhã!—são acasos da sorte; O queixume, o prazer, o amor, O triumpho que a vida nos doura, Ou a morte de baço pallor. Amanhã!—é o vento que ruge, A procella d’horrendo fragor, É a vida no peito mirrada, Mal soltando um alento de dôr. Amanhã!—é a folha pendida, É a fonte sem meigo frescor, São as aves sem canto, são bosques Já sem folhas, e o sol sem calor. Amanhã!—são acasos da sorte! É a vida no seu amargor, Amanhã!—o triumpho, ou a morte; Amanhã!—o prazer, ou a dôr! Amanhã!—o que val’, se hoje existes! Folga e ri de prazer e de amor; Hoje o dia nos cabe e nos toca, De amanhã Deos sómente é Senhor!
POR UM AI.
Se me queres ver rendido, De joelhos, a teus pés, Por um olhar que me deites, Por um só ai que me dês; Se queres ver o meu peito Rugindo como um vulcão, Estourar, arder em chammas, Ferver de amor e paixão; Se me queres ver sugeito, Curvado e preso á tua lei, Mais humilde que um escravo, Mais orgulhoso que um rei; Meus olhos sobre os teus olhos, Meu coração a teus pés; Por um olhar que me deites, Por um só ai que me dês: Oiça, feliz, dos teus labios Esta só palavra—amor!— Estrella cortando os ares, Abelha sobre uma flôr. Então verás dos meus olhos, Que o pezar me não cegou, Rebentarem de alegria Prantos, que a dôr estancou; Então verás o meu peito Como outra vez se incendia; Era a folha verde e fresca, Onde o sol se reflectia! Murcha e triste pende agora; Cahiu, jaz solta, está só: Exposta ao fogo, arde em chammas, —Deixai-a, desfaz-se em pó! Hei de sentir outra vida, Outra vez meu coração Escutarei palpitando De amor, de fogo e paixão. Lascado tronco sem graça, Tal fui, tal me ves agora! Mas venha o orvalho celeste, Venha o bafejo da aurora; Venha um raio de alegria Dar-lhe ás raizes calor; Revive de novo, e brota Folhas, galhos e verdor. Do cimo erguido e copado Outra vez se dependurão Mil flores,—alli mil aves Nos seus gorgeios se apurão. Não quero palavras falsas, Não quero um olhar que minta, Nenhum suspiro fingido, Nem voz que o peito não sinta. Basta-me um gesto, um aceno, Uma só prova,—e verás Minha alma, presa em teus labios, Como de amor se desfaz! Ver-me-has rendido e sugeito, Captivo e preso á tua lei, Mais humilde que um escravo, Mais orgulhoso que um rei!
PROTESTO. Imitação de uma poesia Javaneza.
Ainda quando os homens te odiassem, E anath’ma contra ti bradasse o mundo, Por ti sentira amor, te amára sempre, Te amára eternamente. Este affecto jámais ha de alterar-se; Embora gemeos sóes ardão no espaço, Ou gemeas noites, em cegueira eterna, Me roubem o prazer de ver teus olhos. Entranha-te na terra, hei de afundar-me; Passa ao travez do fogo, irei comtigo; Aos céos remonta, hei de seguir-te sempre, Ver-me-has sempre a teu lado. De ti não póde a força desprender-me, Nem separar-me o fado. Em ti só vivo; E quem dos dias teus souber o termo, Que a vida me deixou tambem conheça. Quando nas azas da esperança corro, Onde me acenas, onde amor me aguarda, Parece-me que vôo aos ledos campos, Onde a esperança mora. Não ha que possa comparar-se aos extasis, Que tanto ao vivo meu amor revelão; Um gesto, um som dos labios teus mimosos Mil vezes na minha alma se repete. Quer irritada contra mim te mostres, Quer do teu seio irosa me repillas, Teu rosto na minha alma se retrata, E eu te amo sempre! Quer durma, quer descance, ou vele ou soffra, Em tudo quanto sinto, em quanto vejo, Risonha tua imagem me apparece, E eu julgo sempre que te fallo e escuto. Seja eu longe da patria infindas legoas, A distancia de um mundo entre nós corra, Em quanto além divago, preso fica Meu coração comtigo. Se pois souberes que os meus dias findão, Não creias que o destino inexoravel M’os corta—antes me tem, antes me julga Morto por ti de amores!
FADARIO.
Procura o íman sempre Do pólo a firme estrella, De viva luz o insecto Se deixa embellezar; E a nave contrastada Das furias da procella, Procura amigo porto, No qual possa ancorar. O íman sou constante, A nave combatida, O insecto encandeado Com fulgido clarão; E tu—a minha estrella, A luz da minha vida, O porto que me acena Por entre a cerração. Assim, por desgostar-me, Severo no semblante, No olhar, na voz—debalde Me opprime o teu rigor; Se fujo dos teus olhos, Se mostro-me inconstante, Na ausencia e no desterro Me vai crescendo o amor! Assim o insecto volta Á luz que o já queimára, E o íman na tormenta Procura o norte seu; Assim a nave rota, Que o vento contrastára, Entrando o porto, esquece Que males já soffreu. Debalde, pois, tua alma, Que a minha dôr encherga, Se mostra aspera e dura Á voz do meu penar; Aquelle verde ramo, Que facilmente verga, Resiste ao peso, emquanto Não torna ao seu lugar. Se, pois, te irrita e cança De o ver revel comtigo, Do tronco seu virente Separa-o de uma vez: Mais qu’elle venturoso Me julgo, se consigo Morrer vendo os teus olhos, Cahir junto a teus pés. Mas, inda assim, não creias, Se finda o meu tormento, Que nem lembrança minha Terás de conservar: A nave, que não toca No porto a salvamento, Talvez os rotos mastros Atira á beira-mar. Assim quando jazendo Me achar na campa fria, Talvez tenhas remorsos, Da tua ingratidão; Talvez que por mim sintas Alguma sympathia; Que em lagrimas desfeita Me dês amor então.
O ASSASSINO.
Pero una sola lágrima, un gemido Sobre sus restos á ofrecer no van, Que es sudario d’infames el olvido... Bien con su nombre en su sepulcro están! ZORRILLA.
Eil-o! seu rosto pallido se encova; Incerto, mais que os vôos dum morcego, Seu andar, ora lento, ora apressado, Profunda agitação revela aos olhos. Crespos os cenhos, enrugada a fronte, Simelha luz de tocha mortuaria A luz que os olhos seus despedem torvos. Ha momentos em que seo rosto fero De tal arte s’enruga e se transtorna, Que os seus proprios amigos o fugírão E a propria mãe teméra unil-o ao seio! Quando os labios descerra, só murmura Frases, cujo sentido não se alcança, Ou blasfemias a Deos, que o soffre em vida! O que amou n’outro tempo, agora odeia; Despreza o que estimou, evita, foge Quanto afanoso procurava outr’ora: Receia a luz do sol, da noite as trevas, A voz do crime, da innocencia o grito! A cholera de Deos cahio tremenda Sobre o seu peito, e o coração lhe opprime, De cuja interna chaga em jorros salta O sangue e a podridão: horrendo e fero, A victima das furias do remorso, Terrivel e cobarde, e ao mesmo tempo Rebelde contra a mão, que o vexa e pune, Em quanto a Deos maldiz, blasfema, irrita, D’uma voz, d’uma sombra se amedronta. Não póde supportar seus pensamentos A sós comsigo, e aborrecendo os homens, De os ver e de os não ver soffre martyrios. Na cidade, suspeita esposa, amigos, A mãe e os filhos;—um terror, um pasmo, Cuja causa recondita se ignora, Na voz, no rosto e gesto o denuncião Como escravo do crime ou da miseria. No ermo a propria voz o sobresalta! O som dos passos, do seu corpo a sombra, Das fontes o correr por entre as pedras, Da brisa o suspirar por entre as folhas, Quanto vê, quanto escuta o intimida. Minaz lhe brada a natureza inteira, Soluça um nome, que lhe erriça a coma E o frio do terror lh’immerge n’alma. O mar nas ondas crespas, que se enrolão, Batidas pelo açoite da procella, Troveja o mesmo nome; as vagas dizem-no, Quando passão, cuspindo-lhe o semblante; E Deos, o proprio Deos no espaço o grava Nos fuzis que os relampagos centelhão. Tem pavor, quando sonha e quando vela. Deixando o leito em seu suor banhado, No silencio da noite—á horas mortas, Levanta-se medonho á voz do crime! Nas mãos convulsas um punhal aperta E a lamina buida e os olhos torvos Agoureiro clarão despedem juntos. Soltando roucos sons com voz sumida, Apalpa cauteloso as densas trevas, E vai ... caminha ... attende ... de repente Apunhala um phantasma!—solta um grito, Larga o punhal convulso e arrepiado! N’um ferrete de sangue lê seu fado, Um ferrete, que a dôr desfaz nunca, Nem lava o pranto, nem consome o tempo. Miseravel, provando o fel da morte, Ante o passo medonho se horrorisa; Odeia o mundo que fugir não póde, Regeita a religião que o não consola, Odeia e teme a Deos,—teme a justiça De quem na fronte vil do fratricida Nodoa eterna gravou do crime infando.
A UNS ANNOS.
14—Janeiro.
No segredo da larva delicada A borboleta mora, Antes que veja a luz, que estenda as azas, Que surja fóra! A flôr, antes de abrir-se, se recata; No botão se resume, Antes que mostre o colorido esmalte, Que espalhe o seu perfume. E a flôr e a borboleta, após a aurora Breve—da curta vida, Encontrão nas manhãs da primavera A luz do sol querida. De graças cheia, a delicada virgem Da vida no verdor, Semelha a borboleta melindrosa, Semelha a linda flôr. Tudo se alegra e ri em torno della, Tudo respira amor, Que é a virgem formosa semelhante Á borboleta e á flôr. Mas para estas o sol breve se esconde, Passão prestes os dias; Em quanto a cada sol e nova quadra Tu novas graças crias!
QUANDO NAS HORAS.
And dost thou ask, what secret woe I bear, corroding joy and youth? And wilt thou vainly seek to know A pang e’en thou must fail to soothe? BYRON.
I.
Quando nas horas que comtigo passo, Do amor mais casto, do mais doce enlevo. Sentindo um raio d’esperança amiga, Que as densas trevas da minha alma aclara; Teus meigos olhos sobre os meus se fitão. Sorvo o perfume que tua alma exhala, Gozo o sorriso que os teus labios vertem E as doces notas que o prazer m’entranhão: Tu me perguntas por que um riso amargo, Funebre e triste me descora os labios; Por que uma nuvem de pezares gravida Tolda o meu rosto; Por que um suspiro de abafada angustia, Um ai do peito, que exhalar não ouso, O meigo encanto dos teus sonhos quebra N’um breve instante! Raio de amor, que sobre mim resplendes, Ou sol que bates n’um profundo abysmo, E a verde-negra superficie tinges De côr chumbada com reflexos d’oiro; Se vês luzente a superficie amiga, E á luz que espalhas aclarar-se o abysmo, Sol bemfazejo, que te importão fezes, Se lá no fundo adormecidas jazem? Talvez se as viras, encobrindo os olhos, De horror fugindo ao temeroso aspecto, Os brandos lumes, d’onde amor distillas Breve apagáras. Não me perguntes por que soffro triste, Por que da morte o negro espectro invoco, Por que, cansado desta vida, almejo A paz dos tumulos. Nem ver procures a cratera hiante Do peito meu, qu’inda fumega em cinzas, Do peito meu, onde crueis travárão Pleitos, não crimes, mas paixões que abrasão. Dá que nas horas que comtigo passo Do amor mais casto e do mais doce enlevo, Durma o passado e do porvir m’esqueça, E o meu presente de te amar se ameigue.
II.
Se algum suspiro de abafada angustia, Se um ai do peito que exhalar não ouso, O meigo encanto dos teus sonhos quebra; Tu me perdôa. Cansado e triste de viver soffrendo, Da morte amiga o negro espectro invoco, Affiz-me as dores, e só torva ideia Me apraz agora. Talvez na pedra d’um sepulchro frio Melhor folgára de me ver deitado, Sentir nos olhos estancado o pranto E amodorrado o padecer no peito. Talvez folgára minha sombra triste, Vagando em tomo d’uma campa lisa, De ver-te as formas, de contar teus passos, E de escutar tua oração piedosa. Talvez folgára, quando pranto amargo Dos olhos teus me rorejasse a campa, Dos meigos labios, onde amor temperas, Meu nome ouvindo! Oh! sim, folgára de sentir a brisa, Correndo em tomo ao moimento meu, E tu sósinha no sepulchro humilde, Guardando os tristes deslembrados ossos! Junto ao meu corpo guardarei teu leito, Onde os teus restos junto aos meus descancem; E o mesmo sol, e a mesma lua e brisa Juntos nos vejão. E quando o anjo espedaçar as campas Ao som da trompa de fragor horrendo, Que ha de o lethargo despertar dos mortos Na vida eterna; Primeiro em ti se fitarão meus olhos: Hei de alegrar-me de te ver commigo, E as nossas almas subirão reunidas Á eterna face do juiz superno. E deste amor, por que ambos nós passamos, O galardão lhe pediremos ambos, Viver unidos na mansão dos justos, Ou nos tormentos da eternal gehenna!
III.
No em tanto a vida soportar já devo, Soffrer o peso da existencia ingloria, E revolvendo o coração chagado, Nos seus estragos numerar meus dias. Na terra existo, como um som queixoso, Um echo surdo, que entre as fragas dorme, Ou como a fonte, que entre as pedras corre, Ou como a folha sob os pés calcada. Uma alma em pena, que procura os restos Não sepultados,—uma flôr que murcha, D’uma harpa a corda, que por fim rebenta, Ou luz que morre. Prazer não acho de avistar lua Pallida e bella na soidão do espaço; Nem vivos astros, nem perfumes gratos Me dão consolo. Nada percebo nos confusos roncos Do mar, que bate as solitarias praias; Nem nos gemidos da frondosa selva, Que o sopro amigo de uma aragem move. Conviva infausto d’um festim, que odeio, Ás proprias galas que vaidosa ostenta A natureza—não se ri minha alma, Nem de as notar meu coração se alegra. E sinto o mesmo que sentira o frio, Mudo cadaver dos festins do Egypto, Se ver pudesse, contemplando o nada Das vãs grandezas. Mas já que os olhos sobre mim pousaste, Teus meigos olhos, donde o amor lampeja; Pois que os teus labios para mim se abrirão, Teus meigos labios; Já que o perfume da tua alma d’anjo Embalsamou-me o coração de aromas; Já que os prazeres da eternal morada De longe, em sonhos, antevi comtigo: Já posso a vida supportar, já devo Sofrer o peso da existencia inutil; Já do passado e do porvir me esqueço, E o meu presente de te amar se ameiga.
RETRACTAÇÃO.
Son reo, non mi difendo; Puniscimi, se vuoi! METASTASIO.
Perdoa as duras frases que me ouviste: Vê que inda sangra o coração ferido, Vê que inda luta moribundo em ancias Entre as garras da morte. Sim, eu devera moderar meu pranto, Soffrear minhas iras vingativas, Deixar que as minhas lagrimas corressem D’entro do peito em chaga. Sim, eu devera confranger meus labios, Mordel-os té que o sangue espadanasse, Afogar na garganta a ultriz sentença, Apagal-a em meu sangue. Sim, eu devera comprimir meu peito, Conter meu coração, que não pulsasse, Apagado volcão, que inda fumega, Que faz, que jorra cinzas? Que m’importava a mim teu fingimento, Se uma hora fui feliz quando te amava, Se ideei breve sonho de venturas, Dormido em teu regaço; Luz mimosa de amor, que te apagaste, Ou gota pura de crystal luzente Filtrando os poros de uma rocha a custo, Cahida em negro abysmo! Devera pois meu pranto borrifar-te Amigo e bemfazejo, como aljofar De branco orvalho em perolas tornado N’um calice de flôr; Não converter-se em pedras de saraiva, Em chuva de graniso fulminante, Que em chão de morte as petalas viçosas Desfolhasse entre-abertas.
Feliz o doce poeta, Cuja lyra sonorosa, Resoa como a queixosa, Trepida fonte a correr; Que só tem palavras meigas, Brandos ais, brandos accentos, Cuja dôr, cujos tormentos Sabe-os no peito esconder! Feliz o doce poeta, Que não andou em procura De terrena formosura, Nem as graças lhe notou! Que lhe não deu sua lyra, Que lhe não deu seus cantares, Que lhe não deu seus pezares, Nem junto della quedou! Antes na mente escaldada Forma um composto divino De algum ente peregrino, De algum dos filhos dos céos; E ante essa imagem creada, Que vê sempre noite e dia, Dobra as leis da phantasia, Acurva os desejos seus. É d’ella quando se carpe, É d’ella quando suspira, É d’ella quando na lyra Entoa um canto feliz: D’ella acordado ou dormido, D’ella na vida ou na morte, Tenha alegre ou triste sorte, Seja Laura ou Beatriz! Que talvez a doce imagem, A scismada phantasia Ha de o poeta algum dia Junto de Deos encontrar; E que havendo-a producido Antes do mundo formado, Dê-lhe um sonhar acordado Por um viver a sonhar!
ANHELO.
No lago interior d’um peito virgem, Que os ventos das paixões não agitárão, Hei de em cifras de amor gravar meu nome, Onde as nuvens do céo desenhão cores. Nos meigos olhos, que embelleza o mundo, De corrosivas lagrimas enxutos, Meu pensamento gravarei n’um beijo, Onde as luzes do céo reflectem brilhos. Em sua alma, onde uma harpa melindrosa Noite e dia seus canticos afina, Hei de a vida entornar em doces carmes, Onde imagens do céo sómente brilhão. Que outra c’rôa melhor, que outra mais pura, Que uma c’rôa d’amor em fronte virgem?! Não peza sobre a fonte, não esmaga, Não punge o coração,—é toda amores! Que outra c’rôa melhor, que outra mais bella Que a aureola, que Deos concede aos vates? Com sorriso de amor, talvez com pranto, Cede-a o vate á mulher, que mais o inspira! Eu t’a cedo, eu t’a dou! C’rôo-te imagem Resplendente, invejada entre as mulheres; Um beijo só de amor tu me concedas, Um suspiro sequer do peito exhales.
QUE ME PEDES.
Tu pedes-me um canto na lyra de amores, Um canto singelo de meigo trovar?! Um canto fagueiro já—triste—não póde Na lyra do triste fazer-se escutar. Outr’ora, coberto meu leito de flores, Um canto singelo já soube trovar; Mas hoje na lyra, que o pranto humedece, As notas d’outr’ora não posso encontrar! Outr’ora os ardores que eu tinha no peito Em cantos singelos podia trovar; Mas hoje, soffrendo, como hei de sorrir-me, Mas hoje, trahido, como hei de cantar? Não peças ao bardo, que afflicto suspira, Uns cantos alegres de meigo trovar; Á lyra quebrada só restão gemidos, Ao bardo trahido só resta chorar.
O CIUME.
Oh! quanta graça e formosura adorna Teu rosto eloquente e vivo! Se a sombra de um sorrir te afrouxa os labios, Prestes outro sorrir dos meus rebenta; Se vejo os olhos teus, que chorar tentão, Debalde o pranto meu represso engulo; Se do teu rosto as rosas se esvaecem, Eu sinto de temor bater meu peito; E quando os olhos teus nos meus se fitão, Nem pezares, nem dores me dominão; Mas sinto que o meu peito se enternece, Sinto o meu coração bater mais livre, Sinto o sorriso, que me ri nos labios, Sinto o prazer, que me transluz no rosto, Sinto delicias n’alma! Quanta belleza tens!—quer dessas graças, Que o amor inveja—n’um saráu brilhante No meio de bellezas, que supplantas, Prazer e galas de as mostrar ressumbres; Quer estejas sósinha e pensativa, Quer viva e folgazã prazer incites: Ou n’um corsel em páramos extensos, Correndo affoita e louca, e o pé mimoso Da carreira no afan por sob as vestes Transparecer deixando; Ou balançada n’um ligeiro barco, Que de um lago tranquillo as aguas frisa, Soltando a voz as brisas namoradas, Que de te ouvir suspirão; Ou n’uma bronca penha descalvada O mar e os céos contemples pensativa, E a redeas soltas do pensar divagues Nos campos do infinito; Es sempre bella: já teus olhos brilhem Luz que fascina, ou morbidos reflexos, Teus labios entre-abertos sempre exhalão Calor, que incendio ateia. Oh! que bella tu es, quando assentada No teu balcão, ao refulgir da lua, Manso te apoias em coxins de seda, E o bello azul dos céos triste encarando Pensas em Deos,—talvez no teu futuro, Talvez nos teus pezares,—que na fonte De limpha pura, crystallina e fresca Aquatica serpente usa occultar-se. Mas como es bella assim! co’a mão sem força Tirando sons perdidos, sons que encantão, Sons qu’infundem prazer, sons d’harpa tristes! Mas como es bella assim!—quando o teu peito Entre a gaza subtil de leve ondeia! Como a onda do mar pausada e fraca Se abaixa, e empola, e mais e mais se achega Á doce praia, onde os seus ais se quebrão; Assim teu peito bate, e nos teus labios Do extremo palpitar morre um suspiro. Como d’harpa afinada a corda sôa, Mal desfere seus sons outro instrumento; Assim tambem minha alma se entristece, Assim tambem meu peito arqueja e pula! Eis porque amor me liga aos teus destinos, Porque sou teu escravo,—bem que saiba Que se a tua alma a belleza Tem de um anjo a formosura, Não tens de um anjo a candura, Nem tens delle a singeleza! Eis porque ardo por ti, porque padeço Do inferno crus tormentos! Porque dos zelos o fel mancha minha alma De negros pensamentos! Mas que importa este amor que me consome? Eu quero sentir dôr; Quero labios que entornem nos meus labios Alento escaldador! Quero fogo sentir contra o meu peito, Quero um corpo cingir que eu sinta arder, Quero beijos só teus, caricias tuas, Que dão morrer! Que importa ao edificio que scintilla, De roaz fogo tomado, Ser por um raio abrasado Ou por ignobil favilla? É sempre ardor, sempre fogo, Sempre d’incendio o clarão, Sempre o amor que estúa e ferve Como um gigante vulcão.
A NUVEM DOIRADA.
(N’UM ALBUM.)
A nuvem doirada se expraia no occaso, Roçando co’as franjas o throno de Deos; A aguia arrojada seus vôos levanta, Traçando caminhos nos campos dos céos! Exhala perfumes a flôr do deserto, Embora dos ventos o sopro fatal Embace-lhe as côres,—e o mar orgulhoso Suspira queixoso—no extenso areal. E os bardos mimosos nos cantos singelos Imitão as nuvens no incerto vagar: Vão sós como as aguias,—exhalão perfumes, Suspirão queixumes—das vagas do mar. Por isso quem ama, quem sente no peito Cantar-lhe das lyras a lyra melhor; Os carmes lhes ouve, que os bardos só cantão Saudades, perfumes, enlevos e amor!
SONHO DE VIRGEM.
A. D. A. C. G. A.
I.
Que sonha a donzella, Tão vaga, tão linda, Bemquista e bemvinda Na terra e no céo? Que scisma? que pensa? Que faz? que medita, Que o seio lhe agita Tão bravo escarcéo? Que faz a donzella, Se lagrimas quentes Das faces ardentes Lhe queimão a tez? Que sonha a donzella, Se um riso fagueiro, Donoso e ligeiro Nos labios lhe vês? Que faz a donzella, Que scisma, ou medita? Talvez lá cogita Fruir algum bem; Então porque chora? Se curte agras dores D’ingratos amores, O riso a que vem? Semelha a donzella, Que ri-se e que chora, Á limpida aurora, Que orvalha dos céos; Não luz mais brilhante, Não chora mais prantos, Não tem mais encantos, Que um riso dos seus.
II.
Quem me dera saber quaes são teus sonhos, Aventar teus angelicos desejos, Saber de quantas ledas fantasias, De quantos melindrosos pensamentos Um suspiro se nutre, um ai se gera. Virgem, virgem de amor, que vais boiando Á flôr da vida, como rosea folha, Que aragem branda sacudio nas aguas; Que genio bom a magica vergasta Em troco de um sorriso te concede? Que poderosa fada te embalsama A vida e os sonhos?—que celeste archanjo Embala, agita as creações que idéas, Como em raio do sol dourados átomos Com que invisivel ser brincar parece! Virgem, virgem de amor, quaes são teus sonhos?
III.
Talvez quando o sol nasce, lá divisas Na liquida extensão do mar salgado Correr com mansas brisas Um ligeiro batel aparelhado. As velas de setim brancas de neve Rutilão d’entre as flamulas e cores, E o barco airoso e leve Nos remos voga de gentis amores. Não formão rijos sons celeuma dura, Nem a companha entre bulcões desmaia; Aragem fresca e pura Doces carmes de amor conduz á praia. Sonhas talvez nas orlas do occidente, De um regato sentada á branda margem, Ver surgir de repente De uma cidade a caprichosa imagem! Soberbas construcções fantasiando, Vês agulhas subtis cortando os céos, E a luz do sol doirando Rutilos tectos, altos corucheos. Sonhas talvez palacios encantados, Espaçosos jardins, fontes de prata, Vergeis de sombra grata, Onde a alma folga, isenta de cuidados. Sonhas talvez, mas innocente Armida, Passar a facil quadra dos amores, Tendo em laço de flores Preso de quem mais amas peito e vida!
IV.
Quem me dera saber quaes são teus sonhos? Aventar teus mais intimos desejos, E ser o genio bom que t’os cumprisse!
V.
Nem só prazeres medita, Nem só pensa em bellas flores; Muitas ha que almejão dores, Como outras buscão amor: É que as punge atra amargura, Que o peito anceia e fatiga; É sêde que só mitiga Talvez afflicção maior. Quasi gozão, quando vertem Um pranto cançado e lento; Quando um comprido tormento Lhes derrete o coração: Não é martyrio de sangue, Como nas eras passadas; Mas ha lagrimas choradas, Que tambem martyrio são. Ha dores que melhor ralão Que provas d’agua ou de fogo, Que ver apinhado o povo N’um banquete canibal; Que sentir no amphitheatro As vivas carnes rasgadas Pelas presas navalhadas De um fero lobo cerval.
VI.
Quem me dera saber quaes são teus sonhos, Aventar teus mais fundos pensamentos, E ser o genio bom que t’os cumprisse, Quando fossem de amor teus meigos sonhos!
VII.
Mas donde mana essa fonte De inexplicavel ternura, Que os golpes da desventura Não podem nunca estancar; Essa vida toda extremos, Esse ardor de todo o instante, Esse amor sempre constante, Que nunca se vê mingoar? Quizera, virgem donosa, Saber a origem divina Dessa fonte peregrina De tanta luz e calor; Então pudera em meus cantos, Tratar dos teus meigos sonhos, Formar uns quadros risonhos De quanto sentes de amor. Roubando as cores do Iris, Das estrellas os fulgores, O aroma que tem as flores, O vago que tem o mar; Talvez pudera os mysterios, As douradas phantasias, As singelas alegrias D’um peito virgem cantar.
MEU ANJO, ESCUTA.
Le mal dont j’ai souffert s’est enfui comme un rêve, Je n’en puis comparer le lointain souvenir Qu’à ces brouillards légers que l’aurore soulève Et qu’avec la rosée on voit s’évanouir. MUSSET.
Meu anjo, escuta: quando junto á noite Perpassa a brisa pelo rosto teu, Como suspiro que um menino exhala; Na voz da brisa quem murmura e falla Brando queixume, que tão triste cala No peito teu? Sou eu, sou eu, sou eu! Quando tu sentes luctuosa imagem D’afflicto pranto com sombrio véo, Rasgado o peito por acerbas dores; Quem murcha as flores Do brando sonho?—Quem te pinta amores D’um puro céo? Sou eu, sou eu, sou eu! Se alguem te acorda do celeste arroubo, Na amenidade do silencio teu, Quando tua alma n’outros mundos erra, Se alguem descerra Ao lado teu Fraco suspiro que no peito encerra; Sou eu, sou eu, sou eu! Se alguem se afflige de te ver chorosa, Se alguem se alegra co’um sorriso teu, Se alguem suspira de te ver formosa O mar e a terra a ennamorar e o céo; Se alguem definha Por amor teu, Sou eu, sou eu, sou eu!
OS BEIJOS.
Amo uns suspiros quebrados Sobre uns labios nacarados A gemer, a soluçar; Como a onda bonançosa, Que n’uma praia arenosa Vem tristemente expirar! Amo ouvir uma voz pura, Uns accentos de ternura, Que trazem vida e calor; Que se derramão a medo, Como temendo o segredo Revelar do occulto amor! Amo a lagrima que chora Tema virgem que descora, Presa d’interna afflicção; Amo um riso, um gesto vivo, Um olhar honesto, esquivo, Que alvoroça o coração. Porêm mais que o olhar honesto, Mais que o riso e brando gesto, Mais do que o pranto a correr, Mais que a voz, quando amor jura, Que um suspiro de ternura, Que vem aos labios morrer; Amo o leve som de um beijo, Quando rompe o véo do pejo, Mal sentido a murmurar: É viva flôr de esperança, Que nos promette bonança, Como a flôr do nenuphar. Mente o olhar, mesmo em donzella, Mente a voz que amor assella, Mente o riso, mente a dôr; Mente o cançado desejo; Só não mente o som de um beijo, Primicias de um longo amor! Beijos que são? Duas vidas, São duas almas unidas, Que o mesmo fogo consume: São laço estreito de amores; Porque são os labios flores De que os beijos são perfume! Beijos que são?—Ai do peito, Sello breve, laço estreito D’um cançado bem querer; Saibo dos gozos divinos, Que nos labios femininos Quiz Deos bondoso verter. Já por feliz me tivera, Triste de mim! se eu pudera Dizer o que os beijos são: Sei que inspirão luz e calma, Sei que dão remanso á alma, Que trazem fogo a paixão. Sei que são flôr de esperança; Que nos promettem bonança, Como a flôr do nenuphar: Quem fruio um ledo beijo, Ter não póde outro desejo, Nada já póde gozar. Sei que delles não se esquece Triste velho, que esmorece Á mingoa de coração: Viva estrella em noite escura, Viva braza em cinza pura, Em neve algente um vulcão. Sei que fruil-os uma hora De ventura seductora, É subir em vida aos céos, É fugir da vida escassa, Roubar ao tempo que passa Um dos momentos de Deos. Sei que são flôr de esperança, Que nos promettem bonança, Como a flôr do nenuphar! Quem os fruio, o que espera? Já gozou, já não tem era, Já não tem mais que esperar.
DESESPERANÇA.
Antes d’espirar el dia, Vi morir á mi esperanza. ZARATE.
Que m’importa do mundo a inclemencia E esta vida cruel, amargada? Des’que os olhos abri á existencia Um vislumbre de amor não achei! Nem uma hora tranquilla e fadada, Nem um gozo me foi lenitivo; Mas no mundo maldicto, em que vivo, Quantas ancias, meu Deos, não provei! Já bastante lutei com meu fado! Quando outr’ora corri descuidoso Traz de um bem, não real, mas sonhado, Transbordava de sonhos gentis: Eu julgava que a um peito brioso Ou que a uma alma, que facil s’inflamma Por virtudes, por gloria, ou por fama, Era facil aqui ser feliz. Via o mundo ao travez dos meos prantos A sorrir-se p’ra mim caroavel, Reflectindo celestes encantos, Que era visto d’um prysma ao travez: Hoje trevas em manto palpavel Me circundão,—nem já por acerto Vejo triste nos prantos, que verto, Luz do céo reflectida outra vez! Que me resta na terra?—Estas flores, Afagadas do sopro da brisa, Disputando do sol os fulgores, Balançadas no debil hastil! Estas fontes de prata, que frisa Brando vento,—estas nuvens brilhantes, Estas selvas sem fim, susurrantes, Estes céos do gigante Brasil; Nada já me renova a esperança, Que jaz morta, qual flôr resequida; Só me resta a querida lembrança Que o martyrio se acaba nos céos: Foge pois, ô minha alma, da vida; Foge, foge da vida mesquinha, Leva timida esp’rança, caminha, Té parar na presença de Deos! Qu’estes gozos de ethereos prazeres, Que esta fonte de luz que illumina, Que estes vagos phantasmas de seres, Que scismando só posso enxergar; Que os amores de essencia divina, Que eu concebo e procuro e não vejo, Que este fundo e cançado desejo, Deos somente t’os póde fartar. Vai assim a medrosa donzella, Pura e casta na ingenua belleza, Buscar luz á remota capella, Branca cera na pallida mão: Tudo é sombra, silencio e tristeza! Mas ao toque do fogo sagrado, Arde em chammas o cirio apagado, Já rutila brilhante clarão.
SE QUERES QUE EU SONHE.
Sur mon front, où peut-être s’achève Un songe noir qui trop longtemps dure, Que ton regard comme un astre se lève, Soudain mon rêve Rayonnera. V. HUGO.
Tu queres que eu sonhe!—que ao menos dormido Conheça alegrias, desfructe prazeres; Que nunca provei; Que ao menos nas azas de um sonho mentido Perdido—arroubado, tambem diga: amei! Tu queres que eu sonhe!—não sabes que a vida Me corre penosa,—que amarga por vezes A propria illusão! No pallido riso d’uma alma affligida, Qu’invída—ser leda, que dores não vão! Se o pranto, que os olhos cançados inflamma, Nos olhos de estranhos sympathico brilha; Mais agro penar Do triste o sorriso nos peitos derrama, Se a chamma—revela, que almeja occultar. Sonhando, percebo na mente agitada Um mar sem limites, areas fundidas Aos raios do sol; E um marco não vejo perdido na estrada Cançada,—não vejo longinquo farol! E queres qu’eu sonhe!—Nas aguas revoltas O nauta, ludibrio d’horrenda procella, Se póde dormir, As vagas cruzadas, em sustos involtas, As soltas—escuta raivosas bramir. Talvez porêm sonha que as ondas mendaces O levão domadas á terra querida, Qu’entrou em seus lares!... E triste desperta, que os ventos fugaces Nas faces—a espuma lhe atirão dos mares. Se queres que eu sonhe,—que alguma alegria Dormido conheça,—que frua prazeres D’um placido amor; Vem tu como estrella da noite sombria, Que enfia—seus raios das selvas no horror, Brilhar nos meus sonhos.—Então socegado, Scismando prazeres, que n’alma s’entranhâo; D’um riso dos teos Coberto o meo rosto,—fugira o meu fado Quebrado—aos encantos de um anjo dos céos. Vem junto ao meu leito, quando eu for dormido, Que eu sinta os perfumes que exhalas passando; Não soffro—direi: E ao menos nas azas de um sonho mentido, Perdido—arroubado, talvez diga:—amei!—
O BAILE.
Sonemos gozando Fortuna tan vana, Y el sol de mañana Que ven al salir Que al son de la orquesta Danzando en la fiesta, No es carga funesta La vida feliz. ZORRILLA.
As salas vão-se enchendo, as luzes brilhão Nos prysmas de crystal repercutidas, Em quanto as flores Dos bufetes nas jarras coloridas Acres odores Soltão; ao mar de luzes misturando D’innocente perfume outro mar brando. Com requebros e amor gentis donzellas, Em riso e festa, Medindo os passos Aos sons da orchestra, Pendem dos braços Do namorado, lepido galan! Esta risonha, aquella pensativa, Outra menos esquiva, Attenta ás vozes, que o prazer lhe entranhão, E á fraze cortezã, Que lhe entorna a lisonja nos ouvidos; Vão descuidosas, Nos labios risos, Nas faces rosas, Dando fé a protestos fementidos. Triunfo ás bellas! o prazer começa: Correm nas taças vinhos espumosos, Gratos licores; Tangida pela mão dos Trovadores Desfaz-se a lyra em sons melodiosos, Em cantico de amores Soltão mais viva luz as brancas velas, Melhor perfume as flores. Activa-se o prazer; triunfo ás bellas! Aqui, alli, alem, mil rostos meigos, Da walsa ao gyro rapido se mostrão, De gemmas ennastrados os cabellos; E o peito que anhelante Palpita entumecido Nas ondas do prazer ebrifestante, D’um leve colorido Banha o semblante, Que mais e mais co’a noite se enrubece: Triunfo ás bellas,—o prazer recresce! Perdido emtanto neste mar de luzes, Mar de amor, de perfumes, que me inunda, Contemplo indifferente Quanto em redor diviso; E entre tanto ruido e tanta gente, Nem um sorriso Verdadeiro, innocente! Nem um sincero raio de alegria, Nem um peito contente Neste mar de perfumes e harmonia! Então digo entre mim:—Talvez aquella, Que tem melhores cores, Que mais leda se mostra, Que mais feliz no gesto se revela, Sente mais finas dores; O intimo desgosto, A febre que a devora Lhe dá calor ao rosto, E no silencio chora; Presa de uma afflicção devoradora. Uma tristeza funda, inexprimivel O coração me anceia; E triste e solitario n’um recanto, Nunca mais solitario, nem mais triste Do que entre a multidão que me rodeia, Não encontro maior, mais doce encanto Que deixar-me arrastar por uma ideia, Que me avassalla a mente. Que m’importa esta gente, Estes rostos que vejo e não conheço, E o riso a que mil outros dão apreço? Esta fingida alegria, Esta ventura que mente, Que serão dellas ao romper do dia? Destas virgens louçãs as mais mimosas Mortas serão talvez antes que murchem Do branco rosto as encarnadas rosas! Grinaldas festivaes, que a morte espalha No lugubre terreiro; O pó as enxovalha, Murchas aos pés do esquallido coveiro!
DESALENTO.
Without a hope in life! CRABBE.
Nascer, lutar, soffrer!—eis toda a vida: D’esperança e de amor um raio breve Se mistura e confunde Ás cruas dores d’um viver cançado, Como raio fugaz que luz nas trevas Para as tornar mais feias! Da verde infancia os sonhos melindrosos, Nobres aspirações da juventude, Amor de gloria stulto, Com que mais alto a mente se extasia; São vãos phantasmas, que produz a febre, São illusões que mentem! São as folhas virentes arrancadas D’um arbusto viçoso, antes que brotem Da primavera as flores; A pennugem que nasce antes das azas, Um esteril botão, que não dá flores, Ou flôr que não dá fructos! Foge, mancebo, lá te espreita o mundo! Como areas d’um paramo deserto, Resequido, abrasado; Provoca o teo soffrer, teo pranto espreita, Sedento almeja as lagrimas, qu’entornas Nos areaes da vida. S’inda tens coração, hão de esmagar-te; As setas da calumnia irão cravar-t’o Na parte mais sensivel: Se tens alma, se electrico palpitas De patria e de virtude aos nomes sanctos, Foge outra vez ao mundo. Não queiras, n’um accesso doloroso, Ás mãos ambas ferindo o peito credulo Exclamar delirante: «Minha patria onde está?—Onde estes homens, «Que a par de meos irmãos amar devera, «Da mesma patria filhos? «E a virtude tambem, onde hei de achal-a? «Se é mais que nome vão, onde é que existe? «Onde é que se pratica? «Se os modernos Catões a graça esmolão «Do rei—ou, cortesãos da populaça, «Rojão por terra ignobeis! «Se a mão do poderoso, a mão dourada «Do crime impune—esbofeteia as faces «Do homem vil, que a beija! «Oh! meos irmãos não são, não são os filhos «Desta patria, que eu amo;—torce o rosto «De os vêr a humanidade.» Despe-se a vida então dos seos encantos, E o homem na lembrança revivendo O percorrido estadio, Tem por marcos de estrada o monumento, Com que os mais fortes laços se desatão, —A pyramide e a campa! Do sonho juvenil murchas as cores, Sem illusões, sem fé—nublado, escuro O presente e o porvir, No crepe d’abortadas esperanças S’involve—e os olhos tesos no sepulchro, A tarda morte aguarda! Mas eu, qual viajor, vago perdido Pela face da terra!—amigo lume Não me convida ao longe; E ao sentar-me na mesa dos estranhos, Digo:—longe serei antes do occaso;— E a divagar prosigo. Mal aceito conviva me despeço!... As calumnias que soffro, a dôr que passo, Não me ferem profundas; Bem como a rola, que das matas desce, E nas azas recebe o pó da estrada, Que voando sacode. Minha hora derradeira sôe em breve, A só esperança que aos mortaes não falha! Morrerei tranquillo; Bem como a ave, ao por do sol, deitando Debaixo d’aza a timida cabeça, Da noite o somno aguarda.
A QUEDA DE SATANAZ.
(TRADUCÇÃO.)
Eis que tomba da abobada celeste O archanjo audaz, o seraphim manchado, Desenrolando o corpo volumoso, Despenhado precipite,—qual mundo Dos eixos arrancado,—como um vivo Dos céos fragmento enorme, eil-o cahindo! Cahia lá d’aquelles céos brilhantes, Donde inda os seos iguaes lançavão raios; Cahia!—e a cerviz no espaço ardendo As espheras dos sóes de côr de sangue, Passando, avermelhava. Eil-o, o maldicto, o archanjo da blasfemia, Rival do creador!—té o imo peito Pelas frechas da anáthema varado, Como n’um turbilhão, desce rodando; Ondas d’um mar de fogo o vem cercando, E elle occulta a cabeça, Como que procurasse Nas entranhas da noite Esconder seu desdoiro. Clamavão—longe—os mundos com voz forte: «Que insensato! onde vae? Nesse arrojado, Frenetico voar, que vento o impelle, Que de astro em astro vae, d’um céo em outro? Vede como é sombrio! Oh! quão outro que está d’aquelle archanjo De tão bello semblante, Lucifer radiante, Cujo sopro era como o romper d’alva, Que as portas da manhã nos céos abria, Trazendo comsigo a aurora, Que o seo alento accendia! Acaso o reconhecestes? Era hontem brilhante, novo e bello; E hoje é feio e nu e descalvado, Nas azas da tormenta balouçado, Nas azas dos bulcões; E os seos olhos fulminados Já sem pupillas fumegão, Quaes crateras de vulcões!» O archanjo os escutava, ameaçando-os Co’o olhar fulminante; Que cheio d’impio orgulho já sentia Uma c’rôa de rei cingir-lhe a fronte. Todos os astros que no espaço gyrão Seos olhos d’irritados fascinavão; E os astros todos de terror tremião, Saudando a coruscante realeza. E já os céos sem fim, estrellas, mundos Traz delle se perderão; E nas profundas solidões do espaço O archanjo abandonado apenas via A noite, e sempre a noite! Tem medo, olha, procura....—Um astro! um astro! Transviado nos céos!—O archanjo o avista! Estende a mão convulsa arrepellando-o: Segura, arrasta-o, e d’um só pulo hardido Tral-o potente ao limiar do inferno, Alentando açodado. O errante cometa duas vezes Ao tetro boqueirão levou comsigo, E duas vezes, como um negro abutre, Lutando corpo a corpo, de cançaço Sentio-se esmorecer. Duas vezes tambem o astro victima, Supplicando medroso, as igneas azas Bateu, sublime grito aos céos mandando. O nome do Senhor por duas vezes O rebelde venceo,—elle sosinho Cahio no fundo abysmo.
CANÇÃO DE BUG-JARGAL.
(TRADUCÇÃO.)
Maria, porque me foges, Porque me foges, donzella? Minha voz! o que tem ella, Que te faz estremecer; Tão temivel sou acaso? Sei amar, cantar, soffrer. E quando ao travez dos troncos Descubro d’altos coqueiros, Junto as margens dos ribeiros, A sombra tua a vagar; Julgo vêr passar um anjo, Que os meos olhos faz cegar. E dos labios teos se escuto Deslisar-se a voz, Maria, Cheio de estranha harmonia Pulsa o peito meo queixoso, Que mistura aos teos accentos, Tenue suspiro afanoso. Tua voz! eu quero ouvir-t’a Mais do que as aves cantando, Que vem da terra voando, Em que eu a vida provei; Da terra onde eu era livre, Da terra onde eu era rei! Liberdade e realeza, Hei de perder da lembrança; Familia, dever, vingança... Té a vingança m’esquece, Fructo amargo e deleitoso, Que tão tarde amadurece! Es, Maria, qual palmeira, Altiva, esbelta, engraçada, No tronco seo balançada Por leve brisa fagueira; No teo amante a rever-te, Como na fonte a palmeira. Mas não sabes?—Do deserto A tempestade valente Corre as vezes de repente Por acabar apressada Com seo halito de fogo A palmeira, a fonte amada! E a fonte já mais não corre! Sente a verdura sumir-se A palmeira, e contrahir-se A palma sua ao redor, Que de cabellos dava ares, De c’rôa tendo o esplendor. D’Hespaniola, ó branca filha, Teme por teo coração; Teme a força do vulcão Que vai breve rebentar! Que, depois, amplo deserto Só poderás contemplar! Talvez que então te arrependas De me haveres desdenhado, Porque houveras encontrado Salvação no meo amor; Como o kathá leva á fonte O sedento viajor. Porque assim tu me desdenhas, Não, Maria, não o sei; Que d’entre as frontes humanas, Entre as frontes soberanas, Levanto a fronte; sou rei. Sou preto, sim, tu es branca; Mas qu’importa? Junto ao dia A noite o poente cria E cria a aurora tambem, Que mais luzentes bellezas, Mais doces do que ambos tem.
AGAR NO DESERTO.
Et abiit, seditque e regione procul quantum potest arcus jacere: dixit enim: non videbo morientem puerum: et sedens contra, levavit vocem suam et flevit.
Genesis, Cap. 21, 16.
Pallido o rosto e queimado Pelo sol do Egypto ardente, Sahia a escrava innocente Co’ o filho innocente ao lado Da tenda patriarchal. A pobresinha chorava! Alguns pães e um frasco d’agoa E um peito cheio de magoa!... Vê, contempla, ó triste escrava, Teo sepulchro no areal. Abrahão se compadece; Mas debalde o sollicita Piedade sancta,—de afflicta Sem queixar-se, lhe obedece A triste escrava do amor. Quizera talvez detel-a... Porêm que?—Sarai lh’implora, Deos lhe ordena:—vae-te embora, Vae-te escrava; e a tua estrella Te depare outro senhor. O sol brilhante nascia Sobre as tendas alvejantes; E n’outros pontos distantes Combros d’areia feria, Outr’ora leito d’um mar; Esse caminho procura, Que nas ondas do deserto Talvez ache por acerto Patria, abrigo, amor, ventura A prole infausta d’Agar. Vae, caminha; mas ao passo Que no deserto s’entranha, Arde o sol com furia estranha, Racha a areia o pé descalço, Cresta o vento os labios seos; E ao lado o filho innocente Soltava tristes gemidos, Co’os olhos humedecidos Fitando a mãe ternamente, Que os olhos tinha nos céos! Procura terras do Egypto; Porêm debalde as procura: Vae a triste, sem ventura, Lento o passo, o rosto afflicto, Pela inculta Bersabé. Seo Ismael desfallece; No deserto immenso, adusto, Não encherga um só arbusto: Jehovah delles s’esquece! Cresce a dôr, e mingua a fé. Pede sombra o triste infante: Não ha sombra,—agoa supplíca; Exhaurido o vaso fica, Pede mais d’instante a instante.... Pobre escrava, oh! quanto dó! Podesses rasgar as veias, Tomar agoas innocentes Tuas lagrimas ardentes; Mas só vês d’um lado areias, D’outro lado areias só. Pois não ha quem o proteja, Diz a escrava lá comsigo, Vendo o fado seu imigo, Meu filho morrer não veja, Bem qu’eu tenha de morrer. A um tiro d’arco distante Se arrasta com lento passo, Tomba o corpo infermo e lasso, E amargo pranto abundante Deixa dos olhos correr. Deos porêm ouvira a prece Da escrava, da mãe coitada, E da celeste morada Librado um archanjo desce Nas azas da compaixão. Expira em torno ar de vida, Um aroma deleitoso, E n’um sonho aventuroso Agar seus males olvida, Olvida a sua afflicção. Dorme e sonha, ó triste escrava, Deos senhor sobre ti vela! Dorme e sonha:—a tua estrella Nasce como um romper d’alva Sobre os netos d’Ismael. Esquece a sorte mesquinha, Que te vexa,—esquece tudo; Deos senhor é teu escudo; Já não es serva, es rainha D’outro reino d’Israel.
Como quando elevados nas alturas Descobrimos incognitas paisagens, Densas florestas, aridas planuras E de rios caudaes virentes margens; Assim da vida o sonho te arrebata, Rasgando o veo do tempo e do infinito, E uma scena vistosa te retrata, Que vai da Arabia ao portentoso Egypto. Vê como o filho teu, feroz guerreiro, Nos prainos do deserto eleva as tendas, E, posto a seus irmãos sempre fronteiro, Provoca e trama asperrimas contendas! São doze os filhos—doze reis potentes— Com elles Ismael tudo avassalla; Sua espada é a lei das outras gentes, Seus decretos os campos da batalha. A sorte seus designios favoneia, Segue seus passos a benção divina, Povôa-se Faran, surge d’areia De Meca o templo, os paços de Medina. Crescem, dominão: largo reino ingente Mesquinha habitação presta a seus netos, Convertida em nação a grei potente, Que opprime a cerviz mobil dos desertos. Mas entre os filhos seus de nomeada, Sup’rior dos heróes á grande altura, Na sinistra o alkorão, na dextra a espada, A effigie torva de Mahomet fulgura. Curva-se a Arabia emtanto, a Palestina Á sua lei, da Persia o reino antigo; Escutão Asia e Africa a doutrina Do embusteiro que em Meca achou jazigo: Mensageiro divino se declara Aquelle que illudido o mundo adora; Agar é mãe,—pela vergontea cara, Entre orgulhosa e triste, a Deos implora. Peccou; porêm da gloria que o circunda A roxa luz, que o meteóro imita, De vivo resplendor a fronte inunda, Commove o peito a misera proscripta. Curvado ao jugo seu todo o oriente, Inda cubiça a Europa o Ismaelita; E em frente á cruz, o pallido crescente Apparece nas torres da mesquita. Oh! quanto humano sangue derramado! Que de prantos e lagrimas vertidas! Entre irmãos o combate é porfiado, A raiva intensa, as lutas mal feridas. De avistar esse quadro tão medonho, Embora no porvir todo escondido, A escrava tenta orar; porêm no sonho Resume a prece em languido gemido. Geme de vêr em furia carniceira A esposa de Mahomet desrespeitada, E do seu genro a dynastia inteira Por duro asar de guerra contrastada. Succedem-se os Omiades valentes; Do seu ultimo rei, oh dôr! se coalha O sangue na mesquita: entre essas gentes Vinga o punhal a sorte da batalha. O vencedor então, não poucas vezes, Chegando á bocca a taça corrompida, Exp’rimenta os tristissimos revezes, De quem sobre os tropheos exhala a vida! Tudo é silencio e luto:—um só evita O negro olvido,—ao templo da memoria Vôa Al-Reschid,—unindo á gloria avita O louro da sciencia e o da victoria. Com seu vizir á noite, pelas ruas Escuta dos estranhos mercadores A gloria d’outros reis, menor que as suas, E espreita do seu povo occultas dores! Se ouviu a narração d’uma desgraça, Se o pobre vê curvado a prepotencia, Se o convidão a entrar, quando elle passa, No abrigo do infortunio e da innocencia, Entrou e viu! mas o fulgor crastino Ri-se mais brando aos peitos soffredores; Passa o rei, como orvalho matutino, E, por onde passou, rescendem flores! Mudado o sonho, a fugitiva escrava Estranhos povos nota, estranhas terras, Que o Darro ensopa e o Guadalete lava, Nadando em sangue de cruentas guerras.
Quem foi que as altas portas Abriu d’Hespanha aos mouros; Que poz os verdes louros, Dos reis godos conquista, Ás plantas do infiel? De tantos males causa Tu foste, ó rei Rodrigo, Tornando infesto, imigo, O nobre conde, outr’ora Vassallo teo fiel. Debalde o affecto encobres Do refalsado peito, Se vais furtivo ao leito Da virgem, que se mostra Rebelde ao teo amor: Qu’es godo e rei t’esqueces! E o nobre resentido Da offensa que ha soffrido, No teu exemplo aprende A ser tão bem traidor. Em quanto pois devassas, Com torpes pensamentos, Os regios aposentos Da nobre moça,—a c’rôa Te cae da fronte ao chão; E o pae, que a affronta punge, Turbado, ardendo em ira, Aos pés do mouro a atira. O rei, que planta crimes, Recolha vil traição. Sus, ó rei, ás armas! Empunha a larga espada, E a fronte sombreada Co’o negro elmo—deixa Tingir-se em nobre pó: D’encontro as alas densas Do barbaro inimigo Debalde, ó rei Rodrigo, Te arrojas!—vence á força, Foges vencido e só! Vai só; mas occultando No manto d’um soldado O rosto demudado, Emquanto passa o campo, Escasso leito aos seos: Ai! triste rei cahido! Na solitaria ermida, Que abriga a inutil vida, No pó collada a fronte, Lembra-te emfim de Deos. Lembrem-te os muitos erros E o crime grave, emquanto As mães godas em pranto O nome teu maldizem, E ao céo clamando estão. Emquanto pela Iberia O arabe audaz e forte, Espalha o susto, a morte, Por onde quer que solta Ao vento o seu pendão. Passão avante, calcão Dos Pyrenêos as serras, Levando cruas guerras Ao dilatado imperio Do intrepido gaulez. Debalde o grande Carlos Oppõe-se-lhes,—que a historia Nos traz inda á memoria Dos tristes Roncesvalles O misero revez. Porêm do largo imperio De Cordova e Granada A c’rôa cahe pesada Na fronte amollecida Do moço Boabdil. O fraco teme os echos Ouvir da accesa guerra, E perde a nobre terra Ganhada em mil batalhas Com pranto feminil. Depois, inda outros quadros Enxerga no futuro; Mas é um ponto escuro, São formas vagas, postas Em duvidosa luz. Já naves são, já hostes, Tropel de varia gente, Que parte do occidente, Em cujos peitos brilha De Christo a roxa cruz. Agar emfim acorda! Sustendo o filho caro, Pelo deserto avaro S’entranha novamente, Mais solto o coração. Parece que já sente No rosto ao bello infante A gloria radiante, Que espera os descendentes Da forte geração. E como Deos lhe ha dito, Seus filhos são guerreiros, Que a seus irmãos fronteiros Cruentos prelios movem: Temidos são; porêm As filhas desses bravos, Da vida sequestradas, Escravas são coitadas, Que da materna origem Recordão-se no Harem.
Vai, caminha, oh triste escrava, Deos Senhor sobre ti vela; Vai, caminha: a tua estrella Nasce como um romper d’alva Sobre os netos d’Ismael. Esquece a sorte mesquinha Que te vexa, esquece tudo, Deos Senhor é teu escudo: —Já não es serva, es rainha D’outro reino d’Israel.