HYMNO.
Reading edition
O MEU SEPULCHRO.
Elève-toi, mon ame, au-dessus de toi-même, Voici l’épreuve de ta foi! Que l’impie, assistant à ton heure suprême, Ne dise pas: Voyez, il tremble comme moi! LAMARTINE—Harmonies.
Quando, os olhos cerrando á luz da vida, O extremo adeus soltar ás esperanças, Que na terra nos guião, nos confortão E espação do porvir a senda estreita; Quando, isento de miseros cuidados, Disser adeus ás illusões douradas, Mas com ellas tambem ás dores cruas Da existencia—aos espinhos ponteagudos, Com que a verdade o coração nos roça; Quando tocada não sentir minha alma Da luz, dos sons, das cores, das magias, Que a natureza prodiga derrama No regaço da terra—mais ditoso Serei acaso então?—Quando o meu corpo Á terra, mãe commum, pedindo abrigo Dos sepulchros no valle em paz descance; Hei de ser mais feliz porque m’o cobre Pomposo mausoleu, em vez da pedra Sem nome, em vez do tumulo de cespedes, Que s’ergue junto á estrada, e ao viandante Ao que alli passa, uma oração supplíca? Oh! não!—ao encalmado é grata a sombra; Grato descanço aos membros fatigados Presta igualmente a relva das campinas E os torrões pelo sol enrigicidos. Como o trabalhador que a sésta aguarda, O meu termo fatal sem medo espero! Eu então pedirei silencio á morte, E fresca sombra á sepultura humilde, Que me receba,—e á cuja superficie Morrão sem echo da existencia as vagas. Humilde seja embora! Que m’importa Que a mão d’habil artista me não talhe Mentiroso epitaphio em preto marmor! O moimento faustoso, que se erige, Arranco da vaidade, sobre a campa De um corpo transitorio, acaso empece Aos que alli pascem, vermes esfaimados De roerem-lhe as visceras?!—Solemnes São da campa os mysterios; mas terrivel É da morte a rasoura, que nivela O rico ao pobre, e os berços differentes Torna um féretro, um leito de Procusto, Capaz de quanta dôr os homens soffrem: Tão depressa o cadaver se corrompe Nas amplas dobras do velludo involto, Como embrulhado na mortalha exigua, Que a religiosa caridade amiga, O pudor dos sepulchros venerando, Lança do pobre aos restos desprezados. Os felizes do mundo, acobardados Ante a imagem da morte, que os assalta, Temem deixar a terra, onde tranquilla, Quasi livre de dôr, entre delicias, Como um rio caudal lhes corre a vida. Horrorisão-se timidos,—supplicão Á cruel, que os não leve, que os não roube Á senda matisada, onde os seus passos Deslisão-se macios—ás caricias D’um seio, que lhes presta brando encosto. O fio da esperança os liga forte A um corpo que declina, como os lios De enrediça tenaz prendida á copa D’uma arvore comida: amedrontados, Como das fauces negras d’um abysmo, Do pavoroso tumulo recuão. Mas eu, que vago solto, como a folha, Como o fumo subtil; que não limito Nos terminos da terra os meus desejos, Folgo de vêr os renques dos sepulchros No chão da morte largamente esparsos! Quasi me alegra vel-os. Tal no exilio Contempla á beira-mar o degradado Devolverem-se as vagas,—e saudoso Da patria sua tão distante—as conta; Uma por uma as interroga, e pensa Qual d’aquellas será que o leve e atire, Naufrago embora e semimorto, ás praias, Porque chorão seus olhos.—No desterro Me contemplo tambem,—como elle, choro A patria, o íman dos meus sonhos gratos. Abra-se funda a cova ante os meus passos: Um só delles da morte me separe!... E esse passo andarei, como quem pisa, Depois de viajar remotos climas, O patrio solo, e as auras perfumadas Do bosque, amigo seu na leda infancia, Bebe de novo, e de as gozar se applaude. Hora do passamento! es da existencia O momento mais sancto, o mais solemne: Assim o rubro sol, quando no occaso Em turbilhões de purpura se afunda, Nos morredouros, despontados raios Saudoso, extremo adeos á terra envia. Tal o esposo se aparta suspiroso E nas azas da brisa manda um beijo Á esposa, que de o ver partir se enluta, Rola que vaga na amplidão das selvas. Cheio de melancholica incerteza, Dir-te-hei: bem vinda,—ó morte! quando os olhos Voltar atraz na percorrida estrada; E chorarei talvez, como quem deixa O carcere medonho, onde engastada Nas escamas da dôr gemeu sua alma Largos annos de antigo soffrimento; O carcer qu’inda as lagrimas lhe verte Das humidas paredes, cujos echos Inda parecem, na soidão da noite, Repetir seus tristissimos accentos. Oh! quão formosa a vida se revela A quem já bate as portas do infinito, Encostado aos umbraes da eternidade, A vez extrema contemplando o mundo! A folha já myrrada, a pedra solta, A flôr agreste, a fonte que murmura E as cantoras do céo, as ledas aves De variado esmalte, e as suspirosas Brisas da noite e as do romper da aurora, A estrella, o sol, o mar, o céo, a terra, A planta, os animaes, tudo então vive, Tudo comnosco sympathisa,—tudo, Como orchestra afinada por nossa alma, Acorde aos nossos sentimentos vibra, Revelando ao que morre os fins da vida. Dalli melhor compr’hende-se a existencia, Mais vasta perspectiva se desdobra Ante os olhos, que a extrema vez lampejão: E as scenas que a illusão junca de flores, Que o desejo nos mostra, que nos pinta Cubiçoso, irisante,—que a esperança Fugaz de varios modos nos matisa; Gloria, ambição, prazer, fallaz ventura, Tudo se olvida e apaga—semelhante Á fugitiva estrella ou clarão breve D’um relampago estivo, que um momento Se mostra e fulge, logo immerso em trevas. Que importa que eu não tenha uma só c’rôa, Um myrrado laurel, uma só folha, Que ás novas gerações diga o meu nome E sollicite as attenções futuras? Sou como o passarinho, quando passa Á flôr de um lago e a sombra vacillante No liquido crystal debalde estampa. Ou semelhante ao viajor que bate Da vida a estrada pulvurenta, e nota Como os seus rastos mal impressos cobre O pó que de seus passos se levanta. Ah! que dos louros me não dóe a ausencia Mas de lagrimas, sim, que me orvalhassem A sepultura humilde,—á cujas gotas Meus ossos de prazer estremecidos De as sentir se alegrassem...—mas em troco Dessa pia oblação, que tantas vezes Mente ao finado, que as espera eterno, As lagrimas terei da noite fria, O fresco humor da chuva, que me eduquem A agreste flôr, que a natureza obriga A despontar na solitaria campa. Ninguem virá com titubantes passos E os olhos lacrimosos, procurando O meu jazigo; e em falta de epitaphio, «Elle aqui jaz!» o coração lhe diga, E alli se curve então, fundos suspiros Dando aos echos do funebre recinto, Involtos na oração que alegra os mortos. Certo, ninguem virá; porêm tão pouco Ouvirei maldições, onde escondido, Já pasto aos vermes, jazerá meu corpo. Se deixo sobre a terra alguma offensa, Se alguma vida exacerbei, se acaso Alguma simples flôr trilhei passando; Essas, depois d’eu morto, convertidos Os odios em piedade—«Em paz descança» Dirão ante o meu tumulo, e voltando A um lado o rosto,—deixarão dos olhos Compassiva uma lagrima fugir-lhes! Tu, Senhor, tu, meu Deos, tu me recebe Na tua sancta gloria: alarga as azas Do teu sancto perdão, que ao teu conspecto Humilhado me sinto, como a grama, Que o pé do viajor sem custo abate. A ti volvo, ó Senhor,—bem como o filho, Que ao sopro paixões soltando as velas Da juventude ardente, foge ao tecto E ao lar paterno, onde por fim se acolhe, Consumido o thesouro da innocencia, Com rubor dos andrajos da pobreza, Que o vexa,—para ver do pae o rosto, Para escutar-lhe a voz, embora tenha Sobre a cabeça a maldição pendente.
SAUDADES.
A MINHA IRMÃ.
J. A. de M.
I.
Eras criança ainda; mas teu rosto De ver-me ao lado teu se espanejava Á luz fugaz de um infantil sorriso! Eras criança ainda; mas teus olhos De uma brandura angelica, indizivel, De sympathicas lagrimas turbavão-se Ao ver-me o aspecto merencorio e triste; E amigo refrigerio me sopravão, Um balsamo divino sobre as chagas Do coração, que a dôr me espedaçava! A luz de uma razão que desabrocha, As leves graças, que a innocencia adornão, Os infantis requebros, as meiguices De uma alma ingenua e pura—em ti brilhavão. Eu, gasto pela dôr antes de tempo, Conhecendo por ti o que era a infancia, Remoçava de ver teu rosto bello. Pouco era vel-o!—em ti me transformava; Bebendo a tua vida em longos tragos, Todo o teu ser em mim se transfundia: Meu era o teu viver, sem que o soubesses, Tua innocencia, tuas graças minhas: Não, não era ditoso em taes momentos, Mas de que era infeliz me deslembrava!
Tinhas sobre mim poder immenso, Indizivel condão, e o não sabias! Assim da tarde a brisa corre a terra, Embalsamando o ar e o céo de aromas: Enreda-se entre flores suspirosa, Geme entre as flores que o luar prateia, E não sabe, e não vê, quantos queixumes Apaga—quantas magoas alivia! Assim, durante a noite, o passarinho Em moita de jasmins derrama occulto Merencorias canções nos mansos ares; E não sabe, o feliz, de quantos olhos Tristes, mas doces lagrimas, arranca!
II.
Perderão-te os meus olhos um momento! E na volta o meu rosto transtornado, As vestes luctuosas, que eu trajava, O mudo, amargo pranto que eu vertia, Annuncio triste foi de uma desdita, Qual jámais sentirás: teus tenros annos Pouparão-te essa dôr, que não tem nome. De quando sobre as bordas de um sepulchro Anceia um filho, e nas feições queridas D’um pai, d’um conselheiro, d’um amigo O sello eterno vae gravando a morte! Escutei suas ultimas palavras, Repassado de dôr!—junto ao seu leito, De joelhos, em lagrimas banhado, Recebi os seus ultimos suspiros. E a luz funerea e triste que lançarão Seus olhos turvos ao partir da vida De pallido clarão cobrio meu rosto, No meu amargo pranto reflectindo O cançado porvir que me aguardava!
Tu nada viste, não; mas só de ver-me, Flôr que sorrias ao nascer da aurora No denso musgo dos teus verdes annos, A procella imminente presentiste, Curvaste o leve hastil, e sobre a terra Da noite o puro aljofar derramaste.
III.
O encanto se quebrára!—duros fados Inda outra vez de ti me separavão. Assim dois ramos verdes juntos crescem N’um mesmo tronco; mas se o raio os toca, Lascado o mais robusto cahe sem graça De rojo sobre o chão, em quanto o outro Da primavera as galas pavoneia! Já não ha quem de novo unil-os possa, Quem os force a vingar e a florir juntos!
Parti, dizendo adeus á minha infancia, Aos sitios que eu amei, aos rostos caros, Que eu já no berço conheci,—áquelles De quem máo grado, a ausencia, o tempo, a morte E a incerteza cruel do meu destino, Não me posso lembrar sem ter saudades, Sem que aos meus olhos lagrimas despontem. Parti! sulquei as vagas do oceano; Nas horas melancolicas da tarde, Volvendo atraz o coração e o rosto, Onde o sol, onde a esp’rança me ficava, Misturei meus tristissimos gemidos Aos sibilos dos ventos nas enxarcias!
Revolvido e cavado o negro abysmo, Rugia indomito a meus pés: sorvia No fragor da procella os meus soluços. Vago triste e sosinho sobre os mares, —Dizia eu entre mim,—na companhia De crestados, de rispidos marujos, Mais duros que o seu concavo madeiro! Ave educada nas floridas selvas, Vim da praia beijar a fina areia. Subitaneo tufão arrebatou-me, Perdi a verde relva, o brando ninho, Nem jamais casarei doces gorgeios Ao saudoso rugir dos meus palmares; Porêm a branca angelica mimosa, Com seu candor enamorando as aguas, Florece ás margens do meu patrio rio.
IV.
Largo espaço de terras estrangeiras E de climas inhospitos e duros Interpoz-se entre nós!—Ao ver nublado Um céo d’inverno e as arvores sem folhas, De neve as altas serras branqueadas, E entre esta natureza fria e morta A espaços derramadas pelos valles Triste oliveira, ou funebre cypreste, O coração se me apertou no peito. Arrasados de lagrimas os olhos, Segui no pensamento as andorinhas, Nos invejados vôos!—procuravão, Como eu tambem nos sonhos que mentião, A terra que um sol calido vigora, E em frouxa languidez estende os nervos. Patria da luz, das flores!—nunca eu veja O sol, que adoro tanto, ir afundar-se Nestes da Europa revoltosos mares; Nem tibia lua, involta em nuvens densas, Luzindo mortuaria sobre os campos De frios sues queimados.—Ai! dizia, Ai d’aquelle que um fado aventureiro, Qual destroço de misero naufragio, A longinqua e remota plaga arroja! Ai d’aquelle que em terras estrangeiras Corta nas azas do desejo o espaço, Em quanto a realidade o vexa entorno E oppresso o coração de dôr estala! Onde a pedra, onde o seio em que descance? Que arbusto ha de prestar-lhe grata sombra E olentes flores derramar co’a brisa Na fronte encandecida? Peregrino, Em toda a parte forasteiro o chamão! Insensivel a dôr, na sua marcha, Não, não attende ao termo da jornada; Mas volta atraz o rosto,—e entre as sombras Confusas do horisonte—encherga apenas O debil fio da esperança teso, E da ingrata distancia adelgaçado!
E todavia amei! pude um momento Vêr perto a doce imagem debruçada Nas aguas do Mondego,—ouvir-lhe um terno Suspiro do imo peito, mais ameno, Mais saudoso que as auras encantadas, Que entre os seus salgueiraes morão loquaces! Foi um momento só!—talvez agora Nas mesmas aguas se repete imagem Dos meus sonhos de então!—talvez a brisa, Nas folhas dos salgueiros murmurando, Meu nome junto ao seu repete aos echos, Que eu, triste e longe della, escuto ainda!
Sim, amei; fosse embora um só momento! Meu sangue, requeimado ao sol dos tropicos, Em vivas labaredas conflagrou-se. Feliz n’aquelle incendio ardeo minha alma, Um anno, talvez mais! Qual foi primeiro A soltar, a romper tão doces laços Não podera dizel-o, em que o quizesse. Tão louco estava então,—dores tão cruas, Magoas tantas depois me acabrunharão, Que desse meu passado extincta a idéa, Deixou-me apenas um soffrer confuso, Como quem de um máo sonho se recorda! Assim, depois de arder um denso bosque Dos ventos a mercê revôa a cinza N’um paramo deserto! Nada resta; Nem se quer a vereda solitaria, A cuja extremidade o amor velava!
V.
Rotos na infancia os laços de familia, Os fados me vedavão reatal-os, Ter a meu lado uma consorte amada, Rever-me na affeição dos filhos caros, Viver nelles, curar do seu futuro E neste empenho consumir meus dias; Mas ao menos, pensava,—ser-me-ha dado Amimar e suster nos meus joelhos Da minha irmã querida a tenra prole, Inclinal-a a piedade, e ao relatar-lhe Os successos da minha vida errante, Innocular-lhe o dom fatal das lagrimas! Essa mesma esperança não me illude; Ave educada nas floridas selvas, Um tufão me expellio do patrio ninho. As tardes dos meus dias borrascosos Não terei de passar, sentado á porta Do abrigo de meus paes,—nem longe delle, Verei tranquillo aproximar-se o inverno, E pôr do sol dos meus cançados annos!