HYMNOS.
Reading edition
Singe dem Herrn mein Lied, und du, begeisterte Seele, Werde ganz Jubel dem Gott, den alle Wesen bekennen! WIELAND.
MESQUINHO TRIBUTO DE PROFUNDA AMIZADE AO DR. J. D. LISBOA SERRA.
O MAR.
Frappé de ta grandeur farouche Je tremble ... est-ce bien toi, vieux lion que je touche, Océan, terrible océan! TURQUETY.
Oceano terrivel, mar immenso De vagas procellosas que se enrolão Floridas rebentando em branca espuma N’um pólo e n’outro pólo, Emfim ... emfim te vejo; emfim meos olhos Na indomita cerviz tremulos cravo, E esse rugido teo sanhudo e forte Emfim medroso escuto! D’onde houveste, ó pelago revolto, Esse rugido teo? Em vão dos ventos Corre o insano pegão lascando os troncos, E do profundo abysmo Chamando á superficie infindas vagas, Que avaro encerras no teo seio undoso; Ao insano rugir dos ventos bravos Sobresáe teo rugido. Em vão troveja horrisona tormenta; Essa voz do trovão, que os céos abala, Não cobre a tua voz.—Ah! d’onde a houveste, Magestoso oceano? Ó mar, o teo rugido é um echo incerto Da creadora voz, de que surgiste: Seja, disse; e tu foste, e contra as rochas As vagas compelliste. E á noite, quando o céo é puro e limpo, Teo chão tinges de azul,—tuas ondas correm Por sobre estrellas mil; turvão-se os olhos Entre dois céos brilhantes. Da voz de Jehovah um echo incerto Julgo ser teo rugir; mas só, perenne, Imagem do infinito, retratando As feituras de Deos. Por isto, a sós comtigo, a mente livre Se eleva, aos céos remonta ardente, altiva, E d’este lodo terreal se apura, Bem como o bronze ao fogo. Férvida a Musa, co’os teos sons casada, Glorifica o Senhor de sobre os astros Co’a fronte além dos céos, além das nuvens, E co’os pés sobre ti. O que ha mais forte do que tu? Se erriças A coma perigosa, a náo possante, Extremo de artificio, em breve tempo Se afunda e se anniquila. Es poderoso sem rival na terra; Mas lá te vás quebrar n’um grão d’areia, Tão forte contra os homens, tão sem força Contra coisa tão fraca! Mas n’esse instante que me está marcado, Em que hei de esta prisão fugir p’ra sempre, Irei tão alto, ó mar, que lá não chegue Teo sonoro rugido. Então mais forte do que tu, minha alma, Desconhecendo o temor, o espaço, o tempo, Quebrará n’um relance o circl’o estreito Do finito e dos céos! Então, entre myriadas de estrellas, Cantando hymnos d’amor nas harpas d’anjos, Mais forte soará que as tuas vagas, Mordendo a fulva areia; Inda mais doce que o singelo canto De merencoria virgem, quando a noite Occupa a terra,—e do que a mansa brisa, Que entre flôres suspira.
IDEIA DE DEOS.
Gross ist der Herr! Die Himmel ohne Zahl Sind seine Wohnungen! Seine Wagen die donnernden Gewölke, Und Blitze sein Gespann. KLEIST.
I.
Á voz de Jehovah infindos mundos Se formárão do nada; Rasgou-se o horror das trevas, fez-se o dia, E a noite foi creada. Luzio no espaço a lua! sobre a terra Rouqueja o mar raivoso, E as espheras nos céos erguerão hymnos Ao Deos prodigioso. Hymno de amor a creação, que sôa Eternal, incessante, Da noite no remanso, no ruido Do dia scintillante! A morte, as afflicções, o espaço, o tempo, O que é para o Senhor? Eterno, immenso, que lh’importa a sanha Do tempo roedor? Como um raio de luz, percorre o espaço, E tudo nota e vê— O argueiro, os mundos, o universo, o justo; E o homem que não crê. E elle que póde anniquilar os mundos, Tão forte como elle é, E vê e passa, e não castiga o crime, Nem o impio sem fé! Porém quando corrupto um povo inteiro O Nome seo maldiz, Quando só vive de vingança e roubos, Julgando-se feliz; Quando o impio commanda, quando o justo Soffre as penas do mal, E as virgens sem pudor, e as mães sem honra, E a justiça venal; Ai da perversa, da nação maldicta, Cheia de ingratidão, Que ha de ella mesma sugeitar seo collo Á justa punição. Ou já terrivel peste expande as azas, Bem lenta a esvoaçar; Vai de uns a outros, dos festins conviva, Hospede em todo o lar! Ou já torvo rugir da guerra accesa Espalha a confusão; E a esposa, e a filha, de terror oppressa, Não sente o coração. E o pae, e o esposo, no morrer cruento, Vomita o fel raivoso; —Milhões de insectos vis que um pé gigante Enterra em chão lodoso. E do povo corrupto um povo nasce Esperançoso e crente, Como do podre e carunchoso tronco Hastea forte e virente.
II.
Oh! como é grande o Senhor Deos, que os mundos Equilibra nos ares; Que vai do abysmo aos céos, que susta as iras Do pelago fremente, A cujo sopro a maquina estrellada Vacilla nos seos eixos, A cujo aceno os cherubins se movem Humildes, respeitosos, Cujo poder, que é sem igual, excede A hyperbole arrojada! Oh! como é grande o Senhor Deos dos mundos, O Senhor dos prodigios.
III.
Elle mandou que o sol fosse principio, E razão de existencia, Que fosse a luz dos homens—olho eterno Da sua providencia. Mandou que a chuva refrescasse os membros, Refizesse o vigor Da terra hiante, do animal cançado Em praino abrasador. Mandou que a brisa susurrasse amiga, Roubando aroma á flôr; Que os rochedos tivessem longa vida, E os homens grato amor! Oh! como é grande e bom o Deos que manda Um sonho ao desgraçado, Que vive agro viver entre miserias, De ferros rodeado; O Deos que manda ao infeliz que espere Na sua providencia; Que o justo durma, descançado e forte Na sua consciencia! Que o assassino de continuo vele, Que trema de morrer; Em quanto lá nos céos, o que foi morto, Desfructa outro viver! Oh! como é grande o Senhor Deos, que rege A maquina estrellada, Que ao triste dá prazer; descanço e vida Á mente atribulada!
O ROMPER D’ALVA.
Quand ta corde n’aurait qu’un son, Harpa fidèle, chante encore Le Dieu que ma jeunesse adore, Car c’est un hymne que son nom. LAMARTINE.
Do vento o rijo sopro as mansas ondas Varreo do immenso pego,—e o mar rugindo Ás nuvens se elevou com furia insana; Ennovelladas vagas se arrojárão Ao céo co’a branca espuma! Raivando em vão se encontrão soluçando Na base d’erma rocha descalvada; Em vão de furias crescem, que se quebra A força enorme do impotente orgulho Na rocha altiva ou na arenosa praia. Da tormenta o furor lhe accende os brios, Da tormenta o furor lh’enfreia as iras, Que em teimosos gemidos se descerrão; Da quieta noite despertando os echos Além, no valle humilde, onde não chega Seo sanhudo gemer, que o dia abafa. Mas a brisa susurrando A face do céo varreo, Tristes nuvens espalhando, Que a noite em ondas verteo. Além, atraz da montanha, Branda luz se patenteia, Que d’alma a dôr afugenta, Se dentro sentida anceia. Branda luz, que afaga a vista, De que se ama o céo tingir, Quando entre o azul transparente Parece alegre sorrir; Como es linda!—Como dobras Da vida a força e do amor! —Que tão bem luz dentro d’alma Teo luzir encantador! No teo ameno silencio A tormenta se perdeo, E do mar a forte vida Nos abysmos se escondeo! Porque assim de novo agora Que o vento o não vem toldar, Parece que vai queixoso Mansamente a soluçar? Porque as ramas do arvoredo, Bem como as ondas do mar, Sem correr sopro de vento, Começão de murmurar? Sobre o tapiz d’alta relva, —Rocio da madrugada— Destilla gotas de orvalho A verde folha inclinada. Renascida a natureza Parece sentir amor; Mais brilhante, mais viçosa O calix levanta a flôr. Por entre as ramas occultas, Docemente a gorgear, Acordão trinando as aves, Alegres, no seo trinar. O arvoredo n’essa lingoa Que diz, porque assim susurra? Que diz o cantar das aves? Que diz o mar que murmura? —Dizem um nome sublime, O nome do que é Senhor, Um nome que os anjos dizem, O nome do Creador. Tão bem eu, Senhor, direi Teo nome—do coração, E ajuntarei o meo hymno Ao hymno da creação. Quando a dôr meo peito acanha, Quando me rala a afflicção, Quando nem tenho na terra Mesquinha consolação; Tu, Senhor, do peso insano Livras meo peito arquejante, Seccas-me o pranto que os olhos Vertendo estão abundante. Tu pacificas minha alma, Quando se rasga com pena, Como a noite que se esconde Na luz da manhã serena. Tu es a luz do universo, Tu es o ser creador, Tu es o amor, es a vida, Tu es meo Deos, meo Senhor. Direi nas sombras da noite, Direi ao romper da aurora: —Tu es o Deos do universo, O Deos que minha alma adora. Tão bem eu, Senhor, direi Teo nome—do coração, E ajuntarei o meo hymno Ao hymno da creação.
A TARDE.
Ave Maria! blessed be the hour! The time, the clime, the spot where I so oft Have felt that moment in its fullest power Sink o’er the earth so beautiful and soft.... BYRON.
Oh tarde, oh bella tarde, oh meos amores, Mãe da meditação, meo doce encanto! Os rogos da minha alma emfim ouviste, E grato refrigerio vens trazer-lhe No teo remansear prenhe de enlevos! Em quanto de te ver gostão meos olhos, Em quanto sinto a minha voz nos labios, Em quanto a morte me não rouba á vida, Um hymno em teo louvor minha alma exhale, Oh tarde, oh bella tarde, oh meos amores!
I.
É bella a noite, quando grave estende Sobre a terra dormente o negro manto De brilhantes estrellas recamado; Mas nessa escuridão, nesse silencio Que ella comsigo traz, ha um quê de horrivel Que espanta e desespera e geme n’alma; Um quê de triste que nos lembra a morte! No romper d’alva ha tanto amor, tal vida, Ha tantas côres, brilhantismo e pompa, Que fascina, que attrahe, que a amar convida; Não pode supportal-a homem que soffre, Orfãos de coração não podem vel-a. Só tu, feliz, só tu, a todos prendes! A mente, o coração, sentidos, olhos, A ledice e a dôr, o pranto e o riso, Folgão de te avistar;—são teos,—es d’elles. Homem que sente dôr folga comtigo, Homem que tem prazer folga de ver-te! Comtigo sympathisão, porque es bella, Qu’es mãe de merencorios pensamentos, Entre os céos e a terra extasis doce, Entre dôr e prazer celeste arroubo.
II.
A brisa que murmura na folhagem, As aves que pipitão docemente, A estrella que desponta, que rutila, Com duvidosa luz ferindo os mares, O sol que vai nas agoas sepultar-se Tingindo o azul dos céos de branco e d’oiro; Perfumes, murmurar, vapores, brisa, Estrellas, céos e mar, e sol e terra, Tudo existe comtigo, e tu es tudo.
III.
Homem que vive agro viver de côrte, Indifferente olhar derrama a custo Sobre os fulgores teos;—homem do mundo Mal pode o desbotado pensamento Revolver sobre o pó; mas nunca, oh nunca! Ha de elevar-se a Deos, e nunca ha de elle Na abobada celeste ir pendurar-se, Como de rosea flôr pendente abelha. Homem da natureza, esse contemple De purpura tingir a luz que morre As nuvens lá no occaso vacillantes! Ha de vida melhor sentir no peito, Sentir doce prazer sorrir-lhe n’alma, E fonte de ternura inexgotavel Do fundo coração brotar-lhe em ondas. Hora do pôr do sol!—hora fagueira, Qu’encerras tanto amor, tristeza tanta! Quem ha que de te ver não sinta enlevos, Quem ha na terra que não sinta as fibras Todas do coração pulsar-lhe amigas, Quando d’esse teo manto as pardas franjas Sóltas, roçando a habitação dos homens? Ha hi prazer tamanho que embriaga, Ha hi prazer tão puro, que parece Haver anjos dos céos com seos acordes A misera existencia acalentado!
IV.
Socia do forasteiro, tu, saudade, N’esta hora os teos espinhos mais pungentes Cravas no coração do que anda errante. Só elle, o peregrino, onde acolher-se, Não tem tugurio seo, nem pae, nem ’sposa, Ninguem que o espere com sorrir nos labios E paz no coração,—ninguem que extranhe, Que anceie afflicto de o não ver comsigo! Cravas então, saudade, os teos espinhos; E elles, tão pungentes, tão agudos, Varando o coração de um lado a outro, Nem trazem dôr, nem desespero incitão; Mas remanso de dôr, mas um suave Recordar do passado,—um quê de triste Que ri ao coração, chamando aos olhos, Tão espontaneo, tio fagueiro pranto, Que não fora prazer não derramal-o. E quem—ah tão feliz!—quem peregrino Sobre a terra não foi? Quem sempre ha visto Sereno e brando deslisar-se o fumo Sobre o tecto dos seos; e sobre os cumes Que os seos olhos hão visto á luz primeira Crescer branca neblina que se enrola, Como incenso que aos céos a terra envia? Tão feliz! quando a morte involta em pranto Com gelado suor lh’enerva os membros, Procura inda outra mão co’a mão sem vida, E o extremo scintillar dos olhos baços, De um ente amado procurando os olhos, Sem prazer, mas sem dôr, alli se apaga. O exilado! esse não; tão só na vida, Como no passamento ermo e sosinho, Sente dôres crueis, torvos pezares Do leito afflicto esvoaçar-lhe em torno, Roçar-lhe o frio, o pallido semblante, E o instante derradeiro amargurar-lhe. Porém, no meo passar da vida á morte, Possa co’a extrema luz d’estes meos olhos Trocar ultimo adeos com os teos fulgores! Ah! possa o teo alento perfumado, Do que na terra estimo, docemente Minha alma separar, e derramal-a Como um vago perfume aos pés do Eterno.
O TEMPLO.
....Jéhovah déploie autour de nos demeures Le linceul de la nuit, et la chaîne des heures Tombe anneau par anneau. TURQUETY.
I.
Estou só n’este mudo sanctuario, Eu só, com minha dôr, com minhas penas! E o pranto nos meos olhos represado, Que nunca vio correr humana vista, Livremente o derramo aos pés de Christo, Que tão bem suspirou, gemeo sosinho, Que tão bem padeceo sem ter conforto, Como eu padeço, e soffro, e gemo, e choro. Remorso não me punge a consciencia, Vergonha não me tinge a côr do rosto, Nem crimes perpetrei;—porque assim choro? E direi eu por que?—Antes meu berço, Que vagidos de infante vividouro, Os sons finaes de um moribundo ouvisse! Que esperanças que eu tinha tão formosas, Que mimosos enlevos de ternura, Não continha minha alma toda amores! Esperanças e amor, que é feito d’elles? Um dia me roubava uma esperança, E sosinho, uma e uma, me deixárão. Morrerão todas, como folhas verdes Que em principios do inverno o vento arranca. E o amor!—podia eu sentil-o ao menos; Quando eu via a desdita de bem perto Co’ um sorriso infernal no rosto squalido, Com fome e frio a tiritar demente, Acenando-me infausta?—quando vinda Minha hora já sentia, em que os meus labios, Tremendo de vergonha, soluçassem Ao f’liz com que eu na rua deparasse, De mãos erguidas: Meo Senhor, piedade! Eis porque soffro assim, porque assim gemo, Porque meo rosto pallido se encova, Porque sómente a dôr me ri nos labios, Porque meo coração já todo é cinzas. Menti, Senhor, menti!—porque te adoro. No altar profano de belleza esquiva Não queimo incenso vão;—tu só me occupas O coração, que eu fiz hostia sagrada, Apuro de elevados sentimentos, Que o teo amor somente asilão, nutrem. Quando ao sopé da cruz me chego afflicto, Sinto que o meo soffrer se vae mingoando, Sinto minha alma que de novo existe, Sinto meo coração arder em chammas, Arder meos labios ao dizer teo nome. Assim a cada aurora, a cada noite, Virei consolações beber sedento Aos pés do meo Senhor;—virei meo peito Encher de religião, de amor, de fogo, Que além de infindos céos minha alma exalte.
II.
Quem me dera nas azas d’este vento, Que agora tão saudoso aqui murmura, Agitando as cortinas, que me encobrem Do teo rosto o fulgor, que me não cegue, Subir além dos sóes, além das nuvens Ao teo throno, ó meo Deos; ou quem me désse Ser este incenso que se arroja em ondas A subir, a crescer, em rolo, em fumo, Até perder-se na amplidão dos ares! Não qu’ria aqui viver!—Quando eu padeço, Surdez fingida a minha voz responde; Não tenho voz de amor, que me console, Corre o meo pranto sobre terra ingrata, E dôr mortal meo coração fragoa. Só tu, Senhor, só tu, no meo deserto Escutas minha voz que te supplica; Só tu nutres minha alma de esperança; Só tu, ó meu Senhor, em mim derramas Torrentes de harmonia, que me abrasão. Qual orgão, que resôa mavioso, Quando segura mão lhe opprime as teclas, Assim minha alma, quando a ti se achega Hymnos de ardente amor disfere grata: E, quando mais serena, inda conserva Effluvios d’esse canto, que me guia No caminho da vida aspero e duro. Assim por muito tempo reboando Vão no recinto do sagrado templo Sons, que o orgão soltou, que o ouvido escuta.
TE DEUM.
Nós, Senhor, nós te louvamos, Nós, Senhor, te confessamos.
Senhor Deos Sabbaoth, tres vezes sancto, Immenso é o teo poder, tua força immensa, Teos prodigios sem conta;—e os céos e a terra Teo ser e nome e gloria preconisão. E o archanjo forte, e o serafim sem mancha, E o côro dos prophetas, e dos martyres A turba eleita—a ti, Senhor, proclamão Senhor Deos Sabbaoth, tres vezes sancto. Na innocencia do infante es tu quem fallas; A belleza, o pudor—es tu que as gravas Nas faces da mulher,—es tu que ao velho Prudencia dás,—e o que verdade e força Nos puros labios, do que é justo, imprimes. Es tu quem dás rumor á quieta noite, Es tu quem dás frescor á mansa brisa, Quem dás fulgor ao raio, azas ao vento, Quem na voz do trovão longe rouquejas. Es tu que do oceano á furia insana Pões limites e cobro,—es tu que a terra No seo vôo equilibras,—quem dos astros Governas a harmonia, como notas Acordes, simultaneas, palpitando Nas cordas d’Harpa do teo Rei Propheta, Quando elle em teo louvor hymnos soltava, Qu’ ião, cheios de amor, beijar teo solio. Sancto! Sancto! Sancto!—teos prodigios São grandes, como os astros,—são immensos Como arêa delgada em quadra estiva. E o archanjo forte, e o serafim sem mancha, E o côro dos prophetas, e dos martyres A turba eleita—a ti, Senhor, proclamão, Senhor Deos Sabbaoth, tres vezes grande.
ADEOS AOS MEOS AMIGOS DO MARANHÃO.
Meos Amigos, Adeos! Já no horizonte O fulgor da manhã se empurpurece: É puro e branco o céo,—as ondas mansas, —Favoravel a brisa;—irei de novo Sorver o ar purissimo das ondas, E na vasta amplidão dos céos e mares De vago imaginar embriagar-me! Meos Amigos, Adeos!—Verei fulgindo A lua em campo azul, e o sol no occaso Tingir de fogo a implacidez das agoas; Verei horridas trevas lento e lento Descerem, como um crepe funerario Em negro esquife, onde repoisa a morte; Verei a tempestade quando alarga As negras azas de bulcões, e as vagas Soberbas encastella, esporeando O curto bojo de ligeiro barco, Que geme, e ruge, e empina-se insoffrido Galgando os escarceos,—bem larga esteira De phosphoro e de luz traz si deixando: Generoso corsel, que sente as cruzes Agudas de teimosos acicates Lacerarem-lhe rabidas o ventre. Inda uma vez, Adeos! Curtos instantes De ineffavel prazer—horas bem curtas De ventura e de paz frui comvosco: Oasis que encontrei no meo deserto, Tepido valle entre fragosas serras Virente derramado, foi a quadra Da minha vida, que passei comvosco. Aqui de quanto amei, do que hei soffrido, De tudo quanto almejo, espero, ou temo Deslembrado vivi!—Oh! quem me dera Que entre vós outros me alvejasse a fronte, E que eu morresse entre vós! Mas força occulta, Irresistivel, me persegue e impelle. Qual folha instavel em ventoso estio Do vento ao sopro a esvoaçar sem custo; Assim vou eu sem tino,—aqui pegadas Mal firmes assentando—além pedaços De mim mesmo deixando. Na floresta O lasso viandante extraviado Por todo o verde bosque estende os olhos, E cançado esmorece,—cáe, medita, Respira mais de espaço, cobra alento, E nas solidões de novo eil-o se entranha. Vestigios mal seguros sopra o vento, Ou nivella-os a chuva, ou relva os cobre: Talvez que folhas asperas de arbusto Mordão vellos da tunica, e denotem (Duvída o viajor, que os vê com pasmo) Que errante caminheiro alli passasse. E eu parti!—Não chorei, que do meo pranto A larga fonte jaz de ha muito exhausta; Ha muito que os meos olhos não gotejão O repassado fel d’acre amargura; E o pranto no meo peito represado Em cinza o coração me ha convertido. É assim que um vulcão se torna fonte De lympha amarga e quente; e a fonte em ermo, Onde não crescem perfumadas flôres, Nem tenras aves seos gorgeios soltão, Nem triste viajor encontra abrigo. Rasgado o coração de pena acerba, Transido de afflicções, cheio de magoa, Miserando parti! tal quando reprobo, Adão, cobrindo os olhos coas mãos ambas, Em meio a sua dôr só descobria Do Archanjo os candidissimos vestidos, E os lampejos da espada fulminante, Que o Eden tão mimoso lhe vedava. Porém quando algum dia o colorido Das vivas illusões, que inda conservo, Sem força esmorecer,—e as tão viçosas Esp’ranças, que eu educo, se afundarem Em mar de desenganos;—a desgraça Do naufragio da vida ha de arrojar-me Á praia tão querida, que ora deixo. Tal parte o desterrado: um dia as vagas Hão de os seos restos regeitar na praia, D’onde tão novo se partira, e onde Procura a cinza fria achar jazigo.