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A Lenda da Meia-Noite

MEMORIAS D'UMA BOLSA VERDE (continued 2)

Reading edition

«Era já noite. Sentimos uma chave ranger na fechadura; tudo entrou no silencio.

«Abriu-se o cofre, e appareceu-nos o rosto livido, e a extensa figura do usurario. Estava de barrete de dormir e de roupão. Trazia um castiçal.

«Collocou-o em cima da meza da cabeceira, sentou-se no chão, despejou-nos uma a uma, e começou a revolver a massa brilhante do oiro.

―«Saltem, saltem, minhas meninas, dizia elle em voz baixa e roufenha, saltem que bem me custam a ganhar. Não as crimino por isso; pelo contrario. Que prazer ha ahi que se compare com o que eu experimento n'este instante? Como tudo isto deslumbra! Tenho aqui o sufficiente para comprar Portugal todo, incluindo as consciencias dos seus habitantes. Para quê! Puf! Que me importa a mim com essa canalha, que me chama usurario, e que me vem lamber os pés. Prazer, ineffavel prazer é este que vós me daes. Saltem, saltem, minhas meninas!

«E sorria-se com um sorriso de hyena, o miseravel!

«Finalmente cançou-se, tornou-nos a encher com toda a paciencia, fechou o cofre, e foi-se deitar.

«Caíu tudo em silencio de novo.

«Deu meia noite!

«As pancadas do relogio resoaram lenta e lugubremente na solidão do quarto.

«E eu senti um frio terror percorrer-me o corpo; porque um vago e convulso estremecimento agitára no meu seio as libras silenciosas.

«E o cofre abriu-se como se mão invisivel o tocasse, e um vulto melancolico e severo, com azas negras nos hombros, appareceu em pé junto de nós.

«Era o anjo do remorso! Que magestade n'aquella fronte sombria, que pungente contracção no seu labio severo!

«E elle estendeu a mão com um gesto imperioso, e eu, gelada de susto, senti as peças de oiro moverem-se por si mesmas, e adquirirem como que umas azas pequeninas.

«Um vago e sinistro suor lhes percorreu a fronte, e esse suor era um suor de lagrimas!

«E todas se ergueram; o enxame de sinistras abelhas saíu em bando da tenebrosa colmeia, e a bulha das suas azas metallicas produzia não sei que lugubre som!

«E, ao mando do anjo do remorso, foram todas pairar sobre o leito do avaro.

«Então vi um terrivel espectaculo; de cada uma d'essas peças de oiro começaram a escorrer lagrimas e sangue, que iam caír gôta a gôta na livida fronte do usurario.

«E elle agitava-se na cama, erguia as mãos supplicantes, procurava limpar a fronte, debalde! porque a horrenda chuva cahia incessante, incessante, e alastrava em nodoa immensa, que parecia o funebre sêllo da reprovação de Deus.

«E das peças de oiro saía um concerto dilacerante! concerto composto de gritos, de soluços, de blasphemias, e de imprecações!

«Depois, a um signal do anjo, as moedas desappareceram e transformaram-se em espectros, que vieram doidejar em torno do leito do meu dono.

«E a punição ainda era mais cruel!

«Uma tomára as fórmas de uma mulher, joven, bella, um anjo emfim, mas um anjo caído!

«E approximou-se do usurario, e disse-lhe com voz rouca:

―«Era virgem, estava só! Protegia-me a dupla auréola da innocencia e da orphandade! Tu vieste, especulador infame, arrojaste-me a um abysmo, e manchaste de lodo a minha candida tunica.

«E outra mudava-se n'um pobre velho, de cabellos brancos, que arrastava uma grilheta preza no pé:

―«Eu era o symbolo da honra; mas tinha filhos! Reduziste-me á miseria, e eu roubei!

«E todos os espectros bradavam com voz pavorosa:

―«Sê maldito!

«Era horrivel, horrivel aquella scena!

«E durou até que os primeiros e tenues clarões da madrugada entrassem timidamente pela janella do quarto.

«Com o primeiro raio da aurora, vi apparecer no quarto um anjo de brancas azas, com a face luminosa banhada em pranto.

«Veiu e ajoelhou aos pés do seu terrivel irmão.

―«Ainda não está satisfeita a tua vingança?―bradou elle com uma voz melodiosa, de que é apenas um frouxo echo o plangente suspiro da harpa éolia.

«Era o anjo da guarda do usurario, que o tinha abandonado, chamado pelo Senhor, mas que attrahido pelo invencivel amor, que nos consagram estes celestes protectores, vinha na hora do supplicio invocar, para o seu protegido, a misericordia!

«E o anjo do remorso, vencido pelas preces do seu candido companheiro, fez um signal, e o tumultuoso enxame entrou no cofre, que se tornou a fechar.

«Um vago bater de azas denunciou-me que os dois anjos tinham voltado ao céo levados pelo primeiro raio do sol da manhã.

XVI

«Isto repetia-se todas as noites. O costume já me tornára indifferente.

«Passaram-se talvez seis annos, durante os quaes eu nunca saí da minha prisão, e em que, pelo contrario, entraram muitas novas companheiras que vinham augmentar o volumoso peculio, e, ao bater da meia-noite, tornar tambem mais numeroso o funebre cortejo dos phantasmas.

«No fim de seis annos morreu o meu usurario! Morreu de repente! Não tivera tempo de fazer testamento, e, segundo me disseram, iamos passar para as mãos de uma herdeira, parenta muito afastada do finado.

«Com effeito, poucos dias depois da morte de Bartholomeu Nunes, vieram uns quatro gallegos para levar a burra a pau e corda.

«Tivemos a consolação de os derrear!

«Quando chegámos á casa para onde iamos, os gallegos escorriam em suor, e praguejavam como uns damnados.

«Uma voz argentina fez-se ouvir junto de nós. Esta voz não me era desconhecida; mas onde a ouvira eu? Impossivel lembrar-me!

«Finalmente rangeu a chave na fechadura, e abriu-se o cofre. Que rosto imagina que me appareceu? O de Camilla! o da minha creadora!

«Descrever-lhe a alegria que senti é-me completamente impossivel.

«Ella primeiro não me conheceu. Espantada de tanta opulencia, não fazia senão repetir:

―«Como aquelle homem era rico!

«Depois tirou para fóra algumas bolsas. Entre ellas ia eu.

«Camilla mirou-me attentamente, e murmurou:

―«Que estranha similhança... É impossivel!... Seria extraordinario!

«Era-lhe facil sair d'aquella incerteza. A sua delicada mãosinha bordára no meu corpo as iniciaes d'ella e de seu marido; por conseguinte, podia procurar esse signal. Foi o que fez.

«As duas letras―

C E

―cá estavam enlaçadas amorosamente.

«Camilla deu um grito de alegria. Beijou-me freneticamente, exclamando:

―«Ó minha gentil bolsinha! Torno a encontrar-te. Como estás desfigurada! Que te tem acontecido? Ainda conservas as nossas iniciaes n'um estreito abraço! Symbolo de um amor que passou, que doce amargura eu sinto em te vêr!

«Que se passára n'aquella casa? Que acontecimento motivára as tristes palavras de Camilla?

XVII

«Juro-lhe que n'esse momento tive pena de não ser um ente possuidor da faculdade do movimento, de vida, emfim, para poder corresponder aos ternos beijos com que a minha boa dona me saudava. Infelizmente, tinha de me contentar com os receber e não podia retribuil-os. Via-me obrigada a ficar immovel, gelada, na apparencia indifferente.

«Para lhe poupar o trabalho, que eu tive, de saber a pouco e pouco o que se passára, eu lh'o digo em poucas palavras.

«Camilla, como sabe, tinha genio ciumento. Eduardo era impaciente e teimoso.

«Tinham-se repetido muitas vezes scenas similhantes áquella que me obrigára a sair pela janella, como um amante surprehendido. Uma vez, porém, a discussão fôra mais agitada, do que era habitual. Eduardo irritára-se, Camilla teimára, e o rompimento seguira-se. Fôra uma especie de divorcio

intra muros

, com consentimento de ambos. Não havia nem sombra de escandalo. Muito amaveis um para com o outro na sociedade, em casa viam-se apenas ás horas da comida, fallavam-se muito cortezmente, e depois cada um partia para o seu lado.

«Esta intoleravel situação durava, ia para seis mezes. E não julgue que o amor dos dois esposos tinha afrouxado; pelo contrario, amavam-se cada vez mais; porém o seu genio orgulhoso impedia a cada um d'elles dar o primeiro passo para a reconciliação. Soffriam, e soffriam em silencio.

«Ahi tem a explicação das phrases de Camilla.

«Estava-me ella ainda beijando, quando bateram á porta devagarinho.

―«Dá licença?―disse a voz de Eduardo.

«Camilla enxugou os olhos rapidamente, collocou-me em cima da meza, e respondeu com voz ainda um pouco tremula:

―«Entre!

«Eduardo entrou. O tempo não alterára a

belleza

varonil do mancebo; só um bonito bigode negro substituira o ligeiro buço do adolescente.

«Eduardo devia ter vinte e nove annos.

―«Desculpe-me incommodal-a, disse elle, sorrindo; mas nomeou-me procurador n'este negocio da herança, e, por conseguinte, vejo-me obrigado a estar sempre a importunal-a para lhe dar as minhas contas. O ministro da fazenda deve ter entrada franca junto d'el-rei.

―«Póde vir sempre sem receio de me importunar.

―«Ah! diga isso á vontade. Eu nunca tomo as coisas ao pé da letra. Erro grosseiro, que tanta gente commette, e d'onde resultam tantos desenganos. É para mim axiomatico o seguinte principio: Todo o homem na conversação deve ser um agiota feroz; não receber as palavras sem um desconto de cincoenta por cento. Eu podia n'este ponto fazer um

calembourg

sobre as palavras e as letras... de cambio; mas sou misericordioso. Ah! a proposito de agiota; estava dando balanço aos fundos do seu parente? Já vejo que não podia chegar em melhor occasião.

―«Não! enganas-te; estava contemplando as bolsas em que elle mettia o dinheiro. Tem algumas que não são feias.

―«Ia jurar que conhecia esta, atalhou Eduardo, erguendo-me com vivacidade; parece-se tanto com uma...

«Interrompeu-se, passou a mão pela testa, e depois continuou:

―«Com uma que desappareceu, como tudo o que ella symbolisava.

―«Recordações?! tornou Camilla, sorrindo ironicamente.

―«Não, vento de inverno que sacudiu um instante as cinzas frias de um amor que morreu! Se uma centelha fulgurou por acaso, desculpe-me.

―«Desculpal-o?!

―«Sim, desculpar-me! Nem todos teem força sufficiente para arrancar pela raiz, do jardim do coração, as ridentes flôres da mocidade. Sobre o tumulo, em que sepultámos o passado, brotam involuntariamente rosas. Passa uma aragem ligeira, e lá nos vem um perfume acariciar de novo. Mas deixe, que hei de decepar a roseira, ainda que da hastea cortada corra o sangue em borbotões.

―«Quem foi o culpado d'isso?

―«Quem? Nem eu sei. Sei apenas que esse algoz desconhecido retalhou-me bem fundo o coração. Bem fundo! Como vê, a cicatrização não foi perfeita, e a ferida ainda sangra de vez em quando! Que loucura!―continuou elle mudando de tom, e sentando-se n'uma cadeira com modos affectadamente joviaes, se não foi melhor assim! Para fallarmos verdade, Camilla, já nos iamos tornando ridiculos com o nosso eterno arrulhar! Que absurdo! Dois pombinhos namorados, atravessando o mundo, atados um ao outro com o laço côr de rosa do santissimo matrimonio! O mundo ria-se e tinha rasão; porque o mundo tem sempre rasão. Agora é que estamos bem. Somos uns esposos comedidos; encontramo-nos tres vezes por dia; eu sou o seu procurador, v. ex.

a

a minha intendente. Eu sou o encarregado dos negocios estrangeiros, v. ex.

a

dos do reino. Vejam se ha n'este mundo viver melhor! A paz do Senhor habita comnosco! Ah!―continuou Eduardo animando-se successivamente, morram as suaves recordações! Arraze-se o jardim, para fazer brotar a ora das conveniencias! Morra tudo quanto nos possa recordar as doces horas do alvorecer do nosso amor, esses arrufos, chuvas de primavera, os beijos da reconciliação, iris delicioso! Olhe, dê-me licença que afaste da nossa vista tudo quanto possa despertar pensamentos perigosos, prejudiciaes ao nosso repouso. Morra este ultimo objecto, que ainda se atreveu a fallar-me em coisas para sempre esquecidas.

«E, dizendo isto, levantou-se n'um incrivel estado de agitação, e agarrando em mim com vehemencia, ia a atirar-me pela segunda vez pela janella fóra. Eu estava já desesperada pela incrivel tendencia que Eduardo mostrava para me fazer saltar pela janella, e «E, dizendo isto, levantou-se n'um incrivel estado de agitação, e agarrando em mim com vehemencia, ia a atirar-me pela segunda vez pela janella fóra. Eu estava já desesperada pela incrivel tendencia que Eduardo mostrava para me fazer saltar pela janella, e pensando na minha triste sorte, que ia atirar comigo ao mar das aventuras, quando julgava entrar no porto de salvação.

«Um grito de Camilla foi quem me livrou de travar de novo conhecimento com o espaço.

―«Eduardo, Eduardo, bradou ella com as lagrimas nos olhos, vê bem essa bolsa!

«Eduardo contemplou-me, viu as iniciaes, reconheceu-me, e, voltando-se para Camilla, leu-lhe nos olhos uma tal expressão de amor, que, sem se poder conter, caiu-lhe aos pés, banhado em lagrimas deliciosas, em quanto ella, n'um extase ineffavel, lhe beijava os cabellos.

«Que momento aquelle!

XVIII

«Termina aqui a minha narração. Nas bolsas como nas nações, são felizes as que não tem historia.

«Dir-lhe-hei unicamente que fui conservada em casa de Camilla e de Eduardo, como uma reliquia preciosa, que se conservava tal qual eu tinha reapparecido, para trazer a concordia áquelles dois estouvados.

«Quando Eduardo morreu, fui eu a confidente e a consoladora de Camilla. Como esta nunca tinha tido filhos, era comigo que fallava em seu marido, e muitas vezes me regou com as lagrimas que derramava. A pobre senhora conservava sempre viva e ardente no coração a imagem do seu esposo.

«Morreu a opulentissima viuva. Os herdeiros, tambem já bastante ricos, quizeram liquidar aquelles immensos haveres. Venderam tudo, eu fui com a

mobilia

da casa, e alli, graças ao meu amigo, salvei-me de cair nas garras de algum segundo Bartholomeu Nunes, que me tivesse seis annos fechada em cofre.

«Ao menos com o senhor tenho podido tagarellar.

«Aqui ponho ponto.»

XIX

Assim fallou a bolsa, e eu, secretario fiel, fui escrevendo textualmente o que ella me dictou.

Tiro de cima dos meus hombros toda e qualquer responsabilidade.

A aurora começava a apontar no horisonte. Ao passo que a deusa dos roseos dedos abria as portas do Oriente, a bolsa a pouco e pouco ia perdendo a animação ficticia, que um poder sobrenatural lhe emprestára, e ia-se deixando cair em cima da meza.

Eu, ingrato, não me importei com isso. Em quanto ella ia voltando ao seu estado normal, contemplava satisfeito o papel inundado de garatujas, cuja perpetração principal não fôra commettida por mim, e escrevia no fundo da ultima pagina, as seguintes palavras sacramentaes:

Finis, laus Deo

.

Quando Lucio Valença acabou a sua longa leitura, o visconde da Fragosa resonava maravilhosamente, e o conselheiro Madureira formava com elle um duetto mais ou menos parlamentar. Henrique e Leonor applaudiam calorosamente; Roberto Soares fazia as suas reservas; Isaura lançava olhares assassinos ao auctor, que na febre da vaidade litteraria nem reparava n'essas amaveis provocações. O doutor Macedo indignou-se.

―O Lucio, bradou elle, saíu fóra do meu programma. Inpingiu-nos um romance humoristico debaixo da bandeira de conto da meia-noite. Lavro um protesto, e peço que se lance na acta.

―Apoiado! exclamou o visconde da Fragosa, acordando.

―Mas, doutor... acudiu Valença, rindo.

―Qual mas nem meio mas! Então isto é conto phantastico? Você nunca leu Hoffman? Você nunca leu Carlos Dickens? Leu, sim senhor, mas tinha o romance fechado na sua gaveta, apanhou auditorio benevolo, e impingiu-o. Quer editor! Não é outra coisa, minhas senhoras, quer editor! Então onde ha aqui espectro? onde ha visão? onde ha os terrores legendarios da meia-noite?

―Peço a palavra, interrompeu Lucio, rindo.

―Sobre a ordem ou sobre a materia? perguntou gravemente o visconde da Fragosa.

―Sobre o espirito, redarguiu Lucio.

―Não é parlamentar, tornou o visconde.

―Deixe-o fallar, visconde, deixe-o fallar que eu já o esmago.

―Veremos, tornou Lucio. Qual era o nosso fim, doutor? Matar a meia-noite... Matou-se. Tres noites a fio se contaram coisas medonhas, coisas de arripiar os cabellos, vieram aqui á praça defunctas que vão a S. Carlos, phantasmas da meia edade, egrejas submarinas que se illuminam mysteriosamente á meia-noite. Algum de nós trepidou? Não; pelo contrario. A meia-noite hoje passou, e ninguem deu por tal. Queriam que eu abusasse da victoria? A meia-noite morreu.

Parce sepultis?

―Sophismas! sophismas vãos!

―Appéllo para o

claro auditorio meu

.

―Ó vaidoso! bradou o doutor Macedo, isso é de Bocage, sabes tu, profano? ousas comparar-te ao gigante?

―Eu por mim gostei, exclamou Leonor.

―Eu tambem! tornou Henrique, trocando uma vista d'olhos com a gentil filha dos viscondes da Fragosa, ainda que me parece que os arrufos de Eduardo e de Camilla duraram mais do que seria de rasão.

―Tu cheiras-me a noivo, Henrique! disse o doutor. Exhalas um vago perfume de flôr de larangeira.

―Eu, exclamou logo Isaura, requebrando-se toda, declaro que ainda aqui não ouvi coisa de que mais gostasse.

―Oh! minha senhora, tornou Lucio, desfazendo-se em agradecimentos.

―Percam-n'o com as lisonjas, percam, acudiu o doutor Macedo. E agora deixem-me pronunciar a dissolução da sociedade

Inimiga da meia-noite

. Está a terminar o tempo da

villeggiatura

. Depois de ámanha é a ultima caçada. Está dissolvida a

associação

.

―Doutor, antes d'isso tenho que lhe apresentar um requerimento, disse a doce voz de Leonor.

―Mandar para a meza, emendou o visconde da Fragosa.

―Que requerimento é? perguntou Macedo.

―A Juliasita e o Alvaro tem sabido que se contam aqui, depois d'elles se deitarem, historias pavorosas, e as criadas vêem-se gregas com elles para os despirem quando chega a hora de os deitarem, porque não é senão dizerem que querem ficar a pé para ouvirem as historias. Prometti-lhes que uma noite d'estas assistiriam á entrevista. Como decididamente já ninguem pensa na meia-noite, como hoje se abriu o exemplo de não se esperar a hora fatidica, não podiamos ámanhã, ao anoitecer, abrir a sessão para os pequenitos assistirem?

―Ora... para quê, Leonor? acudiu a viscondessa, os teus irmãos caem de somno ás primeiras palavras.

―De certo, se se lhes não escolher coisa de que elles gostem. A

Julieta

de certo a não perceberiam, acudiu Leonor, sorrindo maliciosamente para Henrique.

―Não eram só elles, resmungou Henrique Osorio.

Isaura não ouviu; estava toda embebida n'uma larga conversação com Lucio Valença.

―Ah! eu me encarrego d'elles; pago ámanhã a minha quota, aproveito o precedente de Lucio.

―O quê? o quê? acudiu Lucio, que ouvira pronunciar o seu nome.

―Falla se por aqui no teu precedente, ou no teu predecessor, que é a mesma coisa. Julgavas que o não tinhas?

Leonor desatou

a rir

, Henrique fez-se ligeiramente córado, Isaura não comprehendeu.

―Invocando, pois, o precedente de Lucio, continuou o doutor, apresentarei ámanhã, em obsequio ao Alvaro e a Julia, uma

lenda da meia-noite

, que não será lenda e que não será á meia-noite, o que dará a Roberto Soares assumpto para um estudo intitulado:

De como degeneram as lendas

.

Dispersou-se a companhia, porque era já tarde, mas Henrique e Leonor tinham aberto uma janella e conversavam animadamente.

Ao passar junto d'elles, Isaura, a quem Lucio dava o braço, não pôde eximir-se a dizer-lhe:

―Veja se se transforma em espectro essa nova Julieta.

―Minha senhora, acudiu Henrique, transformam-se em espectros ou em nada, que é a mesma coisa, as loucas visões que sonha a phantasia enferma. Esses sonhos, quando se desperta, deixam apenas uma impressão pesada e morbida. E quando se acorda é que se percebe que as Julietas nunca foram amadas com o coração, foram sempre um pretexto para as divagações de uma imaginação desnorteada.

―E encontrou a bussola, Henrique? acudiu Lucio, motejador.

―Encontrei, sim, meu amigo.

―Procurou-a por muito tempo?

―Estava ao meu lado. Somos tão loucos que nunca pensamos em reparar se nas pedras do nosso jardim habitualmente não se encontrará alguma que tenha as qualidades maravilhosas do magnete, e deixamo nos attrahir tolamente por umas pedras que brilham, que julgamos diamantes e que são apenas...

―O quê?

―Pedaços de vidro que brilham ao sol; o fulgor era do sol e não d'elles.

Os dois companheiros de serão trocavam já olhares inflammados, e nas suas vozes havia um tom ameaçador. Isaura assistia olympicamente desdenhosa a esse torneio de espirito. Leonor, inquieta e magoada, sentia os olhos marejarem-se-lhe de lagrimas.

―Se não se vão deitar, apago eu mesmo as luzes, exclamou o doutor Macedo intervindo de subito e separando bruscamente os quatro personagens da scena. Olhem que massadores!

E, emquanto o grupo se dispersava, trocando despedidas um pouco frias, o doutor Macedo fechava a janella murmurando:

―

Cherchez la femme

.

Na noite seguinte assistiam dois novos ouvintes á leitura. Eram Alvaro e Julia, os dois filhos mais novos dos viscondes da Fragosa. As creanças estavam radiantes de alegria; emquanto Alvaro, loira creança de seis annos, cravava os grandes olhos azues, com infantil curiosidade, no doutor Macedo, Julia, uma menina de nove annos, toda elegante, e que era o retrato de sua irmã mais velha, ouvia, rindo ás gargalhadas, as historietas de Henrique Osorio que a tinha no collo, e que, prodigalisando-lhe as caricias, esperava assim reconquistar as boas graças de Leonor, que ficára um pouco ferida pela scena da vespera, em que lhe parecêra vêr um resentimento que mostrava que Isaura não fóra de todo esquecida.

―Meus meninos, disse o doutor Macedo desenrolando o seu manuscripto, é só cá para nós este conto. A mana, o Henrique e os outros que riam ou durmam, se quizerem. Nós cá é que nos vamos entreter. Este conto é só para nós, e

intitula-se

...

Lucio Valencia, que estava collocado defronte de uma janella aberta, interrompeu com um espirro o discurso de Macedo.

―

Dominus tecum

, concluiu o doutor.

―Obrigado, disse Lucio.

―Não é obrigado, é o titulo do conto. Mas vejam o que é ser-se litterato. Espirramos, diz-nos alguem

Dominus tecum

; é o que basta, saiu um conto!

Todos desataram a rir, e o doutor, com a sua voz admiravel, com a rara sciencia de recitação que possuia, começou a lêr, no meio de profunda

attenção

das duas creanças, o seu

Dominus tecum

.

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