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A Lenda da Meia-Noite

A VISÃO DO PRECIPICIO

Reading edition

I

O meu romance annuncia-se de um modo terrivel. Começa por uma tempestade. Estou obrigado moralmente a apresentar alçapões, subterraneos, e donzellas perseguidas. Se não invento por ahi uns quatro assassinios, estou perdido no conceito de certos leitores!

Tenham paciencia os amadores das

Nodoas de sangue

e dos

Amantes infelizes ou as victimas de uma paixão

, mas d'esta vez hão de contentar-se com um romance bem morigerado, cujos heroes, todos elles pessoas honestas, não hão de incommodar, em quanto durar o enredo, nem as partes de policia, nem os regedores de parochia, nem os jovens advogados, nem as columnas dos jornaes destinadas pelos noticiaristas aos acontecimentos tragicos do paiz.

Feita esta

declaração

, vou introduzir os meus leitores... n'um lagar de azeite, por uma noite tempestuosa de dezembro, quando o vendaval açoita rijamente os pinheiraes frementes, e os relampagos illuminam com pallido fulgor as campinas inundadas pelas chuvas copiosas de uma noite de invernia.

Recresce o temporal. As levadas de agua, engrossadas com as chuvas, resvalam pelos penedos, despenham se, espadanam, fazem scintillar á luz do raio doidejantes borbotões de espuma, e arrastam na carreira vertiginosa as arvores desarreigadas pela força irresistivel do furacão! N'estas noites, o aspecto ridente dos campos, que a primavera orna com todas as galas da vegetação, transforma-se completamente. Parece-nos impossivel que o regato, que havia pouco se espreguiçava voluptuosamente sobre as campinas esmaltadas, seja agora a torrente impetuosa que arranca, n'um accesso de furor, as arvores que se miravam descuidosas na sua limpida corrente.

A mim agrada-me o quadro medonho das furias da invernia! Contemplo com delicias a physionomia terrivelmente phantastica das planicies e dos bosques, onde paira, batendo as azas chammejantes, o sinistro archanjo da tempestade!

São estes os episodios grandiosos do poema da natureza! São estas as paginas sublimes do livro da creação!

Era uma quinta solitaria nos arredores de Santarem; a casa dos morgados campeiava orgulhosa e insulada no meio dos campos cultivados, e lá mais ao longe alvejavam as modestas casinhas do logarejo que se debruçava curiosamente sobre as aguas do riacho, mirando n'esse espelho crystallino o seu humilde aspecto, e contemplando depois, á socapa as pompas quasi feudaes do solar dos descendentes d'algum valentão das Indias.

Como os gloriosos representantes d'essa familia aristocratica, deixando a quinta só, estão comendo em Lisboa os seus rendimentos, escusamos de lhes bater á porta, e, se vos parece, vamos immediatamente ao lagar de azeite, que não fica muito longe.

A entrada é franca, e a vista da fornalha, sobre a qual está collocada a caldeira, e onde arde um mólho de lenha, produzindo um bom fogo, claro e crepitante, tenta devéras o pobre homem, que, todo ensopado, contempla o lume da fogueira, tão consolador e attrahente em noites de frio e chuva.

Entrámos em boa occasião; o lagar está em plena actividade. Os clarões indecisos da lareira illuminam um quadro pittoresco e original. Aqui o

engenho de agua

gira produzindo um som monotono, que, no meio dos rugidos da tempestade, similha o resmungar de velha feiticeira por entre os córos dos archanjos rebeldes em noite de congresso infernal, e, girando sem cessar, tritura conscienciosamente a azeitona submettida á sua implacavel pressão. Além as

varas

, subindo e descendo com toda a regularidade, obrigam a azeitona, já triturada e estendida nas

ceiras

, a distillar o seu oleo precioso. Mas não se resumem n'estes os trabalhos do lagar. Quem reconhecerá o azeite n'esse liquido negro que vae acolher-se silenciosamente na enorme vasilha de barro, a que nos lagares se dá o nome de

tarefa

? Trata-se de o purificar; vamos ás abluções. O liquido negro é assaltado repentinamente por um diluvio de agua a ferver, proveniente da caldeira, que opéra a decomposição com toda a rapidez. Pelo

inferno

, communicação subterranea que conduz a um vallo distante, escoa-se a agua negra, que vae terminar ao longe a sua existencia ignorada, e o azeite, livre finalmente da macula original, apparece em toda a sua limpidez, em todo o seu brilho, em todo o seu esplendor.

No centro da casa terrea, o sr. Manuel dos Reis, mestre-lagareiro, chefe das operações, e supremo dictador n'esta solemne occasião, vigia attentamente as multiplicadas operações do lagar, em quanto o sr. João Moedor (assim chamado por causa das importantes funcções que ali exercia), contempla satisfeito o andamento do

engenho de agua

, confiado aos seus cuidados.

Os adjunctos d'estes dois chefes, sentados á roda da fogueira, alguns camponezes de fóra, que tinham vindo para o «cavaco», e que a tempestade tinha accommettido, os quaes em pé encostados ao cajado ficavam no segundo plano, e dois rapazes de Lisboa a quem a cortezia aldeã tinha concedido o logar de honra, eram as restantes figuras d'este quadro.

Os dois lisbonenses merecem uma descripção especial.

Chamava-se o primeiro José Augusto de Albuquerque. Alto e elegante, pallido, d'esta pallidez ardente, que é quasi sempre symptoma de uma imaginação exaltada, revelava no fulgor desusado dos olhos, scintillantes como dois diamantes negros, o ardor d'aquella organisação sympathica, que devia ser ou a de um grande poeta, ou a de um grande doido, se estas duas idéas não são synonymas, segundo a opinião de muita gente. As olheiras fortemente accentuadas, e que pareciam crestadas pela ardente irradiação das pupillas, acabavam de dar a esta physionomia um cunho original, romantico emfim,

tranchons le mont

, porque devo confessar que o meu heroe tem todas as apparencias de um typo de romance, apesar de ser tão verdadeiro como... o orçamento portuguez.

O companheiro de José Augusto formava com elle um perfeito contraste. Se as centelhas de intelligencia, que se escapavam dos olhos negros de José Augusto, revelavam uma organisação em que o espirito predominava, em que

l'âme

dominava

la bête

, para me servir da classificação de Xavier de Maistre, a luz fria e sem expressão, que brilhava nos olhos azues do seu companheiro, dava a conhecer a beatifica indifferença do adorador da materia. N'um a estatua delicada e quasi feminil denunciava a fina constituição de uma natureza naturalmente aristocratica; no outro a obesidade das fórmas dava idéa do Sancho Pança de Cervantes, ainda que a alta estatura mostrasse que esta nova edição do governador da Barataria era feita n'outro formato. N'aquelle os movimentos altivos da cabeça, o modo enthusiastico com que atirava para traz as ondas lustrosas da sua negra cabelleira, indicavam bem as aspirações elevadas de um coração a trasbordar de poesia e de generosidade; n'este os gestos pacatos, e as suissas loiras que flanqueavam serenamente uma cara de lua cheia, mostravam o genio bonacheirão do homem que não pensa senão no modo de conservar sempre, em bom estado, a sua economia animal, satisfazendo as reclamações incessantes de um estomago insaciavel.

O primeiro era, como disse, José Augusto de Albuquerque, rapaz com alguns vintens, que viajava para se divertir. O segundo era o sr. John Williams, inglez ingenuo e bem morigerado, que aguentava uma boa dóse de garrafas de vinho sem vacillar, que bebia exactamente o que ganhava n'um escriptorio de negociante, e que, apaixonado por viagens, como todo o bom inglez deve ser, tinha pedido licença de um mez para acompanhar o seu amigo José Augusto n'uma excursão á Extremadura.

No momento em que entrámos, reinava um profundo silencio. Lá fóra os rios, que a chuva fazia ferver em cachão, resaltavam sobre os rochedos com um estampido formidavel; as rajadas da ventania, batendo com furor de encontro á porta, faziam-n'a ranger, e abriam-n'a de vez em quando, arrojando torrentes de chuva para dentro do lagar. A voz da procella ora se assimilhava aos rugidos blasphemos do anjo das trevas, ora, plangente e soturna, imitava os gemidos das almas penadas, que vagueiam na terra pedindo aos vivos orações. O trovão, ribombando no espaço, dominava, de vez em quando, com a sua voz magestosa, o pavoroso ruido da tempestade.

Havia harmonias sublimes n'aquella desharmonia apparente; era selvatica mas grandiosa a immensa orchestra do temporal.

―Santa Barbara nos acuda, murmurou devotamente o sr. Manuel dos Reis, tirando o seu barrete azul, já bastante azeitado, no momento em que um trovão formidavel fazia benzer todos os circumstantes―S. Jeronymo te afaste, ruim trovoada, de todo o povoado onde haja almas christãs.

―Amen, resmungou em côro a companha aldeã.

―E temos a chuva pegada, que não ha que esperar senão uma noite de agua. O vento puxa por ella que é um regalo, tornou o mestre-lagareiro, quando o terror produzido pelo trovão se dissipou um pouco mais. Ah! meu fidalgo, v. s.

a

querer metter-se a caminho por uma noite d'estas é mesmo tentar a Deus!

―Deixal-o, tornou o interpellado, que era o nosso amigo José Augusto de Albuquerque, sabe você, sr. Manuel dos Reis, que eu gósto de noites assim? Que diabo! quando atravesso a galope a clareira de um bosque inundado pela chuva, e que vejo, á luz do relampago, as arvores nuas de folhas estenderem-me os braços descarnados, e formarem em torno de mim, guiadas pelo furacão, danças phantasticas e extravagantes, imagino vêr as danças da meia-noite, travadas pelos espectros nos cruzeiros dos cemiterios, e, lembrando-me dos contos lindissimos que a minha ama me contava quando eu era pequeno, chego a acreditar na sua realidade, e acho prazer n'aquillo. Então que quer?

―Arreda!―bradou o João Moedor, coçando a cabeça e fazendo ao mesmo tempo um gesto de susto, sempre v. ex.

a

diz coisas que fazem arripiar os cabellos á gente. Gostar v. s.

a

de vêr dançar as aventesmas as suas danças malditas, como o meu compadre viu com os seus proprios olhos na noite de S. Bartholomeu, em que anda o diabo solto, como vocemecê ha de saber. Safa! Era capaz de seguir o phantasma do Açude até ao seu esconderijo infernal.

―O phantasma do Açude! O que é isso, o que é isso, ó sr. João?―perguntou José Augusto com a maior curiosidade.

―Historias da vida, meu fidalgo, retrocou o sr. Manuel dos Reis, é este diabo do João Moedor que não sabe fazer outra coisa senão contar contos da carochinha. Bom estavas tu, meu rapaz, para mestre-lagareiro! Andas com a cabeça a rasão de juros a pensar lá n'essas

maniversias

, deixavas ir o azeite pelo

inferno

abaixo, e nunca eras capaz de pôr o

espicho

a tempo e a horas. Sempre estás um massador!

―E é verdade, sôr Manuel dos Reis. Este João Moedor não faz senão moer a paciencia á gente, tornou um camponez que estava ao pé da porta, encostado com toda a denguice ao seu varapau.

Todos se riram do

calembourg

aldeão, e o sr. João Moedor esteve algum tempo sem poder fallar no meio dos motejos e das risadas da turba campesina. Finalmente:

―Leva rumor!―bradou elle. Com que então, sô Zé do Moinho, acha você que eu môo a paciencia á gente, hein! Você não acredita n'estas coisas, apesar de eu ter visto muita vez sua tia andar por cima da folha, e correr por cima das latadas para ir ter com seu compadre

Berzabum

! E ainda não estou muito certo se não é você, sô cara de não sei que diga, que anda a horas mortas a cumprir o seu fado, feito burro, por esse mundo de Christo, como fazia seu avô que foi lobis-homem, segundo diz a gente antiga cá da terra.

A victoria ficou d'esta vez ao novo campeador. Os motejos dirigiram-se todos para o sr. Zé do Moinho, que quiz replicar enfurecido, mas que se viu obrigado a metter a viola no sacco, e a ficar de cabeça baixa a um canto. O triumphador havia pouco era agora humilhado.

Sic transit gloria mundi

!

―Conte lá a historia, ó sr. João, que aqui tem você um ouvinte que não é capaz de duvidar da veracidade das suas palavras―tornou José Augusto com a curiosidade a revelar-se-lhe nas feições.

―Tem v. s.

a

muita rasão, meu fidalgo, retrocou o João Moedor com modos de triumpho, e com perdão de vocemecê, sôr Manuel dos Reis, sempre lhe direi que a historia do phantasma do Açude não é conto da carochinha. Em noites assim de temporal, quando o rio engrossado pela cheia, ceifa os pinheiros mais taludos como eu ceifaria uma espiga de trigo no tempo da monda, não é cá o rapaz que se atreve a passar ao pé do Açude, sem se benzer quatro vezes, e sem fechar os olhos para não vêr a melancolica D. Branca. E não é só a mim que isso acontece; o mais pimpão do sitio tremia, como varas verdes, se se visse obrigado a passar a estas horas por aquelle sitio amaldiçoado, a não ser o

Come-bichos

, que vendeu a alma ao diabo. Deus me perdôe se minto; mas o maldito tem mesmo cara de condemnado. E conheço eu alguns que se fazem muito valentes quando estão bem acompanhados, e que não eram capazes de passar sósinhos por ao pé do Açude, nem que lhes dessem todos os thesouros encantados do imperador da Moirama.

Esta ultima allusão ia evidentemente com sobre-escripto para o Zé do Moinho; a resposta d'este (se por acaso elle tencionava responder), foi abafada pelas acclamações dos restantes, que applaudiram o orador, bradando em côro:

―Tem rasão! É uma heresia duvidar d'estas coisas! O João fallou bem. Tem uma linguinha de oiro, este moedor!

O distincto orador comprimentou modestamente os seus amigos politicos pela ovação que fizeram ao seu estiradissimo discurso, e que impacientou apenas o Zé do Moinho, que era da opposição, José Augusto de Albuquerque, que estava desejoso de conhecer a lenda, e o leitor, que talvez nem esteja para a ouvir.

―Vamos á historia, vamos á historia, bradou José Augusto, todos lhe prestamos attenção, e acreditamos em tudo quanto você disser, como os mahometanos na missão do seu propheta.

Ninguem comprehendeu a comparação: por conseguinte todos ficaram fazendo uma elevadissima idéa da erudição de José Augusto. João Moedor piscou os olhos, e bradou com enthusiasmo:

―Fallou que nem um livro. Pois então já que tanto aperta, lá vae a historia.

Todos se chegaram uns para os outros, e João Moedor começou no meio de um silencio solemne a sua narração.

Chegado a este ponto, Roberto Soares interrompeu-se, e, levantando os oculos, disse para os seus ouvintes:

―Não me responsabiliso pela verdade do modo de dizer. José Augusto, que tinha o desagradavel sestro de fazer estylo, quando me contou a historia, transfigurou completamente a expressão do narrador da aldeia. Comtudo asseverava-me elle que o estylo do camponez tinha uma certa elevação.

―Siga, siga, acudiu o doutor Macedo. José Augusto é o seu Jedediah Cleishbotham, já vêmos. Era moda no seu tempo, como as epigraphes.

Roberto Soares riu-se e continuou da seguinte maneira:

Ha de haver um par de annos, muito antes do terremoto, e talvez antes que tivessem nascido os paes dos nossos bisavós, governavam os moiros a maior parte da nossa terra abençoada. Segundo eu ouvi contar ao nosso padre prior, que Deus haja, dava-se e recebia-se muita lançada antes que a bandeira de Christo fluctuasse triumphante nas ameias das fortalezas. Cada palmo de terra conquistado aos cães dos sarracenos era regado por muito sangue, e muitos cadaveres dos nossos antepassados adubaram a terra, antes que os seus descendentes podessem fazer em paz a semeadura e a colheita. Era mau tempo aquelle. Mas Deus e Santiago eram por nós, e os esquadrões cerrados dos cavalleiros de Christo levaram sempre de vencida as hostes aguerridas dos perros amaldiçoados.

Como dizia o padre prior, os pergaminhos d'esses fidalgos, que por ahi andam tão orgulhosos da sua inutilidade, foram sellados com o sangue de seus antepassados nos campos de batalha, em que se comprou bem cara a independencia portugueza. Deshonrado seria para todo o sempre o fidalgo portuguez que não envergasse as armas ao sair da infancia, e não luctasse incessante a favor dos opprimidos até cair no campo da batalha amortalhado na sua armadura de ferro. Repousem em paz nas campas os ossos d'esses valentes.

―O João Moedor sempre tem uma cachimonia de truz, resmungou á parte o Manuel dos Reis; onde elle vae buscar tudo isto!

―O que elle é, é um papagaio, murmurou o Zé do Moinho, não faz mais do que repetir tim tim por tim tim o que ouviu ao nosso antigo padre prior.

―N'esse tempo, continuou o João Moedor sem reparar na interrupção, viviam aqui n'este sitio dois fidalgos velhos, que, depois de terem ganho muitas cicatrizes, e creado muitos cabellos brancos no seu luctar incessante contra o poder da Moirama, tinham vindo descançar na paz dos seus castellos das lides gloriosas em que haviam dispendido a sua existencia inteira. Não porque lhes faltassem valor e bons desejos; mas a edade tudo gasta, e os corpos alquebrados dos bons cavalleiros já vergavam ao peso da armadura, e a voz implacavel da velhice advertiu-os que cedessem o logar a novos e mais vigorosos campeões. Penduraram na sala de armas dos seus castellos as valentes espadas, e, sentados ao canto da lareira, esqueciam o peso dos annos com as gratas recordações das suas façanhas d'outr'ora.

Ao mais velho dos dois; Inigo Paes, concedêra o céo um filho; Raymundo se chamava elle. Era a delicia do bom velho rever no esbelto mancebo a risonha imagem da sua mocidade. Vendo-o crescer em annos, em vigor e em destreza, consolava-se o valente cavalleiro, esperando que Raymundo não deshonraria, nas fileiras portuguezas, o nome venerando que elle proprio tinha conquistado. Esperava com anciedade que seu filho completasse os dezoito annos para lhe cingir a espada, afivellar-lhe o arnez, e dizer-lhe, apontando lhe o campo da batalha: «Vae, é esse o caminho da gloria»

E tinha rasão em se gloriar de ter um filho assim. Ninguem meneava com mais garbo e destreza um cavallo fogoso, ninguem manejava com mais vigor o pesado montante, ninguem mostrava mais ardor guerreiro, quando o pae, sentado no salão do castello, contava aos rapazes, anciosos de aventuras, os feitos de armas dos velhos campeadores. E se Raymundo dava esperanças de ser um rude lidador, nem por isso deixava de ser o mais gentil mancebo d'estas cercanias. Alto e elegante, se os seus olhos negros quizessem fallar de amor, não havia dama que se não rendesse, nem coração feminino que escutasse insensivel os seus protestos enamorados. Mais de uma altiva castellã apparecia na varanda do seu solar para vêr o elegante Raymundo correr a cavallo por essas campinas. Mas que importavam ao filho de Inigo Paes todas as castellãs do mundo se tinha o coração já preso, e se Branca, a ingenua Branca, lhe conquistára o affecto, e accendera nos seus olhos a chamma ardente do primeiro amor?

Branca era filha do companheiro de armas de Inigo Paes; grande desconsolação tivera elle, vendo-se viuvo em edade avançada, sem ter um filho a quem podesse transmittir a sua herança de gloria. Muitas vezes, ao vêr a filha a doidejar na varzea, como gentil borboleta esvoaçando por entre flôres, se lhe enrugava a fronte, e duas lagrimas de tristeza deslisavam pelas faces crestadas do velho soldado. Mas a sombra ligeira, que lhe annuviava o gesto, dissipava-se promptamente com as caricias affaveis da gentil donzella. Quem poderia resistir á influencia d'aquelle anjo de candura, loiro e rosado, como as imagens seductoras dos cherubins que cercam a Virgem Nossa Senhora na pintura do altar-mór da freguezia!

Branca e Raymundo conheciam-se e amavam-se desde creanças. Juntos tinham crescido, juntos tinham doidejado n'estas campinas, e, sem que nunca a palavra

amor

fosse pronunciada, tinham apesar d'isso consagrado um ao outro um affecto que a edade fôra desenvolvendo. E era um par galante a mais não poder ser. Quando Branca, fatigada de correr atraz de uma borboleta, vinha, com as faces vermelhas como duas rosas, os olhos a brilharem de alegria infantil e as loiras tranças fluctuando em ondas doiradas sobre os seus hombros de neve, refugiar-se nos braços de Raymundo, e encostar o rosto encantador nas faces levemente morenas do gentil fidalguinho, todos os que os viam paravam extasiados, e faziam votos pela felicidade d'aquelles anjos de innocencia e de candura.

Chegou finalmente o dia em que Raymundo completava dezoito annos, e em que, para não desmentir as gloriosas tradições da sua raça, devia cingir a espada, e ir aos campos de batalha pagar á patria e á santa religião dos nossos paes o tributo de sangue, que devia ser pago por todos os que se prezavam de christãos fieis, e portuguezes leaes.

No dia fixado para a partida de Raymundo, encontraram-se os dois namorados no sitio do Açude. É um sitio medonho, como v. s.

a

ha de saber; um pinhal sombrio, que vae terminar á beira de um precipicio, no fundo do qual o rio faz mugir, espadanando nos rochedos as suas aguas turvas e espumantes. Mas n'esse dia o sol estava brilhante, e dava a esse quadro medonho o mais ridente aspecto. Os pinheiros, illuminados pelos raios de um sol de agosto, pareciam frechas doiradas que mão occulta arrojava ao céo limpido e azul de um bonito dia de verão. Cada gotinha de agua parecia um espelho que reflectia a imagem brilhante do sol de Portugal, e o rio scintillante e espumoso parecia arrastar na corrente palhetas de oiro e prata. Gorgeiavam os passaros na floresta, e tudo dizia contentamento, quando os corações de Branca e Raymundo sómente sentiam tristeza e desesperação.

Branca vinha triste, triste como a rôla namorada que vê fugir para longes terras o escolhido do seu coração, e pallida como a açucena batida pelo vendaval. Mas que bem que lhe ficava aquella pallidez, e como a alvura da face realçava a côr negra das roupas que vestira em signal de luto e de saudade! O brilho dos olhos, empanado pelo pranto que tinha derramado, parecia ainda mais suave e meigo, e os loiros cabellos, caindo-lhe ao desdem sobre o pescoço deslumbrante de brancura, faziam-n'a assimilhar á imagem da Virgem que está pendurada na sala do presbyterio, e que o senhor padre prior dizia ser copiada de um quadro pintado por um italiano chamado Raphael.

Chegou, e ajoelhou aos pés de um crucifixo, que então existia n'aquelle sitio; porque n'esses tempos de fé viva, a imagem do Crucificado apparecia em toda a parte para acolher em seu seio misericordioso as orações dos fieis. O sol tinha surgido havia pouco do Oriente, e a oração da candida virgem, pura como a rosa que abre o seio ao primeiro alvor da madrugada, foi, perfume singelo, de fé e de innocencia, conduzida pela brisa aos pés do throno do Senhor.

Quando se levantou viu Raymundo em pé diante d'ella, de cabeça descoberta, pallido e mal podendo conter as lagrimas que lhe bailavam nos olhos.

―Raymundo, disse ella desatando a chorar, e

escondendo

a cabeça no peito do mancebo, não me deixes!

―Não posso, Branca, tornou elle, apertando-a ao peito com anciedade; o que pensariam de mim o rei, os ricos homens e os villões, se preso nos teus braços me esquecesse do que devo a mim, ao rei e a Deus? Era um nome deshonrado o nome de teu esposo, Branca, e não m'o podias acceitar. A espada de meu pae, que outr'ora brilhou ao sol das batalhas com deslumbrante fulgor, não póde jazer inerte a um canto do meu solar, em quanto as achas de armas dos meus compatriotas escrevem nas paginas de pedra, das fortalezas moiriscas, a historia sanguinolenta da ressurreição dos godos. Bem vês, Branca, é um penoso dever; mas devo cumpril-o.

―E o nosso amor, Raymundo!―balbuciou a donzella, afogada em lagrimas.

―Oh! cala-te, Branca, não vês que me despedaças o coração? Queres que eu perca o animo, queres que o puro azul dos teus olhos me faça esquecer que existe outro céo, outra ventura que não seja o teu amor, outro dever que não seja o adorar-te? Não, Branca, não ordenes a minha deshonra; a tua imagem seductora será a estrella que me ha de guiar no caminho da gloria. Quaes serão as façanhas para mim impossiveis, pensando que o teu sorriso será a recompensa do meu valor, e que será a tua mãosinha branca e mimosa que me ha de limpar na fronte o suor dos combates e das luctas sanguinolentas?

―Mas quem sabe, Raymundo, tornou Branca, erguendo para elle os olhos radiantes, ainda humedecidos

das lagrimas

que derramára; quem sabe se n'esses paizes longiquos não encontrarás alguma formosa dama cujos encantos te farão depressa olvidar a imagem da triste Branca, que dizes ter gravada no coração? Oh! meu Deus, que horrivel idéa! Se tu me esquecesses...

―Que fazias, Branca?

―Morria!―tornou ella com resolução.

Raymundo apertou-lhe a mão e levou-a ao p Raymundo apertou-lhe a mão e levou-a ao pé do crucifixo. Alli, erguendo os olhos para o rosto divino do Christo crucificado, bradou com voz solemne e altiva:

―Juro diante de Deus que morreu pregado na cruz para remir os homens do peccado original, juro guardar-te sempre fé inteira e immutavel, como te juraria se um sacerdote nos abençoasse ao pé do altar. És minha esposa diante de Christo. Cáia sobre mim a vingança do céo se atraiçoar o meu juramento.

―Oh! obrigada, Raymundo, obrigada, clamou a donzella, lançando-se com immenso ardor nos braços do mancebo e derramando copiosas lagrimas; tambem eu juro amar-te sempre, meu Raymundo, amar-te com inalteravel constancia, não viver senão com a tua imagem, não pensar senão em ti, meu unico amor. E agora parte, accrescentou ella, erguendo-se com inesperada resolução, vae conquistar um nome glorioso; a benção de Deus vae comtigo, porque os nossos anjos da guarda, abraçados e de joelhos ao pé do throno do Senhor, rogarão a Deus que proteja os esposos, cuja união foi abençoada pelo Crucificado, saudada pelos canticos da alvorada, perfumada pelos thuribulos das flôres, illuminada pelos raios do sol nascente!

Raymundo apertou-a ao peito com enthusiasmo; deu-lhe na fronte, com timidez, um beijo, e montando n'um cavallo que o esperava a pouca distancia, seguro por um pagem, partiu, dizendo com ardor:

―Adeus, minha gentil esposa!

―Adeus, meu adorado esposo!

Estas palavras pronunciára-as ella, caindo ajoelhada aos pés da cruz. O perfume das flôres, o canto dos passarinhos, o rumorejar das folhas, a luz pura e serena do sol, tudo parecia abençoar o seu amor. Unicamente no momento da despedida, uma nuvem ligeira passou por diante do astro do dia e offuscou-lhe um pouco o brilho.

Ai! Branca, timida Branca, nos momentos de felicidade uma ligeira nuvem é indicio temeroso de tempestade!

II

«Passaram-se mezes e mezes―continuou o João; veiu o outono desfolhar as arvores, e estender sobre a terra o seu manto de tristezas; depois o inverno gelado agrupou as familias ao canto da lareira; voltou a primavera sacudindo sobre os campos o seu regaço cheio de flôres e verduras, voltaram as longas tardes do estio, e o sol ardente de agosto veiu de novo doirar os pinheiros que ensombravam a cruz do precipicio; e nem a triste Branca recebia noticias do seu noivo, nem Inigo Paes a podia consolar com outras novas, que não fossem as que, logo pouco depois da partida de Raymundo, tinham sido trazidas por um fidalgo que voltava das terras do Algarve.

Contava elle que vira n'uma renhida escaramuça o filho de Inigo Paes estreiar-se no arduo mister do lidador d'aquellas eras. A estreia fôra digna do nome honrado de seu pae. Contava o fidalgo que o tinha visto arrojar-se aos moiros com valor sobrehumano, e abrir com a acha de armas um largo e sanguinolento sulco nas fileiras mahometanas. Quando, no fim da escaramuça, Raymundo Paes passou de viseira levantada junto dos prisioneiros, estes, vendo o rosto delicado, o buço que lhe assombreava levemente o labio superior, e a belleza quasi feminil do mancebo, não queriam acreditar que fosse o mesmo que praticára prodigios de valor, e ante o qual as cimitarras moiriscas voavam em lascas, decepadas pelo montante que parecia manejado pelo braço de robusto montanhez.

Estas noticias encheram de orgulho o coração paternal do velho guerreiro. A Branca não succedia o mesmo. As façanhas que enthusiasmavam Inigo Paes, faziam receiar á gentil donzella que Raymundo, arrastado pelo seu ardor juvenil, fosse encontrar a morte no gume afiado de um alfange mahometano.

Assim correram os mezes, e as rosas do rosto de Branca desbotavam, desbotavam até se trocarem nos lyrios que a desesperança ia fazendo brotar nas faces da donzella.

E Raymundo? Valente cavalleiro, não ha proezas que absolvam um perjuro, nem as indulgencias, concedidas pelo santo padre aos defensores da fé, são sufficientes para arredar de cima da cabeça do sacrilego o raio fulminado pela mão do Omnipotente.

Raymundo Paes, Raymundo Paes, que demonio fatal te arrojou aos pés da cruz, e te dictou o terrivel juramento, que havias de esquecer tão cedo? Ai! cavalleiro, ainda o vento do outono não desfolhou a verde grinalda que enramava a cruz do precipicio, e já o vento da inconstancia fez murchar o candido affecto que floria em teu peito, e que juráras conservar tão puro e tão sem mancha, como era pura e immaculada a imagem d'aquella que t'o inspirou.

Ai! Branca, timida rôla, que, escondida na espessura, a sós com as tuas tristezas, pranteias a ausencia do ingrato que te esqueceu, mal sabes tu que, em quanto fitas o olhar melancholico na lua pallida como o anjo da saudade, e pareces perguntar-lhe mudamente se o teu olhar se cruza no espaço com o olhar saudoso do teu gentil campeão, elle, o perfido, o perjuro, o sacrilego, esquece nos braços de outra o teu amor de virgem, o teu modesto encanto, as tuas graças infantís.

Durante os primeiros tempos, as meigas recordações do seu amor de creança arderam dentro d'elle tão vivas e tão serenas, como arde viva e serena a lampada do altar no recinto sagrado da egreja christã; se uma tentação má lhe surgia no animo, e lhe mostrava á luz de um relampago infernal mundos desconhecidos de prazer vertiginoso, era logo repellida pelo saudoso mancebo, que conservava o coração perfumado de innocencia, como sanctuario florido, onde o christão abriga devotamente a imagem da Mãe do Salvador.

Era por uma noite sombria, calada e mysteriosa, noite propria como nenhuma outra para emboscadas e ardis de guerra. N'essa noite, n'um alcaçar moirisco, situado em terras do Algarve, dormiam socegados os perros descridos, confiados na vigilancia das atalaias, e certos que os rudes batalhadores de Christo, vencidos do cansaço, concederiam involuntariamente treguas aos filhos de Mafoma. Os almogavares, voltando das suas excursões, não tinham trazido novas de movimento algum no exercito christão. Dormiam as almenaras no cimo das montanhas, e a atalaia, vigiando no alto da torre, não estremecêra vendo uma pluma de fogo accender-se de repente, e, ondulando nos ares, dar signal da apparição dos nazarenos. Quão enganados estavam, e essa serpente de ferro, que se enrosca ás muralhas da fortaleza, vae acordal-os inesperadamente do seu somno voluptuoso!

De repente o grito de S. Thiago é ávante! echôa nas barbacans do alcaçar, e as sentinellas, caindo apunhaladas sem terem tempo de soltar um grito, pagam com a vida a sua indolencia descuidosa.

Que scena de confusão no meio das trevas! Os gemidos dos moribundos, os gritos das mulheres, as blasphemias dos guerreiros surprehendidos cruzam-se com os gritos de victoria dos cavalleiros portuguezes. Apenas de quando em quando um ou outro arabe mais destemido arranca da cimitarra, e faz brotar centelhas instantaneas, cruzando-a com o pesado montante christão. Não tem quartel os vencidos; os vencedores sequiosos de sangue transformam n'aquelle momento o valor do guerreiro na ferocidade do assassino. Eras de barbaridade! Já vão longe, felizmente.

Raymundo vae entre elles. Embriagado pela carnificina, descarregava ás mãos ambas a acha de armas sobre os que pretendiam fugir á sorte de seus irmãos. De repente um vulto feminino roja-se-lhe aos pés, suspende-lhe o braço já levantado para descarregar o golpe, e com uma voz melodiosa como o sussurrar da brisa nos ramos do salgueiro, murmura em portuguez: Perdão!

A lua, que até ahi se conservára escondida entre nuvens, desembaraçou-se afinal do seu manto sombrio, e veiu acariciar com os raios da luz serena as faces tostadas da arabe gentil.

Nunca Raymundo vira um rosto tão diabolicamente tentador! Eram uns labios onde se viam arfar promessas voluptuosas de beijos delirantes. Eram uns olhos negros, onde brilhavam as chammas do desejo, as labaredas infernaes da tentação! Eram as tranças negras fluctuando sobre o collo nú, que a brisa beijava com delirio, roubando-lhes perfumes inebriantes, que vinham enlouquecer o ingenuo amador da casta Branca. E elle sentiu a febre do desejo a vir escaldar-lhe o sangue, sentiu uma ignota anciedade vir opprimir-lhe o peito. Era o terrivel despertar dos sentidos n'um rapaz de dezoito annos. Eram as tentações da voluptuosidade, eram as commoções do prazer sensual, era um demonio desconhecido que lhe vinha murmurar ao ouvido os vagos encantos de mysteriosos amores.

Raymundo sentiu o perigo, e quiz afastar-se d'elle. Repelliu-a, e, invocando a imagem de Branca, quiz fugir da tentação fatal; mas a moira, enroscando-se a elle, como a serpente se enrosca ao corpo do homem fascinado pelo poder invencivel do seu olhar, murmurou:

―Não me deixes, nazareno. Os teus olhos são negros como noite sem estrellas; mas são transparentes como o espelho das aguas. Porque havias tu de ser cruel como a hyena do deserto, se és bello e magestoso como o leão das selvas? Olha, sou tão nova! Ainda a amendoeira não floriu vinte vezes, desde que minha mãe me apertou pela primeira vez ao seio palpitante. Salva-me, salva-me e serei a tua escrava. Servir-te-hei de joelhos como a meu senhor e amo, cingir-te-hei a armadura, adivinharei os teus caprichos, e adorar-te-hei como adoro o propheta de Medina. Ouves? Filho dos christãos, salva-me, salva-me!

―Deixa-me, tentação do demonio, bradava Raymundo com voz balbuciante; deixa-me, anjo das trevas; deixa-me, enviada de Satanaz.

―Não, tornou a amaldiçoada, approximando os labios vermelhos como a flôr de romanzeira dos labios de Raymundo. Sou bella, e amo-te! Sou tua, e tu és todo meu, porque te vejo torcer desesperado nos braços de fogo do prazer. Amas-me, e eu... sou tua.

―Amo-te, amo-te, bradou Raymundo, caindo oppresso aos pés da musulmana.

Ai! Branca, timida Branca, chora o teu amor profanado! N'esse momento fatal o anjo da guarda do teu amante velou com as mãos o rosto celestial, que as lagrimas inundavam, e foi, suspenso n'um raio da lua, prostrar-se aos pés do throno do Omnipotente!

Entrado na senda da perdição, não havia poder humano que salvasse Raymundo da condemnação eterna. Tinha vendido a sua alma por um beijo de fogo, e trocára o paraizo pelo inferno da voluptuosidade. Profanado o terrivel juramento, o que havia de sagrado para Raymundo? O que importava a honra de cavalleiro a quem prostituira a santa crença de seus paes? Apagára-se a candida estrella que o guiava nas trevas da existencia, e a luz, que o fascinava, scintillava nos olhos negros de Zoraida, a gentil amaldiçoada. Se tinha reflexos infernaes, tinha tambem o esplendor prestigioso da tentação sensual.

Desde essa noite ninguem mais soube d'elle. Diziam que renegára, e que, enlaçado nos braços da musulmana, fechára os olhos á luz do christianismo, e se arrojára ao abysmo infernal, onde ha o fogo eterno e o eterno ranger de dentes.

Foram estas as noticias que Branca recebêra, no dia em que fazia um anno que Raymundo a deixára. Não disse palavra ao receber a nova fatal. Saiu e caminhou pallida, hirta e vagarosa como estatua adormecida n'um tumulo, que, obedecendo a feitiço desconhecido, se erguesse do seu leito de pedra, e se dirigisse muda para o sitio aonde a chamava a attracção mysteriosa.

Os aldeãos, que a encontravam, paravam para a saudar. Mas ella nem os ouvia, nem parecia vêl-os. Costumados á amabilidade da fidalguinha, ficavam os coitados boquiabertos, ao vêrem a desusada distracção. Mas, se lhe reparavam nas feições demudadas, vendo a pallidez de marmore, os labios brancos e entre-abertos, os olhos fixos e esgazeados, benziam-se devotamente, e murmuravam que era mau olhado que tinham dado á menina do castello.

Assim caminhou até chegar ao sitio do Açude. Ajoelhou junto da cruz, e um aldeão, que a seguia de longe, viu-a rezar muito tempo, e abraçar os pés do Crucificado. Depois, chegou á beira do precipicio, e sem hesitação, sem fraqueza, despenhou-se no abysmo. O corpo gentil ennovelou-se nos ares, e foi despedaçar-se nas pedras da cascata, espirrando ondas de sangue que tingiram de purpura o manto de espuma que envolvia as rochas. As aguas do rio abriram-se para tragar o cadaver, e depois continuaram indolentes a correr, e a murmurar o seu eterno cantico, como se não se tivesse escripto alli o epilogo de um drama desventurado.

O aldeão, que vira de longe a scena fatal, sem poder obstar ao seu inesperado desenlace, fugiu dando um grito de horror, e foi contar ao castello o que presenceára. Quem perdeu alguma vez, de modo tão terrivel, um ente estremecido, avalie a dôr do triste pae de Branca. Eu não a sei narrar. Sente-a o coração, mas os labios recusam-se a exprimil-a. Veiu depois gente do castello, e tiraram do fundo do precipicio o cadaver horrivelmente desfigurado da gentil donzella. Enterraram os restos d'aquella pobre martyr aos pés do Crucificado, que ouvira a sua ultima prece, e a quem pedira talvez perdão do crime que ia commetter. Plantaram ao pé da cruz roseiras e madresilvas, cujo perfume suavissimo ia levar ao longe a ultima recordação da que tivera na terra a corôa da innocencia, e tinha agora nos céos a palma do martyrio.»

―Pobre rapariguinha, interrompeu o mestre lagareiro com mostras de penalisado, dar cabo de si por causa d'aquelle patife!

―Então que quer vossemecê,

sô

Manoel dos Reis, coisas que acontecem, tornou o narrador, ninguem póde fugir á boa ou má sina, que Deus lhe deu. Era aquella a sorte de Branca, havia de cumpril-a.

―Vamos á historia, vamos á historia, bradou José Augusto, com enthusiasmo! Que fez Raymundo? O que aconteceu a Zoraida? Quero saber quem é por fim de contas o phantasma do Açude.

«Raymundo, meu fidalgo, não via senão Zoraida n'este mundo. Um capricho d'ella valia mais do que um mandado de Deus.

Christão tripudiou com a infame sobre a cruz despedaçada do Redemptor; cavalleiro, quebrou a espada de seu pae para que esse espelho de honra não lhe reflectisse constantemente toda a hediondez do seu crime, fidalgo e portuguez, salpicou de lama o brazão de seus maiores, e abandonou a defeza da patria, quando ella reclamava o auxilio de todos os seus filhos. Aqui está o que se póde chamar um amor de perdição!

Uma noite chovia agua se Deus a dava, o vento fazia tremer as casas, e curvava até ao chão os pinheiros agigantados! A trovoada estalava com medonho estampido, os relampagos cingiam a terra com o seu cinto de chammas, e os raios vinham de vez em quando, lascando as rochas, transformar as arvores em archotes colossaes. O temporal era como nunca se tinha visto n'esta terra, nem nunca mais se tornou a vêr, porque todos dizem que a procella d'aquella noite era obra de Satanaz. No Açude principalmente era medonho o aspecto da tormenta. O rio furioso arrojava borbotões de espuma, que se cruzavam com os raios, que vinham lamber as rochas com as suas linguas de fogo. Deus me perdôe, mas o temporal de hoje tem algumas parecenças com a tempestade d'essa noite infernal. Quer-me parecer que tambem hoje anda fazendo das suas o inimigo do genero humano.»

Um calafrio de horror correu pela assembléa. Todos se chegaram mais para o pé do lume, e olharam uns para os outros benzendo-se silenciosamente ao passo que lá fóra gemia o vento com voz soturna na porta carunchosa do lagar.

«N'essa mesma noite Raymundo e Zoraida atravessavam a cavallo o pinheiral que termina no Açude. A reprovada de Deus folgava com noites tempestuosas, e nunca se sentia tão bem como quando os raios lhe illuminavam a estrada, e o trovão respondia magestoso á sua voz blasphema.

―Olha a cruz do nazareno, bradou Zoraida quando chegaram á cruz do precipicio; não vês, Raymundo, como a chuva açoita irreverente o rosto do martyr do Calvario! Porque não transforma elle os raios, que fulminam a cruz abandonada, em cimitarras de fogo que façam rolar a seus pés a cabeça da condemnada, da filha de Mahomet?

E ella ria,―ria com umas gargalhadas estridentes, que vibravam sinistras dominando os ruidos da tempestade, e que, repercutidas pelos echos do abysmo, tinham um não sei quê de infernal. Raymundo estremeceu.

―Não zombes d'esta cruz, respondeu elle com modo sombrio; quando eu era innocente―e suspirou―vinha aqui ajoelhar muita vez. Não zombes d'esta cruz, peço-t'o.

Zoraida fitou por muito tempo n'elle o seu olhar aveludado, fascinante, diabolico e tentador. Era incomprehensivel a magia d'esse olhar, e mais incomprehensivel ainda o dominio que exercia no moço cavalleiro. Dir-se-ia que dois sentimentos oppostos combatiam no coração de Raymundo: de um lado a repugnancia, a rebellião da vontade, do coração, do espirito contra aquelle demonio oppressor; do outro lado uma attracção irresistivel, fatal, que o arrastava a seu pesar, e o prostrava aos pés da musulmana.

Venceu o anjo mau. Raymundo curvou-se sobre o pescoço do cavallo, ebrio de amor ou de desejos fitou um olhar frenetico nos olhos de Zoraida, e quando ella, com um sorriso de escarneo, se approximou da cruz, e cuspiu no rosto do Crucificado!... elle, vencido pelo demonio, imitou-a, rindo com um riso convulso e doloroso, que fazia horror.»

―Jesus!―bradaram os circumstantes.

O vento abriu a porta do lagar, e á luz de um relampago viu-se o campo devastado pelo vendaval e inundado pela chuva; um trovão medonho fez benzer todos, e emmudecer o narrador. Chegaram-se mais ao lume, e olharam uns para os outros. Estavam todos pallidos e tremulos.

―Aconteceu exactamente o mesmo que aconteceu agora, continuou o João Moedor com a voz a tremer-lhe um pouco; a luz de um relampago deixou vêr uma loisa aos pés da cruz, e o nome de Branca inscripto sobre a pedra. Um trovão formidavel ribombou sobre a cabeça dos dois amaldiçoados, e a campa estalou como se fosse de vidro. O phantasma de Branca, involto em candidas roupas, e com a fronte cingida de rosas virginaes, ergueu-se da sepultura, fazendo recuar Raymundo horrorisado. Este quiz desviar a vista, e o phantasma seguiu o movimento dos seus olhos; quiz tapar o rosto com as mãos, e as mãos fizeram-se-lhe transparentes, deixando vêr ainda a imagem da donzella serena como uma santa, triste como uma martyr, impassivel como o destino. Quiz enterrar os acicates nos ilhaes do cavallo, e o cavallo esvaiu-se como fumo, adelgaçando-se, e escapando-lhe por entre os joelhos, como um pedaço de neve que o sol derrete nas montanhas. Raymundo deu um grito de horror, e estacou petrificado.

Então voltou os olhos para Zoraida, e ficou aterrado da transformação da sua amante. O rosto, cuja belleza o fascinára, fizera-se negro, mais negro do que o carvão. Scintillavam os olhos como duas brazas, e nos labios volteava-lhe um sorriso de ironia. O braço assetinado que beijára tanto, estendia-se para elle terrivel e ameaçador. Raymundo, por um esforço supremo de vontade, recuou dois passos, mas o braço estendeu-se, estendeu-se, tornou-se desmesurado e apertou-lhe o pescoço, queimando como se fôra uma tenaz ardente.

―Não me foges, bradou ella com voz rouca, vendes-te-me a tua alma, renegado. Segue-me, segue-me. Pertences-me. Vem, que o inferno celebra hoje o nosso noivado. Os raios são os fachos do hymeneu, e Lucifer o sacerdote. Vem, é este o leito nupcial.

E, arrastando-o com uma força irresistivel, precipitou-se com elle no abysmo. Um clarão avermelhado illuminou as aguas da torrente, que exhalaram um cheiro nauseabundo de enxofre.

Mas o phantasma de Branca ficára ajoelhado aos pés da cruz, implorando o perdão do condemnado. No rosto de Christo, suavemente illuminado, resplandecia um vago arraiar precursor da aurora da misericordia.

Apenas Zoraida desappareceu, desfez se o encanto. Serenou a tempestade, e a brisa perfumada da noite veiu timida brincar nas rosas do tumulo de Branca.

Mas ainda hoje, em dias de vendaval, se vêem duas sombras terriveis correndo para o precipicio, uma horrorisada, tremula, arrastada, a outra com uma alegria feroz no semblante. Aos pés da cruz vem então ajoelhar uma sombra com o rosto inundado de lagrimas celestiaes.

É que Raymundo ainda está cumprindo as penas do purgatorio, e Branca, o anjo do Senhor, sem deixar de implorar a misericordia divina para aquelle que tanto a fez soffrer, mas a quem tanto amou!

―Era inevitavel, disse, rindo, Lucio Valença depois de feitos os cumprimentos do estylo, eu estava já prevendo que iamos descambar em plena edade média. O nosso amigo Roberto Soares não póde dispensar-se de consagrar um vivo affecto ás couraças da sua adolescencia, e ás achas d'armas da sua creação. Fez-nos voltar para 1830 o nosso bom amigo.

―E não era epocha tão má como isso a tal de 1830, disse Roberto Soares. Abusava-se do veneno e do punhal e dos solares e das chacaras e dos cavalleiros que voltavam da cruzada, mas, como dizia Musset, um dos romanticos do tempo:

Hugo portait déjà, dans l'âme

Notre-Dame,

Et commençait à s'occuper

D'y grimper.

―Não ha duvida, não ha duvida, acudiu o doutor Macedo, e Lucio é de certo o primeiro a prestar homenagem a essa epocha da potente efflorescencia litteraria; mas, por Deus, tornou elle interrompendo-se com espanto, está já vencida a meia-noite; a sr.

a

D. Isaura adormeceu!

Era verdade; Isaura, que não tinha de predilecções litterarias senão o

quantum satis

para ser senhora da moda, enfastiada já d'estas repetições de historias phantasticas, resistira um momento ao somno que a perseguia, mas, quando se entrára na historia dos amores de Raymundo e Zoraida, fôra a pouco e pouco encostando a cabeça para traz, e adormecera profundamente.

―Podéra, pensou de si para si o nosso Henrique Osorio, teimando em vêr em Isaura uma menina toda idealisadora, e capaz de apreciar os mais elevados prazeres do espirito, podéra! Eu mesmo me vi em ancias para resistir ao somno. Quem atura hoje um d'estes soláos cançados e gastos que deliciaram a velha geração, com os seus cavalleiros de armas negras, e os seus diabos disfarçados em mulheres formosas, e os seus fidalgos que venderam a alma a Satanaz como na

Dama Pé de Cabra

, de Alexandre Herculano, ou na

Torre de Caim

, de Rebello da Silva? Isso foi bom no seu tempo, hoje está longe do maravilhoso moderno, e Isaura, com a fina intuição do seu juvenil espirito, não pôde commover-se com esses velhos

trucs

de magica, resuscitados ingenuamente pelo Roberto Soares para nos entreter á meia-noite.

Emquanto Henrique Osorio fazia de si para si esse monologo, Leonor acordava a sua amiga, que, abrindo sobresaltada os olhos, foi acolhida por um riso jovial de todos os seus companheiros de noitada.

―Venceu-se ou não se venceu? dizia o doutor Macedo. Veja v. ex.

a

se hoje lhe produziu a mais leve impressão a meia-noite, e se lhe deram muito cuidado os phantasmas.

―Ah! meu Deus, eu peço-lhes mil desculpas, disse Isaura um pouco envergonhada. É que estou fatigada das noites passadas em claro, porque o peior não é aqui, o peior é depois quando vou para o meu quarto. Custa-me a conciliar o somno, e vem ás vezes pesadelos terriveis perturbar o meu dormir inquieto.

―Minha senhora, exclamou, rindo, o doutor Macedo, nem tudo são rosas no tratamento de uma enfermidade. Pois v. ex.

a

não sabe que são muitas vezes amargos os remedios salutares? Então julgava que, para ter uma cura radical, bastava-lhe ouvir aqui lêr contos, n'uma sala confortavel, cheia de luz, a dois passos do seu papá, e apertando a mão da sua amiga? Nada! nós aqui doiramos-lhe a pilula. Se depois lhe sente no seu quarto o amargor, paciencia! Mithridates é de crêr que tambem não achasse aos venenos o gosto da ambrosia. Afinal bebia-os como quem bebe agua. V. ex.

a

hontem dormiu mal, hoje ha de dormir melhor, d'aqui a dois dias chega a tornar-se-lhe necessaria uma historia de phantasmas para adormecer profundamente.

―Ah! doutor, eu ao menos peço treguas. O sr. Henrique Osorio, hontem, com a sua alameda transformada em cemiterio, e com essa mulher pallida desenterrada, atacou-me os nervos de tal fórma que fiquei devéras enferma. Cheguei a suppôr que eu mesma era uma defunta.

O proprio Henrique Osorio é que ficou devéras atordoado! Decidídamente Isaura não lhe perdoava a creação do typo de Julieta que elle julgava que tanto devia lisongeal-a. Persistia em acreditar que elle não tivera outro intento senão o de lhe chamar desenterrada.

―Minha senhora, disse elle, eu sinto realmente profundissimos remorsos por ter assim concorrido involuntariamente para a magoar. Creia v. ex.

a

que a minha intenção era boa, continuou elle em voz mais baixa; se depuz a seus pés um ramalhete de goivos em vez de um ramalhete de rosas, foi porque as flôres funereas eram as unicas que a nossa regra me permittia que colhesse.

Isaura era

coquette

, e, sentindo n'esta phrase um aroma de galanteio, vibrou a Henrique um olhar fascinador. N'este momento, porém, o doutor Macedo levantou-se, e, depois de ter pedido licença para ir accender um charuto, cantarolou, puxando uma baforada de fumo, com musica desconhecida, esta quadra de Thomaz Ribeiro:

Trazes agoirento goivo prezo em negros passadores! Disse-te acaso o teu noivo que tinhas novos amores?

―O dr. Macedo, murmurou Isaura, voltando-se para Henrique Osorio com uma expressão no olhar muito diversa da que primeiro lh'o illuminára, o dr. Macedo está-me explicando involuntariamente o sentido da sua offerta do ramalhete de goivos. É um epigramma, sr. Osorio?

―Minha senhora, respondeu Henrique desesperado, estou por tal fórma infeliz com v. ex.

a

! V. ex.

a

interpreta de um modo tão singular todas as minhas palavras, e todas as minhas acções, que desisto de as explicar de um modo satisfatorio.

Estava verdadeiramente mortificado. Levantou-se comprimentando seccamente a sua interlocutora. Dirigiu-se a uma janella e abriu-a para respirar mais á vontade. As reclamações dos circumstantes obrigaram-n'o a fechal-a de novo. Isto ainda mais o desesperou. Estavam-se fazendo as despedidas. Leonor, ao passar junto d'elle, disse-lhe com um riso malicioso, e em voz baixa:

―É para que tu saibas o que valem os galanteios funebres.

―Olha, sabes que mais, Leonorsinha? tornou Henrique bruscamente, occupa-te das tuas bonecas.

A pobre senhora sentiu a dôr profunda do golpe. Recuou um passo, levou a mão ao coração, e marejaram-lhe nos olhos duas lagrimas.

―Perdão, menina, acudiu Henrique, caindo em si.

―Estás perdoado, respondeu Leonor com voz fraca, mas... mas como tu a amas!

Saiu. Se se demora mais um instante, rebentavam-lhe os soluços mesmo diante de Henrique.

O doutor Macedo, ao passar por diante de Osorio, parou, e disse declamatoriamente:

Si je vous le disais pourtant que je vous aime, Qui sait, brune aux yeux bleus, ce que vous en diriez?

―Está fallando por enigmas poeticos, doutor, exclamou Henrique impaciente. Quer fazer concorrencia ao

Diario Illustrado

, ou ao

Jornal da Noite

?

―Não, disse o doutor, quero apenas dizer, com palavras de Alfredo de Musset, que passam muitas vezes duas pessoas ao lado uma da outra, sem saberem os sentimentos que vivem nas suas duas almas, e que, se ousassem exprimil-os, voariam a encontrar-se.

―A solução no proximo numero, não é verdade, doutor? tornou Henrique, impaciente.

―Talvez, redarguiu o doutor.

E saiu, ao passo que Henrique Osorio encolhia os hombros com desdem.

Na seguinte noite, antes de chegar a hora fatidica, o doutor Macedo pediu a palavra.

―Minhas senhoras e meus senhores, disse elle, desenrolando um manuscripto, se não espero o bater da meia-noite, é porque o romance que vou lêr precisa de um prologo, e á meia-noite em ponto o que deve entrar em scena é o elemento phantastico. Seja dito sem envolver nem a mais leve censura aos illustres preopinantes que se afastaram d'esta regra. Não é meu este romance, o seu auctor deseja conservar o incognito...

―São prohibidas as substituições, bradou Lucio, rindo, serviço obrigatorio!

―Mau! Não me interrompam! O auctor é um dos nossos collegas, não direi mesmo se está presente. Faz o seu serviço, mas provisoriamente quer conservar a mascara. Ora diz Gennaro na

Lucrecia Borgia

, pouco mais ou menos, o seguinte: A mascara de uma senhora é tão sagrada como a face de um homem. É assim ou não é, Soares? É assim, romantico?

―Será, mas o que d'ahi deduzo é que o auctor é uma das nossas amaveis companheiras de serão.

―As conjecturas são permittidas, mas vae dar a meia-noite, e eu, conformando-me com os preceitos do regimento, passo a lêr a

Egreja profanada

.

No meio do mais profundo silencio, em que se sentia a avida curiosidade dos ouvintes excitada pelo mysterio em que se envolvia o conto, o doutor, que lia admiravelmente, começou assim:

Explore with AITake your curiosity a little further.

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