← Table of contents
Á hora do crime

SCENA V

Reading edition

Os mesmos, D. Carlos, e os recem-vindos

D. EMILIO

(Voltando-se para o fundo) Eil-os, os nossos amigos! Em todos a mesma fé! Em todos a mesma esperança!

D. RAMON

(Aos recem-chegados) Conversavamos, eu e D. Emilio, acerca do futuro do paiz, e do obstaculo, não insuperavel, que a eleição do rei pode trazer é realisação dos nossos desejos!

D. EMILIO

Tratemos porém agora do assumpto que aqui nos traz hoje. (A D. Ramon) D. Ramon, occupae a presidencia, vós, que sois o mais velho. (A D. Carlos) E vós, D. Carlos, exporeis as rasões que vos determinaram a convocar esta reunião dos nossos amigos.

D. RAMON

(Occupando a presidencia) Acceito, não por vaidade; mas por condescendencia. Este logar pertence de direito ao honrado chefe do partido republicano hespanhol; que, modesto até ao extremo, nem mesmo entre os seus mais intimos e mais leaes amigos quer ser o primeiro; quando a verdade é que nenhum de nós se lhe avantaja, nem em talento, nem em virtude, nem em dedicação!

TODOS

Apoiado! Apoiado! (D. Emilio agradece com o gesto)

D. CARLOS

Meus senhores, o rei está a chegar, o general Prim parte esta noute para Cartagena, a fim de o acompanhar a Madrid; é mister pois que o partido republicano tome uma deliberação definitiva ácerca do procedimento que deve adoptar no dia da coroação do italiano.

UMA VOZ

Formule a sua proposta.

D. CARLOS

(Continuando) É o que vou fazer. Eu proponho que nós todos empreguemos os esforços possiveis, para que os nossos correligionarios madrilenos, sem excepção de um só, se apresentem vestidos de lucto pesado no dia da chegada de Amadeu a Madrid. Creio que faremos assim uma imponente manifestação, visto que imperiosas rasões partidarias obstam a que ella seja mais ruidosa e mais energica. É um protesto solemne contra a invasão ambiciosa do estrangeiro, e ao mesmo tempo um aviso ao seu espirito, que verá de certo no lucto do povo um argumento vehemente contra os que por adulação, por servilismo, por vil baixesa lhe hão de dizer no paço real, que elle inspira amor áquelles que só sentem por elle profunda indifferença, se não lhe votam do intimo d'alma rancor e odio!

D. EMILIO

Approvo a idéa; mas peço para fazer uma observação, talvez desnecessaria. A manifestação dos republicanos deve ser digna e nobre, para ser magestosa! Envidemos toda a nossa energia, ponhamos em acção toda a nossa actividade, para que nem o italiano, nem o general que o fez rei d'Hespanha, soffram sequer um insulto! Amadeu é um principe ambicioso, talvez; mas julga acceitar legalmente a corôa, por que legalmente lh'a julgou offerecer a maioria da assembléa constituinte, no erro fatal a que a levou o seu grande respeito por Prim, e o desconhecimento dos poderes limitados que lhe conferia o seu mandato! O marquez de los Castillejos, por mais fatal que fosse para a patria a sua obsecação, ou quem sabe se a difficuldade da sua posição politica, é hespanhol e liberal, foi o mais valente caudilho da revolução de Cadix, é um cidadão benemerito, é um general aguerrido, é o heroe do Mexico, de Reus, de Castillejos, de Marrocos e de Saragoça! Que um e outro sejam pois respeitados por nós! Que Amadeu, quando o povo lhe indicar imperiosamente o caminho da sua patria, não possa accusar os republicanos d'Hespanha de uma grosseria, ou de uma crueldade! Que Prim possa ser de futuro o esteio solido da republica, como tem sido mais de uma vez o sustentaculo valente da liberdade! (Ouve-se fóra uma grande detonação.)

TODOS

(Erguendo-se e correndo á janella) Que é isto? Que é isto?

D. RAMON

(Á janella) Vejo muito povo aglomerado na esquina da rua do Turco... soldados e populares que correm para aquelle lado... e um fumo denso que é de certo produzido pelos tiros que ouvimos!

Explore with AITake your curiosity a little further.

Reading settings