SCENA IV
Reading edition
D. Emilio e D. Ramon
D. RAMON.
(A D. Emilio--do fundo) É infelizmente assim, meu caro Castellar. Desde que aquelles hespanhoes, menos ciosos da velha dignidade castelhana, votaram na constituinte um rei estrangeiro, a minha fé continuou inabalavel; mas a minha esperança no futuro diminuiu consideravelmente!
D. EMILIO
E porque, estimavel D. Ramon?
D. RAMON
Porque o moço inexperiente; mas ambicioso de certo, que imprudentemente trocou o bem estar e socego, pelos espinhos agudissimos da corôa d'Hespanha, pode ser um bom rapaz, e é-o decerto; pode possuir um coração bem formado, e creio que o possue; pode mesmo desejar abrir na historia nossa patria uma era brilhante de beneficios, de liberdades, de tolerancias; mas é rei, e por mais digno que seja o seu sentir, por mais nobres que sejam as suas aspirações, hão de em pouco transformal-o em tyranno, em despota, em liberticida, os aulicos que hão de cercar-lhe o throno, as camarilhas que hão de insinuar-se no seu animo para lhe dominar a vontade, os maus cidadãos, emfim, que mais dão rasão de ser ao credo republicano, e que todos os dias, e a todas as horas, e em todos os instantes lhe conquistam adeptos, encaminhando os principes pela vereda fatal do erro, impellindo-os cynicamente para o plano inclinado onde se tem despenhado tantos, tantos!... arrastando comsigo as nações cujos destinos dirigiam!
D. EMILIO
Tem rasão em seus receios, D. Ramon; mas não a tem na sua descrença! Mau é que um rei venha matar as esperanças mais fagueiras que o povo hespanhol concebeu, quando, ao grito do triumpho magestoso da revolução de Cadix, viu cahir a pedaços o throno apodrecido d'essa mulher, que tanto sangue custou á nossa nobre terra! E peior é que esse rei, imposto á livre e orgulhosa Hespanha, seja um estrangeiro! O nosso proverbial orgulho, esse orgulho indomavel, que tornou sempre respeitados os cavalheirosos filhos d'Hespanha, sente-se ferido de morte na mais vulneravel das suas manifestações! Mas que importa isso? Quanto mais o justo orgulho, a nobre altivez de um povo se sente abatida e humilhada, tanto mais violento é o esforço supremo que deve dar-lhe a desaffronta, e com a desaffronta a liberdade! Tenha fé no futuro, D. Ramon!
D. RAMON
Fé!... Sei que a sua é viva e sincera, Castellar; não ignoro quanto a patria deve á sua dedicada abnegação e ás suas profundas convicções; sou o mais enthusiastico admirador desse talento collossal, que assombra a patria, e a Europa, e o mundo; mas sou velho, e na friesa que dão os sessenta annos, e na impassibilidade filha de uma longa experiencia, vejo as cousas por um prisma tristissimo, fatal! Vejo que quando o italiano fôr o senhor d'este paiz, por mais altivo e orgulhoso que o povo hespanhol seja, o jugo ferreo do despotismo ha de vir em seguida comprimil-o nas cadeias de escravo, e a emancipação da patria ficará por isso longamente addiada, porque as hecatombes e as carnificinas hão de levar o desanimo onde hoje existe o enthusiasmo, hão de levar a indifferença onde hoje vive o amor da patria!
D. EMILIO
(Com gesto sublime) Basta velho! Que o ancião não pronuncie jámais em presença de correligionarios seus tão eloquentes palavras de descrença! A fé e a esperança são principios religiosos do christão, e devisa inalteravel do democrata! E christãos, e republicanos somos nós, para que aos nossos ouvidos possam chegar a descrença e o desespero, apostolados por um dos nossos! Reanima-te, nobre ancião! soldado velho da liberdade! evangelisador sincero da republica! O futuro, se não é risonho e festival, não é completamente negro e carregado de nuvens procellosas! A republica tem feito grandes conquistas no mundo! Na França opéra milagres! na Suissa dá nobres exemplos! na America offerece lição proficua! no nosso irmão e amigo Portugal cria profundas raizes! e até na propria Prussia produz phenomenos, porque ao passo que os exercitos devastadores do autocrata allemão talam os campos verdejantes da bella França, para asphyxiar a democracia, o povo de Berlim, que é povo, e que por isso é nobre, e generoso, e republicano, como todos os seus irmãos no mundo, elege para seu representante ao parlamento o chefe ostensivo do partido republicano d'Allemanha! E é n'esta conjunctura, que a voz auctorisada de um velho respeitavel ha de trazer o desalento ao espirito dos valentes campeões da democracia hespanhola?... Não, D. Ramon! O futuro é nosso! Ao triumpho completo da França, e elle ha-de vir, deve seguir-se o derrocamento dos thronos! Á emancipação do povo francez seguir-se-ha a emancipação da Europa! A derrota do tyranno allemão deve necessariamente ser o signal da queda de todos os despotas do mundo!
(Durante esta falla tem entrado successivamente pelo fundo muitos individuos, e pela porta lateral D. Carlos, que recebe todos com cordialidade e affecto.)
TODOS
Apoiado!... Muito bem!... É assim!...