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Á hora do crime

SCENA III

Reading edition

Izabel e D. Carlos

D. CARLOS

(Do fundo) Estás aqui, minha irmã? Não te aborrece esta salla? Não te soffoca a atemosphera que aqui se respira?

IZABEL

Não!

D. CARLOS

Tu, tão nova e tão linda, aspirando o ar tão pesado d'este recinto de conspirações?

IZABEL

Sim!

D. CARLOS

Porque não vaes antes para os teus quartos? Não te é mais agradavel a vista risonha do jardim, que tu tratas tão cuidadosamente, do que o aspecto d'esta salla, onde hoje reside o desespero, onde paira a indignação, onde bate por ventura as azas o demonio da vingança?

IZABEL

Não.

D. CARLOS

(Preoccupado) Não... sim... não outra vez!... Que tens tu, Izabel?... Respondes apenas por monosyllabos ás minhas carinhosas interrogações?... Que tens tu, minha irmã?

IZABEL

Nada!

D. CARLOS

Nada, e eu vejo-te os olhos pisados!... Nada, e tu choras!... Desafoga commigo, Izabel!... Teu irmão ainda tem coração para recolher os teus pesares, e amor bastante para te prodigalisar consolações!

IZABEL

(Com desalento) Martinez... o meu querido Martinez, parte esta noute para Cartagena, em companhia de Prim, que vae ali esperar o novo rei! Comprehendes agora a rasão dos meus monosyllabos, a causa das minhas lagrimas, origem dos meus pesares?

D. CARLOS

(Tranquilisando-a) E que tem isso? O rei vem; mas isso não quer dizer que conseguirá firmar solidamente uma dymnastia! Epoca virá, e talvez pouco distante, em que a nação lhe indique solemnemente o caminho da sua patria! Se Martinez vae hoje, como ajudante do general, que se disse democrata no exilio, e que tão mal comprehendeu no poder a sua brilhante posição, esperar o rei que é imposto á nação hespanhola; talvez que em breve, convertido á crença democratica, elle vá, general da republica, fazer embarcar no mesmo porto o desvairado mancebo, que tão facilmente se deixou fascinar peio brilhantismo de uma corôa, que não é sua, e que de certo é pesada de mais para cabeça tão jovenil!

IZABEL

(Com receio) E se um tiro traiçoeiro, cortando o ar n'um ermo, vier feril-o, em vez de ferir Amadeu ou Prim?

D. CARLOS

(Sorrindo) Que lembrança! Em Hespanha o partido mais forte é o republicano, por que é aquelle que tem mais crentes retemperados na fé do martyrio; e por isso o rei e o general, e todo o sequito de Amadeu, e toda a comitiva de Prim, passarão illesos por entre a indifferença publica! O assassinato é um crime, e os republicanos não ferem o adversario senão no campo convencional da honra, ou no campo franco e aberto da batalha leal!

IZABEL

Sinto que tens rasão; mas sinto tambem que se me comprime a coração nos horrores da duvida; apavoram-me os terriveis presentimentos que me assaltam o espirito!

D. CARLOS

(Offerecendo-lhe o braço) Vem commigo destrair-te. É o amor que te faz delirar assim! Vem commigo! (Izabel dá-lhe o braço, e saem ambos pela porta leteral).

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