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A correspondência de Fradique Mendes

FRADIQUE MENDES

Reading edition

(MEMORIAS E NOTAS)

Illustration from A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas

PORTO LIVRARIA CHARDRON De Lello & Irmão, editores 1900

Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidadão Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que para a garantia que lhe offerece a lei n.º 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do art. 13.º da mesma Lei.

Porto―Imprensa Moderna

A CORRESPONDENCIA DE FRADIQUE MENDES

FRADIQUE MENDES (MEMORIAS E NOTAS)

I

A minha intimidade com Fradique Mendes começou em 1880, em Paris, pela Paschoa,―justamente na semana em que elle regressára da sua viagem á Africa Austral. O meu conhecimento porém com esse homem admiravel datava de Lisboa, do anno remoto de 1867. Foi no verão d'esse anno, uma tarde, no café Martinho, que encontrei, n'um numero já amarrotado da

Revolução de Setembro

, este nome de C. Fradique Mendes, em letras enormes, por baixo de versos que me maravilharam.

Os themas («os motivos emocionaes», como nós diziamos em 1867) d'essas cinco ou seis poesias, reunidas em folhetim sob o titulo de

Lapidarias

, tinham logo para mim uma originalidade captivante e bemvinda. Era o tempo em que eu e os meus camaradas de Cenaculo, deslumbrados pelo Lyrismo Epico da

Légende des Siècles

, «o livro que um grande vento nos trouxera de Guernesey»―decidiramos abominar e combater a rijos brados o Lyrismo Intimo, que, enclausurado nas duas pollegadas do coração, não comprehendendo d'entre todos os rumores do Universo senão o rumor das saias d'Elvira, tornava a Poesia, sobretudo em Portugal, uma monotona e interminavel confidencia de glorias e martyrios de amor. Ora Fradique Mendes pertencia evidentemente aos poetas novos que, seguindo o Mestre sem-igual da

Légende des Siècles

, iam, n'uma universal sympathia buscar motivos emocionaes fóra das limitadas palpitações do coração―á Historia, á Lenda, aos Costumes, ás Religiões, a tudo que através das idades, diversamente e unamente, revela e define o Homem. Mas além d'isso Fradique Mendes trabalhava um outro filão poetico que me seduzia―o da Modernidade, a notação fina e sobria das graças e dos horrores da Vida, da Vida ambiente e costumada, tal como a podemos testemunhar ou presentir nas ruas que todos trilhamos nas moradas visinhas das nossas, nos humildes destinos deslizando em torno de nós por penumbras humildes.

Esses poemetos das

Lapidarias

desenrolavam com effeito themas magnificamente novos. Ahi um Santo allegorico, um Solitario do seculo VI, morria uma tarde sobre as neves da Silesia, assaltado e domado por uma tão inesperada e bestial rebellião da Carne, que, á beira da Bemaventurança, subitamente a perdia, e com ella o fructo divino e custoso de cincoenta annos de penitencia e d'ermo: um corvo, facundo e velho além de toda a velhice, contava façanhas do tempo em que seguira pelas Gallias, n'um bando alegre, as legiões de Cesar, depois as hordas de Alarico rolando para a Italia, branca e toda de marmores sob o azul: o bom cavalleiro Percival, espelho e flôr d'Idealistas, deixava por cidades e campos o sulco silencioso da sua armadura d'ouro, correndo o mundo, desde longas éras, á busca do San-Gral, o mystico vaso cheio de sangue de Christo, que, n'uma manhã de Natal, elle vira passar e lampejar entre nuvens por sobre as torres de Camerlon: um Satanaz de feitio germanico, lido em Spinosa e Leibnitz, dava n'uma viella de cidade medieval uma serenada ironica aos astros, «gottas de luz no frio ar geladas»... E, entre estes motivos de esplendido symbolismo, lá vinha o quadro de singela modernidade, as

Velhinhas

, cinco velhinhas, com chales de ramagens pelos hombros, um lenço ou um cabaz na mão, sentadas sobre um banco de pedra, n'um longo silencio de saudade, a uma restea de sol d'outono.

Não asseguro todavia a nitidez d'estas bellas reminiscencias. Desde essa sésta de agosto, no Martinho, não encontrei mais as

Lapidarias

: e, de resto, o que n'ellas então me prendeu, não foi a Idéa, mas a Fórma―uma fórma soberba de plasticidade e de vida, que ao mesmo tempo me lembrava o verso marmoreo de Lecomte de Lisle com um sangue mais quente nas veias do marmore, e a nervosidade intensa de Baudelaire vibrando com mais norma e cadencia. Ora precisamente, n'esse anno de 1867, eu, J. Teixeira de Azevedo e outros camaradas tinhamos descoberto no céo da Poesia Franceza (unico para que nossos olhos se erguiam) toda uma pleiade d'estrellas novas onde sobresahiam, pela sua refulgencia superior e especial, esses dois sóes―Baudelaire e Lecomte de Lisle. Victor Hugo, a quem chamavamos já «papá Hugo» ou «Senhor Hugo-Todo-Poderoso», não era para nós um astro―mas o Deus mesmo, inicial e immanente, de quem os astros recebiam a luz, o movimento e o rythmo. Aos seus pés Lecomte de Lisle e Baudelaire faziam duas constellações de adoravel brilho: e o seu encontro fôra para nós um deslumbramento e um amor! A mocidade d'hoje, positiva e estreita, que pratíca a Politica, estuda as cotações da

Bolsa

e lê George Ohnet, mal póde comprehender os santos enthusiasmos com que nós recebiamos a iniciação d'essa Arte Nova, que em França, nos começos do Segundo Imperio, surgira das ruinas do Romantismo como sua derradeira encarnação, e que nos era trazida em Poesia pelos versos de Lecomte de Lisle, de Baudelaire, de Coppée, de Dierx, de Mallarmé, e d'outros menores: e menos talvez póde comprehender taes fervores essa parte da mocidade culta que logo desde as escolas se nutre de Spencer e de Taine, e que procura com ancia e agudeza exercer a critica, onde nós outr'ora, mais ingenuos e ardentes, nos abandonavamos á emoção. Eu mesmo sorrio hoje ao pensar n'essas noites em que, no quarto de J. Teixeira d'Azevedo, enchia de sobresalto e duvida dois conegos que ao lado moravam, rompendo por horas mortas a clamar a

Charogne

de Baudelaire, tremulo e pallido de paixão:

Et pourtant vous serez semblable à cette ordure,

A cette horrible infection,

Étoile de mes yeux, soleil de ma nature,

Vous, mon ange et ma passion!

Do outro lado do tabique sentiamos ranger as camas dos ecclesiasticos, o raspar espavorido de phosphoros. E eu, mais pallido, n'um extase tremente:

Alors, oh ma beauté, dites à la vermine

Qui vous mangera de baisers,

Que j'ai gardé la forme et l'essence divine

De mes amours décomposés!

Certamente Baudelaire não valia este tremor e esta pallidez. Todo o culto sincero, porém, tem uma belleza essencial, independente dos merecimentos do Deus para quem se evola. Duas mãos postas com legitima fé serão sempre tocantes―mesmo quando se ergam para um Santo tão affectado e postiço como S. Simeão Stylita. E o nosso transporte era candido, genuinamente nascido do Ideal satisfeito, só comparavel áquelle que outr'ora invadia os navegadores peninsulares ao pisarem as terras nunca d'antes pisadas, Eldorados maravilhosos, ferteis em delicias e thesouros, onde os seixos das praias lhes pareciam logo diamantes a reluzir.

Li algures que Juan Ponce de Leon, enfastiado das cinzentas planicies de Castella-a-Velha, não encontrando tambem já encanto nos pomares verde-negros da Andaluzia―se fizera ao mar, para buscar outras terras, e

mirar algo nuevo

. Tres annos sulcou incertamente a melancolia das aguas atlanticas: mezes tristes errou perdido nos nevoeiros das Bermudas: toda a esperança findára, já as prôas gastas se voltavam para os lados onde ficára a Hespanha. E eis que n'uma manhã de grande sol, em dia de S. João, surgem ante a armada extatica os esplendores da Florida! «

Gracias te sean, mi S. Juan bendito, que he mirado algo nuevo!

» As lagrimas corriam-lhe pelas barbas brancas―e Juan Ponce de Leon morreu de emoção. Nós não morremos: mas lagrimas congeneres com as do velho mareante saltaram-me dos olhos, quando pela primeira vez penetrei por entre o brilho sombrio e os perfumes acres das

Flôres do Mal

. Eramos assim absurdos em 1867!

De resto, exactamente como Ponce de Leon, eu só procurava em Litteratura e Poesia

algo nuevo que mirar

. E para um meridional de vinte annos, amando sobretudo a Côr e o Som na plenitude da sua riqueza, que poderia ser esse

algo nuevo

senão o luxo novo das fórmas novas? A Fórma, a belleza inedita e rara da Fórma, eis realmente, n'esses tempos de delicado sensualismo, todo o meu interesse e todo o meu cuidado! Decerto eu adorava a Idéa na sua essencia;―mas quanto mais o Verbo que a encarnava! Baudelaire, mostrando á sua amante na

Charogne

a carcassa pôdre do cão e equiparando em ambas as miserias da carne, era para mim de magnifica surpreza e enlevo: e diante d'esta crespa e atormentada subtilisação do sentir, que podia valer o facil e velho Lamartine no

Lago

, mostrando a Elvira a cansada lua, e comparando em ambas a pallidez e a graça meiga? Mas se este aspero e funebre espiritualismo de Baudelaire me chegasse expresso na lingua lassa e molle de Casimir Delavigne―eu não lhe teria dado mais apreço do que a versos vis do

Almanach de Lembranças

.

Foi sensualmente enterrado n'esta idolatria da Fórma, que deparei com essas

Lapidarias

de Fradique Mendes, onde julguei vêr reunidas e fundidas as qualidades discordantes de magestade e de nervosidade que constituiam, ou me pareciam constituir, a grandeza dos meus dois idolos―o auctor das

Flôres do Mal

e o auctor dos

Poemas Barbaros

. A isto accrescia, para me fascinar, que este poeta era portuguez, cinzelava assim preciosamente a lingua que até ahi tivera como joias acclamadas o

Noivado do Sepulchro

e o

Avè Cesar!

, habitava Lisboa, pertencia aos Novos, possuia decerto na alma, talvez no viver, tanta originalidade poetica como nos seus poemas! E esse folhetim amarrotado da

Revolução de Setembro

tomava assim a importancia d'uma revelação d'Arte, uma aurora de Poesia, nascendo para banhar as almas moças na luz e no calor especial a que ellas aspiravam, meio adormecidas, quasi regeladas sob o algido luar do Romantismo. Graças te sejam dadas, meu Fradique bemdito, que na minha velha lingua

hé mirado algo nuevo!

Creio que murmurei isto, banhado em gratidão. E, com o numero da

Revolução de Setembro

, corri a casa de J. Teixeira de Azevedo, á travessa do Guarda-Mór, a annunciar o advento esplendido!

Encontrei-o, como de costume, nos silenciosos vagares das tardes de verão, em mangas de camisa, diante de uma bacia que trasbordava de morangos e de vinho de Torres. Com vozes clamorosas, atirando gestos até ao tecto, declamei-lhe a

Morte do Santo

. Se bem recordo, este asceta, ao findar sobre as neves da Silesia, era miserrimamente trahido pela desleal Natureza! Todos os appetites da paixão e do corpo, tão laboriosamente recalcados por elle durante meio seculo d'ermo, irrompiam de repente, á beira da eternidade, n'um tumulto bestial, não querendo para sempre findar com a carne que ia findar―antes de serem uma vez satisfeitos! E os anjos que, para o receber, desciam d'aza serena, sobraçando mólhos de Palmas e cantando os Epithalamios, encontravam, em vez d'um Santo, um Satyro, senil e grotesco―que de rojos, entre bramidos sordidos, mordia com beijos vorazes a neve, a macia alvura da neve, onde o seu delirio furiosamente imaginava nudezes de cortezãs!... Tudo isto era tratado com uma grandeza sobria e rude que me parecia sublime. J. Teixeira d'Azevedo achou tambem «sublime―mas bréjeiro». E concordou que convinha desentulhar Fradique Mendes da obscuridade, e erguel-o no alto do escudo como o radiante mestre dos Novos.

Fui logo n'essa noite á

Revolução de Setembro

, procurar um companheiro meu de Coimbra, Marcos Vidigal, que, nos nossos alegres tempos de Direito Romano e Canonico, ganhára, por tocar concertina, lêr a

Historia da Musica

de Scudo, e lançar através da Academia os nomes de Mozart e de Beethoven, uma soberba auctoridade sobre Musica classica. Agora, vadiando em Lisboa, escrevia na

Revolução

, aos domingos, uma «Chronica lyrica»―para gozar gratuitamente o bilhete de S. Carlos.

Era um moço com cabellos ralos e côr de manteiga, sardento, apagado de idéas e de modos―mas que despertava e se illuminava todo quando lograva «a

chance

(como elle dizia) de roçar por um homem celebre, ou de arranchar n'uma coisa original»; e isto tornára-o a elle, pouco a pouco, quasi original e quasi celebre. N'essa noite, que era sabbado e de pesado calor, lá estava á banca, com uma quinzena d'alpaca, suando, bufando, a espremer do seu pobre craneo, como d'um limão meio sêcco, gottas d'uma Chronica sobre a Volpini. Apenas eu alludi a Fradique Mendes, áquelles versos que me tinham maravilhado―Vidigal arrojou a penna, já risonho, com um clarão alvoroçado na face molle:

―Fradique? Se conheço o grande Fradique? É meu parente! É meu patricio! É meu parceiro!

―Ainda bem, Vidigal, ainda bem!

Fomos ao Passeio Publico (onde Marcos se ia encontrar com um agiota). Tomámos sorvetes debaixo das acacias: e pelo chronista da

Revolução

conheci a origem, a mocidade, os feitos do poeta das

Lapidarias

.

Carlos Fradique Mendes pertencia a uma velha e rica familia dos Açores; e descendia por varonia do navegador D. Lopo Mendes, filho segundo da casa da Troba, e donatario d'uma das primeiras capitanias creadas nas Ilhas por começos do seculo XVI. Seu pai, homem magnificamente bello, mas de gostos rudes, morrera (quando Carlos ainda gatinhava) d'um desastre, na caça. Seis annos depois sua mãi, senhora tão airosa, pensativa e loura que merecera d'um poeta da Terceira o nome de

Virgem d'Ossian

, morria tambem d'uma febre trazida dos campos, onde andára bucolicamente, n'um dia de sol forte, cantando e ceifando feno. Carlos ficou em companhia e sob a tutela de sua avó materna, D. Angelina Fradique, velha estouvada, erudita e exotica que colleccionava aves empalhadas, traduzia Klopstock, e perpetuamente soffria dos «dardos d'Amor». A sua primeira educação fôra singularmente emmaranhada: o capellão de D. Angelina, antigo frade benedictino, ensinou-lhe o latim, a doutrina, o horror á maçonaria, e outros principios solidos; depois um coronel francez, duro jacobino que se batera em 1830 na barricada de S

t

-Merry, veio abalar estes alicerces espirituaes fazendo traduzir ao rapaz a

Pucelle

de Voltaire e a

Declaração dos direitos do homem

; e finalmente um allemão, que ajudava D. Angelina a enfardelar Klopstock na vernaculidade de Filinto Elysio, e se dizia parente de Emmanuel Kant, completou a confusão iniciando Carlos, ainda antes de lhe nascer o buço, na

Critica da Razão pura

e na heterodoxia metaphysica dos professores de Tubinguen. Felizmente Carlos já então gastava longos dias a cavallo pelos campos, com a sua matilha de galgos:―e da anemia que lhe teriam causado as abstracções do raciocinio, salvou-o o sôpro fresco dos montados e a natural pureza dos regatos em que bebia.

A avó, tendo imparcialmente approvado estas embrulhadas linhas d'educacão, decidiu de repente, quando Carlos completou dezeseis annos, mandal-o para Coimbra que ella considerava um nobre centro d'estudos classicos e o derradeiro refugio das Humanidades. Corria porém na Ilha que a traductora de Klopstock, apesar dos sessenta annos que lhe revestiam a face d'um pêllo mais denso que a hera d'uma ruina, decidira afastar o neto―para casar com o bolieiro.

Durante tres annos Carlos tocou guitarra pelo

Penedo da Saudade

, encharcou-se de carrascão na tasca das Camêlas, publicou na

Idéa

sonetos asceticos, e amou desesperadamente a filha d'um ferrador de Lorvão. Acabava de ser reprovado em Geometria quando a avó morreu subitamente, na sua quinta das

Tornas

, n'um caramanchão de rosas, onde se esquecera toda uma sésta de junho, tomando café, e escutando a viola que o cocheiro repicava com os dedos carregados d'anneis.

Restava a Carlos um tio, Thadeu Mendes, homem de luxo e de boa mesa, que vivia em Paris preparando a salvação da Sociedade com Persigny, com Morny, e com o principe Luiz Napoleão de quem era devoto e crédor. E Carlos foi para Paris estudar Direito nas cervejarias que cercam a Sorbonne, á espera da maioridade que lhe devia trazer as heranças accumuladas do pai e da avó―calculadas por Vidigal n'um farto milhão de cruzados. Vidigal, filho d'uma sobrinha de D. Angelina, nascido na Terceira, possuia por legado, conjuntamente com Carlos, uma quinta chamada o

Corvovello

. D'ahi lhe vinha ser «parente, patricio e parceiro» do homem das

Lapidarias

.

Depois d'isto Vidigal sabia apenas que Fradique, livre e rico, sahira do

Quartier-Latin

a começar uma existencia soberba e fogosa. Com um impeto de ave solta, viajára logo por todo o mundo, a todos os sopros do vento, desde Chicago até Jerusalem, desde a Islandia até ao Sahará. N'estas jornadas, sempre emprehendidas por uma solicitação da intelligencia ou por ancia d'emoções, achára-se envolvido em feitos historicos e tratára altas personalidades do seculo. Vestido com a camisa escarlate, acompanhára Garibaldi na conquista das Duas-Sicilias. Encorporado no Estado-Maior do velho Napier, que lhe chamava

the Portuguese Lion

(o Leão Portuguez), fizera toda a campanha da Abyssinia. Recebia cartas de Mazzini. Havia apenas mezes que visitára Hugo no seu rochedo de Guernesey...

Aqui recuei, com os olhos esbugalhados! Victor Hugo (todos ainda se lembram), desterrado então em Guernesey, tinha para nós, idealistas e democratas de 1867, as proporções sublimes e lendarias d'um S. João em Pathmos. E recuei protestando, com os olhos esbugalhados, tanto se me afigurava fóra das possibilidades que um portuguez, um Mendes tivesse apertado nas suas a mão augusta que escrevera a

Lenda dos Seculos

! Correspondencia com Mazzini, camaradagem com Garibaldi, vá! Mas na ilha sagrada, ao rumor das ondas da Mancha, passear, conversar, scismar com o vidente dos

Miseraveis

―parecia-me a impudente exaggeração d'um ilhéo que me queria intrujar...

―Juro! gritou Vidigal, levantando a mão veridica ás acacias que nos cobriam.

E immediatamente, para demonstrar a verosimilhança d'aquella gloria, já altissima para Fradique, contou-me outra, bem superior, e que cercava o estranho homem d'uma aureola mais refulgente. Não se tratava já de ser estimado por um homem excelso―mas, coisa preciosa entre todas, de ser amado por uma excelsa mulher. Pois bem! Durante dois annos, em Paris, Fradique fôra o eleito de Anna de Léon, a gloriosa Anna de Léon, a mais culta e bella cortezã (Vidigal dizia «o melhor bocado») do Segundo Imperio, de que ella, pela graça especial da sua voluptuosidade intelligente, como Aspasia no seculo de Pericles, fôra a expressão e a flôr!

Muitas vezes eu lêra no

Figaro

os louvores de Anna de Léon, e sabia que poetas a tinham celebrado sob o nome de

Venus Victoriosa

. Os amores com a cortezã não me impressionaram decerto tanto como a intimidade com o homem das

Contemplações

: mas a minha incredulidade cessou―e Fradique assumiu para mim a estatura d'um d'esses sêres que, pela seducção ou pelo genio, como Alcibiades ou como Goethe, dominam uma civilisação, e d'ella colhem deliciosamente tudo o que ella póde dar em gostos e em triumphos.

Foi por isso talvez que córei, intimidado, quando Vidigal, reclamando outro sorvete de leite, se offereceu para me levar ao surprehendente Fradique. Sem me decidir, pensando em Novalis que tambem assim hesitava, enleado, ao subir uma manhã em Berlim as escadas d'Hegel―perguntei a Vidigal se o poeta das

Lapidarias

residia em Lisboa... Não! Fradique viera de Inglaterra visitar Cintra, que adorava, e onde comprára a quinta da

Saragoça

, no caminho dos Capuchos, para ter de verão em Portugal um repouso fidalgo. Estivera lá desde o dia de Santo Antonio:―e agora parára em Lisboa, no Hotel Central, antes de recolher a Paris, seu centro e seu lar. De resto, accrescentou Marcos, não havia como Fradique ninguem tão simples, tão alegre, tão facil. E, se eu desejava conhecer um homem genial, que esperasse ao outro dia, domingo, ás duas, depois da missa do Loreto, á porta da Casa Havaneza.

―Valeu? Ás duas, religiosamente, depois da missa!

Bateu-me o coração. Por fim, com um esforço, como Novalis no patamar d'Hegel, afiancei, pagando os sorvetes, que ao outro dia, ás duas, religiosamente, mas sem missa, estaria no portal da Havaneza!

II

Gastei a noite preparando phrases, cheias de profundidade e belleza, para lançar a Fradique Mendes! Tendiam todas á glorificação das

Lapidarias

. E lembro-me de ter, com amoroso cuidado, burilado e repolido esta:―«A fórma de v. exc.

a

é um marmore divino com estremecimentos humanos!»

De manhã apurei requintadamente a minha

toilette

como se, em vez de Fradique, fosse encontrar Anna de Léon―com quem já n'essa madrugada, n'um sonho repassado de erudição e sensibilidade, eu passeára na Via Sagrada que vai de Athenas a Eleusis, conversando, por entre os lyrios que desfolhavamos, sobre o ensino de Platão e a versificação das

Lapidarias

. E ás duas horas, dentro de uma tipoia, para que o macadam regado me não maculasse o verniz dos sapatos, parava na Havaneza, pallido, perfumado, commovido, com uma tremenda rosa de chá na lapella. Eramos assim em 1867!

Marcos Vidigal já me esperava, impaciente, roendo o charuto. Saltou para a tipoia; e batemos através do Loreto, que escaldava ao sol do agosto.

Na rua do Alecrim (para combater a pueril emoção que me enleava) perguntei ao meu companheiro quando publicaria Fradique as

Lapidarias

. Por entre o barulho das rodas Vidigal gritou:

―Nunca!

E contou que a publicação d'aquelles trechos na

Revolução de Setembro

quasi occasionára, entre Fradique e elle, «uma pega intellectual». Um dia, depois de almoço, em Cintra, emquanto Fradique fumava o seu

chibouk

persa, Vidigal, na sua familiaridade, como patricio e como parente, abrira sobre a mesa uma pasta de velludo negro. Descobrira, surprehendido, largas folhas de versos, n'uma tinta já amarellada. Eram as

Lapidarias

. Lêra a primeira, a

Serenada de Satan aos astros

. E, maravilhado, pedira a Fradique para publicar na

Revolução

algumas d'essas estrophes divinas. O primo sorrira, consentira―com a rigida condição de serem firmadas por um pseudonymo. Qual?... Fradique abandonava a escolha á phantasia de Vidigal. Na redacção, porém, ao revêr as provas, só lhe acudiram pseudonymos decrepitos e safados, o

Independente

, o

Amigo da Verdade

, o

Observador

―nenhum bastante novo para dignamente firmar poesia tão nova. Disse comsigo:―«Acabou-se! Sublimidade não é vergonha. Ponho-lhe o nome!» Mas quando Fradique viu a

Revolução de Setembro

ficou livido, e chamou regeladamente a Vidigal «indiscreto, burguez e philisteu»!―E aqui Vidigal parou para me pedir a significação de

philisteu

. Eu não sabia; mas archivei gulosamente o termo, como amargo. Recordo até que logo n'essa tarde, no Martinho, tratei de

philisteu

o auctor consideravel do

Avè César!

―De modo que, rematou Vidigal, é melhor não lhe fallares nas

Lapidarias

!

Sim! pensava eu. Talvez Fradique, á maneira do chanceller Bacon e d'outros homens grandes pela acção, deseje esconder d'este mundo de materialidade e de força o seu fino genio poetico! Ou talvez essa ira, ao vêr o seu nome impresso debaixo de versos com que se orgulharia Lecomte de Lisle, seja a do artista nobremente e perpetuamente insatisfeito que não aceita ante os homens como sua a obra onde sente imperfeições! Estes modos de ser, tão superiores e novos, cahiam na minha admiração como oleo n'uma fogueira. Ao pararmos no Central tremia d'acanhamento.

Senti um allivio quando o porteiro annunciou que o snr. Fradique Mendes, n'essa manhã, cedo, tomára uma caleche para Belem. Vidigal empallideceu, de desespero:

―Uma caleche! Para Belem!... Ha alguma coisa em Belem?

Murmurei, n'uma idéa d'Arte, que havia os Jeronymos. N'esse instante uma tipoia, lançada a trote, estacou na rua, com as pilecas fumegando. Um homem desceu, ligeiro e forte. Era Fradique Mendes.

Vidigal, alvoroçado, apresentou-me como um «poeta seu amigo». Elle adiantou a mão sorrindo―mão delicada e branca onde vermelhejava um rubi. Depois, acariciando o hombro do primo Marcos, abriu uma carta que lhe estendia o porteiro.

Pude então, á vontade, contemplar o cinzelador das

Lapidarias

, o familiar de Mazzini, o conquistador das Duas-Sicilias, o bem-adorado de Anna de Léon! O que me seduziu logo foi a sua esplendida solidez, a sã e viril proporção dos membros rijos, o aspecto calmo de poderosa estabilidade com que parecia assentar na vida, tão livremente e tão firmemente como sobre aquelle chão de ladrilhos onde pousavam os seus largos sapatos de verniz resplandecendo sob polainas de linho. A face era do feitio aquilino e grave que se chama

cesareano

, mas sem as linhas empastadas e a espessura flaccida que a tradição das Escólas invariavelmente attribue aos Cesares, na tela ou no gesso, para os revestir de magestade; antes pura e fina como a d'um Lucrecio moço, em plena gloria, todo nos sonhos da Virtude e da Arte. Na pelle, d'uma brancura lactea e fresca, a barba, por ser pouca decerto, não deixava depois de escanhoada nem aspereza nem sombra; apenas um buço crespo e leve lhe orlava os labios que, pela vermelhidão humida e pela sinuosidade subtil, pareciam igual e superiormente talhados para a Ironia e para o Amor. E toda a sua finura, misturada de energia, estava nos olhos―olhos pequenos e negros, brilhantes como contas de onyx, d'uma penetração aguda, talvez insistente de mais, que perfurava, se enterrava sem esforço, como uma verruma d'aço em madeira molle.

Trazia uma quinzena solta, d'uma fazenda preta e macia, igual á das calças que cahiam sem um vinco: o collete de linho branco fechava por botões de coral pallido: e o laço da gravata de setim negro, dando relevo á alvura espelhada dos collarinhos quebrados, offerecia a perfeição concisa que já me encantára no seu verso.

Não sei se as mulheres o considerariam

bello

. Eu achei-o um varão magnifico―dominando sobretudo por uma graça clara que sahia de toda a sua força mascula. Era o seu viço que deslumbrava. A vida de tão varias e trabalhosas actividades não lhe cavára uma prega de fadiga. Parecia ter emergido, havia momentos, assim de quinzena preta e barbeado, do fundo vivo da Natureza. E apesar de Vidigal me ter contado que Fradique festejára os «trinta e tres» em Cintra, pela festa de S. Pedro, eu sentia n'aquelle corpo a robustez tenra e agil de um ephebo, na infancia do mundo grego. Só quando sorria ou quando olhava se surprehendiam immediatamente n'elle vinte seculos de litteratura.

Depois de lêr a carta, Fradique Mendes abriu os braços, n'um gesto desolado e risonho, implorando a misericordia de Vidigal. Tratava-se, como sempre, da Alfandega, fonte perenne das suas amarguras! Agora tinha lá encalhado um caixote, contendo uma mumia egypcia...

―Uma mumia...?

Sim, perfeitamente, uma mumia historica, o corpo veridico e veneravel de Pentaour, escriba ritual do Templo de Amnon em Thebas, e chronista de Ramèzes II. Mandára-o vir de Paris para dar a uma senhora da Legação d'Inglaterra, Lady Ross, sua amiga d'Athenas, que em plena frescura e plena ventura, colleccionava antiguidades funerarias do Egypto e da Assyria... Mas, apesar d'esforços sagazes, não conseguia arrancar o defunto letrado aos armazens da Alfandega―que elle enchera de confusão e de horror. Logo na primeira tarde, quando Pentaour desembarcára, enfaixado dentro do seu caixão, a Alfandega aterrada avisou a policia. Depois, calmadas as desconfianças d'um crime, surgira uma insuperavel difficuldade:―que artigo da pauta se poderia applicar ao cadaver d'um hierogrammata do tempo de Ramèzes? Elle Fradique suggerira o artigo que taxa o arenque defumado. Realmente, no fundo, o que é um arenque defumado senão a mumia, sem ligaduras e sem inscripções, d'um arenque que viveu? Ter sido peixe ou escriba nada importava para os effeitos fiscaes. O que a Alfandega via diante de si era o corpo d'uma creatura, outr'ora palpitante, hoje seccada ao fumeiro. Se ella em vida nadava n'um cardume nas ondas do mar do Norte, ou se, nas margens do Nilo, ha quatro mil annos, arrolava as rezes de Amnon e commentava os

capitulos de fim de dia

―não era certamente da conta dos Poderes Publicos. Isto parecia-lhe logico. Todavia as auctoridades da Alfandega continuavam a hesitar, coçando o queixo, diante do cofre sarapintado que encerrava tanto saber e tanta piedade! E agora n'aquella carta os amigos Pintos Bastos aconselhavam, como mais nacional e mais rapido, que se arrancasse um

empenho

do Ministro da Fazenda para fazer sahir sem direitos o corpo augusto do escriba de Ramèzes. Ora este empenho, quem melhor para o alcançar que Marcos―esteio da Regeneração e seu Chronista musical?

Vidigal esfregava as mãos, illluminado. Ahi estava uma coisa bem digna d'elle, «bem catita»―salvar do fisco a mumia «d'um figurão pharaonico»! E arrebatou a carta dos Pintos Bastos, enfiou para a tipoia, gritou ao cocheiro a morada do Ministro, seu collega na

Revolução de Setembro

. Assim fiquei só com Fradique―que me convidou a subir aos seus quartos, e esperar Vidigal, bebendo uma «soda e limão».

Pela escada, o poeta das

Lapidarias

alludiu ao torrido calor d'agosto. E eu que n'esse instante, defronte do espelho no patamar, revistava, com um olhar furtivo, a linha da minha sobrecasaca e a frescura da minha rosa―deixei estouvadamente escapar esta coisa hedionda:

―Sim, está d'escachar!

E ainda o torpe som não morrera, já uma afflicção me lacerava, por esta «chulice» de esquina de tabacaria assim atabalhoadamente lançada como um pingo de sêbo sobre o supremo artista das

Lapidarias

, o homem que conversára com Hugo á beira-mar!... Entrei no quarto atordoado, com bagas de suor na face. E debalde rebuscava desesperadamente uma outra phrase sobre o calor, bem trabalhada, toda scintillante e nova! Nada! Só me acudiam sordidezes parallelas, em calão teimoso:―«é de rachar»! «está de ananazes»! «derrete os untos»!... Atravessei alli uma d'essas angustias atrozes e grotescas, que, aos vinte annos, quando se começa a vida e a litteratura, vincam a alma―e jámais esquecem.

Felizmente Fradique desapparecera por traz d'um reposteiro de alcova. Só, limpando o suor, considerando que altos pensadores se exprimem assim, com uma simplicidade rude,―serenei. E á perturbação succedeu a curiosidade de descobrir em torno, pelo aposento, algum vestigio da originalidade intensa do homem que o habitava. Vi apenas cançadas cadeiras de reps azul-ferrete, um lustre embuçado em tulle, e uma console, de altos pés dourados, entre as duas janellas que respiravam para o rio. Sómente, sobre o marmore da console, e por meio dos livros que atulhavam uma velha mesa de pau preto, pousavam soberbos ramos de flôres: e a um canto afofava-se um espaçoso divan, installado decerto por Fradique com colchões sobrepostos, que dois cobrejões orientaes revestiam de côres estridentes. Errava além d'isso em toda a sala um aroma desconhecido, que tambem me pareceu oriental, como feito de rosas de Smyrna, mescladas a um fio de canella e mangerona.

Fradique Mendes voltára de dentro, vestido com uma cabaia chineza! Cabaia de mandarim, de sêda verde, bordada a flôres de amendoeira―que me maravilhou e que me intimidou. Vi então que tinha o cabello castanho-escuro, fino e levemente ondeado sobre a testa, mais polida e branca que os marfins de Normandia. E os olhos, banhados agora n'uma luz franca, não apresentavam aquella negrura profunda que eu comparára ao onyx, mas uma côr quente de tabaco escuro da Havana. Accendeu uma cigarrette e ordenou a «soda e limão» a um creado surprehendente, muito louro, muito grave, com uma perola espetada na gravata, largas calças de xadrez verde e preto, e o peito florido por tres cravos amarellos! (Percebi que este servo magnifico se chamava Smith). O meu enleio crescia. Por fim Fradique murmurou, sorrindo, com sincera sympathia:

―Aquelle Marcos é uma flôr!

Concordei, contei a velha estima que me prendia a Vidigal, desde o primeiro anno de Coimbra, dos nossos tempos estouvados de Concertina e

Sebenta

. Então, alegremente, recordando Coimbra, Fradique perguntou-me pelo Pedro Penedo, pelo Paes, por outros lentes ainda, do antigo typo fradesco e bruto; depois pelas tias Camêlas, essas encantadoras velhas, que escrupulosamente, através de lascivas gerações d'estudantes, tinham permanecido virgens, para poderem no céo, ao lado de Santa Cecilia, passar toda uma eternidade a tocar harpa... Era uma das suas memorias melhores de Coimbra essa taverna das tias Camêlas, e as ceias desabaladas que custavam setenta reis, comidas ruidosamente na penumbra fumarenta das pipas, com o prato de sardinhas em cima dos joelhos, por entre temerosas contendas de Metaphysica e d'Arte. E que sardinhas! Que arte divina em frigir o peixe! Muitas vezes em Paris se lembrára das risadas, das illusões e dos piteus d'então!...

Tudo isto vinha n'um tom muito moço, sincero, singelo―que eu mentalmente classificava de

crystallino

. Elle estirára-se no divan; eu ficára rente da mesa, onde um ramo de rosas se desfolhava ao calor sobre volumes de Darwin e do Padre Manoel Bernardes. E então, dissipado o acanhamento, todo no appetite de revolver com aquelle homem genial idéas de Litteratura, sem me lembrar que, como Bacon, elle desejava esconder o seu genio poetico, ou artista insatisfeito nunca reconheceria a obra imperfeita,―alludi ás

Lapidarias

.

Fradique Mendes tirou a cigarette dos labios para rir―com um riso que seria genuinamente galhofeiro, se de certo modo o não contradissesse um laivo de vermelhidão que lhe subira á face côr de leite. Depois declarou que a publicação d'esses versos,

com a sua assignatura

, fôra uma perfidia do leviano Marcos. Elle não considerava

assignaveis

esses pedaços de prosa rimada, que decalcára, havia quinze annos, na idade em que se imita, sobre versos de Lecomte de Lisle, durante um verão de trabalho e de fé, n'uma trapeira do Luxemburgo, julgando-se a cada rima um innovador genial...

Eu acudi affirmando, todo em chamma, que depois da obra de Baudelaire nada em Arte me impressionára como as

Lapidarias

! E ia lançar a minha esplendida phrase, burilada n'essa noite com paciente cuidado:―«A fórma de v. exc.

a

é um marmore divino...» Mas Fradique deixára o divan e pousava em mim os olhos finos de onix, com uma curiosidade que me

verrumava

:

―Vejo então, disse elle, que é um devoto do maganão das

Flôres do Mal

!

Córei, áquelle espantoso termo de

maganão

. E, muito grave, confessei que para mim Baudelaire dominava, á maneira d'um grande astro, logo abaixo d'Hugo, na moderna Poesia. Então Fradique, sorrindo paternalmente, afiançou que bem cedo eu perderia essa illusão! Baudelaire (que elle conhecera) não era verdadeiramente um poeta. Poesia subentendia emoção: e Baudelaire, todo intellectual, não passava d'um psychologo, d'um analysta―um dissecador subtil d'estados morbidos. As

Flôres do Mal

continham apenas resumos criticos de torturas moraes que Baudelaire muito finamente comprehendera, mas nunca pessoalmente

sentira

. A sua obra era como a d'um pathologista, cujo coração bate normal e serenamente, emquanto descreve, á banca, n'uma folha de papel, pela erudição e observação accumuladas, as perturbações temerosas d'uma lesão cardiaca. Tanto assim que Baudelaire compuzera primeiro em prosa as

Flôres do Mal

―e só mais tarde, depois de rectificar a justeza das analyses, as passára a verso, laboriosamente, com um diccionario de rimas!... De resto em França (accrescentou o estranho homem) não havia poetas. A genuina expressão da clara intelligencia franceza era a prosa. Os seus mais finos conhecedores prefeririam sempre os poetas cuja poesia se caracterisasse pela precisão, lucidez, sobriedade―que são qualidades de prosa; e um poeta tornava-se tanto mais popular quanto mais visivelmente possuia o genio de prosador. Boileau continuaria a ser um classico e um immortal, quando já ninguem se lembrasse em França do tumultuoso lyrismo de Hugo...

Dizia estas coisas enormes n'uma voz lenta, penetrante―que ia recortando os termos com a certeza e a perfeição d'um buril. E eu escutava, varado! Que um Boileau, um pedagogo, um lambão de côrte, permanecesse nos cimos da Poesia Franceza, com a sua

Ode á tomada de Namur

, a sua cabelleira e a sua ferula, quando o nome do poeta da

Lenda dos Seculos

fosse como um suspiro do vento que passou―parecia-me uma d'essas affirmações, de rebuscada originalidade, com que se procura assombrar os simples, e que eu mentalmente classificava de

insolente

. Tinha mil coisas, abundantes e esmagadoras, a contestar: mas não ousava, por não poder apresental-as n'aquella fórma translucida e geometrica do poeta das

Lapidarias

. Essa cobardia, porém, e o esforço para reter os protestos do meu enthusiasmo pelos Mestres da minha mocidade, suffocava-me, enchia-me de mal-estar: e anciava só por abalar d'aquella sala onde, com tão bolorentas opiniões classicas, tanta rosa nas jarras e todas as molles exhalações de canella e mangerona,―se respirava conjuntamente um ar abafadiço de Serralho e de Academia.

Ao mesmo tempo julgava humilhante ter soltado apenas, n'aquella conversação com o familiar de Mazzini e d'Hugo, miudos reparos sobre o Pedro Penedo e o carrascão das Camêlas. E na justa ambição de deslumbrar Fradique com um resumo critico, provando as minhas finas letras, recorri á phrase, á lapidada phrase, sobre a fórma do seu verso. Sorrindo, retorcendo o buço, murmurei:―«Em todo o caso a fórma de v. exc.

a

é um marmore...» Subitamente, á porta que se abrira com estrondo, surgiu Vidigal:

―Tudo prompto! gritou. Despachei o defunto!

O ministro, homem de poesia, e de eloquencia, interessára-se francamente por aquella mumia d'um «collega», e jurára logo poupar-lhe o opprobrio de ser tarifada como peixe salgado. S. exc.

a

tinha mesmo ajuntado:―«Não, senhor! não, senhor! Ha de entrar livremente, com todas as honras devidas a um classico!» E logo de manhã Pentaour deixaria a Alfandega, de tipoia!

Fradique riu d'aquella designação de

classico

dada a um hierogrammata do tempo de Ramèzes―e Vidigal, triumphante, abancando ao piano, entoou com ardor a

Grã-Duqueza

. Então eu, tomado estranhamente, sem razão, por um sentimento de inferioridade e de melancolia, estendi a mão para o chapéo. Fradique não me reteve; mas os dois passos com que me acompanhou no corredor, o seu sorriso e o seu

shake-hands

, foram perfeitos. Apenas na rua, desabafei:―, foram perfeitos. Apenas na rua, desabafei:―«Que pedante!»

Sim, mas inteiramente

novo

, dessemelhante de todos os homens que eu até ahi conhecera! E á noite, na travessa do Guarda-Mór (occultando a escandalosa apologia de Boileau, para nada d'elle mostrar imperfeito), espantei J. Teixeira d'Azevedo com

um

Fradique idealisado, em que tudo era irresistivel, as idéas, o verbo, a cabaia de sêda, a face marmorea de Lucrecio moço, o perfume que esparzia, a graça, a erudição e o gosto!

J. Teixeira d'Azevedo tinha o enthusiasmo difficil e lento em fumegar. O homem deu-lhe apenas a impressão de ser postiço e theatral. Concordou no emtanto que convinha ir estudar «um machinismo de

pose

montado com tanto luxo»!

Fomos ambos ao Central, dias depois, no fundo d'uma tipoia. Eu, engravatado em setim, de gardenia ao peito. J. Teixeira d'Azevedo, caracterisado de «Diogenes do seculo XIX», com um pavoroso cacete ponteado de ferro, chapéo braguez orlado de sêbo, jaquetão encardido e remendado que lhe emprestára o creado, e grossos tamancos ruraes!... Tudo isto arranjado com trabalho, com despeza, com intenso nojo, só para horrorisar Fradique―e diante d'esse homem de sceptismo e de luxo, altivamente affirmar, como democrata e como idealista, a grandeza moral do remendo e a philosophica austeridade da nodoa! Eramos assim em 1867!

Tudo perdido! Perdida a minha gardenia, perdida a immundicie estoica do meu camarada! O snr. Fradique Mendes (disse o porteiro) partira na vespera n'um vapor que ia buscar bois a Marrocos.

III

Alguns annos passaram. Trabalhei, viajei. Melhor fui conhecendo os homens e a realidade das coisas, perdi a idolatria da Fórma, não tornei a lêr Baudelaire. Marcos Vidigal, que, através da

Revolução de Setembro

, trepára da Chronica Musical á Administração Civil, governava a India como Secretario Geral, de novo entregue, n'esses ocios asiaticos que lhe fazia o Estado, á

Historia da Musica

e á concertina: e levado assim esse grato amigo do Tejo para o Mandovi eu não soubera mais do poeta das

Lapidarias

. Nunca porém se me apagára a lembrança do homem singular. Antes por vezes me succedia de repente

vêr

, claramente

vêr

, n'um relevo quasi tangivel―a face eburnea e fresca, os olhos côr de tabaco insistentes e verrumando, o sorriso sinuoso e sceptico onde viviam vinte seculos de litteratura.

Em 1871 percorri o Egypto. Uma occasião, em Memphis, ou no sitio em que foi Memphis, navegava nas margens inundadas do Nilo, por entre palmeiraes que emergiam da agua, e reproduziam sobre um fundo radiante de luar oriental, o recolhimento e a solemnidade triste de longas arcarias de claustros. Era uma solidão, um vasto silencio de terra morta, apenas dôcemente quebrado pela cadencia dos remos e pelo canto dolente do arraes... E eis que subitamente (sem que recordação alguma evocasse até esta imagem)―

vejo

, nitidamente

vejo

, avançando com o barco, e com elle cortando as faxas de luz e sombra, o quarto do Hotel Central, o grande divan de côres estridentes, e Fradique, na sua cabaia de sêda, celebrando por entre o fumo da cigarette a immortalidade de Boileau! E eu mesmo já não estava no Oriente, nem em Memphis, sobre as immoveis aguas do Nilo; mas lá, entre o reps azul, sob o lustre embuçado em tulle, diante das duas janellas que miravam o Tejo, sentindo em baixo as carroças de ferragens rolarem para o Arsenal. Perdera porém o acanhamento que então me enleava. E, durante o tempo que assim remámos n'esta decoração pharaonica para a morada do Sheik de Abou-Kair, fui argumentando com o poeta das

Lapidarias

, e enunciando emfim, na defeza de Hugo e Baudelaire, as coisas finas e tremendas com que o devia ter emmudecido n'aquella tarde de agosto! O arraes cantava os vergeis de Damasco. Eu berrava mentalmente:―«Mas veja v. exc.

a

nos

Miseraveis

a alta lição moral...»

Ao outro dia, que era o da festa do Beiram, recolhi ao Cairo pela hora mais quente; quando os

muezzins

cantam a terceira oração. E ao apear do meu burro, diante do Hotel Sheperd, nos jardins do Ezbekieh, quem hei de eu avistar? Que homem, d'entre todos os homens, avistei eu no terraço, estendido n'uma comprida cadeira de vime, com as mãos cruzadas por traz da nuca, o

Times

esquecido sobre os joelhos, embebendo-se todo de calor e de luz? Fradique Mendes.

Galguei os degraus do terraço, lançando o nome de Fradique, por entre um riso de transbordante prazer. Sem desarranjar a sua beatitude, elle descruzou apenas um braço que me estendeu com lentidão. O encanto do seu acolhimento esteve na facilidade com que me reconheceu, sob as minhas lunetas azues, e o meu vasto chapéo panamá:

―«Então como vai desde o Hotel Central?... Ha quanto tempo pelo Cairo?»

Teve ainda outras palavras indolentes e affaveis. N'um banco ao seu lado, todo eu sorria, limpando o pó que me empastára a face com uma espessura de mascara. Durante o curto e dôce momento que alli conversámos, soube que Fradique chegára havia uma semana de Suez, vindo das margens do Euphrates e da Persia, por onde errára, como nos contos de fadas, um anno inteiro e um dia; que tinha um

debarieh

, com o lindo nome de

Rosa das Aguas

, já tripulado e amarrado á sua espera no caes de Boulak; e que ia n'elle subir o Nilo até ao Alto Egypto, até á Nubia, ainda para além de Ibsambul...

Todo o sol do Mar Vermelho e das planicies do Euphrates não lhe tostára a pelle lactea. Trazia, exactamente como no Hotel Central, uma larga quinzena preta e um collete branco fechado por botões de coral. E o laço da gravata de setim negro representava bem, n'aquella terra de roupagens soltas e rutilantes, a precisão formalista das idéas occidentaes.

Perguntou-me pela pachorrenta Lisboa, por Vidigal que burocratisava entre os palmares brahmanicos... Depois, como eu continuava a esfregar o suor e o pó, aconselhou que me purificasse n'um banho turco, na piscina que fica ao pé da Mesquita de El-Monyed, e que repousasse toda a tarde, para percorrermos á noite as illuminações do Beiram.

Mas em logar de descançar, depois do banho lustral, tentei ainda, ao trote dôce de um burro, através da poeira quente do deserto libyco, visitar fóra do Cairo as sepulturas dos Kalifas. Quando á noite, na sala do Sheperd, me sentei diante da sopa de «rabo de boi», a fadiga tirára-me o animo de pasmar para outras maravilhas musulmanas. O que me appetecia era o leito fresco, no meu quarto forrado de esteiras, onde tão romanticamente se ouviam cantar no jardim as fontes entre os rosaes.

Fradique Mendes já estava jantando, n'uma mesa onde flammejava, entre as luzes, um ramo enorme de cactos. Ao seu lado pousava de leve, sobre um escabello mourisco, uma senhora, vestida de branco, a quem eu só via a massa esplendida dos cabellos louros, e as costas, perfeitas e graciosas, como as d'uma estatua de Praxiteles que usasse um collete de Madame Marcel; defronte, n'uma cadeira de braços, alastrava-se um homem gordo e molle, cuja vasta face, de barbas encaracoladas, cheia de força tranquilla como a de um Jupiter, eu já decerto encontrára algures, ou viva ou em marmore. E cahi logo n'esta preoccupação. Em que rua, em que museu admirára eu já aquelle rosto olympico, onde apenas a fadiga do olhar, sob as palpebras pesadas, trahia a argilla mortal?

Terminei por perguntar ao negro de Seneh que servia o macarrão. O selvagem escancarou um riso de faiscante alvura no ebano do carão redondo, e, através da mesa, grunhiu com respeito:―

Cé-le-diêu

... Justos céos!

Le Dieu!

Intentaria o negro affirmar que aquelle homem de barbas encaracoladas

era um Deus

―

o Deus

especial e conhecido que habitava o Sheperd! Fôra pois n'um altar, n'uma téla devota, que eu vira essa face, dilatada em magestade pela absorpção perenne do incenso e da prece? De novo interroguei o Nubio quando elle voltou erguendo nas mãos espalmadas uma travessa que fumegava. De novo o Nubio me atirou, em syllabas claras, bem feridas, dissipando toda a incerteza―

C'est le Dieu!

Era um Deus! Sorri a esta idéa de litteratura―um Deus de rabona, jantando á mesa do Hotel Sheperd. E, pouco a pouco, da minha imaginação esfalfada foi-se evolando não sei que sonho, esparso e tenue, como o fumo que se eleva de uma brazeira meio apagada. Era sobre o Olympo, e os velhos Deuses, e aquelle amigo de Fradique que se parecia com Jupiter. Os Deuses (scismava eu, colhendo garfadas lentas da salada de tomates) não tinham talvez morrido: e desde a chegada de S. Paulo á Grecia, viviam refugiados n'um valle da Laconia, outra vez entregues, nos ocios que lhes impozera o Deus novo, ás suas occupações primordiaes de lavradores e pastores. Sómente, já pelo habito que os Deuses nunca perderam de imitar os homens, já para escapar aos ultrajes d'uma Christandade pudibunda, os olympicos abafavam sob saias e jaquetões o esplendor das nudezas que a Antiguidade adorára: e como tomavam outros costumes humanos, ora por necessidade (cada dia se torna mais difficil ser Deus), ora por curiosidade (cada dia se torna mais divertido ser Homem), os Deuses iam lentamente consummando a sua humanisação. Já por vezes deixavam a doçura do seu valle bucolico; e com bahús, com saccos de tapete, viajavam por distracção ou negocios, folheando os

Guias Bedecker

. Uns iam estudar nas cidades, entre a Civilisação, as maravilhas da Imprensa, do Parlamentarismo e do Gaz; outros, aconselhados pelo erudito Hermes, cortavam a monotonia dos longos estios da Attica bebendo as aguas em Vichy ou em Carlsbad: outros ainda, na saudade imperecivel das omnipotencias passadas, peregrinavam até ás ruinas dos templos onde outr'ora lhes era offertado o mel e o sangue das rezes. Assim se tornava verosimil que aquelle homem, cuja face cheia de magestade e força serena reproduzia as feições com que Jupiter se revelou á Escóla d'Athenas―fosse na realidade Jupiter, o Tonante, o Fecundador, pai inesgotavel dos Deuses, creador da Regra e da Ordem. Mas que motivo o traria alli, vestido de flanella azul, pelo Cairo, pelo Hotel Sheperd, comendo um macarrão que profanadoramente se prendia ás barbas divinas por onde a ambrosia escorrera? Certamente o dôce motivo que através da Antiguidade, em Céo e Terra, sempre inspirára os actos de Jupiter―do frascario e femeeiro Jupiter. O que o podia arrastar ao Cairo senão

alguma saia

, esse desejo esplendidamente insaciavel de deusas e de mulheres que outr'ora tornava pensativas as donzellas da Hellenia ao decorarem na Cartilha Pagã as datas em que elle batera as azas de Cysne entre os joelhos de Leda, sacudira as pontas de touro entre os braços d'Europa, gottejára em pingos d'ouro sobre o seio de Danae, pulára em linguas de fogo até aos labios d'Egina, e mesmo um dia, enojando Minerva e as damas sérias do Olympo, atravessára toda a Macedonia com uma escada ao hombro para trepar ao alto eirado da morena Seméle? Agora, evidentemente, viera ao Cairo passar umas férias sentimentaes, longe da Juno molle e conjugal, com aquella viçosa mulher, cujo busto irresistivel provinha das artes conjuntas de Praxiteles e de Madame Marcel. E ella, quem seria ella? A côr das suas tranças, a suave ondulação dos seus hombros, tudo indicava claramente uma d'essas deliciosas Nymphas das Ilhas da Ionia, que outr'ora os Diaconos Christãos expulsavam dos seus frescos regatos, para n'elles baptisar centuriões cacheticos e comidos de dividas, ou velhas matronas com pêllo no queixo, tropegas do incessante peregrinar aos altares de Aphrodite. Nem elle nem ella porém podiam esconder a sua origem divina: através do vestido de cassa o corpo da Nympha irradiava uma claridade; e, attendendo bem, vêr-se-hia a fronte marmorea de Jupiter arfar em cadencia, no calmo esforço de perpetuamente conceber a Regra e a Ordem.

Mas Fradique? Como se achava alli Fradique, na intimidade dos Immortaes, bebendo com elles champagne Clicquot, ouvindo de perto a harmonia ineffavel da palavra de Jove? Fradique era um dos derradeiros crentes do Olympo, devotamente prostrado diante da Fórma, e transbordando de alegria pagã. Visitára a Laconia; fallava a lingua dos Deuses; recebia d'elles a inspiração. Nada mais consequente do que descobrir Jupiter no Cairo, e prender-se logo ao seu serviço, como

cicerone

, nas terras barbaras de Allah. E certamente com elle e com a Nympha da Ionia ia Fradique subir o Nilo, na

Rosa das Aguas

, até aos derrocados templos onde Jupiter poderia murmurar, pensativo, e indicando minas d'aras com a ponta do guarda-sol:―«Abichei aqui muito incenso!»

Assim, através da salada de tomates, eu desenvolvia e coordenava estas imaginações―decidido a convertel-as n'um Conto para publicar em Lisboa na

Gazeta de Portugal

. Devia chamar-se

A derradeira campanha de Jupiter

:―e n'elle obtinha o fundo erudito e phantasista para incrustar todas as notas de costumes e de paizagens colhidas na minha viagem do Egypto. Sómente, para dar ao conto um relevo de modernidade e de realismo picante, levaria a Nympha das aguas, durante a jornada do Nilo, a enamorar-se de Fradique e a trahir Jupiter! E eil-a aproveitando cada recanto de palmeiral e cada sombra lançada pelos velhos pilones d'Osiris para se pendurar do pescoço do poeta das

Lapidarias

, murmurar-lhe coisas em grego mais dôces que os versos de Hesiodo, deixar-lhe nas flanellas o seu aroma de ambrosia, e ser por todo esse valle do Nilo immensamente

cochonne

―emquanto o Pai dos Deuses, cofiando as barbas encaracoladas, continuaria imperturbavelmente a conceber a Ordem, supremo, augusto, perfeito, ancestral e cornudo!

Enthusiasmado, já construia a primeira linha do Conto: «Era no Cairo, nos jardins de Choubra, depois do jejum do Ramadan...»―quando vi Fradique adiantar-se para mim, com a sua chavena de café na mão. Jupiter tambem se erguera, cançadamente. Pareceu-me um Deus pesado e molle, com um principio de obesidade, arrastando a perna tarda, bem proprio para o ultrage que eu lhe preparava na

Gazeta de Portugal

. Ella porém tinha a harmonia, o aroma, o andar, a irradiação d'uma Deusa!... Tão realmente divina que resolvi logo substituir-me a Fradique no Conto, ser eu o

cicerone

, e com os Immortaes vogar á véla e á sirga sobre o rio de immortalidade! Junto á minha face, não á de Fradique, balbuciaria ella, desfallecendo de paixão entre os granitos sacerdotaes de Medinet-Abou, as coisas mais dôces da

Anthologia

! Ao menos, em sonho, realisava uma triumphal viagem a Thebas. E faria pensar aos assignantes da

Gazeta de Portugal

:―«O que elle por lá gozou!»

Fradique sentára-se, recebendo, de Jove e da Nympha que passavam, um sorriso cuja doçura tambem me envolveu. Vivamente puxei a cadeira para o poeta das

Lapidarias

:

―Quem é este homem? Conheço-lhe a cara...

―Naturalmente, de gravuras... É Gautier!

Gautier! Theophilo Gautier! O grande Theo! O mestre impeccavel! Outro ardente enlevo da minha mocidade! Não me enganára pois inteiramente. Se não era um Olympico―era pelo menos o derradeiro Pagão, conservando, n'estes tempos de abstracta e cinzenta intellectualidade, a religião verdadeira da Linha e da Côr! E esta intimidade de Fradique com o auctor de

Mademoiselle de Maupin

, com o velho paladino de

Hernani

, tornou-me logo mais precioso este compatriota que dava á nossa gasta Patria um lustre tão original! Para saber se elle preferia aniz ou genebra acariciei-lhe a manga com meiguice. E foi em mim um extase ruidoso, diante da sua agudeza, quando elle me aclarou o grunhir do negro de Seneh. O que eu tomára pelo annuncio d'uma presença divina significava apenas―

c'est le deux!

Gautier no hotel occupava o quarto numero dois. E, para o barbaro, o plastico mestre do Romantismo era apenas―

o dois!

Contei-lhe então a minha phantasia pagã, o Conto que ia trabalhar, os perfeitos dias de paixão que lhe destinava na viagem para a Nubia. Pedi mesmo permissão para lhe dedicar a

Derradeira Campanha de Jupiter

. Fradique sorriu, agradeceu. Desejaria bem (confessou elle) que essa fosse a realidade, porque não se podia encontrar mulher de mais genuina belleza e de mais aguda seducção do que essa Nympha das aguas, que se chamava Jeanne Morlaix, e era comparsa dos

Delassements-Comiques

. Mas, para seu mal, a radiosa creatura estava caninamente namorada de um Sicard, corretor de fundos, que a trouxera ao Cairo, e que fôra n'essa tarde, com banqueiros gregos, jantar aos jardins de Choubra...

―Em todo o caso, accrescentou o originalissimo homem, nunca esquecerei, meu caro patricio, a sua encantadora intenção!

Descartes, zombando, creio eu, da physica Epicuriana ou atomista, falla algures das affeiçoes produzidas pelos

Atomes crochus

, atomos recurvos, em fórma de colchete ou d'anzol, que se engancham invisivelmente de coração a coração, e formam essas

cadeias

, resistentes como o bronze de Samothracia, que para sempre ligam e fundem dois sêres, n'uma constancia vencedora da Sorte e sobrevivente á Vida. Um qualquer

nada

provoca esse fatal ou providencial enlaçamento d'atomos. Por vezes um olhar, como desastradamente em Verona succedeu a Romeu e Julieta: por vezes o impulso de duas creanças para o mesmo fructo, n'um vergel real, como na amizade classica de Orestes e Pylades. Ora, por esta theoria (tão satisfatoria como qualquer outra em Psychologia affectiva), a esplendida aventura de amor, que eu tão generosamente reservára a Fradique na

Ultima campanha de Jupiter

, seria a causa mysteriosa e inconsciente, o

nada

que determinou a sua primeira sympathia para commigo, desenvolvida, solidificada depois em seis annos de intimidade intellectual.

Muitas vezes, no decurso da nossa convivencia, Fradique alludiu gratamente a essa minha

encantadora intenção

de lhe atar em torno do pescoço os braços de Jeanne Morlaix. Fôra elle captivado pela sinuosa e poetica homenagem que eu assim prestava ás suas seducções de homem? Não sei.―Mas, quando nos erguemos para ir vêr as illuminações do Beiram, Fradique Mendes, com um modo novo, aberto, quente, quasi intimo, já me tratava por

vossê

.

As illuminações no Oriente consistem, como as do Minho, de tigellinhas de barro e de vidro onde arde um pavio ou uma mecha d'estopa. Mas a descomedida profusão com que se prodigalisam as tigellinhas (quando as paga o Pachá) torna as velhas cidades meio arruinadas, que assim se enfeitam em louvor de Allah, realmente deslumbrantes―sobretudo para um occidental besuntado de litteratura, e inclinado a vêr por toda a parte, reproduzidas no moderno Oriente, as muito lidas maravilhas d'essas

Mil e uma noites

que ninguem jámais leu.

Na celebração do Beiram (custeada pelo Khediva), as tigellinhas eram incontaveis―e todas as linhas do Cairo, as mais quebradas e as mais fugidias, resaltavam na escuridão, esplendidamente sublinhadas por um risco de luz. Longas fieiras de pontos refulgentes marcavam a borda dos eirados; as portas abriam sob ferraduras de lumes; dos toldos pendia uma franja que faiscava; um brilho tremia, com a aragem, sobre cada folha d'arvore; e os minaretes, que a Poesia Oriental classicamente compara desde seculos aos braços da Terra levantados para o Céo, ostentavam, como braços em noite de festa, um luxo de braceletes fulgindo na treva serena. Era (lembrei eu a Fradique) como se durante todo o dia tivesse cahido sobre a sordida cidade uma grossa poeirada d'ouro, pousando em cada friso de

moucharabieh

e em cada grade de varandim, e agora rebrilhasse, com radiosa saliencia, na negrura da noite calma.

Mas, para mim, a belleza especial e nova estava na multidão festiva que atulhava as praças e os bazares―e que Fradique, através do rumor e da poeira, me explicava como um livro de estampas. Com quanta profundidade e miudeza conhecia o Oriente este patricio admiravel! De todas aquellas gentes, intensamente diversas desde a côr até ao traje―elle sabia a raça, a historia, os costumes, o logar proprio na civilisação musalmana. Devagar, abotoado n'um paletot de flanella, com um chicote de nervo (que é no Egypto o emblema de Auctoridade) entalado debaixo do braço, ia apontando, nomeando á minha curiosidade flammejante essas estranhas figuras, que eu comparava, rindo, ás d'uma mascarada fabulosa, arranjada por um archeologo em noite de folia erudita para reproduzir as «modas» dos Semitas e os seus «typos» através das idades:―aqui Fellahs, ridentes e ageis na sua longa camisa de algodão azul; além Beduinos sombrios, movendo gravemente os pés entrapados em ligaduras, com o pesado alfange de bainha escarlate pendurado no peito; mais longe Abadiehs, de grenha em fórma de mêda, eriçada de longas cerdas de porco-espinho que os corôam d'uma aureola negra... Estes, de porte insolente; com compridos bigodes esvoaçando ao vento, armas ricas reluzindo nas cintas de sêda, e curtos saiotes tufados e encanudados, eram Arnautas da Macedonia; aquelles, bellas estatuas gregas esculpidas em ebano, eram homens do Sennar; os outros, com a cabeça envolta n'um lenço amarello cujas franjas immensas lhes faziam uma romeira de fios d'ouro, eram cavalleiros do Hedjaz... E quantos ainda elle me fazia distinguir e comprehender! Judeus immundos, de caracoes frisados; Coptas togados á maneira de senadores; soldados pretos do Darfour, com fardetas de linho ennodoadas de poeira e sangue; Ulemas de turbante verde; Persas de mitra de feltro; mendigos de mesquita, cobertos de chagas; amanuenses turcos, pomposos e anafados, de collete bordado a ouro... Que sei eu! Um Carnaval rutilante, onde a cada momento passavam, sacudidos pelo trote dos burros sobre albardas vermelhas, enormes saccos enfunados―que eram mulheres. E toda esta turba magnifica e ruidosa se movia entre invocações a Allah, repiques de pandeiretas, gemidos estridentes partindo das cordas das

dourbakas

, e cantos lentos―esses cantos arabes, d'uma voluptuosidade tão dolente e tão aspera, que Fradique dizia passarem n'alma com uma «caricia rascante». Mas por vezes, entre o casario decrepito e rendilhado, surgia uma frontaria branca, casa rica de Sheik ou de Pachá, com a varanda em arcarias, por onde se avistavam lá dentro, n'um silencio de harem, sêdas colgantes, recamos d'ouro, um tremor de lumes no crystral dos lustres, fórmas airosas sob véos claros... Então a multidão parava, emmudecia, e de todos os labios sahia um grande

ah!

languido e maravilhado.

Assim caminhavamos, quando, ao sahir do Moujik, Fradique Mendes parou, e, muito gravemente, trocou com um moço pallido, de esplendidos olhos, o

salam

―essa saudação oriental em que os dedos tres vezes batem a testa, a bôca e o coração. E como eu, rindo, lhe invejava aquella intimidade com um «homem de tunica verde e de mitra persa»:

―É um Ulema de Bagdad, disse Fradique, d'uma casta antiga, superiormente intelligente... Uma das personalidades mais finas e mais seductoras que encontrei na Persia!

Então, com a familiaridade que se ia entre nós accentuando, perguntei a Fradique o que o detivera assim na Persia um anno inteiro e um dia como nos contos de fadas. E Fradique, com toda a singeleza, confessou que se demorára tanto nas margens do Euphrates por se achar casualmente ligado a um movimento religioso que, desde 1849, tomava na Persia um desenvolvimento quasi triumphal, e que se chamava o

Babismo

. Attrahido para essa nova seita por curiosidade critica, para observar como nasce e se funda uma Religião, chegára pouco a pouco a ganhar pelo Babismo um interesse militante―não por admiração da doutrina, mas por veneração dos apostolos. O Babismo (contou-me elle, seguindo por uma viella mais solitaria e favoravel ás confidencias) tivera por iniciador certo Mirza-Mohamed, um d'esses Messias que cada dia surgem na incessante fermentação religiosa do Oriente, onde a religião é a occupação suprema e querida da vida. Tendo conhecido os Evangelhos Christãos por contacto com os Missionarios; iniciado na pura tradição mosaista pelos judeus do Hiraz; sabedor profundo do Guebrismo, a velha religião nacional da Persia―Mirza-Mohamed amalgamára estas doutrinas com uma concepção mais abstracta e pura do Mahometismo, e declarára-se

Bab

. Em persa

Bab

quer dizer

Porta

. Elle era, pois, a

porta

―a unica

porta

através da qual os homens poderiam jámais penetrar na absoluta Verdade. Mais litteralmente, Mirza-Mohamed apresentava-se como o grande

porteiro

, o homem eleito entre todos pelo Senhor para abrir aos crentes a porta da Verdade―e portanto do Paraiso. Em resumo era um Messias, um Christo. Como tal atravessou a classica evolução dos Messias: teve por primeiros discipulos, n'uma aldeia obscura, pastores e mulheres: soffreu a sua tentação na montanha: cumpriu as penitencias expiadoras: prégou parabolas: escandalisou em Méca os doutores: e padeceu a sua Paixão, morrendo, não me lembro se degolado, se fuzilado, depois do jejum do Rhamadan, em Tabriz.

Ora, dizia Fradique, no mundo musulmano ha duas divisões religiosas―os Sieds e os Sunis. Os Persas são Sieds, como os Turcos são Sunis. Estas differenças porém, no fundo, têm um caracter mais politico e de raça, do que theologico e de dogma; ainda que um fellah do Nilo desprezará sempre um persa do Euphrates como

heretico

e

sujo

. A discordancia resalta, mais viva e teimosa, logo que Sieds ou Sunis necessitem pronunciar-se perante uma nova interpretação de doutrina ou uma nova apparição de propheta. Assim o Babismo entre os Sieds, topára com uma hostilidade que se avivou até á perseguição:―a isto desde logo indicava que seria acolhido pelos Sunis com deferencia e sympathia.

Partindo d'esta idéa, Fradique, que em Bagdad se ligára familiarmente com um dos mais vigorosos e auctorisados apostolos do Babismo, Said-El-Souriz (a quem salvára o filho d'uma febre paludosa com applicações de

Fruit-salt

), suggerira-lhe um dia, conversando ambos no eirado sobre estes altos interesses espirituaes, a idéa de apoiar o Babismo nas raças agricolas do valle do Nilo e nas raças nómadas da Libya. Entre homens de seita Suni, o Babismo encontraria um campo facil ás conversões; e, pela tradicional marcha dos movimentos sectarios, que no Oriente, como em toda a parte, sobem das massas sinceras do povo até ás classes cultas, talvez essa nova onda de emoção religiosa, partindo dos Fellahs e dos Beduinos, chegasse a penetrar no ensino de alguma das mesquitas do Cairo, sobretudo na mesquita de El-Azhar, a grande Universidade do Oriente, onde os ulemas mais moços formam uma cohorte de enthusiastas sempre disposta ás innovações e aos apostolados combattentes. Ganhando ahi auctoridade theologica, e litterariamente polido, o Babismo poderia então atacar com vantagem as velhas fortalezas do Musulmanismo dogmatico. Esta idéa penetrára profundamente em Said-El-Souriz. Aquelle moço pallido, com quem elle trocára o

salam

, fôra logo mandado como emissario babista a Medinet-Abou (a antiga Thebas), para sondar o Sheik Ali-Hussein, homem de decisiva influencia em todo o valle do Nilo pelo seu saber e pela sua virtude: e elle, Fradique, não tendo agora no Occidente occupações attractivas, cheio de curiosidade por este pittoresco Advento, partia tambem para Thebas, devendo encontrar-se com o babista, á lua mingoante, em Beni-Soueff, no Nilo...

Não recordo, depois de tantos annos, se estes eram os factos certos. Só sei que as revelações de Fradique, lançadas assim através do Cairo em festa, me impressionaram indizivelmente. Á medida que elle fallava do Bab, d'essa missão apostolica ao velho Sheik de Thebas, de uma outra fé surgindo no mundo musulmano com o seu cortejo de martyrios e d'extasis, da possivel fundação de um imperio Babista―o homem tomava aos meus olhos proporções grandiosas. Não conhecera jámais ninguem envolvido em coisas tão altas: e sentia-me ao mesmo tempo orgulhoso e aterrado de receber este segredo sublime. Outra não seria minha commoção, se, nas vesperas de S. Paulo embarcar para a Grecia, a levar a Palavra aos gentilicos, eu tivesse com elle passeado pelas ruas estreitas de Seleucia, ouvindo-lhe as esperanças e os sonhos!

Assim conversando, penetrámos no adro da mesquita de El-Azhar onde mais fulgurante e estridente tumultuava a festa do Beiram. Mas já não me prendiam as surprezas d'aquelle arraial musulmano―nem

almées

dançando entre brilhos de vermelho e d'ouro; nem poetas do deserto recitando as façanhas d'Antar; nem Derviches, sob as suas tendas de linho, uivando em cadencia os louvores d'Allah... Calado, invadido pelo pensamento do Bab, revolvia commigo o confuso desejo de me aventurar n'essa campanha espiritual! Se eu partisse para Thebas com Fradique?... Porque não? Tinha a mocidade, tinha o enthusiasmo. Mais viril e nobre seria encetar no Oriente uma carreira de evangelista, que banalmente recolher á banal Lisboa, a escrevinhar tiras de papel, sob um bico de gaz, na

Gazeta de Portugal

! E pouco a pouco d'este desejo, como d'uma agua que ferve, ia subindo o vapor lento d'uma visão. Via-me discipulo do Bab―recebendo n'essa noite, do ulema de Bagdad, a iniciação da Verdade. E partia logo a prégar, a espalhar o verbo babista. Onde iria? A Portugal certamente, levando de preferencia a salvação ás almas que me eram mais caras. Como S. Paulo, embarcava n'uma galera: as tormentas assaltavam a minha prôa apostolica: a imagem do Bab apparecia-me sobre as aguas, e o seu sereno olhar enchia minha alma de fortaleza indomavel. Um dia, por fim, avistava terra, e na manhã clara sulcava o claro Tejo, onde ha tantos seculos não entra um enviado de Deus. Logo de longe lançava uma injuria ás igrejas de Lisboa, construcções d'uma Fé vetusta e menos pura. Desembarcava. E, abandonando as minhas bagagens, n'um desprendimento já divino de bens ainda terrestres, galgava aquella bemdita rua do Alecrim, e em meio do Loreto, á hora em que os Directores Geraes sobem devagar da Arcada, abria os braços e bradava:―«Eu sou a

Porta

!»

Não mergulhei no Apostolado babista―mas succedeu que, enlevado n'estas phantasmagorias, me perdi de Fradique. E não sabia o caminho do Hotel Sheperd,―nem, para d'elle me informar, outros termos uteis, em arabe, além de

agua

e

amor

! Foram angustiosos momentos em que farejei estonteado pelo largo de El-Azhar, tropeçando nos fogareiros onde fervia o café, esbarrando inconsideradamente contra rudes beduinos armados. Já por sobre a turba atirava, aos brados, o nome de Fradique―quando topei com elle olhando placidamente uma

almée

que dançava...

Mas seguiu logo, encolhendo os hombros. Nem me permittiu adiante admirar um poeta, que, em meio de fellahs pasmados e de Moghrebinos arrimados ás lanças, lia, n'uma toada langorosa e triste, tiras de papel ensebado. A Dança e a Poesia, affirmava Fradique, as duas grandes artes orientaes, iam em miserrima decadencia. N'uma e outra se tinham perdido as tradições do estylo puro. As

almées

, pervertidas pela influencia dos casinos do Ezbequieh onde se perneia o can-can―já polluiam a graça das velhas danças arabes, atirando a perna pelos ares á moda vil de Marselha! E na Poesia triumphava a mesma banalidade, mesclada de extravagancia. As fórmas delicadas do classicismo persa nem se respeitavam, nem quasi se conheciam; a fonte da imaginação seccava entre os musulmanos; e a pobre Poesia Oriental, tratando themas vetustos com uma emphase preciosa, descambára, como a nossa, n'um

Parnasianismo

barbaro...

―De sorte, murmurei, que o Oriente...

―Está tão mediocre como o Occidente.

E recolhemos ao hotel, devagar, emquanto Fradique, findando o charuto, me contava que o espirito oriental, hoje, vive só da actividade philosophica, agitado cada manhã por uma nova e complicada concepção da Moral, que lhe offerecem os Logicos dos bazares e os Metaphysicos do deserto...

Ao outro dia acompanhei Fradique a Boulak, onde elle ia embarcar para o Alto Egypto. O seu

debarieh

esperava, amarrado á estacaria, rente das casas do Velho Cairo, entre barcas d'Assouan, carregadas de lentilha e de cana dôce. O sol mergulhava nas areias libycas: e ao alto, o céo adormecia, sem uma sombra, sem uma nuvem, puro em toda a sua profundidade como a alma d'um justo. Uma fila de mulheres coptas, com o cantaro amarello pousado no hombro, descia cantando para a agua do Nilo, bemdita entre todas as aguas. E os ibis, antes de recolher aos ninhos, vinham, como no tempo em que eram Deuses, lançar por sobre os eira esperava, amarrado á estacaria, rente das casas do Velho Cairo, entre barcas d'Assouan, carregadas de lentilha e de cana dôce. O sol mergulhava nas areias libycas: e ao alto, o céo adormecia, sem uma sombra, sem uma nuvem, puro em toda a sua profundidade como a alma d'um justo. Uma fila de mulheres coptas, com o cantaro amarello pousado no hombro, descia cantando para a agua do Nilo, bemdita entre todas as aguas. E os ibis, antes de recolher aos ninhos, vinham, como no tempo em que eram Deuses, lançar por sobre os eirados, com um bater d'azas contentes, a benção crepuscular.

Baixei, atraz de Fradique, ao salão do

debarieh

, envidraçado, estofado, com armas penduradas para as manhãs de caça, e rumas de livros para as séstas de estudo e de calma quando lentamente se navega á sirga. Depois, durante momentos, no convés, contemplámos silenciosamente aquellas margens que, através das compridas idades, têm feito o enlevo de todos os homens, por todos sentirem que n'ellas a vida é cheia de bens maiores e de doçura suprema. Quantos, desde os rudes Pastores que arrazaram Thanis, aqui pararam como nós, alongando para estas aguas, para estes céos, olhos cobiçosos, extaticos ou saudosos: Reis de Judá, Reis de Assyria, Reis da Persia; os Ptolomeus magnificos; Prefeitos de Roma e Prefeitos de Byzancio; Amrou enviado de Mahomet, S. Luiz enviado de Christo; Alexandre-o-Grande sonhando o imperio do Oriente, Bonaparte retomando o immenso sonho; e ainda os que vieram só para contar da terra adoravel, desde o loquaz Herodoto até ao primeiro Romantico, o homem pallido de grande

pose

que disse as dôres de «Réné»! Bem conhecida é ella, a paizagem divina e sem igual. O Nilo corre, paternal e fecundo. Para além verdejam, sob o vôo das pombas, os jardins e os pomares de Rhodah. Mais longe as palmeiras de Giseh, finas e como de bronze sobre o ouro da tarde, abrigam aldeias que têm a simplicidade de ninhos. Á orla do deserto, erguem-se, no orgulho da sua eternidade, as tres Pyramides. Apenas isto―e para sempre a alma fica presa e lembrando, e para viver n'esta suavidade e n'esta belleza os povos travam entre si longas guerras.

Mas a hora chegára: abracei Fradique com singular emoção. A vela fôra içada á briza suave que arripiava a folhagem das mimosas. Á prôa o arraes, espalmando as mãos para o céo, clamou:―«Em nome de Allah que nos leve, clemente e misericordioso!» Ao redor, d'outras barcas, vozes lentas murmuraram:―«Em nome de Allah que vos leve!» Um dos remadores, sentado á borda, feriu as cordas da

dourbaka

, outro tomou uma flauta de barro. E entre bençãos e cantos a vasta barca fendeu as aguas sagradas, levando para Thebas o meu incomparavel amigo.

III

Durante annos não tornei a encontrar Fradique Mendes, que concentrára as suas jornadas dentro da Europa Occidental―emquanto eu errava pela America, pelas Antilhas, pelas republicas do golfo do Mexico. E quando a minha vida emfim se aquietou n'um velho condado rural de Inglaterra, Fradique, retomado por essa «bisbilhotice ethnographica» a que elle allude n'uma carta a Oliveira Martins, começava a sua longa viagem ao Brazil, aos Pampas, ao Chili e á Patagonia.

Mas o fio de sympathia, que nos unira no Cairo, não se partiu; nem nós, apesar de tão tenue, o deixámos perder por entre os interesses mais fortes das nossas fortunas desencontradas. Quasi todos os tres mezes trocavamos uma carta―cinco ou seis folhas de papel que eu tumultuosamente atulhava de imagens e impressões, e que Fradique miudamente enchia de idéas e de factos. Além d'isto, eu sabia de Fradique por alguns dos meus camaradas, com quem, durante uma residencia mais intima em Lisboa, do outono de 1875 ao verão de 1876, elle creára amizades onde todos encontraram proveito intellectual e encanto.

Todos, apesar das dissimilhanças de temperamentos ou das maneiras differentes de conceber a vida―tinham como eu sentido a seducção d'aquelle homem adoravel. D'elle me escrevia em novembro de 1877 o auctor do

Portugal Contemporaneo

:―«Cá encontrei o teu Fradique, que considero o portuguez mais interessante do seculo XIX. Tem curiosas parecenças com Descartes! É a mesma paixão das viagens, que levava o philosopho a fechar os livros «para estudar o grande livro do Mundo»; a mesma attracção pelo luxo e pelo ruido, que em Descartes se traduzia pelo gosto de frequentar as «côrtes e os exercitos»; o mesmo amor do mysterio, e das subitas desapparições; a mesma vaidade, nunca confessada, mas intensa, do nascimento e da fidalguia; a mesma coragem serena; a mesma singular mistura de instinctos romanescos e de razão exacta, de phantasia e de geometria. Com tudo isto falta-lhe na vida um fim sério e supremo, que estas qualidades, em si excellentes concorressem a realisar. E receio que em logar do

Discurso sobre o Methodo

venha só a deixar um

vaudeville

». Ramalho Ortigão, pouco tempo depois, dizia d'elle n'uma carta carinhosa:―«Fradique Mendes é o mais completo, mais acabado producto da civilisação em que me tem sido dado embeber os olhos. Ninguem está mais superiormente apetrechado para triumphar na Arte e na Vida. A rosa da sua botoeira é sempre a mais fresca, como a idéa do seu espirito é sempre a mais original. Marcha cinco leguas sem parar, bate ao remo os melhores remadores de Oxford, mette-se sósinho ao deserto a caçar o tigre, arremette com um chicote na mão contra um troço de lanças abyssinias:―e á noite n'uma sala, com a sua casaca do Cook, uma perola negra no esplendor do peitilho, sorri ás mulheres com o encanto e o prestigio com que sorrira á fadiga, ao perigo e á morte. Faz armas como o cavalleiro de Saint-Georges, e possue as noções mais novas e as mais certas sobre Physica, sobre Astronomia, sobre Philologia e sobre Metaphysica. É um ensino, uma lição de alto gosto, vêl-o no seu quarto, na vida intima de

gentleman

em viagem, entre as suas malas de couro da Russia, as grandes escovas de prata lavrada, as cabaias de sêda, as carabinas de Winchester, preparando-se, escolhendo um perfume, bebendo golos de chá que lhe manda o Gran-Duque Vladimir, e dictando a um creado de calção, mais veneravelmente correcto que um mordomo de Luiz XIV, telegrammas que vão levar noticias suas aos

boudoirs

de Paris e de Londres. E depois de tudo isto fecha a sua porta ao mundo―e lê Sophocles no original».

O poeta da

Morte de D. João

e da

Musa em Ferias

chamava-lhe «um Sainte-Beuve encadernado em Alcides». E explicava assim, n'uma carta d'esse tempo que conservo, a sua apparição no mundo: «Deus um dia agarrou n'um bocado de Henri Heine, n'outro de Chateaubriand, n'outro de Brummel, em pedaços ardentes d'aventureiros da Renascença, e em fragmentos resequidos de sabios do Instituto de França, entornou-lhe por cima

champagne

e tinta de imprensa, amassou tudo nas suas mãos omnipotentes, modelou á pressa Fradique, e arrojando-o á Terra disse: Vai, e veste-te no Poole!» Emfim Carlos Mayer, lamentando como Oliveira Martins que ás multiplas e fortes aptidões de Fradique faltasse coordenação e convergencia para um fim superior, deu um dia sobre a personalidade do meu amigo um resumo sagaz e profundo: «O cerebro de Fradique está admiravelmente construido e mobilado. Só lhe falta uma idéa que o alugue, para vivar e governar lá dentro. Fradique é um genio com escriptos!»

Tambem Fradique, n'esse inverno, conheceu o pensador das

Odes Modernas

, de quem, n'uma das suas cartas a Oliveira Martins, falla com tanta elevação e carinho. E o ultimo companheiro da minha mocidade que se relacionou com o antigo poeta das

Lapidarias

foi J. Teixeira d'Azevedo, no verão de 1877, em Cintra, na quinta da

Saragoça

, onde Fradique viera repousar da sua jornada ao Brazil e ás republicas do Pacifico. Tinham ahi conversado muito, e divergido sempre. J. Teixeira d'Azevedo, sendo um nervoso e um apaixonado, sentia uma insuperavel antipathia pelo que elle chamava o

lymphatismo critico

de Fradique. Homem todo de emoção não se podia fundir intellectualmenle com aquelle homem todo de analyse. O extenso saber de Fradique tambem não o impressionava. «As noções d'esse guapo erudito (escrevia elle em 1879) são bocados do Larousse diluidos em agua de Colonia». E emfim certos requintes de Fradique (escovas de prata e camisas de sêda), a sua voz mordente recortando o verbo com perfeição e preciosidade, o seu habito de beber champagne com

soda-water

, outros traços ainda, causavam uma irritação quasi physica ao meu velho camarada da Travessa do Guarda-Mór. Confessava porém, como Oliveira Martins, que Fradique era o portuguez mais interessante e mais suggestivo do seculo XIX. E correspondia-se regularmente com elle―mas para o contradizer com acrimonia.

Em 1880 (nove annos depois da minha peregrinação no Oriente), passei em Paris a semana da Paschoa. Uma noite, depois da Opera, fui cear solitariamente ao Bignon. Tinha encetado as ostras e uma chronica do

Temps

, quando por traz do jornal que eu encostára á garrafa assomou uma larga mancha clara, que era um collete, um peitilho, uma gravata, uma face, tudo de incomparavel brancura. E uma voz muito serena murmurou: «Separámo-nos ha annos no caes de Boulak...» Ergui-me com um grito, Fradique com um sorriso;―e o

maitre-d'hotel

recuou assombrado diante da meridional e ruidosa effusão do meu abraço. D'essa noite em Paris datou verdadeiramente a nossa intimidade intellectual―que em oito annos, sempre igual e sempre certa, não teve uma intermissão, nem uma sombra que lhe toldasse a pureza.

Determinadamente lhe chamo

intellectual

, porque esta intimidade nunca passou além das coisas do espirito. Nas alegres temporadas que com elle convivi em Paris, em Londres e em Lisboa, de 1880 a 1887, na nossa copiosa correspondencia d'esses annos privei sempre, sem reserva, com a intelligencia de Fradique―e interrompidamente assisti e me misturei á sua vida pensante: nunca porém penetrei na sua vida affectiva de sentimento e de coração. Nem, na verdade, me atormentou a curiosidade de a conhecer―talvez por sentir que a rara originalidade de Fradique se concentrava toda no sêr pensante, e que o outro, o sêr sensivel, feito da banal argilla humana, repetia sem especial relevo as costumadas fragilidades da argilla. De resto, desde essa noite de Paschoa em Paris que iniciou as nossas relações, nós conservámos sempre o habito especial, um pouco altivo, talvez estreito, de nos considerarmos dois puros espiritos. Se eu então concebesse uma Philosophia original, ou preparasse os mandamentos d'uma nova Religião, ou surripiasse á Natureza distrahida uma das suas secretas Leis―de preferencia escolheria Fradique como confidente d'esta actividade espiritual; mas nunca, na ordem do Sentimento, iria a elle com a confidencia d'uma esperança ou d'uma desillusão. E Fradique igualmente manteve commigo esta attitude de inaccessivel recato―não se manifestando nunca aos meus olhos senão na sua funcção intellectual.

Muito bem me lembro eu d'uma resplandecente manhã de maio em que atravessavamos, conversando por sob os castanheiros em flôr, o jardim das Tulherias. Fradique, que se encostára ao meu braço, vinha vagarosamente desenvolvendo a idéa de que a extrema democratisação da Sciencia, o seu universal e illimitado derramamento através das plebes, era o grande erro da nossa civilisação, que com elle preparava para bem cedo a sua catastrophe moral... De repente, ao transpôrmos a grade para a praça da Concordia, o Philosopho que assim lançava, por entre as tenras verduras de maio, estas predicções de desastre e de fim―estaca, emmudece! Diante de nós, ao trote fino d'uma egoa de luxo, passára vivamente, para os lados da rua Royale, um coupé onde entrevi, na penumbra dos setins que o forravam, uns cabellos côr de mel. Vivamente tambem, Fradique sacode o meu braço, balbucia um «adeus!», acena a um fiacre, e desapparece ao galope arquejante da pileca para os lados do cães d'Orsay. «Mulher!», pensei eu. Era, com effeito, a mulher e o seu tormento; e como se deprehende d'uma carta a Madame de Jouarre (datada de «Maio, sabbado», e começando: «Hontem philosophava com um amigo no jardim das Tulherias...») Fradique corria n'esse fiacre a uma desillusão bem rude e mortificante. Ora n'essa tarde, ao crepusculo, fui (como combinára) buscar Fradique á rua de Varennes, ao velho palacio dos Tredennes, onde elle installára desde o Natal os seus aposentos com um luxo tão nobre e tão sobrio. Apenas entrei na sala que denominavamos a «Heroica», porque a revestiam quatro tapeçarias de Luca Cornelio contando os

Trabalhos de Hercules

, Fradique deixa a janella d'onde olhava o jardim já esbatido em sombra, vem para mim serenamente, com as mãos enterradas nos bolsos d'uma quinzena de sêda. E, como se desde essa manhã

nenhum outro

cuidado o absorvesse senão o seu th cuidado o absorvesse senão o seu thema do jardim das Tulherias:

―Não lhe acabei de dizer ha pouco... A Sciencia, meu caro, tem de ser recolhida como outr'ora aos Santuarios. Não ha outro meio de nos salvar da anarchia moral. Tem de ser recolhida aos Santuarios, e entregue a um sacro collegio intellectual que a guarde, que a defenda contra as curiosidades das plebes... Ha a fazer com esta idéa um programma para as gerações novas!

Talvez na face, se eu tivesse reparado, encontrasse restos de pallidez e de emoção: mas o tom era simples, firme, d'um critico genuinamente occupado na deducção do seu conceito. Outro homem que, como aquelle, tivesse soffrido horas antes uma desillusão tão mortificante e rude, murmuraria ao menos, n'um desafogo generico e impessoal:―«Ah, amigo, que estupida é a vida!» Elle fallou da Sciencia e das Plebes,―desenrolando determinadamente diante de mim, ou impondo talvez a si mesmo, os raciocinios do seu cerebro, para que os meus olhos não penetrassem de leve, ou os seus não se detivessem demais, nas amarguras do seu coração.

N'uma carta a Oliveira Martins, de 1883, Fradique diz:―«O homem, como os antigos reis do Oriente, não se deve mostrar aos seus semelhantes senão unica e serenamente

occupado no officio de reinar―isto é, de pensar

». Esta regra, d'um orgulho apenas permissivel a um Spinosa ou a um Kant, dirigia severamente a sua conducta. Pelo menos commigo assim se comportou immutavelmente, através da nossa activa convivencia, não se abrindo, não se offerecendo todo, senão nas funcções da Intelligencia. Por isso talvez, mais que nenhum outro homem, elle exerceu sobre mim imperio e seducção.

IV

O que impressionava logo na Intelligencia de Fradique, ou antes na sua maneira de se exercer, era a suprema liberdade junta á suprema audacia. Não conheci jámais espirito tão impermeavel á tyrannia ou á insinuação das «idéas feitas»: e decerto nunca um homem traduziu o seu pensar original e proprio com mais calmo e soberbo desassombro. «Apesar de trinta seculos de geometria me affirmarem (diz elle n'uma carta a J. Teixeira d'Azevedo) que

a linha recta é a mais curta distancia entre dois pontos

, se eu achasse que, para subir da porta do Hotel Universal á porta da Casa Havaneza, me sahia mais directo e breve rodear pelo bairro de S. Martinho e pelos altos da Graça, declararia logo á secular geometria―que a distancia mais curta entre dois pontos é uma

curva

vadia e delirante!». Esta independencia da Razão, que Fradique assim apregôa com desordenada Phantasia, constitue uma qualidade rara:―mas o animo de a affirmar intemeratamente diante da magestosa Tradição, da Regra, e das conclusões oraculares dos Mestres, é já uma virtude, e rarissima, de radiosa excepção!

Fradique (n'outra carta a J. Teixeira d'Azevedo) falla d'um polaco, G. Cornuski, professor e critico, que escrevia na

Revista Suissa

, e que (diz Fradique) «constantemente sentia o seu gosto, muito pessoal e muito decidido, rebellar-se contra obras de Litteratura e de Arte que a unanimidade critica, desde seculos, tem consagrado como magistraes―a

Gerusalemme Liberata

do Tasso, as telas do Ticiano, as tragedias de Racine, as orações de Bossuet, os nossos

Lusiadas

, e outros monumentos canonizados. Mas, sempre que a sua probidade de Professor e de Critico lhe impunha a proclamação da verdade, este homem robusto, sanguineo, que heroicamente se batera em duas insurreições, tremia, pensava:―«Não! Porque será o meu criterio mais seguro que o de tão finos entendimentos através dos tempos? Quem sabe? Talvez n'essas obras exista a sublimidade―e só no meu espirito a impotencia de a comprehender». E o desgraçado Cornuski, com a alma mais triste que um crepusculo d'outono, continuava, diante dos córos da

Athalie

e das nudezes do Ticiano, a murmurar desconsoladamente:―«Como é bello!»

Raros soffrem estas angustias criticas do desditoso Cornuski. Todos porém, com risonha inconsciencia, praticam o seu servilismo intellectual. Já, com effeito, porque o nosso espirito não possua a viril coragem de affrontar a auctoridade d'aquelles a quem tradicionalmente attribue um criterio mais firme e um saber mais alto; já porque as idéas estabelecidas, fluctuando diffusamente na nossa memoria, depois de leituras e conversas, nos pareçam ser as nossas proprias; já porque a suggestão d'esses conceitos se imponha e nos leve subtilmente a concluir em concordancia com elles―a lamentavel verdade é que hoje todos nós servilmente tendemos a pensar e sentir como antes de nós e em torno de nós já se sentiu ou pensou.

«O homem do seculo XIX, o Europeu, porque só elle é essencialmente do seculo XIX (diz Fradique n'uma carta a Carlos Mayer), vive dentro d'uma pallida e morna

infecção de banalidade

, causada pelos quarenta mil volumes que todos os annos, suando e gemendo, a Inglaterra, a França e a Allemanha depositam ás esquinas, e em que interminavelmente e monotonamente reproduzem, com um ou outro arrebique sobreposto, as quatro idéas e as quatro impressões legadas pela Antiguidade e pela Renascença. O Estado por meio das suas escólas canalisa esta infecção. A isto, oh Carolus, se chama

educar

! A creança, desde a sua primeira «Selecta de Leitura» ainda mal soletrada, começa a absorver esta camada do Logar-Commum―camada que depois todos os dias, através da vida, o Jornal, a Revista, o Folheto, o Livro lhe vão atochando no espirito até lh'o empastarem todo em banalidade, e lh'o tornarem tão inutil para a producção como um sólo cuja fertilidade nativa morreu sob a areia e pedregulho de que foi barbaramente alastrado. Para que um Europeu lograsse ainda hoje ter algumas idéas novas, de viçosa originalidade, seria necessario que se internasse no Deserto ou nos Pampas; e ahi esperasse pacientemente que os sopros vivos da Natureza, batendo-lhe a Intelligencia e d'ella pouco a pouco varrendo os detritos de vinte seculos de Litteratura, lhe refizessem uma virgindade. Por isso eu te affirmo, oh Carolus Mayerensis, que a Intelligencia, que altivamente pretenda readquirir a divina potencia de gerar, deve ir curar-se da Civilisacão litteraria por meio d'uma residencia tonica, durante dois annos, entre os Hottentotes e os Patagonios. A Patagonia opéra sobre o Intellecto como Vichy sobre o figado―desobstruindo-o, e permittindo-lhe o são exercicio da funcção natural. Depois de dois annos de vida selvagem, entre o Hottentote nú movendo-se na plenitude logica do Instincto,―que restará ao civilisado de todas as suas idéas sobre o Progresso, a Moral, a Religião, a Industria, a Economia Politica, a Sociedade e a Arte? Farrapos. Os pendentes farrapos que lhe restarão das pantalonas e da quinzena que trouxe da Europa, depois de vinte mezes de matagal e de brejo. E não possuindo em torno de si Livros e Revistas que lhe renovem uma provisão de «idéas feitas», nem um benefico Nunes Algibebe que lhe forneça uma outra andaina de «fato feito»―o Europeu irá insensivelmente regressando á nobreza do estado primitivo, nudez do corpo e originalidade da alma. Quando de lá voltar é um Adão forte e puro, virgem de litteratura, com o craneo limpo de todos os conceitos e todas as noções amontoadas desde Aristoteles podendo proceder soberbamente a um exame inedito das coisas humanas. Carlos, espirito que distillas

espiritos

, queres remergulhar nas Origens e vir commigo á inspiradora Hottentocia? Lá, livres e nús, estirados ao sol entre a palmeira e o regato que tutelarmente nos darão o sustento do corpo, com a nossa lança forte cravada na relva, e mulheres ao lado vertendo-nos n'um canto dôce a porção de poesia e de sonho que a alma precisa―deixaremos livremente as ilhargas crestadas estalarem-nos de riso á idéa das grandes Philosophias, e das grandes Moraes, e das grandes Economias, e das grandes Criticas, e das grandes Pilherias que vão por essa Europa, onde densos formigueiros de chapéos altos se atropellam, estonteados pelas superstições da civilisação, pela illusão do ouro, pelo pedantismo das sciencias, pelas mistificações dos reformadores pela escravidão da rotina, e pela estupida admiração de si mesmos!...»

Assim diz Fradique. Ora este «exame inedito das coisas humanas», só possivel, segundo o poeta das

Lapidarias

, ao Adão renovado que regressasse da Patagonia com o espirito escarolado do pó e do lixo de longos annos de Litteratura―tentou-o elle, sem deixar os muros classicos da rua de Varennes, com incomparavel vigor e sinceridade. E n'isto mostrava intrepidez moral. No mundo a que irresistivelmente o prendiam os seus gostos e os seus habitos―mundo mediano e regrado, sem invenção e sem iniciativa intellectual, onde as Idéas, para agradar, devem ser como as Maneiras, «geralmente adoptadas» e não individualmente creadas―Fradique, com a sua indocil e brusca liberdade de Juizos, affrontava o perigo de passar por um petulante rebuscador de originalidade, avido de gloriola e de excessivo destaque. Um espirito inventivo e novo, com uma força de pensar muito propria, deixando transbordar a vida abundante e multipla que o anima e enche―é mais desagradavel a esse mundo do que o homem rudemente natural que não regre e limite dentro das «Conveniencias» a espessura da cabelleira, o estridor das risadas, e o franco mover dos membros grossos. D'esse espirito indisciplinado e creador, logo se murmura com desconfiança: «Pretencioso! busca o effeito e o destaque!» Ora Fradique nada detestava mais intensamente do que o

effeito

e o

destaque excessivo

. Nunca lhe conheci senão gravatas escuras. E tudo preferiria a ser apontado como um d'esses homens, que, sem odio sincero a Diana e ao seu culto e só para que d'elles se falle com espanto nas praças, vão, em plena festa, agitando um grande facho, incendiar-lhe o templo em Epheso. Tudo preferiria―menos (como elle diz n'uma carta a Madame de Jouarre) «ter de vestir a Verdade nos armazens do Louvre para poder entrar com ella em casa de Anna de Varle, duqueza de Varle e d'Orgemont. A entrar hei de levar a minha amiga núa, toda núa, pisando os tapetes com os seus pés nús, enristando para os homens as pontas fecundas dos seus nobres seios nús.

Amicus Mundus, sed magis amica Veritas!

Este bello latim significa, minha madrinha, que eu, no fundo, julgo que a originalidade é agradavel ás mulheres e só desagradavel aos homens―o que duplamente me leva a amal-a com pertinacia».

Esta independencia, esta livre elasticidade de espirito e intensa sinceridade―impedindo que por seducção elle se désse todo a um Systema, onde para sempre permanecesse por inercia―eram de resto as qualidades que melhor convinham á funcção intellectual que para Fradique se tornára a mais continua e preferida. «Não ha em mim infelizmente (escrevia elle a Oliveira Martins, em 1882) nem um sabio, nem um philosopho. Quero dizer, não sou um d'esses homens seguros e uteis, destinados por temperamento ás analyses secundarias que se chamam Sciencias, e que consistem em reduzir uma multidão de factos esparsos a Typos e Leis particulares por onde se explicam modalidades do Universo; nem sou tambem um d'esses homens, fascinantes e pouco seguros, destinados por genio ás analyses superiores que se chamam Philosophias, e que consistem em reduzir essas Leis e esses Typos a uma formula geral por onde se explica a essencia mesma do inteiro Universo. Não sendo pois um sabio, nem um philosopho, não posso concorrer para o melhoramento dos meus semelhantes―nem accrescendo-lhes o bem-estar por meio da Sciencia que é uma productora de riqueza, nem elevando-lhes o bem-sentir por meio da Metaphysica que é uma inspiradora de poesia. A entrada na Historia tambem se me conserva vedada:―porque, se, para se produzir Litteratura basta possuir talentos, para tentar a Historia convém possuir virtudes. E eu!... Só portanto me resta ser, através das idéas e dos factos, um homem que passa, infinitamente curioso e attento. A egoista occupação do meu espirito hoje, caro historiador, consiste em me acercar d'uma idéa ou d'um facto, deslizar suavemente para dentro, percorrel-o miudamente, explorar-lhe o inedito, gozar todas as surprezas e emoções intellectuaes que elle possa dar, recolher com cuidado o ensino ou a parcella de verdade que exista nos seus refolhos―e sahir, passar a outro facto ou a outra idéa, com vagar e com paz, como se percorresse uma a uma as cidades d'um paiz d'arte e luxo. Assim visitei outr'ora a Italia, enlevado no esplendor das côres e das fórmas. Temporal e espiritualmente fiquei simplesmente um

touriste

».

Estes

touristes

da intelligencia abundam em França e em Inglaterra. Sómente Fradique não se limitava, como esses, a exames exteriores e impessoaes, á maneira de quem n'uma cidade d'Oriente, retendo as noções e os gostos de Europeu, estuda apenas o aéreo relevo dos monumentos e a roupagem das multidões. Fradique (para continuar a sua imagem) transformava-se em «cidadão das cidades que visitava». Mantinha por principio que se devia momentaneamente

crêr

para bem comprehender uma crença. Assim se fizera babista, para penetrar e desvendar o Babismo. Assim se afiliára em Paris a um club revolucionario,

As Pantheras de Batignolles

, e frequentára as suas sessões, encolhido n'uma quinzena sordida pregada com alfinetes, com a esperança de lá colher «a flôr de alguma extravagancia instructiva». Assim se incorporava em Londres aos Positivistas rituaes, que, nos dias festivos do Calendario Comtista, vão queimar o incenso e a myrrha na ara da Humanidade e enfeitar de rosas a Imagem de Augusto Comte. Assim se ligára com os

Theosophistas

, concorrera prodigamente para a fundação da

Revista Espiritista

, e presidia as Evocações da rua Cardinet, envolto na tunica de linho, entre os dois

mediums

supremos, Patoff e Lady Thorgan. Assim habitára durante um longo verão Seo-d'Urgel, a catholica cidadella do Carlismo, «para destrinçar bem (diz elle) quaes são os motivos e as formulas que fazem um

Carlista

―porque todo o sectario obedece á realidade d'um motivo e á illusão d'uma formula». Assim se tornára o confidente do veneravel Principe Koblaskini, para «poder desmontar e estudar peça a peça o mecanismo d'um cerebro de Nihilista». Assim se preparava (quando a morte o surprehendeu) a voltar á India, para se tornar budhista praticante, e penetrar cabalmente o Budhismo, em que fixára a curiosidade e actividade critica dos seus derradeiros annos. De sorte que d'elle bem se póde dizer que foi o devoto de todas as Religiões, o partidario de todos os Partidos, o discipulo de todas as Philosophias―cometa errando através das idéas, embebendo-se convictamente n'ellas, de cada uma recebendo um accrescimo de substancia, mas em cada uma deixando alguma coisa do calor e da energia do seu movimento pensante. Aquelles que imperfeitamente o conheciam classificavam Fradique como um

dilettante

. Não! essa séria convicção (a que os inglezes chamam

earnestness

), com que Fradique se arremessava ao fundo real das coisas, communicava á sua vida uma valia e efficacia muito superiores ás que o

dilettantismo

, a diversão sceptica que tantas injurias arrancou a Carlyle, communica ás naturezas que a elle deliciosamente se abandonam. O

dilettante

, com effeito, corre entre as idéas e os factos como as borboletas (a quem é desde seculos comparado) correm entre as flôres, para pousar, retomar logo o vôo estouvado, encontrando n'essa fugidia mutabilidade o deleite supremo. Fradique, porém, ia como a abelha, de cada planta pacientemente extrahindo o seu mel:―quero dizer, de cada opinião recolhendo essa «parcella de verdade» que cada uma invariavelmente contém, desde que homens, depois de outros homens, a tenham fomentado com interesse ou paixão.

Assim se exercia esta diligente e alta Intelligencia. Qual era porém a sua qualidade essencial e intrinseca? Tanto quanto pude discernir, a suprema qualidade intellectual de Fradique pareceu-me sempre ser―uma percepção extraordinaria da Realidade. «Todo o phenomeno (diz elle n'uma carta a Anthero de Quental, suggestiva através de certa obscuridade que a envolve) tem uma Realidade. A expressão de

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