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A correspondência de Fradique Mendes

FRADIQUE MENDES (continued 3)

Reading edition

Velhice do Padre Eterno

, a Liturgia e o Ceremonial, era um inimigo publico, um traidor ao Estado, votado ás masmorras do

Tuliano

.

E se, já farto d'estes tempos antigos, V. quizer volver aos nossos philosophicos dias, encontrará nas duas grandes Religiões do occidente e do oriente, no Catholicismo e no Budhismo, uma comprovação ainda mais saliente e mais viva de que a Religião consiste intrinsecamente de praticas, sobre as quaes a Theologia e a Moral se sobrepozeram, sem as penetrarem, como um luxo intellectual, accessorio e transitorio―flôres pregadas no altar pela imaginação ou pela virtude idealista. O Catholicismo (ninguem mais furiosamente o sabe do que V.) está hoje resumido a uma curta série de observancias materiaes:―e todavia nunca houve Religião dentro da qual a Intelligencia erguesse mais vasta e alta estructura de conceitos theologicos e moraes. Esses conceitos, porém, obra de doutores e de mysticos, nunca propriamente sahiram das escólas e dos mosteiros―onde eram preciosa materia de dialectica ou de poesia; nunca penetraram nas multidões para methodicamente governar os juizos ou conscientemente governar as acções. Reduzido a catechismos, a cartilhas, esse corpo de conceitos foi decorado pelo povo:―mas nunca o povo se persuadiu que tinha Religião, e que portanto

agradava a Deus

,

servia a Deus

, só por cumprir os dez mandamentos, fóra de toda a pratica e de toda a observancia ritual. E só decorou mesmo esses

Dez Mandamentos

, e as

Obras de Misericordia

, e os outros preceitos moraes do Catechismo, pela idéa de que esses versiculos,

recitados com os labios

, tinham, por uma virtude maravilhosa, o poder de attrahir a attenção, a bemquerença e os favores do Senhor. Para

servir a Deus

, que é o meio

de agradar a Deus

, o essencial foi sempre ouvir missa, esfiar o rosario, jejuar, commungar, fazer promessas, dar tunicas aos santos, etc. Só por estes ritos, e não pelo cumprimento moral da lei moral, se propicia a Deus,―isto é, se alcançam d'elle os dons inestimaveis da saude, da felicidade, da riqueza, da paz. O mesmo Céo e Inferno, sancção extra-terrestre da lei, nunca, na idéa do povo, se ganhava ou se evitava pela pontual obediencia á lei. E talvez com razão, por isso mesmo que no Catholicismo o premio e o castigo não são manifestações da

justiça

de Deus, mas da

graça

de Deus. Ora a graça, no pensar dos simples, só se obtem pela constante e incansavel pratica dos preceitos―a missa, o jejum, a penitencia, a communhão, o rosario, a novena, a offerta, a promessa. De sorte que no catholicismo do Minhoto como na religião do Arya, em Septa-Sindhou como em Carrazeda d'Anciães, tudo se resume em propiciar Deus por meio de praticas que o captivem. Não ha aqui Theologia, nem Moral. Ha o acto do infinitamente fraco querendo agradar ao infinitamente forte. E se V., para purificar este Catholicismo, eliminar o Padre, a estola, as galhetas e a agua-benta, todo o Rito e toda a Liturgia―o catholico immediatamente abandonará uma Religião que não tem Egreja visivel, e que não lhe offerece os meios simples e tangiveis de communicar com Deus, de obter d'elle os bens transcendentes para a alma e os bens sensiveis para o corpo. O Catholicismo n'esse instante terá acabado, milhões de sêres terão perdido o seu Deus. A Egreja é o vaso de que Deus é o perfume. Egreja partida―Deus volatilisado.

Se tivessemos tempo de ir á China ou a Ceylão, V. toparia com o mesmo phenomeno no Budhismo. Dentro d'essa Religião foi elaborada a mais alta das Metaphysicas, a mais nobre das Moraes: mas em todas as raças em que elle penetrou, nas barbaras ou nas cultas, nas hordas do Nepal ou no mandarinato chinez, elle consistiu sempre para as multidões em ritos, ceremonias, praticas―a mais conhecida das quaes é o

moinho de rezar

. V. nunca lidou com este moinho? É lamentavelmente parecido com o

moinho de café

: em todos os paizes budhistas V. o verá collocado nas ruas das cidades, nas encruzilhadas do campo, para que o devoto ao passar, dando duas voltas á manivella, possa fazer chocalhar dentro as orações escriptas e communica com o Budha, que por esse acto de cortezia transcendente «lhe ficará grato e lhe augmentará os seus bens».

Nem o Catholicismo, nem o Budhismo vão por este facto em decadencia. Ao contrario! Estão no seu estado natural e normal de Religião. Uma Religião, quanto mais se materialisa, mais se popularisa―e portanto mais se divinisa. Não se espante! Quero dizer, que quanto mais se desembaraça dos seus elementos intellectuaes de Theologia, de Moral, de Humanitarismo, etc., repellindo-os para as suas regiões naturaes que são a Philosophia, a Ethica e a Poesia, tanto mais colloca o povo face a face com o seu Deus, n'uma união directa e simples, tão facil de realisar que, por um mero dobrar de joelhos, um mero balbuciar de Padre-Nossos, o homem absoluto que está no céo vem ao encontro do homem transitorio que está na terra. Ora este encontro é o facto essencialmente divino da Religião. E quanto mais elle se materialisa―mais ella na realidade se divinisa.

V. porém dirá (e de facto o diz): «Tornemos essa communicação puramente espiritual, e que, despida de toda a exterioridade liturgica, ella seja apenas como o espirito humano fallando ao espirito divino». Mas para isso é necessario que venha o Millenio―em que cada cavador de enxada seja um philosopho, um pensador. E quando esse Millenio detestavel chegar, e cada tipoia de praça fôr governada por um Mallebranche, terá V. ainda de ajuntar a esta perfeita humanidade masculina uma nova humanidade feminina, physiologicamente differente da que hoje embelleza a terra. Porque emquanto houver uma mulher constituida physica, intellectual e moralmente como a que Jehovah com uma tão grande inspiração d'artista fez da costella de Adão,―haverá sempre ao lado d'ella, para uso da sua fraqueza, um altar, uma imagem e um padre.

Essa communhão mystica do Homem e de Deus, que V. quer, nunca poderá ser senão o privilegio d'uma

élite

espiritual, deploravelmente limitada. Para a vasta massa humana, em todos os tempos, pagã, budhista, christã, mahometana, selvagem ou culta, a Religião terá sempre por fim, na sua essencia, a supplica dos favores divinos e o afastamento da cólera divina; e, como instrumentação material para realisar estes objectos, o templo, o padre, o altar, os officios, a vestimenta, a imagem. Pergunte a qualquer mediano homem sahido da turba, que não seja um philosopho, ou um moralista, ou um mystico, o que é Religião. O inglez dirá:―«É ir ao serviço ao domingo, bem vestido, cantar hymnos». O hindú dirá:―«É fazer

poojah

todos os dias e dar o tributo ao

Mahadeo

». O africano dirá:―«É offerecer ao

Mulungú

a sua ração de farinha e oleo». O Minhoto dirá:―«É ouvir missa, rezar as contas, jejuar á sexta-feira, commungar pela Paschoa». E todos terão razão, grandemente! Porque o seu objecto, como sêres religiosos, está todo em communicar com Deus; e esses são os meios de communicação que os seus respectivos estados de civilisação e as respectivas liturgias que d'elles sahiram, lhes fornecem.

Voilà!

Para V. está claro, e para outros espiritos de eleição, a Religião é outra coisa―como já era outra coisa em Athenas para Socrates e em Roma para Seneca. Mas as multidões humanas não são compostas de Socrates e de Senecas―bem felizmente para ellas, e para os que as governam, incluindo V. que as pretende governar!

De resto, não se desconsole, amigo! Mesmo entre os simples ha modos de ser religiosos, inteiramente despidos de Liturgia e de exterioridades rituaes. Um presenciei eu, deliciosamente puro e intimo. Foi nas margens do Zambeze. Um chefe negro, por nome Lubenga, queria, nas vesperas de entrar em guerra com um chefe visinho, communicar com o seu Deus, com o seu Mulungú (que era, como sempre, um seu avô divinisado). O recado ou pedido, porém, que desejava mandar á sua Divindade, não se podia transmittir através dos Feiticeiros e do seu ceremonial, tão graves e confidenciaes matérias continha... Que faz Lubenga? Grita por um escravo: dá-lhe o recado, pausadamente, lentamente, ao ouvido: verifica bem que o escravo tudo comprehendera, tudo retivera: e immediatamente arrebata um machado, decepa a cabeça do escravo, e brada tranquillamente―«parte!» A alma do escravo lá foi, como uma carta lacrada e sellada, direita para o céo, ao Mulungú. Mas d'ahi a instantes o chefe bate uma palmada afflicta na testa, chama á pressa outro escravo, diz-lhe ao ouvido rapidas palavras, agarra o machado, separa-lhe a cabeça, e berra:―«Vai!»

Esquecera-lhe algum detalhe no seu pedido ao Mulungú... O segundo escravo era um

post-scriptum

.

Esta maneira simples de communicar com Deus deve regosijar o seu coração. Amigo do dito―

Fradique

.

VI

a ramalho ortigão

Paris, abril.

Querido Ramalho.

―No sabbado á tarde, na rue Cambon, avisto dentro d'um fiacre o nosso Eduardo, que se arremessa pela portinhola para me gritar: «Ramalho, esta noite! de passagem para a Hollanda! ás dez! no café da Paz!»

Fico dôcemente alvoroçado; e ás nove e meia, apesar da minha justa repugnancia pela esquina do café da Paz, Centro catita do

Snobismo

internacional, lá me installo, com um bock, esperando a cada instante que surja, por entre a turba baça e molle do boulevard, o esplendor da Ramalhal figura. Ás dez salta d'um fiacre com anciedade o vivaz Carmonde, que abandonára á pressa uma sobremesa alegre

pour voir ce grand Ortigan

! Começa uma espera a dois, com bock a dois. Nada de Ramalho, nem do seu viço. Ás onze apparece Eduardo, esbaforido. E Ramalho? Inedito ainda! Espera a tres, impaciencia a tres, bock a tres. E assim até que o bronze nos soou o fim do dia.

Em compensação um caso, e profundo. Carmonde, Eduardo e eu sorviamos as derradeiras fezes do bock, já desilludidos de Ramalho e das suas pompas, quando roça pela nossa mesa um sujeito escurinho, chupadinho, esticadinho, que traz na mão com respeito, quasi com religião, um soberbo ramo de cravos amarellos. É um homem d'além dos mares, da Republica Argentina ou Peruana, e amigo de Eduardo―que o retem e apresenta «o snr. Mendibal». Mendibal aceita um bock: e eu começo a contemplar mudamente aquella facesinha toda em perfil, como recortada n'uma lamina de machado, d'uma côr acobreada de chapéo côco inglez, onde a barbita rala, hesitante, denunciando uma virilidade frouxa, parece cotão, um cotão negro, pouco mais negro que a tez. A testa escanteada recua, foge toda para traz, assustada. O caroço da garganta esganiçada, ao contrario, avança como o esporão d'uma galera por entre as pontas quebradas do collarinho muito alto e mais brilhante que esmalte. Na gravata, grossa perola.

Eu contemplo, e Mendibal falla. Falla arrastadamente, quasi dolentemente, com finaes que desfallecem, se esvaem em gemido. A voz é toda de desconsolo:―mas, no que diz, revela a mais forte, segura e insolente satisfação de viver. O animal tem tudo: immensas propriedades além do mar, a consideração dos seus fornecedores, uma casa no Parc-Monceau, e «uma esposa adoravel». Como deslizou elle a mencionar essa dama que lhe embelleza o lar? Não sei. Houve um momento em que me ergui, chamado por um velho Inglez meu amigo, que passava, recolhendo da Opera, e que me queria simplesmente segredar, com uma convicção forte, que «a noute estava esplendida!» Quando voltei á mesa e ao bock, o Argentino encetára em monologo a glorificação da «sua senhora». Carmonde devorava o homemzinho com olhos que riam e que saboreavam, deliciosamente divertido. Eduardo, esse, escutava com a compostura pesada de um portuguez antigo. E Mendibal, tendo posto ao lado sobre uma cadeira, com cuidados devotos, o ramo de cravos, desfiava as virtudes e os encantos de Madame. Sentia-se alli uma d'essas admirações effervescentes, borbulhantes, que se não podem retrahir, que transbordam por toda a parte, mesmo por sobre as mesas dos cafés: onde quer que passasse, aquelle homem iria deixando escorrer a sua adoração pela mulher, como um guarda-chuva encharcado vai fatalmente pingando agua. Comprehendi, desde que elle, com um prazer que lhe repuxava mais para fóra o caroço da garganta, revelou que madame Mendibal era franceza. Tinhamos alli portanto um fanatismo de preto pela graça loira d'uma parisiensesinha, picante em seducção e finura. Desde que comprehendi, sympathisei. E o Argentino farejou em mim esta benevolencia critica―porque foi para mim que se voltou, lançando o derradeiro traço, o mais decisivo, sobre as excellencias de Madame: «Sim, positivamente, não havia outra em Paris! Por exemplo, o carinho com que ella cuidava da mamã (da mamã d'elle), senhora de grande idade, cheia de achaques! Pois era uma paciencia, uma delicadeza, uma sujeição... De cahir de joelhos! Então nos ultimos dias a mamã andára tão rabugenta!... Madame Mendibal até emmagrecera. De sorte que elle proprio, n'esse domingo, lhe pedira que se fosse distrahir, passar o dia a Versalhes, onde a mãe d'ella, madame Jouffroy, habitava por economia. E agora viera de a esperar na

gare

Saint-Lazare. Pois, senhores, todo o dia em Versalhes, a santa creatura estivera com cuidado na sogra, cheia de saudades da casa, n'uma ancia de recolher. Nem lhe soubera bem a visita á mamã! A maior parte da tarde, e uma tarde tão linda, gastára-a a reunir aquelle esplendido ramo de cravos amarellos para lhe trazer, a elle!»

―É verdade! Veja o senhor! Este ramo de cravos! Até consola. Olhe que para estas lembrancinhas, para estes carinhos, não ha senão uma franceza. Graças a Deus, posso dizer que acertei! E se tivesse filhos, um só que fosse, um rapaz, não me trocava pelo principe de Galles. Eu não sei se o senhor é casado. Perdôe a confiança. Mas se não é, sempre lhe direi, como digo a todo o mundo:―Case com uma franceza, case com uma franceza!...

Não podia haver nada mais sinceramente grotesco e tocante. Como V. não vinha, fugidio Ramalho, dispersamos. Mendibal trepou para um fiacre com o seu amoroso molho de cravos. Eu arrastei os passos, no calor da noite, até ao club. No club encontro Chambray, que V. conhece―o «formoso Chambray». Encontro Chambray no fundo d'uma poltrona, derreado e radiante. Pergunto a Chambray como lhe vai a Vida, que opinião tem n'esse dia da Vida. Chambray declara a Vida uma delicia. E, immediatamente, sem se conter, faz a confidencia que lhe bailava impacientemente no sorriso e no olho humedecido.

Fôra a Versalhes, com tenção de visitar os Fouquiers. No mesmo compartimento com elle ia uma mulher,

une grande et belle femme

. Corpo soberbo de Diana n'um vestido collante do Redfern. Cabellos apartados ao meio, grossos e apaixonados, ondeando sobre a testa curta. Olhos graves. Dois solitarios nas orelhas. Sêr substancial, solido, sem chumaços e sem blagues, bem alimentado, envolto em consideração, superiormente installado na vida.

E, no meio d'esta respeitabilidade physica e social, um geito guloso de molhar os beiços a cada instante, vivamente, com a ponta da lingua... Chambray pensa comsigo:―«burgueza, trinta annos, sessenta mil francos de renda, temperamento forte, desapontamentos d'alcova». E apenas o comboyo larga, toma o seu «grande ar Chambray», e dardeja á dama um d'esses olhares que eram outr'ora symbolisados pelas flechas de Cupido. Madame impassivel. Mas, momentos, depois, vem d'entre as palpebras um pouco pesadas, direito a Chambray (que vigiava de lado, por traz do

Figaro

aberto), um d'esses raios de luz indagadora que, como os da lanterna de Diogenes, procuram um homem que seja um homem. Ao chegar a Courbevoie, a pretexto de baixar o vidro por causa da poeira, Chambray arrisca uma palavra, atrevidamente timida, sobre o calor de Paris. Ella concede outra, ainda hesitante e vaga, sobre a frescura do campo. Está travada a Ecloga. Em Suresnes, Chambray já se senta na banqueta ao lado d'ella, fumando. Em Sevres, mão de Madame arrebatada por Chambray, mão de Chambray repellida por Madame:―e ambas insensivelmente se entrelaçam. Em Viroflay, proposta brusca de Chambray para darem um passeio por um sitio de Viroflay que só elle conhece, recanto bucolico, de incomparavel doçura, inaccessivel ao burguez. Depois, ás duas horas tomariam o outro trem para Versalhes. E nem a deixa hesitar―arrebata-a moralmente, ou antes physiologicamente, pela simples força da voz quente, dos olhos alegres, de toda a sua pessoa franca e mascula.

Eil-os no campo, com um aroma da seiva em redor, e a primavera e Satanaz conspirando e soprando sobre Madame os seus bafos quentes. Chambray conhece á orla do bosque, junto d'agua, uma tavernola que tem as janellas encaixilhadas em madresilva. Porque não irão lá almoçar uma caldeirada, regada com vinho branco de Suresnes? Madame na verdade sente uma fomesinha alegre de ave solta no prado: e Satanaz, dando ao rabo, corre adiante, a propiciar as coisas na tavernola. Acham lá, com effeito, uma installação magistral: quarto fresco e silencioso, mesa posta, cortina de cassa ao fundo escondendo e trahindo a alcova. «Em todo o caso que o almoço suba depressa, porque elles têm de partir pelo trem das duas horas»―tal é o brado sincero de Chambray!

Quando chega a caldeirada, Chambray tem uma inspiração genial―despe o casaco, abanca em mangas de camisa. É um rasgo de bohemia e de liberdade, que a encanta, a excita, faz surgir a

garota

que ha quasi sempre no fundo da

matrona

. Atira tambem o chapéo, um chapéo de duzentos francos, para o fundo do quarto, alarga os braços, e tem este grito d'alma:

―

Ah oui, que c'est bon, de se desembêter!

E depois, como dizem os hespanhoes―

la mar

. O sol, ao despedir-se da terra por esse dia, deixou-os ainda em Viroflay; ainda na tavernola; ainda no quarto;―e outra vez á mesa, diante d'um

beefsteak

reconfortante, como os acontecimentos pediam com urgencia e logica.

Versalhes, esquecido! Tratava-se de voltar á estação para tomar o trem de Paris. Ella aperta devagar as fitas do chapéo, apanha uma das flôres da janella que mette no corpete, fixa um olhar lento em redor pelo quarto e pela alcova, para todo decorar e retêr―e partem. Na estação, ao saltar para um compartimento differente (por causa da chegada a Paris), Chambray n'um aperto de mão, já apressado e frouxo, supplica-lhe que ao menos lhe diga como se chama. Ella murmura―

Lucie

.

―E é tudo o que sei d'ella, conclue Chambray accendendo o charuto. E sei tambem que é casada porque na

gare

Saint-Lazare, á espera d'ella, e acompanhado por um trintanario serio, de casa burgueza, estava o marido... É um

rastacuero

côr de chocolate, com uma barbita rala, enorme perola na gravata... Coitado, ficou encantado quando ella lhe deu um grande ramo de cravos amarellos que eu lhe mandára arranjar em Viroflay... Mulher deliciosa. Não ha senão as francezas!

Que diz V. a estas coisas consideraveis, meu bom Ramalho? Eu digo que, em resumo, este nosso Mundo é perfeito e não ha nos espaços outro mais bem organisado. Porque note V. como, ao fim d'este domingo de maio, todas estas tres excellentes creaturas, com uma simples jornada a Versalhes, obtiveram um ganho positivo na vida. Chambray passou por um immenso prazer e uma immensa vaidade―os dois unicos resultados que elle conta na existencia como proventos solidos, e valendo o trabalho de existir. Madame experimentou uma sensação nova ou differente, que a desenervou, a desafogou, lhe permittiu reentrar mais acalmada na monotonia do seu lar, e ser util aos seus com rediviva applicação. E o Argentino adquiriu outra inesperada e triumphal certeza de quanto era amado e feliz na sua escolha. Tres ditosos, ao fim d'esse dia de primavera e de campo. E se d'aqui resultar um filho (o filho que o Argentino appetece), que herde as qualidades fortes e brilhantemente gaulezas de Chambray, accresce, ao contentamento individual dos tres, um lucro effectivo para a sociedade. Este mundo portanto está superiormente organisado.

Amigo fiel, que fielmente o espera á volta da Hollanda―

Fradique

.

VII

a madame de joujarre (Trad.)

Lisboa, março.

Minha querida madrinha.

―Foi hontem, por noite morta, no comboio, ao chegar a Lisboa (vindo do Norte e do Porto), que de repente me acudia á memoria estremunhada o juramento que lhe fiz no sabbado de Paschoa em Paris, com as mãos piamente estendidas sobre a sua maravilhosa edição dos

Deveres

de Cicero. Juramento bem estouvado, este, de lhe mandar todas as semanas, pelo correio, Portugal em «descripções, notas, reflexões e panoramas», como se lê no sub-titulo da

Viagem á Suissa

do seu amigo o Barão de Fernay, commendador de Carlos III e membro da Academia de Toulouse. Pois com tanta fidelidade cumpro eu os meus juramentos (quando feitos sobre a Moral de Cicero, e para regalo de quem reina na minha Vontade) que, apenas o recordei, abri logo escancaradamente ambos os olhos para recolher «descripções, notas, reflexões e panoramas» d'esta terra que é minha e que

está a la disposicion de ustêd

... Chegáramos a uma estação que chamam de Sacavem―e tudo o que os meus olhos arregalados viram do meu paiz, através dos vidros humidos do wagon, foi uma densa treva, d'onde mortiçamente surgiam aqui e além luzinhas remotas e vagas. Eram lanternas de faluas dormindo no rio:―e symbolisavam d'um modo bem humilhante essas escassas e desmaiadas parcellas de verdade positiva que ao homem é dado descobrir no universal mysterio do Sêr. De sorte que tornei a cerrar resignadamente os olhos―até que, á portinhola, um homem de bonet de galão, com o casaco encharcado d'agua, reclamou o meu bilhete, dizendo

Vossa Excellencia

! Em Portugal, boa madrinha, todos somos nobres, todos fazemos parte do Estado, e todos nos tratamos por

Excellencia

.

Era Lisboa e chovia. Vinhamos poucos no comboio, uns trinta talvez―gente simples, de maletas ligeiras e sacos de chita, que bem depressa atravessou a busca paternal e somnolenta da Alfandega, e logo se sumia para a cidade sob a molhada noite de março.

No casarão soturno, á espera das bagagens sérias, fiquei eu, o Smith

[3]

e uma senhora esgrouviada, de oculos no bico, envolta n'uma velha capa de pelles. Deviam ser duas horas da madrugada. O asphalto sujo do casarão regelava os pés.

Não sei quantos seculos assim esperamos, Smith immovel, a dama e eu marchando desencontradamente e rapidamente para aquecer ao comprido do balcão de madeira, onde dois guardas d'Alfandega, escuros como azeitonas, bocejavam com dignidade. Da porta do fundo, uma carreta, em que oscillava o montão da nossa bagagem, veio por fim rolando com pachorra. A dama de nariz de cegonha reconheceu logo a sua caixa de folha de Flandres, cuja tampa, cahindo para traz, revelou aos meus olhos que observavam (em seu serviço, exigente madrinha!) um penteador sujo, uma boceta de dôce, um livro de missa e dois ferros de frisar. O guarda enterrou o braço através d'estas coisas intimas, e com um gesto clemente declarou a Alfandega satisfeita. A dama abalou.

Ficamos sós, Smith e eu. Smith já arrebanhára a custo a minha bagagem. Mas faltava inexplicavelmente um saco de couro; e em silencio, com a guia na mão, um carregador dava uma busca vagarosa através dos fardos, barricas, pacotes, velhos bahus, armazenados ao fundo, contra a parede enxovalhada. Vi este digno homem hesitando pensativamente diante d'um embrulho de lona, diante d'uma arca de pinho. Seria qualquer d'esses o saco de couro? Depois, descorçoado, declarou que positivamente nas nossas bagagens não havia nem couro nem saco. Smith protestava, já irritado. Então o capataz arrancou a guia das mãos inhabeis do carregador, e recomeçou elle, com a sua intelligencia superior de chefe, uma rebusca através das «arrumações», esquadrinhando zelosamente caixotes, vasilhas, pipos, chapeleiras, canastras, latas e garrafões... Por fim sacudiu os hombros, com indizivel tedio, e desappareceu para dentro, para a escuridão das plataformas interiores. Passados instantes voltou, coçando a cabeça por baixo do bonet, cravando os olhos em roda, pelo chão vasio, á espera que o saco rompesse das entranhas d'este globo desconsolador. Nada! Impaciente, encetei eu proprio uma pesquiza sofrega através do casarão. O guarda da Alfandega, de cigarro collado ao beiço (bondoso homem!), deitava tambem aqui e além um olhar auxiliador e magistral. Nada! Repentinamente porém uma mulher de lenço vermelho na cabeça, que alli vadiava, n'aquella madrugada agreste, apontou para a porta da estação:

―Será aquillo, meu senhor?

Era! Era o meu saco, fóra, no passeio, sob a chuvinha miuda. Não indaguei como elle se encontrava alli, sósinho, separado da bagagem a que estrictamente o prendia o numero d'ordem estampado na guia em letras grossas―e reclamei uma tipoia. O carregador atirou a jaleca para cima da cabeça, sahiu ao largo, e recolheu logo annunciando com melancolia que não havia tipoias.

―Não ha! Essa é curiosa! Então como sahem d'aqui os passageiros?

O homem encolheu os hombros. «Ás vezes havia, outras vezes não havia, era conforme calhava a sorte...» Fiz reluzir uma placa de cinco tostões, e suppliquei áquelle benemerito que corresse as visinhanças da estação, á cata d'um vehiculo qualquer com rodas, coche ou carroça, que me levasse ao conchego d'um caldo e d'um lar. O homem largou, resmungando. E eu logo, como patriota descontente, censurei (voltado para o capataz e para o homem da Alfandega) a irregularidade d'aquelle serviço. Em todas as estações do Mundo, mesmo em Tunis, mesmo na Romelia, havia, á chegada dos comboios, omnibus, carros, carretas, para transportar gente e bagagem... Porque não as havia em Lisboa? Eis ahi um abominavel serviço que deshonrava a Nação!

O aduaneiro esboçou um movimento de desalento, como na plena consciencia de que todos os serviços eram abominaveis, e a Patria toda uma irreparavel desordem. Depois para se consolar puxou com delicia o lume ao cigarro. Assim se arrastou um d'estes quartos d'hora que fazem rugas na face humana.

Finalmente, o carregador voltou, sacudindo a chuva, affirmando que não havia uma tipoia em todo o bairro de Santa Apolonia.

―Mas que hei de eu fazer? Hei de ficar aqui?

O capataz aconselhou-me que deixasse a bagagem, e na manhã seguinte, com uma carruagem certa (contratada talvez por escriptura), a viesse recolher «muito a meu contento». Essa separação porém não convinha ao meu conforto. Pois n'esse caso elle não via solução, a não ser que por acaso alguma caleche, tresnoitada e trasmalhada, viesse a cruzar por aquellas paragens.

Então, á maneira de naufragos n'uma ilha deserta do Pacifico, todos nos apinhamos á porta da estação, esperando através da treva a vela―quero dizer a sege salvadora. Espera amarga, espera esteril! Nenhuma luz de lanterna, nenhum rumor de rodas, cortaram a mudez d'aquelles ermos.

Farto, inteiramente farto, o capataz declarou que «iam dar tres horas, e elle queria fechar a estação!» E eu? Ia eu ficar alli na rua, amarrado, sob a noite agreste, a um montão de bagagens intransportavel? Não! nas entranhas do digno capataz decerto havia melhor misericordia. Commovido, o homem lembrou outra solução. E era que nós, eu e o Smith, ajudados por um carregador―atirassemos a bagagem para as costas, e marchassemos com ella para o Hotel. Com effeito este parecia ser o unico recurso aos nossos males. Todavia (tanto costas amollecidas por longos e deleitosos annos de civilisação repugnam a carregar fardos, e tão tenaz é a esperança n'aquelles a quem a sorte se tem mostrado amoravel) eu e o Smith ainda uma vez sahimos ao largo, mudos, sondando a escuridão, com o ouvido inclinado ao lagedo, a escutar anciosamente se ao longe, muito ao longe, não sentiriamos rolar para nós o calhambeque da Providencia. Nada, desoladamente nada, na sombra avara!... A minha querida madrinha, seguindo estes lances, deve ter já lagrimas a bailar nas suas compassivas pestanas. Eu não chorei―mas tinha vergonha, uma immensa e pungente vergonha do Smith! Que pensaria aquelle escocez da minha patria―e de mim, seu amo, parcella d'essa patria desorganisada? Nada mais fragil que a reputação das nações. Uma simples tipoia que falta de noite, e eis, no espirito do Estrangeiro, desacreditada toda uma civilisação secular!

No emtanto o capataz fervia. Eram tres horas (mesmo tres e um quarto), e elle queria fechar a estação! Que fazer? Abandonamo-nos, suspirando, á decisão do desespero. Agarrei o estojo de viagem e o rolo de mantas: Smith deitou aos seus respeitaveis hombros, virgens de cargas, uma grossa maleta de couro: o carregador gemeu sob a enorme mala de cantoeiras d'aço. E (deixando ainda dois volumes para ser recolhidos de dia), começamos, sombrios e em fila, a trilhar

á pata

a distancia que vai de Santa Apolonia ao Hotel de Braganza! Poucos passos adiante, como o estojo de viagem me derreava o braço, atirei-o para as costas... E todos tres, de cabeça baixa, o dorso esmagado sob dezenas de kilos, com um intenso azedume a estragar-nos o figado, lá continuamos, devagar, n'uma fileira soturna, avançando para dentro da capital d'estes reinos! Eu viera a Lisboa com um fim de repouso e de luxo. Este era o luxo, este o repouso! Alli, sob a chuvinha impertinente, offegando, suando, tropeçando no lagedo mal junto d'uma rua tenebrosa, a trabalhar de carrejão!...

Não sei quantas eternidades gastamos n'esta via dolorosa. Sei que de repente (como se a trouxesse, á redea, o anjo da nossa guarda) uma caleche, uma positiva caleche, rompeu a passo do negrume d'uma viella. Tres gritos, sofregos e desesperados, estacaram a parelha. E, á uma, todas as malas rolaram em catadupa sobre o calhambeque, aos pés do cocheiro, que, tomado d'assalto e de assombro, ergueu o chicote, praguejando com furor. Mas serenou, comprehendendo a sua espantosa omnipotencia―e declarou que ao Hotel de Braganza (uma distancia pouco maior que toda a Avenida dos Campos Elyseos) não me podia levar por menos de

tres mil reis

. Sim, minha madrinha,

dezoito francos

! Dezoito francos em metal, prata ou ouro, por uma corrida, n'esta Idade democratica e industrial, depois de todo o penoso trabalho das Sciencias e das Revoluções para igualisarem e embaratecerem os confortos sociaes. Tremulo de colera, mas submisso como quem cede á exigencia d'um trabuco, enfiei para a tipoia―depois de me ter despedido com grande affecto do carregador, camarada fiel da nossa trabalhosa noite.

Partimos emfim, n'um galope desesperado. D'ahi a momentos estavamos assaltando a porta adormecida do Hotel de Braganza com repiques, clamores, punhadas, cocegas, injurias, gemidos, todas as violencias e todas as seducções. Debalde! Não foi mais resistente ao bello cavalleiro Percival o portão de ouro do palacio da Ventura! Finalmente o cocheiro atirou-se a ella aos couces. E, decerto por comprehender melhor esta linguagem, a porta, lenta e estremunhada, rolou nos seus gonzos. Graças te sejam, meu Deus, pae ineffavel! Estamos emfim sob um tecto, no meio dos tapetes e estuques do Progresso, ao cabo de tão barbara jornada. Restava pagar o batedor. Vim para elle com acerba ironia:

―Então, são tres mil reis?

Á luz do vestibulo, que me batia a face, o homem sorria. E que ha de elle responder, o malandro sem par?

―Aquillo era por dizer... Eu não tinha conhecido o snr. D. Fradique... Lá para o snr. D. Fradique é o que quizer.

Humilhação incomparavel! Senti logo não sei que torpe enternecimento que me amollecia o coração. Era a bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós portuguezes, nos enche de culpada indulgencia uns para os outros, e irremediavelmente estraga entre nós toda a Disciplina e toda a Ordem. Sim, minha cara madrinha... Aquelle bandido conhecia o snr. D. Fradique. Tinha um sorriso brejeiro e serviçal. Ambos eramos portuguezes. Dei uma libra áquelle bandido!

E aqui está, para seu ensino, a veridica maneira por que se entra, no ultimo quartel do seculo XIX, na grande cidade de Portugal. Todo seu, aquelle que de longe de si sempre péna―

Fradique

.

VIII

ao snr. e. mollinet Director da Revista de Biographia e de Historia

Paris, setembro.

Meu caro snr. Mollinet.

―Encontrei hontem á noite, ao voltar de Fontainebleau, a carta em que o meu douto amigo, em nome e no interesse da

Revista de Biographia e de Historia

, me pergunta quem é este meu compatriota Pacheco (José Joaquim Alves Pacheco), cuja morte está sendo tão vasta e amargamente carpida nos jornaes de Portugal. E deseja ainda o meu amigo saber que obras, ou que fundações, ou que livros, ou que idéas, ou que accrescimo na civilisacão portugueza deixou esse Pacheco, seguido ao tumulo por tão sonoras, reverentes lagrimas.

Eu casualmente conheci Pacheco. Tenho presente, como n'um resumo, a sua figura e a sua vida. Pacheco não deu ao seu paiz nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma idéa. Pacheco era entre nós superior e illustre unicamente porque

tinha um immenso talento

. Todavia, meu caro snr. Mollinet, este talento, que duas gerações tão soberbamente acclamaram, nunca deu, da sua força, uma manifestação positiva, expressa, visivel! O talento immenso de Pacheco ficou sempre calado, recolhido, nas profundidades de Pacheco! Constantemente elle atravessou a vida por sobre eminencias sociaes: Deputado, Director geral, Ministro, Governador de bancos, Conselheiro d'Estado, Par, Presidente do conselho―Pacheco tudo foi, tudo teve, n'este paiz que, de longe e a seus pés, o contemplava, assombrado do seu immenso talento. Mas nunca, n'estas situações, por proveito seu ou urgencia do Estado, Pacheco teve necessidade de deixar sahir, para se affirmar e operar fóra, aquelle immenso talento que lá dentro o suffocava. Quando os amigos, os partidos, os jornaes, as repartições, os corpos collectivos, a massa compacta da nação, murmurando em redor de Pacheco «

que immenso talento!

» o convidavam a alargar o seu dominio e a sua fortuna―Pacheco sorria, baixando os olhos serios por traz dos oculos dourados, e seguia, sempre para cima, sempre para mais alto, através das instituições, com o seu immenso talento aferrolhado dentro do craneo como no cofre d'um avaro. E esta reserva, este sorrir, este lampejar dos oculos, bastavam ao paiz que n'elles sentia e saboreava a resplandecente evidencia do talento de Pacheco.

Este talento nasceu em Coimbra, na aula de direito natural, na manhã em que Pacheco, desdenhando a

Sebenta

, assegurou «que o seculo XIX era um seculo de progresso e de luz». O curso começou logo a presentir e a affirmar, nos cafés da Feira, que havia muito talento em Pacheco: e esta admiração cada dia crescente do curso, communicando-se, como todos os movimentos religiosos, das multidões impressionaveis ás classes raciocinadoras, dos rapazes aos lentes, levou facilmente Pacheco a um

premio

no fim do anno. A fama d'esse talento alastrou então por toda a academia―que, vendo Pacheco sempre pensabundo, já d'oculos, austero nos seus passos, com praxistas gordos debaixo do braço, percebia alli um grande espirito que se concentra e se retesa todo em força intima. Esta geração academica, ao dispersar, levou pelo paiz, até os mais sertanejos burgos, a noticia do immenso talento de Pacheco. E já em escuras boticas de Traz-os-Montes, em lojas palreiras de barbeiros do Algarve, se dizia, com respeito, com esperança:―«Parece que ha agora ahi um rapaz de immenso talento que se formou, o Pacheco!»

Pacheco estava maduro para a representação nacional. Veio ao seu seio―trazido por um governo (não recordo qual) que conseguira, com dispendios e manhas, apoderar-se do precioso talento de Pacheco. Logo na estrellada noite de dezembro em que elle, em Lisboa, foi ao Martinho tomar chá e torradas, se susurrou pelas mesas, com curiosidade:―«É o Pacheco, rapaz de immenso talento!» E desde que as Camaras se constituiram, todos os olhares, os do governo e os da opposição, se começaram a voltar com insistencia, quasi com anciedade, para Pacheco, que, na ponta d'uma bancada, conservava a sua attitude de pensador recluso, os braços cruzados sobre o collete de velludo, a fronte vergada para o lado como sob o peso das riquezas interiores, e os oculos a faiscar... Finalmente uma tarde, na discussão da resposta ao discurso da Corôa, Pacheco teve um movimento como para atalhar um padre zarolho que arengava sobre a «liberdade». O sacerdote immediatamente estacou com deferencia; os tachygraphos apuraram vorazmente a orelha: e toda a camara cessou o seu desafogado susurro, para que, n'um silencio condignamente magestoso, se podesse pela vez primeira produzir o immenso talento de Pacheco. No emtanto Pacheco não prodigalisou desde logo os seus thesouros. De pé, com o dedo espetado (geito que foi sempre muito seu), Pacheco affirmou n'um tom que trahia a segurança do pensar e do saber intimo:―«que ao lado da liberdade devia sempre coexistir a autoridade!» Era pouco, decerto:―mas a camara comprehendeu bem que, sob aquelle curto resumo, havia um mundo, todo um formidavel mundo, de idéas solidas. Não volveu a fallar durante mezes―mas o seu talento inspirava tanto mais respeito quanto mais invisivel e inaccessivel se conservava lá dentro, no fundo, no rico e povoado fundo do seu sêr. O unico recurso que restou então aos devotos d'esse immenso talento (que já os tinha, incontaveis) foi contemplar a testa de Pacheco―como se olha para o céo pela certeza que Deus está por traz, dispondo. A testa de Pacheco offerecia uma superficie escanteada, larga e lustrosa. E muitas vezes, junto d'elle, Conselheiros, e Directores geraes balbuciavam maravilhados:―«Nem é necessário mais! Basta vêr aquella testa!»

Pacheco pertenceu logo ás principaes commissões parlamentares. Nunca porém accedeu a relatar um projecto, desdenhoso das especialidades. Apenas ás vezes, em silencio, tomava uma nota lenta. E quando emergia da sua concentração, espetando o dedo, era para lançar alguma idéa geral sobre a Ordem, o Progresso, o Fomento, a Economia. Havia aqui a evidente attitude d'um immenso talento que (como segredavam os seus amigos, piscando o olho com finura) «está á espera, lá em cima, a pairar». Pacheco mesmo, de resto, ensinava (esboçando, com a mão gorda, o voar superior d'uma aza por sobre arvoredo copado) que o «talento verdadeiro só devia conhecer as coisas

pela rama

».

Este immenso talento não podia deixar de soccorrer os conselhos da Corôa. Pacheco, n'uma recomposição ministerial (provocada por uma roubalheira) foi Ministro:―e immediatamente se percebeu que massiça consolidação viera dar ao Poder o immenso talento de Pacheco. Na sua pasta (que era a da Marinha) Pacheco não fez durante os longos mezes de gerencia «absolutamente nada», como insinuaram tres ou quatro espiritos amargos e estreitamente positivos. Mas pela primeira vez, dentro d'este regimen, a nação deixou de curtir inquietações e duvidas sobre o nosso Imperio Colonial. Porquê? Porque sentia que finalmente os interesses supremos d'esse Imperio estavam confiados a um immeaso talento, ao talento immenso de Pacheco.

Nas cadeiras do governo, Pacheco rarissimamente surdia do seu silencio repleto e fecundo. Ás vezes porém, quando a opposição se tornava clamorosa, Pacheco descerrava o braço, tomava com lentidão uma nota a lapis:―e esta nota, traçada com saber e madurissimo pensar, bastava para perturbar, acuar a opposição. É que o immenso talento de Pacheco terminára por inspirar, nas camaras, nas commissões, nos centros, um terror disciplinar! Ai d'esse sobre quem viesse a desabar com colera aquelle talento immenso! Certa lhe seria a humilhação irresgatavel! Assim dolorosissimamente o experimentou o pedagogista, que um dia se arrojou a accusar o snr. Ministro do Reino (Pacheco dirigia então o Reino) de descurar a Instrucção do paiz! Nenhuma incriminação podia ser mais sensivel áquelle immenso espirito que, na sua phrase lapidaria e succulenta, ensinára que «um povo sem o curso dos lyceus é um povo incompleto». Espetando o dedo (geito sempre tão seu) Pacheco esborrachou o homem temerario com esta coisa tremenda:―«Ao illustre deputado que me censura só tenho a dizer que emquanto, sobre questões d'Instrucção Publica, s. exc.

a

, ahi n'essas bancadas, faz berreiro, eu, aqui n'esta cadeira, faço luz!»―Eu estava lá, n'esse esplendido momento, na galeria. E não me recordo de ter jámais ouvido, n'uma assembléa humana, uma tão apaixonada e fervente rajada de acclamações! Creio que foi d'ahi a dias que Pacheco recebeu a grã-cruz da Ordem de S. Thiago.

O immenso talento de Pacheco pouco a pouco se tornava um credo nacional. Vendo que inabalavel apoio esse immenso talento dava ás instituições que servia, todas o appeteceram. Pacheco começou a ser um Director universal de Companhias e de Bancos. Cubiçado pela Corôa, penetrou no Conselho de Estado. O seu partido reclamou avidamente que Pacheco fosse seu Chefe. Mas os outros partidos cada dia se soccorriam com submissa reverencia do seu immenso talento. Em Pacheco pouco a pouco se concentrava a nação.

Á maneira que elle assim envelhecia, e crescia em influencia e dignidades, a admiração pelo seu immenso talento chegou a tomar no paiz certas fórmas d'expressão só proprias da religião e do amor. Quando elle foi Presidente do Conselho, havia devotos que espalmavam a mão no peito com uncção, reviravam o branco do olho ao céo, para murmurar piamente:―«Que talento!» E havia amorosos que, cerrando os olhos e repenicando um beijo nas pontas apinhadas dos dedos, balbuciavam com langor:―«Ai! que talento!» E, para que o esconder? Outros havia, a quem aquelle immenso talento amargamente irritava, como um excessivo e desproporcional privilegio. A esses ouvi eu bradar com furor, atirando patadas ao chão:―«Irra, que é ter talento de mais!» Pacheco no emtanto já não fallava. Sorria apenas. A testa cada vez se lhe tornava mais vasta.

Não relembrarei a sua incomparavel carreira. Basta que o meu caro snr. Mollinet percorra os nossos annaes. Em todas as instituições, reformas, fundações, obras, encontrará o cunho de Pacheco. Portugal todo, moral e socialmente, está repleto de Pacheco. Foi tudo, teve tudo. Decerto, o seu talento era immenso! Mas immenso se mostrou o reconhecimento da sua patria! Pacheco e Portugal, de resto, necessitavam insubstituivelmente um do outro, e ajustadissimamente se completavam. Sem Portugal―Pacheco não teria sido o que foi entre os homens: mas sem Pacheco―Portugal não seria o que é entre as nações!

A sua velhice offereceu um caracter augusto. Perdera o cabello radicalmente. Todo elle era testa. E mais que nunca revelava o seu immenso talento―mesmo nas minimas coisas. Muito bem me lembro da noite (sendo elle Presidente do Conselho) em que, na sala da Condessa de Arrôdes, alguem, com fervor, appeteceu conhecer o que s. exc.

a

pensava de Canovas del Castillo. Silenciosamente, magistralmente, sorrindo apenas, s. exc.

a

deu com a mão grave, de leve, um corte horisontal no ar. E foi em torno um murmurio d'admiração, lento e maravilhado. N'aquelle gesto quantas coisas subtis, fundamente pensadas! Eu por mim, depois de muito esgravatar, interpretei-o d'este modo:―«mediocre, meia-altura, o snr. Canovas!» Porque, note o meu caro snr. Mollinet como aquelle talento, sendo tão vasto―era ao mesmo tempo tão fino!

Rebentou;―quero dizer, s. exc.

a

morreu, quasi repentinamente, sem soffrimento, no começo d'este duro inverno. Ia ser justamente creado marquez de Pacheco. Toda a nação o chorou com infinita dôr. Jaz no alto de S. João, sob um mausoleu, onde por suggestão do snr. conselheiro Accacio (em carta ao

Diario de Noticias

) foi esculpida uma figura de

Portugal chorando o Genio

.

Mezes depois da morte de Pacheco, encontrei a sua viuva, em Cintra, na casa do dr. Videira. É uma mulher (asseguram amigos meus) de excellente intelligencia e bondade. Cumprindo um dever de portuguez, lamentei, diante da illustre e affavel senhora, a perda irreparavel que era sua e da patria. Mas quando, commovido, alludi ao immenso talento de Pacheco, a viuva de Pacheco ergueu n'um brusco espanto, os olhos que conservára baixos―e um fugidio, triste, quasi apiedado sorriso arregaçou-lhe os cantos da bôca pallida... Eterno desaccordo dos destinos humanos! Aquella mediana senhora nunca comprehendera aquelle immenso talento! Creia-me, meu caro snr. Mollinet, seu dedicado―

Fradique

.

IX

A CLARA...

(Trad.)

Paris, junho.

Minha adorada amiga.

―Não, não foi na

Exposição dos Aguarellistas

, em março, que eu tive comsigo o meu primeiro encontro, por mandado dos Fados. Foi no inverno, minha adorada amiga, no baile dos Tressans. Foi ahi que a vi, conversando com Madame de Jouarre, diante d'uma console, cujas luzes, entre os molhos de orchideas, punham nos seus cabellos aquelle nimbo d'ouro que tão justamente lhe pertence como «rainha de graça entre as mulheres». Lembro ainda, bem religiosamente, o seu sorrir cançado, o vestido preto com relevos côr de botão d'ouro, o leque antigo que tinha fechado no regaço. Passei; mas logo tudo em redor me pareceu irreparavelmente enfadonho e feio; e voltei a readmirar, a

meditar

em silencio a sua belleza, que me prendia pelo esplendor patente e comprehensivel, e ainda por não sei quê de fino, de espiritual, de dolente e de meigo que brilhava através e vinha da alma. E tão intensamente me embebi n'essa contemplação, que levei commigo a sua imagem, decorada e inteira, sem esquecer um fio dos seus cabellos ou uma ondulação da sêda que a cobria, e corri a encerrar-me com ella, alvoroçado, como um artista que n'algum escuro armazem, entre poeira e cacos, descobrisse a Obra sublime d'um Mestre perfeito.

E, porque o não confessarei? Essa imagem foi para mim, ao principio, meramente um Quadro, pendurado no fundo da minha alma, que eu a cada dôce momento olhava―mas para lhe louvar apenas, com crescente surpreza, os encantos diversos de Linha e de Côr. Era sómente uma rara tela, posta em sacrario, immovel e muda no seu brilho, sem outra influencia mais sobre mim que a d'uma fórma muito bella que captiva um gosto muito educado. O meu sêr continuava livre, attento ás curiosidades que até ahi o seduziam, aberto aos sentimentos que até ahi o solicitavam;―e só quando sentia a fadiga das coisas imperfeitas ou o desejo novo d'uma occupação mais pura, regressava á Imagem que em mim guardava, como um Fra Angelico, no seu claustro, pousando os pinceis ao fim do dia, e ajoelhando ante a Madona a implorar d'ella repouso e inspiração superior.

Pouco a pouco, porém, tudo o que não foi esta contemplação perdeu para mim valor e encanto. Comecei a viver cada dia mais retirado no fundo da minha alma, perdido na admiração da Imagem que lá rebrilhava―até que só essa occupação me pareceu digna da vida, no mundo todo não reconheci mais que uma apparencia inconstante, e fui como um monge na sua cella, alheio ás coisas mais reaes, de joelhos e hirto no seu sonho, que é para elle a unica realidade.

Mas não era, minha adorada amiga, um pallido e passivo extasi diante da sua Imagem. Não! era antes um ancioso e forte estudo d'ella, com que eu procurava conhecer através da Fórma a Essencia, e (pois que a Belleza é o esplendor da Verdade) deduzir das perfeições do seu Corpo as superioridades da sua Alma. E foi assim que lentamente surprehendi o segredo da sua natureza; a sua clara testa que o cabello descobre, tão clara e lisa, logo me contou a rectidão do seu pensar: o seu sorriso, d'uma nobreza tão intellectual, facilmente me revelou o seu desdem do mundanal e do ephemero, a sua incansavel aspiração para um viver de verdade e de belleza: cada graça de seus movimentos me trahiu uma delicadeza do seu gosto: e nos seus olhos differencei o que n'elles tão adoravelmente se confunde, luz de razão, calor de coração, luz que melhor aquece, calor que melhor alumia... Já a certeza de tantas perfeições bastaria a fazer dobrar, n'uma adoração perpetua, os joelhos mais rebeldes. Mas succedeu ainda que, ao passo que a comprehendia e que a sua Essencia se me manifestava, assim visivel e quasi tangivel, uma influencia descia d'ella sobre mim―uma influencia estranha, differente de todas as influencias humanas, e que me dominava com transcendente omnipotencia. Como lhe poderei dizer? Monge, fechado na minha cella, comecei a aspirar á santidade, para me harmonisar e merecer a convivencia com a Santa a que me votára. Fiz então sobre mim um aspero exame de consciencia. Investiguei com inquietação se o meu pensar era condigno da pureza do seu pensar; se no meu gosto não haveria desconcertos que podessem ferir a disciplina do seu gosto; se a minha idéa da vida era tão alta e séria como aquella que eu presentira na espiritualidade do seu olhar, do seu sorrir; e se o meu coração não se dispersára e enfraquecera de mais para poder palpitar com parallelo vigor junto do seu coração. E tem sido em mim agora um arquejante esforço para subir a uma perfeição identica áquella que em si tão submissamente adoro.

De sorte que a minha querida amiga, sem saber, se tornou a minha educadora. E tão dependente fiquei logo d'esta direcção, que já não posso conceber os movimentos do meu sêr senão governados por ella e por ella ennobrecidos. Perfeitamente sei que tudo o que hoje surge em mim de algum valor, idéa ou sentimento, é obra d'essa educação que a sua alma dá á minha, de longe, só com existir e ser comprehendida. Se hoje me abandonasse a sua influencia―devia antes dizer, como um asceta, a sua Graça―todo eu rolaria para uma inferioridade sem remissão. Veja pois como se me tornou necessaria e preciosa... E considere que, para exercer esta supremacia salvadora, as suas mãos não tiveram de se impôr sobre as minhas―bastou que eu a avistasse de longe, n'uma festa, resplandecendo. Assim um arbusto silvestre floresce á borda d'um fôsso, porque lá em cima nos remotos céos fulge um grande sol, que não o vê, não o conhece, e magnanimamente o faz crescer, desabrochar, e dar o seu curto aroma... Por isso o meu amor attinge esse sentimento indescripto e sem nome que a Planta, se tivesse consciencia, sentiria pela Luz.

E considere ainda que, necessitando de si como da luz, nada lhe rogo, nenhum bem imploro de quem tanto póde e é para mim dona de todo o bem. Só desejo que me deixe viver sob essa influencia, que, emanando do simples brilho das suas perfeições, tão facil e dôcemente opéra o meu aperfeiçoamento. Só peço esta permissão caridosa. Veja pois quanto me conservo distante e vago, na esbatida humildade d'uma adoração que até receia que o seu murmurio, um murmurio de prece, roce o vestido da imagem divina...

Mas se a minha querida amiga por acaso, certa do meu renunciamento a toda a recompensa terrestre, me permittisse desenrolar junto de si, n'um dia de solidão, a agitada confidencia do meu peito, decerto faria um acto de ineffavel misericordia―como outr'ora a Virgem Maria quando animava os seus adoradores, ermitas e santos, descendo n'uma nuvem e concedendo-lhes um sorriso fugitivo, ou deixando-lhes cahir entre as mãos erguidas uma rosa do Paraiso. Assim, ámanhã, vou passar a tarde com Madame de Jouarre. Não ha ahi a santidade d'uma cella ou d'uma ermida, mas quasi o seu isolamento: e se a minha querida amiga surgisse, em pleno resplendor, e eu recebesse de si, não direi uma rosa, mas um sorriso, ficaria então radiosamente seguro de que este meu amor, ou este meu sentimento indescripto e sem nome que vai além do amor, encontra ante seus olhos piedade e permissão para esperar.―

Fradique

.

X

a madame de jouarre

(Trad.)

Lisboa, junho.

Minha excellente madrinha.

―Eis o que tem «visto e feito», desde maio, na formosissima Lisboa,

Ulyssipo pulcherrima

, o seu admiravel afilhado. Descobri um patricio meu, das Ilhas, e meu parente, que vive ha tres annos construindo um Systema de Philosophia no terceiro andar d'uma casa de hospedes, na travessa da Palha. Espirito livre, emprehendedor e destro, paladino das Idéas Geraes, o meu parente, que se chama Procopio, considerando que a mulher não vale o tormento que espalha, e que os oitocentos mil reis de um olival bastam, e de sobra, a um espiritualista―votou a sua vida á Logica e só se interessa e soffre pela Verdade. É um philosopho alegre; conversa sem berrar; tem uma aguardente de muscatel excellente;―e eu trepo com gosto duas ou tres vezes por semana á sua officina de Metaphysica a saber se, conduzido pela alma dôce de Maine de Biran, que é o seu cicerone nas viagens do Infinito, elle já entreviu emfim, disfarçada por traz dos seus derradeiros véos, a Causa das Causas. N'estas piedosas visitas vou, pouco a pouco, conhecendo alguns dos hospedes que n'esse terceiro andar da travessa da Palha gozam uma boa vida de cidade, a doze tostões por dia, fóra vinho e roupa lavada. Quasi todas as profissões em que se occupa a classe-média em Portugal estão aqui representadas com fidelidade, e eu posso assim estudar, sem esforço, como n'um indice, as idéas e os sentimentos que no nosso Anno da Graça formam o fundo moral da nação.

Esta casa de hospedes offerece encantos. O quarto do meu primo Procopio tem uma esteira nova, um leito de ferro philosophico e virginal, cassa vistosa nas janellas, rosinhas e aves pela parede,―e é mantido em rigido asseio por uma d'estas creadas como só produz Portugal, bella moça de Traz-os-Montes, que, arrastando os seus chinelos com a indolencia grave d'uma nympha latina, varre, esfrega e arruma todo o andar; serve nove almoços, nove jantares e nove chás; escarolla as louças; prega esses botões de calças e de ceroulas que os portuguezes estão constantemente a perder; engomma as saias da Madama; reza o terço da sua aldeia; e tem ainda vagares para amar desesperadamente um barbeiro visinho, que está decidido a casar com ella quando fôr empregado na Alfandega. (E tudo isto por tres mil reis de soldada). Ao almoço ha dois pratos, sãos e fartos, de ovos e bifes. O vinho vem do lavrador, vinhinho leve e precoce, feito pelos veneraveis preceitos das Georgicas, e semelhante decerto ao vinho da Rethia―

quo te carmine dicam, Rethica?

A torrada, tratada pelo lume forte, é incomparavel. E os quatro paineis que ornam a sala, um retrato de Fontes (estadista, já morto, que é tido pelos portuguezes em grande veneração), uma imagem de Pio IX sorrindo e abençoando, uma vista da varzea de Collares, e duas donzellas beijocando uma rôla, inspiram as salutares idéas, tão necessarias, de Ordem Social, de Fé, de Paz campestre, e de Innocencia.

A patrôa, D. Paulina Soriana, é uma Madama de quarenta outonos, frescalhota e roliça, com um pescoço muito nedio, e toda ella mais branca que o chambre branco que usa por sobre uma saia de sêda roxa. Parece uma excellente senhora, paciente e maternal, de bom juizo e de boa economia. Sem ser rigorosamente viuva―tem um filho, já gordo tambem, que roe as unhas e segue o curso dos lyceus. Chama-se Joaquim, e, por ternura, Quinzinho; soffreu esta primavera não sei que duro mal que o forçava a infindaveis orchatas e semicupios; e está destinado por D. Paulina á Burocracia que ella considera, e muito justamente, a carreira mais segura e a mais facil.

―O essencial para um rapaz (affirmava ha dias a apreciavel senhora, depois do almoço, traçando a perna) é ter padrinhos e apanhar um emprego; fica logo arrumado; o trabalho é pouco e o ordenadosinho está certo ao fim do mez.

Mas D. Paulina está tranquilla com a carreira do Quinzinho. Pela influencia (que é toda-poderosa n'estes Reinos) d'um amigo certo, o snr. conselheiro Vaz Netto, ha já no Ministerio das Obras Publicas ou da Justiça uma cadeira de amanuense, reservada, marcada com lenço, á espera do Quinzinho. E mesmo como o Quinzinho foi reprovado nos ultimos exames, já o snr. conselheiro Vaz Netto lembrou que, visto elle se mostrar assim desmazelado, com pouco gosto pelas letras, o melhor era não teimar mais nos estudos e no Lyceu, e entrar immediatamente para a repartição...

―Que ainda assim (ajuntou a boa senhora, quando me honrou com estas confidencias) gostava que o Quinzinho acabasse os estudos. Não era pela necessidade, e por causa do emprego, como v. exc.

a

vê: era pelo gosto.

Quinzinho tem pois a sua prosperidade agradavelmente garantida. De resto supponho que D. Paulina junta um peculio prudente. Na casa, bem afreguezada, ha agora sete hospedes―e todos fieis, solidos, gastando, com os extras, de quarenta e cinco a cincoenta mil reis por mez. O mais antigo, o mais respeitado (e aquelle que eu precisamente já conheço) é o Pinho―o Pinho brazileiro, o commendador Pinho. É elle quem todas as manhãs annuncia a hora do almoço (o relogio do corredor ficou desarranjado desde o Natal) sahindo do seu quarto ás dez horas, pontualmente, com a sua garrafa d'agua de Vidago, e vindo occupar á mesa, já posta, mas ainda deserta, a sua cadeira, uma cadeira especial de verga, com almofadinha de vento. Ninguem sabe d'este Pinho nem a idade, nem a familia, nem a terra de provincia em que nasceu, nem o trabalho que o occupou no Brazil, nem as origens da sua commenda. Chegou uma tarde de inverno n'um paquete da Mala Real; passou cinco dias no Lazareto; desembarcou com dois bahús, a cadeira de verga, e cincoenta e seis latas de dôce de tijolo; tomou o seu quarto n'esta casa de hospedes, com janella para a travessa; e aqui engorda, pacifica e risonhamente, com o seis por cento das suas inscripções. É um sujeito atochado, baixote, de barba grisalha, a pelle escura, toda em tons de tijolo e de café, sempre vestido de casimira preta, com uma luneta d'ouro pendente d'uma fita de sêda, que elle, na rua, a cada esquina, desemmaranha do cordão d'ouro do relogio para lêr com interesse e lentidão os cartazes dos theatros. A sua vida tem uma d'essas prudentes regularidades que tão admiravelmente concorrem para crear a ordem nos Estados. Depois de almoço calça as botas de cano, lustra o chapéo de sêda, e vai muito devagar até á rua dos Capellistas, ao escriptorio terreo do corretor Godinho, onde passa duas horas pousado n'um môcho, junto do balcão, com as mãos cabelludas encostadas ao cabo do guarda-sol. Depois entala o guarda-sol debaixo do braço, e pela rua do Ouro, com uma pachorra saboreada, parando a contemplar alguma senhora de sêdas mais tufadas ou alguma vittoria de librés mais lustrosas, alonga os passos para a tabacaria Sousa, ao Rocio, onde bebe um copo de agua de Caneças, e repousa até que a tarde refresque. Segue então para a Avenida, a gozar o ar puro e o luxo da cidade, sentado n'um banco; ou dá a volta ao Rocio, sob as arvores, com a face erguida e dilatada em bem-estar. Ás seis recolhe, despe e dobra a sobrecasaca, calça os chinelos de marroquim, enverga uma regalada quinzena de ganga, e janta, repetindo sempre a sopa. Depois do café dá um «hygienico» pela Baixa, com demoras pensativas, mas risonhas, diante das vitrines de confeitaria e de modas; e em certos dias sobe o Chiado, dobra a esquina da rua Nova da Trindade, e regateia, com placidez e firmeza, uma senha para o Gymnasio. Todas as sextas-feiras entra no seu banco, que é o

London Brazilian

. Aos domingos, á noitinha, com recato, visita uma moça gorda e limpa que mora na rua da Magdalena. Cada semestre recebe o juro das suas inscripcões.

Toda a sua existencia é assim um pautado repouso. Nada o inquieta, nada o apaixona. O universo, para o commendador Pinho, consta de duas unicas entidades―elle proprio, Pinho, e o Estado que lhe dá o seis por cento: portanto o universo todo está perfeito, e a vida perfeita, desde que Pinho, graças ás aguas de Vidago, conserve appetite e saude, e que o Estado continue a pagar fielmente o coupon. De resto, pouco lhe basta para contentar a porção d'Alma e Corpo de que apparentemente se compõe. A necessidade que todo o sêr vivo (mesmo as ostras, segundo affirmam os Naturalistas) tem de communicar com os seus semelhantes por meio de gestos ou sons, é em Pinho pouco exigente. Pelos meados d'abril, sorri e diz, desdobrando o guardanapo―«temos o verão comnosco»: todos concordam e Pinho goza. Por meados d'outubro, corre os dedos pela barba e murmura―«temos comnosco o inverno»: se outro hospede discorda, Pinho emmudece, porque teme controversias. E esta honesta permutação de idéas lhe basta. Á mesa, comtanto que lhe sirvam uma sopa succulenta, n'um prato fundo, que elle possa encher duas vezes―fica consolado e disposto a dar graças a Deus. O

Diario de Pernambuco

, o

Diario de Noticias

, alguma comedia do Gymnasio, ou uma Magica, satisfazem e de sobra essas outras necessidades de intelligencia e de imaginação, que Humboldt encontrou mesmo entre os Botecudos. Nas funcções do sentimento Pinho só pretende modestamente (como revelou um dia ao meu primo) «não apanhar uma doença». Com as coisas publicas está sempre agradado, governe este ou governe aquelle, comtanto que a policia mantenha a ordem, e que não se produzam nos principios e nas ruas disturbios nocivos ao pagamento do coupon. E emquanto ao destino ulterior da sua alma, Pinho (como elle a mim proprio me assegurou)―«só deseja depois de morto que o não enterrem vivo». Mesmo ácerca d'um ponto tão importante, como é para um commendador o seu mausoléo, Pinho pouco requer:―apenas uma pedra lisa e decente, com o seu nome, e um singelo

orai por elle

.

Errariamos porém, minha querida madrinha, em suppôr que Pinho seja alheio a tudo quanto seja humano. Não! Estou certo que Pinho respeita e ama a humanidade. Sómente a humanidade, para elle, tornou-se no decurso da sua vida excessivamente restricta. Homens, homens serios, verdadeiramente merecedores d'esse nobre nome, e dignos de que por elles se mostre reverencia, affecto, e se arrisque um passo que não cance muito―para Pinho só ha os prestamistas do Estado. Assim, meu primo Procopio, com uma malicia bem inesperada n'um espiritualista, contou-lhe ha tempos em confidencia, arregalando os olhos, que eu possuia muitos papeis! muitas apolices! muitas inscripções!... Pois na primeira manhã que voltei, depois d'essa revelação, á casa de hospedes, Pinho, ligeiramente córado, quasi commovido, offereceu-me uma boceta de dôce de tijolo embrulhada n'um guardanapo. Acto tocante, que explica aquella alma! Pinho não é um egoista, um Diogenes de rabôna preta, sêccamente retrahido dentro da pipa da sua inutilidade. Não. Ha n'elle toda a humana vontade de amar os homens seus semelhantes, e de os beneficiar. Sómente quem são, para Pinho, os seus genuinos «semelhantes»? Os prestamistas do Estado. E em que consiste para Pinho o acto de beneficio? Na cessão aos outros d'aquillo que a elle lhe é inutil. Ora Pinho não se dá bem com o uso da goiabada―e logo que soube que eu era um possuidor de inscripções, um seu semelhante, capitalista como elle, não hesitou, não se retrahiu mais ao seu dever humano, praticou logo o acto de beneficio, e lá veio, ruborisado e feliz, trazendo o seu dôce dentro d'um guardanapo.

É o commendador Pinho um cidadão inutil? Não, certamente! Até para manter em estabilidade e solidez a ordem d'uma nação, não ha mais prestadio cidadão do que este Pinho, com a sua placidez de habitos, o seu facil assentimento a todos os feitios da coisa publica, a sua conta do banco verificada ás sextas-feiras, os seus prazeres colhidos em hygienico recato, a sua reticencia, a sua inercia. D'um Pinho nunca póde sahir idéa ou acto, affirmação ou negação, que desmanche a paz do Estado. Assim gordo e quieto, collado sobre o organismo social, não concorrendo para o seu movimento, mas não o contrariando tambem, Pinho apresenta todos os caracteres d'uma excrescencia sebacea. Socialmente, Pinho é um lobinho. Ora nada mais inoffensivo que um lobinho: e nos nossos tempos, em que o Estado está cheio de elementos morbidos, que o parasitam, o sugam, o infeccionam e o sobreexcitam, esta inoffensibilidade de Pinho póde mesmo (em relação aos interesses da ordem) ser considerada como qualidade meritoria. Por isso o Estado, segundo corre, o vai crear barão. E barão d'um titulo que os honra a ambos, ao Estado e a Pinho, porque é n'elle simultaneamente prestada uma homenagem graciosa e discreta á Familia e á Religião. O pae de Pinho chamava-se Francisco―Francisco José Pinho. E o nosso amigo vai ser feito barão de S. Francisco.

Adeus, minha querida madrinha! Vamos no nosso decimo oitavo dia de chuva! Desde o começo de junho e das rosas, que n'este paiz de sol sobre azul, na terra trigueira da oliveira e do louro, queridos a Phebo, está chovendo, chovendo em fios d'agua cerrados, continuos, imperturbados, sem sopro de vento que os ondule, nem raio de luz que os diamantise, formando das nuvens ás ruas uma trama molle de humidade e tristeza, onde a alma se debate e definha como uma borboleta presa nas teias d'uma aranha. Estamos em pleno versiculo XVII, do capitulo VII do Genesis. No caso d'estas aguas do céo não cessarem, eu concluo que as intenções de Jehovah, para com este paiz peccador, são diluvianas; e, não me julgando menos digno da Graça e da Alliança divina do que Noé, vou comprar madeira e betume, e fazer uma Arca segundo os bons modelos hebraicos ou assyrios. Se por acaso d'aqui a tempos uma pomba branca fôr bater com as azas á sua vidraça, sou eu que aportei ao Havre na minha Arca, levando commigo, entre outros animaes, o Pinho e a D. Paulina, para que mais tarde, tendo baixado as aguas, Portugal se repovoe com proveito, e o Estado tenha sempre Pinhos a quem peça dinheiro emprestado, e Quinzinhos gordos com quem gaste o dinheiro que pediu a Pinho. Seu afilhado do coração―

Fradique

.

XI

a mr. bertrand b.

Engenheiro na Palestina

Paris, abril.

Meu caro Bertrand.

―Muito ironicamente, hoje, n'este Domingo de Paschoa em que os céos contentes, se revestiram paschalmente d'uma chasula d'ouro e d'azul, e os lilazes novos perfumam o meu jardim para o santificar, me chega a tua horrenda carta, contando que findaste o traçado do

Caminho de Ferro de Jaffa a Jerusalem

! E triumphas! Decerto, á porta de Damasco, com as botas fortes enterradas no pó de Josaphat, o guarda-sol pousado sobre uma pedra tumular de propheta, o lapis ainda errante sobre o papel, sorris, todo te dilatas, e através das lunetas defumadas contemplas, marcada por bandeirinhas, a «linha» onde em breve, fumegando e guinchando, rolará da velha Jeppo para a velha Sião o negro comboio da tua negra obra! Em redor os empreiteiros, limpando o grosso suor da façanha, desarrolham as garrafas da cerveja festiva! E por traz de vós o Progresso, hirto contra as muralhas de Herodes, todo engonçado, todo aparafusado, tambem triumpha, esfregando, com estalidos asperos, as suas rigidas mãos de ferro fundido.

Bem o sinto, bem o comprehendo o teu escandaloso traçado, oh filho dilecto e fatal da Escóla de Pontes e Calçadas! Nem necessitava esse plano com que me deslumbras, todo em linhas escarlates, parecendo golpes d'uma faca vil por cima d'uma carne nobre. É em Jaffa, na antiquissima Jeppo, já heroica e santa antes do Diluvio, que a tua primeira Estação com os alpendres, e a carvoeira, e as balanças, e a sineta, e o chefe de bonet agaloado, se ergue entre esses laranjaes, gabados pelo Evangelho, onde S. Pedro, correndo aos brados das mulheres, resuscitou Dorcas, a boa tecedeira, e a ajudou a sahir do seu sepulchro. D'ahi a locomotiva, com a sua 1.ª classe forrada de chita, rola descaradamente pela planicie de Saaron, tão amada do céo, que, mesmo sob o bruto pisar das hordas philistinas, nunca n'ella murchavam anemonas e rosas. Corta através de Beth-Dagon, e mistura o pó do seu carvão de Cardiff ao vetusto pó do Templo de Baal, que Samsão, mudo e repassado de tristeza, derrocou movendo os hombros. Corre por sobre Lydda, e atrôa com guinchos o grande S. Jorge, que ainda couraçado, emplumado, e o guante sobre a espada, alli dorme o seu somno terrestre. Toma agua, por um tubo de couro, do Poço Santo d'onde a Virgem na fugida para o Egypto, repousando sob o figueiral, deu de beber ao Menino. Pára em Ramleh, que é a velha Arymathea (

Arymathea, quinze minutos de demora!

), a aldeia dos dôces hortos e do homem dôce que enterrou o Senhor. Fura, por tunneis fumarentos, as collinas de Judá, onde choraram os prophetas. Rompe por entre ruinas que foram a cidadella e depois a sepultara dos Machabeus. Galga, n'uma ponte de ferro, a torrente em que David errante escolhia pedras para a sua funda derrubadora de monstros. Colleia e arqueja pelo valle melancolico que habitou Jeremias. Suja ainda Emmauz, vara o Cedron, e estaca emfim, suada, azeitada, sordida de felugem, no valle de Hennom, no

terminus

de Jerusalem!

Ora, meu bom Bertrand, eu que não sou das Pontes e Calçadas, nem accionista da

Companhia dos Caminhos de Ferro da Palestina

, apenas um peregrino saudoso d'esses logares adoraveis, considero que a tua obra de civilisação é uma obra de profanação. Bem sei, engenheiro! S. Pedro resuscitando a velha Dorcas; a florescencia miraculosa das roseiras de Saaron; o Menino bebendo, na fuga para o Egypto, á sombra das arvores que os anjos iam adiante semeando,―são fabulas... Mas são fabulas que ha dois mil annos dão encanto, esperança, abrigo consolador, e energia para viver a um terço da Humanidade. Os logares onde se passaram essas historias, decerto muito simples e muito humanas, que depois, pela necessidade que a alma tem do Divino, se transformaram na tão linda mythologia christã, são por isso veneraveis. N'elles viveram, combateram, ensinaram, padeceram, desde Jacob até S. Paulo, todos os sêres excepcionaes que hoje povoam o céo. Jehovah só entre esses montes se mostrava, com terrifico esplendor, no tempo em que visitava os homens. Jesus desceu a esses valles pensativos para renovar o mundo. Sempre a Palestina foi a residencia preferida da Divindade. Nada de Material devia pois desmanchar o seu recolhimento Espiritual. E é penoso que a fumaraça do Progresso suje um ar que conserva o perfume da passagem dos anjos, e que os seus trilhos de ferro revolvam o sólo onde ainda não se apagaram as pégadas divinas.

Tu sorris, e accusas precisamente a velha Palestina de ser uma incorrigivel fonte de Illusão. Mas a illusão, Bertrand amigo, é tão util como a certeza: e na formação de todo o espirito, para que elle seja completo, devem entrar tanto os Contos de Fadas como os Problemas de Euclides. Destruir a influencia religiosa e poetica da Terra Santa, tanto nos corações simples como nas intelligencias cultas, é um retrocesso na Civilisação, na verdadeira, n'aquella de que tu não és obreiro, e que tem por melhor esforço aperfeiçoar a Alma do que reforçar o Corpo, e, mesmo pelo lado da utilidade, considera um Sentimento mais util do que uma Machina. Ora, locomotivas manobrando pela Judéa e Galiléa, com a sua materialidade de carvão e ferro, o seu desenvolvimento inevitavel de hoteis, omnibus, bilhares e bicos de gaz, destroem irremediavelmente o poder emotivo da Terra-dos-Milagres, porque a modernisam, a industrialisam, a banalisam...

Esse poder, essa influencia espiritual da Palestina, de que provinha? De ella se ter conservado, através d'estes quatro mil annos, immutavelmente

biblica

e

evangelica

... Decerto sobrevieram mudanças em Israel; a administração turca tem menos esplendor que a administração romana; dos vergeis e jardins que cercavam Jerusalem, só resta penhasco e ortiga; as cidades, esboroadas, perderam o seu heroismo de cidadellas; o vinho é raro; todo o saber se apagou; e não duvido que aqui e além, em Sião, n'algum terraço de mercador levantino, se assobie ao luar a valsa de

Madame Angot

.

Mas a vida intima, na sua fórma rural, urbana ou nomada, as maneiras, os costumes, os ceremoniaes, os trajes, os utensilios,―tudo permanece como nos tempos de Abrahão e nos tempos de Jesus. Entrar na Palestina é penetrar n'uma Biblia viva. As tendas de pelle de cabra plantadas á sombra dos sycomoros; o pastor apoiado á sua alta lança, seguido do seu rebanho; as mulheres, veladas de amarello ou branco, cantando, a caminho da fonte, com o seu cantaro no hombro; o montanhez atirando a funda ás aguias; os velhos sentados, pela frescura da tarde, á porta das villas muradas; os claros terraços cheios de pombas; o escriba que passa, com o seu tinteiro dependurado da cinta; as servas moendo o grão; o homem de longos cabellos nazarenos que nos saúda com a palavra de

paz

, e que conversa comnosco por parabolas; a hospedeira que nos acolhe, atirando, para passarmos, um tapete ante o limiar da sua morada; e ainda as procissões nupciaes, e as danças lentas ao rufe-rufe das pandeiretas, e as carpideiras em torno aos sepulchros caiados,―tudo transporta o peregrino á velha Judéa das Escripturas, e de um modo tão presente e real, que a cada momento duvidamos se aquella ligeira e morena mulher, com largas argolas d'ouro e um aroma de sandalo, que conduz um cordeiro preso pela ponta do manto, não será ainda Rachel, ou se, entre os homens sentados além, á sombra da figueira e da vinha, aquelle de curta barba frisada, que ergue o braço, não será Jesus ensinando.

Esta sensação, preciosa para o crente, é preciosa para o intellectual, porque o põe n'uma communhão flagrante com um dos mais maravilhosos momentos da Historia Humana. Decerto seria igualmente interessante (mais interessante talvez) que se podesse colher a mesma emoção na Grecia, e que ahi encontrassemos ainda nos seus trajes, nas suas maneiras, na sua sociabilidade, a grande Athenas de Pericles. Infelizmente, essa Athenas incomparavel jaz morta, para sempre soterrada, desfeita em pó, sob a Athenas romana, e a Athenas byzantina, e a Athenas barbara, e a Athenas musulmana, e a Athenas constitucional e sordida. Por toda a parte o velho scenario da historia está assim esfrangalhado e em ruinas. Os proprios montes perderam, ao que parece, a configuração classica: e ninguem póde achar no Lacio o rio e o fresco valle que Virgilio habitou e tão virgilianamente cantou. Um unico sitio na terra permanecia ainda com os aspectos, os costumes, com que o tinham visto, e de que tinham partilhado, os homens que deram ao mundo uma das suas mais altas transformações:―e esse sitio era um pedaço da Judéa, da Samaria e da Galiléa. Se elle fôr grosseiramente modernisado, nivelado ao prototypo social, querido do seculo, que é o districto de Liverpool ou o departamento de Marselha, e se assim desapparecer para sempre a opportunidade educadora de

vêr

uma grande imagem do Passado, que profanação, que devastação bruta e barbara! E por perder essa fórma sobrevivente das civilisações antigas, o thesouro do nosso saber e da nossa inspiração fica irreparavelmente diminuido.

Ninguem mais do que eu, decerto, aprecia e venera um caminho de ferro, meu Bertrand;―e ser-me-ia penoso ter de jornadear de Paris a Bordeus, como Jesus subia do valle de Jerichó para Jerusalem, escarranchado n'um burro. As coisas mais uteis, porém, são importunas, e mesmo escandalosas, quando invadem grosseiramente logares que lhes não são congeneres. Nada mais necessario na vida do que um restaurante: e todavia ninguem, por mais descrente ou irreverente, desejaria que se installasse um restaurante com as suas mesas, o seu tinir de pratos, o seu cheiro a guisados,―nas naves de Norte-Dame ou na velha Sé de Coimbra. Um caminho de ferro é obra louvavel entre Paris e Bordeus. Entre Jerichó e Jerusalem basta a egua ligeira que se aluga por dois drachmas, e a tenda de lona que se planta á tarde entre os palmares, á beira de uma agua clara, e onde se dorme tão santamente sob a paz radiante das estrellas da Syria.

E são justamente essa tenda, e o camello grave que carrega os fardos, e a escolta flammejante de beduinos, e os pedaços de deserto onde se galopa com a alma cheia de liberdade, e o lyrio de Salomão que se colhe nas fendas d'uma ruina sagrada, e as frescas paragens junto aos poços biblicos, e as rememorações do Passado á noite em torno á fogueira do acampamento, que fazem o encanto da jornada, e attrahem o homem de gosto que ama as emoções delicadas de Natureza, Historia e Arte. Quando de Jerusalem se partir para a Galiléa n'um wagon estridente e cheio de pó, talvez ninguem emprehenda a peregrinação magnifica―a não ser o destro

commis-voyageur

que vai vender pelos Bazares chitas de Manchester ou pannos vermelhos de Sedan. O teu negro comboio rolará vazio. Que pura alegria essa para todos os entendimentos cultos―que não sejam accionistas dos

Caminhos de Ferro da Palestina

!...

Mas socega, Bertrand, engenheiro e accionista! Os homens, mesmo os que melhor servem o Ideal, nunca resistem ás tentações sensualistas do Progresso. Se d'um lado, á sahida de Jaffa, a propria caravana da Rainha de Sabá, com os seus elephantes e onagros, e estandartes, e lyras, e os arautos coroados de anemonas, e todos os fardos abarrotados de pedrarias e balsamos, infindavel em poesia e lenda, se offerecesse ao homem do seculo XIX para o conduzir lentamente a Jerusalem e a Salomão―e do outro lado um comboio, silvando, de portinholas abertas, lhe promettesse a mesma jornada, sem soalheiras nem solavancos, a vinte kilometros por hora, com bilhete d'ida e volta, esse homem, por mais intellectual, por mais eruditamente artista, agarraria a sua chapelleira e enfiaria sofregamente para o wagon, onde podesse descalçar as botas, e dormitar de ventre estendido.

Por isso a tua obra maligna prosperará pela propria virtude da sua malignidade. E, dentro de poucos annos, o occidental positivo que de manhã partir da velha Jeppo, no seu wagon de 1.ª classe, e comprar na estação de Gaza a

Gazeta Liberal do Sinai

, e jantar divertidamente em Ramleh no

Grand-Hotel dos Machabeus

―irá, á noite, em Jerusalem, através da

Via Dolorosa

illuminada pela electricidade, beber um bock e bater tres carambolas no

Casino do Santo Sepulchro

!

Será este o teu feito―e o fim da lenda christã.

Adeus, monstro!―

Fradique

.

XII

a madame de jouarre

Quinta de Refaldes (Minho).

Minha querida madrinha.

―Estou vivendo pinguemente em terras ecclesiasticas, porque esta quinta foi de frades. Agora pertence a um amigo meu, que é, como Virgilio, poeta e lavrador, e canta piedosamente as origens heroicas de Portugal emquanto amanha os seus campos e engorda os seus gados. Rijo, viçoso, requeimado dos soes, tem oito filhos, com que vai povoando estas cellas monasticas forradas de cretones claros. E eu justamente voltei de Lisboa a estes milheiraes do Norte para ser padrinho do derradeiro, um famoso senhor de tres palmos, côr de tijolo, todo roscas e regueifas, com uma careca de melão, os olhinhos luzindo entre rugas como vidrilhos, e o ar profundamente sceptico e velho. No sabbado, dia de S. Bernardo, sob um azul que S. Bernardo tornára especialmente vistoso e macio, ao repicar dos sinos claros, entre aromas de roseira, e jasmineiro, lá o conduzimos, todo enfeitado de laçarotes e rendas, á Pia, onde o Padre Theotonio inteiramente o lavou da fetida crosta de Peccado Original, que desde a bolinha dos calcanhares até á moleirinha o cobria todo, pobre senhor de tres palmos que ainda não vivera da alma, e já perdera a alma... E desde então, como se Refaldes fosse a ilha dos Latophagios, e eu tivesse comido em vez da couve-flôr da horta a flôr do Lotus, por aqui me quedei, olvidado do mundo e de mim, na doçura d'estes ares, d'estes prados, de toda esta rural serenidade, que me affaga e me adormece.

O casarão conventual que habitamos, e onde os conegos Regrantes de Santo Agostinho, os ricos e nedios Cruzios, vinham preguiçar no verão, prende por um claustro florido de hydrangeas e a uma egreja lisa e sem arte, com um adro assombreado por castanheiros, pensativo, grave, como são sempre os do Minho. Uma cruz de pedra encima o portão, onde pende ainda da corrente de ferro a vetusta e lenta sineta fradesca. No meio do pateo, a fonte, de boa agua, que canta adormecidamente cahindo de concha em concha, tem no topo outra cruz de pedra, que um musgo amarellento reveste de melancolia secular. Mais longe, n'um vasto tanque, lago caseiro orlado de bancos, onde decerto os bons Cruzios se vinham embeber pelas tardes de frescura e repouso, a agua das regas, limpida e farta, brota dos pés de uma santa de pedra, hirta no seu nicho, e que é talvez Santa Rita. Adiante ainda, na horta, outra santa franzina, sustentando nas mãos um vaso partido, preside, como uma nayade, ao borbulhar de outra fonte, que por quelhas de granito vai luzindo e fugindo através do feijoal. Nos esteios de pedra que sustentam a vinha ha por vezes uma cruz gravada, ou um coração sagrado, ou o monogramma de Jesus. Toda a quinta, assim santificada por signos devotos, lembra uma sacristia onde os tectos fossem de parra, a relva cobrisse os soalhos, por cada fenda borbulhasse um regato, e o incenso sahisse dos cravos.

Mas, com todos estes emblemas sacros, nada ha que nos môva; ou severamente nos arraste, aos renunciamentos do mundo. A quinta foi sempre, como agora, de grossa fartura, toda em campos de pão, bem arada e bem regada, fecunda, estendida ao sol como um ventre de Nimpha antiga. Os frades excellentes que n'ella habitaram amavam largamente a terra e a vida. Eram fidalgos que tomavam serviço na milicia do Senhor, como os seus irmãos mais velhos tomavam serviço na milicia d'El-rei―e que, como elles, gozavam risonhamente os vagares, os privilegios e a riqueza da sua Ordem e da sua Casta. Vinham para Refaldes, pelas calmas de julho, em seges e com lacaios. A cozinha era mais visitada que a egreja―e todos os dias os capões alouravam no espeto. Uma poeira discreta velava a livraria, onde apenas por vezes algum conego rheumatisante e retido nas almofadas da sua cella mandava buscar o

D. Quichote

, ou as

Farças de D. Petronilla

. Espanejada, arejada, bem catalogada, com rotulos e notas traçadas pela mão erudita dos Abbades―só a adega...

Não se procure pois, n'esta morada de monges, o precioso sabor das tristezas monasticas; nem as quebradas de serra e valle, cheias de ermo e mudez, tão dôces para n'ellas se curtirem deliciosamente as saudades do céo; nem as espessuras de bosque, onde S. Bernardo se embrenhava, por n'ellas encontrar melhor que na sua cella a «fecunda solidão»; nem os claros de pinheiral gemente, com rochas núas, tão proprias para a choça e para a cruz do ermita... Não! Aqui, em torno do pateo (onde a agua da fonte todavia corre dos pés da cruz) são solidas tulhas para o grão, fofos eidos em que o gado medra, capoeiras abarrotadas de capões e de perús reverendos. Adiante é a horta viçosa, cheirosa, succulenta, bastante a fartar as panellas todas de uma aldeia, mais enfeitada que um jardim, com ruas que as tiras de morangal orlam e perfumam, e as latadas ensombram, copadas de parra densa. Depois a eira de granito, limpa e alisada, rijamente construida para longos seculos de colheitas, com o seu espigueiro ao lado, bem fendilhado, bem arejado, tão largo que os pardaes voam dentro como n'um pedaço de céo. E por fim, ondulando ricamente até ás collinas macias, os campos de milho, e de centeio, o vinhedo baixo, os olivaes, os relvados, o linho sobre os regatos, o matto florido para os gados... S. Francisco de Assis e S. Bruno abominariam este retiro de frades e fugiriam d'elle, escandalisados, como de um peccado vivo.

A casa dentro offerece o mesmo bom conchego temporal. As cellas espaçosas, de tectos apainelados, abrem para as terras semeadas, e recebem d'ellas, através da vidraçaria cheia de sol, a perenne sensação de fartura, de opulencia rural, de bens terrenos que não enganam. E a sala melhor, traçada para as occupações mais gratas, é o refeitorio, com as suas varandas rasgadas, onde os regalados monges podessem, ao fim do jantar, conforme a veneravel tradição dos Cruzios, beber o seu café aos golos, galhofando, arrotando, respirando a fresquidão, ou seguindo nas faias do pateo o cantar alto d'um melro.

De sorte que não houve necessidade de alterar esta vivenda, quando de religiosa passou a secular. Estava já sabiamente preparada para a profanidade;―e a vida que n'ella então se começou a viver, não foi differente da do velho convento, apenas mais bella, porque, livre das contradicções do Espiritual e do Temporal, a sua harmonia se tornou perfeita. E, tal como é, deslisa com incomparavel doçura. De madrugada, os gallos cantam, a quinta acorda, os cães de fila são acorrentados, a moça vai mungir as vaccas, o pegureiro atira o seu cajado ao hombro, a fila dos jornaleiros mette-se ás terras―e o trabalho principia, esse trabalho que em Portugal parece a mais segura das alegrias e a festa sempre incansavel, porque é todo feito a cantar. As vozes vêm, altas e desgarradas, no fino silencio, d'além, d'entre os trigos, ou do campo em sacha, onde alvejam as camisas de linho crú, e os lenços de longas franjas vermelhejam mais que papoulas. E não ha n'este labor nem dureza, nem arranque. Todo elle é feito com a mansidão com que o pão amadurece ao sol. O arado mais acaricia do que rasga a gleba. O centeio cae por si, amorosamente, no seio attrahente da foice. A agua sabe onde o torrão tem sêde, e corre para lá gralhando e refulgindo. Ceres n'estes sitios bemditos permanece verdadeiramente, como no Lacio, a Deusa da Terra, que tudo propicia e soccorre. Ella reforça o braço do lavrador, torna refrescante o seu suor, e da alma lhe limpa todo o cuidado escuro. Por isso os que a servem, mantêm uma serenidade risonha na tarefa mais dura. Essa era a ditosa feição da vida antiga.

Á uma hora é o jantar, serio e pingue. A quinta tudo fornece prodigamente:―e o vinho, o azeite, a hortaliça, a fructa têm um sabor mais vivo e são, assim cabidos das mãos do bom Deus sobre a mesa, sem passar pela mercancia e pela loja. Em palacio algum, por essa Europa superfina, se come na verdade tão deliciosamente como n'estas rusticas quintas de Portugal. Na cozinha enfumarada, com duas panellas de barro e quatro achas a arder no chão, estas caseiras de aldeia, de mangas arregaçadas, guizam um banquete que faria exultar o velho Jupiter, esse transcendente guloso, educado a nectar, o Deus que mais comeu, e mais nobremente soube comer, desde que ha Deuses no céo e na terra. Quem nunca provou este arroz de caçoula, este anho paschal candidamente assado no espeto, estas cabidellas de frango coevas da Monarchia que enchem a alma, não póde realmente conhecer o que seja a especial bemaventurança tão grosseira e tão divina, que no tempo dos frades se chamava a

comezaina

. E a quinta depois, com as suas latadas de sombra macia, a dormente susurração das aguas regantes, os ouros claros e foscos ondulando nos trigaes, offerece, mais que nenhum outro paraiso humano ou biblico, o repouso acertado para quem emerge, pesado e risonho, d'este arroz e d'este anho!

Se estes meios-dias são um pouco materiaes, breve a tarde trará a porção de poesia de que necessita o Espirito. Em todo o céo se apagou a refulgencia d'ouro, o esplendor arrogante que se não deixa fitar e quasi repelle; agora apaziguado e tratavel, elle derrama uma doçura, uma pacificação que penetra na alma, a torna tambem pacifica e dôce, e cria esse momento raro em que céo e alma fraternisam e se entendem. Os arvoredos repousam n'uma immobilidade de contemplação, que é intelligente. No piar velado e curto dos passaros ha um recolhimento e consciencia de ninho feliz. Em fila, a boiada volta dos pastos, cançada e farta, e vai ainda beberar ao tanque, onde o gotejar da agua sob a cruz é mais preguiçoso. Toca o sino a Ave-Marias. Em todos os casaes se está murmurando o nome de Nosso Senhor. Um carro retardado, pesado de matto, geme pela sombra da azinhaga. E tudo é tão calmo e simples e terno, minha madrinha, que, em qualquer banco de pedra em que me sente, fico enlevado, sentindo a penetrante bondade das coisas, e tão em harmonia com ella, que não ha n'esta alma, toda encrostada das lamas do mundo, pensamento que não podesse contar a um santo...

Verdadeiramente estas tardes santificam. O mundo recua para muito longe, para além dos pinhaes e das collinas, como uma miseria esquecida:―e estamos então realmente na felicidade de um convento, sem regras e sem abbade, feito só da religiosidade natural que nos envolve, tão propria á oração que não tem palavras, e que é por isso a mais bem comprehendida por Deus.

Depois escurece, já ha pyrilampos nas sebes. Venus, pequenina, scintilla no alto. A sala, em cima, está cheia de livros, dos livros fechados no tempo dos Cruzios―porque só desde que não pertence a uma ordem espiritual é que esta casa se espiritualisou. E o dia na quinta finda com uma lenta e quieta palestra sobre idéas e letras, emquanto na guitarra ao lado geme algum dos fados de Portugal, longo em saudades e em ais, e a lua, ao fundo da varanda, uma lua vermelha e cheia, surde, como a escutar, por detraz dos negros montes.

Deus nobis haec otia fecit in umbra Lusitaniae pulcherrimae

... Mau latim―grata verdade.

Seu grato e mau afilhado―

Fradique

.

XIII

a clara...

(Trad.)

Paris, novembro.

Meu amor.

―Ainda ha poucos instantes (dez instantes, dez minutos, que tanto gastei n'um

fiacre

desolador desde a nossa

Torre de Marfim

) eu sentia o rumor do teu coração junto do meu, sem que nada os separasse senão uma pouca de argilla mortal, em ti tão bella, em mim tão rude―e já estou tentando recontinuar anciosamente, por meio d'este papel inerte, esse ineffavel

estar comtigo

que é hoje todo o fim da minha vida, a minha suprema e unica vida. É que, longe da tua presença, cesso de viver, as coisas para mim cessam de ser―e fico como um morto jazendo no meio de um mundo morto. Apenas, pois, me finda esse perfeito e curto momento de vida que me dás, só com pousar junto de mim e murmurar o meu nome―recomeço a aspirar desesperadamente para ti como para uma resurreição!

Antes de te amar, antes de receber das mãos de meu Deus a minha Eva―que era eu, na verdade? Uma sombra fluctuando entre sombras. Mas tu vieste, dôce adorada, para me fazer sentir a minha realidade, e me permittir que eu bradasse tambem triumphalmente o meu―«

amo, logo existo!

» E não foi só a minha realidade que me desvendaste―mas ainda a realidade de todo este Universo, que me envolvia como um inintelligivel e cinzento montão de apparencias. Quando ha dias, no terraço de Savran, ao anoitecer, te queixavas que eu contemplasse as estrellas estando tão perto dos teus olhos, e espreitasse o adormecer das collinas junto ao calor dos teus hombros―não sabias, nem eu te soube então explicar, que essa contemplação era ainda um modo novo de te adorar, porque realmente estava admirando nas coisas a belleza inesperada que tu sobre ellas derramas por uma emanação que te é propria, e que, antes de viver a teu lado, nunca eu lhes percebera, como se não percebe a vermelhidão das rosas ou o verde tenro das relvas antes de nascer o sol! Foste tu, minha bem-amada, que me alumiaste o mundo. No teu amor recebi a minha Iniciação. Agora entendo, agora sei. E, como o antigo Iniciado, posso affirmar:―«Tambem fui a Eleusis; pela larga estrada pendurei muita flôr que não era verdadeira, diante de muito altar que não era divino; mas a Eleusis cheguei, em Eleusis penetrei―e vi e senti a verdade!...»

E accresce ainda, para meu martyrio e gloria, que tu és tão sumptuosamente bella e tão ethereamente bella, d'uma belleza feita de Céo e de Terra, belleza completa e só tua, que eu já concebera―que nunca julgára realizavel. Quantas vezes, ante aquella sempre admirada e toda perfeita Venus de Milo, pensei que se debaixo da sua testa de Deusa podessem tumultuar os cuidados humanos; se os seus olhos soberanos e mudos se soubessem toldar de lagrimas; se os seus labios, só talhados para o mel e para os beijos, consentissem em tremer no murmurio de uma prece submissa; se, sob esses seios, que foram o appetite sublime dos Deuses e dos Heroes, um dia palpitasse o Amor e com elle a Bondade; se o seu marmore soffresse, e pelo soffrimento se espiritualisasse, juntando ao esplendor da Harmonia a graça da Fragilidade; se ella fosse do nosso tempo e sentisse os nossos males, e permanecendo Deusa do Prazer se tornasse Senhora da Dôr―então não estaria collocada n'um museu, mas consagrada n'um santuario, porque os homens, ao reconhecer n'ella a alliança sempre almejada e sempre frustrada do Real e do Ideal, decerto a teriam acclamado

in eternum

como a definitiva Divindade. Mas quê! A pobre Venus só offerecia a serena magnificencia da carne. De todo lhe faltava a chamma que arde na alma e a consome. E a creatura incomparavel do meu scismar, a Venus Espiritual, Cytherêa e Dolorosa, não existia, nunca existiria!... E quando eu assim pensava, eis que tu surges, e eu te comprehendo! Eras a encarnação do meu sonho, ou antes d'um sonho que deve ser universal―mas só eu te descobri, ou, tão feliz fui, que só por mim quizeste ser descoberta!

Vê, pois, se jámais te deixarei escapar dos meus braços! Por isso mesmo que és a minha Divindade,―para sempre e irremediavelmente estás presa dentro da minha adoração. Os Sacerdotes de Carthago acorrentavam ás lages dos Templos, com cadeias de bronze, as imagens dos seus Baals. Assim te quero tambem, acorrentada dentro do templo avaro que te construi, só Divindade minha, sempre no teu altar,―e eu sempre diante d'elle rojado, recebendo constantemente n'alma a tua visitação, abysmando-me sem cessar na tua essencia, de modo que nem por um momento se descontinue essa fusão ineffavel, que é para ti um acto de Misericordia e para mim de Salvação. O que eu desejaria na verdade é que fosses invisivel para todos e como não existente―que perpetuamente um estofo informe escondesse o teu corpo, uma rigida mudez occultasse a tua intelligencia. Assim passarias no mundo como uma apparencia incomprehendida. E só para mim, de dentro do involucro escuro, se revelaria a tua perfeição rutilante. Vê quanto te amo―que te queria entrouxada n'um rude, vago vestido de merino, com um ar quêdo, inanimado... Perderia assim o triumphal contentamento de vêr resplandecer entre a multidão maravilhada aquella que em segredo nos ama. Todos murmurariam compassivamente―«

Pobre creatura!

» E só eu saberia da «pobre creatura», o corpo e a alma adoraveis!

Quanto adoraveis! Nem comprehendo que, tendo consciencia do teu encanto, não estejas de ti namorada como aquelle Narciso que treme de frio, coberto de musgo, à beira da fonte, em Savran. Mas eu largamente te amo e por mim e por

ti

! A tua belleza, na verdade, attinge a altura de uma virtude:―e foram decerto os modos tão puros da tua alma que fixaram as linhas tão formosas do teu corpo. Por isso ha em mim um incessante desespero de não te saber amar condignamente―ou antes (pois desceste de um céo superior) de não saber tratar, como ella merece, a hospeda divina do meu coração. Desejaria, por vezes, envolver-te toda n'uma felicidade immaterial, seraphica, calma infinitamente como deve ser a Bemaventurança―e assim deslisarmos enlaçados através do silencio e da luz, muito brandamente, n'um sonho cheio de certeza, sahindo da vida á mesma hora e indo continuar no

além

o mesmo sonho estatico. E outras vezes desejaria arrebatar-te n'uma felicidade vehemente, tumultuosa, fulgurante, toda de chamma, de tal sorte que n'ella nos destruissemos sublimemente, e de nós só restasse uma pouca de cinza sem memoria e sem nome! Possuo uma velha gravura que é um Satanaz, ainda em toda a refulgencia da belleza archangelica, arrastando nos braços para o Abysmo uma freira, uma Santa, cujos derradeiros véos de penitencia se vão esgaçando pelas pontas das rochas negras. E na face da Santa, através do horror, brilha, irreprimida e mais forte que o horror, uma tal alegria e paixão, tão intensas―que eu as appeteceria para ti, oh minha Santa roubada! Mas de nenhum d'estes modos te sei amar, tão fraco ou inhabil é o meu coração, de modo que por o meu amor não ser perfeito, tenho de me contentar que seja eterno. Tu sorris tristemente d'esta eternidade. Ainda hontem me perguntavas:―«No calendario do seu coração, quantos dias dura a eternidade?» Mas considera que eu era um morto―e que tu me resuscitaste. O sangue novo que me circula nas veias, o espirito novo que em mim sente e comprehende, são o meu amor por ti―e se elle me fugisse, eu teria outra vez, regelado e mudo, de reentrar no meu sepulchro. Só posso deixar de te amar―quando deixar de ser. E a vida comtigo, e por ti, é tão inexprimivelmente bella! É a vida de um Deus. Melhor talvez:―e se eu fosse esse pagão que tu affirmas que sou, mas um pagão do Lacio, pastor de gados, crente ainda em Jupiter e Apollo, a cada instante temeria que um d'esses Deuses invejosos te raptasse, te elevasse ao Olympo para completar a sua ventura divina. Assim não receio:―toda minha te sei e para todo o sempre, olho o mundo em torno de nós como um Paraiso para nós creado, e durmo seguro sobre o teu peito na plenitude da gloria, oh minha tres vezes bemdita, Rainha da minha graça.

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