FRADIQUE MENDES (continued 2)
Reading edition
Realidade
não é philosophica; mas eu emprego-a, lanço-a ao acaso e tenteando, para apanhar dentro d'ella o mais possivel d'um conceito pouco coercivel, quasi irreductivel ao verbo. Todo o phenomeno, pois, tem relativamente ao nosso entendimento e á sua potencia de discriminar, uma Realidade―quero dizer certos caracteres, ou (para me exprimir por uma imagem, como recommenda Buffon) certos
contornos
que o limitam, o definem, lhe dão feição propria no esparso e universal conjunto, e constituem o seu
exacto
,
real
e
unico
modo de ser. Sómente o erro, a ignorancia, os preconceitos, a tradição, a rotina e sobretudo a
illusão
, formam em torno de cada phenomeno uma nevoa que esbate e deforma os seus contornos, e impede que a visão intellectual o divise no seu
exacto
,
real
e
unico
modo de ser. É justamente o que succede aos monumentos de Londres mergulhados no nevoeiro... Tudo isto vai expresso d'um modo bem hesitante e incompleto! Lá fóra o sol está cahindo d'um céo fino e nitido sobre o meu quintal de convento coberto de neve dura: n'este ar tão puro e claro, em que as coisas tomam um relevo rigido, perdi toda a flexibilidade e fluidez da technologia philosophica: só me poderia exprimir por imagens recortadas á tesoura. Mas vossê decerto comprehenderá, Anthero excellente e subtil! Já esteve em Londres, no outono, em novembro? Nas manhãs de nevoeiro, n'uma rua de Londres, ha difficuldade em distinguir se a sombra densa que ao longe se empasta é a estatua d'um heroe ou o fragmento d'um tapume. Uma pardacenta illusão submerge toda a cidade―e com espanto se encontra n'uma taverna quem julgára penetrar n'um templo. Ora para a maioria dos espiritos uma nevoa igual fluctua sobre as realidades da vida e do mundo. D'ahi vem que quasi todos os seus passos são transvios, quasi todos os seus juizos são enganos; e estes constantemente estão trocando o Templo e a Taberna. Raras são as visões intellectuaes bastante agudas e poderosas para romper através da neblina e surprehender as linhas exactas, o verdadeiro contorno da Realidade. Eis o que eu queria tartamudear».
Pois bem! Fradique dispunha de uma d'essas visões privilegiadas. O proprio modo que tinha de pousar lentamente os olhos e
detalhar em silencio
―como dizia Oliveira Martins―revelava logo o seu processo interior de concentrar e applicar a Razão, á maneira de um longo e pertinaz dardo de luz, até que, desfeitas as nevoas, a Realidade pouco a pouco lhe surgisse na sua rigorosa e
unica
fórma.
A manifestação d'esta magnifica força que mais impressionava―era o seu poder de
definir
. Possuindo um espirito que
via
com a maxima exactidão; possuindo um verbo que
traduzia
com a maxima concisão―elle podia assim dar resumos absolutamente profundos e perfeitos. Lembro que uma noite, na sua casa da rua de Varennes, em Paris, se discutia com ardor a natureza da Arte. Repetiram-se todas as definições de Arte, enunciadas desde Platão: inventaram-se outras, que eram, como sempre, o phenomeno visto limitadamente através d'um temperamento. Fradique conservou-se algum tempo mudo, dardejando os olhos para o vago. Por fim, com essa maneira lenta (que para os que incompletamente o conheciam parecia professoral) murmurou, no silencio deferente que se alargára:―«A Arte é um resumo da Natureza feito pel com a maxima concisão―elle podia assim dar resumos absolutamente profundos e perfeitos. Lembro que uma noite, na sua casa da rua de Varennes, em Paris, se discutia com ardor a natureza da Arte. Repetiram-se todas as definições de Arte, enunciadas desde Platão: inventaram-se outras, que eram, como sempre, o phenomeno visto limitadamente através d'um temperamento. Fradique conservou-se algum tempo mudo, dardejando os olhos para o vago. Por fim, com essa maneira lenta (que para os que incompletamente o conheciam parecia professoral) murmurou, no silencio deferente que se alargára:―«A Arte é um resumo da Natureza feito pela imaginação».
Certamente, não conheço mais completa definição d'Arte! E com razão affirmava um amigo nosso, homem de excellente phantasia, que «se o bom Deus, um dia, compadecido das nossas hesitações, nos atirasse lá de cima, do seu divino ermo, a final explicação da Arte, nós ouviriamos resoar entre as nuvens, soberba como o rolar de cem carros de guerra, a definição de Fradique!»
A superior intelligencia de Fradique tinha o apoio de uma cultura forte e rica. Já os seus instrumentos de saber eram consideraveis. Além d'um solido conhecimento das linguas classicas (que, na sua idade de Poesia e de Litteratura decorativa, o habilitára a crear em latim barbaro poemetos tão bellos como o
Laus Veneris tenebros[ae]
)―possuia profundamente os idiomas das tres grandes nações pensantes, a França, a Inglaterra e a Allemanha. Conhecia tambem o arabe, que (segundo me affirmou Riaz-Effendi, chronista do sultão Abdul-Aziz) fallava com abundancia e gosto.
As sciencias naturaes eram-lhe queridas e familiares; e uma insaciavel e religiosa curiosidade do Universo impellira-o a estudar tudo o que divinamente o compõe, desde os insectos até aos astros. Estudos carinhosamente feitos com o coração―porque Fradique sentia pela Natureza, sobretudo pelo animal e pela planta, uma ternura e uma veneração genuinamente budhistas. «Amo a Natureza (escrevia-me elle em 1882) por si mesma, toda e individualmente, na graça e na fealdade de cada uma das fórmas innumeraveis que a enchem: e amo-a ainda como manifestação tangivel e multipla da suprema Unidade, da Realidade intangivel, a que cada Religião e cada Philosophia deram um nome diverso e a que eu presto culto sob o nome de
Vida
. Em resumo adoro a Vida―de que são igualmente expressões uma rosa e uma chaga, uma constellação e (com horror o confesso) o conselheiro Acacio. Adoro a Vida e portanto tudo adoro―porque tudo é viver, mesmo morrer. Um cadaver rigido no seu esquife vive tanto como uma aguia batendo furiosamente o vôo. E a minha religião está toda no credo de Athanasio, com uma pequena variante:―«Creio na
Vida
toda-poderosa, creadora do céo e da terra...»
Quando começou porém a nossa intimidade, em 1880, o seu inquieto espirito mergulhava de preferencia nas sciencias sociaes, aquellas sobretudo que pertencem á Pre-historia―a Anthropologia, a Linguistica, o estudo das Raças, dos Mythos e das Instituições Primitivas. Quasi todos os tres mezes, altas rumas de livros enviadas da casa Hachette, densas camadas de Revistas especiaes, alastrando o tapete de Caramania, indicavam-me que uma nova curiosidade se apoderára d'elle com intensidade e paixão. Conheci-o assim successiva e ardentemente occupado com os monumentos megalithicos da Andaluzia; com as habitações lacustres; com a mythologia dos povos Aryanos; com a magia Chaldaica; com as raças Polynesias; com o direito costumario dos Cafres; com a christianisação dos Deuses Pagãos... Estas aferradas investigações duravam emquanto podia extrahir d'ellas «alguma emoção ou surpreza intellectual». Depois, um dia, Revistas e volumes desappareciam, e Fradique annunciava triumphalmente alargando os passos alegres por sobre o tapete livre:―«Sorvi todo o Sabeismo!», ou «Esgotei os Polynesios!»
O estudo porém a que se prendeu ininterrompidamente, com especial constancia, foi o da Historia. «Desde pequeno (escrevia elle a Oliveira Martins, n'uma das suas ultimas cartas, em 1886) tive a paixão da Historia. E adivinha vossê porquê, Historiador? Pelo confortavel e conchegado sentimento que ella me dava da solidariedade humana. Quando fiz onze annos, minha avó, de repente,
para me habituar ás coisas duras da vida
(como ella dizia), arrancou-me ao pachorrento ensino do padre Nunes, e mandou-me a uma escóla chamada
Terceirense
. O jardineiro levava-me pela mão: e todos os dias a avó me dava com solemnidade um pataco para eu comprar na tia Martha, confeiteira da esquina, bolos para a minha merenda. Este creado, este pataco, estes bolos, eram costumes novos que feriam o meu monstruoso orgulho de morgadinho―por me descerem ao nivel humilde dos filhos do nosso procurador. Um dia, porém, folheando uma
Encyclopedia de Antiguidades Romanas
, que tinha estampas, li, com surpreza, que os rapazes em Roma (na grande Roma!) iam tambem de manhã para a escóla, como eu, pela mão d'um servo―denominado o
Capsarius
; e compravam tambem, como eu, um bolo n'uma tia Martha do Velabro ou das Carinas, para comerem á merenda―que chamavam o
Ientaculum
. Pois, meu caro, no mesmo instante a veneravel antiguidade d'esses habitos tirou-lhes a vulgaridade toda que n'elles me humilhava tanto! Depois de os ter detestado por serem communs aos filhos do Silva procurador―respeitei-os por terem sido habituaes nos filhos de Scipião. A compra do bolo tornou-se como um rito que desde a Antiguidade todos os rapazes de escóla cumpriam, e que me era dado por meu turno celebrar n'uma honrosa solidariedade com a grande gente togada. Tudo isto, evidentemente, não o sentia com esta clara consciencia. Mas nunca entrei d'ahi por diante na tia Martha, sem erguer a cabeça, pensando com uma vangloria heroica:―«Assim faziam tambem os romanos!» Era por esse tempo pouco mais alto que uma espada gôda, e amava uma mulher obesa que morava ao fim da rua...»
N'essa mesma carta, adiante, Fradique accrescenta:―«Levou-me pois effectivamente á Historia o meu amor da Unidade―amor que envolve o horror ás interrupções, ás lacunas, aos espaços escuros onde se não sabe o que ha. Viajei por toda a parte viajavel, li todos os livros de explorações e de travessias―porque me repugnava não conhecer o globo em que habito até aos seus extremos limites, e não sentir a contínua solidariedade do pedaço de terra que tenho sob os pés com toda a outra terra que se arqueia para além. Por isso, incansavelmente exploro a Historia, para perceber até aos seus derradeiros limites a Humanidade a que pertenço, e sentir a compacta solidariedade do meu sêr com a de todos os que me precederam na vida. Talvez vossê murmure com desdem―«mera bisbilhotice!» Amigo meu, não despreze a bisbilhotice! Ella é um impulso humano, de latitude infinita, que, como todos, vai do reles ao sublime. Por um lado leva a escutar ás portas―e pelo outro a descobrir a America!»
O saber historico de Fradique surprehendia realmente pela amplexidade e pelo detalhe. Um amigo nosso exclamava um dia, com essa ironia affavel que nos homens de raça celtica sublinha e corrige a admiração:―«Aquelle Fradique! Tira a charuteira, e dá uma synthese profunda, d'uma transparencia de crystal, sobre a guerra do Peloponeso;―depois accende o charuto, e explica o feitio e o metal da fivela do cinturão de Leonidas!» Com effeito, a sua forte capacidade de comprehender philosophicamente os movimentos collectivos, o seu fino poder de evocar psychologicamente os caracteres individuaes―alliava-se n'elle a um minucioso saber archeologico da vida, das maneiras, dos trajes, das armas, das festas, dos ritos de todas as idades, desde a India Vedica até á França Imperial. As suas cartas a Oliveira Martins (sobre o Sebastianismo, o nosso Imperio no Oriente, o Marquez de Pombal)
[1]
são verdadeiras maravilhas pela sagaz intuição, a alta potencia synthetica, a certeza do saber, a força e a abundancia das idéas novas. E, por outro lado, a sua erudição archeologica repetidamente esclareceu e auxiliou, na sabia composição das suas telas, o paciente e fino reconstructor dos Costumes e das Maneiras da Antiguidade Classica, o velho Suma-Rabêma. Assim m'o confessou uma tarde Suma-Rabêma, regando as roseiras, no seu jardim de Chelsea.
Fradique era de resto ajudado por uma prodigiosa memoria que tudo recolhia e tudo retinha―vasto e claro armazem de factos, de noções, de fórmas, todos bem arrumados, bem classificados, promptos sempre a servir. O nosso amigo Chambray affirmava que, comparavel á memoria de Fradique, como «installação, ordem e excellencia do
stock
», só conhecia a adega do café Inglez.
A cultura de Fradique recebia um constante alimento e accrescimo das viagens que sem cessar emprehendia, sob o impulso de admirações ou de curiosidades intellectuaes. Só a Archeologia o levou quatro vezes ao Oriente:―ainda que a sua derradeira residencia em Jerusalem, durante dezoito mezes, foi motivada (segundo me affirmou o consul Raccolini) por poeticos amores com uma das mais esplendidas mulheres da Syria, uma filha de Abraham Côppo, o faustoso banqueiro de Aleppo, tão lamentavelmente morta depois, sobre as tristes costas de Chypre, no naufragio do
Magnolia
. A sua aventurosa e aspera peregrinação pela China, desde o Thibet (onde quasi deixou a vida, tentando temerariamente penetrar na cidade sagrada de Lahsá) até á alta Manchuria, constitue o mais completo estudo até hoje realisado por um homem da Europa sobre os Costumes, o Governo, a Ethica e a Litteratura d'esse povo «profundo entre todos, que (como diz Fradique) conseguiu descobrir os tres ou quatro unicos principios de moral capazes, pela sua absoluta força, de eternisar uma civilisação».
O exame da Russia e dos seus movimentos sociaes e religiosos trouxeram-no prolongados mezes pelas provincias ruraes d'entre o Dnieper e o Volga. A necessidade d'uma certeza sobre os Presidios Penaes da Siberia impelliu-o a affrontar centenas de milhas de steppes e de neves, n'uma rude telega, até ás minas de prata de Nerchinski. E proseguiria n'este activo interesse, se não recebesse subitamente, ao chegar á costa, a Archangel, este aviso do general Armankoff, chefe da IV secção da policia imperial:―
Monsieur, vous nous observez de trop près, pour que votre jugement n'en soit faussé; je vous invite donc, sur votre intérêt, et pour avoir de la Russie une vue d'ensemble plus exacte, d'aller la regarder de plus loin, dans votre belle maison de Paris!
―Fradique abalou para Vasa, sobre o golfo de Bothnia. Passou logo á Suecia, e mandou de lá, sem data, este bilhete ao general Armankoff:―
Monsieur, j'ai reçu votre invitation où il y a beaucoup d'intolerance et trois fautes de français.
Os mesmos interesses de espirito e «necessidades de certeza» o levaram na America do Sul desde o Amazonas até ás areias da Patagonia, o levaram na Africa Austral desde o Cabo até aos Montes de Zokunga... «Tenho folheado e lido attentamente o mundo como um livro cheio de idéas. Para vêr
por fóra
, por mera festa dos olhos, nunca fui senão a Marrocos».
O que tornava estas viagens tão fecundas como ensino era a sua rapida e carinhosa sympathia por todos os povos. Nunca visitou paizes á maneira do detestavel
touriste
francez, para notar de alto e pêcamente «os defeitos»―isto é, as divergencias d'esse typo de civilisação mediano e generico d'onde sahia e que preferia. Fradique amava logo os costumes, as idéas, os preconceitos dos homens que o cercavam: e, fundindo-se com elles no seu modo de pensar e de sentir, recebia uma lição directa e viva de cada sociedade em que mergulhava. Este efficaz preceito―«
em Roma sê romano
»―tão facil e dôce de cumprir em Roma, entre as vinhas da collina Celia e as aguas susurrantes da Fonte Paulina, cumpria-o elle gostosamente trilhando com as alpercatas rotas os desfiladeiros do Himalaya. E estava tão homogeneamente n'uma cervejaria philosophica da Allemanha, aprofundando o Absoluto entre professores de Tubingen―como n'uma aringa africana da terra dos Matabeles, comparando os meritos da carabina «Express» e da carabina Winchester, entre caçadores de elephantes.
Desde 1880 os seus movimentos pouco a pouco se concentraram entre Paris e Londres―com excepção das «visitas filiaes» a Portugal: porque, apesar da sua dispersão pelo mundo, da sua facilidade em se nacionalisar nas terras alheias, e da sua impersonalidade critica, Fradique foi sempre um genuino Portuguez com irradicaveis traços de fidalgo ilhéo.
O mais puro e intimo do seu interesse deu-o sempre aos homens e ás coisas de Portugal. A compra da quinta do
Saragoça
, em Cintra, realisára-a (como diz n'uma carta a F. G., com desacostumada emoção) «para
ter terra em Portugal
, e para se prender pelo forte vinculo da propriedade ao sólo augusto d'onde um dia tinham partido, levados por um ingenuo tumulto de idéas grandes, os seus avós, buscadores de mundos, de quem elle herdára o sangue e a curiosidade do
além
!»
Sempre que vinha a Portugal ia «retemperar a fibra» percorrendo uma provincia, lentamente, a cavallo―com demoras em villas decrepitas que o encantavam, infindaveis cavaqueiras á lareira dos campos, fraternisações ruidosas nos adros e nas tavernas, idas festivas a romarias no carro de bois, no vetusto e veneravel carro sabino, toldado de chita, enfeitado de louro. A sua região preferida era o Ribatejo, a terra chã da leziria e do boi. «Ahi (diz elle), de jaleca e cinta, montado n'um potro, com a vara de campino erguida, correndo entre as manadas de gado, nos finos e lavados ares da manhã, sinto, mais que em nenhuma outra parte, a delicia de viver».
Lisboa só lhe agradava―como paizagem. «Com tres fortes retoques (escrevia-me elle em 1881, do Hotel Braganza), com arvoredo e pinheiros mansos plantados nas collinas calvas da Outra-Banda; com azulejos lustrosos e alegres revestindo as fachadas sujas do casario; com uma varredella definitiva por essas bemditas ruas―Lisboa seria uma d'essas bellezas da Natureza creadas pelo Homem, que se tornam um motivo de sonho, de arte e de peregrinação. Mas uma existencia enraizada em Lisboa não me parece toleravel. Falta aqui uma atmosphera intellectual onde a alma respire. Depois certas feições, singularmente repugnantes, dominam. Lisboa é uma cidade
alitteratada
,
afadistada
,
catita
e
conselheiral
. Ha
litteratice
na simples maneira com que um caixeiro vende um metro de fita; e, nas proprias graças com que uma senhora recebe, transparece
fadistice
: mesmo na Arte ha
conselheirismo
; e ha
catitismo
mesmo nos cemiterios. Mas a nausea suprema, meu amigo, vem da politiquice e dos politiquetes».
Fradique nutria pelos politicos todos os horrores, os mais injustificados: horror intellectual, julgando-os incultos, broncos, inaptos absolutamente para crear ou comprehender idéas; horror mundano, presuppondo-os reles, de maneiras crassas, improprios para se misturar a naturezas de gosto; horror physico, imaginando que nunca se lavavam, rarissimamente mudavam de meias, e que d'elles provinha esse cheiro morno e molle que tanto surprehende e enoja em S. Bento aos que d'elle não têm o habito profissional.
Havia n'estas ferozes opiniões, certamente, laivos de perfeita verdade. Mas em geral, os juizos de Fradique sobre a Politica offereciam o cunho d'um preconceito que dogmatisa―e não d'uma observação que discrimina. Assim lh'o affirmava eu uma manhã, no Braganza, mostrando que todas essas deficiencias de espirito, de cultura, de maneiras, de gosto, de finura, tão acerbamente notadas por elle nos Politicos―se explicam sufficientemente pela precipitada democratisação da nossa sociedade; pela rasteira vulgaridade da vida provincial; pelas influencias abominaveis da Universidade; e ainda por intimas razões que são no fundo honrosas para esses desgraçados Politicos, votados por um fado vingador á destruição da nossa terra.
Fradique replicou simplesmente:
―Se um rato morto me disser,―«eu cheiro mal por isto e por aquillo e sobretudo porque apodreci»,―eu nem por isso deixo de o mandar varrer do meu quarto.
Havia aqui uma antipathia de instincto, toda physiologica, cuja intransigencia e obstinação nem factos nem raciocinios podiam vencer. Bem mais justo era o horror que lhe inspirava, na vida social de Lisboa, a inhabil, descomedida e papalva imitacão de Paris. Essa «saloia macaqueação», superiormente denunciada por elle n'uma carta que me escreveu em 1885, e onde assenta, n'um luminoso resumo, que «
Lisboa é uma cidade traduzida do francez em calão
»―tornava-se para Fradique, apenas transpunha Santa Apolonia, um tormento sincero. E a sua anciedade perpetua era então descobrir, através da frandulagem do Francezismo, algum resto do genuino Portugal.
Logo a comida constituia para elle um real desgosto. A cada instante em cartas, em conversas, se lastíma de não poder conseguir «um cozido vernaculo!»―«Onde estão (exclama elle, algures) os pratos veneraveis do Portugal portuguez, o pato com macarrão do seculo XVIII, a almondega indigesta e divina do tempo das descobertas, ou essa maravilhosa cabidella de frango, petisco dilecto de D. João IV, de que os fidalgos inglezes que vieram ao reino buscar a noiva de Carlos II levaram para Londres a surprehendente noticia? Tudo estragado! O mesmo provincianismo reles põe em calão as comedias de Labiche e os acepipes de Gouffé. E estamo-nos nutrindo miseravelmente dos sobejos democraticos do
boulevard
, requentados, e servidos em chalaça e galantine! Desastre estranho! As coisas mais deliciosas de Portugal, o lombo de porco, a vitella de Lafões, os legumes, os dôces, os vinhos, degeneraram,
insipidaram
... Desde quando? Pelo que dizem os velhos, degeneraram desde o Constitucionalismo e o Parlamentarismo. Depois d'esses enxertos funestos no velho tronco lusitano, os fructos têm perdido o sabor, como os homens têm perdido o caracter...»
Só uma occasião, n'esta especialidade consideravel, o vi plenamente satisfeito. Foi n'uma taverna da Mouraria (onde eu o levára), diante d'um prato complicado e profundo de bacalhau, pimentos e grão de bico. Para o gozar com coherencia Fradique despiu a sobrecasaca. E como um de nós lançára casualmente o nome de Renan, ao atacarmos o piteu sem igual, Fradique protestou com paixão:
―Nada de idéas! Deixem-me saborear esta bacalhoada, em perfeita innocencia de espirito, como no tempo do Senhor D. João V, antes da Democracia e da Critica!
A saudade do velho Portugal era n'elle constante: e considerava que, por ter perdido esse typo de civilisação intensamente original, o mundo ficára diminuido. Este amor do passado revivia n'elle, bem curiosamente, quando via realisados em Lisboa, com uma inspiração original, o luxo e o «modernismo» intelligente das civilisações mais saturadas de cultura e perfeitas em gosto. A derradeira vez que o encontrei em Lisboa foi no Rato―n'uma festa de raro e delicado brilho. Fradique parecia desolado:
―Em Paris, affirmava elle, a duqueza de La Rochefoucauld-Bisaccia póde dar uma festa igual: e para isto não me valia a pena ter feito a quarentena em Marvão! Supponha porém vossê que eu vinha achar aqui um sarau do tempo da Senhora D. Maria I, em casa dos Marialvas, com fidalgas sentadas em esteiras, frades tocando o lundum no bandolim, desembargadores pedindo mote, e os lacaios no pateo, entre os mendigos, rezando em côro a ladainha!... Ahi estava uma coisa unica, deliciosa, pela qual se podia fazer a viagem de Paris a Lisboa em liteira!
Um dia que jantavamos em casa de Carlos Mayer, e que Fradique lamentava, com melancolica sinceridade, o velho Portugal fidalgo e fradesco do tempo do snr. D. João V―Ramalho Ortigão não se conteve:
―Vossê é um monstro, Fradique! O que vossê queria era habitar o confortavel Paris do meado do seculo XIX, e ter aqui, a dois dias de viagem, o Portugal do seculo XVIII, onde podesse vir, como a um museu, regalar-se de pittoresco e de archaismo... Vossê, lá na rua de Varennes, consolado de decencia e de ordem. E nós aqui, em viellas fedorentas, inundados á noite pelos despejos d'aguas sujas, aturdidos pelas arruaças do marquez de Cascaes ou do conde d'Aveiras, levados aos empurrões para a enxovia pelos malsins da Intendencia, etc. etc... Confesse que é o que vossê queria!
Fradique volveu serenamente:
―Era bem mais digno e bem mais patriotico que em logar de vos vêr aqui, a vós, homens de letras, esticados nas gravatas e nas idéas que toda a Europa usa, vos encontrasse de cabelleira e rabicho, com as velhas algibeiras da casaca de sêda cheias d'odes shaphicas, encolhidinhos no salutar terror d'El-Rei e do Diabo, rondando os pateos da casa de Marialva ou d'Aveiro, á espera que os senhores, de cima, depois de dadas as graças, vos mandassem por um pretinho, os restos do perú e o mote. Tudo isso seria dignamente portuguez, e sincero; vós não merecieis melhor; e a vida não é possivel sem um bocado de pittoresco depois do almoço.
Com effeito, n'esta saudade de Fradique pelo Portugal antigo, havia amor do «pittoresco», estranho n'um homem tão subjectivo e intellectual: mas sobretudo havia o odio a esta universal modernisação que reduz todos os costumes, crenças, idéas, gostos, modos, os mais ingenitos e mais originalmente proprios, a um typo uniforme (representado pelo
sujeito utilitario e sério
de sobrecasaca preta)―com a monotonia com que o chinez apara todas as arvores d'um jardim, até lhes dar a fórma unica e dogmatica de pyramide ou de vaso funerario.
Por isso Fradique em Portugal amava sobretudo o povo―o povo que não mudou, como não muda a Natureza que o envolve e lhe communica os seus caracteres graves e dôces. Amava-o pelas suas qualidades, e tambem pelos seus defeitos:―pela sua morosa paciencia de boi manso; pela alegria idyllica que lhe poetisa o trabalho; pela calma acquiescencia á vassallagem com que depois do
Senhor Rei
venera o
Senhor Governo
; pela sua doçura amaviosa e naturalista; pelo seu catholicismo pagão, e carinho fiel aos Deuses latinos, tornados santos calendares; pelos seus trajes, pelos seus cantos... «Amava-o ainda (diz elle) pela sua linguagem tão bronca e pobre, mas a unica em Portugal onde se não sente odiosamente a influencia do Lamartinismo ou das
Sebentas
de de Direito Publico».
V
A ultima vez que Fradique visitou Lisboa foi essa em que o encontrei no Rato, lamentando os saraus beatos e secios do seculo XVIII. O antigo poeta das
Lapidarias
tinha então cincoenta annos; e cada dia se prendia mais á quieta doçura dos seus habitos de Paris.
Fradique habitava, na rua de Varennes, desde 1880, uma ala do antigo palacio dos Duques de Tredennes que elle mobilára com um luxo sobrio e grave―tendo sempre detestado esse atulhamento de alfaias e estofos, onde inextricavelmente se embaralham e se contradizem as Artes e os Seculos, e que, sob o barbaro e justo nome de
bric-à-brac
, tanto seduz os financeiros e as
cocottes
. Nobres e ricas tapeçarias de Paizagem e de Historia; amplos divans d'Aubusson; alguns moveis d'arte da Renascença Franceza; porcelanas raras de Deft e da China; espaço, claridade, uma harmonia de tons castos―eis o que se encontrava nas cinco salas que constituiam o «covil» de Fradique. Todas as varandas, de ferro rendilhado, datando de Luiz XIV, abriam sobre um d'esses jardins de arvores antigas, que, n'aquelle bairro fidalgo e ecclesiastico, formam retiros de silencio e paz silvana, onde por vezes nas noites de maio se arrisca a cantar um rouxinol.
A vida de Fradique era medida por um relogio secular, que precedia o toque lento e quasi austero das horas com uma toada argentina de antiga dança de côrte: e era mantida n'uma immutavel regularidade pelo seu creado Smith, velho escossez da
clan
dos Macduffs, já todo branco de pello e ainda todo rosado de pelle, que havia trinta annos o acompanhava, com severo zêlo, através da vida e do mundo.
De manhã, ás nove horas, mal se espalhavam no ar os compassos gentis e melancolicos d'aquelle esquecido minuete de Cimarosa ou de Haydin, Smith rompia pelo quarto de Fradique, abria todas as janellas á luz, gritava:―
Morning, Sir!
Immediatamente Fradique, dando de entre a roupa um salto brusco que considerava «de hygiene transcendente», corria ao immenso laboratorio de marmore, a esponjar a face e a cabeça em agua fria, com um resfolgar de Trytão ditoso. Depois, enfiando uma das cabaias de sêda que tanto me maravilhavam, abandonava-se, estirado n'uma poltrona, aos cuidados de Smith que, como barbeiro (affirmava Fradique) reunia a ligeireza macia de Figaro á sapiencia confidencial do velho Oliveiro de Luiz XI. E, com effeito, emquanto o ensaboava e escanhoava, Smith ia dando a Fradique um resumo nitido, solido, todo em factos, dos telegrammas politicos do
Times
, do
Standard
e da
Gazeta de Colonia
!
Era para mim uma surpreza, sempre renovada e saborosa, vêr Smith, com a sua alta gravata branca á Palmerston, a rabona curta, as calças de xadrez verde e preto (côres da sua
clan
), os sapatos de verniz decotados, passando o pincel na barba do amo, e murmurando, em perfeita sciencia e perfeita consciencia:―«Não se realisa a conferencia do principe de Bismarck com o conde Kalnocky... Os conservadores perderam a eleição supplementar de York... Fallava-se hontem em Vienna d'um novo emprestimo russo...» Os amigos em Lisboa riam d'esta «caturreira»; mas Fradique sustentava que havia aqui um proveitoso regresso á tradição classica, que em todo o mundo latino, desde Scipião o Africano, instituira os barbeiros como «informadores universaes da coisa publica». Estes curtos resumos de Smith formavam a carcassa das suas noções politicas: e Fradique nunca dizia―«Li no
Times
»―mas «Li no Smith».
Bem barbeado, bem informado, Fradique mergulhava n'um banho ligeiramente tepido, d'onde voltava para as mãos vigorosas de Smith, que, com um jogo de luvas de lã, de flanella, d'estopa, de clina e de pelle de tigre, o friccionava até que o corpo todo se lhe tornasse, como o de Apollo, «roseo e reluzente». Tomava então o seu chocolate; e recolhia á bibliotheca, sala séria e simples, onde uma imagem da Verdade, radiosamente branca na sua nudez de marmore, pousava o dedo subtil sobre os labios puros, symbolisando, em frente á vasta mesa de ébano, um trabalho todo intimo á busca de verdades que não são para o ruido e para o mundo.
Á uma hora almoçava, com a sobriedade d'um grego, ovos e legumes:―e depois, estendido n'um divan, tomando goles lentos de chá russo, percorria nos Jornaes e nas Revistas as chronicas d'arte, de litteratura, de theatro ou de sociedade, que não eram da competencia politica de Smith. Lia então tambem com cuidado os jornaes portuguezes (que chama algures «phenomenos picarescos de decomposição social»), sempre caracteristicos, mas superiormente interessantes para quem como elle se comprazia em analysar «a obra genuina e sincera da mediocridade», e considerava Calino tão digno d'estudo como Voltaire. O resto do dia dava-o aos amigos, ás visitas, aos
ateliers
, ás salas d'armas, ás exposições, aos clubs―aos cuidados diversos que se cria um homem d'alto gosto vivendo n'uma cidade d'alta civilisacão.
De tarde subia ao
Bois
conduzindo o seu phaeton, ou montando a
Sabá
, uma maravilhosa egoa das caudelarias de Aïn-Weibah que lhe cedera o Emir de Mossul. E a sua noite (quando não tinha cadeira na Opera ou na
Comédie
) era passada n'algum salão―precisando sempre findar o seu dia entre «o ephemero feminino». (Assim dizia Fradique).
A influencia d'este «feminino» foi suprema na sua existencia. Fradique amou mulheres; mas fóra d'essas, e s A influencia d'este «feminino» foi suprema na sua existencia. Fradique amou mulheres; mas fóra d'essas, e sobre todas as coisas, amava a Mulher.
A sua conducta para com as mulheres era governada conjuntamente por devoções de espiritualista, por curiosidades de critico, e por exigencias de sanguineo. Á maneira dos sentimentaes da Restauração, Fradique considerava-as como «organismos» superiores, divinamente complicados, differentes e mais proprios de adoração do que tudo o que offerece a Natureza: ao mesmo tempo, através d'este culto, ia dissecando e estudando esses «organismos divinos», fibra a fibra, sem respeito, por paixão de analysta; e frequentemente o critico e o enthusiasta desappareciam para só restar n'elle um homem amando a mulher, na simples e boa lei natural, como os Faunos amavam as Nymphas.
As mulheres, além d'isso, estavam para elle (pelo menos nas suas theorias de conversação) classificadas em especies. Havia a «mulher d'exterior», flôr de luxo e de mundanismo culto: e havia a «mulher d'interior», a que guarda o lar, diante da qual, qualquer que fosse o seu brilho, Fradique conservava um tom penetrado de respeito, excluindo toda a investigação experimental. «Estou em presença d'estas (escreve elle a Madame de Jouarre), como em face d'uma carta alheia fechada com sinete e lacre». Na presença, porém, d'aquellas que se «exteriorisam» e vivem todas no ruido e na phantasia, Fradique achava-se tão livre e tão irresponsavel como perante um volume impresso. «Folhear o livro (diz elle ainda a Madame de Jouarre), annotal-o nas margens assetinadas, critical-o em voz alta com independencia e veia, leval-o no coupé para lêr á noite em casa, aconselhal-o a um amigo, atiral-o para um canto percorridas as melhores paginas―é bem permittido, creio eu, segundo a Cartilha e o Codigo».
Seriam estas subtilezas (como suggeria um cruel amigo nosso) as d'um homem que theorisa e idealisa o seu temperamento de carrejão para o tornar litterariamente interessante? Não sei. O commentario mais instructivo das suas theorias dava-o elle, visto n'uma sala, entre «o ephemero feminino». Certas mulheres muito voluptuosas, quando escutam um homem que as perturba, abrem insensivelmente os labios. Em Fradique eram os olhos que se alargavam. Tinha-os pequenos e côr de tabaco: mas junto d'uma d'essas mulheres de exterior, «estrellas de mundanismo», tornavam-se-lhe immensos, cheios de luz negra, avelludados, quasi humidos. A velha lady Mongrave comparava-os «ás guelas abertas de duas serpentes». Havia alli com effeito um acto de alliciação e de absorpção―mas havia sobretudo a evidencia da perturbação e do encanto que o inundavam. N'essa attenção de beato diante da Virgem, no murmurio quente da voz mais amollecedora que um ar de estufa, no humedecimento enleado dos seus olhos finos,―as mulheres viam apenas a influencia omnipotentemente vencedora das suas graças de Fórma e d'Alma sobre um homem esplendidamente viril. Ora nenhum homem mais perigoso do que aquelle que dá sempre ás mulheres a impressão clara, quasi tangivel―de que ellas são irresistiveis, e subjugam o coração mais rebelde só com mover os hombros lentos ou murmurar «que linda tarde!» Quem se mostra facilmente seduzido―facilmente se torna seductor. É a lenda india, tão sagaz e real, do espelho encantado em que a velha Maharina se via radiosamente bella. Para obter e reter esse espelho, em que com tanto esplendor se reflecte a sua pelle engilhada―que peccados e que traições não commetterá a Maharina?...
Creio, pois, que Fradique foi profundamente amado, e que magnificamente o mereceu. As mulheres encontravam n'elle esse sêr, raro entre os homens―um Homem. E para ellas Fradique possuia esta superioridade inestimavel, quasi unica na nossa geração―uma alma extremamente sensivel, servida por um corpo extremamente forte.
De maior duração e intensidade que os seus amores foram todavia as amizades que Fradique a si attrahiu pela sua excellencia moral. Quando eu conheci Fradique em Lisboa, no remoto anno de 1867, julguei sentir na sua natureza (como no seu verso) uma impassibilidade brilhante e metallica: e através da admiração que me deixára a sua arte, a sua personalidade, o seu viço, a sua cabaia de sêda―confessei um dia a J. Teixeira d'Azevedo que não encontrára no poeta das
Lapidarias
aquelle
tepido leite da bondade humana
, sem o qual o velho Shakspeare (nem eu, depois d'elle) comprehendia que um homem fosse digno da humanidade. A sua mesma polidez, tão risonha e perfeita, me parecera mais composta por um systema do que genuinamente ingenita. Decerto, porém, concorreu para a formação d'este juizo uma carta (já velha, de 1855) que alguem me confiou, e em que Fradique, com toda a leviana altivez da mocidade, lançava este rude programma de conducta:―«Os homens nasceram para trabalhar, as mulheres para chorar, e nós, os fortes, para passar friamente através!...»
Mas em 1880, quando a nossa intimidade uma noite se fixou a uma mesa do Bignon, Fradique tinha cincoenta annos: e, ou porque eu então o observasse com uma assiduidade mais penetrante, ou porque n'elle se tivesse já operado com a idade esse phenomeno que Fustan de Carmanges chamou depois
le degel de Fradique
, bem cedo senti, através da impassibilidade marmorea do cinzelador das
Lapidarias
, brotar, tepida e generosamente, o
leite da bondade humana
.
A forte expressão de virtude que n'elle logo me impressionou foi a sua incondicional e irrestricta indulgencia. Ou por uma conclusão da sua philosophia, ou por uma inspiração da sua natureza―Fradique, perante o peccado e o delicto, tendia áquella velha misericordia evangelica que, consciente da universal fragilidade, pergunta d'onde se erguerá a mão bastante pura para arremessar a primeira pedra ao erro. Em toda a culpa elle via (talvez contra a razão, mas em obediencia áquella
voz
que fallava baixo a S. Francisco d'Assis e que ainda se não calou) a irremediavel fraqueza humana: e o seu perdão subia logo do fundo d'essa Piedade que jazia na sua alma, como manancial d'agua pura em terra rica, sempre prompto a brotar.
A sua bondade, porém, não se limitava a esta expressão passiva. Toda a desgraça, desde a amargura limitada e tangivel que passa na rua, até á vasta e esparsa miseria que com a força d'um elemento devasta classes e raças, teve n'elle um consolador diligente e real. São d'elle, e escriptas nos derradeiros annos (n'uma carta a G. F.) estas nobres palavras:―«Todos nós que vivemos n'este globo formamos uma immensa caravana que marcha confusamente para o Nada. Cerca-nos uma natureza inconsciente, impassivel, mortal como nós, que não nos entende, nem sequer nos vê, e d'onde não podemos esperar nem soccorro nem consolação. Só nos resta para nos dirigir, na rajada que nos leva, esse secular preceito, summa divina de toda a experiencia humana―«ajudai-vos uns aos outros!» Que, na tumultuosa caminhada, portanto, onde passos sem conta se misturam―cada um ceda metade do seu pão áquelle que tem fome; estenda metade do seu manto áquelle que tem frio; acuda com o braço áquelle que vai tropeçar; poupe o corpo d'aquelle que já tombou; e se algum mais bem provido e seguro para o caminho necessitar apenas sympathia d'almas, que as almas se abram para elle transbordando d'essa sympathia... Só assim conseguiremos dar alguma belleza e alguma dignidade a esta escura debandada para a Morte».
Decerto Fradique não era um santo militante, rebuscando pelas viellas miserias a resgatar: mas nunca houve mal, por elle conhecido, que d'elle não recebesse allivio. Sempre que lia por acaso, n'um jornal, uma calamidade ou uma indigencia, marcava a noticia com um traço a lapis, lançando ao lado um algarismo―que indicava ao velho Smith o numero de libras que devia remetter, sem publicidade, pudicamente. A sua maxima para com os pobres (a quem os Economistas affirmam que se não deve Caridade mas Justiça)―era «que á hora das comidas mais vale um pataco na mão que duas Philosophias a voar». As creanças, sobretudo quando necessitadas, inspiravam-lhe um enternecimento infinito; e era d'estes, singularmente raros, que encontrando, n'um agreste dia de inverno, um pequenino que pede, tranzido de frio―param sob a chuva e sob o vento, desapertam pacientemente o paletot, descalçam pacientemente a luva, para vasculhar no fundo da algibeira, á procura da moeda de prata que vai ser o calor e o pão d'um dia.
Esta caridade estendia-se budhistamente a tudo que vive. Não conheci homem mais respeitador do animal e dos seus direitos. Uma occasião em Paris, correndo ambos a uma estação de
fiacres
para nos salvarmos d'um chuveiro que desabava, e seguir, na pressa que nos leváva, a uma venda de tapeçarias (onde Fradique cubiçava umas
Nove Musas dançando entre loureiraes
), encontrámos apenas um
coupé
, cuja pileca, com o sacco pendente do focinho, comia melancolicamente a sua ração. Fradique teimou em esperar que o cavallo almoçasse com socego―e perdeu as
Nove Musas
.
Nos ultimos tempos, preoccupava-o sobretudo a miseria das classes―por sentir que n'estas Democracias industriaes e materialistas, furiosamente empenhadas na lucta pelo pão egoista, as almas cada dia se tornam mais sêccas e menos capazes de piedade. «A fraternidade (dizia elle n'uma carta de 1886 que conservo) vai-se sumindo, principalmente n'estas vastas colmeias de cal e pedra onde os homens teimam em se amontoar e luctar; e, através do constante deperecimento dos costumes e das simplicidades ruraes, o mundo vai rolando a um egoismo feroz. A primeira evidencia d'este egoismo é o desenvolvimento ruidoso da philantropia. Desde que a caridade se organisa e se consolida em instituição, com regulamentos, relatorios, comités, sessões, um presidente e uma campainha, e de sentimento natural passa a funcção official―é porque o homem, não contando já com os impulsos do seu coração, necessita obrigar-se publicamente ao bem pelas prescripções d'um estatuto. Com os corações assim duros e os invernos tão longos, que vai ser dos pobres?...»
Quantas vezes, diante de mim, nos crepusculos de novembro, na sua bibliotheca apenas alumiada pela chamma incerta e dôce da lenha no fogão, Fradique emergiu d'um silencio em que os olhares se lhe perdiam ao longe, como afundados em horisontes de tristeza―para assim lamentar, com enternecida elevação, todas as miserias humanas! E voltava então a amarga affirmação da crescente aspereza dos homens, forçados pela violencia do conflicto e da concorrencia a um egoismo rude, em que cada um se torna cada vez mais o lobo do seu semelhante,
homo homini lupus
.
―Era necessario que viesse outro Christo! murmurei eu um dia.
Fradique encolheu os hombros:
―Ha de vir; ha de talvez libertar os escravos; ha de ter por isso a sua igreja e a sua liturgia; e depois ha de ser negado; e mais tarde ha de ser esquecido; e por fim hão de surgir novas turbas de escravos. Não ha nada a fazer. O que resta a cada um por prudencia é reunir um peculio e adquirir um revolwer; e aos seus semelhantes que lhe baterem á porta, dar, segundo as circumstancias, ou pão ou bala.
Assim, cheios de idéas, de delicadas occupações e d'obras amaveis, decorreram os derradeiros annos de Fradique Mendes em Paris, até que no inverno de 1888 a morte o colheu sob aquella fórma que elle, como Cesar, sempre appetecera―
inopinatam atque repentinam
.
Uma noite, sahindo d'uma festa da condessa de La Ferté (velha amiga de Fradique, com quem fizera n'um
yacht
uma viagem á Islandia) achou no
vestiario
a sua pelissa russa trocada por outra, confortavel e rica tambem, que tinha no bolso uma carteira com o monogramma e os bilhetes do general Terran-d'Azy. Fradique, que soffria de repugnancias intolerantes, não se quiz cobrir com o agasalho d'aquelle official rabugento e catarrhoso, e atravessou a praça da Concordia a pé, de casaca, até ao club da
Rue Royale
. A noite estava sêcca e clara, mas cortada por uma d'essas brizas subtis, mais tenues que um halito, que durante leguas se afiam sobre planicies nevadas do norte, e já eram comparadas pelo velho André Vasali a «um punhal traiçoeiro». Ao outro dia acordou com uma tosse leve. Indifferente porém aos resguardos, seguro d'uma robustez que affrontára tantos ares inclementes, foi a Fontainebleau com amigos no alto d'um
mail-coach
. Logo n'essa noite, ao recolher, teve um longo e intenso arripio; e trinta horas depois, sem soffrimento, tão serenamente que durante algum tempo Smith o julgou adormecido, Fradique, como diziam os antigos, «tinha vivido». Não acaba mais dôcemente um bello dia d. Logo n'essa noite, ao recolher, teve um longo e intenso arripio; e trinta horas depois, sem soffrimento, tão serenamente que durante algum tempo Smith o julgou adormecido, Fradique, como diziam os antigos, «tinha vivido». Não acaba mais dôcemente um bello dia de verão.
O dr. Labert declarou que fôra uma fórma rarissima de pleuriz. E accrescentou, com um exacto sentimento das felicidades humanas:―«
Toujours de la chance, ce Fradique!
»
Acompanharam a sua passagem derradeira pelas ruas de Paris, sob um céo cinzento de neve, alguns dos mais gloriosos homens de França nas coisas do saber e da arte. Lindos rostos, já pisados pelo tempo, o choraram, na saudade das emoções passadas. E, em pobres moradas, em torno a lares sem lume, foi decerto tambem lamentado este sceptico de finas letras, que cuidava dos males humanos envolto em cabaias de sêda.
Jaz no
Père-Lachaise
, não longe da sepultura de Balzac, onde no dia dos Mortos elle mandava sempre collocar um ramo d'essas violetas de Parma que tanto amára em vida o creador da
Comedia Humana
. Mãos fieis, por seu turno, conservam sempre perfumado de rosas frescas o marmore simples que o cobre na terra.
VI
O erudito moralista que assigna
Alceste
na
Gazette de Paris
dedicou a Fradique Mendes uma Chronica em que resume assim o seu espirito e a sua acção:―«Pensador verdadeiramente pessoal e forte, Fradique Mendes não deixa uma obra. Por indifferença, por indolencia, este homem foi o dissipador d'uma enorme riqueza intellectual. Do bloco d'ouro em que poderia ter talhado um monumento imperecivel―tirou elle durante annos curtas lascas, migalhas, que espalhou ás mãos cheias, conversando, pelos salões e pelos clubs de Paris. Todo esse pó d'ouro se perdeu no pó commum. E sobre a sepultura de Fradique, como sobre a do grego desconhecido de que canta a Anthologia, se poderia escrever:―«Aqui jaz o ruido do vento que passou derramando perfume, calor e sementes em vão...»
Toda esta chronica vem lançada com a usual superficialidade e inconsideração dos francezes. Nada menos reflectido que as designações de
indolencia
,
indifferença
, que voltam repetidamente, n'essa pagina bem ornada e sonora, como para marcar com precisão a natureza de Fradique. Elle foi ao contrario um homem todo de paixão, de acção, de tenaz labor. E escassamente póde ser accusado de
indolencia
, de
indifferença
, quem, como elle, fez duas campanhas, apostolou uma religião, trilhou os cinco continentes, absorveu tantas civilisações, percorreu todo o saber do seu tempo.
O chronista da
Gazette de Paris
acerta porém, singularmente, affirmando que d'esse duro obreiro não resta uma obra. Impressas e dadas ao mundo só d'elle conhecemos com effeito as poesias das
Lapidarias
, publicadas na
Revolução de Setembro
―e esse curioso poemeto em latim barbaro,
Laus Veneris Tennebrosae
, que appareceu na
Revue de Poésie et d'Art
, fundada em fins de 69 em Paris por um grupo de poetas symbolistas. Fradique porém deixou manuscriptos. Muitas vezes, na rua de Varennes, os entrevi eu dentro d'um cofre hespanhol do seculo XIV, de ferro lavrado, que Fradique denominava a
valla commum
. Todos esses papeis (e a plena disposição d'elles) foram legados por Fradique áquella
Libuska
de quem elle largamente falla nas suas cartas a Madame de Jouarre, e que se nos torna tão familiar e real «com os seus velludos brancos de Veneziana e os seus largos olhos de Juno».
Esta senhora, que se chamava Varia Lobrinska, era da velha familia russa dos Principes de Palidoff. Em 1874 seu marido Paulo Lobrinski, diplomata silencioso e vago, que pertencera ao regimento das Guardas Imperiaes, e escrevia
capitaine
com
t
,
e
, (
capiténe
) morrera em Paris, por fins d'outono, ainda moço, de uma languida e longa anemia. Immediatamente Madame Lobrinska, com solemne magoa, cercada d'aias e de crépes, recolheu ás suas vastas propriedades russas perto de Starobelsk, no governo de Karkoff. Na primavera, porém, voltou com as flôres dos castanheiros,―e desde então habitava Paris em luxuosa e risonha viuvez. Um dia, em casa de Madame de Jouarre, encontrou Fradique, que, enlevado então no culto das Litteraturas slavas, se occupava com paixão do mais antigo e nobre dos seus poemas, o
Julgamento de Libuska
, casualmente encontrado em 1818 nos archivos do castello de Zelene-Hora. Madame Lobrinska era parenta dos senhores de Zelene-Hora, condes de Colloredo―e possuia justamente uma reproducção das duas folhas de pergaminho que contêm a velha epopeia barbara.
Ambos leram esse texto heroico―até que o dôce instante veio em que, como os dois amorosos de Dante, «não leram mais no dia todo». Fradique dera a Madame Lobrinska o nome de
Libuska
, a rainha que no
Julgamento
apparece «vestida de branco e resplandecente de sapiencia». Ella chamava a Fradique
Lucifer
. O poeta das
Lapidarias
morreu em novembro:―e dias depois Madame Lobrinska recolhia de novo á melancolia das suas terras, junto de Starobelsk, no governo de Karkoff. Os seus amigos sorriram, murmuraram com sympathia que Madame Lobrinska fugira, para chorar entre os seus moujiks a sua segunda viuvez―até que reflorecesse os lilazes. Mas d'esta vez
Libuska
não voltou, nem com as flôres dos castanheiros.
O marido de Madame Lobrinska era um Diplomata que estudava e praticava sobretudo os
menus
e os
cotillons
. A sua carreira foi portanto irremediavelmente subalterna e lenta. Durante seis annos jazeu no Rio de Janeiro, entre os arvoredos de Petropolis, como Secretario, esperando aquella legação na Europa que o Principe Gortchakoff, então Chanceller Imperial, affirmava pertencer a Madame Lobrinska
par droit de beauté et de sagesse
. A legação na Europa, n'uma capital mundana, culta, sem bananeiras, nunca veio compensar aquelles exilados que soffriam das saudades da neve:―e Madame Lobrinska, no seu exilio, chegou a aprender tão completamente a nossa dôce lingua de Portugal, que Fradique me mostrou uma traducção da elegia de Lavoski,
A Collina do Adeus
, trabalhada por ella com superior pureza e relevo. Só ella pois, realmente, d'entre todas as amigas de Fradique, podia apreciar como paginas vivas, onde o pensador depozera a confidencia do seu pensamento, esses manuscriptos que para as outras seriam apenas sêccas e mortas folhas de papel, cobertas de linhas incomprehendidas.
Logo que comecei a colleccionar as cartas dispersas de Fradique Mendes, escrevi a Madame Lobrinska contando o meu empenho em fixar n'um estudo carinhoso as feições d'esse transcendente espirito―e implorando, se não alguns extractos dos seus manuscriptos, ao menos algumas revelações
sobre a sua natureza
. A resposta de Madame Lobrinska foi uma recusa, bem determinada, bem deduzida,―mostrando que decerto sob «os claros olhos de Juno» estava uma clara razão de Minerva. «Os papeis de Carlos Fradique (dizia em summa) tinham-lhe sido confiados, a ella que vivia longe da publicidade, e do mundo que se interessa e lucra na publicidade, com o intuito de que para sempre conservassem o caracter intimo e secreto em que tanto tempo Fradique os mantivera: e n'estas condições o
revelar a sua natureza
seria manifestamente contrariar o recatado e altivo sentimento que dictára esse legado...» Isto vinha escripto, com uma letra grossa e redonda, n'uma larga folha de papel aspero, onde a um canto brilhava a ouro, sob uma corôa d'ouro, esta divisa―
Per terram ad coelum
.
D'este modo se estabeleceu a obscuridade em torno dos manuscriptos de Fradique. Que continha realmente esse cofre de ferro, que Fradique com desconsolado orgulho denominava a
valla commum
, por julgar pobres e sem brilho no mundo os pensamentos que para lá arrojava?
Alguns amigos pensam que ahi se devem encontrar, se não completas, ao menos esboçadas, ou já coordenadas nos seus materiaes, as duas obras a que Fradique alludia como sendo as mais captivantes para um pensador e um artista d'este seculo―uma
Psychologia das Religiões
e uma
Theoria da Vontade
.
Outros (como J. Teixeira d'Azevedo) julgam que n'esses papeis existe um romance de realismo epico, reconstruindo uma civilisação extincta, como a
Salammbô
. E deduzem essa supposição (desamoravel) d'uma carta a Oliveira Martins, de 1880, em que Fradique exclamava, com uma ironia mysteriosa:―«Sinto-me resvalar, caro historiador, a praticas culpadas e vãs! Ai de mim, ai de mim, que me foge a penna para o mal! Que demonio malfazejo, coberto do pó das Idades, e sobraçando in-folios archeologicos, me veio murmurar uma d'estas noites, noite de duro inverno e de erudição decorativa:―«Trabalha um romance! E no teu romance resuscita a antiguidade asiatica!»? E as suas suggestões pareceram-me dôces, amigo, d'uma doçura lethal!... Que dirá vossê, dilecto Oliveira Martins, se um dia desprecavidamente no seu lar receber um tomo meu, impresso com solemnidade, e começando por estas linhas:―«
Era em Babylonia, no mez de Sivanù, depois da colheita do balsamo?...
» Decerto, vossê (d'aqui o sinto) deixára pender a face aterrada entre as mãos tremulas, murmurando:―«Justos céos! Ahi vem sobre nós a descripção do templo das Sete-Espheras, com todos os seus terraços! a descripção da batalha de Halub, com todas as suas armas! a descripção do banquete de Sennacherib, com todas as suas iguarias!... Nem os bordados d'uma só tunica, nem os relevos d'um só vaso nos serão perdoados! E é isto um amigo intimo!»
Ramalho Ortigão, ao contrario, inclina a crêr que os papeis de Fradique contêm
Memorias
―porque só a
Memorias
se póde coherentemente impôr a condição de permanecerem secretas.
Eu por mim, d'um melhor e mais contínuo conhecimento de Fradique, concluo que elle não deixou um livro de Psychologia, nem uma Epopeia archeologica (que certamente pareceria a Fradique uma culpada e vã ostentação de saber pittoresco e facil), nem
Memorias
―inexplicaveis n'um homem todo de idéa e de abstracção, que escondia a sua vida com tão altivo recato. E affirmo afoutamente que n'esse cofre de ferro, perdido n'um velho solar russo, não existe uma
obra
―porque Fradique nunca foi verdadeiramente um
auctor
.
Para o ser não lhe faltaram decerto as idéas―mas faltou-lhe a certeza de que ellas, pelo seu valor
definitivo
, merecessem ser registradas e perpetuadas: e faltou-lhe ainda a arte paciente, ou o querer forte, para produzir aquella fórma que elle concebera em abstracto como a unica digna, por bellezas especiaes e raras, de encarnar as suas idéas. Desconfiança de si como pensador, cujas conclusões, renovando a philosophia e a sciencia, podessem imprimir ao espirito humano um movimento inesperado; desconfiança de si como escriptor e creador d'uma Prosa, que só por si propria, e separada do valor do pensamento, exercesse sobre as almas a acção ineffavel do absolutamente bello―eis as duas influencias negativas que retiveram Fradique para sempre inedito e mudo. Tudo o que da sua intelligencia emanasse queria elle que perpetuamente ficasse actuando sobre as intelligencias pela definitiva verdade ou pela incomparavel belleza. Mas a critica inclemente e sagaz que praticava sobre os outros, praticava-a sobre si, cada dia, com redobrada sagacidade e inclemencia. O sentimento, tão vivo n'elle, da Realidade fazia-lhe distinguir o seu proprio espirito tal como era, na sua real potencia e nos seus reaes limites, sem que lh'o mostrassem mais potente ou mais largo esses «fumos da illusão litteraria»―que levam todo o homem de letras, mal corre a penna sobre o papel, a tomar por faiscantes raios de luz alguns sujos riscos de tinta. E concluindo que, nem pela idéa, nem pela fórma, poderia levar ás intelligencias persuasão ou encanto que definitivamente marcassem na evolução da razão ou do gosto―preferiu altivamente permanecer silencioso. Por motivos nobremente diferentes dos de Descartes, elle seguiu assim a maxima que tanto seduzia Descartes―
bene vixit qui bene latuit
.
Nenhum d'estes sentimentos elle me confessou; mas todos lh'os surprehendi, transparentemente, n'um dos derradeiros Nataes que vim passar á rua de Varennes, onde Fradique pelas festas do anno me hospedava com immerecido esplendor. Era uma noite de grande e ruidoso inverno: e desde o café, com os pés estendidos á alta chamma dos madeiros de faia que estalavam na chaminé, conversavamos sobre a Africa e sobre religiões Africanas. Fradique recolhera na região do Zambeze notas muito flagrantes, muito vivas, sobre os cultos nativos―que são divinisações dos chefes mortos, tornados pela morte
Mulungus
, Espiritos dispensadores das coisas boas e más, com residencia divina nas cubatas e nas collinas onde tiveram a sua residencia carnal; e, comparando os ceremoniaes e os fins d'estes cultos selvagens da Africa com os primitivos ceremoniaes liturgicos dos Aryas em Septa-Sandou, Fradique concluia (como mostra n'uma carta d'esse tempo a Guerra Junqueiro) que na religião o que ha de real, essencial, necessario e eterno é o Ceremonial e a Liturgia―e o que ha de artificial, de supplementar, de dispensavel, de transitorio é a Theologia e a Moral.
Todas estas coisas me prendiam irresistivelmente, sobretudo pelos traços de vida e de natureza africana com que vinham illuminadas. E sorrindo, seduzido:
―Fradique! porque não escreve vossê toda essa sua viagem á Africa?
Era a vez primeira que eu suggeria ao meu amigo a idéa de compôr um livro. Elle ergueu a face para mim com tanto espanto como se eu lhe propozesse marchar descalço, através da noite tormentosa, até aos bosques de Marly. Depois, atirando a cigarette para o lume, murmurou com lentidão e melancolia:
―Para que?... Não vi nada na Africa, que os outros não tivessem já visto.
E como eu lhe observasse que vira talvez d'um modo differente e superior; que nem todos os dias um homem educado pela philosophia, e saturado de erudição, faz a travessia da Africa; e que em sciencia uma só verdade necessita mil experimentadores―Fradique quasi se impacientou:
―Não! Não tenho sobre a Africa, nem sobre coisa alguma n'este mundo, conclusões que por alterarem o curso do pensar contemporaneo valesse a pena registrar... Só podia apresentar uma série de impressões, de paizagens. E então peor! Porque o verbo humano, tal como o fallamos, é ainda impotente para encarnar a menor impressão intellectual ou reproduzir a simples fórma d'um arbusto... Eu não sei escrever! Ninguem sabe escrever!
Protestei, rindo, contra aquella generalisação tão inteiriça, que tudo varria, desapiedadamente. E lembrei que a bem curtas jardas da chaminé que nos aquecia, n'aquelle velho bairro de Paris onde se erguia a Sorbonna, o Instituto de França e a Escóla Normal, muitos homens houvera, havia ainda, que possuiam do modo mais perfeito a «bella arte de dizer».
―Quem? exclamou Fradique.
Comecei por Bossuet. Fradique encolheu os hombros, com uma irreverencia violenta que me emmudeceu. E declarou logo, n'um resumo cortante, que nos dois melhores seculos da litteratura franceza, desde o
meu
Bossuet até Beaumarchais, nenhum prosador para elle tinha relevo, côr, intensidade, vida... E nos modernos nenhum tambem o contentava. A distenção retumbante de Hugo era tão intoleravel como a flaccidez oleosa de Lamartine. A Michelet faltava gravidade e equilibrio; a Renan solidez e nervo; a Taine fluidez e transparencia; a Flaubert vibração e calor. O pobre Balzac, esse, era d'uma exuberancia desordenada e barbarica. E o preciosismo dos Goncourt e do seu mundo parecia-lhe perfeitamente indecente...
Aturdido, rindo, perguntei áquelle «feroz insatisfeito» que prosa pois concebia elle, ideal e miraculosa, que merecesse ser escripta. E Fradique, emocionado (porque estas questões de fórma desmanchavam a sua serenidade) balbuciou que queria em prosa «alguma coisa de crystallino, de avelludado, de ondeante, de marmoreo, que só por si, plasticamente, realisasse uma absoluta belleza―e que expressionalmente, como verbo, tudo podesse traduzir desde os mais fugidios tons de luz até os mais subtis estados d'alma...»
―Emfim, exclamei, uma prosa como não póde haver!
―Não! gritou Fradique, uma
prosa como ainda não ha!
Depois, ajuntou, concluindo:
―E como ainda a não ha, é uma inutilidade escrever. Só se podem produzir fórmas sem belleza: e dentro d'essas mesmas só cabe metade do que se queria exprimir, porque a outra metade não é reductivel ao verbo.
Tudo isto era talvez especioso e pueril, mas revelava o sentimento que mantivera mudo aquelle superior espirito―possuido da sublime ambição de só produzir verdades absolutamente definitivas por meio de fórmas absolutamente bellas.
Por isso, e não por indolencia de meridional como insinua
Alceste
,―Fradique passou no mundo, sem deixar outros vestigios da formidavel actividade do seu sêr pensante além d'aquelles que por longos annos espalhou, á maneira do sabio antigo, «em conversas com que se deleitava, á tarde, sob os platanos do seu jardim, ou em cartas, que eram ainda conversas naturaes com os amigos de que as ondas o separavam...» As suas conversas, o vento as levou―não tendo, como o velho dr. Johnson, um Boswell, enthusiasta e paciente, que o seguisse pela cidade e pelo campo, com as largas orelhas attentas, e o lapis prompto a tudo notar e tudo eternizar. D'elle pois só restam as suas cartas―leves migalhas d'esse ouro de que falla
Alceste
, e onde se sente o brilho, o valor intrinseco, e a preciosidade do bloco rico a que pertenceram.
VII
Se a vida de Fradique foi assim governada por um tão constante e claro proposito de abstenção e silencio―eu, publicando as suas Cartas, pareço lançar estouvada e traiçoeiramente o meu amigo, depois da sua morte, n'esse ruido e publicidade a que elle sempre se recusou por uma rigida probidade de espirito. E assim seria―se eu não possuisse a evidencia de que Fradique incondicionalmente approvaria uma publicação da sua Correspondencia, organisada com discernimento e carinho. Em 1888, n'uma carta em que lhe contava uma romantica jornada na Bretanha, alludia eu a um livro que me acompanhára e me encantára, a
Correspondencia de Xavier Doudan
―um d'esses espiritos recolhidos que vivem para se aperfeiçoar na verdade e não para se glorificar no mundo, e que, como Fradique, só deixou vestigios da sua intensa vida intellectual na sua Correspondencia, colligida depois com reverencia pelos confidentes do seu pensamento.
Fradique, na carta que me volveu, toda occupada dos Pyrenéos onde gastára o verão, accrescentava n'um
post-scriptum
:―«A Correspondencia de Doudan é realmente muito legivel; ainda que através d'ella apenas se sente um espirito naturalmente limitado, que desde novo se entranhou no doutrinarismo da escola de Genebra, e que depois, cahido em solidão e doença, só pelos livros conheceu a vida, os homens e o mundo. Li em todo o caso essas cartas―como leio todas as collecções de Correspondencias, que, não sendo didacticamente preparadas para o publico (como as de Plinio), constituem um estudo excellente de psychologia e de historia. Eis-ahi uma maneira de perpetuar as idéas d'um homem que eu afoutamente approvo―publicar-lhe a corresponcia! Ha desde logo esta immensa vantagem:―que o valor das idéas (e portanto a escolha das que devem ficar) não é decidido por aquelle que as concebeu, mas por um grupo de amigos e de criticos, tanto mais livres e mais exigentes no seu julgamento quanto estão julgando um morto que só desejam mostrar ao mundo pelos seus lados superiores e luminosos. Além d'isso uma Correspondencia revela melhor que uma obra a individualidade, o homem; e isto é inestimavel para aquelles que na terra valeram mais pelo caracter do que pelo talento. Accresce ainda que, se uma obra nem sempre augmenta o peculio do saber humano, uma Correspondencia, reproduzindo necessariamente os costumes, os modos de sentir, os gostos, o pensar contemporaneo e ambiente, enriquece sempre o thesouro da documentação historica. Temos depois que as cartas d'um homem, sendo o producto quente e vibrante da sua vida, contêm mais ensino que a sua philosophia―que é apenas a creação impessoal do seu espirito. Uma Philosophia offerece meramente uma conjectura mais que se vai juntar ao immenso montão das conjecturas: uma Vida que se confessa constitue o estudo d'uma realidade humana, que, posta ao lado de outros estudos, alarga o nosso conhecimento do Homem, unico objectivo
accessivel
ao esforço intellectual. E finalmente como
cartas são palestras escriptas
(assim affirma não sei que classico), ellas dispensam o revestimento sacramental da
tal prosa como não ha
... Mas este ponto precisava ser mais desembrulhado―e eu sinto parar á porta o cavallo em que vou trepar ao pico de Bigorre».
Foi a lembrança d'esta opinião de Fradique, tão clara e fundamentada, que me decidiu, apenas em mim se foi calmando a saudade d'aquelle camarada adoravel, a reunir as suas cartas para que os homens alguma coisa podessem aprender e amar n'aquella intelligencia que eu tão estreitamente amára e seguira. A essa carinhosa tarefa devotei um anno―porque a correspondencia de Fradique, que, desde os quietos habitos a que se acolhera depois de 1880 aquelle «andador de continentes», era a mais preferida das suas occupacões, apresenta a vastidão e a copiosidade da correspondencia de Cicero, de Voltaire, de Proudhon, e d'outros poderosos remexedores de idéas.
Sente-se logo o prazer com que compunha estas cartas na fórma do papel―esplendidas folhas de Whatman, eburneas bastante para que a penna corresse n'ellas com o desembaraço com que a voz corta o ar; vastas bastante para que n'ellas coubesse o desenrolamento da mais complexa idéa; fortes bastante, na sua consistencia de pergaminho, para que não prevalecesse contra ellas o carcomer do tempo. «Calculei já, ajudado pelo Smith (affirma elle a Carlos Mayer), que cada uma das minhas cartas, n'este papel, com enveloppe e estampilha, me custa 250 reis. Ora suppondo vaidosamente que cada quinhentas cartas minhas contêm uma idéa―resulta que cada idéa me fica por
cento e vinte e cinco mil reis
. Este méro calculo bastará para que o Estado, e a economica Classe-Média que o dirige, empeçam com ardor a educação―provando, como inilludivelmente prova, que fumar é mais barato que pensar... Contrabalanço
pensar
e
fumar
, porque são, ó Carlos, duas operações identicas que consistem em atirar pequenas nuvens ao vento».
Estas dispendiosas folhas têm todas a um canto as iniciaes de Fradique―F. M.―minusculas e simples, em esmalte escarlate. A letra que as enche, singularmente desigual, offerece a maior similitude com a conversação de Fradique: ora cerrada e fina, parecendo morder o papel como um buril para contornar bem rigorosamente a idéa; ora hesitante e demorada, com riscos, separações, como n'aquelle esforço tão seu de tentear, espiar, cercar a real realidade das coisas: ora mais fluida e rapida, lançada com facilidade e largueza, lembrando esses momentos de abundancia e de veia que Fontan de Carmanges denominava
le dégel de Fradique
, e em que o gesto estreito e sobrio se lhe desmanchava n'um esvoaçar de flammula ao vento.
Fradique nunca datava as suas cartas: e, se ellas vinham de moradas familiares aos seus amigos, notava méramente o nome do mez. Existem assim cartas innumeraveis com esta resumida indicação―
Paris, Julho
;
Lisboa, Fevereiro
... Frequentemente, tambem, restituia aos mezes as alcunhas naturalistas do kalendario republicano―
Paris, Floreal
;
Londres, Nivoze
. Quando se dirigia a mulheres substituia ainda o nome do mez pelo da flôr que melhor o symbolisa; e possuo assim cartas com esta bucolica data―
Florença, primeiras violetas
(o que indica fins de fevereiro);
Londres, chegada dos Chrysanthemos
(o que indica começos de setembro). Uma carta de Lisboa offerece mesmo esta data atroz―Lisboa,
primeiros fluxos da verborreia parlamentar!
(Isto denuncia um janeiro triste, com lama, tipoias no largo de S. Bento, e bachareis em cima bolsando, por entre injurias, fézes de velhos compendios).
Não é portanto possivel dispôr a Correspondencia de Fradique por uma ordem chronologica: nem de resto essa ordem importa desde que eu não edito a sua Correspondencia completa e integral, formando uma historia continua e intima das suas idéas. Em cartas que não são d'um
auctor
e que não constituem, como as de Voltaire ou de Proudhon, o corrente e constante commentario que acompanha e illumina a obra, cumpria sobretudo destacar as paginas que com mais saliencia revelassem a
personalidade
―o conjunto de idéas, gostos, modos, em que tangivelmente se sente e se palpa o homem. E por isso, n'estes pesados maços das cartas de Fradique, escolho apenas algumas, soltas, d'entre as que mostram traços de caracter e relances da existencia activa; d'entre as que deixam entrevêr algum instructivo episodio da sua vida de coração; d'entre as que, revolvendo noções geraes sobre a litteratura, a arte, a sociedade e os costumes, caracterisam o feitio do seu pensamento; e ainda, pelo interesse especial que as realça, d'entre as que se referem a coisas de Portugal, como as suas «impressões de Lisboa», transcriptas com tão maliciosa realidade para regalo de Madame de Jouarre.
Inutil seria decerto, n'estas laudas fragmentaes, procurar a summa do alto e livre Pensar de Fradique ou do seu Saber tão fundo e tão certo. A correspondencia de Fradique Mendes, como diz finamente Alceste―
c'est son genie qui mousse
. N'ella, com effeito, vemos apenas a espuma radiante e ephemera que fervia e transbordava, emquanto em baixo jazia o vinho rico e substancial que não foi nunca distribuido nem serviu ás almas sedentas. Mas, assim ligeira e dispersa, ella mostra todavia, em excellente relevo, a imagem d'este homem tão superiormente interessante em todas as suas manifestações de pensamento, de paixão, de sociabilidade e de acção.
Além do meu desejo que os contemporaneos venham a amar este espirito que tanto amei―eu obedeço, publicando as cartas de Fradique Mendes, a um intuito de puro e seguro patriotismo.
Uma nação só vive porque pensa.
Cogitat ergo est.
A Força e a Riqueza não bastam para provar que uma nação vive d'uma vida que mereça ser glorificada na Historia―como rijos musculos n'um corpo e ouro farto n'uma bolsa não bastam para que um homem honre em si a Humanidade. Um reino d'Africa, com guerreiros incontaveis nas suas aringas e incontaveis diamantes nas suas collinas, será sempre uma terra bravia e morta, que, para lucro da Civilisação, os Civilisados pisam e retalham tão desassombradamente como se sangra e se corta a rez bruta para nutrir o animal pensante. E por outro lado se o Egypto ou Tunis formassem resplandecentes centros de Sciencias, de Litteraturas e de Artes, e, através de uma serena legião de homens geniaes, incessantemente educassem o mundo―nenhuma nação, mesmo n'esta idade de ferro e de força, ousaria occupar como um campo maninho e sem dono esses sólos augustos d'onde se elevasse, para tornar as almas melhores, o enxame sublime das Idéas e das Fórmas.
Só na verdade o Pensamento e a sua creação suprema, a Sciencia, a Litteratura, as Artes, dão grandeza aos Povos, attrahem para elles universal reverencia e carinho, e, formando dentro d'elles o thesouro de verdades e de bellezas que o mundo precisa, os tornam perante o mundo sacrosantos. Que differença ha, realmente, entre Paris e Chicago? São duas palpitantes e productivas cidades―onde os palacios, as instituições, os parques, as riquezas, se equivalem soberbamente. Porque fórma pois Paris um fóco crepitante de Civilisação que irresistivelmente fascina a humanidade―e porque tem Chicago apenas sobre a terra o valor de um rude e formidavel celleiro onde se procura a farinha e o grão? Porque Paris, além dos palacios, das instituições e das riquezas de que Chicago tambem justamente se gloría, possue a mais um grupo especial de homens―Renan, Pasteur, Taine, Berthelot, Coppée, Bonnat, Falguieres, Gounod, Massenet―que pela incessante produccão do seu cerebro convertem a banal cidade que habitam n'um centro de soberano ensino. Se as
Origens do Christianismo
, o
Fausto
, as telas de Bonnat, os marmores de Falguieres, nos viessem d'além dos mares, da nova e monumental Chicago―para Chicago, e não para Paris, se voltariam, como as plantas para o sol, os espiritos e os corações da Terra.
Se uma nação, portanto, só tem superioridade porque tem pensamento, todo aquelle que venha revelar na nossa patria um novo homem de original pensar concorre patrioticamente para lhe augmentar a unica grandeza que a tornará respeitada, a unica belleza que a tornará amada;―e é como quem aos seus templos juntasse mais um sacrario ou sobre as suas muralhas erguesse mais um castello.
Michelet escrevia um dia, n'uma carta, alludindo a Anthero de Quental:―«Se em Portugal restam quatro ou cinco homens como o auctor das
Odes Modernas
, Portugal continúa a ser um grande paiz vivo...» O mestre da
Historia de França
com isto significava―que emquanto viver pelo lado da Intelligencia, mesmo que jaza morta pelo lado da Acção, a nossa patria não é inteiramente um cadaver que sem escrupulo se pise e se retalhe. Ora no Pensamento ha manifestações diversas: e se nem todas irradiam o mesmo esplendor, todas provam a mesma vitalidade. Um livro de versos póde sublimemente mostrar que a alma de uma nação vive ainda pelo Genio Poetico: um conjunto de leis salvadoras, emanando de um espirito positivo, póde solidamente comprovar que um povo vive ainda pelo Genio Politico:―mas a revelação de um espirito como o de Fradique assegura que um paiz vive tambem pelos lados menos grandiosos, mas valiosos ainda, da graça, da vivaz invenção, da transcendente ironia, da phantasia, do humorismo e do gosto...
Nos tempos incertos e amargos que vão, Portuguezes d'estes não podem ficar para sempre esquecidos, longe, sob a mudez de um marmore. Por isso eu o revelo aos meus concidadãos―como uma consolação e uma esperança.
AS CARTAS
I
ao visconde de a.-t.
Londres, maio.
Meu caro patricio.
―Só hontem á noite, tarde, ao recolher do campo, encontrei o bilhete com que consideravelmente me honrou, perguntando á minha experiencia―«qual é o melhor alfaiate de Londres». Depende isso inteiramente do fim para que V. necessita esse Artista. Se pretende meramente um homem que lhe cubra a nudez com economia e conforto, então recommendo-lhe aquelle que tiver taboleta mais perto do seu Hotel. São tantos passos que forra―e, como diz o
Ecclesiastes
, cada passo encurta a distancia da sepultura.
Se porém V., caro patricio, deseja um alfaiate que lhe dê consideração e valor no seu mundo; que V. possa citar com orgulho, á porta da Havaneza, rodando lentamente para mostrar o córte ondeado e fino da cinta; que o habilite a mencionar os Lords que lá encontrou, escolhendo d'alto, com ponta da bengala, cheviotes para blusas de caça; e que lhe sirva mais tarde, na velhice, á hora gêba do rheumatismo, como recordação consoladora de elegancias moças―então com ardente instancia lhe aconselho o Cook (o Thomaz Cook) que é da mais extremada moda, absolutamente ruinoso, e falha tudo.
Para subsequentes conselhos de «fornecedores», em Londres ou outros pontos do Universo, permanece sempre ao seu grato serviço―
Fradique Mendes
.
II
a madame de jouarre
(Trad.)[2]
Paris, dezembro.
Minha querida madrinha.
―Hontem, em casa de Madame de Tressan, quando passei, levando para a ceia Libuska, estava sentada, conversando comsigo, por debaixo do atroz retrato da Marechala de Mouy, uma mulher loura, de testa alta e clara, que me seduziu logo, talvez por lhe presentir, apesar de tão indolentemente enterrada n'um divan, uma rara graça no andar, graça altiva e ligeira de Deusa e de ave. Bem differente da nossa sapiente Libuska, que se move com o esplendido peso de uma estatua! E do interesse por esse outro passo, possivelmente alado e
dianico
(de Diana), provém estas garatujas.
Quem era? Supponho que nos chegou do fundo da provincia, d'algum velho castello do Anjou com herva nos fossos, porque me não lembro de ter encontrado em Paris aquelles cabellos fabulosamente louros como o sol de Londres em dezembro―nem aquelles hombros descahidos, dolentes,
angelicos
, imitados de uma madona de Montegna, e inteiramente desusados em França desde o reinado de Carlos X, do
Lyrio no Valle
, e dos corações incomprehendidos. Não admirei com igual fervor o vestido preto, onde reinavam coisas escandalosamente amarellas. Mas os braços eram perfeitos; e nas pestanas, quando as baixava, parecia pender um romance triste. Deu-me assim a impressão, ao começo, de ser uma elegiaca do tempo de Chateaubriand. Nos olhos porém surprehendi-lhe depois uma faisca de vivacidade sensivel―que a datava do seculo XVIII. Dirá a minha madrinha:―«como pude eu abranger tanto, ao passar, com Libuska ao lado fiscalisando?» É que voltei. Voltei, e da hombreira da porta readmirei os hombros dolentes de virgem do seculo XIII; a massa de cabellos que o mólho de velas por traz, entre as orchideas, nimbava d'ouro; e sobretudo o subtil encanto dos olhos―dos olhos finos e languidos... Olhos
finos e languidos
. É a primeira expressão em que hoje apanho decentemente a realidade.
Porque é que não me adiantei, e não pedi uma «apresentação?» Nem sei. Talvez o requinte em
retardar
, que fazia com que La-Fontaine, dirigindo-se mesmo para a felicidade, tomasse sempre o caminho mais longo. Sabe o que dava tanta seducção ao palacio das Fadas, nos tempos do rei Arthur? Não sabe. Resultados de não lêr Tennyson... Pois era a immensidade d'annos que levava a chegar lá, através de jardins encantados, onde cada recanto de bosque offerecia a emoção inesperada d'um
flirt
, d'uma batalha, ou d'um banquete... (Com que morbida propensão acordei hoje para o estylo asiatico!) O facto é que, depois da contemplação junto á hombreira, voltei a cear ao pé da minha radiante tyranna. Mas por entre o banal sandwich de
foie-gras
, e um copo de Tokay em nada parecido com aquelle Tokay que Voltaire, já velho, se recordava de ter bebido em casa de Madame d'Etioles (os vinhos dos Tressans descendem em linha varonil dos venenos da Brinvilliers), vi, constantemente
vi
, os
olhos finos e languidos
. Não ha senão o homem, entre os animaes, para misturar a languidez d'um olhar fino a fatias de
foie-gras
. Não o faria decerto um cão de boa raça. Mas seriamos nós desejados pelo «ephemero feminino» se não fosse esta providencial brutalidade? Só a porção de Materia que ha no homem faz com que as mulheres se resignem á incorrigivel porção d'Ideal que n'elle ha tambem―para eterna perturbação do mundo. O que mais prejudicou Petrarcha aos olhos de Laura―foram os
Sonetos
. E quando Romeu, já com um pé na escada de sêda, se demorava, exhalando o seu extasi em invocações á Noite e á Lua―Julietta batia os dedos impacientes no rebordo do balcão, e pensava: «Ai, que palrador que és, filho dos Montaigus!» Este detalhe não vem em Shakspeare―mas é comprovado por toda a Renascença. Não me amaldiçôe por esta sinceridade de meridional sceptico, e mande-me dizer que nome tem, na sua parochia, a loura castellã do Anjou. A proposito de castellos: cartas de Portugal annunciam-me que o kiosque por mim mandado erguer em Cintra, na minha quintarola, e que lhe destinava como «seu pensadoiro e retiro nas horas de sésta»―abateu. Tres mil e oitocentos francos achatados em entulho. Tudo tende á ruina n'um paiz de ruinas. O architecto que o construiu é deputado, e escreve no
Jornal da Tarde
estudos melancolicos sobre as Finanças! O meu procurador em Cintra aconselha agora, para reedificar o kiosque, um estimavel rapaz, de boa familia, que entende de construcções e que é empregado na Procuradoria Geral da Corôa! Talvez se eu necessitasse um Jurisconsulto me propozessem um trolha. É com estes elementos alegres que nós procuramos restaurar o nosso imperio d'Africa! Servo humilde e devoto―
Fradique
.
III
a oliveira martins
Paris, maio.
Querido amigo.
―Cumpro emfim a promessa feita na sua erudita ermida das Aguas-Ferreas, n'aquella manhã de Março em que conversavamos ao sol sobre o caracter dos Antigos,―e remetto, como documento, a photographia da mumia de Ramèzes II (que o francez banal, continuador do grego banal, teima em chamar Sezostris), recentemente descoberta nos sarcophagos reaes de Medinet-Abou pelo professor Maspero.
Caro Oliveira Martins, não acha V. picarescamente suggestivo este facto―
Ramèzes photographado
?... Mas ahi está justificada a mumificação dos cadaveres, feita pelos bons Egypcios com tanta fadiga e tanta despeza, para que os homens gozassem na sua fórma terrena, segundo diz o Escriba, «as vantagens da Eternidade!» Ramèzes, como elle acreditava e lhe affirmavam os metaphysicos de Thebas, resurge effectivamente «com todos os seus ossos e a pelle que era sua» n'este anno da Graça de 1886. Ora 1886, para um Pharaoh da decima-nona dynastia, mil e quatrocentos annos anterior a Christo, representa muito decentemente a
Eternidade
e a
Vida-Futura
. E eis-nos agora podendo contemplar as «proprias feições» do maior dos Ramezidas, tão realmente como Hokem seu Eunuco-Mór, ou Pentaour seu Chronista-Mór, ou aquelles que outr'ora em dias de triumphos corriam a juncar-lhe o caminho de flôres, trazendo «os seus chinós de festa e a cutis envernizada com oleos de Segabai». Ahi o tem V. agora diante de si, em photographia, com as palpebras baixas e sorrindo. E que me diz a essa face real? Que humilhantes reflexões não provoca ella sobre a irremediavel degeneração do homem! Onde ha ahi hoje um, entre os que governam povos, que tenha essa soberana fronte de calmo e incommensuravel orgulho; esse superior sorriso de omnipotente benevolencia, d'uma ineffavel benevolencia que cobre o mundo; esse ar de imperturbada e indomavel força; todo esse esplendor viril que a treva de um hypogeo, durante tres mil annos, não conseguiu apagar? Eis-ahi verdadeiramente um
Dono de homens
! Compare esse semblante augusto com o perfil sôrno, obliquo e bigodoso d'um Napoleão III; com o focinho de
bull-dog
acorrentado d'um Bismarck; ou com o carão do Czar russo, um carão parado e affavel que podia ser o do seu Copeiro-Mór. Que chateza, que fealdade tacanha d'estes rostos de poderosos!
D'onde provém isto? De que a alma modela a face como o sopro do antigo oleiro modelava o vaso fino:―e hoje, nas nossas civilisações, não ha logar para que uma alma se affirme e se produza na absoluta expansão da sua força. Outr'ora um simples homem, um feixe de musculos sobre um feixe d'ossos, podia erguer-se e operar como um elemento da Natureza. Bastava ter o illimitado querer―para d'elle tirar o illimitado poder. Eis-ahi em Ramèzes um sêr que tudo quer e tudo póde, e a quem Phtah, o Deus sagaz, diz com espanto: «a tua vontade dá a vida e a tua vontade dá a morte!» Elle impelle a seu bel-prazer as raças para norte, para sul ou para leste; elle altera e arraza, como muros n'um campo, as fronteiras dos reinos; as cidades novas surgem das suas pegadas; para elle nascem todos os fructos da terra, e para elle se volta toda a esperança dos homens; o logar para onde volve os seus olhos é bemdito e prospéra, e o logar que não recebe essa luz benefica jaz como «o torrão que o Nilo não beijou»; os deuses dependem d'elle, e Amnon estremece inquieto quando, diante dos pylones do seu templo, Ramèzes faz estalar as tres cordas entrançadas do seu latego de guerra! Eis um
homem
―e que seguramente póde affirmar no seu canto triumphal:―«Tudo vergou sob a minha força: eu vou e venho com as passadas largas d'um leão; o rei dos deuses está á minha direita e tambem á minha esquerda; quando eu fallo o céo escuta; as coisas da terra estendem-se a meus pés, para eu as colher com mão livre; e para sempre estou erguido sobre o throno do mundo!»
«O mundo», está claro, era aquella região, pela maior parte arenosa, que vai da cordilheira Libyca á Mesopotamia: e nunca houve mais petulante emphase do que nas Panegyrias dos Escribas. Mas o homem é, ou suppõe ser, inigualavelmente grande. E esta consciencia da grandeza, do incircumscripto poder vem necessariamente resplandecer na physionomia e dar essa altiva magestade, repassada de risonha serenidade, que Ramèzes conserva mesmo além da vida, resequido, mumificado, recheado de betume da Judêa.
Veja V. por outro lado as condições que cercam hoje um poderoso do typo Bismarck. Um desgraçado d'esses não está acima de nada e depende de tudo. Cada impulso da sua vontade esbarra com a resistencia d'um obstaculo. A sua acção no mundo é um perpetuo bater de craneo contra espessuras de portas bem defendidas. Toda a sorte de convenções, de tradições, de direitos, de preceitos, de interesses, de principios, se lhe levanta a cada instante diante dos passos como marcos sagrados. Um artigo de jornal fal-o estacar, hesitante. A rabulice d'um legista obriga-o a encolher precipitadamente a garra que já ia estendendo. Dez burguezes nedios e dez professores guedelhudos, votando dentro d'uma sala, estatelam por terra o alto andaime dos seus planos. Alguns florins dentro d'um sacco tornam-se o tormento das suas noites. É-lhe tão impossivel dispôr d'um cidadão como d'um astro. Nunca póde avançar d'uma arrancada, erecto e seguro: tem de ser ondeante e rastejante. A vigilancia ambiente impõe-lhe a necessidade vil de fallar baixo e aos cantos. Em vez de «recolher as coisas da terra, com mão livre»―surripia-as ás migalhas, depois de escuras intrigas. As irresistiveis correntes de idéas, de sentimentos, de interesses, trabalham por baixo d'elle, em torno d'elle: e parecendo dirigil-as, pelo muito que braceja e ronca d'alto, é na realidade por ellas arrastado. Assim um omnipotente do typo Bismarck vai por vezes em apparencia no cimo das grandes coisas;―mas como a boia solta vai no cimo da torrente.
Miseravel omnipotencia! E o sentimento d'esta miseria não póde deixar de influenciar a physionomia dos nossos poderosos dando-lhe esse feitio contrafeito, crispado, torturado, azedado e sobretudo
amolgado
que se nota na cara de Napoleão, do czar, de Bismarck, de todos os que reunem a maior somma de poder contemporaneo―o feitio
amolgado
d'uma coisa que rola aos encontrões, batendo contra muralhas.
Em conclusão:―a mumia de Ramèzes II (unica face authentica do homem antigo que conhecemos) prova que, tendo-se tornado impossivel uma vida humana vivida na sua maxima liberdade e na sua maxima força, sem outros limites que os do proprio querer―resultou perder-se para sempre, no typo physico do homem, a summa e perfeita expressão da grandeza. Já não ha uma face sublime: ha carantonhas mesquinhas onde a bilis cava rugas por entre os recortes do pêllo. As unicas physionomias nobres são as das feras, genuinos Ramèzes no seu deserto, que nada perderam da sua força, nem da sua liberdade. O homem moderno, esse, mesmo nas alturas sociaes, é um pobre Adão achatado entre as duas paginas d'um codigo.
Se V. acha todo isto excessivo e phantasista, attribua-o a que jantei hontem, e conversei inevitavelmente, com o seu correligionario P., conselheiro d'estado,
e muchas cosas más
.
Más
em hespanhol; e
más
também em portuguez no sentido de pessimas. Esta carta é a reacção violenta da conversa conselheiral e conselheirifera. Ah, meu amigo, desditoso amigo, que faz V. depois de receber o fluxo labial d'um conselheiro? Eu tomo um banho por dentro―um banho lustral, immenso banho de phantasia, onde despejo como perfume idoneo um frasco de Shelley ou de Masset. Amigo certo
et nunc et semper
―
Fradique Mendes
.
IV
a madame s.
Paris, fevereiro.
Minha cara amiga.
―O hespanhol chama-se D. Ramon Covarubia, mora na Passage Saulnier, 12, e como é aragonez, e portanto sobrio, creio que com dez francos por lição se contentará amplamente. Mas se seu filho já sabe o castelhano necessario para entender os
Romanceros
, o
D. Quichote
, alguns dos «Piccarescos», vinte paginas de Quevedo, duas comedias de Lope de Vega, um ou outro romance de Galdós, que é tudo quanto basta lêr na litteratura de Hespanha,―para que deseja a minha sensata amiga que elle pronuncie esse castelhano que sabe com o accento, o sabor, e o sal d'um madrileno nascido nas veras pedras da Calle-Mayor? Vai assim o dôce Raul desperdiçar o tempo que a Sociedade lhe marcou para adquirir idéas e noções (e a Sociedade a um rapaz da sua fortuna, do seu nome e da sua belleza, apenas concede, para esse abastecimento intellectual, sete annos, dos onze aos dezoito)―em quê? No luxo de apurar até a um requinte superfino, e superfluo, o mero instrumento de adquirir noções e idéas. Porque as linguas, minha boa amiga, são apenas instrumentos do saber―como instrumentos de lavoura. Consumir energia e vida na aprendizagem de as pronunciar tão genuina e puramente que pareça que se nasceu dentro de cada uma d'ellas, e que por meio de cada uma se pediu o primeiro pão e agua da vida―é fazer como o lavrador, que em vez de se contentar, para cavar a terra, com um ferro simples encabado n'um pau simples, se applicasse, durante os mezes em que a horta tem de ser trabalhada, a embutir emblemas no ferro e esculpir flôres e folhagens ao comprido do pau. Com um hortelão assim, tão miudamente occupado em alindar e requintar a enxada, como estariam agora, minha senhora, os seus pomares Touraine?
Um homem só deve fallar, com impeccavel segurança e pureza, a lingua da sua terra:―todas as outras as deve fallar mal, orgulhosamente mal, com aquelle accento chato e falso que denuncía logo o estrangeiro. Na lingua verdadeiramente reside a nacionalidade;―e quem fôr possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa vai gradualmente soffrendo uma desnacionalisação. Não ha já para elle o especial e exclusivo encanto da
falla materna
com as suas influencias affectivas, que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do Verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do caracter. Por isso o polyglota nunca é patriota. Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se-lhe no organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu patriotismo desapparece, diluido em estrangeirismo.
Rue de Rivoli
,
Calle d'Alcalá
,
Regent Street
,
Wilhem Strasse
―que lhe importa? Todas são ruas, de pedra ou de macadam. Em todas a falla ambiente lhe offerece um elemento natural e congenere onde o seu espirito se move livremente, espontaneamente, sem hesitações, sem attritos. E como pelo Verbo, que é o instrumento essencial da fusão humana, se póde fundir com todas―em todas sente e aceita uma Patria.
Por outro lado, o esforço contínuo de um homem para se exprimir, com genuina e exacta propriedade de construcção e de accento, em idiomas estranhos―isto é, o esforço para se confundir com gentes estranhas no que ellas têm de essencialmente caracteristico, o Verbo―apaga n'elle toda a individualidade nativa. Ao fim de annos esse habilidoso, que chegou a fallar absolutamente bem outras linguas além da sua, perdeu toda a originalidade de espirito―porque as suas idéas forçosamente devem ter a natureza incaracteristica e neutra que lhes permitta serem indifferentemente adaptadas ás linguas mais oppostas em caracter e genio. Devem, de facto, ser como aquelles «corpos de pobre» de que tão tristemente falla o povo―«que cabem bem na roupa de toda a gente».
Além d'isso, o proposito de pronunciar com perfeição linguas estrangeiras constitue uma lamentavel sabujice para com o estrangeiro. Ha ahi, diante d'elle, como o desejo servil de
não sermos nós mesmos
, de nos fundirmos n'elle, no que elle tem de mais seu, de mais proprio, o Vocabulo. Ora isto é uma abdicação de dignidade nacional. Não, minha senhora! Fallemos nobremente mal, patrioticamente mal, as linguas dos outros! Mesmo porque aos estrangeiros o polyglota só inspira desconfiança, como sêr que não tem raizes, nem lar estavel―sêr que rola através das nacionalidades alheias, successivamente se disfarça n'ellas, e tenta uma installação de vida em todas porque não é tolerado por nenhuma. Com effeito, se a minha amiga percorrer a Gazeta dos Tribunaes verá que o perfeito polyglotismo é um instrumento da alta
escroquerie
.
E aqui está como, levado pelo dilettantismo das idéas, em vez d'um endereço eu lhe forneço um tratado!... Que a minha garrulice ao menos a faça sorrir, pensar, e poupar ao nosso Raul o trabalho medonho de pronunciar
Viva la Gracia!
e
Benditos sean tus ojos!
exactissimamente como se vivesse a uma esquina da
Puerta del Sol
, com uma capa de bandas de velludo, chupando o cigarro de Lazarillo. Isto todavia não impede que se utilisem os serviços de D. Ramon. Elle, além de Zorrillista, é guitarrista; e póde substituir as lições na lingua de Quevedo por lições na guitarra de Almaviva. O seu lindo Raul ganhará ainda assim uma nova faculdade de exprimir―a faculdade de exprimir emoções por meio de cordas de arame. E este dom é excellente! Convem mais na mocidade, e mesmo na velhice, saber, por meio das quatro cordas d'uma viola, desafogar a alma das coisas confusas e sem nome que n'ella tumultuam, do que poder, através das estalagens do mundo, reclamar com perfeição o pão e o queijo―em sueco, hollandez, grego, bulgaro e polaco.
E será realmente indispensavel mesmo para prover, através do mundo, estas necessidades vitaes d'estomago e alma―o trilhar, durante annos, pela mão dura dos mestres, «os descampados e atoleiros das grammaticas e pronuncias», como dizia o velho Milton? Eu tive uma admiravel tia que fallava unicamente o portuguez (ou antes o minhoto) e que percorreu toda a Europa com desafôgo e conforto. Esta senhora, risonha mas dyspeptica, comia simplesmente ovos―que só conhecia e só comprehendia sob o seu nome nacional vernaculo de
ovos
. Para ella
huevos
,
oeufs
,
eggs
,
das ei
, eram sons da Natureza bruta, pouco differençaveis do coaxar das rãs, ou d'um estalar de madeira. Pois quando em Londres, em Berlim, em Paris, em Moscow, desejava os seus ovos―esta expedita senhora reclamava o famulo do Hotel, cravava n'elle os olhos agudos e bem explicados, agachava-se gravemente sobre o tapete, imitava com o rebolar lento das saias tufadas uma gallinha no chôco, e gritava
ki-ki-ri-ki!
kó-kó-ri-ki!
kó-ró-kó-kó!
Nunca, em cidade ou região intelligente do Universo, minha tia deixou de comer os seus ovos―e superiormente frescos!
Beijo as suas mãos, benevola amiga―
Fradique
.
V
a guerra junqueiro
Paris, maio.
Meu caro amigo.
―A sua carta transborda de illusão poetica. Suppôr, como V. candidamente suppõe, que trespassando com versos (ainda mesmo seus, e mais rutilantes que as flechas de Apollo) a Igreja, o Padre, a Liturgia, as Sacristias, o jejum da sexta-feira e os ossos dos Martyres, se póde «desentulhar Deus da alluvião sacerdotal», e elevar o Povo (no Povo V. decerto inclue os conselheiros de Estado) a uma comprehensão toda pura e abstracta da Religião―a uma religião que consista apenas n'uma Moral apoiada n'uma Fé―é ter da Religião, da sua essencia e do seu objecto, uma sonhadora idéa de sonhador teimoso em sonhos!
Meu bom amigo, uma Religião a que se elimine o Ritual desapparece―porque as Religiões para os homens (com excepção dos raros Metaphysicos, Moralistas e Mysticos) não passa d'um conjunto de Ritos através dos quaes cada povo procura estabelecer uma communicação intima com o seu Deus e obter d'elle favores. Este, só este, tem sido o fim de todos os cultos, desde o mais primitivo, do culto de Indra, até ao culto recente do coração de Maria, que tanto o escandalisa na sua parochia―oh incorrigivel beato do idealismo!
Se V. o quer verificar historicamente, deixe Vianna do Castello, tome um bordão, e suba commigo por essa antiguidade fóra até um sitio bem cultivado e bem regado que fica entre o rio Indo, as escarpas do Hymalaia, e as arêas d'um grande deserto. Estamos aqui em Septa-Sindhou, no paiz das Sete-Aguas, no Valle Feliz, na terra dos Aryas. No primeiro povoado em que pararmos V. vê, sobre um outeiro, um altar de pedra coberto de musgo fresco: em cima brilha pallidamente um fogo lento: e em torno perpassam homens, vestidos de linho, com os longos cabellos presos por um aro d'ouro fino. São padres, meu amigo! São os primeiros capellães da humanidade,―e cada um d'elles está, por esta quente alvorada de maio, celebrando um rito da missa Aryana. Um limpa e desbasta a lenha que ha de nutrir o lume sagrado; outro pisa dentro d'um almofariz, com pancadas que devem resoar «como tambor de victoria», as hervas aromaticas que dão o
Sômma
; este, como um semeador, espalha grãos de aveia em volta da Ara; aquelle, ao lado, espalmando as mãos ao céo, entoa um cantico austero. Estes homens, meu amigo, estão executando um Rito que encerra em si toda a Religião dos Aryas, e que tem por objecto propiciar Indra―Indra, o sol, o fogo, a potencia divina que póde encher de ruina e dôr o coração do Arya, sorvendo a agua das regas, queimando os pastos, desprendendo a pestilencia das lagôas, tornando Septa-Sindhou mais esteril que o «coração do mau»; ou póde, derretendo as neves do Hymalaia, e soltando com um golpe de fogo «a chuva que jaz no ventre das nuvens», restituir a agua aos rios, a verdura aos prados, a salubridade ás lagôas, a alegria e abundancia á morada do Arya. Trata-se pois simplesmente de convencer Indra a que, sempre propicio, derrame sobre Septa-Sindhou todos os favores que póde appetecer um povo rural e pastoral.
Não ha aqui Metaphysica, nem Ethica―nem explicações sobre a natureza dos deuses, nem regras para a conducta dos homens. Ha meramente uma Liturgia, uma totalidade de Ritos, que o Arya necessita observar para que Indra o attenda―uma vez que, pela experiencia de gerações, se comprovou que Indra só o escutará, só concederá os beneficios rogados, quando em torno ao seu altar certos velhos, de certa casta, vestidos de linho candido, lhe erguerem canticos dôces, lhe offertarem libações, lhe amontoarem dons de fructa, mel e carne d'anho. Sem dons, sem libações, sem canticos, sem anho, Indra, amuado e sumido no fundo do Invisivel e do Intangivel, não descerá á terra a derramar-se na sua bondade. E se vier de Vianna do Castello um Poeta tirar ao Arya o seu altar de musgo, o seu pau sacrosanto, o almofariz, o crivo e o vaso do
Sômma
, o Arya ficará sem meios de propiciar o seu Deus, desattendido do seu Deus―e será na terra como a creancinha que ninguem nutre e a que ninguem ampara os passos.
Esta Religião primordial é o typo absoluto e inalteravel das Religiões, que todas por instincto repetem―e em que todas (apesar dos elementos estranhos de Theologia, de Metaphysica, de Ethica que lhe introduzem os espiritos superiores) terminam por se resumir, com reverencia. Em todos os climas, em todas as raças, ou divinisando as forças da Natureza, ou divinisando a Alma dos mortos, as Religiões, amigo meu, consistiram sempre praticamente n'um conjunto de praticas, pelas quaes o homem simples procura alcançar da amizade de Deus os bens supremos da saude, da forca, da paz, da riqueza. E mesmo quando, já mais crente no esforço proprio, pede esses bens á hygiene, á ordem, á lei e ao trabalho, ainda persiste nos ritos propiciadores para que Deus
ajude
o seu esforço.
O que V. observou em Septa-Sindhou poderá verificar igualmente, parando (antes de recolhermos a Vianna, a beber esse vinho verde de Monção, que V. dithyrambisa) na Antiguidade classica, em Athenas ou Roma, onde quizer, no momento de maior esplendor e cultura das civilisações greco-latinas. Se V. ahi perguntar a um antigo, seja um oleiro de Suburra, seja o proprio
Flamen Dialis
, qual é o corpo de doutrinas e de conceitos moraes que compõe a Religião,―elle sorrirá, sem o comprehender. E responderá que a Religião consiste em
paces deorum quaerere
, em apaziguar os Deuses, em segurar a benevolencia dos Deuses. Na idéa do antigo isso significa cumprir os ritos, as praticas, as formulas, que uma longa tradição demonstrou serem as unicas que conseguem fixar a attencão dos Deuses e exercer sobre elles persuasão ou seducção. E n'esse ceremonial era indispensavel não alterar nem o valor d'uma syllaba na Prece, nem o valor d'um gesto no sacrificio, porque d'outro modo o Deus, não reconhecendo o Sacrificio da sua dilecção e a Prece do seu agrado, permanecia desattento e alheio; e a Religião falseava o seu fim supremo―influenciar o Deus. Peor ainda! Passava a ser a irreligião: e o Deus, vendo n'essa omissão de liturgia uma falta de reverencia, despedia logo das Alturas os dardos da sua colera. A obliquidade das pregas na tunica do Sacrificador, um passo lançado á direita ou movido á esquerda, o cahir lento das gottas da libação, o tamanho das achas do lume votivo, todos esses detalhes estavam prescriptos immutavelmente pelos Rituaes, e a sua exclusão ou a sua alteração constituiam impiedades. Constituiam verdadeiros crimes contra a patria―porque attrahiam sobre ella a indignação dos deuses. Quantas Legiões vencidas, quantas cidadellas derrubadas, porque o Pontifice deixára perder um grão de cinza da ara―ou porque Auruspice não arrancou lã bastante da cabeça do anho! Por isso Athenas castigava o Sacerdote que alterasse o ceremonial; e o senado depunha os Consules que commettiam um erro no sacrificio―fosse elle tão ligeiro como reter a ponta da toga sobre a cabeça, quando ella devia escorregar sobre o hombro. De sorte que V., em Roma, lançando ironias d'ouro á Divindade, era talvez um grande e admirado Poeta Comico: mas satyrisando, como na