FRADIQUE MENDES (continued 4)
Reading edition
Não penses que estou compondo canticos em teu louvor. É em plena simplicidade que deixo escapar o que me está borbulhando na alma... Ao contrario! Toda a Poesia de todas as idades, na sua gracilidade ou na sua magestade, seria impotente para exprimir o meu extase. Balbucio, como posso, a minha infinita oração. E n'esta desoladora insufficiencia do Verbo humano é como o mais inculto e o mais illetrado que ajoelho ante ti, e levanto as mãos, e te asseguro a unica verdade, melhor que todas as verdades―que te amo, e te amo, e te amo, e te amo!...
Fradique
.
XIV
a madame de jouarre
(Trad.)
Lisboa, junho.
Minha querida madrinha.
―N'aquella casa de hospedes da travessa da Palha, onde vive, atrellado á lavra angustiosa da Verdade, meu primo o Metaphysico, conheci, logo depois de voltar de Refaldes, um padre, o padre Salgueiro, que talvez a minha madrinha, com essa sua maliciosa paciencia de colleccionar Typos, ache interessante e psychologicamente divertido.
O meu distrahido e pallido Metaphysico affirma, encolhendo os hombros, que padre Salgueiro não se destaca por nenhuma saliencia de Corpo ou Alma entre os vagos padres da sua Diocese;―e que resume mesmo, com uma fidelidade de indice, o pensar, e o sentir, e o viver, e o parecer da classe ecclesiastica em Portugal. Com effeito, por fóra, na casca, padre Salgueiro é o costumado e corrente padre portuguez, gerado na gleba, desbravado e afinado depois pelo Seminario, pela frequentação das auctoridades e das Secretarias, por ligações de confissão e missa com fidalgas que têm capella, e sobretudo por longas residencias em Lisboa, n'estas casas de hospedes da Baixa, infestadas de litteratura e politica. O peito bem arcado, de folego fundo, como um folle de forja; as mãos ainda escuras, asperas, apesar do longo contacto com a alvura e doçura das hostias; o carão côr de couro curtido, com um sobre-tom azul nos queixos escanhoados; a corôa livida entre o cabello mais negro e grosso que pellos de clina; os dentes escaroladamente brancos―tudo n'elle pertence a essa forte plebe agricola de onde sahiu, e que ainda hoje em Portugal fornece á Egreja todo o seu pessoal, pelo desejo de se alliar e de se apoiar á unica grande instituição humana que realmente comprehende e de que não desconfia. Por dentro, porém, como miolo, padre Salgueiro apresenta toda uma estructura moral deliciosamente pittoresca e nova para quem, como eu, do Clero Lusitano só entrevira exterioridades, uma batina desapparecendo pela porta d'uma sacristia, um velho lenço de rapé posto na borda d'um confessionario, uma sobrepeliz alvejando n'uma tipoia atraz d'um morto...
O que em padre Salgueiro me encantou logo, na noite em que tanto palestramos, rondando pachorrentamente o Rocio, foi a sua maneira de conceber o Sacerdocio. Para elle o Sacerdocio (que de resto ama e acata como um dos mais uteis fundamentos da sociedade) não constitue de modo algum uma funcção espiritual―mas unicamente e terminantemente uma funcção civil. Nunca, desde que foi collado á sua parochia, padre Salgueiro se considerou senão como um funccionario do Estado, um Empregado Publico, que usa um uniforme, a batina (como os guardas da alfandega usam a fardeta), e que, em logar de entrar todas as manhãs n'uma repartição do Terreiro do Paço para escrevinhar ou archivar officios, vai mesmo nos dias santificados, a uma outra repartição, onde, em vez da carteira se ergue um altar, celebrar missas e administrar sacramentos. As suas relações portanto não são, nunca foram, com o céo (do céo só lhe importa saber se está chuvoso ou claro)―mas com a Secretaria da Justiça e dos Negocios Ecclesiasticos. Foi ella que o collocou na sua Parochia, não para continuar a obra do Senhor guiando docemente os homens pela estrada limpa da Salvação (missões de que não curam as secretarias do Estado), mas, como funccionario, para executar certos actos publicos que a lei determina a bem da ordem social―baptisar, confessar, casar, enterrar os parochianos.
Os sacramentos são, pois, para este excellente padre Salgueiro, meras ceremonias civis, indispensaveis para a regularisação do estado civil,―e nunca, desde que os administra, pensou na sua natureza divina, na Graça que communicam ás almas, e na força com que ligam a vida transitoria a um principio Immanente. Decerto, outr'ora no seminario, padre Salgueiro decorou em compendios ensebados a sua Theologia Dogmatica, a sua Theologia Pastoral, a sua Moral, o seu S. Thomaz, o seu Liguori―mas meramente para cumprir as disciplinas officiaes do curso, ser ordenado pelo seu bispo, depois provido n'uma parochia pelo seu ministro, como todos os outros bachareis que em Coimbra decoram as
Sebentas
de Direito natural e de Direito romano para «fazerem o curso», receber na cabeça a borla de doutor, e depois o aconchego de um emprego facil. Só o grau vale e importa, porque justifica o despacho. A sciencia é a formalidade penosa que lá conduz―verdadeira provação, que, depois de atravessada, não deixa ao espirito desejos de regressar á sua disciplina, á sua aridez, á sua canceira. Padre Salgueiro, hoje, já esqueceu regaladamente a significação theologica e espiritual do casamento:―mas casa, e casa com pericia, com bom rigor liturgico, com boa fiscalisação civil, esmiuçando escrupulosamente as certidões, pondo na benção toda a uncção prescripta, perfeito em unir as mãos com a estola, cabal na ejaculação dos latins, porque é subsidiado pelo Estado para casar bem os cidadãos, e, funccionario zeloso, não quer cumprir com defeitos funcções que lhe são pagas sem atrazo.
A sua ignorancia é deliciosa. Além de raros actos da vida activa de Jesus, a fuga para o Egypto no burrinho, os pães multiplicados nas bodas de Caná, o azorrague cahindo sobre os vendilhões do Templo, certas expulsões de Demonios, nada sabe do Evangelho―que considera todavia
muito bonito
. Á doutrina de Jesus é tão alheio como á philosophia de Hegel. Da Biblia tambem só conhece episodios soltos, que aprendeu certamente em oleographias―a Arca de Noé, Samsão arrancando as portas de Gaza, Judith degollando Holophernes. O que tambem me diverte, nas noites amigas em que conversamos na travessa da Palha, é o seu desconhecimento absolutamente candido das origens, da historia da Egreja. Padre Salgueiro imagina que o Christianismo se fundou de repente, n'um dia (decerto um domingo), por milagre flagrante de Jesus Christo:―e desde essa festiva hora tudo para elle se esbate n'uma treva incerta, onde vagamente reluzem nimbos de santos e tiáras de papas, até Pio IX. Não admira, porém, na obra pontifical de Pio IX, nem a Infallibilidade, nem o Syllabus:―porque se préza de liberal, deseja mais progresso, bemdiz os beneficios da instrucção, assigna o
Primeiro de Janeiro
.
Onde eu tambem o acho superiormente pittoresco, é cavaqueando ácerca dos deveres que lhe incumbem como pastor de almas―os deveres para com as almas. Que elle, por continuação de uma obra divina, esteja obrigado a consolar dôres, pacificar inimizades, dirigir arrependimentos, ensinar a cultura da bondade, adoçar a dureza dos egoismos, é para o benemerito padre Salgueiro a mais estranha e incoherente das novidades! Não que desconheça a belleza moral d'essa missão, que considera mesmo
cheia de poesia
. Mas não admitte que, formosa e honrosa como é, lhe pertença a elle padre Salgueiro! Outro tanto seria exigir de um verificador da alfandega que moralisasse e purificasse o commercio. Esse santo emprehendimento pertence aos Santos. E os Santos, na opinião de padre Salgueiro, formam uma Casta, uma Aristocracia espiritual, com obrigações sobrenaturaes que lhes são delegadas e pagas pelo Céo. Muito differentes se apresentam as obrigações de um parocho! Funccionario ecclesiastico, elle só tem a cumprir funcções rituaes em nome da Egreja, e portanto do Estado que a subsidia. Ha ahi uma criança para baptisar? Padre Salgueiro toma a estola e baptisa. Ha ahi um cadaver para enterrar? Padre Salgueiro toma o hyssope e enterra. No fim do mez recebe os seus dez mil reis (além da esmola)―e o seu bispo reconhece o seu zelo.
A idéa que padre Salgueiro tem da sua missão determina, com louvavel logica, a sua conducta. Levanta-se ás dez horas, hora classicamente adoptada pelos empregados do Estado. Nunca abre o breviario―a não ser em presença dos seus superiores ecclesiasticos, e então por deferencia gerarchica, como um tenente, que, em face ao seu general, se perfila, pousa a mão na espada. Emquanto a orações, meditações, mortificações, exames d'alma, todos esses pacientes methodos de aperfeiçoamento e santificação propria, nem sequer suspeita que lhe sejam necessarios ou favoraveis. Para que? Padre Salgueiro constantemente tem presente que, sendo um funccionario, deve manter, sem transigencias, nem omissões, o decoro que tornará as suas funcções respeitadas do mundo. Veste, por isso, sempre de preto. Não fuma. Todos os dias de jejum come um peixe austero. Nunca transpoz as portas impuras de um botequim. Durante o inverno só uma noite vai a um theatro, a S. Carlos, quando se canta o
Polliuto
, uma opera sacra, de purissima lição. Deceparia a lingua, com furor, se d'ella lhe pingasse uma falsidade. E é casto. Não condemna e repelle a mulher com colera, como os Santos Padres:―até a venéra, se ella é economica e virtuosa. Mas o regulamento da Egreja prohibe a mulher: elle é um funccionario ecclesiastico, e a mulher portanto não entra nas suas funcções. É rigidamente casto. Não conheço maior respeitabilidade do que a de padre Salgueiro.
As suas occupações, segundo observei, consistem muito logicamente, como empregado (além das horas dadas aos deveres liturgicos), em procurar melhoria de emprego. Pertence por isso a um partido politico:―e em Lisboa, tres noites por semana, toma chá em casa do seu chefe, levando rebuçados ás senhoras. Maneja habilmente eleições. Faz serviços e recados, complexos e indescriptos, a todos os directores geraes da Secretaria dos Negocios Ecclesiasticos. Com o seu bispo é incansavel:―e ainda ha mezes o encontrei, suado e afflicto, por causa de duas incumbencias de. S. exc.
a
uma relativa a queijadas de Cintra, outra a uma collecção do
Diario do Governo
.
Não fallei da sua intelligencia. É pratica e methodica―como verifiquei, assistindo a um sermão que elle prégou pela festa de S. Venancio. Por esse sermão, encommendado, recebia padre Salgueiro 20$000 reis―e deu, por esse preço, um sermão succulento, documentado, encerrando tudo o que convinha á glorificação de S. Venancio. Estabeleceu a filiação do Santo; desenrolou todos os seus milagres (que são poucos) com exactidão, exarando as datas, citando as auctoridades; narrou com rigor agiologico o seu martyrio; enumerou as egrejas que lhe são consagradas, com as épocas da fundação. Enxertou destramente louvores ao Ministro dos Negocios Ecclesiasticos. Não esqueceu a Familia Real, a quem rendeu preito constitucional. Foi, em summa, um excellente relatorio sobre S. Venancio.
Felicitei n'essa noite, com fervor, o reverendo padre Salgueiro. Elle murmurou, modesto e simples:
―S. Venancio infelizmente não se presta. Não foi bispo, nunca exerceu cargo publico!... Em todo o caso, creio que cumpri.
Ouço que vai ser nomeado conego. Larguissimamente o merece. Jesus não possue melhor amanuense. E nunca realmente comprehendi por que razão outro amigo meu, um frade do Varatojo, que, pelo extasi da sua fé, a profusão da sua caridade, o seu devorador cuidado na pacificação das almas, me faz lembrar os velhos homens evangelicos, chama sempre a este sacerdote tão zeloso, tão pontual, tão proficiente, tão respeitavel―«o horrendo padre Salgueiro!»
Ora veja, minha madrinha! Mais de trinta ou quarenta mil annos são necessarios para que uma montanha se desfaça e se abata até ao tamanhinho d'um outeiro que um cabrito galga brincando. E menos de dois mil annos bastaram para que o Christianismo baixasse dos grandes padres das Sete Egrejas da Asia até ao divertido padre Salgueiro, que não é de sete Egrejas, nem mesmo d'uma, mas sómente, e muito devotamente, da Secretaria dos Negocios Ecclesiasticos. Este baque provaria a fragilidade do Divino―se não fosse que realmente o Divino abrange as religiões e as montanhas, a Asia, o padre Salgueiro, os cabritinhos folgando, tudo o que se desfaz e tudo o que se refaz, e até este seu afilhado, que é todavia humanissimo.―
Fradique
.
XV
a bento de s.
Paris, outubro.
Meu caro Bento.
―A tua idéa de fundar um jornal é damninha e execravel. Lançando, e em formato rico, com telegrammas e chronicas, uma outra «d'essas folhas impressas que apparecem todas as manhãs», como diz tão assustada e pudicamente o Arcebispo de Paris, tu vaes concorrer para que no teu tempo e na tua terra se aligeirem mais os Juizos ligeiros, se exacerbe mais a Vaidade, e se endureça mais a Intolerancia. Juizos ligeiros, Vaidade, Intolerancia―eis tres negros peccados sociaes que, moralmente, matam uma Sociedade! E tu alegremente te preparas para os atiçar. Inconsciente como uma peste, espalhas sobre as almas a morte. Já decerto o Diabo está atirando mais braza para debaixo da caldeira de pez, em que, depois do Julgamento, recozerás e ganirás, meu Bento e meu reprobo!
Não penses que, moralista amargo, exagero, como qualquer S. João Chrysostomo. Considera antes como foi incontestavelmente a Imprensa, que, com a sua maneira superficial, leviana e atabalhoada de todo affirmar, de tudo julgar, mais enraigou no nosso tempo o funesto habito dos juizos ligeiros. Em todos os seculos decerto se improvisaram estouvadamente opiniões: o grego era inconsiderado e garrulo; já Moysés, no longo Deserto, soffria com o murmurar variavel dos Hebreus; mas nunca, como no nosso seculo apressado, essa improvisação impudente se tornou a operação natural do entendimento. Com excepção de alguns philosophos escravisados pelo Methodo, e d'alguns devotos roidos pelo Escrupulo, todos nós hoje nos deshabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente, do penoso trabalho de verificar. É com impressões fluidas que formamos as nossas massiças conclusões. Para julgar em Politica o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, n'uma manhã de vento. Para apreciar em Litteratura o livro mais profundo, atulhado de idéas novas, que o amor de extensos annos fortemente encadeou―apenas nos basta folhear aqui e além uma pagina, através do fumo escurecedor do charuto. Principalmente para condemnar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana facilidade declaramos―«Este é uma besta! Aquelle é um maroto!» Para proclamar―«É um genio!» ou «É um santo!» offerecemos uma resistencia mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa digestão ou a macia luz d'um céo de maio nos inclinam á benevolencia, tambem concedemos bizarramente, e só com lançar um olhar distrahido sobre o eleito, a corôa ou a aureola, e ahi empurramos para a popularidade um maganão enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim passamos o nosso bemdito dia a estampar rotulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não ha acção individual ou collectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos promptos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda. E a opinião tem sempre, e apenas, por base aquelle pequenino lado do facto, do homem, da obra, que perpassou n'um relance ante os nossos olhos escorregadios e fortuitos. Por um gesto julgamos um caracter: por um caracter avaliamos um povo. Um inglez, com quem outr'ora jornadeei pela Asia, varão douto, collaborador de
Revistas
, socio de Academias, considerava os francezes todos, desde os senadores até aos varredores, como «porcos e ladrões»... Porquê, meu Bento? Porque em casa de seu sogro houvera um escudeiro, vagamente oriundo de Dijon, que não mudava de collarinho e surripiava os charutos. Este inglez illustra magistralmente a formação escandalosa das nossas generalisações.
E quem nos tem enraizado estes habitos de desoladora leviandade? O jornal―o jornal, que offerece cada manhã, desde a chronica até aos annuncios, uma massa espumante de juizos ligeiros, improvisados na vespera, á meia noite, entre o silvar do gaz e o fervilhar das chalaças, por excellentes rapazes que rompem pela redacção, agarram uma tira de papel, e, sem tirar mesmo o chapéo, decidem com dois rabiscos da penna sobre todas as coisas da Terra e do Céo. Que se trate d'uma revolução do Estado, da solidez d'um Banco, d'uma Magica, ou d'um descarrillamento, o rabisco da penna, com um traço, esparrinha e julga. Nenhum estudo, nenhum documento, nenhuma certeza. Ainda, este domingo, meu Bento, um alto jornal de Paris, commentando a situação economica, e politica de Portugal, affirmava, e com um aprumado saber, que «em Lisboa os filhos das mais illustres familias da aristocracia se empregam como
carregadores da alfandega
, e ao fim de cada mez mandam receber as soldadas
pêlos seus lacaios
!» Que dizes tu aos herdeiros das casas historicas de Portugal, carregando pipas de azeite no caes da alfandega, e conservando criados de farda para lhes ir receber o salario? Estas pipas, estes fidalgos, estes lacaios dos carregadores, formam uma deliciosa e chimerica alfandega que é menos das
Mil e Uma Noites
, que das Mil e Uma Asneiras. Pois assim o ensinou um jornal consideravel, rico, bem provido de Encyclopedias, de Mappas, de Estatisticas, de Telephones, de Telegraphos, com uma redacção muito erudita, pinguemente remunerada, que conhece a Europa, pertence á Academia das Sciencias Moraes e Sociaes, e legisla no Senado! E tu, Bento, no teu jornal, fornecido tambem de Encyclopedias e de Telephones, vaes com penna sacudida lançar sobre a França e sobre a China, e sobre o desventuroso Universo que se torna assumpto e propriedade tua, juizos tão solidos e comprovados como os que aquella bemdita gazeta archivou definitivamente ácerca da nossa alfandega e da nossa fidalguia...
Este é o primeiro peccado, bem negro. Considera agora outro, mais negro. Pelo jornal, e pela reportagem que será a sua funcção e a sua força, tu desenvolverás, no teu tempo e na tua terra, todos os males da Vaidade! A reportagem, bem sei, é uma util abastecedora da Historia. Decerto importou saber se era adunco ou chato o nariz de Cleopatra, pois que do feitio d'esse nariz dependeram, durante algum tempo, de Philippes a Actium, os destinos do Universo. E quantos mais detalhes a esfuracadora bisbilhotice dos reporters revelar sobre o snr. Renan, e os seus moveis, e a sua roupa branca, tantos mais elementos positivos possuirá o seculo XX para reconstruir com segurança a personalidade do auctor das
Origens do Christianismo
, e, através d'ella, comprehender a obra. Mas, como a reportagem hoje se exerce, menos sobre os que influem nos negocios do Mundo ou nas direcções do Pensamento, do que, como diz a Biblia, sobre toda a «sorte e condições de gente van», desde os jockeys até aos assassinos, a sua indiscriminada publicidade concorre pouco para a documentação da historia, e muito, prodigiosamente, escandalosamente, para a propagação das vaidades!
O jornal é com effeito o folle incansavel que assopra a vaidade humana, lhe irrita e lhe espalha a chamma. De todos os tempos é ella, a vaidade do homem! Já sobre ella gemeu o gemebundo Salomão, e por ella se perdeu Alcibiades, talvez o maior dos gregos. Incontestavelmente, porém, meu Bento, nunca a vaidade foi, como no nosso damnado seculo XIX, o motor offegante do pensamento e da conducta. N'estes estados de civilisação, ruidosos e ôcos, tudo deriva da vaidade, tudo tende á vaidade. E a fórma nova da vaidade para o civilisado consiste em ter o seu rico nome impresso no jornal, a sua rica pessoa commentada no jornal!
Vir no jornal!
eis hoje a impaciente aspiração e a recompensa suprema! Nos regimens aristocraticos o esforço era obter, senão já o favor, ao menos o sorriso do Principe. Nas nossas democracias a ancia da maioria dos mortaes é alcançar em sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas bemditas, os homens praticam todas as acções―mesmo as boas. Mesmo as boas, meu Bento! O «nosso generoso amigo Z...» só manda os cem mil reis á Creche, para que a gazeta exalte os cem mil reis de Z..., nosso amigo generoso. Nem é mesmo necessario que as sete linhas contenham muito mel e muito incenso: basta que ponham o nome em evidencia, bem negro, n'essa tinta cujo brilho é mais appetecido que o velho nimbo d'ouro do tempo das Santidades. E não ha classe que não ande devorada por esta fome morbida do reclamo. Ella é tão roedora nos sêres de exterioridade e de mundanidade, como n'aquelles que só pareciam amar na vida, como a sua fórma melhor, a quietação e o silencio... Entrámos na quaresma (é entre as cinzas, e com cinzas, que te estou moralisando). Agora, n'estas semanas de peixe, surdem os frades dominicanos, do fundo dos seus claustros, a prégar nos pulpitos de Paris. E porquê esses sermões sensacionaes, d'uma arte profana e theatral, com exhibicões de psychologia amorosa, com affectações de anarchismo evangelico, e tão creadores de escandalo que Paris corre mais gulosamente a Notre-Dame em tarde de Dominicano, do que á Comedia-Franceza em noite de Coquelin? Porque os monges, filhos de S. Domingos, querem setenta linhas nos jornaes do Boulevard, e toda a celebridade dos histriões. O Jornal estende sobre o mundo as suas duas folhas, salpicadas de preto, como aquellas duas azas com que os iconographistas do seculo XV representavam a Luxuria ou a Gula: e o Mundo todo se arremessa para o jornal, se quer agachar sob as duas azas que o levem á gloriola, lhe espalhem o nome pelo ar sonoro. E é por essa gloriola que os homens se perdem, e as mulheres se aviltam, e os Politicos desmancham a ordem do Estado, e os Artistas rebolam na extravagancia esthetica, e os Sabios alardeiam theorias mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os generos, surge a horda ululante dos charlatães... (Como me vim tornando altiloquente e roncante!...) Mas é a verdade, meu Bento! Vê quantos preferem ser injuriados a serem ignorados! (Homenzinhos de letras, poetisas, dentistas, etc.). O proprio mal appetece sofregamente as sete linhas que o maldizem. Para apparecerem no jornal, ha assassinos que assassinam. Até o velho instincto da conservação cede ao novo instincto da notoriedade: e existe tal maganão, que ante um funeral convertido em apotheose pela abundancia das corôas, dos coches e dos prantos oratorios, lambe os beiços, pensativo, e deseja ser o morto.
N'este verão, uma manhã, muito cedo, entrei n'uma taberna de Montmartre a comprar phosphoros. Rente ao balcão de zinco, diante de dois copos de vinho branco, um meliante, que pelas ventas chatas, o bigode hirsuto e pendente, o barrete de pelle de lontra, parecia (e era) um Huno, um sobrevivente das hordas d'Alarico,―gritava triumphalmente para outro vadio imberbe e livido, a quem arremessára um jornal:
―É verdade, em todas as letras, o meu nome todo! Na segunda columna, logo em cima, onde diz:―
Hontem um infame e ignobil bandido
... Sou eu! O nome todo!
E espalhou lentamente em redor um olhar que triumphava. Eis-ahi, como agora se diz tão alambicadamente, um «estado d'alma»! Tu, Bento, vaes crear d'estes estados.
Depois considera o derradeiro peccado, negrissimo. Tu fundas, com o teu novo jornal, uma nova escola de Intolerancia. Em torno de ti, do teu partido, dos teus amigos, ergues um muro de pedra miuda e bem cimentada: dentro d'esse murosinho, onde plantas a tua bandeirola com o costumado lemma de
imparcialidade
,
desinteresse
, etc., só haverá, segundo Bento e o seu jornal, intelligencia, dignidade, saber, energia, civismo; para além d'esse muro, segundo o jornal de Bento, só haverá necessariamente sandice, vileza, inercia, egoismo, traficancia! É a disciplina de partido (e para te agradar, entendo partido, no seu sentido mais amplo, abrangendo a Litteratura, a Philosophia, etc.) que te impõe fatalmente esta divertida separação das virtudes e dos vicios. Desde que penetras na batalha, nunca poderás admittir que a Razão ou a Justiça ou a Utilidade se encontrem do lado d'aquelles contra quem descargas pela manhã a tua metralha silvante de adjectivos e verbos―porque então a decencia, se não já a consciencia, te forçariam a saltar o muro e desertar para esses justos. Tens de sustentar que elles são maleficos, desarrazoados, velhacos, e vastamente merecem o chumbo com que os trespassas. Das solas dos pés até aos teus raros cabellos, meu Bento, desde logo te atolas na Intolerancia! Toda a idéa que se eleve, para além do muro, a condemnarás como funesta, sem exame, só porque appareceu dez braças adiante, do lado dos outros, que são os Reprobos, e não do lado dos teus, que são os Eleitos. Realisam esses outros uma obra? Bento não poupará prosa nem musculo para que ella pereça: e se por entre as pedras que lhe atira, casualmente entrevê n'ella certa belleza ou certa utilidade, mais furiosamente apressa a sua demolição, porque seria mortificante para os seus amigos que alguma coisa de util ou de bello nascesse dos seus inimigos―e vivesse. Nos homens que vagam para além do teu muro, tu só verás peccadores; e quando entre elles reconhecesses S. Francisco d'Assis distribuindo aos pobres os derradeiros ceitis da Porciuncula, taparias a face para que tanta santidade te não amollecesse, e gritarias mais sanhudamente:―«Lá anda aquelle malandro a esbanjar com os vadios o dinheiro que roubou!»
Assim tu serás no teu jornal. E, em torno de ti, os que o compram e o adoptam lentamente e moralmente se fazem á tua imagem. Todo o jornal distilla intolerancia, como um alambique distilla alcool, e cada manhã a multidão se envenena aos goles com esse veneno capcioso. É pela acção do jornal que se azedam todos os velhos conflictos do mundo―e que as almas, desevangelisadas, se tornam mais rebeldes á indulgencia. A sociabilidade incessantemente amacia e arredonda as divergencias humanas, como um rio arredonda e alisa todos os seixos que n'elle rolam: e a humanidade, que uma longa cultura e a velhice tem tornado docemente sociavel, tenderia a uma suprema pacificação―se cada manhã o jornal não avivasse os odios de Principios, de Classes, de Raças, e, com os seus gritos, os acirrasse como se acirram mastins até que se enfureçam e mordam. O jornal exerce hoje todas as funcções malignas do defuncto Satanaz, de quem herdou a ubiquidade; e é não só o Pae da Mentira, mas o Pae da Discordia. É elle que por um lado inflamma as exigencias mais vorazes―e por outro fornece pedra e cal ás resistencias mais iniquas. Vê tu quando se alastra uma gréve, ou quando entre duas nações bruscamente se chocam interesses, ou quando, na ordem espiritual, dois credos se confrontam em hostilidade: o instincto primeiro dos homens, que o abuso da Civilisação material tem amollecido e desmarcialisado, é murmurar
paz! juizo!
e estenderem as mãos uns para os outros, n'aquelle gesto hereditario que funda os pactos. Mas surge logo o jornal, irritado como a Furia antiga, que os separa, e lhes sopra na alma a intransigencia, e os empurra á batalha, e enche o ar de tumulto e de pó.
O jornal matou na terra a paz. E não só atiça as questões já dormentes como borralhos de lareira, até que d'ellas salte novamente uma chamma furiosa―mas inventa dissensões novas, como esse anti-semitismo nascente, que repetirá, antes que o seculo finde, as anachronicas e brutas perseguições medievaes. Depois é o jornal...
Mas escuta! Onze horas! Onze horas ligeiras estão dançando, no meu velho relogio, o minuete de Gluck. Ora esta carta já vai, como a de Tiberio, muito tremenda e verbosa,
verbosa et tremenda epistola
; e eu tenho pressa de a findar, para ir, ainda antes do almoço, lêr os meus jornaes, com delicia.―Teu
Fradique
.
XVI
a clara
(Trad.)
Paris, outubro.
Minha muito amada Clara.
―Toda em queixumes, quasi rabugenta, e mentalmente tarjada de luto, me appareceu hoje a tua carta com os primeiros frios de outubro. E porquê, minha dôce descontente? Porque, mais féro de coração que um Trastamara ou um Borgia, estive cinco dias (cinco curtos dias de outomno) sem te mandar uma linha, affirmando essa verdade tão patente e de ti conhecida como o disco do sol―«que só em ti penso, e só em ti vivo!...» Mas não sabes tu, oh super-amada, que a tua lembrança-me palpita na alma tão natural e perennemente como o sangue no coração? Que outro principio governa e mantem a minha vida senão o teu amor? Realmente necessitas ainda, cada manhã, um certificado, em letra bem firme, de que a minha paixão está viva e viçosa e te envia os
bons dias
? Para que? Para socego da tua incerteza? Meu Deus! Não será antes para regalo do teu orgulho? Sabes que és Deusa, e reclamas incessantemente o incenso e os canticos do teu devoto. Mas Santa Clara, tua padroeira, era uma grande santa, de alta linhagem, de triumphal belleza, amiga de S. Francisco de Assis, confidenta de Gregorio IX, fundadora de mosteiros, suave fonte de piedade e milagres―e todavia só é festejada uma vez, cada anno, a 27 de agosto!
Sabes bem que estou gracejando, Santa Clara da minha fé! Não! não mandei essa linha superflua, porque todos os males bruscamente se abateram sobre mim:―um defluxo burlesco, com melancolia, obtusidade e espirros; um confuso duello, de que fui o enfastiado padrinho, e em que apenas um ramo secco d'olaia soffreu, cortado por uma bala; e, emfim, um amigo que regressou da Abyssinia, cruelmente Abyssinisante, e a quem tive de escutar com resignado pasmo as caravanas, os perigos, os amores, as façanhas e os leões!... E ahi está como a minha pobre Clara, solitaria nas suas florestas, ficou sem essa folha, cheia das minhas letras, e tão inutil para a segurança do seu coração como as folhas que a cercam, já murchas decerto e dançando no vento.
Porque não sei como se comportam os teus bosques;―mas aqui as folhas do meu pobre jardim amarellaram e rolam na herva humida. Para me consolar da verdura perdida, accendi o meu lume:―e toda a noite de hontem mergulhei na muito velha chronica d'um Chronista medieval da minha terra, que se chama Fernam Lopes. Ahi se conta d'um rei que recebeu o debil nome de
Formoso
, e que, por causa d'um grande amor, desdenhou princezas de Castella e de Aragão, dissipou thesouros, affrontou sedições, soffreu a desaffeição dos povos, perdeu a vassallagem de castellos e terras, e quasi estragou o reino! Eu já conhecia a chronica―mas só agora comprehendo o rei. E grandemente o invejo, minha linda Clara! Quando se ama como elle (ou como eu), deve ser um contentamento esplendido o ter princezas da christandade, e thesouros, e um povo, e um reino forte para sacrificar a dois olhos, finos e languidos, sorrindo pelo que esperam e mais pelo que promettem... Na verdade só se deve amar quando se é rei―porque só então se póde comprovar a altura do sentimento com a magnificencia do sacrificio. Mas um méro vassallo como eu (sem hoste ou castello), que possue elle de rico, ou de nobre, ou de bello para sacrificar? Tempo, fortuna, vida? Mesquinhos valores. É como offertar na mão aberta um pouco de pó. E depois a bem amada nem sequer fica na historia.
E por historia―muito approvo, minha estudiosa Clara, que andes lendo a do divino Budha. Dizes, desconsoladamente, que elle te parece apenas
um Jesus muito complicado
. Mas, meu amor, é necessario desentulhar esse pobre Budha da densa alluvião de Lendas e Maravilhas que sobre elle tem acarretado, durante seculos, a imaginação da Asia. Tal como ella foi, deprendida da sua mythologia, e na sua nudez historica,―nunca alma melhor visitou a terra, e nada iguala, como virtude heroica, a
Noite do Renunciamento
. Jesus foi um proletario, um mendigo sem vinha ou leira, sem amor nenhum terrestre, que errava pelos campos da Galiléa, aconselhando aos homens a que abandonassem como elle os seus lares e bens, descessem á solidão e á mendicidade, para penetrarem um dia n'um Reino venturoso, abstracto, que está nos Céos. Nada sacrificava em si e instigava os outros ao sacrificio―chamando todas as grandezas ao nivel da sua humildade. O Budha, pelo contrario, era um Principe, e como elles costumam ser na Asia, de illimitado poder, de illimitada riqueza: casára por um immenso amor, e d'ahi lhe viera um filho, em quem esse amor mais se sublimára:―e este principe, este esposo, este pae, um dia, por dedicação aos homens, deixa o seu palacio, o seu reino, a esposada do seu coração, o filhinho adormecido no berço de nacar, e, sob a rude estamenha de um mendicante, vai através do mundo esmolando e prégando a renuncia aos deleites, o aniquilamento de todo o desejo, o illimitado amor pelos sêres, o incessante aperfeiçoamento na caridade, o desdem forte do ascetismo que se tortura, a cultura perenne da misericordia que resgata, e a confiança na morte...
Incontestavelmente, a meu vêr (tanto quanto estas excelsas coisas se podem discernir d'uma casa de Paris, no seculo XIX e com defluxo) a vida do Budha é mais meritoria. E depois considera a differença do ensino dos dois divinos Mestres. Um, Jesus, diz:―«Eu sou filho de Deus, e insto com cada um de vós, homens mortaes, em que pratiqueis o bem durante os poucos annos que passaes na terra, para que eu depois, em premio, vos dê a cada um, individualmente, uma existencia superior, infinita em annos e infinita em delicias, n'um palacio que está para além das nuvens e que é de meu Pae!» O Budha, esse, diz simplesmente:―«Eu sou um pobre frade mendicante, e peço-vos que sejaes bons darante a vida, porque de vós, em recompensa, nascerão outros melhores, e d'esses outros ainda mais perfeitos, e assim, pela pratica crescente da virtude em cada geração, se estabelecerá pouco a pouco na terra a virtude universal!» A justiça do justo, portanto, segundo Jesus, só aproveita egoistamente ao justo. E a justiça do justo, segundo o Budha, aproveita ao sêr que o substituir na existencia, e depois ao outro, que d'esse nascer, sempre durante a passagem na terra, para lucro eterno da terra. Jesus cria uma aristocracia de santos, que arrebata para o céo onde elle é Rei, e que constituem a côrte do céo para deleite da sua divindade;―e não vem d'ella proveito directo para o Mundo, que continua a soffrer da sua porção de Mal, sempre indiminuida. O Budha, esse, cria, pela somma das virtudes individuaes, santamente accumuladas, uma humanidade que em cada cyclo nasce progressivamente melhor, que por fim se torna perfeita, e que se estende a toda a terra d'onde o Mal desapparece, e onde o Budha é sempre, á beira do caminho rude, o mesmo frade mendicante. Eu, minha flor, sou pelo Budha. Em todo o caso, esses dois Mestres possuiram, para bem dos homens, a maior porção de Divindade que até hoje tem sido dado á alma humana conter. De resto, tudo isto é muito complicado; e tu sabiamente procederias em deixar o Budha no seu Budhismo, e, uma vez que esses teus bosques são tão admiraveis, em te retemperar na sua força e nos seus aromas salutares. O Budha pertence á cidade e ao collegio de França: no campo a verdadeira Sciencia deve cahir das arvores, como nos tempos de Eva. Qualquer folha de olmo te ensina mais que todas as folhas dos livros. Sobretudo do que eu―que aqui estou pontificando, e fazendo pedantescamente, ante os teus lindos olhos, tão finos e meigos, um curso escandaloso de Religiões Comparadas.
Só me restam tres pollegadas de papel,―e ainda te não contei, oh doce exilada, as novas de Paris,
acta Urbis
. (Bom, agora latim!) São raras, e pallidas. Chove: continuamos em Republica; Madame de Jouarre, que chegou da
Rocha
com menos cabellos brancos, mas mais cruel, convidou alguns desventurados (dos quaes eu o maior) para escutarem tres capitulos d'um novo attentado do barão de Fernay sobre a
Grecia
; os jornaes publicam outro prefacio do snr. Renan, todo cheio do snr. Renan, e em que elle se mostra, como sempre, o enternecido e erudito vigario de Nossa Senhora da Razão; e temos, emfim, um casamento de paixão e luxo, o do nosso esculptural visconde de Fonblant com mademoiselle Degrave, aquella nariguda, magrinha e de maus dentes, que herdou, milagrosamente, os dois milhões do cervejeiro, e que tem tão lindamente engordado e ri com dentes tão lindos. Eis tudo, minha adorada... E é tempo que te mande, em montão, n'esta linha, as saudades, os desejos e as coisas ardentes e suaves e sem nome de que meu coração está cheio, sem que se esgote por mais que plenamente as arremesse aos teus pés adoraveis, que beijo com submissão e com fé.―
Fradique
.
Notas:
[1]
Estas cartas constituem verdadeiros Ensaios Historicos, que, pelas suas proporções, não poderiam entrar n'esta collecção. Reunidas as notas e fragmentos dispersos, devem formar um volume a que o seu compilador dará, penso eu, o titulo de
Versos e Prosas de Fradique Mendes
.
[2]
Muitas das cartas de Fradique Mendes, aqui publicadas, são naturalmente escriptas em francez. Todas essas vão acompanhadas da indicação abreviada
trad.
(traduzida).
[3]
O velho creado de quarto de Fradique Mendes.