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Viriatho

LVIII

Reading edition

No desmoronamento total da sua felicidade, Lisia lembrou-se de seu pae, o velho druida; queria communicar-lhe a revelação tremenda, chorar com elle a morte de Viriatho. Quando chegou á Ilha sagrada de Achale, aquelle refugio quasi celeste pareceu-lhe um desterro, e a Torre redonda consagrada ao Deus innominato appareceu-lhe como uma prisão erguida sobre o mar. Idevor, logo que viu a barca de couro dirigir-se para a Ilha, veiu receber Lisia com o côro das nove Donzellas, que volviam a acompanhal-a a ella, a—sempre noiva.

Lisia conheceu a intenção; e abraçando o pae, em uma d'aquellas angustias para que não ha lagrimas, proferiu apenas:

—Está morto Viriatho! Disse-o o Rochedo baloiçante.

—Tambem o sei!—devolveu o velho druida, encostando a cabeça da filha sobre o peito.

—Quem vos trouxe a noticia?

—Veiu aqui Tantalo, o companheiro de Viriatho n'esses dez annos de campanha gloriosa contra os Romanos; veiu entregar-me a Espada de Viriatho, que conseguiu salvar...

—A Espada invencivel?

—A Espada sempre invencivel.

—Mas, Viriatho não morreu em batalha... Viriatho foi atraiçoado!... Foi atraiçoado com certeza!

O velho druida, sustendo-a n'aquella hallucinação clarividente, disse para Lisia:

—Atraiçoaram-no os seus tres melhores amigos, Ditálcon, Andaca e Minouro! Comprou-os o Consul Quinto Servilio Cepio, o mais inhabil dos generaes romanos; só assim teve a ignobil victoria.

—E a independencia da Lusitania, d'esta desditosa Patria nossa amada?

—Completamente perdida!—respondeu o druida desalentado.

—Perdida, mas não para sempre,—proferiu Lisia, com um accento de vivacidade e esperança.—Quero vêr a Espada de Viriatho! é o que me resta do Esposo com quem estive sempre espiritualmente unida.

E pae e filha encaminharam-se para o subterraneo da Torre redonda, em que se guardava o thesouro da Lusitania. Lisia reconheceu a Espada:

—É esta, a mesma que eu lhe cingi no ultimo dia da festa do nosso noivado, dizendo-lhe com um beijo:—Regressa vencedor! Viriatho cahiu apunhalado quando dormia: não foi vencido em batalha, não. Não regressou mais ao seu lar, aos braços da esposa que o esperava anciosa; veiu aqui ter a sua Espada, que eu contemplo, que eu beijo...

E como se estivesse em um delirio suave, ao levar a Espada aos labios, o brilho da lamina de aço reflectiu-se nos olhos grandes e rasos de lagrimas, e operou-se no seu espirito uma miragem do futuro, como se conta na velha lenda dos Espelhos de Salvação. E n'um arrebatamento prophetico e assombrada, continuou fitando a lamina fulgente, exclamando:

—«Desvenda-se-me o futuro. Eu vejo, eu vejo... Vão passados sete annos. Numancia ainda resiste corajosamente ao cêrco de Cornelio Scipião Emiliano; e que loucura a do destemido Salóndico! quiz fazer uma sortida ao acampamento romano, e lá ficou morto. Agora é que Numancia, sem chefe, tambem está perdida. Numancia não se rende; os Romanos entram na cidade e ficam assombrados diante do suicidio heroico da população. Morreram livres.

E passando a mão delicada pela lamina da Espada, para restituir-lhe o brilho empanado pela respiração offegante, tornou a contemplar o quadro do futuro:

—«Não bastou a traição de Cepio, nem a queda de Numancia para assegurar o dominio de Roma na Hespanha. É aqui na Lusitania que Sertorio vem encontrar o espirito de revolta para resistir contra as facções que o exilaram de Roma. É com o valor dos Lusitanos de que se rodêa, e que sonham com a sua independencia, que Sertorio derrota os generaes que Roma contra elle envia. Mas, ai! Empunhará a sua mão a Espada de Viriatho, que lhe foi confiada... e tal como Viriatho, cae tambem assassinado por um seu companheiro!...

Depois de um grande silencio, como se contemplasse acontecimentos incomprehendidos, como são esses da queda do Imperio romano, das invasões dos Barbaros do norte, das luctas contra os povos da Africa, Lisia, passando a mão pelos olhos ennublados, contemplou novamente a lamina scintilante:

«A Espada de Viriatho, longo tempo sepultada n'esta ruina immensa, está outra vez descoberta; eil-a brandida por um braço vigoroso e joven. Uma era nova se me ostenta! vêjo novos Symbolos, novos trajos; outra vez desencadeamento de raças de encontro umas ás outras! N'esta lucta dos dois Symbolos, a Cruz e o Crescente, eu vêjo a Espada de Viriatho nas mãos do joven Cavalleiro sustentando a independencia d'este territorio que vae do rio Minio ao Durio! É um pequeno trato da antiga Lusitania, mas que importa! é o fóco d'onde irradiará o impulso para se reconstituir a obliterada nacionalidade.

«Por quarenta annos a Espada de Viriatho é brandida pelo corajoso Cavalleiro, que vae estendendo o territorio lusitano ao Monda; já chega a Scalabis; conquista a bella cidade que está no lez do Tagus. Não virá longe o dia, em que esse territorio alcance as fronteiras do Anas, e se complete com a região dos Cynesios.

«A Lusitania revive, e ergue-se altaneira diante da Iberia, que procura absorvel-a na sua unificação. A Iberia serve-se do meio ardiloso de uma herança real, e recorre á invasão. Por entre a Ala dos valentes Namorados vêjo a Espada de Viriatho empunhada por um novo Caudilho! D'onde viria para a sua mão essa Espada? Eu vejo: entrega-lh'a o armeiro de Scalabis, que a desenterrou do chão em que se transforma o ferro no aço mais puro!»

Então Lisia, voltando a lamina refulgente, contemplou com mais assombro:

—«A Lusitania livre, depois de reconstituida no seu solo, reata a tradição dos antigos navegadores liguricos, e lança-se á descoberta das Ilhas do Mar Tenebroso, e tocando os dois continentes, vae fundar um novo Imperio lá aonde o sol se alevanta! É ainda a Espada de Viriatho na mão firme do seu Capitão terribil, que cimenta esse Imperio em bases inabalaveis, em que se mantem por seculos! Para que prescrutar tanto o futuro? A Lusitania revive...»

Lisia entregou a Espada de Viriatho ao velho druida para a guardar no thezouro secreto da Ilha de Achale; e cansada da visão presciente caíu em um somno cataleptico, em que ficou por muitas e muitas horas extactica, inerte, semi-morta, insensivel. A dôr inconsolavel divinisava-a; tinha na face uma expressão sobrehumana.

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