XXVII
Reading edition
A aldeia de Loriga foi para onde se dirigiu Viriatho, na falda da serra. Diziam que era d'alli natural; mas outras povoações, como Folgosinho, Ceia, Covilhã e Vizeu, tambem disputavam a gloria de terem sido seu berço. Antes d'essas pequenas terras o adoptarem como filho, já elle estava possuido do sentimento que o levou a dizer de toda a Lusitania:—Esta é a ditosa patria minha amada. Viriatho sentia um prazer intenso ao vêr os trabalhos da povoação pacifica; um grande circulo de raparigas, com suas arrecadas e collares de ouro, e axorcas nos braços e pernas, estavam occupadas em uma espadellada de linho. Ao rithmo das pancadas iam cantando, porque na Lusitania o trabalho foi sempre uma festa, e ao som de cantigas. Approximou-se para escutar a
Chacoula da Espadellada
Separa-se o linho Das suas aréstas, Nas espadelladas. Que alegres pancadas! E com gosto dadas. Trabalhos são festas: Quem olha a fadigas! Já pelo caminho Vem as raparigas, Soltando cantigas Das mais namoradas.
Quem quizer saber Quantas conversadas Andam cá na villa, Sem maior quesila Póde conhecer, Vendo nas mãos d'ellas Como as espadellas São bem trabalhadas.
Eu, por mim, sei de uma Que na espadella Tem um coração Feito pela mão De quem é só d'ella. Para conhecel-a, Bastará ahi vêl-a Sempre olhos no chão...
Mais adiante, em outro casal descendo a encosta por onde se estendia Loriga, havia ruidosos signaes de alegria; era um Fiandão, uma festa em que das povoações visinhas concorriam muitas raparigas para fiarem em festivo ajuntamento todo o linho de uma casa. Era de uso concorrerem tambem os moços namorados, que tocavam seus machêtes, cantando á porfia as
Endechas do Fiandão
Que vezes te vêjo No limiar da porta De pé a fiar! Eu, indo a passar, Cá de longe um beijo, Que mal me conforta, Enviava-te então; N'essa occasião, (D'isso não te accuso) Bem notei que o fuso Te cahiu da mão.
Se te cáe o fuso Quando estás á porta, Será por cuidado, Imaginação, Que haja eu causado Com tanta paixão? Mas, isso que importa! Ou será ou não. Seja como fôr, Certos signaes são De ânimo confuso; Talvez falta de uso De occultar o amor, Pois te cáe o fuso Tanta vez da mão.
Com que alegria, Ou satisfação, Levantára o fuso Que te cáe ao chão; Eu t'o entregaria Com a cortezia Que no amor é uso, Declarando então: —Eil-o, em homenagem D'esta vassalagem De leal coração; Para sempre agora Não cahirá, senhora, Mais da vossa mão.
Emquanto o moço cantava a endecha apaixonada, todos procuravam com os olhos se se denunciava pelo rubor a rapariga que a inspirára. Por casualidade cahiu o fuso da mão a uma d'ellas, e logo as risadas animaram o Fiandão extraordinariamente.
Um outro cantador dedilhou no machête que trazia umas Coplilhas
Ao morder do fio
Que inveja me faz E tanto me toca, No fio do linho Que puchas da roca, Os beijos que dás! Presinto, adivinho, Se esse linho eu fosse, Como me era doce Sentir tua bocca!
Tu segues fiando, De mim descuidada, Á bocca levando A linha delgada Que torces nos dedos! Do linho os segredos Tivera eu a posse, Que os sonhos provoca: Como me era doce, Se esse linho eu fosse, Sentir tua bocca!
E emquanto na roca Tu passas fiando, No immenso desejo Que acorda o que vêjo E a mente traz louca, Ficarei sonhando: Se esse linho eu fosse, Como me era doce Morder-me tua bocca!
Estas coplilhas ainda provocaram mais ruido, procurando-se algum rubor traiçoeiro. Ditálcon, que estava junto de Viriatho, enlevado na contemplação d'aquelles costumes da serra, por que tinha ouvido fallar muito na finura do fio lusitano, disse para o cabecilha:
—Isto é uma terra de poetas.
—E de apaixonados...
A phrase de Viriatho foi interrompida por um facto extraordinario; n'aquelle momento chegava á sua presença um rancho de homens, que o procuravam com anciedade:
—Nós somos gente da povoação de Gouvêa, que vimos...
O seu aranzel confundiu-se com este outro, mais atrapalhado:
—Nós somos gente da povoação de Manteigas, que tambem aqui vimos...
Viriatho impoz silencio a esse grupo de homens valentes, que vinham armados de varapáos e mangoaes, e com lucidez apurou em poucas perguntas, que eram povoações rivaes, que por causa das aguas de rega se hostilisavam de longos tempos, havendo todos os annos grossa pancadaria e até mortes. Os de Gouvêa não queriam que as suas aguas vertentes fossem para os de Manteigas; estes não lh'as queriam pedir. Então Viriatho sentenciou:
—Agora, que a nossa terra está invadida pelo inimigo estrangeiro, os odios internos enfraquecem-nos. É de força unirmo-nos: Entre Manteigas e Gouvêa haja paz para sempre. Em todos os comêços do Anno estival a communa de Manteigas irá levar á de Gouvêa uma bilha de agua, em signal da compra por que adquiriu a posse das suas regas.
—Bem julgado! gritaram todos.
E depois de terem bebido tigellas de zitho, e acclamado Viriatho, voltaram alegres para as suas povoações, em que o symbolo da concordia mutua se guardou no costume immemorial.