VIAGENS NA MINHA TERRA.
Reading edition
Qu' il est glorieux d'ouvrir une nouvelle carrière, et de paraitre tout-à-coup dans le monde savant un livre de découvertes à la main, comme une cométe inattendue étincelle dans l'espace!
x. de maistre.
CAPITULO I.
De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu immortalizar-se escrevendo éstas suas viagens. Parte para Santarem. Chega ao Terreiro-do-Paço, imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que ahi lhe succede. A Deducção-Chronologica e a Baixa de Lisboa. Lord Byron e um bom charuto. Travam-se de razões os Ilhavos e os Bordas-d'agua: os da calça larga levam a melhor.
Que viage á roda do seu quarto quem está á beira dos Alpes, de hynverno, em Turim, que é quasi tam frio como San'Petersburgo―intende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o proprio
Xavier de Maistre
, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.
Eu muitas vezes, n'estas suffocadas noites d'estio, viajo até á minha janella para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me inganar com uns verdes de árvores que alli vegetam sua laboriosa infancia nos intulhos do Caes-do-Sodré. E nunca escrevi éstas minhas viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha penna: pobre e suberba, quer assumpto mais largo. Pois hei de dar-lh'o. Vou nada menos que a Santarem: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se hade fazer chronica.
Era uma idea vaga, mais desejo que tenção, que eu tinha ha muito de ir conhecer as riccas varzeas d'esse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais historica e monumental das nossas villas. Aballam-me as instancias de um amigo, decidem-se as tonterias de um jornal, que por mexeriquice quiz incabeçar em
designio politico determinado a minha visita.
Pois por isso mesmo vou:―
pronunciei-me
.
São 17 d'este mez de julho, anno de graça de 1843, uma segunda-feira, dia sem nota e de boa estrea. Seis horas da manham a dar em San'Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro-do-Paço. Chego muito a horas, invergonhei os meus madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se prezam de mais matutinos homens que eu. Ja vou quasi no fim da praça, quando oiço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça
d'ancien règime
: é o nosso chefe e commandante, o capitão da impreza, o Sr. C. da T. que chega em estado.
Tambem são chegados os outros companheiros: o sino dá o último rebate. Partimos.
N'uma
regata
de vapores o nosso barco não ganhava decerto o premio. E se, no andar do progresso, se chegarem a instituir alguns isthmicos ou olympicos para este genero de carreiras―e se para ellas houver algum Pindaro ancioso de correr, em strophes e antistrophes, atraz do
vencedor
que vai coroar de seus hymnos immortaes―não cabe nem um triste minguado epodo a este cançado corredor de Villa-nova. É um barco serio e sizudo que se não mette n'essas andanças.
Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e pittoresco amphitheatro de Lisboa oriental, que é, vista de fóra, a mais bella e grandiosa parte da cidade, a mais characteristica, e onde, aqui e alli, algumas raras feições se percebem, ou mais exactamente se adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das chronicas. Da Fundição para baixo tudo é prosaico e burguez, chato, vulgar e semsabor como um periodo da
Deducção Chronologica
, aqui e alli assoprado n'uma tentativa ao grandioso do mau gôsto, como alguma oitava menos rasteira do
Oriente
.
Assim o povo, que tem sempre melhor gôsto e mais puro do que essa escuma descórada que anda ao decima das populações, e que se chama a si mesma por excellencia a
Sociedade
, os seus passeios favoritos são a Madre-de-Deus e o Beato e Xabregas e Marvilla e as hortas de Chellas. A um lado a immensa majestade do Tejo em sua maior extensão e podêr, que alli mais parece um pequeno mar mediterraneo; do outro a frescura das hortas e a sombra das árvores, palacios, mosteiros, sitios consagrados todos a recordações grandes ou queridas. Que outra sahida tem Lisboa que se compare em belleza com ésta? Tirado Bellem, nenhuma. E ainda assim, Bellem é mais arido.
Já saudámos Alhandra, a toireira; Villa-franca, a que foi de Xira, e depois da Restauração, e depois outra vez de Xira, quando a tal restauração cahiu, como a todas as restaurações sempre succede e hade succeder, em odio e execração tal que nem uma pobre villa a quiz para sobrenome.
―'A questão não era de restaurar nem de não restaurar, mas de se livrar a gente de um govérno de patuscos, que é o mais odioso e ingulhoso dos governos possiveis.'
É a reflexão com que um dos nossos companheiros de viajem accudiu ao princípio de ponderação que eu ia involuntariamente fazendo a respeito de Villa-franca.
Mas eu não tenho odio nenhum a Villa-franca, nem a esse famoso cirio que lá foi fazer à velha monarchia. Era uma coisa que estava na ordem das coisas, e que por fôrça havia de succeder. Este necessario e inevitavel reviramento por que vai passando o mundo, hade levar muito tempo, hade ser contrastado por muita reacção antes de completar-se...
No entretanto vamos accender os nossos charutos, e deixemos os precintos aristocraticos da ré: á proa, que é paiz de cigarro livre!
Não me lembra que lord Byron celebrasse nunca o prazer de fummar a bórdo. È notavel esquecimento no poeta mais imbarcadiço, mais marujo que ainda houve, e que até cantou o injôo, a mais prosaica e nauseante das miserias da vida! Pois n'um dia d'estes, sentir na face e nos cabellos a brisa refrigerante que passou por cima da agua, em quanto se aspiram mollemente as narcoticas exhalações de um bom cigarro da Havana, é uma das poucas coisas sinceramente boas que ha n'este mundo.
Fummemos!
Aqui está um campino fummando gravemente o seu cigarro de papel, que me vai imprestar lume.
'Dou-lh'o eu, senhor...' accode cortezmente outra figura mui diversa, cujas feições, trajo e modos singularmente contrastam com os do
musarabe
ribatejano.
Accenderam-se os charutos, e attentámos mais de vagar na companhia em que estavamos.
Era com effeito notavel e interessante o grupo a que nos tinhamos chegado, e destacava pittorescamente do resto dos passageiros, mistura hybrida de trajos e feições descharacterizadas e vulgares―que abunda nos arredores de uma grande cidade maritima e commercial.―Não assim este grupo mais separado com que fomos topar. Constava elle de uns dôze homens; cinco eram d'esses famosos athletas da Alhandra que vão todos os domingos colher o
pulverem olympicum
da praça de Sanct'Anna, e que, á voz soberana e irresistivel de:
á unha, á unha, á cernelha!
.... correm a arcar com mais generosos, não mais possantes, animaes que elles, ao som das immensas palmas, e a trôco dos raros pintos por que se manifesta o sempre clamoroso e sempre vazio enthusiasmo das multidões. Voltavam á sua terra os meus cinco luctadores ainda em trajo de praça, ainda esmurrados e cheios de glória da contenda da vespera. Mas aopé d'estes cinco e de altercação com elles―ja direi porquê―estavam seis ou sette homens que em tudo pareciam os seus antipodas.
Emvez do calção amarello e da jaqueta de ramagem que caracterizam o homem do forcado, estes vestiam o amplo saiote grego dos varinos, e o tabardo arrequifado siciliano de panno de varas. O campino, assim como o saloio, tem o cunho da raça africana; estes são da familia pelasga: feições regulares e moveis, a fórma agil.
Ora os homens do norte estavam disputando com os homens do sul: a questão fôra interrompida com a nossa chegada á proa do barco. Mas um dos Ilhavos―bella e poetica figura de homem―voltando-se para nós, disse n'aquelle seu tom accentuado:―'Ora aqui está quem hade decidir: vejam-n'os senhores. Elles, por agarrar um toiro, cuidam que são mais que ninguem, que não ha quem lhes chegue. E os senhores, a serem ca de Lisboa, hãode dizer que sim. Mas nós...'
―Nenhum de nós é de Lisboa: so este senhor que aqui vem agora.
Era o C. da T. que chegava.
―'Este conheço eu; este é dos nossos (bradou um homem de forcado, assim que o viu). Isto é um fidalgo como se quer. Nunca o vi n'uma ferra, isso é verdade; mas aqui de Vallada a Almeirim ninguem corre mais do que elle por sol e por chuva, e hade saber o que é um boi de lei, e o que é lidar com gado.'
―'Pois oiçamos lá a questão.'
―'Não é questão'―tornou o Ilhavo: 'mas se este senhor fidalgo anda por Almeirim, para Almeirim vamos nós, que era uma charneca o outro dia, e hoje é um jardim, benza-o Deus!―mas não foram os campinos que o fizeram, foi a nossa gente que o sachou e plantou, e o fez o que é, e fez terra das areas da charneca.'
―'Lá isso é verdade'.
―'Não, não é! Que está forte habilidade fazer dar trigo aqui aos nateiros do Tejo, que é como quem semeia em manteiga. É uma lavoira que a faz Deus por sua mão, regar e adubar e tudo: e o que Deus não faz, não fazem elles, que nem sabem ter mão n'esses monchões c'o plantio das arvores: so lá por cima é que algumas teem mettido, e é bem pouco para o rio que é, e as riccas terras que lhes levam as inchentes.―Mas nós, pe no barco pe na terra, tam depressa estamos a sachar o milho na charneca, como vimos por ahi abaixo com a vara no peito, e o saveiro a pegar n'area por não haver agua... mas sempre labutando pela vida'.
―'A fôrça é que se falla'―tornou o campino para estabelecer a questão em terreno que lhe convinha.―'A fôrça é que se falla: um homem do campo que se deita alli á cernelha de um toiro que uma companha inteira de varinos lhe não pegava, com perdão dos senhores pelo rabo!..'
E reforçou o argumento com uma gargalhada triumphante, que achou echo nos interessados circumstantes que ja se tinham apinhado a ouvir os debates.
Os Ilhavos ficaram um tanto abatidos; sem perderem a consciencia da sua superioridade, mas acanhados pela algazarra.
Parecia a esquerda de um parlamento quando ve sumir-se, no borburinho acintoso das turbas ministeriaes, as melhores phrases e as mais fortes razões dos seus oradores.
Mas o orador ilhavo não era homem de se dar assim por derrotado. Olhou para os seus, como quem os consultava e animava, com um gesto expressivo, e voltando-se a nós, com a direita estendida aos seus antagonistas:
―'Então agora como é de fôrça, quero eu saber, e estes senhores que digam, qual é que tem mais fôrça, se é um toiro ou se é o mar'.
―'Essa agora!..'
―'Queriamos saber'.
―'É o mar'.
―'Pois nós que brigâmos com o mar, oito e dez dias a fio n'uma tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes que brigam uma tarde com um toiro, qual é que tem mais fôrça?'
Os campinos ficaram cabisbaixos; o publico imparcial applaudiu por ésta vez a opposição, e o Vouga triumphou do Tejo.
CAPITULO II.
Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas éstas viagens. Faz o A. modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilização; e mostra-se como ella é dirigida pelo cavalleiro da Mancha D. Quixote, e por seu escudeiro Sancho Pança.―Chegada a Villa-Nova-da-Rainha, Supplicio de Tantalo.―A virtude galardão de si mesma; e sophisma de Jeremias Bentham.―Azambuja.
Éstas minhas interessantes viagens hãode ser uma obra prima, erudita, brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do seculo. Preciso de o dizer ao leitor, paraque elle esteja previnido; não cuide que são quaesquer d'essas rabiscaduras da moda que, com o titulo de
Impressões de Viagem
, ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum proveito da sciencia e do adiantamento da especie.
Primeiro que tudo, a minha obra é um symbolo... é um mytho, palavra grega, e de moda germanica, que se mette hoje em tudo e com que se explica tudo... quanto se não sabe explicar.
É um mytho porque―porque... Ja agora rasgo o veo, e declaro abertamente ao benevolo leitor a profunda idea que está occulta debaixo d'esta ligeira apparencia de uma viagemzita que parece feita a brincar, e no fim de contas é uma coisa séria, grave, pensada com um livro novo da feira de Leipsick, não das taes brochurinhas dos
boulevards
de Paris.
Houve aqui ha annos um profundo e cavo philosopho d'alêm Rheno, que escreveu uma obra sôbre a marcha da civilização, do intellecto―o que diriamos, para nos intenderem todos melhor,
o Progresso
. Descobriu elle que ha dois principios no mundo: o
espiritualista
, que marcha sem attender á parte material e terrena d'esta vida, com os olhos fittos em suas grandes e abstractas theorias, hirto, sêcco, duro, inflexivel, e que póde bem personalizar-se, symbolizar-se pelo famoso mytho do cavalleiro da Mancha, D. Quixote;―o
materialista
, que, sem fazer caso nem cabedal d'essas theorias, em que não crè, e cujas impossiveis applicações declara todas utopias, póde bem representar-se pela rotunda e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança.
Mas, como na historia do malicioso
Cervantes
, estes dois principios tam avessos, tam desincontrados, andam comtudo junctos sempre; ora um mais atraz, ora outro mais adiante, impecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se poucas, mas
progredindo
sempre.
E aqui está o que é possivel ao progresso humano.
E eisaqui a chronica do passado, a historia do presente, o programma do futuro.
Hoje o mundo é uma vasta Barataria, em que domina elrei Sancho.
Depois hade vir D. Quixote.
O senso commum virá para o millenio: reinado dos filhos de Deus! Está promettido nas divinas promessas... como elrei de Prussia prometteu uma constituição; e não faltou ainda, porque―porque o contracto não tem dia; prometteu mas não disse para quando.
Ora n'esta minha viagem Tejo-a-riba está symbolizada a marcha do nosso progresso social: espero que o leitor intendesse agora. Tomarei cuidado de lh'o lembrar de vez em quando, porque receio muito que se esqueça.
Somos chegados ao triste desimbarcadoiro de Villa-Nova-da-Rainha, que é o mais feio pedaço de terra alluvial em que ainda poisei os meus pés. O sol arde como ainda não ardeu este anno.
Um immenso arraial de caleças, de machinhos, de burros e arrieiros, nos espera n'aquelle descampado africano. É forçoso optar entre os dois martyrios da caleça ou do macho. Do mal o menos... seja este.
E acolá―oh supplício de Tantalo!―vejo duas possantes e nedeas mulas castelhanas jungidas a um vehiculo que, n'estas paragens e ao pé d'aquell'outros, me parece mais esplendido do que um landaw de Hyde-Park, mais elegante que um caleche de Long-champs, mais commodo e elastico do que o mais acrio briska da princeza Hellena. E com tudo―oh magico podêr das situações!―elle não é senão, uma substancial e bem apessoada traquitana de cortinas.
Togados manes dos antigos desimbargadores, venerandas cabelleiras de anneis e castanhola, que direis, ó respeitadas sombras, se d'esse limbo onde estais esperando pela resurreição do Pêgas... e do livro quinto―vêdes este degenerado e espurio successor vosso, em calças largas, frak verde, chapeu branco, gravata de côr, chicotinho de caoutchouc na mão, prompto a cavalgar em mulinha de Palito-Metrico como um garraio estudantinho do segundo anno, e deitando olhos invejosos para esse natural, proprio e adscripticio modo de conducção desimbargatoria? Oh que direis vós! Com que justo desprêzo não olhareis para tanta degradação e derogação!
Eu commungava silenciosamente commigo n'estas graves meditações, e revolvia incertamente no ânimo a ponderosa dúvida:―se o administrar justiça direita aos povos valia a pena de andar um desimbargador a pé!... Luctava no meu ser o Sancho Pança da carne com o D. Quixote do espirito―quando a Providencia, que nos maiores apertos e tentações nos não abandona nunca, me trouxe a generosa offerta de um amigo e companheiro do vapor, o Sr. L. S.: era sua a invejada carroça, e n'ella me deu logar até á Azambuja.
A virtude é o galardão de si mesma, disse um philosopho antigo; e eu não creio no famoso ditto de Bentham, que sabedoria antiga seja um sophisma. O mais moderno é o mais velho, não ha dúvida; mas o antigo que dura ainda, é porque tem achado na experiencia a confirmação que o moderno não tem. Jeremias Bentham tambem fazia o seu sophisma como qualquer outro.
Vamos percorrendo lentamente aquelle mal-composto
marachão
que poucos palmos se eleva do nivel baixo e salgadiço do solo: de hynverno não se passará sem perigo; ainda agora se não anda sem incómmodo e receio. Estamos em Villa-Nova e ás portas do nojento caravanseray, unico asylo do viajante n'esta, hoje, a mais frequentada das estradas do reino.
Parece-me estar mais deserto e sujo, mais abandonado e em ruinas este asqueroso logarejo, desde que alli aopé tem a estação dos vapôres, que são a commodidade, a vida, a alma do Ribatéjo. Imagino que uma aldeia de Alarves nas faldas do Atlas deve ser mais limpa e commoda.
Oh! Sancho, Sancho, nem siquer tu reinarás entre nós! Cahiu o carunchoso throno de teu predecessor, antagonista e ás vezes amo; açoitaram-te essas nadegas para desincantar a formosa
del Toboso
, proclamaram-te depois rei em
Barataria
, e n'esta tua provincia lusitana nem o paternal govêrno de teu estupido materialismo póde estabelecer-se para commodo e salvação do corpo; ja que a alma... oh! a alma...
Fallemos n'outra coisa.
Fujamos depressa d'este monturo.―É monótona, arida e sem frescura de árvores a estrada: apenas alguma rara oliveira mal-medrada, a longos e desiguaes espaços, mostra o seu tronco rachitico e braços contorcidos, ornados de ramusculos doentes, em que o natural verde-alvo das folhas é mais alvacento e desbotado que o costume. O solo porêm, com raras excepções, é optimo, e a trôco de pouco trabalho e insignificante despeza, daria uma estrada tam boa como as melhores da Europa.
Dizia um secretario d'Estado meu amigo que para se repartir com egualdade o melhoramento das ruas por toda Lisboa, deviam ser obrigados os ministros a mudar de rua e bairro todos os tres mezes. Quando se fizer a lei de responsabilidade ministerial, para as kalendas gregas, eu heide propor que cada ministro seja obrigado a viajar por este seu reino de Portugal ao menos uma vez cada anno, como a desobriga.
Ahi está a Azambuja, pequena mas não triste povoação, com visiveis signaes de vida, aceadas e com ar de confôrto as suas casas. É a primeira povoação que dá indicio de estarmos nas ferteis margens do Nilo portuguez.
Corrémos a apear-nos no elegante estabelecimento que ao mesmo tempo cumulla as tres distinctas funcções, de
hotel, de restaurant e de café
da terra.
Sancto Deus! que bruxa que está á porta! que antro lá dentro!... Cai-me a penna da mão.
CAPITULO III.
Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade do A. d'estas viagens. O que devia ser uma estalagem nas nossas eras de litteratura romantica?―Suspende-se o exame d'esta grave questão para tractar, em prosa e verso, um mui difficil ponto de economia-politica e de moral social.―Quantas almas é preciso dar ao diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para fazer um ricco n'este mundo.―Como se veio a descobrir que a sciencia d'este seculo era uma grandessissima tola.―Rei de facto, e rei de direito.―Belleza e mentira não cabem n'um sacco.―Põe-se o A. a caminho para o pinhal da Azambuja.
Vou
desappontar
decerto o leitor benevolo; vou perder, pela minha fatal sinceridade, quanto em seu conceito tinha adquirido nos dois primeiros capitulos d'esta interessante viagem.
Pois que esperava elle de mim agora, de mim que ousei declarar-me escriptor n'estas eras de romantismo, seculo das fortes sensações, das descripções a traços largos e
incisivos
que se intalham n'alma e entram com sangue no coração?
No fim do capitulo precedente parámos á porta de uma estalagem: que estalagem deve ser ésta, hoje no anno de 1843, ás barbas de Victor Hugo, com o Doutor Fausto a trotar na cabeça da gente, com os
Mysterios de Paris
nas mãos de todo o mundo?
Ha paladar que supporte hoje a classica
posada
do Cervantes com o seu
mesonero
gordo e grave, as pulhas dos seus arrieiros, e o mantear de algum pobre lorpa de algum Sancho! Sancho, o invisivel rei do seculo, aquelle
por quem hoje os reis reinam e os fazedores de leis decretam e afferem o justo!
Sancho manteado por vis muleteiros! Não é da epocha.
Não: plantae batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamisae estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Icaro, para andar a qual mais depressa, éstas horas contadas de uma vida toda material, massuda e grossa como tendes feito ésta que Deus nos deu tam differente do que a hoje vivemos. Andae, ganha-pães, andae; reduzi tudo a cifras, todas as considerações d'este mundo a equações de interêsse corporal, comprae, vendei, agiotae.―No fim de tudo isto, o que lucrou a especie humana? Que ha mais umas poucas de duzias de homens riccos. E eu pergunto aos economistas-politicos, aos moralistas, se ja calcularam o número de individuos que é forçoso condemnar á miseria, ao trabalho desproporcionado, á desmoralização, á infamia, á ignorancia crapulosa, á desgraça invencivel, á penuria absoluta, para produzir um ricco?―Que lh'o digam no Parlamento inglez, onde,
depois de tantas commissões de inquérito, ja deve de andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, o número de corpos que se tem de intregar antes do tempo ao cemiterio para fazer um tecelão ricco e fidalgo como Sir Robert Peel, um mineiro, um banqueiro, um grangeeiro―seja o que for: cada homem ricco, abastado, custa centos de infelizes, de miseraveis.
Logo a nação mais feliz não é a mais ricca. Logo o princípio utilitario é a
mamona
da injustiça e da reprovação. Logo...
A sciencia d'este seculo é uma grandessissima tola.
E como tal, presumpçosa e cheia do orgulho dos nescios.
Vamos á descripção Vamos á descripção da estalagem. Não póde ser classica; assoviam-me todos esses rapazes de pera, bigode e charuto, que fazem litteratura cava e funda desde a porta do Marrare até ao café de Moscow...
Mas aqui é que me apparece uma incoherencia inexplicavel. A sociedade é materialista; e a litteratura, que é a expressão da sociedade, é toda excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista! Sancho rei de facto, Quixote rei de direito!
Pois é assim; e explica-se.―É a litteratura que é uma hypocrita: tem religião nos versos, charidade nos romances, fé nos artigos de jornal―como os que dão esmolas para pôr no
Diario
, que amparam orphans na
Gazeta
, e sustentam viuvas nos cartazes dos theatros.
E fallam no Evangelho! Deve ser por escarneo. Se o leem, hãode ver lá que nem a esquerda deve saber o que faz a direita...
Vamos á descripção da estalagem; e acabemos com tanta digressão.
Não póde ser classica, está visto, a tal descripção.―Seja romantica.―Tambem não póde ser. Porque não? É pôr-lhe lá
um
Chourineur
a amolar um facão de palmo e meio para espatifar rez e homem, quanto incontrar,―uma
Fleur-de-Marie
para dizer e fazer pieguices com uma rozeirinha pequenina, bonitinha, que morreu, coitadinha!―e um principe allemão incoberto, forte no sôcco britannico, immenso em libras sterlinas, profundo em gyria de cegos e ladrões... e ahi fica a Azambuja com uma estalagem que não tem que invejar á mais pintada e da moda n'este seculo elegante, delicado, verdadeiro, natural!
É como eu devia fazer a descripção: bem o sei. Mas ha um impedimento fatal, invencivel―egual ao d'aquella famosa salva que se não deu... é que nada d'isso lá havia.
E eu não quero calumniar a boa gente da Azambuja. Que me não leam os taes, porque eu heide viver e morrer na fé de Boileau:
Rien n'est beau que le vrai.
Ja se diz ha muito anno que honra e proveito não cabem n'um sacco; eu digo que belleza e mentira tambem lá não cabem: e é a mais portugueza traducção que creio que se possa fazer d'aquelle ímmortal e evangelico hemystichio. A maior parte das bellezas da litteratura actual fazem-me lembrar aquellas formosuras que tentavam os sanctos eremitas na Thebaida. O pobre de Sancto Antão ou de S. Pacomio (Pacomio é melhor aqui) ficavam imbasbacados ao princípio; mas dava-lhe o coração uma pancada, olhavam-lhe para os pés...―Cruzes maldicto! Os pés não podia elle incobrir. E ao primeiro
abrenuntio
do sancto, dissipava-se a belleza em muito fummo de inxofre, e ficava o diabo negro feio e cabrum como quem é, e sempre foi o pae da mentira.
Nada, nada, verdade e mais verdade. Na estalagem da Azambuja o que havia era uma pobre velha a quem eu chamei bruxa, porque emfim que havia de eu chamar á velha suja e maltrapida que estava á porta d'aquella asquerosa casa?
Havia lá ésta velha, com a sua môça mais môça mas não menos nojenta de ver que ella, e um velho meio paralytico meio demente que alli estava para um canto com todo o geito e traça de quem vem folgar agora na taberna porque ja bebeu o que havia de beber n'ella.
Matava-nos a sêde; mas a agua alli é beber quartans. O vinho era atroz. Limonada? Não ha limões nem assucar.―Mandou-se um proprio á tenda no fim da villa. Vieram tres limões que me pareceram de uns que pendiam, quando eu vinha a férias, á porta do famoso botequim de Leiria.
O assucar podia servir na última scena de M. de Pourceaugnac muito melhor que n'uma limonada. Mas misturou-se tudo com a agua das sezões, bebémos, pozemo-nos em marcha, e até agora não nos fez mal, com ser a mais abominavel, antipathica e suja beberagem que se póde imaginar.
Caminhámos na mesma ordem até chegar ao famoso pinhal da Azambuja.
CAPITULO IV.
De como o A. foi pensando e divagando, e em que pensava e divagava elle, no caminho da villa da Azambuja até o famoso pinhal do mesmo nome.―Do poeta grego e philosopho Démades, e do poeta e philosopho inglez Addison, da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar a sua profunda erudição.―Discute-se a materia gravissima se é necessario que um ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.―Admiraveis reflexões de zigzag em que se tracta de re politica e de re amatoria.―Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo este capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e passe ao seguinte.
Eu darei sempre o primeiro logar á modestia entre todas as bellas qualidades.―Ainda sôbre a innocencia?―Ainda sim. A innocencia basta uma falta para a perder, da modestia so culpas graves, so crimes verdadeiros podem privar. Um accidente, um acaso podem destruir aquella, a ésta so uma acção propria, determinada e voluntaria.
Bem me lembram ainda os dois versos do poeta Démades que são forte argumento de auctoridade contra a minha theoria; cuidei que tinha mais infeliz memoria. Heide pô-los aqui para que não falte a ésta grande obra das minhas viagens o merito da erudição, e lhe não chamem livrinho da moda: estou resolvido a fazer a minha reputação com este livro.
Aid ôs te kalle ka aretês polis, Prôtoê sgathis hamartia deuteron de ais chunê Da belleza e virtude é a cidadella A innocencia primeiro―e depois ella.
Mas a auctoridade responde-se com auctoridade, e a texto com texto. E eu trago aqui na algibeira o meu Addison―um dos poucos livros que não largo nunca―e atiro com o philosopho inglez ao philosopho grego e fico triumphante: porque Addison não põe nada acima da modestia; e Addison, apezar da sua casaca de penneiros, é muito maior philosopho do que foi Démades com a sua tunica e o seu palio atheniense.
O erudito e amavel leitor escapará d'ésta vez a mais citações: compre um
Spectator
, que é livro sem que se não póde estar, e veja
passim
.
Eu gósto, bem se ve, de ir ao incôntro das objecções que me podem fazer; lembro-as eu mesmo paraque depois me não digam:―'Ah, ah! vinha a ver se pegava!'―Não senhor, não é o meu genero esse.
Francamente pois... eis-ahi o que poderão dizer:―'Addison foi secretario d'Estado, e então...'―Então o quê? Não concebem um secretario d'Estado philosopho, um ministro poeta, escriptor elegante, cheio de graça e de talento? Não, bem vejo que não: teem a idea fixa de que um ministro d'Estado hade ser por fôrça algum semsaborão, malcriado e petulante. Mas isto é nos paizes adiantados em que ja é indifferente para a coisa-pública, em que povo nem principe lhes não importa ja, em que mãos se intregam, a que cabeças se confiam. Em Inglaterra não é assim, nem era assim no tempo de Addison.
Fossem lá á rainha Anna que deixasse entrar no seu gabinete quatro calças de coiro sem criação nem instrucção, e não mais senão so porque este sabía jogar nos fundos, aquelle tinha boas tretas para o
canvassing
de umas eleições, o outro era figura importante no
Freemasson's-hall
!
Ja se ve que em nada d'isto ha a minima allusão ao feliz systema que nos rege: estou fallando de modestia, e nós vivemos em Portugal.
A modestia comtudo quando é excessiva e se aproxima do acanhamento, do que no mundo se chama
falta de uso
―póde ser n'um homem quasi defeito inteiro. Na mulher é sempre virtude, realce de belleza ás formosas, disfarce de fealdade ás que o não são.
Por mim, não conheço objecto mais lindo em toda a natureza, mais feiticeiro, mais capaz de arrebatar o espirito e inflammar o coração do que é uma joven donzella quando a modestia lhe faz subir o rubor ás faces, e o pejo lhe carrega brandamente nas palpebras... Pouco lume que tenha nos olhos, pouco regular que seja o semblante, menos airosa que seja a figura, parecer-vos-ha n'esse momento um anjo. E anjo é a virgem modesta, que traz no rosto debuxado sempre um ceo de virtudes...―De alguma belleza sei eu cujos olhos
côr da noite
ou de
saphyra
(
dialec. poet. vet.
), cujas faces de
leite e rosas
, dentes de
pérolas
, collo de
marfim
, transas de
ebano
(a allusão é surtida, ha onde escolher) davam larga materia a boas grozas de sonetos―no antigo regimen dos sonetos, e hoje inspirariam myriadas de canções descabelladas e vaporosas, choradas na harpa ou gemidas no alahude. Comtanto que não seja lyra, que é classico, todo o instrumento, inclusivamente a bandurra, é egual deante da lei romantica.
Ora pois, mas a tal belleza, por certo ar ala-moda, certo não-sei-quê de atrevido nos olhos, de deslavado na cara, e de descomposto nos ademanes, perde toda a graça e quasi a propria formosura de que a dotára a natureza...
Vêde-me aquelles labios de carmim. Ha maio florido que tam lindo botão de rosa apresente ao alvorecer da madrugada?... Mas olhae agora como o riso da malicia lh'o desfolha tam feiamente n'uma desconcertada risada...
Desvaneceu-se o prestigio.
Não havia moço nem velho, homem do mundo ou sabio de gabinete que não désse metade dos seus prazeres, dos seus livros, da sua vida por um so beijo d'aquella bôcca... Agora talvez nem repetidos
avances
lhe façam obter um namorante de profissão e officio... E hade pagá-lo adeantado, e porque preço!...
Mas o que terá tudo isto com a jornada da Azambuja ao Cartaxo? A mais íntima e verdadeira relação que é possivel. É que a pensar ou a sonhar n'estas coisas fui eu todo o caminho, até me achar no meio do pinhal da Azambuja.
Ahi parámos, e acordei eu.
Sou sujeito a éstas distracções, a este sonhar acordado. Que lhe heide eu fazer? Andando, escrevendo, sonho e ando, sonho e fallo, sonho e escrevo. Francamente me confesso de somnambulo, de somniloquo, de... Não, fica melhor com seu ar de grego (tenho hoje a bossa hellenica n'um estado de tumescencia pasmosa!); digamos somnilogo, somnigrapho...
A minha opinião sincera e
conscienciosa
é que o leitor deve saltar éstas folhas, e passar ao capitulo seguinte, que é outra casta de capitulo.
CAPITULO V.
Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e não o acha. Trabalha-se por explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo romantico.―Receita para fazer litteratura original com pouco trabalho.―Transição classica: Orpheu e o bosque do Ménalo.―Desce o A. d'estas grandes e sublimes considerações para as realidades materiaes da vida: é desamparado pela hospitaleira traquitana e tem de cavalgar na triste mula de arrieiro.―Admiravel choito do animal. Memorias do marquez do F. que adorava o choito.
Este é que é o pinhal da Azambuja?
Não póde ser.
Ésta, aquella antiga selva, temida quasi religiosamente como um bosque druidico! E eu que, em pequeno, nunca ouvia contar historia de Pedro de Mallas-artes, que logo, em imaginação, lhe não pozesse a scena aqui perto!... Eu que
esperava
topar a cada passo com a cova do capitão Roldão e da dama Leonarda!... Oh! que ainda me faltava perder mais ésta illusão...
Por quantas maldicções e infernos adornam o stylo d'um verdadeiro escriptor romantico, digam-me, digam-me: onde estão os arvoredos fechados, os sitios medonhos d'esta espessura. Pois isto é possivel, pois o pinhal da Azambuja é isto?... Eu que os trazia
promptos e recortados
para os collocar aqui todos os amaveis salteadores de Schiller, e os elegantes facinorosos do
Auberge-des-Adrets
, eu heide perder os meus chefes-d'obra! Que é perdê-los isto―não ter onde os pôr!..
Sim, leitor benevolo, e por ésta occasião te vou explicar como nós hoje em dia fazemos a nossa litteratura. Ja me não importa guardar segredo, depois d'esta desgraça não me importa ja nada. Saberás pois, ó leitor, como nós outros fazemos o que te fazemos ler.
Tracta-se de um romance, de um drama―cuidas que vamos estudar a historia, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulchros, os edificios, as memorias da epocha? Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nós o somos. Desenhar characteres e situações do
vivo
da natureza, collori-los das côres verdadeiras da historia... isso é trabalho difficil, longo, delicado, exige um estudo, um talento, e sôbretudo um tacto!... Não senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente. Eu lhe explico.
Todo o drama e todo o romance precisa de:
Uma ou duas damas,
Um pae,
Dois ou tres filhos, de dezanove a trinta annos,
Um criado velho,
Um monstro, incarregado de fazer as
maldades
,
Varios tractantes, e algumas pessoas capazes para intermedios.
Ora bem; vai-se aos figurinos francezes de Dumas, de Eug. Sue, de Victor-Hugo, e
recorta
a gente, de cadaum d'elles, as figuras que precisa, gruda-as sôbre uma folha de papel da côr da moda, verde, pardo, azul―como fazem as raparigas inglezas aos seus albums e scrapbooks; fórma com ellas os grupos e situações que lhe parece; não importa que sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se ás chronicas, tiram-se uns poucos de nomes e de palavrões velhos; com os nomes chrismam-se os figurões, com os palavrões
illuminam-se
... (stylo de pintor pinta-monos).―E aqui está como nós fazemos a nossa litteratura original.
E aqui está o precioso trabalho que eu agora perdi!
Isto não póde ser! Uns poucos de pinheiros raros e infezados atravez dos quaes se estão quasi vendo as vinhas e olivedos circumstantes!.. É o desapontamento mais chapado e solemne que nunca tive na minha vida―uma verdadeira logração em boa e antiga phrase portugueza.
E comtudo aqui é que devia ser, aqui é que é, geographica e topographicamente fallando, o bem conhecido e confrontado sitio do pinhal da Azambuja...
Passaria por aqui algum Orpheu que, pelos magicos podêres da sua lyra, levasse atraz de si as árvores d'este antigo e classico Menalo dos salteadores lusitanos?
Eu não sou muito difficil em admittir prodigios quando não sei explicar os phenomenos por outro modo. O pinhal da Azambuja mudou-se. Qual, de entre tantos Orpheus que a gente por ahi ve e ouve, foi o que obrou a maravilha, isso é mais difficil de dizer. Elles são tantos, e cantam todos tão bem! Quem sabe? Juntar-se-hiam, fariam uma companhia por acções, e negociariam um emprestimo harmonico com que facilmente se obraria então o milagre. É como hoje se faz tudo; é como se passou o thesoiro para o banco, o banco para as companhias de confiança... porque se não faria o mesmo com o pinhal da Azambuja?
Mas aonde está elle então? faz favor de me dizer...
Sim senhor, digo:
está consolidado
. E se não sabe o que isto quer dizer, leia os orçamentos, veja a lista dos tributos, passe pelos olhos os votos de confiança; e se depois d'isto, não souber aonde e como
se consolidou
o pinhal d'Azambuja, abandone a geographia que visivelmente não é a sua especialidade, e deite-se a finança, que tem
bossa
;―fazemo-lo eleger ahi por Arcozello ou pela cidade eterna―é o mesmo―vai para a commissão de fazenda―depois lord do thesoiro, ministro: é
escalla
, não offendia nem a rabujenta constituição de 38, quanto mais a carta.
O peior é que no meio d'estes campos onde Troia fôra, no meio d'estas areias onde se acoitavam d'antes os pallidos medos do pinhal da Azambuja, a minha querida e bemfazeja traquitana abandonou-me; fiquei como o bom
Xavier de Maistre
quando, a meia jornada do seu quarto, lhe perdeu a cadeira o equilibrio, e elle cahiu―ou ia caindo, ja me não lembro bem―estatellado no chão.
Ao chão estive eu para me atirar, como criança amuada, quando vi voltar para a Azambuja o nosso commodo vehiculo, e deante de mim a infezada mulinha asneira que―ai triste!―tinha de ser o meu transporte d'alli até Santarem.
Emfim o que hade ser, hade ser, e tem muita fôrça. Consolado com este tam verdadeiro quanto
elegante
proverbio, levantei o ânimo á altura da situação e resolvi fazer próva de homem forte e supportador de trabalhos. Bifurquei-me resignadamente sôbre o cilicio do esfarrapado albardão, tomei na esquerda as impermeaveis redeas de coiro cru, e lancei o animalejo ao seu mais largo trote, que era um confortavel e amenissimo choito, digno de fazer as delicias do meu respeitavel e excentrico amigo, o marquez do F.
Tinha a bossa, a paixão, a mania, a furia de choitar aquelle notavel fidalgo―o último fidalgo homem de lettras que deu ésta terra. Mas adorava o choito o nobre marquez. Conheci-o em París nos ultimos tempos da sua vida, ja octogenario ou perto d'isso: deixava a sua carruagem ingleza toda mollas e confortos para ir passear n'um certo cabriolet de praça que elle tinha marcado pelo sêcco e duro movimento vertical com que sacudia a gente. Obrigou-me um dia a experimenta-lo: era admiravel. Communicava-se da velha horsa normanda aos varaes, e dos varaes á concha do carro, tam inteiro e tam sem diminuição, o choito do execravel Babiéca! Nunca vi coisa assim. O marquez achava-lhe propriedades toni-purgativos, eu classifiquei-o de violentissimo drastico.
Foi um dos homens mais extraordinarios e o portuguez mais notavel que tenho conhecido, aquelle fidalgo.
Era feio como o peccado, elegante como um bugio, e as mulheres adoravam-n'o. Filho segundo, vivia de seus ordenados nas missões por que sempre andou, tractava-se grandiosamente, e legou valores consideraveis por sua morte. Imprimia uma obra sua, mandava tirar um unico exemplar, guardava-o e desmanchava as fòrmas....―Não acabo se coméço a contar historias do marquez do F.
Piquemos para o Cartaxo, que são horas.
CAPITULO VI.
Próva-se como o velho Camões não teve outro remedio senão misturar o maravilhoso da mythologia com o do christianismo.―Da-se razão, e tira-se depois, ao padre José Agostinho.―No meio d'estas disceptações academico-litterarias vem o A. a descobrir que para tudo é preciso ter fé n'este mundo. Diz-se n'este mundo, porque, quanto ao outro ja era sabido.―Os Lusíadas, Fausto e a Divina-Comedia.―Desgraça do Camões em ter nascido antes do romantismo.―Mostra-se como a Styge e o Cocyto sempre são melhores sitios que o Inferno e o Purgatorio.―Vai o A. em procura do marquez de Pombal, e dá com elle nas ilhas Beatas do poeta Alceu.―Partida de Whist entre os illustres finados.―Compaixão do marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.―Resposta d'elle e da sua luneta ás perguntas peralvilhas do A.―Chegada a este mundo e ao Cartaxo.
O mais notavel, e não sei se diga, se continuarei aomenos a dizer, o mais indesculpavel defeito que até aqui esgravataram criticos e zoilos na Iliada dos povos modernos, os immortaes
Lusiadas
, é sem-dúvida a heterogenea e heterodoxa mistura da theologia com a mythologia, do maravilhoso allegorico do paganismo, com os graves symbolos do christianismo. A fallar a verdade, e por mais figas que a gente queira fazer ao padre José Agustinho―ainda assim! ver o padre Baccho revestido
in pontificalibus
deante de um retabulo, não me lembra de que sancto, dizendo o seu
dominus vobiscum
provavelmente a algum acholyto bacchante ou corybante, que lhe responde o
et cum spiritu tuo!
.. não se póde; é uma que realmente... E então aquelle famoso conceito com que elle acaba, digno da Phenix-Renascida:
O falso deus adora o verdadeiro!
Desde que me intendo, que leio, que admiro os Lusiadas; interneço-me, chóro, insuberbeço-me com a maior obra de ingenho que ainda appareceu no mundo, desde a
Divina-Comedia
até ao
Fausto
...
O italiano tinha fé em Deus, o allemão no scepticismo, o portuguez na sua patria. É preciso crer em alguma coisa para ser grande―não so poeta―grande seja no que for. Uma Brizida velha que eu tive, quando era pequeno, era famosa chronista de historias da carochinha, porque sinceramente cria em bruxas. Napoleão cria na sua estrella, Lafayette creu na republica-rei de Luiz-Philippe; e, para que ousemos tambem
celebrare domestica facta
, todos os nossos grandes homens ainda hoje creem, um na juncta do crédito, outro nas classes inactivas, outro no mestre Adonirão, outro finalmente na belleza e realidade do systema constitucional que felizmente nos rege.
Mas essas crenças são para os que se fizeram grandes com ellas. A um pobre homem o que lhe fica para crer? Eu, apezar dos criticos, ainda creio no nosso Camões: sempre cri.
E comtudo, desde a edade da innocencia em que tanto me divertiam aquellas batalhas, aquellas aventuras, aquellas historias d'amores, aquellas scenas todas, tam naturaes, tam bem pintadas―até ésta fatal edade da experiencia, edade prosaica em que as mais bellas creações do espirito parecem macaquices deante das realidades do mundo, e os nobres movimentos do coração chymeras de enthusiastas―até ésta edade de saudades do passado e esperanças no futuro, mas sem gosos no presente―em que o amor da patria (tambem isto será phantasmagoria?), e o sentimento intimo do
bello
me dão na leitura dos Lusiadas outro deleite diverso, mas não inferior ao que n'outro tempo me deram―eu senti sempre aquelle grande defeito do nosso grande poema: e nunca pude, por mais que buscasse, achar-lhe, justificação não digo―nem siquer desculpa.
Mas até morrer aprender, diz o adagio: e assim é. E tambem é aphorismo de moral, applicavel outrosim a coisas litterarias: que para a gente achar a desculpa aos defeitos alheios, é considerar―é pôr-se uma pessoa nas mesmas circumstancias, ver-se involvido nas mesmas difficuldades.
Aqui estou eu agora dando toda a desculpa ao pobre Camões, com vontade de o justificar, e prompto (assim são as charidades d'este mundo) a sahir a campo de lança em reste e a quebrá-la com todo o antagonista que por aquelle fraco o atacar.―E porque será isto? Porque chegou a minha hora; e―
si parva licet componnere magnis
(a bossa proeminente hoje é a latina), aqui me acho eu com este meu capitulo nas mesmas difficuldades em que o nosso bardo se viu com o seu poema.
Ja preveni as observações com o texto acima: bem sei quem era Camões, e quem sou eu; mas tracta-se da
intalação
, que é a mesma apezar da differença dos intalados. O auctor dos Lusiadas viu-se intalado entre a crença do seu paiz e as brilhantes tradições da poesia classica que tinha por mestra e modêlo.
Não havia ainda então romanticos nem romantismo, o seculo estava muito atrazado. As odes de Victor-Hugo não tinham ainda desbancado as de Horacio; achavam-se mais lyricos e mais poeticos os esconjurios de Canidia, do que os pesadelos de um inforcado no oratorio; chorava-se com os
Tristes
de Ovidio, porque se não lagrimejava com as meditações de Lamartine. Andromacha despedindo-se de Heitor ás portas de Troia, Priamo supplicante aos pés do matador do seu filho, Helena luctando entre o remorso do seu crime e o amor de Páris, não tinham ainda sido eclipsados pelas declamações da mãe Eva ás grades do paraizo terreal. O combate de Achilles e Heitor, das hostes argivas com as troianas, não tinha sido mettido n'um chinello pelas batalhas campaes dos anjos bons e dos anjos maus á metralhada por essas nuvens. Dido chorando por Eneas não tinha sido reduzida a donzella choramigas d'Alfama carpindo pelo seu
Manel
que vae para a India...
Realmente o seculo estava muito atrazado: Milton não se tinha ainda sentado no logar de Homero, Shakspeare no de Euripedes, e lord Byron acima de todos: emfim não estava ainda anglizado o mundo, portanto
a marcha do intellecto
no mesmo terreno, é tudo uma miseria.
Ora pois, o nosso Camões, creador da epopea, e―depois do Dante―da poesia moderna, viu-se atrapalhado; misturou a sua crença religiosa com o seu credo poetico e fez,
tranchons le mot
, uma semsaboria.
E aqui direi eu com o vate Elmano:
Camões, grande Camões, quam similhante Acho teu fado ao meu quando os cotejo!
Vou fazer outra semsaboria eu, n'este bello capitulo da minha obra-prima. Que remedio! Preciso fallar com um illustre finado, preciso de evocar a sombra de um grande genio que hoje habita com os mortos. E onde irei eu? Ao inferno? Espero que a divina justiça se apiedasse d'elle na hora dos ultimos arrependimentos. Ao purgatorio, ao empyreo? Apezar do exemplo da
Divina Comedia
, não me atrevo a fazer comedias com taes logares de scena,―e não sei, não gósto de brincar com essas coisas.
Não lhe vejo remedio senão recorrer ao bem parado dos Elysios, da Styge, do Cocyto e seu termo: são terrenos neutros em que se póde parlamentar com os mortos sem compromettimento serio, e....
Eis-me ahi no êrro de Camões―e nas unhas dos criticos; e as zagunchadas a ferver em cima de mim, que fiz, que aconteci....
Mas, senhores, ponderem, venham ca: o que hade um homem fazer? O Dante não sei que gyria teve que baptisou Publio Virgilio Marão para lhe servir de cicerone nas regiões do inferno, do paraizo e do purgatorio christão, e teve tam boa fortuna que nem o queimou a Inquisição nem o descompoz a Crusca, nem siquer o mutilaram os censores, nem o perseguiram delegados por abuso de liberdade de imprensa, nem o mandaram para os dignos pares... Não se tinham ainda descoberto as mangações liberaes que se usam hoje: e as cartas que o povo tinha era a liberdade ganha e sustentada á ponta da espada, com muito coração e poucas palavras, muito patriotismo, poucas leis... e menos relatorios. Não havia em Florença nem gazeta para louvar as tolices dos ministros, nem ministros para pagar as tolices da gazeta.
O Dante foi proscripto e exilado, mas não se ficou a escrever, deu catanada que se regallou nos inimigos da liberdade da sua patria.
Quem dera ca um batalhão de poetas como aquelle!
Que fosse porêm um triste vate de hoje escrever no seculo das luzes o que escrevia o Dante no seculo das trevas! Os proprios philosophos gritavam: Que escandalo! Atheus professos clamavam contra a irreverencia; gentes que não teem religião, nem a de Mafoma, bradavam pela religião: entravam a pôr carapuças nas cabeças uns dos outros, cahiam depois todos sôbre o poeta, e―se o não podessem inforcar, pelo menos declaravam-n'o republicano, que dizem elles que é uma injúria muito grande.
Nada! viva o nosso Camões e o seu maravilhoso mistiforio; é a mais commoda invenção d'este mundo: vou-me com ella, e ralhe a crítica quanto quizer.
Quero procurar no reino das sombras não menor pessoa que o marquez de Pombal: tenho que lhe fazer uma pergunta séria antes de chegar ao Cartaxo. E nós ja vamos por entre as riccas vinhas que o circundam com uma zona de verdura e alegria. Depressa o ramo de oiro que me abra ao pensamento as portas fataes―depressa a unctuosa sopetarra com que heide atirar ás tres gargantas do canzarrão. Vamos...
Mas em que districto d'aquellas regiões acharei eu o primeiro ministro d'elrei D. José? Por onde está Ixion e Tantalo, por onde demora Sysipho e outros maganões que taes? Não; esse é um bairro muito triste, e arrisca-se a ter por administrador algum escandecido que me atice as orelhas.
Nos Elysios com o pae Anchises e outros barbaças classicos do mesmo jaez? Eu sei? tambem isso não. Hade ser n'aquellas ilhas bemaventuradas de que falla o poeta Alceu e onde elle poz a passear, por eternas verduras, as almas tyrannicidas de Harmódio e Aristógiton...
Oh! ésta agora!... Sebastião José de Carvalho e Mello, conde de Oeiras, marquez de Pombal, de companhia com os seus inimigos politicos!... Ahi é que se ingánam; não ha amigos nem inimigos politicos em se largando o mando e as pretenções a elle. Ora, passados os umbraes da eternidade, é de fé que se não pensa mais n'isso. C. J. X., que morreu a assignar uma portaria, ja tinha largado a penna
quando chegou alli pelos
Prazeres
; quanto mais!...
O homem hade estar nas ilhas
beatas
. Vamos lá...
E ei-lo alli: lá está o bom do marquez a jogar o whist com o barão de Bidefeld, com o imperador Leopoldo e com o poeta Diniz. A partida deve de ser interessante, talvez aposta essa gente toda―esses manes todos que estão á roda. Que cara que fez o marquez a um finadinho que lhe foi metter o nariz nas cartas! Quem havia de ser! O intromettido de M. de Talleyrand. Estava-lhe cahindo. Mas não viu nada: o nobre marquez sempre soube esconder o seu jôgo.
A mim é que elle ja me viu. 'Que diz? Ah!.. Sim senhor, sou portuguez; e venho fazer uma pergunta a V. Exa., esclarecer-me sôbre um ponto importante.'
Deitou-me a tremenda luneta.
―'Para que mandou V. Exa. arrancar as vinhas do Ribatejo?'
Apertou a luneta no sobrôlho e sorriu-se.
―'Ellas ahi estão centuplicadas, que até ja invadiram o pinhal de Azambuja. Fez V. Exa. um despotismo inutil; e agora...'
'Agora quem bebe por lá todo esse vinho?'
Não sabía o que lhe havia de responder. Elle sacudiu a cabelleira de anneis, virou-me as costas, deu o braço a Colbert, passou por-pé de Ricardo Smith e de J. Baptista Say, que estavam a disputar, incolheu os hombros em ar de compaixão, e foi-se por uma alameda muito viçosa que ia por aquelles deliciosos jardins dentro, e sumiu-se da nossa vista.
Eu surdi ca n'este mundo, e achei-me emcima da azemola, aopé do grande café do Cartaxo.
CAPITULO VII.
Reflexões importantes sôbre o Bois-de-Boulogne, as carruagens de mollas, Tortoni, e o café do Cartaxo.―Dos cafés em geral, e de como são o characteristico da civilização de um paiz.―O Alfageme.―Hecatombe involuntaria immolada pelo A.―Historia do Cartaxo.―Demonstra-se como a Gran'-Bretanha deveu sempre toda a sua fôrça e toda a sua glória a Portugal.―Shakspeare e Laffitte, Milton e Chateaumargot, Nelson e o principe de Joinville.―Próva-se evidentemente que M. Guizot é a ruina de Albion e do Cartaxo.
Voltar á meia-noite do
Bois-de-Boulogne
―o bosque por excellencia, descer, entre nuvens de poeira, o longo stadio dos Campos-Elysios, entrever, na rapida carreira, o obelisco de Luxor, as árvores das Tulherias, a columna da praça Vandomma, a magnificencia heteroclyta da 'Magdalena', e emfim sentir parar, de uma soffreada magistral, os dois possantes inglezes que nos trouxeram quasi de um folego até ao 'boulevard de Gand'; ahi entreabrir mollemente os olhos, levantando meio corpo dos regallados cochins de seda, e dizer: 'Ah! estamos em Tortoni... que delicia um sorvete com este calor!'―é seguramente, é dos prazeres maiores d'este mundo, sente-se a gente viver; é meia hora de existencia que vale dez annos de ser rei em qualquer outra parte do mundo.
Pois acredite-me o leitor amigo, que sei alguma coisa dos sabores e dissabores d'este mundo, fie-se na minha palavra, que é de homem experimentado: o prazer de chegar por aquelle modo a Tortoni, o apear da elegante caleche balançada nas mais suaves mollas que fabricasse arte ingleza do puro aço de Suecia, não alcança, não se compara ao prazer e consolação de alma e corpo que eu senti ao apear-me de minha choiteira mula á porta do grande café do Cartaxo.
Fazem idea do que é o café do Cartaxo? Não fazem. Se não viajam, se não sahem, se não vêem mundo ésta gente de Lisboa! E passam a sua vida entre o Chiado, a rua do Oiro e o theatro de San'Carlos, como hãode alargar a esphera de seus conhecimentos, desinvolver o espirito, chegar á altura do seculo?
Coroae-vos de alface, e ide jogar o bilhar, ou fazer sonetos á dama nova, ide, que não prestais para mais nada, meus queridos Lisboetas; ou discuti os deslavados horrores de algum mellodrama velho que fugiu assoviado da 'Porte-Saint Martin' e veio esconder-se na Rua-dos-Condes. Tambem podeis ir aos Toiros―estão imbolados, não ha perigo...
Viajar?.. qual viajar! até á Cova-da-Piedade, quando muito, em dia que lá haja cavallinhos. Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que todas as praças d'este mundo são como a do Terreiro-do-Paço, todas as ruas como a rua Augusta, todos os cafés como o do Marrare.
Pois não são, não: e o do Cartaxo menos que nenhum.
O café é uma das feições mais characteristicas de uma terra. O viajante experimentado e fino chega a qualquer parte, entra no café, observa-o, examina-o, estuda-o, e tem conhecido o paiz em que está, o seu govêrno, as suas leis, os seus costumes, a sua religião.
Levem-me de olhos tapados onde quizerem, não me desvendem senão no café; e protesto-lhe que em menos de dez minutos lhe digo a terra em que estou se for paiz sublunar.
Nós entrámos no café do Cartaxo, o grande café do Cartaxo; e nunca se incruzou turco em divan de seda do mais splendido
harem
de Constantinopla com tanto gôso de alma e satisfacção de corpo, como nós nos sentámos nas duras e asperas tábuas das esguias banquetas mal sarapintadas que ornam o magnífico estabelecimento bordalengo.
Em poucas linhas se descreve a sua simplicidade classica: será um parallelogrammo pouco maior que a minha alcova; á esquerda duas mezas de pinho, á direita o mostrador invidraçado onde campeam as garrafas obrigadas de liquor de amendoa, de canella, de cravo. Pendem do tecto, laboriosamente arrendados por não vulgar tesoira, os pingentes de papel, convidando a lascivo repouso a inquieta raça das moscas. Reina uma frescura admiravel n'aquelle recinto.
Sentámo-nos, respirámos largo, e entrámos em conversa com o dono da casa, homem de trinta a quarenta annos, de physionomia experta e sympathica, e sem nada do repugnante villão-ruim que é tam usual de incontrar por similhantes logares da nossa terra.
―'Então que novidades ha por ca pelo Cartaxo, patrão?'
―'Novidades! Por aqui não temos senão o que vem de Lisboa.―Ahi está a 'Revolução' de hontem...'
―'Jornaes, meu caro amigo! Vimos fartos d'isso. Diga-nos alguma coisa da terra. Que faz por ca o...'
―'O mestre J. P., o 'Alfageme?''
―'Como assim o Alfageme?'
―'Chamam-lhe o Alfageme ao mestre J. P.: pois então! Uns senhores de Lisboa que ahi estiveram em casa do Sr. D. poseram-lhe esse nome, que a gente bem sabe o que é; e ficou-lhe, que agora ja ninguem lhe chama senão o Alfageme. Mas quanto a mim, ou elle não é Alfageme, ou não o hade ser muito tempo. Não é aquelle, não. Eu bem me intendo.'
A conversação tornava-se interessante, especialmente para mim: quizemos profundar o caso.
―'Muito me conta, Sr. patrão! Com que isto de ser Alfageme, parece-lhe que é coisa de?..
―'Parece-me o que é, e o que hade parecer a todo o mundo. E alguma coisa sabemos, ca no Cartaxo, do que vai por elle.
O verdadeiro Alfageme diz que era um espadeiro ou armeiro, cutileiro ou coisa que o valha, na Ribeira de Santarem; e que foi um homem capaz, e que tinha pelo povo, e que não queria saber de partidos, e que dizia elle: 'Rei que nos inforque, e papa que nos excommungue, nunca hade faltar. Assim, deixar os outros brigar, trabalhemos nós e ganhemos a nossa vida.' Mas que extrangeiros que não queria, que ésta terra que era nossa e co'a nossa gente se devia de governar. E mais coisas assim: e que porfim o deram por traidor e lhe tiraram quanto tinha.―Mas que lhe valeu o Condestavel e o não deixou arrazar, por que era homem de bem e fidalgo ás direitas. Pois não é assim que foi?'
―'É, sim, meu amigo. Mas então d'ahi?'
―'Então d'ahi o que se tira, é que quando havia fidalgos como o sancto Condestavel tambem havia Alfagemes como o de Santarem. E mais nada.'
―'Perfeitamente. Mas porque chamaram ao mestre P. o Alfageme do Cartaxo?'
―'Eu lhe digo aos senhores: o homem nem era assim nem era assado. Fallava bem, tinha sua labia com o povo. D'ahi fez-se juiz, pôs por ahi suas coisas a direito―Deus sabe as que elle intortou tambem!.. ganhou nome no povo, e agora faz d'elle o que quer. Se lhe der sempre para bem, bom será.―Os senhores não tomam nada?'
O bom do homem visivelmente não queria fallar mais: e não deviamos importuná-lo. Fizemos o sacrificio de bom número de limões que expremémos em profundas taças―vulgo, copos de canada―e com agua e assucar, offerecemos as devidas libações ao genio do logar.
Infelizmente o sacrificio não foi detodo incruento. Muitas hecatombes de myrmidões cahiram no holocausto, e lhe deram um cheiro e sabor que não sei se agradou á divindade, mas que injoou terrivelmente aos sacerdotes.
Sahimos a visitar o nosso bom amigo, o velho D., a honra e a alegria do Ribatejo. Ja elle sabía da nossa chegada, e vinha no caminho para nos abraçar.
Fomos dar, junctos, uma volta pela terra.
É das povoações mais bonitas de Portugal, o Cartaxo, aceada, alegre; parece o bairro suburbano de uma cidade.
Não ha aqui monumentos, não ha historia antiga: a terra é nova, e a sua prosperidade e crescimento datam de trinta ou quarenta annos, desde que o seu vinho começou a ter fama. Ja descahida do que foi, pela estagnação d'aquelle commercio, ainda é comtudo a melhor coisa da Borda-d'agua.
Não tem historia antiga, disse; mas tem-n'a moderna e importantissima.
Que memorias aqui não ficaram da guerra peninsular! Que espantosas borracheiras aqui não tomaram os mais famosos generaes, os mais distinctos militares da nossa
antiga e fiel
alliada, que ainda então, ao menos, nos bebia o vinho!
Hoje nem isso!.. hoje bebe a jacobina zurrapa de Bordeos, e as acerbas limonadas de Borgonha. Quem tal diria da conservativa Albion! Como póde uma leal goella britannica, rascada pelos acidos anarchicos d'aquellas vinagretas francezas, intoar devidamente o God-save-the-King em um
toast
nacional! Como, sem Porto ou Madeira, sem Lisboa, sem Cartaxo, ousa um subdito britannico erguer a voz, n'aquella harmoniosa desafinação insular que lhe é propria e que faz parte de seu respeitavel character nacional―faz; não se riam: o inglez não canta senão quando bebe... alias quando está
bebido
.
Nisi potus ad arma ruisse.
Inverta:
Nisi potus in cantum prorumpisse
... E pois, como hade elle assim
bebido
erguer a voz n'aquelle sublime e tremendo hymno popular Rulle-Britannia!
Bebei, bebei bem zurrapa franceza, meus amigos inglezes; bebei, bebei a pêso de oiro, essas limonadas dos burgraves e margraves de Allemanha; chamae-lhe, para vos illudir, chamae-lhe
hoc
, chamae-lhe
hic
, chamae-lhe o
hic haec hoc
todo, se vos dá gôsto... que em poucos annos veremos o estado de
acetato
a que hade ficar reduzido o vosso character nacional.
Oh gente cega a quem Deus quer perder! pois não vêdes que não sois nada sem nós, que sem o nosso alchool, d'onde vos vinha espirito, sciencia, valor, ides cahir infallivelmente na antiga e priguiçosa rudeza saxonia!
D'essas traidoras praias da França donde vos vai hoje o veneno corrosivo da vossa indole e da vossa fôrça, não tardará que tambem vos chegue outro Guilherme bastardo que vos conquiste e vos castigue, que vos faça arrepender, mas tarde, do criminoso êrro que hoje commetteis, ó insulares sem fe, em abandonar a nossa alliança. A nossa alliança sim, a nossa poderosa alliança, sem a qual não sois nada.
O que é um inglez sem Porto ou Madeira... sem Carcavellos ou Cartaxo?
Que se inspirasse Shakspeare com Lafitte, Milton com Chateaumargot―o chanceller Bacon que se dilluisse no melhor Borgonha... e veriamos os acidulos versinhos, os destemperados raciocininhos que faziam.
Com todas as suas dietas, Newton nunca se lembrou de beber Johannisberg; Byron antes beberia
gin
, antes agua do Thamisa, ou do Pamiso, do que essas escorreduras das areias de Bordeos.
Tirae-lhe o Porto aos vossos almirantes, e ninguem mais teme que torneis a ter outro Nelson. Entra nos planos do principe de Joinville fazer-vos beber da sua zurrapa: são tantos pontos de partido que lhe dais no seu jôgo.
É M. Guizot quem perde a Inglaterra com a sua alliança; e tambem perde o Cartaxo. Por isso eu ja não quero nada com os doutrinarios.
Ha dôze annos tornou o Cartaxo a figurar conspicuamente na historia de Portugal. Aqui, nas longas e terriveis luctas da última guerra de
successão
, esteve muito tempo o quartel-general do marquez de Saldanha.
Alguns dythirambos se fizeram; alguns echos das antigas canções bacchicas do tempo da guerra peninsular ainda acordaram ao som dos hymnos constitucionaes.
Mas o systema liberal, tirada a epocha das eleições, não é grande coisa para a indústria vinhateira, dizem. Eu não o creio porém; e tenho minhas boas razões, que ficam para outra vez.
CAPITULO VIII.
Sahida do Cartaxo―A charneca. Perigo imminente em que o A. se acha de dar em poeta e fazer versos.―Ultima revista do imperador D. Pedro ao exército liberal.―Batalha de Almoster.―Waterloo.―Declara o A. solemnemente que não é philosopho e chega á ponte da Asseca.
Eram dadas cinco da tarde, a calma declinava; montámos a cavallo, e cortámos por entre os viçosos pampanos que são a glória e a belleza do Cartaxo; as mulinhas tinham refrescado cado e tomado ânimo; breve, nos achámos em plena charneca.
Bella e vasta planicie! Desafogada dos raios do sol, como ella se desenha ahi no horisonte tam suavemente! que delicioso aroma selvagem que exhalam éstas plantas, acres e tenazes de vida, que a cobrem, e que resistem verdes e viçosas a um sol portugez de julho!
A doçura que mette n'alma a vista refrigerante de uma joven seara do Ribatejo nos primeiros dias de abril, ondulando lascivamente com a brisa temperada da primavera,―a amenidade bucolica de um campo minhoto de milho, á hora da rega, por meados de agosto, a ver-se-lhe pullar os caules com a agua que lhe anda por pé, e á roda as carvalheiras classicamente desposadas com a vide cuberta de racimos pretos―são ambos esses quadros de uma poesia tam graciosa e cheia de mimo, que nunca a dei por bem traduzida nos melhores versos de Theocrito ou de Virgilio, nas melhores prosas de Gesner ou de Rodrigues-Lobo.
A majestade sombria o solemne de um bosque antigo e copado, o silencio e escuridão de suas moitas mais fechadas, o abrigo solitario de suas clareiras, tudo é grandioso, sublime, inspirador de elevados pensamentos. Medita-se alli por fôrça; isola-se a alma dos sentidos pelo suave adormecimento em que elles cahem... e Deus, a eternidade―as primitivas e innatas ideas do homem―ficam unicas no seu pensamento...
É assim. Mas um rochedo em que me eu sente ao pôr do sol na gandra erma e selvagem, vestida apenas de pastio bravo, baixo, e tosqueado rente da bôcca do gado―diz-me coisas da terra e do ceo que nenhum outro espectaculo me diz na natureza. Ha um vago, um indeciso, um vaporoso n'aquelle quadro que não tem nenhum outro.
Não é o sublime da montanha, nem o augusto do bosque, nem o ameno do valle. Não ha ahi nada que se determine bem, que se possa definir positivamente. Ha a solidão que é uma idea negativa...
Eu amo a charneca.
E não sou romanesco. Romantico, Deus me livre de o ser―ao menos, o que na algaravia de hoje se intende por essa palavra.
Ora a charneca d'entre Cartaxo e Santarem, áquella hora que a passámos, começava a ter esse tom, e a achar-lhe eu esse incanto indefinivel.
Sentia-me disposto a fazer versos... a quê? Não sei.
Felizmente que não estava so; e escapei de mais essa caturrice.
Mas foi como se os fizesse, os versos, como se os estivesse fazendo, porque me deixei cahir n'um verdadeiro estado poetico de distracção, de mudez―cessou-me a vida toda de
relação
, e não me sentia existir senão por dentro.
Derepente acordou-me do lethargo uma voz que bradou:―'Foi aqui!... aqui é que foi, não ha dúvida'.
―'Foi aqui o quê?'
―'A última revista do imperador'.
―'A última revista! Como assim a última revista! Quando? Pois?...'
Então cahi completamente em mim, e recordei-me, com amargura e desconsolação, dos tremendos sacrificios a que foi condemnada ésta geração, Deus sabe para quê―Deus sabe se para expiar as faltas de nossos passados, se para comprar a felicidade de nossos vindouros...
O certo é que alli comeffeito passára o imperador D. Pedro a sua última revista ao exército
Toda a guerra civil é triste.
E é difficil dizer para quem mais triste, se para o vencedor ou para o vencido.
Ponham de parte questões individuaes, e examinem de boa fé: verão que, na totalidade de cada facção em que a nação se dividiu, os ganhos, se os houve para quem venceu, não balançam os padecimentos, os sacrificios do passado, e menos que tudo, a responsabilidade pelo futuro...
Eu não sou philosopho. Aos olhos do philosopho, a guerra civil e a guerra extrangeira, tudo são guerras que elle condemna―e não mais uma do que a outra... a não ser Hobbes o ditto philosopho, o que é coisa muito differente.
Mas não sou philosopho, eu: estive no campo de Waterloo, sentei-me aopé do Leão de bronze sôbre aquelle monte de terra amassado com o sangue de tantos mil, vi―e eram passados vinte annos―vi luzir ainda pela campina os ossos brancos das victimas que alli se immolaram a não sei quê... Os povos disseram que á liberdade, os reis que á realeza... Nenhuma d'ellas ganhou muito, nem para muito tempo com a tal victoria...
Mas deixemos isso. Estive alli, e senti bater-me o coração com essas recordações, com essas memorias dos grandes feitos e gentilezas que alli se obraram.
Porque será que aqui não sinto senão tristeza?
Porque luctas fratricidas não podem inspirar outro sentimento e porque...
Eu moía comigo so éstas amargas reflexões, e toda a belleza da charneca desappareceu deante de mim.
N'esta desagradavel disposição de ânimo chegámos á ponte d'Asseca.
CAPITULO IX.
Prolegomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente levam, apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsideração do capitulo antecedente.―Livros que não deviam ter titulo, e titulos que não deviam ter livro.―Dos poetas d'este seculo. Bonaparte, Rotchild e Silvio-Péllico.―Chega-se ao fim d'estas reflexões e á ponte da Asseca.―Traducção portugueza de um grande poeta.―Origem de um dictado.―Junot na ponte da Asseca.―De como o A. d'este livro foi jacobino desde pequeno.―Inguiço que lhe deram.―A duqueza de Abrantes.―Chega-se emfim ao val de Santarem.
Vivia aqui ha coisa de cinquenta para sessenta annos, n'esta boa terra de Portugal, um figurão exquisitissimo que tinha inquestionavelmente o instincto de descobrir assumptos dramaticos nacionaes―ainda, ás vezes, a arte de desenhar bem o seu quadro, de lhe grupar, não sem mérito, as figuras: mas ao pô-las em acção, ao collori-las, ao fazê-las fallar... boas noites! era semsaboria irremediavel.
Deixou uma collecção immensa de peças de theatro que ninguem conhece, ou quasi ninguem, e que nenhuma soffreria, talvez, representação; mas rara é a que não poderia ser arranjada e appropriada á scena.
Que mina tam ricca e fertil para qualquer mediano talento dramatico! Que bellas e portuguezas coisas se não podem extrahir dos treze volumes―são treze volumes e grandes!―do theatro de Ennio-Manuel de Figueiredo! Algumas d'essas peças, com bem pouco trabalho, com um dialogo mais vivo, um stylo mais animado, fariam comedias excelentes.
Estão-me a lembrar éstas:
'O Casamento da Cadea'―ou talvez se chame outra coisa, mas o assumpto é este; comedia cujos characteres são habilmente esboçados, funda-se n'aquella nossa antiga lei que fazia casar da prisão os que assim se suppunha podêrem reparar certos damnos de reputação feminina.
'O fidalgo de sua casa', satyra mui graciosa de um tam commum ridiculo nosso.
'As duas educações', bello quadro de costumes: são dois rapazes, ambos extrangeiramente educados, um francez, outro inglez, nenhum portuguez. É eminentemente comico, frisante, ou, segundo agora se diz á moda, 'palpitante de actualidade.'
'O cioso', comedia ja remoçada da antiga comedia de Ferreira e que em si tem os germens todos da mais ricca e original composição.
'O avaro dissipador', cujo so titulo mostra o ingenho e invenção de quem tal assumpto concebeu: assumpto ainda não tractado por nenhum de tantos escriptores dramaticos de nação alguma, e que é todavia um vulgar ridiculo, todos os dias incontrado no mundo.
São muitas mais, não fica n'estas, as composiçõe São muitas mais, não fica n'estas, as composições do fertilissimo escriptor que, passadas pelo crivo de melhor gôsto, e animadas sôbretudo no stylo, fariam um razoavel repertorio para acudir á mingua dos nossos theatros.
Uma das mais semsabores porêm, a que vulgarmente se haverá talvez pela mais semsabor, mas que a mim mais me diverte pela ingenuidade familiar e sympathica de seu tom magoado e melancholicamento chocho, é a que tem por titulo 'Poeta em annos de prosa'.
E foi por ésta, foi por amor d'esta que me eu deixei descahir na digressão dramatico-litteraria do princípio d'este capitulo; pegou-se-me á penna porque se me tinha pregado na cabeça; e ou o capitulo não sabia, ou ella havia de sahir primeiro.
Poeta em annos de prosa! Oh Figueiredo, Figueiredo, que grande homem não foste tu, pois imaginaste este titulo que so elle em si é um volume! Ha livros, e conheço muitos, que não deviam ter titulo, nem o titulo é nada n'elles.
Faz favor de me dizer o de que serve, o que significa o 'Judeu errante' pôsto no frontispicio d'esse interminavel e mercatorio romance que ahi anda pelo mundo, mais errante, mais sem fim, mais immorredoiro que o seu prototypo?
E ha titulos tambem que não deviam ter livro, porque nenhum livro é possivel escrever que os desimpenhe como elles merecem.
'Poeta em annos de prosa' é um d'esses.
Eu não leio nenhuma das raras coisas que hoje se escrevem verdadeiramente bellas, isto é, simples, verdadeiras, e por consequencia sublimes, que não exclame com sincero pesadume ca de dentro: 'Poeta em annos de prosa!'
Pois este é seculo para poetas? ou temos nós poetas para este seculo?..
Temos sim, eu conheço tres: Bonaparte, Silvio-Péllico e o barão de Rotchild.
O primeiro fez a sua Iliada com a espada, o segundo com a paciencia, o último com o dinheiro.
São os tres agentes, as tres entidades, as tres divindades da epocha.
Ou cortar com Bonaparte, ou comprar com Rotchild, ou soffrer e ter paciencia com Silvio-Péllico.
Todo o que fizer d'outra poesia―e d'outra prosa tambem―é tolo...
Vieram-me éstas mui judiciosas reflexões a proposito do capitulo antecedente d'esta minha obra prima; e lancei-as aqui para instrucção e edificação do leitor benevolo.
Acabei com ellas quando chegámos á ponte da Asseca.
Esquecia-me dizer que d'aquelles tres grandes poetas so um está traduzido em portuguez―o Rotchild: não é litteral a traducção, agallegou-se e ficou muito suja de erros de imprensa mas como não ha outra...
Ora d'onde veio este nome da Asseca? Algures aqui perto deve de haver sitio, logar ou coisa que o valha, com o nome de Meca; e d'ahi talvez o admiravel rifão portuguez que ainda não foi bem examinado como devia ser, e que decerto incerra algum grande dictame de moral primitiva: 'andou por Secca (Asseca?) e Meca e olivaes de Santarem.'―Os taes olivaes ficam logo adiante. É uma ethymologia como qualquer outra.
A ponte da Asseca corta uma varzea immensa que hade ser um vasto pahul de hynverno: ainda agora está a desangrar-se em agua por toda a parte.
É notavel na historia moderna este sítio. Aqui n'um recontro com os nossos, foi Junot gravemente ferido, ferido na cara.
'Il ne sera plus beau garçon'
disse o parlamentario francez que veio, depois da acção, tractar, creio eu, de troca de prisioneiros ou de coisa similhante. Mas inganou-se o parlamentario; Junot ainda ficou muito guapo e gentil homem depois d'isso.
Tenho pena de nunca ter visto o Junot nem o Maneta,
[1]
as duas primeiras notabilidades que ouvi aclamar como taes e cujos nomes conhecí... Ingano-me: conheci primeiro o nome de Bonaparte. E lembra-me muito bem que nunca me persuadi que elle fossa o monstro disforme e horroroso que nos pintavam frades e velhas n'aquelle tempo. Imaginei sempre que, para excitar tantos odios e malquerenças, era necessario que fosse um bem grande homem.
Desde pequeno que fui jacobino; ja se ve: e de pequeno me custou caro. Levei bons puchões de orelhas de meu pae por comprar na feira de San'Lazaro, no Porto, em vez das gaitinhas ou dos registos de sanctos, ou das outras bogigangas que os mais rapazes compravam... não imaginam o quê... um retrato de Bonaparte.
Foi 'inguiço'―diria uma senhora do meu conhecimento que accredita n'elles: foi inguiço que aínda se não desfez e que toda a vida me tem perseguido.
Quem me diria quando, por esse primeiro peccado politico da minha infancia, por esse primeiro tractamento duro, e―perdoe-me a respeitada memoria de meu sancto pae!―injustissimo, que me trouxe o mero instincto das ideas liberaes, quem me diria que eu havia de ser perseguido por ellas toda a vida! que apenas sahido da puberdade havia de ir a essa mesma França, á patria d'esses homens e d'essas ideas com quem a minha natureza sympathysava sem saber porquê, buscar asylo e guarida?
Não vi ja quasi nenhum d'aquelles que tanto desejára conhecer; as ruinas do grande imperio estavam dispersas; os seus generaes mortos, desterrados, ou trajavam interesseiros e covardes as librés do vencedor...
De todas as grandes figuras d'essa epocha, a que melhor conheci e tractei foi uma senhora, typo de graça, de amabilidade e de talento. Pouco foi o nosso tracto, mas quanto bastou para me incantar, para me formar no espirito um modêllo de valor e merecimento feminino que me veio a fazer muito mal.
Custa depois a encher aquella altura que se marcou...
Eis aqui como eu fiz esse conhecimento.
Inda o estou vendo, coitado! o pobre C. do S., nobre, espirituoso, cavalheiro, fazendo-se perdoar todos os seus prejuizos de casta, que tinha como ninguem, por aquella polidez superior e affabilidade elegante que distingue o verdadeiro fidalgo (stylo antigo); inda o estou vendo, ja sexagenario, ja mais que 'ci-devant jeun'homme', o pescoço intallado na inflexivel gravata, os pés pegando-se-lhe, como os de Ovidio, ao limiar da porta―não que lh'os prendessem saudades, senão que lh'os paralysava a cakexia incipiente―mas o espirito joven a reagir e a teimar.
―'Vamos!' disse elle 'hoje estou bom, sinto-me outro: quero apresentá-lo a madame de Abrantes. Está tam velha! Isto de mulheres não são como nós, passam muito depressa.'
E o desgraçado tremiam-lhe as pernas, e suffocava-o a tosse.
Tomámos uma 'citadine', e fomos comeffeito á nova e elegante rua chamada não impropriamente a rua de Londres, onde achámos rodeada de todo o esplendor do seu occaso aquella formosa estrella do imperio.
Não quero dizer que era uma belleza; longe d'isso. Nem bella nem môça, nem airosa de faser impressão era a duqueza d'Abrantes. Mas em meia hora de conversação, de tracto, descubriam-se-lhe tantas graças, tanto natural, tanta amabilidade, um complexo tam verdadeiro e perfeito da mulher franceza, a mulher mais seductora do mundo, que involuntariamente se dizia a gente no seu coração: 'Como se está bem aqui!'
Fallámos de Portugal, de Lisboa, do imperio―da restauração, da revolução de julho (isto era em 1831), de M. de Lafayette, de Luiz-Philippe, de Chateaubriand―o seu grande amigo d'ella―
do
Sacré-Coeur
e das suas elegantes devotas―fallámos artes, poesia, politica... e eu não
tinha ânimo
para acabar de conversar...
Benevolo e paciente leitor, o que eu tenho decerto ainda é consciencia, um resto de consciencia: acabemos com éstas digressões e perennaes divagações minhas. Bem vejo que te deixei parado á minha espera no meio da ponte d'Asseca. Perdoa-me por quem es, dêmos d'espora ás mulinhas, e vamos que são horas.
Ca estâmos n'um dos mais lindos e deliciosos sitios da terra: o valle de Santarem, patria dos rouxinoes e das madresilvas, cincta de faias bellas e de loureiros viçosos. D'isto é que não tem París, nem França nem terra alguma do occidente senão a nossa terra, e vale bem por tantas, tantas coisas que nos faltam.
CAPITULO X.
Valle de Santarem―Namora-se o A. de uma janella que ve por entre umas árvores.―Conjecturas várias a respeito da ditta janella.―Similhança do poeta com a mulher namorada, e inquestionavel inferioridade do homem que não é poeta.―Os rouxinoes. Reminiscencia de Bernardim Ribeiro e das suas saudades.―De como o A. tinha quasi completo o seu romance, menos um vestido branco e uns olhos pretos.―Sahem verdes os olhos com grande admiração e pasmo seu.―Verificam-se as conjecturas sôbre a mysteriosa janella.―A menina dos rouxinoes.―Censura das damas muito para temer, crítica dos elegantes muito para rir.―Começa o primeiro episodio d'esta Odyssea.
O valle de Santarem é um d'estes logares privilegiados pela natureza, sitios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo está n'uma harmonia suavissima e perfeita: não ha alli nada grandioso nem sublime, mas ha uma como symetria de côres, de sons, de disposição em tudo quanto se ve e se sente, que não parece senão que a paz, a saude, o socêgo do espirito e o repouso do coração devem viver alli, reinar alli um reinado de amor e benevolencia. As paixões más, os pensamentos mesquinhos, os pezares e as villezas da vida não podem senão fugir para longe. Imagina-se por aqui o Eden que o primeiro homem habitou com a sua innocencia e com a virgindade do seu coração.
Á esquerda do valle, e abrigado do norte pela montanha que alli se corta quasi a pique, está um masisso de verdura do mais bello viço e variedade. A faia, o freixo, o alamo enterlaçam os ramos amigos; a madresilva, a musqueta penduram de um a outro suas grinaldas e festões; a congossa, os fettos, a malva-rosa do vallado vestem e alcatifam o chão.
Para mais realçar a belleza do quadro, ve-se por entre um claro das árvores a janella meia aberta de uma habitação antiga mas não dilapidada―com certo ar de confôrto grosseiro, e carregada na côr pelo tempo e pelos vendavais do sul a que está exposta. A janella é larga e baixa; parece mais ornada e tambem mais antiga que o resto do edificio que todavia mal se ve...
Interessou-me aquella janella.
Quem terá o bom gôsto e a fortuna de morar alli?
Parei e puz-me a namorar a janella.
Incantava-me, tinha-me alli como n'um feitiço.
Pareceu-me entrever uma cortina branca... e um vulto por de traz... Imaginarão decerto! Se o vulto fosse feminino!.. era completo o romance.
Como hade ser bello ver pôr o sol d'aquella janella!..
E ouvir cantar os rouxinoes!..
E ver raiar uma alvorada de maio!..
Se haverá alli quem a aproveite, a deliciosa janella?.. quem apprecie e saiba gosar todo o prazer tranquillo, todos os sanctos gosos de alma que parece que lhe andam esvoaçando em tôrno?
Se fôr homem é poeta; se é mulher está namorada.
São os dois entes mais parecidos da natureza, o poeta e a mulher namorada: vêem, sentem, pensam, fallam como a outra gente não ve, não sente, não pensa nem falla.
Na maior paixão, no mais acrysolado affecto do homem que não é poeta, entra sempre o seu tanto da vil prosa humana: é liga sem que se não lavra o mais fino de seu oiro. A mulher não; a mulher apaixonada devéras sublima-se, idealiza-se logo, toda ella é poesia; e não ha dor physica, interêsse material, nem deleites sensuaes que a façam descer ao positivo da existencia prosaica.
Estava eu n'estas meditações, começou um rouxinol a mais linda e desgarrada cantiga que ha muito tempo me lembra de ouvir.
Era aope da ditta janella!
E respondeu-lhe logo outro do lado opposto; e travou-se entre ambos um desafio tam regular, em strophes alternadas tam bem medidas, tam accentuadas e perfeitas, que eu fiquei todo dentro do meu romance, esqueci-me de tudo o mais.
Lembrou-me o rouxinol de Bernardim-Ribeiro, o que se deixou cahir n'agua de cançado.
O arvoredo, a janella, os rouxinoes... áquella hora, o fim da tarde... que faltava para completar o romance?
Um vulto feminino que viesse sentar-se áquele balcão―vestido de branco―oh! branco por fôrça... a frente descahida sôbre a mão
esquerda
, o braço direito pendente, os olhos alçados ao ceo... De que côr os olhos? Não sei, que importa! é amiudar muito demais a pintura, que deve ser a grandes e largos traços para ser romantica, vaporosa, desenhar-se no vago da idealidade poetica...
―'Os olhos, os olhos...' disse eu pensando ja alto, e todo no meu extasi, 'os olhos... pretos.'
―'Pois eram verdes!'
―'Verdes os olhos... d'ella, do vulto da janella?'
―'Verdes como duas esmeraldas orientaes, transparentes, brilhantes, sem preço.'
―'Quê! pois realmente?.. É gracejo isso, ou realmente ha alli uma mulher, bonita, e?..'
―'Alli não ha ninguem―ninguem que se nomeie hoje, mas houve... oh! houve um anjo, um anjo, que deve de estar no ceo.'
―'Bem dizia eu que aquella janella...'
―'É a janella dos rouxinoes.'
―'Que lá estão a cantar.'
―'Estão, esses lá estão ainda como ha dez annos―os mesmos ou outros, mas a
menina dos rouxinoes
foi-se e não voltou.'
―'A menina dos rouxinoes! que historia é essa? Pois devéras tem
uma historia
aquella janella?'
―'É um romance todo inteiro,
todo feito
como dizem os francezes e conta-se em duas palavras.'
―'Vamos a elle. A menina dos rouxinoes, menina com olhos verdes! Deve ser interessantissimo. Vamos á historia ja.'
―'Pois vamos. Apeemo'-nos e descancemos um bocado.'
Ja se ve que este dialogo passava entre mim e outro dos nossos companheiros de viagem.
Apeámo'-nos comeffeito; sentamo'-nos; e eisaqui a historia da
menina dos rouxinoes
como ella se contou.
É o primeiro episodio da minha Odyssea: estou com medo de entrar n'elle porque dizem as damas e os elegantes da nossa terra que o portuguez não é bom para isto, que em francez que ha outro não-sei-quê...
Eu creio que as damas que estão mal informadas, e sei que os elegantes que são uns tolos; mas sempre tenho meu receio, porque emfim, enfim, d'elles me rio eu, mas poesia ou romance, musica ou drama de que as mulheres não gostem, é porque não presta.
Ainda assim, bellas e amaveis leitoras, intendamo'nos: o que eu vou contar não é um romance, não tem aventuras inredadas, peripecias, situações e incidentes raros; é uma historia simples e singella, sinceramente contada e sem pretenção.
Acabemos aqui o capitulo em fórma de prologo, e a materia do meu conto para o seguinte.
CAPITULO XI.
Tracta-se do unico privilegio dos poetas que tambem os philosophos quizeram tirar, mas não lhes foi concedido; aos romancistas sim.―Exemplo de Aristoteles e Anacreonte.―O A., tendo declarado no capitulo nono d'esta obra que não era philosopho, agora confessa, quasi solemnemente, que é poeta, e pretende manter-se, como tal, em seu direito.―De como S. M. elrei de Dinamarca tinha menos juizo do que Yorick, seu bobo.―Doutrina d'este. Funda n'ella o A. o seu admiravel systema de physiologia e pathologia transcendente do coração. Por uma deducção appertada e cerrada da mais constrangente logica vem a dar-se no motivo porque foi concedido aos poetas o direito indefinido de andarem sempre namorados.―Applicam-se todas éstas grandes theorias á posição actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no capitulo antecedente.―Modestia e reserva delicada o obrigam a duvidar da sua qualificação para o desimpenho: pede votos ás amaveis leitoras. Decide-se que a votação não seja nominal, e porquê.―Dido e a mana Annica.―Entra-se emfim na prometida historia.―De como a velha estava á porta a dobar, e imbaraçando-se-lhe a meada, chamou por Joaninha, sua neta.
Este é o unico privilegio dos poetas: que até morrer podem estar namorados. Tambem não lhes conheço outro. A mais gente tem as suas epochas na vida, fóra das quaes lhes não é permittido apaixonarem-se. Pretenderam accolher-se ao mesmo beneficio os philosophos, mas não lhes foi consentido pela rainha Opinião, que é soberana absoluta e juiz supremo de que se não appella nem aggrava ninguem.
Anacreonte cantou, de cabellos brancos, os seus amores, e não se extranhou. Aristoteles mal teria a barba russa quando foi d'aquelle seu último namôro porque ainda hoje lhe apouquentam a fama.
Ora eu philosopho, seguramente não sou, ja o disse; de poeta tenho o meu pouco, padeci, a fallar a verdade, meus ataques assás agudos d'essa molestia, e bem podéra desculpar-me com elles de certas fragilidades de coração... Mas não senhor, não quero desculpar-me como quem tem culpa senão defender-me como quem tem razão e justiça por si.
Estou, com o meu amigo Yorick, o ajuizadissimo bobo d'elrei de Dinamarca, o que alguns annos depois ressuscitou em Sterne com tam elegante penna, estou sim. 'Toda a minha vida' diz elle 'tenho andado apaixonado ja por esta ja por aquella princeza, e assim heide ir, espero, até morrer, firmemente persuadido que se algum dia fizer uma acção baixa, mesquinha, nunca hade ser senão no intervallo de uma paixão á outra: n'esses interregnos sinto fechar-se-me o coração, esfria-me o sentimento, não acho dez reis que dar a um pobre... por isso fujo ás carreiras de similhante estado; e mal me sinto acceso de novo, sou todo generosidade e benevolencia outra vez.'
Yorick tem rasão, tinha muito mais razão e juizo que seu augusto amo, elrei de Dinamarca. Por pouco mais que se generalize o principio, fica indisputavel, inexcepcionavel para sempre e para tudo. O coração humano é como o estomago humano, não pode estar vazio, preciza de alimento sempre: são e generoso so as affeições lh'o podem dar; o odio, a inveja e toda a outra paixão má é estímulo que so irrita mas não sustenta. Se a razão e a moral nos mandam abster d'estas paixões, se as chymeras philosophicas, ou outras, nos vedarem aquellas, que alimento dareis ao coração, que hade elle fazer? Gastar-se sôbre si mesmo, consummir-se... Altera-se a vida, appressa-se a dissolução moral da existencia, a saude d'alma é impossivel.
O que póde viver assim, vive para fazer mal ou para não fazer nada.
Ora o que não ama, que não ama apaixonadamente, seu filho se o tem, sua mãe se a conserva, ou a mulher que prefere a todas, esse homem é o tal, e Deus me livre d'elle.
Sôbretudo que não escreva: hade ser um massador terrivel. Talvez seja este o motivo da indefinida permissão que é dada aos poetas de andarem namorados sempre.
O romancista gosa do mesmo fôro e tem as mesmas obrigações. É como o privilegio de desimbargador que tiravam d'antes os fidalgos, quando ser desimbargador valia alguma coisa... e tanta coisa!
Como heide eu então, eu que n'esta grave Odyssea das minhas viagens tenho de inserir o mais interessante e mysterioso episodio d'amor que ainda foi contado ou cantado, como heide eu fazê-lo, eu que ja não tenho que amar n'este mundo senão uma saudade e uma esperança―um filho no berço e uma mulher na cova?..
Será isto bastante? Dizei-o vós, ó benevolas leitoras, póde com isto so alimentar-se a vida do coração?
―Póde sim.
―Não póde, não.
―Estão divididos os suffragios: peço votação.
―Nominal?
―Não, não.
―Porquê?
―Porque ha muita coisa que a gente pensa, e crê e diz assim a conversar, mas que não ousa confessar publicamente, professar aberta e nomeadamente no mundo...
Ah! sim... elle é isso? Bem as intendo, minhas senhoras: reservemos sempre uma sahida para os casos difficeis, para as circumstancias extraordinarias. Não é assim?
Pois o mesmo farei eu.
E pôsto que hoje, faz hoje um mez, em tal dia como hoje, dia para sempre assignalado na minha vida, me apparecesse uma visão, uma visão celeste que me surpreendeu a alma por um modo novo e extranho, e do qual não podia dizer decerto como a rainha Dido á mana Annica:
Reconheço o queimar da chamma antiga, Agnosco veteris vestigia flammae;
pôsto que a visão passou e desappareceu... mas deixou gravada n'alma a certeza de que... Pôsto que seja assim tudo isto, a confidencia não passará d'aqui, minhas senhoras: tanto basta para se saber que estou sufficientemente habilitado para chronista da minha historia, e a minha historia é ésta.
Era no anno de 1832, uma tarde de verão como hoje calmosa, sêcca, mas o ceo puro e desabafado. Á porta d'essa casa entre o arvoredo, estaca sentada uma velhinha bem passante dos settenta, mas que o não mostrava. Vestia uma especie de tunica rosa que apertava na cintura com um largo cinto de coiro preto, e que fazia resahir a alvura da cara e das mãos longas, descarnadas, mas não ossudas como usam de ser mãos de velhas; toucava-se com um lenço da mais escrupulosa brancura, e pôsto de um geito particular a modo de toalha de freira; um mandil da mesma brancura, que tinha no peito e que affectava, não menos, a fórma de um escapulario de monja, completava o extranho vestuario da velha. Estava sentada n'uma cadeira baixa do mais classico feitio: textualmente parecia a que serviu de modêllo a Raphael para o seu bello quadro da
Madonna della Sedia
.
Como nota historica e illustração artistica, seja-me permittido juntar aqui em parenthesis que, não ha muito, vi em casa de um sapateiro remendão, em Lisboa, no Bairro-alto, um cadeira tal e qual; torneados pyramidaes, simples, sem nobreza, mas elegantes.
Tornemos á velhinha.
Estava ella alli sentada na ditta cadeira, e deante de si tinha uma dobadoira, que se movia regularmente com o tirar do fio que lhe vinha ter ás mãos a inrollar-se no ja crescido novello.
Era o unico signal de vida que havia em todo esse quadro. Sem isso, velha, cadeira, dobadoira, tudo pareceria uma
graciosa sculptura de Antonio Ferreira ou um d'aquelles quadros tam verdadeiros do morgado de Setubal.
O movimento bem visivel da dobadoira era regular, e respondía ao movimento quasi imperceptivel das mãos da velha. Era regular o movimento, mas durava um minuto e parava, depois ia seguido outros dous, tres minutos, tornava a parar: e n'esta regularidade de intermitencias se ia alternando como o pulso de um que treme sesões.
Mas o velha não tremia, antes se tinha muito direita e aprumada: o parar do seu lavor era porque o trabalho interior do espirito dobrava, de vez em quando, de intensidade, e lhe suspendia
todo o movimento
externo. Mas a suspensão era curta e mesurada; reagia a vontade, e a dobadoira tornava a andar.
Os olhos da velha é que tinham uma expressão singular: voltada para o poente, não os tirou d'essa direcção nem os inclinava de modo algum para a dobadoira que lhe ficava um pouco mais á esquerda. Não pestanejavam, e o azul de suas pupillas, que devia de ter sido brilhante como o das saphyras, parecia desbotado e sem lume.
O movimento da dobadoira estacou agora de repente, a velha poisou tranquillamente as mãos e o novello no regaço, e chamou para dentro da casa:
―'Joanninha?'
Uma voz doce, pura, mas vibrante, d'estas vozes que se ouvem rara vez, que retinem dentro d'alma e que não esquecem nunca mais, respondeu de dentro:
―'Senhora? Eu vou, minha avó, eu vou.'
―'Querida filha!.. Como ella me ouviu logo! Deixa, deixa: vem quando podéres. É a meada que se me imbaraçou.'
A velha era cega, cega de gotta-serena, e paciente, resignada como a providencia misericordiosa de Deus permitte quasi sempre que sejam os que n'este mundo destinou á dura provança de tam desconsolado martyrio.
CAPITULO XII.
De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e do mais que aconteceu.―Que casta de rapariga era Joanninha.―Dá o A. insigne próva de ingenuidade e boa fe confessando um grave senão do seu Ideal. Insiste porém que é um adoravel deffeito.―Em que se parece uma mulher desannellada com um Sansão tosquiado.―Pasmosas monstruosidades da natureza que desmentem o credo velho dos peralvilhos.―Os olhos verdes de Joanninha.―Religião dos olhos pretos strenuamente professada pelo A. Perigo em que ella se acha á vista de uns olhos verdes.―De como estando a avó e a neta a conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se interrompe a conversação.―Quem era Frei Diniz.
―'Aqui estou, minha avó: é a sua meada?.. eu lh'a indireito:'―disse Joanninha sahindo de dentro, e com os braços abertos para a velha. Apertou-a n'elles com innefavel ternura, beijou-a muitas vezes, e tomando-lhe o novello das mãos n'um instante desimbaraçou o fio e lh'o tornou a intregar.
A velha surria com aquelle surriso satisfeito que exprime os tranquillos gosos de alma, e que parecia dizer: 'Como eu sou feliz ainda, apezar de velha e de cega! Bemdito sejais, meu Deus.'
Ésta última phrase, ésta bençam de um coração agradecido, que spira suavemente para o ceo como sobe do altar o fummo do incenso consagrado, ésta última phrase trasbordou-lhe e sahiu articulada dos labios:
―'Bemditto seja Deus' minha filha, minha Joanninha, minha querida neta! E Elle te abençoe tambem, filha!'
―'Sabe que mais, minha avó? Basta de trabalhar hoje, são horas de merendar'.
―'Pois merendemos'.
Joannninha foi dentro da casa, trouxe uma banquinha redonda, cubriu-a com uma toalha alvissima, pôs em cima fructa, pão, queijo, vinho, chegou-a para aopé da velha, tirou-lhe o novello da mão, e arredou a dobadoira. A velha comeu alguns bagos de um cacho doirado que a neta lhe escolheu e pôs nas mãos, bebeu um trago de vinho, e ficou callada e quieta, mas ja sem a mesma expressão de felicidade e contentamento socegado que ainda agora lhe luzia no rosto.
As animadas feições de Joanninha reflectiam sympathicamente a mesma alteração.
Joanninha não era bella, talvez nem galante siquer no sentido popular e expressivo que a palavra tem em portuguez, mas era o typo da gentileza, o ideal da spiritualidade. N'aquelle rosto, n'aquelle corpo de dezeseis annos, havia por dom natural e por uma admiravel symetria de proporções toda a elegancia nobre, todo o desimbaraço modesto, toda a flexibilidade graciosa que a arte, o uso e a conversação da côrte e da mais escolhida companhia vêem a dar a algumas raras e privilegiadas creaturas no mundo.
Mas n'esta foi a natureza que fez tudo, ou quasi tudo, e a educação nada ou quasi nada.
Poucas mulheres são muito mais baixas, e ella parecia alta: tam delicada, tam
elancée
era a fórma airosa de seu corpo.
E não era o garbo teso e aprumado da perpendicular
miss
ingleza que parece fundida de uma so peça; não, mas flexivel e ondulante como a hástea joven da árvore que é direita mas dobradiça, forte da vida de toda a seiva com que nasceu, e tenra que a estalla qualquer vento forte.
Era branca, mas não d'esse branco importuno das loiras, nem do branco terso, duro, marmoreo das ruivas―sim d'aquella modesta alvura da cera que se illumina de um pallido reflexo de rosa de Bengalla.
E d'outras rosas, d'estas rosas-rosas que denunciam toda a franqueza de um sangue que passa livre pelo coração e corre á sua vontade por artérias em que os nervos não dominam, d'essas não as havia n'aquelle rosto: rosto sereno como é sereno o mar em dia de calma, porque dorme o vento... Alli dormiam as paixões.
Que se levante a mais ligeira brisa, basta o seu macio bafejo para increspar a superficie espelhada do mar.
Sussurre o mais ingenuo e suave movimento d'alma no primeiro acordar das paixões, e verão como se sobresaltam os musculos agora tam quietos d'aquella face tranquilla.