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Viagens na Minha Terra (Volume I)

VIAGENS NA MINHA TERRA. (continued 2)

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O nariz ligeiramente aquilino: a bôcca pequena e delgada não cortejava nem desdenhava o surriso, mas a sua expressão natural e habitual era uma gravidade singela que não tinha a menor aspereza nem doutorice.

Ha umas certas boquinhas gravesinhas e espremidinhas pela doutorice que são a mais abhorrecidinha coisa e a mais pequinha que Deus permitte fazer ás suas creaturas femeas.

Em perfeita harmonia de côr, de fórma e de tom com a fina gentileza d'estas feições, os cabellos de um castanho tam escuro que tocava em preto, cahiam de um lado e outro d Em perfeita harmonia de côr, de fórma e de tom com a fina gentileza d'estas feições, os cabellos de um castanho tam escuro que tocava em preto, cahiam de um lado e outro da face, em tres longos, deseguaes e mal inrolados canudos, cuja ondada spiral se ia relaxando e diminuindo para a extremidade, até lhe tocarem no collo quasi lisos.

Em stylo de arte―no stylo da primeira e da mais bella das bellas artes, a

toilete

―este é um defeito; bem sei.

Que votos, que novenas se não fazem a San'Barometro nas vésperas de um baile para lhe pedir uma atmosphera sêcca e benigna que deixe conservar, até á quarta contradança ao menos, a preciosa obra de carrapito e ferro quente, de macassar e mandolina que tanto trabalho e tanto tempo, tantos sustos e cuidados custou!

Bem sei pois que é defeito, é, será... mas que adoravel defeito! Que deliciosas imagens que excita de abandôno―passe o gallicismo―de confiança, de absoluta e generosa renúncia a todo o caprixo, de perfeita e completa abdicação de toda a vontade propria!

Em geral, as mulheres parecem ter no cabello a mesma fé que tinha Sansão: o que n'elle se ia em lh'os cortando, cuidam ellas que se lhes vai em lh'os desannellando? Talvez; e eu não estou longe de o crer: canudo inflexivel, mulher inflexivel.

Os peralvilhos negam a existencia do tal canudo

in rerum natura

, dizem que é como a

ave phenix que nasceu de nossos avós não saberem grego. Eu não digo tal, porque tenho visto descuidar-se a natureza em pasmosas monstruosidades.

Emfim suspendâmos, sem o terminar, o exame d'esta profunda e interessante questão. Fica addiada para um capitulo

ad hoc

, e voltemos á minha Joanninha.

Cahiam d'um lado e de outro da sua face gentil aquelles graciosos anneis; e o resto do cabello, que era muito, ia intrançar-se, e inrolar-se com singela elegancia abaixo da coroa de uma cabeça pequena, estreita e do mais perfeito modêlo.

As sobrancelhas, quasi pretas tambem, desenhavam-se n'uma curva de extrema pureza; a as pestanas longas e assedadas faziam sombra na alvura da face.

Os olhos porêm―singular capricho da naturesa, que no meio de toda esta harmonia quiz lançar uma nota de admiravel discordancia! Como poderoso e ousado

maestro

que, no meio das pbrases mais classicas e deduzidas da sua composição, atira derepente com um som agudo e stridulo que ninguem espera e que parece lançar a anarchia no meio do rythmo musical... os dillettantes arripiam-se, os professores benzem-se; mas aquelles cujos ouvidos lhes levam ao coração a musica, e não á cabeça, esses estremecem de admiração e enthusiasmo... Os olhos de Joanninha eram verdes... não d'aquelle verde descorado e traidor da raça felina, não d'aquelle verde mau e destingido que não é senão azul imperfeito, não; eram verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido quilate.

São os mais raros e os mais fascinantes olhos que ha.

Eu, que professo a religião dos olhos pretos, que n'ella nasci e n'ella espero morrer... que alguma rara vez que me deixei inclinar para a heretica pravidade do ôlho azul, soffri o que é muito bem feito que soffra todo o renegado... eu firme e inabalavel, hoje mais que nunca, nos meus principios, sinceramente persuadido que fóra d'elles não ha salvação, eu confesso todavia que uma vez, uma unica vez que vi dos taes olhos verdes, fiquei halucinado, senti abalar-se pelos fundamentos o meu catholicismo, fugi escandalizado de mim mesmo, e fui retemperar a minha fé vacillante na contemplação das eternas verdades, que so e unicamente se incontram aonde está toda a fé e toda a crença... n'uns olhos sincera e lealmente pretos.

Joanninha porêm tinha os olhos verdes; e o effeito d'esta rara feição n'aquella physionomia á primeira vista tam discordante―era em verdade pasmosa. Primeiro fascinava, halucinava, depois fazia uma sensação inexplicavel e indecisa que doía e dava prazer ao mesmo tempo: porfim pouco o pouco, estabelecia-se a corrente magnetica tam poderosa, tam carregada, tam incapaz de solução-de-continuidade, que toda a lembrança de outra coisa desapparecia, e toda a intelligencia e toda a vontade eram absorvidas.

Resta so accrescentar―e fica o retrato completo, um simples vestido azul escuro, cinto e avental preto, e uns sapatinhos com as fitas traçadas em cothurno. O pé breve e estreito; o que se adivinhava da perna admiravel.

Tal era a ideal e espiritualissima figura que em pé, incostada á banca onde acabava de comer a boa da velha, contemplava, n'aquelle rosto macerado e apagado, a indicivel expressão de tristeza que elle pouco a pouco ía tomando e que toda se reflectia, como disse, no semblante da contempladora.

A velha suspirou profundamente, e fazendo como um esfôrço para se distrahir de pensamentos que a affligiam, buscou incertamente com as mãos o novêllo da sua meada:

―'O meu novêllo, filha: não posso estar sem fazer nada, faz-me mal.'

―'Conversemos, avó.'

―'Pois conversemos; mas dá-me o meu novêllo. Não sei o que é, mas quando não

trabalho

eu, trabalha não sei o que em mim que me cansa ainda mais. Bem dizem que a ociosidade é o peior lavor.'

Joanninha deu-lhe o novêllo e pôs-lhe a dobadoira a geito.

A velha sentiu o que quer que fosse na mão, levou-a á bôcca e pareceu beija-la, depois disse:

―'Bem vi, Joanninha!'

―'O quê, minha avó? que viu?'

―'Vi, filha, vi.., sem ser com os olhos que Deus me cerrou para sempre―louvado seja Elle por tudo!―vi, sentindo, ésta lagryma tua que me cahiu na mão, e que ja ca está no peito por que a bebi, Joanna. Oh filha, ja! é muito cedo para começar, deixa isso para mim que estou costumada: mas tu, tu com deseseis annos e nenhum desgôsto!'

―'Nenhum, avó! E estamos sosinhas nós duas n'este mundo, minha avó n'esse estado, eu n'esta edade, e...'

―'E Deus no ceu para tomar conta em nós... Mas que é? olha, Joanna: eu sinto passos na estrada vê o que é.'

―'Não vejo ninguem.'

―'Mas oiço eu... Espera... é Fr. Diniz; conheço-lhe os passos.'

Mal a velha acabava de pronunciar este nome, surdiu, de traz de umas oliveiras que ficam na volta da estrada, da banda de Santarem, a figura sêcca, alta e um tanto curvada de um religioso franciscano que abordoado em seu pau tosco, arrastando as suas sandalias amarellas e tremendo-lhe na cabeça o seu chapeo alvadio, vinha em direcção para ellas.

Era Fr. Diniz comeffeito, o austero guardião de San'Francisco de Santarem.

CAPITULO XIII.

Dos frades em geral.―O frade moralmente considerado, socialmente e artisticamente.―Próva-se que é muito mais poetico o frade do que o barão.―Outra vez D. Quixote e Sancho-Pansa.―Do que seja o barão, sua classificação e descripção linneana.―Historia do castello do Chucherumello.―Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os jesuitas não são a cholera-morbus, e que é preciso refazer o 'Judeu errante'―De como o frade não intendeu o nosso seculo nem o nosso seculo ao frade.―De como o barão ficou em logar do frade, e do muito que n'isso perdémos.―Unica voz que se ouve no actual deserto da sociedade: os barões a gritar contos de reis.―Como se contam e como se pagam os taes contos.―Predilecção artistica do A. pelo frade: confessa-se e explica-se ésta predilecção.

Frades... frades... Eu não gósto de frades. Como nós os vimos ainda os d'este seculo, como nós os intendêmos hoje, não gósto d'elles, não os quero para nada, moral e socialmente fallando. Frades... frades... Eu não gósto de frades. Como nós os vimos ainda os d'este seculo, como nós os intendêmos hoje, não gósto d'elles, não os quero para nada, moral e socialmente fallando.

No ponto de vista artistico porêm o frade faz muita falta.

Nas cidades, aquellas figuras graves e sérias com os seus habitos tallares, quasi todos picturescos e alguns elegantes, atravessando as multidões de macacos e bonecas de casaquinha esguia e chapelinho de alcatruz que distinguem a peralvilha raça europea―cortavam a monotonia do ridiculo e davam physionomia á população.

Nos campos o effeito era ainda muito maior: elles characterizavam a payzagem, poetisavam a situação mais prosaica de monte ou de valle; e tam necessarias tam obrigadas figuras eram em muitos d'esses quadros, que sem ellas o painel não é ja o mesmo.

Alêm d'isso o convento no povoado e o mosteiro no êrmo animavam, amenizavam, davam alma e grandeza a tudo: elles protegiam as árvores, sanctificavam as fontes, enchiam a terra de poesia e de solemnidade.

O que não sabem nem podem fazer os agiotas barões que os substituiram.

É muito mais poetico o frade que o barão.

O frade era, até certo ponto, o Dom Quixote da sociedade velha.

O barão é, em quasi todos os pontos, o Sancho-Pansa da sociedade nova.

Menos na graça...

Porque o barão é o mais desgracioso e estupido animal da creação.

Sem exceptuar a familia asinina que se illustra com individualidades tam distinctas como o Ruço do nosso amigo Sancho, o asno da Poncella de Orleans e outros.

O barão (

onagros-baronius

de Linn.,

l'ânne-baron

de Buf.) é uma variedade monstruosa ingendrada na burra de Balaham, pela parte essencialmente judaica e usuraria de sua natureza, em coito damnado com o urso Martinho do Jardim das Plantas

[2]

, pela parte franchinotica e sordidamente revolucionaria de seu character.

O barão é pois usurariamente revolucionario, e revolucionariamente usurario.

Por isso é

zebrado

de riscas monarchico-democraticas por todo o pêllo.

Este é o barão verdadeiro e puro-sangue: o que não tem estes characteres é especie differente, de que aqui se não tracta.

Ora, sem sahir dos barões e tornando aos frades, eu digo: que nem elles comprehenderam o nosso seculo nem nós os comprehendémos a elles..

Por isso brigámos muito tempo, a final vencêmos nós, e mandámos os barões a expulsá-los da terra. No que fizemos uma sandice como nunca se fez outra. O barão mordeu no frade, devorou-o... e escouceou-nos a nós depois.

Com que havemos nós agora de matar o barão?

Porque este mundo e a sua historia é a historia do 'castello do Chucherumello'. Aqui está o Porque este mundo e a sua historia é a historia do 'castello do Chucherumello'. Aqui está o cão que mordeu no gato, que matou o rato, que roeu a corda etc. etc.: vai sempre assim seguindo.

Mas o frade não nos comprehendeu a nós, por isso morreu, e nós não comprehendemos o frade, por isso fizemos os barões de que havemos de morrer.

São a molestia d'este seculo; são elles, não os jesuitas, a cholera-morbus da sociedade actual, os barões. O nosso amigo Eugenio Sue errou de meio a meio no 'Judeu errante' que precisa refeito.

Ora o frade foi quem errou primeiro em nos não comprehender, a nós, ao nosso seculo, ás nossas inspirações e aspirações: com o que falsificou a sua posição, isolou-se da vida social, fez da sua morte uma necessidade, uma coisa infallivel e sem remedio. Assustou-se com a liberdade que era sua amiga, mas que o havia de reformar, e uniu-se ao despotismo que o não amava senão relaxado e vicioso, porque de outro modo lhe não servia nem o servia.

Nós tambem errámos em não intender o desculpavel êrro do frade, em lhe não dar outra direcção social; e evitar assim os barões, que é muito mais damninho bicho e mais roedor.

Porque, desinganem-se, o mundo sempre assim foi e hade ser. Por mais bellas theorias que se façam, por mais perfeitas constituições com que se comece, o

status in statu

forma-se logo: ou com frades ou com barões ou com pedreiros livres se vai pouco a pouco organizando uma influencia distincta, quando não contraria, ás influencias manifestas e apparentes do grande corpo social. Esta é a opposição natural do Progresso, o qual tem a sua opposição como todas as coisas sublunares e superlunares; ésta corrige saudavelmente, ás vezes, e modera sua velocidade, outras, a impece com demazia e abuso: mas emfim é uma necessidade.

Ora eu, que sou ministerial do Progresso, antes queria a opposição dos frades que a dos barões. O caso estava em a saber

conter

e approveitar.

O Progresso e a liberdade perdeu, não ganhou.

Quando me lembra tudo isto, quando vejo os conventos em ruinas, os egressos a pedir esmola e os barões de berlinda, tenho saudades dos frades―não dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser.

E sei que me não inganam poesias; que eu reajo fortemente com uma logica inflexivel contra as illusões poeticas em se tractando de coisas graves.

E sei que me não namóro de paradoxos, nem sou d'estes espiritos de contradicção desinquieta que suspiram sempre pelo que foi, e nunca estão contentes com o que é.

Não, senhor: o frade, que é patriota e liberal na Irlanda, na Polonia, no Brazil, podia e devia sê-lo entre nós; e nós ficavamos muito melhor do que estamos com meia duzia de clerigos de requiem para nos dizer missa; e com duas grozas de barões, não para a tal opposição salutar, mas para exercer toda a influencia moral e intellectual da sociedade―porque não ha de outra ca.

E se não digam-me: onde estão as universidades, e o que faz essa que ha senão dar o seu grausito de bacharel em leis e em medicina? O que escreve ella, o que discute, que príncipios tem, que doutrinas professa, quem sabe ou ouve d'ella senão algum echo timido e acanhado do que n'outra parte se faz ou diz?

Onde estão as academias?

Que palavra poderosa retine nos pulpitos?

Onde está a fôrça da tribuna?

Que poeta canta tam alto que o oiçam as pedras brutas e os robres duros d'esta selva materialista a que os utilitarios nos reduziram?

Se exceptuarmos o debil clamor da imprensa liberal ja meio-esganada da policia, não se ouve no vasto silencio d'este ermo senão a voz dos barões gritando contos de réis.

Dez contos de réis por um eleitor!

Mais duzentos contos pelo tabaco!

Três mil contos para a conversão de um amphigouri!

Cinco mil contos para as estradas dos

areonautas

!

Seis mil contos para isto, dez mil contos para aquillo!

Não tardam o contar por centenas de milhares.

Contar a elles não lhes custa nada.

A quem custa é a quem paga para todos esses balões de papel―a terra e a indústria...

Este capítulo deve ser considerado como introducção ao capítulo seguinte, em que entra em scena Fr. Diniz, o guardião do San' Francisco de Santarem.

Ja me disseram que eu tinha o genio frade, que não podia fazer conto, drama, romance sem lhe metter o meu fradinho.

O 'Camões' tem um frade, Frei José Indio;

A 'Dona Branca' tres, Frei Soeiro, Frei Lopo e San'-Frei Gil―faz quatro;

A 'Adozinda' tem um ermitão, especie de frade―cinco;

'Gil-Vicente' tem outro―isto é, verdadeiramente não tem senão meio frade, que é André de Rezende, demais a mais, pessoa muda―cinco e meio;

O 'Alfageme' tres quartos do frade, Froilão-Dias, chibato da ordem de Malta―seis frades e um quarto;

Em 'Frei Luiz de Sousa' tudo são frades: vale bem n'esta computação, os seus tres, quatro, meia duzia de frades―são já dôze e quarto:

Alguns, não eu, querem metter n'esta conta o 'Arco-de-Sanct'Anna', em que ha bem dous frades e um leigo:

E aqui tenho eu ás costas nada menos de quinze frades e quarto.

Com este Frei Diniz é um convento inteiro.

Pois, senhores, não sei que lhes faça: a culpa não é minha. Desde mil cento e tantos que começou Portugal, até mil oitocentos trinta e tantos que uns dizem que elle se restaurou, outros que o levou a breca, não sei que se passasse ou podesse passar n'esta terra coisa alguma pública ou particular, em que frade não entrasse.

Para evitar isto não ha senão usar da receita que vem formulada no capitulo V

[3]

d'esta obra.

Faça-o quem gostar; eu não, que não quero nem sei.

CAPITULO XIV.

Emendado emfim de suas distracções e divagações, prosegue o A. direitamente com a historia promettida.―De como Fr. Diniz deu a manga a beijar á avó e á neta, e do mais que entre elles se passou.―Ralha o frade com a velha, e começa a descobrir-se onde a historia vai ter.

Este capitulo não tem divagações, nem reflexões, nem considerações de nenhuma especie, vai direito e sem se distrahir, pela sua historia adeante.

Fr. Diniz chegava aopé das duas mulheres e disse:

―'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!'

Joanna adeantou-se alguns

passos

a beijar-lhe a manga. Elle accrescentou:

―'A benção de Deus te cubra, filha, e a de nosso padre San'Francisco!'

―'Benedicite, padre guardião:' disse a velha inclinando-se meia levantada da cadeira.

―'Em nome do Senhor! amen'.―respondeu o frade aproximando-se, e chegando o braço a alcance de lh'o ella beijar:

―'Ora aqui estou, minha irman; que me quer? E como vai isto por cá? Vamo-nos confortando, tendo paciencia, e soffrendo com os olhos no Senhor?'

―'Ja os não tenho senão para elle, padre.'

―'Ah, ah! irman Francisca, sempre esse pensamento, sempre essa queixa! Tenho-a reprehendido tanta vez e não se emenda.'

―'Eu não me queixei, meu padre. Deus sabe que me não queixo... ao menos por mim.'

―'Pois por quem?'

―'Oh padre!'

―'Irman Francisca, tenho medo de a intender. Eu não conheço as affeições da carne nem lido com os fracos pensamentos do mundo. Sou frade, minha irman, sou um que ja não é do número dos vivos, que vestiu ésta mortalha para não ser d'elles, que a vestiu n'um tempo em que a mofa e o desprêzo são o unico patrimonio do frade, em que o escarneo, a derisão, o insulto―o peior e o mais cruel de todos os martyrios―são a nossa unica esperança. Eu quiz ser frade, fiz-me frade, sabendo e vendo tudo isto, fiz-me frade no meio de tudo isto, já velho e experimentado no mundo, farto de o conhecer, e certo do que me espera―a mim e á profissão que abraçei. Que quer de um homem que assim se resolveu a cortar por quanto prende a humanidade a ésta miseravel vida da terra, para não viver senão das esperanças da outra? Eu vesti este hábito para isso. O seu, irman, o seu para que o vestiu? É um divertimento, é um capricho, é uma comedia com Deus? Rasgue-o depressa, vista-se das galas do mundo, não apperte com a paciencia divina, trajando por fóra o sacco da penitencia e trazendo o coração pordentro desappertado de todo o cilicio e mortificação.'

A velha com as mãos postas, a face alevantada e os apagados olhos para o ceo, offerecia a Deus todo o amargor d'aquella austeridade que não cuidava merecer nem lhe parecia intender. Joanninha, que insensivelmente se fôra approximando da avó, e a tinha como amparada portraz com um de seus braços, firmava a outra mão nas costas da cadeira e cravava fita no frade a vista penetrante e cheia de luz. A expressão do seu rosto era indefinivel: irisava-lh'o, distincta mas promiscuamente, um mixto inextricavel de enthusiasmo e desanimação, de fé e de incredulidade, de sympathia e de aversão.

Disseras que n'aquelles olhos verdes e n'aquelle rosto mal córado estava o typo e o symbolo das vascillações do seculo.

―'Padre!' tornou a velha com sincera humildade na voz e no gesto:―'se o mereci, castigae-me. Deus, que me vê e me ouve, bem sabe que o digo em toda a verdade do meu coração, e hade perdoar-me porque eu sou fraca e mulher.'

―'Pois aos fracos não é que Elle disse:

Toma a tua cruz e segue-me

. Quem a obrigou a fazer os votos que fez?'

―'É verdade, padre, é verdade: bem sei o que prometti, que me votei a Deus d'alma e corpo, que me não pertenço, que nem das minhas affeições posso dispor, mas...'

―'Mas o quê? Irman Francisca, a Deus não se ingana. Os seus votos não foram feitos n'um mosteiro, nem proferidos n'um altar no meio das solemnidades da egreja. Mas ja lh'o tenho ditto, no fôro da consciencia, na presença de Deus, ligam-n'a tanto ou mais do que se o fossem. Abjure-os se quizer; nenhuma lei, nenhuma fôrça humana a constrange. Diga-m'o por uma vez, desingane-me, e eu não torno aqui.'

―'Oh, por compaixão, padre! pelas chagas de Christo! Mas uma pergunta so, uma so, e eu prometto não pensar, não fallar mais em... Onde está elle?'

―'Joanna, retire-se.'

Joanninha appertou a avó com ambos os braços; e sem dizer uma palavra, sem fazer um so gesto, lentamente e silenciosamente se retirou para dentro de casa.

―'E ésta, padre?' disse a velha sem esperar a resposta á primeira pergunta que com tanta ancia fizera―'e ésta, tambem d'ella me heide separar, tambem heide renunciar a ella?'

―'Esta é uma innocente, e emquanto o for'...

―'Em quanto o for! A minha Joanna é um anjo.'

―'Blasphemia, blasphemia! E o Senhor a não castigue por ella. Joanna é boa e temente a Deus: esperemos que Elle a conserve da sua mão. O outro...'

―'Que é feito d'elle padre? Oh! diga-m'o, e eu prometto...'

―'Não prometta senão o que póde cumprir. Seu neto está com esses desgraçados que vieram das ilhas, é dos que desimbarcaram no Porto...'

―'Oh filho da minha alma! que não tórno a abraçar-te...'

―'Não decerto; vencedores ou vencidos, toda a communhão, toda a possibilidade de união acabou entre nós e estes homens. Nós temos obrigação de os destruir, elles o seu unico desejo é exterminar-nos.'

―'Meu Deus meu Deus! pois a isto somos chegados! Pois ja não ha misericordia no ceo nem na terra!'

―'A misericordia de Deus cansou-se; a da terra não sei onde está nem onde esteve nunca. Os fracos dão sacrilegamente esse nome á sua relaxação.'

―'Pois é relaxação desejar a paz, querer a união, supplicar a indulgencia? Não nos manda Deus perdoar as nossas dividas, amar os nossos inimigos?'

―'Os nossos sim, os d'Elle não.'

―'Tende compaixão de mim, Senhor!'

―'Se as suas afflicções são as da carne e do sangue, se são pensamentos da terra como desgraçadamente vejo que são, mulher fraca e de pouco ânimo, console-se, que para mim é claro e seguro que estes homens hãode vencer.'

―'Quaes homens?'

―'Esses inimigos do altar e da verdade, esses homens desvairados pelas speciosas doutrinas do seculo. Esperam muito, promettem muito, estão em todo o vigor das suas illusões. E nós, nós carregâmos com o desingano de muitos seculos, com os peccados de trinta gerações que passaram, e com a inaudita corrupção da presente... nós havemos de succumbir. Os templos hãode ser destruidos, os seus ministros proscriptos, o nome de Deus blasphemado á vontade n'esta terra malditta.'

―'Pois tam perdidos, tam abandonados da mão de Deus são elles todos... todos?'

―'Todos. E que cuida, irman? que são melhores os nossos, esses que se dizem nossos? que ha mais fé na sua crença, mais verdade em sua religião? Oh sancto Deus!'

―'Faz-me tremer, padre!'

―'E para tremer é. A impiedade e a cubiça entraram em todos os corações.

Duvidar

é o unico princípio,

inriquecer

o unico objecto de toda essa gente. Liberaes e realistas, nenhum tem fé: os liberaes ainda teem esperança; não lhe hade durar muito. Deixem-n'os vencer e verão.'

―'E hãode vencer elles?'

―'Decerto.'

―'Ninguem mais diz isso.'

―'Digo-o eu.'

―'Tantos mil soldados que o govêrno tem por si!'

―'E tantos milhões de peccados contra. Não póde ser, não póde ser: a misericordia divina está exhausta, e o dia desejado dos impios vem a chegar. A sua missão é facil e prompta; não sabem, não podem senão destruir. Edificar não é para elles, não teem com quê, não creem em nada. O symbolo christão não é so uma verdade religiosa é um princípio eterno e universal.

Fe, esperança e charidade

. Sem crer, sem esperar...'

―'E sem amar!'

―'Mulher, mulher! o amor é a última virtude...'

―'Mas por ella, por ella se chega ás outras.'

―'Não, mulher fraca, não. E de uma vez para sempre, irman Francisca, desinganemo'-nos. Entre mim, entre o Deus que eu sirvo, não ha transacção com os seus inimigos. Indulgencia n'esse ponto não sei o que é. Vejo a sorte que me espera n'este mundo, e não tremo deante d'ella. Quem teme, siga outro caminho; eu nunca.'

―'Padre eu não temo nem receio por mim. Sou fraca e mulher, e em toda a tribulação e desgraça heide glorificar o meu Deus e dar testimunho da minha fé. Mas... mas o meu neto é o meu sangue, a minha vida, é o filho querido da minha unica e tam amada filha, elle não conheceu outra mãe senão a mim, quero-lhe por elle e por ella. Abandoná-lo não posso, tirar d'elle o pensamento não sei. A vontade de Deus...'

―'A vontade de Deus é que o justo se aparte do impio, é que os cordeiros da benção vão para um lado, e os cabritos da maldicção para outro. Esse rapaz... oh! minha irman, eu não sou de pedra, não, não sou, e tambem o coração se me parte de o dizer... mas esse rapaz é malditto, e entre nós e elle está o abysmo todo do inferno.'

―'Misericordia, meu Deus!'

Pallido, infiado, mais descorado e mais amarello do que era sempre aquelle rosto, Fr. Diniz pronunciou, tremendo mas com fôrça, as suas últimas e terriveis palavras. Os olhos, habitualmente sumidos e cavos, recuaram-lhe ainda mais para dentro das orbitas descarnadas; o bordão tremia-lhe na esquerda; e a direita suspensa no ar parecia intimar ao culpado a terrivel imprecação que lhe sahia dos labios.

―'Malditto! malditto sejas tu!' proseguiu o frade, 'filho ingrato, coração derrancado e perverso!'

―'Meu Deus, não o escuteis!' bradou a velha cahindo de joelhos no chão e prostrando-se na terra dura 'Meu Deus, não confirmeis aquellas palavras tremendas. Não o ouçais, Senhor, e valha o sangue precioso de vosso filho, as dores bemdittas de sua mãe, oh meu Deus! para arredar da cabeça do meu pobre filho as crueis palavras d'este homem sem piedade, sem amor!..'

A velha queria dizer mais; as angústias que se tinham estado juntando n'aquella alma, que porfim não podia mais e transbordava, queriam sahir todas, queriam derramar-se alli em lagrymas e soluços na presença do seu Deus que ella via sempre no throno das misericordias, que não podia acabar comsigo que o visse o inflexivel, o terrivel Deus das vinganças que lhe annunciava o frade. Mas a carne não pôde com o espirito, as fôrças do corpo cederam: tomou-a um mortal deliquio, immudeceu, e... suspendeu-se-lhe a vida.

Fr. Diniz contemplou-a alguns momentos n'esse estado e pareceu commover-se; mas aquelles nervos eram fios de ferro temperado que não vibravam a nenhuma suave percussão: deu dous passos para a porta da casa, bateu com o bordão e disse com voz firme e segura:

―'Joanna, acuda a sua avó que não está boa.'

D'ahi tomou por onde viera, e, sem voltar uma vez a cabeça, caminhou ápressado; breve se escondeu para lá das oliveiras da estrada.

CAPITULO XV.

Retratto de um frade franciscano que não foi para o depósito da Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das Bellas-artes.―Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não parecia nada com a de Condillac.―Suas opiniões sôbre o liberalismo e os liberaes.―Que o podêr vem de Deus, mas como e paraquê.―Que os liberaes não intendem o que é liberdade e egualdade; e o para que eram os frades, se fossem.―Próva-se, pelo texto, que o homem não vive so de pão, e pergunta-se o de que vivia então Fr. Diniz.

Quem era Frei Diniz?

Disse-o elle:―um homem que se fizera frade, ja velho e cançado do mundo, que vestíra o hábito n'um tempo em que a mofa, o escarneo e o desprêzo seguiam aquella profissão; que o sabía, que o conhecia e que por isso mesmo o affrontára.

D'estes raros e fortes characteres apparecem sempre na agonia das grandes instituições para que nenhuma pereça sem protesto, paraque de nenhum pensamento duravel e consagrado pelo tempo se possa dizer que lhe faltou quem o honrasse na hora derradeira por uma devoção nobre, gloriosa e digna do alto espirito do homem:―que o homem é uma grande e sublime creatura por mais que digam philosophos.

Tal era Fr. Diniz, homem de principios austeros, de crenças rigidas, e de uma logica inflexivel e teimosa: logica porêm que regeitava toda a anályse, e que forte nas grandes verdades intellectuaes e moraes em que fixára o seu espirito, descia d'ellas com o tremendo pêso de uma synthese asperrima e oppressora que esmagava todo o argumento, destruía todo o raciocinio que se lhe punha de deante.

Condillac chamou á synthese methodo de trevas: Fr. Diniz ria-se de Condillac... e eu parece-me que tenho vontade de fazer o mesmo.

O despotismo, detestava-o como nenhum liberal é capaz de o abhorrecer; mas as theorias philosophicas dos liberaes, escarnecia-as como absurdas, regeitava-as como perversoras de toda a idea san, de todo o sentimento justo, de toda a bondade praticavel. Para o homem em qualquer estado, para a sociedade em qualquer fórma não havia mais leis que as do decalogo, nem se precisavam mais constituições que o Evangelho: dizia elle. Reforçá-las é superfluo, melhorá-las impossivel, desviar d'ellas monstruoso. Desde o mais alto da perfeição evangelica, que é o estado monastico, ha regras para todos alli; e não falta senão observá-las.

Não sei se ésta doutrina não tem o quer que seja de um certo sabor independente e livre, se não cheira o seu tanto á confiança heretica dos reformistas evangelicos. O que sei é que Fr. Diniz a professava de boafé, que era catholico sincero, e frade no coração.

Segundo os seus principios, podêr de homem sôbre homem, era usurpação sempre e de qualquer modo que fosse constituido. Todo o podêr estava em Deus―que o delegava ao pae sôbre o filho, d'ahi ao chefe da familia sôbre a familia, d'ahi a um d'esses sôbre todo o Estado; mas para o reger segundo o Evangelho e em toda a austeridade republicana dos primitivos principios christãos.

Assim fôra ungido Saul, e n'elle todos os reis da terra―sem o quê, não eram reis.

Tudo o mais, anarchia, usurpação, tyrannia, peccado―absurdo insustentavel e impossivel.

E sôbre isto tambem não disputava, que não concebia como: era dogma.

Nas applicações sim questionava, ou antes, arguía, com sua logica de ferro. As antigas leis, os antigos usos, os antigos homens, não os poupava mais do que aos novos. A tyrannia dos reis, a cubiça e a suberba dos grandes, a corrupção e a ignorancia dos sacerdotes, nunca houve tribuno popular que as açoitasse mais sem dó nem caridade.

O princípio porêm da monarchia antiga, defendia-o, ja se ve, por verdadeiro, embora fossem mentirosos e hypocritas os que o invocavam.

Quanto ás doutrinas constitucionaes, não as intendia, e protestava que os seus mais zelosos apostolos as não intendiam tam pouco: não tinham senso-commum, eram abstracções d'eschola.

Agora, do frade é que me eu queria rir... mas não sei como.

O chamado liberalismo, esse intendia elle. 'Reduz-se' dizia 'a duas cousas,

duvidar e destruir

por principio,

adquirir e inriquecer

por fim: é uma seita toda material em que a carne domina e o espirito serve; tem muita fôrça para o mal; bem verdadeiro, real e perduravel, não o póde fazer. Curar com uma revolução liberal um paiz estragado, como são todos os da Europa, é sangrar um tysico: a falta de sangue diminue as ancias do pulmão por algum tempo, mas as fôrças vão-se, e a morte é mais certa.'

Dos grandes e eternos principios da Egualdade e da Liberdade dizia: 'Em elles os practicando devéras, os liberaes, faço-me eu liberal tambem. Mas não ha perigo: se os não intendem! Para intender a liberdade é preciso crer em Deus, para acreditar na egualdade é preciso ter o Evangelho no coração.'

As instituições monasticas eram, no seu intender e no seu systema, condicção essencial de existencia para a sociedade civil―para uma sociedade normal. Não paliava os abusos dos conventos, não cubria os defeitos dos monges, accusava mais severamente que ninguem a sua relaxação; mas sustentava que, removido aquelle typo da perfeição evangelica, toda a vida christan ficava sem norma, toda a harmonia se destruía, e a sociedade ia, mais depressa e mais sem remedio, precipitar-se no golpham do materialismo estupido e brutal em que todos os vinculos sociaes apodreciam e cahiam, e em que mais e mais se isolava e estreitava o individualismo egoista―última phase da civilização exaggerada que vai tocar no outro extrêmo da vida selvagem.

Taes eram os principios d'este homem extraordinario que junctava a uma erudição immensa o profundo conhecimento dos homens e do mundo em que tinha vivido até a edade de cinquenta annos.

Como e porque deixára elle o mundo? Como e porquê, um espirito tam activo e superior se occupava apenas do obscuro incargo de guardião do seu convento―cargo que acceitára por obediencia―e quasi que limitava as suas relações fóra do claustro áquella casa do valle onde não havia senão aquella velha e aquella criança?

Apezar de sua rigidez ascetica, prendia esse espirito por alguma coisa a este mundo? Aquelle coração macerado do cilicio dos pensamentos austeros e terriveis do eterno futuro, consummido na abstinencia de todo o gôso, detodo o desejo no presente, teria acaso viva ainda bastante alguma fibra que vibrasse com recordações, com saudades, com remorsos do passado?

No seu convento elle não tinha senão uma cella nua com um cruxifixo por todo adôrno, um breviario por unico livro. N'aquella so familia que conversava, havia, ja o disse, a velha cega e decrepita, Joanninha com quem apenas fallava, e um ausente, um rapaz de quem ha dous annos quasi que se não sabia. Em intrigas politicas, em negocios ecclesiasticos, em coisa mais nenhuma d'este mundo não tinha parte. De que vivia pois este homem―homem que certo não era d'aquelles que vivem so de pão?

E este era dos poucos textos latinos que elle repettia, este o thema predilecto dos raros sermões que prégava:

Non in solo pane vivit homo

, Nem so de pão vive o homem.

Vivia então de alguma outra coisa este homem; e a meditação e a oração não lhe bastavam, porque elle sahia do seu convento e não ia prégar nem rezar... todas as sextas feiras era certo na casa do valle á mesma hora, do mesmo modo...

Alli estava pois alguma parto da vida do frade que de todo se não desprendêra da terra, e que, por mais que elle diga, lhe faltava

castrar

ainda por amor do ceo.

É que meio seculo de viver no mundo deixa muita raiz que não morre assim. E talvez é uma so a raiz, mas funda, e rija de fevra e de seiva, que as folhas morrem, os ramos seccam, o tronco apodrece, e ella teima a viver.

Saibamos alguma coisa d'essa vida.

CAPITULO XVI.

Saibâmos da vida do frade.―Era franciscano porquê?―Dos antigos e dos novos martyres.―Alguns particulares de Fr. Diniz antes e depois de ser frade.―Emigração.―Explicação incompleta.―De como a velha tinha perdido a vista e Joanninha o riso.―Sexta feira dia aziago.

Saibamos alguma coisa da vida do frade, da sua vida no seculo, porque a do claustro era nua e nulla, monotona e singela como a temos visto.

Chamava-se elle no seculo Diniz de Atahide, e seguira a carreira das armas primeiro, depois a das lettras. Com distincção, e quasi com paixão, tomára parte na campanha da Peninsula e a fizera quasi toda; mas desgostoso do serviço ou despreoccupado da glória militar, entrou na magistratura para que estava habilitado, e em 1825, do logar de corregedor do Ribatejo, em que ja fôra reconduzido, devia passar á casa do Porto.

Foi a Lisboa receber o seu despacho, beijou a mão a elrei, e d'ahi tomou um dia o caminho de Santarem, chegou áquella villa, deixou criados e cavallos na estalagem, e foi tocar á campa da portaria de San'Francisco.

Os criados esperaram em vão muitos dias: elle não voltou.

Desappareceu do mundo Diniz de Atahide, e d'alli a dous annos appareceu Fr. Diniz da Cruz, o frade mais austero e o prégador mais eloquente d'aquelle tempo. Raro prégava, e so de doutrina; mas era uma torrente de vehemencia, uma uncção, uma fôrça!..

Dos institutos monasticos, ja então bem decahidos todos de esplendor e reputação, a ordem de San'Francisco era talvez a que mais descêra no conceito público. Quanto mais austera é a regra, tanto mais se nota qualquer relaxação nos que a professam: a dos franciscanos tinha-se feito proverbial e popular. Elles eram tantos por toda a parte, e tam conversantes com todas as classes; familiarizára-se por tal modo o povo com o aspecto d'aquellas mortalhas negras―aspecto ja não severo, e apenas deixou de o ser... ridículo―e ellas appareciam em taes logares, a taes horas, por tal modo... que todo o respeito, toda a estima, toda a consideração se lhe perdera. Escriptores, ja os não tinham, prégadores poucos e sem reputação, era em todo o sentido a religião mais humilhada na geral decadencia das ordens.

Fr. Diniz procurou-a por isso mesmo. Queria ser frade, o frade desprezado e apupado do seculo dezenove.

Em certos animos é preciso muito mais valor e enthusiasmo para affrontar este martyrio, do que fôra nos antigos tempos para ir ao incôntro das nobres perseguições do sangue e do fogo.

Luctava-se com honra então, cahia-se com glória, vencia-se muitas vezos morrendo...

Agora é soffrer so.

O mundo applaudia aquelles grandes sacrificios, e assistia com interêsse, com admiração, com espanto áquelles combates gigantescos. E o tyranno tremia diante da sua victima... quando lhe não cahia aos pés vencido, convertido e penitente...

Hoje o povo passa e ri, os reis cuidam de outra coisa, e a mesma Egreja não sabe que tem martyres.

'Pois tem-n'os' dizia Fr. Diniz 'e precisa mais d'elles para se regenerar, do que ja precisou para fundar-se.'

Eis aqui porque Diniz d'Atahide não quiz ser bento, nem jeronymo, nem cartucho, e se foi

De todos os seus bens, que eram consideraveis, tirou apenas a modica somma de dinheiro que era necessaria para pagar o dote e piso de sua entrada no convento. Do resto fez doação inteira a D. Francisca Joanna―a velha hoje cega e decrepita que no princípio d'esta historia incontrámos dobando á sua porta na casa do valle.

A velha não tinha mais familia que um neto e uma neta.

A neta era Joanninha, filha unica de seu unico filho varão, e ja orphan de pae e de mãe.

O neto, orpham tambem, nascêra posthumo, e custára a vida a sua mãe, filha querida e predilecta da velha.

Antes da splendida doação de Fr. Diniz, a familia, que era de boa e honrada descendencia, podia dizer-se pobre; depois viviam remediadamente. Mas a velha não quiz nunca sahir do modesto estado em que atélli vivêra. Tinham fartura de pão, azeite e vinho de suas lavras; corria-lhe com ellas um criado velho de confiança; trajavam e tractavam-se como gente mean, mas independente.

Em tempos mais antigos e em vida dos dous filhos de D. Francisca, Fr. Diniz, então Diniz d'Atahide e corregedor da commarca, frequentára bastante aquella casa. Desde a morte do filho e do genro, que ambos pereceram desastradamente n'um dia cruzando o Tejo n'um saveiro em occasião de grande cheia, elle nunca mais lá tornára.

Até que se metteu frade, e que passaram annos e que o fizeram guardião do seu convento.

Ja a nora e a filha da velha tinham morrido tambem.

E foi notavel que na mesma hora em que Fr. Diniz professava em San'Francisco de Santarem, vestia D. Francisca aquella tunica roxa que nunca mais largou.

Mas um dia, chegou Fr. Diniz á porta da casa do valle e disse:

―'Deus seja n'esta casa!'

A velha estremeceu, mas tornou logo a si, fez sahir as crianças que brincavam aopé d'ella, fechou-se com o frade, e fallaram baixo um dia inteiro. Rezaram e choraram, que tudo se ouviu; mas o que disseram e conversaram nunca se soube.

O frade foi-se ao anoitecer, a velha ficou rezando e chorando, e rezou e chorou toda a noite.

Isto fôra n'uma sexta-feira; d'ahi por deante em todas as sexta-feiras de cada semana, Fr. Diniz vinha passar algumas horas com a velha.

Não era seu confessor, mas dirigia-a como se o fosse, em tudo e por tudo, menos no que respeitava a Joanninha.

Havia no frade uma affectação visivel, um systema premeditado e inalteravel de se abster completamente de tudo o que podesse intervir, por mais remotamente que fosse, com aquella interessante criança.

Joanninha não lhe tinha medo, mas o respeito que lhe elle inspirava era misturado de uma aversão instinctiva, que, por contradicção inaudita e inexplicavel, a deixava sympathizar com tudo quanto elle dizia e professava: doutrinas, opiniões, sentimentos, tudo lhe agradava no frade, menos a pessoa.

Não assim Carlos, o primo, o companheiro, o unico amigo da nossa Joanninha, o outro neto da velha por sua filha. Andava elle ja no último anno de Coimbra e ia formar-se em leis, quando Fr. Diniz da Cruz começou de novo a frequentar a casa que Diniz de Atahide tinha abandonado.

Sôbre esse a inspecção do frade era minuciosa, vigilante, inquieta. Os livros que elle lia, os amigos com quem vivia, as ideas que abraçava, as inclinações para que pendia―de tudo se occupava Fr. Diniz, tudo lhe dava cuidado. A elle directamente pouco lhe dizia, mas com a avó tinha longas conferencias a esse respeito.

Ultimamente parecia satisfazer-se com o geito que o mancebo indicava tomar.

―'É temente a Deus, não tem o ânimo cubiçoso nem servil, não é hypocrita, o mania do liberalismo não o mordeu ainda... hade ser um homem de prestimo:' dizia o frade a D. Francisca com verdadeira satisfacção e interêsse.

Passára porêm de seu meio o

memoravel

anno de 1830, e Carlos, que se formára no princípio d'aquelle verão, tinha ficado por Coimbra e por Lisboa, e so por fins d'agosto voltára para a sua familia. E veio triste, melancholico, pensativo, inteiramente outro do que sempre fôra, porque era de genio alegre e naturalmente amigo de folgar, o mancebo.

O dia em que elle chegou era uma sexta-feira, dia de Fr. Diniz vir ao valle.

Passaram as primeiras saudações e abraços, ficaram sos os dous, e:

―'Não gósto de te ver:' disse o frade.

―'Pois quê? que tenho eu?'

―'Tens que vens outro do que foste, Carlos.'

―'Outro venho, é verdade; mas não se infadem de me ver, que o infado hade durar pouco.'

―'Que queres tu dizer?'

―'Que estou resolvido a emigrar.'

―'A emigrar, tu!... Porquê, paraquê? Que loucura é essa?'

―'Nunca estive tanto em meu juizo.'

―'Carlos, Carlos! nem mais uma palavra a similhante respeito. Em que más companhias andaste tu, que maus livros lêste, tu que eras um rapaz?.. Carlos, prohibo-te de pensar n'esses desvarios.'

―'Prohibe-me... a mim... de pensar!... Ora, senhor...'

―'Prohibo de pensar, sim. Le no teu Horacio se estás cançado das pandectas. Vai para a eira com o teu Virgilio... ou passeia, caça, monta a cavallo, faze o que quizeres, mas não penses. Ca estou eu para pensar por ti.'

―'Porquê? eu heide ser sempre criança? a minha vida hade ser ésta? Horacio! tenho bom ânimo para ler Horacio agora... e a bella occupação para um homem de vinteeum annos, scandar jambos e trocheus.'

―'Pois le na tua biblia, que é poesia medida n'alma e que repasce o espirito e o coração.'

―'Eu não quero ser frade: sabe?'

―'Nem te eu quero para frade.'

―'Graças a Deus! Cuidei que... Mas em fim no seculo em que estamos...'

―'O seculo em que estamos é o da presumpção e o da immoralidade: e eu quero-te livrar de uma e de outra, Carlos. Tua avó sabe as minhas tenções a teu respeito, approva-as...'

―'Minha avó... approva muita coisa que eu reprovo.'

―'Como assim, Carlos! que queres tu dizer?'

―'Isto mesmo, senhor;―e que ámanhan que vou para Lisboa, imbarcar para Inglaterra.'

―'Carlos!'

―'É uma resolução meditada e inalteravel. Não quero nada com ésta terra nem com ésta...'

―'Com ésta o quê, Carlos?..'

―'Pois quer ouvi-lo, digo-lh'o: com ésta casa.'

O frade suffocava, e balbuciou entre cholerico e aterrado:

―'Dir-me-has porquê?..'

―'Porque me abhorrece e me humilha este mando de um extranho aqui... porque sempre desconfiei, porque sei emfim...'

―'Sabes o quê?'

―'Sei, padre Fr. Diniz, mas não me pergunte o que eu sei.'

Amarello, roxo, pallido, negro, o frade tremia; sumiram-se-lhe mais os olhos e faiscavam lá de dentro como duas brazas; fez um esfôrço sôbre si mesmo para fallar, e disse com uma voz cava e cavernosa como de sepulchro:

―'Pois pergunto, sim; e permitta Deus!..'

―'Padre, não jure nem pragueje' interrompeu Carlos com firmeza e serenidade 'as suas intenções serão boas talvez... creio que são boas, filhas de um remorso salutar...'

―'Que dizes tu, Carlos... que disseste?.. Oh, meu Deus!'

As scenas tinham mudado: Fr. Diniz parecia o pupillo, a sua voz tinha o som da súpplica, ja não tremia de íra mas de anciedade; Carlos, pelo contrario, fallava no tom austero e grave de um homem que está forte na sua razão e que é generoso com a sua offensa. As palavras do mancebo eram agras, via-se que elle o sentia e que procurava adoçá-las na inflexão, que lhes dava.

―'O que eu digo, padre Fr. Diniz, o que eu sou obrigado a dizer-lhe é isto. Minha avó consentiu, por fraqueza de mulher, no que eu não posso nem devo consentir. O que ha n'ésta casa não é... não é meu; o pão que aqui se come... é comprado por um preço... Padre! ja ve que não podêmos fallar mais n'este assumpto. Eu parto ámanhan para Lisboa.―Minha avó!' acrescentou Carlos, mudando de voz e chamando para dentro 'minha avó!'

A velha acudiu, elle disse-lhe a sua tenção, motivou-a em opiniões politicas, declamou contra D. Miguel, mostrou-se enthusiasta da causa liberal, e protestou que, n'aquelle anno, de tal modo se tinha pronunciado em Coimbra e ainda em Lisboa, que só uma prompta fuga o podia salvar...'

A velha chorou, pediu, rogou... inutilmente, em vão.

Fr. Diniz assistiu a tudo isto sem dizer palavra.

E aquella tarde voltou mais cedo para o convento.

No outro dia de manhan muito cedo, abraçado com a avó e com a priminha que se desfaziam em lagrymas, Carlos dizia o último adeus áquella querida casa, áquelle amado valle em que fôra criado... N'essa noite estava em Lisboa, d'ahi a poucos dias em Inglaterra, e d'ahi a alguns meses na ilha Terceira.

Na sexta-feira depois da partida de Carlos, Fr. Diniz veio ao valle e teve larga conferencia com a avó.

Os tres dias seguintes a velha levou fechada no seu quarto a chorar... no fim do terceiro dia estava cega.

Joanninha era uma criança a esse tempo, parecia não intender nada do que se passava. Mas quem a observasse com attenção, veria que ella dobrou de carinho e de amor para com a avó, e que se não tornou a rir para o frade...

Elle, o frade, invelheceu de dez annos n'aquelle dia. Os olhos sumidos, que era a feição dominante n'aquelle rosto ascetico, sumiram-se mais e mais; a estatura alta e erecta curvou-se-lhe; o tremor nervoso, que o tomava por accessos, tornou-se-lhe habitual; os tendões enrijaram-lhe, os musculos da cara descarnaram-se, e a pelle ja sulcada de fundos cuidados, arrugou-se e franziu-se toda em rugas cruzadas e confusas como que se lh'a torrassem n'uma grelha.

Nunca mais houve um dia de alegria no valle. A sexta-feira porêm era o dia fatal e aziago. Fr. Diniz ja não vinha senão no fim da tarde e demorava-se pouco; mas tanto bastava. Suspirava-se por aquella hora e tremia-se d'ella. As notícias que consolavam, e os terrores que matavam, o frade é que os trazia. O resto da semana levava-se a chorar e a esperar.

E assim se tinham passado dous annos até á sexta-feira em que primeiro vimos junctas á porta da casa aquellas tres criaturas; assim se passou até d'ahi a oito dias que a nossa historia volta a incontrá-los.

CAPITULO XVII.

De como, chegando outra sexta-feira e estando a avó e a neta á espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da banda de Lisboa.―Porque razão muitas vezes a mais animada conversação é a que mais facilmente pára e quebra derepente.―Nova demonstração de dous grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hábito não faz o monge; e que ralhando as commadres, se descobrem as verdades.―No ralhar da velha com o frade, levanta-se uma ponta do veo que cobre os mysterios da nossa historia.

Passaram-se aquelles oito dias no valle, não ja como se tinham passado tantas outras semanas em vagas tristezas, em desconsolação e desconfôrto, mas em positiva anciedade e aguda afflicção pela certeza que trouxera o frade de se achar Carlos no Porto fazendo parte do pequeno exército do D. Pedro.

Incertos rumores, d'aquelles que percorrem um paiz em tempos similhantes e que augmentam e exaggeram, confundem todos os successos tinham chegado até ás pacificas solidões do valle com as notícias de combates sanguinarios, de commoções violentas, de desacatos sacrilegos, de vinganças e reprezalias atrozes tomadas pelos aggressores, retribuídas pelos que se defendiam.

Chegou a sexta-feira; e as horas d'esse dia, sempre desejado e sempre temido, foram contadas minuto a minuto―a qual mais longo, a qual mais pezado e lento de volver, quanto mais se approximava o derradeiro.

O sol declinava ja... e Fr. Diniz sem apparecer!

No seu poiso ordinario aopé da porta da casa, Joanninha com os olhos extendidos, a velha com os ouvidos álerta, devoravam o espaço na direcção de nascente, esperando a cada momento, temendo a cada instante ver apparecer o conhecido vulto, ouvir o som familiar dos passos do frade.

E tam intentas, tam absortas estavam ainda n'este cuidado, que não deram fe d'um religioso que pelo lado opposto, isto é, da banda de Lisboa, para alli se incaminhava a passos arrastados mas presurosos.

Chegou rente d'ellas sem o sentirem; e uma voz conhecida, porêm mais cava e funda do que nunca a ouviram, pronunciou a fórmula de saudação costumada:

―'Deus seja n'esta casa!'

―'Amen!' responderam ambas machinalmente, com um estremeção involuntario; e voltando derepente a cara para o lado d'onde vinha a voz.

―'Jesus!' disse depois a velha tornando a si, 'Padre Fr. Diniz, de d'onde vem tam tarde?'

―'Chego de Lisboa.'

―'De Lisboa? Deus lh'o pague!... Foi saber?..'

―'Fui, fui saber novas d'esta horrivel guerra, d'esta tremenda visitação do Senhor á condemnada terra de Portugal...'

―'E então, diga'...

―'Boas novas, boas novas trago!'

―'Sente-se, padre, sente-se. Joanninha, chega uma cadeira: descanse.'

―'Não é tempo de descansar este, mas de vigiar e de orar.'

―'Pois que succedeu, padre? Não me tenha n'esta horrivel suspensão. Diga: onde está elle? Alguma desgraça grande lhe aconteceu, oh meu Deus!..

―'E que me importa a mim o que aconteceu ou podia acontecer a mais um de tantos perdidos? Encherá a sua medida, irá após dos outros... caminha nas trevas com elles, e como elles, so hade parar no abysmo.'

A éstas derradeiras palavras do frade asperamente pronunciadas e em tom de indifferença e desprêzo, seguiu-se aquelle silencio comprimido, aquella pausa de toda a conversação grave e íntima em que os pensamentos são tantos que se atropellam e não acham sahida na voz.

Fr. Diniz mentia... na dureza d'aquellas expressões mentia ao seu coração―não mentia ao seu espirito. Como o caustico se applica á epiderme para deslocar a inflammação interior, elle roçava o peito com as asperidões de sua doutrina e de seus principios rigidos para amortecer dentro a viva dor d'alma que o consummia.

O frade estava por fóra, o homem por dentro.

O observador vulgar não via senão o burel e a corda que amortalhavam e cadaver. O que attentasse bem n'aquelles olhos, o que reparasse bem nas inflexões d'aquella voz, diria: 'Frade, tu mentes; mentes sem saberes que mentes: es sincero na tua fe, na tua austeridade, na tua abnegação; mas o teu sacrificio é como o de Abraham na montanha, e Deus sabe que tu não tens fôrça para o cumprir.'

Não o percebeu assim a pobre velha aquem os rigores de Fr. Diniz faziam tremer, e que para toda a affeição, para todo o sentimento humano julgava morto o coração do cenobita.

Ella que no silencio de suas noites sempre veladas, na perpétua escuridão de seus dias sempre tristes luctava ha tanto tempo, luctava debalde para desprender das affeições do mundo, aquelle seu pobre coração que queria immollar ao Senhor, ella via com sancta inveja e admiração as sobrehumanas fôrças que imaginava no frade; e desanimada de o podêr seguir n'essas alturas da perfeição evangelica, recahia, mais desalentada e mais miseravel que nunca, em toda a sua fraqueza de mulher e de mãe.

Oh! não sabe o que é tormento, o que é inferno n'este mundo, o que não soffreu destas angústias!

Mas permitte Deus que as padeça quem não tem grandes culpas, grandes e irreparaveis erros que expiar n'este mundo?

Eu creio firmemente que não.

Cansada e exhausta ja de tam porfiada lucta, a velha perdeu de todo a razão com as derradeiras palavras do frade, e n'um paroxismo de chôro exclamou:

―'Diniz!.. Fr. Diniz, por aquelle pinhor sagrado que eu tenho em meu podêr, por aquella preciosa cruz sôbre a qual se derramaram as últimas lagrymas da minha desgraçada filha, Diniz!...'

―'Silencio!' bradou o frade, arrancando um brado de dentro do peito que fez gemer os echos todos do valle: 'Silencio, mulher! não conjure o demonio que eu trago incarcerado n'este seio, que á fôrça de penitencias mal pude domar ainda... que so a morte poderá talvez expellir. Mulher, mulher! este cadaver que ja morreu que ja apodreceu em tudo o mais, que ja o comem, sem o elle sentir, os bichos todos da destruição... este cadaver tem um unico ponto vivo no coração... e o dedo do teu egoismo ahi foi tocar, oh mulher!.. Peccado que estás sempre contra mim! Justiça eterna de Deus quando serás satisfeita?'

Rompêra na maior violencia a voz do frade, mas descahiu n'um tom baixo e medonho ao fazer ésta última imprecação mysteriosa. As derradeiras syllabas quasi que lhe morreram nos beiços convulsos, e ao balbuciá-las deixou-se cahir, exhausto e como quem mais não podia, na cadeira que Joanninha lhe chegára.

A velha aterrada e confusa tremia do que fizera, como deante do espirito immundo que seus maleficios evocaram, treme a maga assustada de seu proprio podêr.

Passaram alguns segundos que nenhumas palavras podem descrever.

O frade levantou o rosto, olhou para ella, olhou para Joanninha... e, como quem emerge, por grande esfôrço, de um pêso enorme d'aguas que o submergiam, sacudiu a cabeça, sorveu um longo trago de ar, e disse na sua voz ordinario, so mais debil:

―'Carlos, senhora... minha irman, Carlos está vivo; e exaqui, vinda pelo consul de França, uma carta d'elle.'

Tirou uma carta da manga e a intregou a Joanninha.

CAPITULO XVIII.

Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre o frade e a velha.―Piedosa fraude de Joanninha.―Lucta entre o hábito e o monge.

O frade intregou a carta a Joanninha, que, lançando os olhos ao sobrescripto, ficou indecisa e inquieta como quem receia e deseja e teme de saber alguma coisa. Elle com voz trémula e sobresaltada accrescentou:

―'Adeus, que são horas!.. Leiam, e sexta-feira que vem... me dirão...'

―'Poisquê' disse timidamente a velha 'não quer ouvir o que elle nos escreve?'

―'Sexta-feira que vem' continuou Fr. Diniz, sem ouvir ou sem attender a pergunta 'sexta-feira que vem eu tomarei conta da resposta, e lh'a farei chegar pela mesma via... So uma coisa! nem palavra a meu respeito: eu para Carlos... morri.'

―'Diniz!' exclamou a velha fóra de si 'Diniz!..'

O frade tornou derepente ao seu tom austero, e respondeu gravemente: 'O quê, minha irman?'

―'Era' disse ella timida e submissa outra vez 'era se, era que... Pois não hade ouvir ler a carta d'elle?'

Fr. Diniz não respondeu, mas ficou sentado: descahiu-lhe a cabeça sôbre o peito, e abraçando-se com o bordão, não deu mais signal de si.

A velha escutou em silencio alguns segundos, e com aquelle ouvido agudissimo―penetrante vista dos cegos―percebeu sem dúvida o que se passava, e com mais confôrto e serenidade na voz disse:

―'Abre, Joanna, lê, minha filha.'

Joanninha abriu a carta, e percorreu com avidez as poucas linhas que ella incerrava.

―'Não les?' acudiu a avó com impaciencia: 'Lê, lê alto, Joanna.'

―'É para mim so a carta' disse ella friamente.

―'Para ti so, como?' tornou a outra.

―'É para mim so ésta carta... não diz nada que...'

―'Não diz nada!' replicou a avó 'Pois!... Lê, lê alto; seja como for, lê, e oiçamos.'

Joanninha parecia hesitar ainda; lançou os olhos ao frade, achou-o na mesma attitude impassivel; voltou-se para a avó, viu-a anciada e anxiosa... leu.

A carta era com effeito para ella so, e carta bem singela, não continha senão as ingenuas expressões de um amor fraterno nunca esquecido, longas saudades do passado, poucas esperanças no futuro, quasi nenhumas de se tornarem a ver tam cedo. Tudo isto porém era com a prima: para a desconsolada avó, para ninguem mais... nem uma palavra.

Joanninha ia lendo, lendo... e a voz a descahir-lhe: no fim ajunctou uns abraços, umas saudosas lembranças, e não sei que phrase incompleta e mal articulada em que se pedia a bençam da avó.

A velha abanou a cabeça tristemente e disse: 'Ora pois... bemditto seja Deus!'

Joanninha córou até o branco dos olhos... Inda bem que a não podia ver a avó! Mas viu-a Fr. Diniz, e com a mão trémula e os olhos arrazados d'agua lhe fez um mudo e expressivo signal de approvação e agradecimento. Joanninha córou outra vez, e logo se fez pallida como a morte: era a primeira vez que mentia... e Fr. Diniz, o austéro Fr. Diniz apprová-la!

O frade levantou-se, e sem dizer palavra, tomou o caminho de Santarem.

Ouvia-se ao longe o arquejar de uns soluços suffocados... Seriam d'elle?

A avó e a neta abraçaram-se e choraram.

Nenhuma d'ellas disse palavra sôbre a carta: a velha tinha percebido a piedosa fraude de Joanninha...

Oh! que existencias que eram aquellas quatro! Esse frade, essa velha e essas duas crianças! E a maior parte da gente que é

gente

, vive assim... E querem, querem-n'a assim mesmo, a vida, teem-lhe appêgo! Oh que enigma é o homem!

Tornou a passar outra semana, e o frade tornou a vir no praso costumado, e levou a resposta da Tornou a passar outra semana, e o frade tornou a vir no praso costumado, e levou a resposta da carta―resposta que Joanninha so escreveu e so viu―e dirigiu-a em Lisboa pela via segura que indicára.

Soube-se que fôra intregue; mas semanas e semanas decorreram, os meses passaram de anno... e outra carta não veio.

No entretanto a guerra civil progredia; e depois de suas tremendas peripecias, o grande drama da Restauração chegava rapidamente ao fim. Eram meiados do anno de 33, a operação do Algarve succedêra milagrosamente aos constitucionaes, a esquadra de D. Miguel fôra tomada, Lisboa estava em podêr d'elles. Os tardios e inuteis esforços dos realistas para retomar a capital tinham occupado o resto do verão. Ja outubro se descoroava de seus ultimos fructos, e as folhas começavam a impallidecer e a cahir, quando uma sexta-feira, ao pôr do sol, Fr. Diniz apparecia no valle mais curvado e mais trémulo que nunca. Vinha do exército realista que então cercava Lisboa.

Joanninha não era alli, a velha estava so.

―'Que nos traz, padre?' clamou ella mal que o sentiu: 'Soube d'elle? Tem escapado a éstas desgraças, a esses combates mortaes?'

―'Não sei nada, minha irman: ha tres dias que de Lisboa se não póde obter a menor informação. As linhas estão fechadas e guarnecidas como nunca: tudo indíca havermos de ter cedo algum combate decisivo.'

―'Deus seja com!..'

―'Com quem, minha irman?'

―'Com quem tiver justiça.'

―'Nenhum a tem. De um lado e de outro está a ambição e a cubiça, de um lado e de outro a immoralidade, a perdição e o desprêzo da palavra de Deus. Por isso, vença quem vencer, nenhum hade triumphar.'

―'Ai, o meu pobre filho, o meu Carlos!'

―'Isso, irman Francisca, isso! Peça a Deus que dê a victoria a seu neto, e á impiedade por que elle combate. Peça a Deus que vençam os inimigos declarados do seu nome, os destruidores de seus altares, os profanadores de seus templos... Oh! que dia bello e grande não hade ser esse, quando Carlos... o seu Carlos, vier expulsar, ás baionetadas, do pobre convento de San'Francisco, o velho guardião―que lhe não hade fugir, minha irman!.. d'elle menos que de nenhum outro... que ajoelhado deante do altar inclinará a cabeça como os antigos martyres para cahir na presença do seu Deus ás mãos do seu...'

―'Diniz!.. Padre!.. Padre Frei Diniz, que horrorosas palavras sahem da sua bôcca!.. Meu neto, o meu Carlos não é capaz... oh meu Deus!..'

―'Seu neto detesta-me... e tem... tem razão.'

―'Não sabe a verdade elle... Carlos está inganado, cuida... não sabe senão meia verdade: e eu, eu heide―custe o que me custar―eu heide...'

―'Hade o quê?'

―'Heide desinganá-lo, heide-lhe dizer a verdade toda. Heide prostrar-me na sua presença, heide humilhar-me deante do filho de minha filha, heide arrastar na poeira de seus pés éstas cans e éstas rugas... morrerei de vergonha e de remorsos deante do meu filho, mas elle hade saber a verdade.'

Sahiam com tal impeto e com tam desacostumada energia éstas mysteriosas e tremendas palavras da bôcca da velha, que Fr. Diniz não ousou contê-la; ouviu até ao fim, deixou quebrar o impeto da torrente, e erguendo então a sua voz austera mas pousada, disse n'aquelle tom friamente decisivo que tanto impõe aos animos apaixonados:

―'Se tal fizesse, mulher, a minha maldicção, a maldicção eterna de Deus sôbre a sua cabeça para sempre!... Oh mulher, pois não lhe basta que elle me abhorreça―não lhe basta que seu neto lhe perdesse o amor... quer... quer tambem que nos despreze?'

A velha gemeu profundamente, e, por um geito de antiga reminiscencia, levou as mãos aos olhos como se os tapasse para não ver. Então disse com desconsoladas lagrymas na voz:

―'A vontade de Deus seja feita!'

CAPITULO XIX.

Guerra de postos avançados. Joanninha no bivac―De como os rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a retreta.―Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram este nome.―A sentinella perdida e achada.

A velha disse aquellas últimas palavras com uma expressão de dor tam resignada, mas tam desconsolada, que o frade olhou para ella commovido, e sentiu as lagrymas escurecerem-lhe a vista.

N'este momento Joanninha, que passeiava a alguma distancia da casa na direcção de Lisboa, acudiu sobresaltada bradando:

―'Avó, avó!.. tanta gente que ahi vem! soldados e povo... homens e mulheres... tanta gente!'

Era a retirada de 11 de outubro.

―'Deus tenha compaixão de nós!' disse a velha: 'O que será padre?'

―'O que hade ser!' respondeu Fr. Diniz: 'o meu presentimento que se verifica; o combate foi decisivo, os constitucionaes vencem.'

Comeffeito foram apparecendo as tropas que se retiravam, as gentes que fugiam, e todo aquelle confuso e doloroso espectaculo de uma retirada em guerra civil...

Alguns feridos, que não podiam mais, ficaram na casa do valle intregues á piedosa guarda e cuidado de Joanninha; dos outros tomou conta Fr. Diniz e os acompanhou a Santarem.

As tropas constitucionaes vinham em seguimento dos realistas, e d'alli a poucos dias tinham o seu quartel-general no Cartaxo; D. Miguel fortificava-se em Santarem, e a casa da velha era o último posto militar occupado pelo seu exército.

Não tardou muito que a fôrça toda, todo o interêsse da guerra se não concentrasse n'aquelle, ja tam pacífico e ameno, agora tam desolado e turbulento valle.

Eram os derradeiros dias do outomno, a natureza parecia tomar dó pelo homem―dar triste e lugubre decoração de scena ao sanguento drama de destruição e de miseria que alli se ía concluir. As últimas folhas das árvores cahiam, o ceo nublado e negro vertia sôbre a terra apaulada torrentes grossas d'agua, a cheia alagava os baixos, e as terras altas cobriam-se de hervas maninhas, os trabalhos da lavoira cessavam, o gado e os pastores fugiam, e os soldados de um e de outro campo cortavam as oliveiras seculares...

Tudo estava feio e torpe, tudo era ruina, desolação e morte emtôrno da casa do valle, agora transformada em quartel e redutto militar.

E que era feito, no meio d'ésta desordem, que era feito da nossa pobre velha, da nossa interessante Joanninha?

Apenas se estabeleceu a posição dos dous exercitos, Fr. Diniz queria levá-las para Santarem; mas não foi possivel. Instancias, rogos, ordem positiva, tudo foi em vão. Pela primeira vez na sua vida, aquella mulher tímida, fraca e irresoluta, soube ter vontade firme e propria.

―'Aqui nasci,' dizia ella, 'aqui vivi, aqui heide morrer. Que importa como?.. Aqui as curtas alegrias, aqui as longas dores da minha vida teem passado: onde heide eu ir que possa viver ou morrer senão aqui? Ésta casa sei-a de cór, éstas árvores conhecem-me, estes sitios são os ultimos que vi, os unicos de que me lembra: como heide eu, velha e cega, ir fazer conhecimento com outros para viver n'elles?..'

―'E Joanninha n'essa edade... no meio d'essa soldadesca!' suggeria o frade.

―'Joanninha' tornava ella 'Joanninha é uma criança, e tem mais juizo, mais energia d'alma, mais saude e mais fôrça do que―mulheres não fallemos―do que a maior parte dos homens. Ficaremos aqui, padre, ficaremos aqui melhor do que em Santarem podêmos estar. Deus nos defenderá...'

Fr. Diniz cedeu: a mesma vaga e indeterminada esperança que animava a velha, e que a prendia tam fortemente alli, não era extranha ao coração do frade. Ella não ousava nem alludir de longe a essa esperança, mas sentia-se que lá a tinha anninhada e escondida a um canto d'alma... Aquelle neto, aquelle filho da filha querida havia de vir ter á casa em que nascêra... por alli havia de passar, e mais dia menos dia... A velha, repitto, nem alludia a tal esperança, mas sentia-se que a tinha: percebeu-lh'a Fr. Diniz, e ou a partilhasse tambem ou não se atrevesse a contrariar razões que lhe não davam, cedeu e callou-se.

O seu principal temor era a licenciosa soltura dos costumes militares; mas estava Joanninha menos exposta por se accolher a uma praça de guerra como Santarem era agora?

Brevemente se viu que a avó tinha accertado. A franca e ingenua dignidade de Joanninha, o ar grave, a melancholia serena e bondosa da velha impozeram tal respeito aos soldados, que―graças tambem á cooperação efficaz do commandante do pôsto, um bom e honrado cavalheiro transmontano―ellas viviam tam seguras e quietas na pequena porção da casa que para si reservaram, quanto em taes circumstancias era possivel viver. Fr. Diniz vinha regularmente ao valle todas as sexta-feiras, e nenhum outro hábito de suas vidas se interrompeu.

E pouco a pouco, os combates, as escaramuças, o som e a vista do fogo, o aspecto do sangue, os ais dos feridos, o semblante desfigurado dos mortos―a guerra emfim em todas as suas fórmas, com todo o seu palpitante interêsse, com todos os terrores, com todas as esperanças que a accompanham, se lhes tornou uma coisa familiar, ordinaria...

A tudo se habitua o homem, a todo o estado se affaz; e não ha vida, por mais extranha, que o tempo e a repettição dos actos lhe não faça natural.

Todavia de Carlos nem mais uma linha... Pobre velha!

Assim passaram meses, assim correu o hynverno quasi todo, e ja as amendoeiras se toucavam de suas alvissimas flores de esperança, ja uma depois de outra, íam renascendo as plantas, íam abrolhando as árvores; logo vieram as aves trinando seus amores pelos ramos... insensivelmente era chegado o meio d'Abril, estavamos em plena e bella primavera.

A guerra parecia cançada, o furor dos combatentes quebrado; rumores de intentadas transacções gyravam por toda a parte.

No nosso valle as sentinellas dos dous campos oppostos, costumadas ja a ver-se todos os dias, começavam a ver-se sem odio: principiaram por se dizer dos pesados gracejos de guerra, acabaram por conversar quasi amigavelmente. Muíta vez foi curioso ouvi-los, os soldados, discorrer sôbre as altas questões d'Estado que dividiam o reino e o traziam revôlto ha tantos annos. Se as tractavam melhor os do conselho em seus gabinetes!

Joanninha que, pouco a pouco, se habituára áquelle viver de perigos e incertezas, de dia para dia lhe ia crescendo o ânimo, aguerrindo-se. Tudo se affazia áquelle estado: até os rouxinoes tinham voltado aos loureiros d'aopé da casa, e como que disciplinados obedeciam aos toques d'alvorada e de retreta, accompanhando-os de seu cantar animado e vibrante.

A essas horas Joanninha era certa em sua janella―n'aquella antiga e elegante janella

renascença

de que primeiro nos namorámos, leitor amigo, ainda antes de a conhecer a ella. Alli a viam as vedetas de ambos os exercitos, alli se acostumaram a vê-la com o nascer e o pôr do sol: alli, muda e quêda horas esquecidas, escutava ella o vago cantar dos seus rouxinoes, talvez absorta em mais vagos pensamentos ainda...

E d'alli lhe pozeram o nome da 'menina dos rouxinoes', pelo qual era conhecida em ambos os campos: significante e poetico appellido com que a saudavam os soldados de ambas as bandeiras!

E uns e outros respeitavam e adoravam a menina dos rouxinoes. Entre uns e outros por tacita convenção parecia stipulado que aquella suave e angelica figura podesse andar livremente no meio das armas inimigas, como a pomba doméstica e valida a que nenhum caçador se lembra de mirar.

Os costumes de guerra são menos soltos do que se cuida; no ânimo do soldado ha mais sentimentos delicados, nas suas fórmas ha menos rudeza do que se pensa. A farda é sim vaidosa e presumida, crê muito nos seus podêres de seducção, mas não é brutal senão no primeiro impeto.

Joanninha pençava os feridos, velava os infermos, tinha palavras de consolação para todos, e em tudo quanto dizia e fazia era tam senhora, tinha tam grave gentileza, um donaire tam nobre, que a amavam todos muito, mas respeitavam-n'a ainda mais.

Fiada ja n'este respeito e estima geral, Joanninha fôra extendendo, de dia a dia, as suas excursões pelo valle. Ultimamente costumava ir, pelo fim da tarde, até um pequeno grupo de alamos e oliveiras que ficava mais para o sul e perto do logar donde, á noite, se collocavam as derradeiras vedetas dos constitucionaes.

Um dia, ja quasi pôsto o sol, a tarde quente e serena,―ou fosse que adormeceu ou que suas meditações a distrahiram―o certo é que os rouxinoes gorjeavam ha muito nos loureiros da janella, e Joanninha não voltava.

Estabeleceram-se as vedetas de um lado e outro, deram-se todas as disposições costumadas para a noite.

O official dos constitucionaes que andava collocando as suas sentinellas, tinha vindo essa mesma tarde de Lisboa com um refôrço de tropa. Pôs-se elle em marcha com a sua gente, foi-a dispondo nos logares convenientes, e chegava emfim aopé d'aquelle grupo de árvores:

―'Silencio!' disse elle 'Alto! alli está um vulto.'

―'Não é ninguem,' respondeu um soldado que era dos antigos no pôsto: 'ninguem que importe; é a menina dos rouxinões. Estou vendo que adormeceu no seu poiso costumado.'

―'A menina dos rouxinões! Que cantiga é essa que me cantas tu lá?'

O soldado deu a explicação popular do seu ditto, mostrou a casa do valle, e continuava incarecendo sôbre os meritos e virtudes de Joanninha...

O official não o deixou acabar:

―'Para a rettaguarda, e silencio!'

Foi rapidamente postar, a alguma distancia d'alli, as duas sentinellas que lhe faltavam; e elle entrou so no pequeno grupo d'árvores.

Era Joanninha que estava alli, Joanninha que effectivamente dormia a somno sôlto.

CAPITULO XX.

Joanninha adormecida―O demi-jour da coquette.―Poesia do Flos-sanctorum*.―De como os rouxinoes acompanhavam sempre a menina do seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.―Retratto esquissado á pressa para satisfazer ás amaveis leitoras.―Pondera-se o triste e pessimo gôsto dos nossos governantes em tirarem as honras militares ao mais elegante e mais nacional uniforme do exército portuguez.―Em que se parece o auctor da presente obra com um pintor da edade-média.―De como os abraços, por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais interminaveis que pareçam, sempre teem de acabar porfim.

Sôbre uma especie de banco rustico de verdura, tapeçado de grammas e de macella brava, Joanninha, meio recostada, meio deitada, dormia profundamente.

A luz baça do crepusculo, coada ainda pelos ramos das árvores, illuminava tibiamente as expressivas feições da donzella; e as fórmas graciosas de seu corpo se desenhavam molle e voluptuosamente no fundo vaporoso e vago das exhalações da terra, com uma incerteza e indecisão de contornos que redobrava o incanto do quadro, e permittia á imaginação exaltada percorrer toda a escalla d'harmonia das graças femininas.

Era um ideal do demi-jour da coquette parisiense: sem arte nem estudo, lh'o preparára a natureza em seu boudoir de folhagem perfumado da brisa recendente dos prados.

Como n'essas poeticas e populares legendas de um dos mais poeticos livros que se tem escripto, o Flos-sanctorum, em que a ave querida e fadada accompanha sempre a amavel sancta de sua affeição―Joanninha não estava alli sem o seu mavioso companheiro. Do mais espêsso da ramagem, que fazia sobreceo áquelle leito de verdura, sahia uma torrente de melodias, vagas e ondulantes como a selva com o vento, fortes, bravas, e admiraveis de irregularidade e invenção, como as barbaras endeixas de um poeta selvagem das montanhas... Era um rouxinol, um dos queridos rouxinoes do valle que alli ficára de vela e companhia á sua protectora, á menina do seu nome.

Com o approximar dos soldados, e o cochichar do curto dialogo que no fim do último capitulo se referiu, cessára por alguns momentos o delicioso canto da avezinha; mas quando o official, postadas as sentinellas a distancia, voltou pé ante pé e entrou cautellosamente para debaixo das árvores, ja o rouxinol tinha tornado ao seu canto, e não o suspendeu outra vez agora, antes redobrou de trillos e gorgeios, e do mais alto de sua voz agudissima veio descahindo depois em uns suspiros tam magoados, tam sentidos, que não disseras senão que preludiava á mais terna e maviosa scena d'amor que esse valle tivesse visto.

O official...―Mas certo que as amaveis leitoras querem saber com quem trattam, e exigem, pelo menos, uma esquissa rapida e a largos traços do novo actor que lhes vou appresentar em scena.

Teem razão as amaveis leitoras, é um dever de romancista a que se não póde faltar.

O official era môço, talvez não tinha trinta annos; pôsto que o tratto das armas, o rigor das estações, e o sêllo visivel dos cuidados que trazia estampado no rosto, accentuassem ja mais fortemente, em feições de homem feito, as que ainda devia arredondar a juventude.

A sua estatura era mediana, o corpo delgado, mas o peito largo e forte como precisa um coração de homem para pulsar livre; seu porte gentil e decidido de homem de guerra desenhava-se perfeitamente sob o espesso e largo sobretudo militar―especie de great-coat inglez que a imitação das modas britannicas tinha tornado familiar nos nossos bivacs. Trazia-o desabotoado e descahido para traz, porque a noite não era fria; e viu-se por baixo elegantemente cingida ao corpo a fardeta parda dos caçadores, realçada de seus characteristicos alamares pretos e avivada de incarnado...

Uniforme tam militar, tam nacional, tam caro a nossas recordações―que essas gentes, prostituidoras de quanto havia nobre, popular e respeitado n'esta terra, proscreveram do exército... por muito portuguez demais talvez! deram-lhe baixa para os beleguins da alfandega, reformaram-n'o em uniforme da bicha!

Não pude resistir a esta reflexão: as amaveis leitoras me perdoem por interromper com ella o meu retratto.

Mas quando pinto, quando vou riscando e collorindo as minhas figuras, sou como aquelles pintores da edade-média que interlaçavam, nos seus paineis, distichos de sentenças; fittas lavradas de moralidades e conceitos... talvez porque não sabiam dar aos gestos e attitudes expressão bastante para dizer por elles o que assim escreviam, e servia a penna de supplemento e illustração ao pincel... Talvez: e talvez pelo mesmo motivo caio eu no mesmo defeito...

Será; mas em mim é irremediavel, não sei pintar de outro modo.

Voltemos ao nosso retratto.

Os olhos pardos e não muito grandes, mas de uma luz e viveza ímmensa, denunciavam o talento, a mobilidade do espirito―talvez a irreflexão... mas tambem a nobre singeleza de um character franco, leal e generoso, facil na íra, facil no perdão, incapaz de se offender de leve, mas impossivel de esquecer uma injúria verdadeira.

A bôcca, pequena e desdenhosa, não indicava comtudo suberba, e muito menos vaidade, mas surria na consciencia de uma superioridade inquestionavel e não disputada.

O rosto, mais pallido que trigueiro, parecia comprido pela barba preta e longa que trazia ao uso do tempo. Tambem o cabello era preto; a testa alta e desaffogada.

Quando callado e serio, aquella physionomia podia-se dizer dura; a mais piquena animação, o mais leve sorriso a fazia alegre e prazenteira, porque a mobilidade e a gravidade eram os dous pollos d'esse character pouco vulgar e difficilmente bem intendido.

D'aquelle busto classico e verdadeiramente moldado pelos typos da arte antiga, podia o statuario fazer um philosopho, um poeta, um homem d'estado ou um homem do mundo, segundo as leves inflexões d'expressão que lhe désse.

N'este momento agora, e ao entrar na pequena espessura d'aquellas árvores, animava-o uma viva e inquieta expressão de interêsse―quebrado comtudo, sustido, e, para assim dizer,

soffreado

de um temor occulto, de um pensamento reservado e doloroso que lhe ia e vinha resumbrando na face, como a antiga e desbotada côr de um estôfo que se tingiu de novo―que é outro agora mas que não deixou de ser inteiramente o que era...

Alegra-se assim um triste dia de novembro com o raio de sol transiente e inesperado que lhe rompeu a cerração n'um canto do ceo...

Tal era, e tal estava deante de Joanninha adormecida, o que não direi mancebo porque o não parecia―o homem singular a quem o nome, a historia e as circumstancias da donzella pareciam ter feito tamanha impressão.

―'Joanninha!' murmurou elle apenas a viu á luz ainda bastante do crepusculo. 'Joanninha!' disse outra vez, contendo a violencia da exclamação: 'É ella sem dúvida. Mas que differente!... quem tal diria! Que graça, que gentileza! Será possível que a criança que ha dois annos?..'

Dizendo isto, por um movimento quasi involuntario lhe tomou a mão adormecida e a levou aos labios.

Joanninha estremeceu e acordou.

―'Carlos, Carlos!'―balbuciou ella com os olhos ainda meio-fechados, Carlos, meu primo... meu irmão! era falso, dize: era falso? Foi um sonho, não foi, meu Carlos?..'

E progressivamente abria os olhos mais e mais até se lhe espantarem e os cravar n'elle arregalados de pasmo e de alegria.

―'Foi, foi' continuou ella 'foi sonho, foi um sonho mau que eu tive. Tu não morreste... Falla á tua irman, á tua Joanna; dize-lhe que estás vivo, que não es a sombra d'elle... Não es, não, que eu sinto a tua mão quente na minha que queima, sinto-a estremecer como a minha... Carlos, meu Carlos! dize, falla-me: tu estás vivo e são? E es... es o meu Carlos? Tu proprio, não é ja o sonho, es tu?...'

―'Pois tu sonhavas? tu, Joanna, tu sonhavas commigo?'

―'Sonhava como sonho sempre que durmo... e o mais do tempo que estou acordada... sonhava com aquillo em que so penso... em ti.'

―'Joanna!... prima... minha irman!'

E cahiu nos braços d'ella; e abraçaram-se n'um longo, longo abraço―com um longo, interminavel beijo..! longo, longo e interminavel como um primeiro beijo d'amantes...

O abraço desfez-se; e o beijo terminou em fim, porque os reflexos do ceo na terra são limitados e imperfeitos como as incompletas existencias que a habitam.

Senão... invejariam os anjos a vida da terra.

Joanninha, tornada a si d'aquelle quasi paroximo, abria e fechava os olhos para se affirmar se estava bem acordada, tocava com as mãos o rosto, o peito, os braços do primo, palpava-se depois a si mesma como quem duvidava de sua propria existencia, e dizia em palavras cortadas e sem nexo:

―'É Carlos... Carlos: foi falso. É meu primo... Minha avó tambem sonhou o mesmo sonho, mas foi falso. Fr. Diniz não é o que disse, nem ninguem: eu e a avó é que o sonhámos. Mas elle aqui está, vivo... vivo! e nosso, nosso todo outra vez!... Mas como vieste tu aqui, Carlos? Como estava eu aqui comtigo?... E sos, sosinhos aqui a ésta hora! Não deve ser isto... Valha-me Deus! E que dirão? E Jesus!―Lá isso não me importa; deixá-los dizer: mas não deve ser. Vamos, Carlos, vamos ter com ella, vamos para a avó!... Que n'isto não ha mal nenhum... Meu primo!.. um primo com quem eu fui criada!.. Mas quem não souber, póde dizer... Vamos, Carlos.―Oh! minha avó morre de alegria, coitada!.. É verdade: vou adeante preveni-la, prepará-la... heide-lhe ir assim dizendo pouco a pouco... Segue-me tu, Carlos, e vamos.―Mas, oh meu Deus! não é preciso: paraquê? Ella é cega, coitadinha, não sabes?'

―'Cega, que dizes? minha avó está cega?'

―'Pois não sabías? Ai! é verdade, não sabías. Tantas coisas que tu não sabes, meu Carlos! Mas eu te contarei tudo, tudo. Olha: cegou quando... Mas não fallemos agora n'essas tristezas que ja la vão. Em ella te sentindo aopé de si, é o mesmo que tornar-lhe a vista. Tem-m'o ella ditto muitas vezes, e eu bem sei que é assim. Mas ouve: um dia havemos de fallar―nós dois sos―á vontade: tenho tanto que te dizer... nem tu sabes... Agora vamos, Carlos.'

E fallando assim, tomou-o pela mão e sahiu para o valle aberto, froixamente acclarado ja de myríadas de estrellas scintillantes no ceo azul.

CAPITULO XXI.

Quem vem lá?―Como entre dous litigantes nem sempre gosa o terceiro.―Carlos e Joanninha n'uma especie de situação ordeira, a mais perigosa e falsa das situações.

As estrellas luziam no ceo azul e diaphano, a brisa temperada da primavera suspirava brandamente; na larga solidão e no vasto silencio do valle distinctamente se ouvia o doce murmúrio da voz de Joanninha, claramente se via o vulto da sua figura e da do companheiro que ella levava pelo mão e que machinalmente a seguia como sem vontade propria, obedecendo ao podêr de um magnetismo superior e irresistivel.

Passavam, sem as ver e sem reflectir onde estavam, por entre as vedetas de ambos os campos... e ao mesmo tempo de umas e outras lhes bradou o voz breve e stridente das sentinellas: 'Quem vem lá?'

Estremeceram involuntariamente ambos com o som repentino de guerra e de allarma que os chamava á esquecida realidade do sítio, da hora, das circumstancias em que se achavam... D'aquelle sonho incantado que os transportára ao Éden querido de sua infancia, accordaram sobresaltados... viram-se na terra erma e bruta, viram a espada flammejante da guerra civil que os perseguia, que os desunia, que os expulsava para sempre do paraizo de delicias em que tinham nascido...

Oh! que imagem eram esses dous, no meio d'aquelle valle nu e aberto, á luz das estrellas scintillantes, entre duas linhas de vultos negros, aqui alli dispersos e luzindo acaso do tranziente reflexo que fazia brilhar uma baioneta, um fuzil... que imagem não eram dos verdadeiros e mais sanctos sentimentos da natureza expostos e sacrificados sempre no meio das luctas barbaras e estupidas, no conflicto de falsos principios em que se estorce continuamente o que os homens chamaram

sociedade

!

Joanninha abraçou-se com o primo; elle parou derepente e foi com a mão ao punho da espada.

―'Quem vem lá?' tornaram a bradar as sentinellas.

―'Ouves, Joanna?' disse Carlos em voz baixa e sentida: 'Ouves estes brados?' É o grito da guerra que nos manda separar; é o clamor cioso e vigilante dos partidos que não tolera a nossa intimidade, que separa o irmão da irman, o pae do filho!..'

―'Quem vem lá?' bradaram ainda mais forte as ―'Quem vem lá?' bradaram ainda mais forte as sentinellas; e ouviu-se aquelle stridor baço e breve que tam froixo é e tam forte impressão faz nos mais bravos animos... era o som dos gatilhos que se armavam nas espingardas.

O momento era supremo, o perigo imminente e ja inevitavel... alli podiam ficar ambos, traspassados das ballas oppostas dos dous campos contendores.

Como esses que, fiados em sua innocencia e abnegação, cuidam podêr passar por entre as discordias civis sem tomar parte n'ellas, e que são, por isso mesmo, objecto de todas as desconfianças, alvo de todos os tiros―assim estavam alli os dous primos na mais arriscada e falsa posição que têem as revoluções.

Joanninha conheceu o perigo que os ameaçava; e com aquella rapidez de resolução que a mulher tem mais prompta e segura nas grandes occasiões, disse para Carlos:

―'Falla aos teus, faze-te conhecer e põe-te a salvo. Ámanhan nos tornaremos a ver: eu te avisarei. Adeus!'

―'E tu, tu?.. E as sentinellas dos realistas?..'

―'Não tenhas cuidado em mim. D'esta banda todos me conhecem'.

Deu alguns passos para o lado da sua casa e levantou a voz:

―'Joanninha! Sou eu, camaradas, sou eu!'

Immediatamente se ouviu o som retinido das coronhas no chão, e o riso contente dos soldados que reconheciam a bemquista e bem vinda voz de Joanninha... da 'menina dos rouxinoes.'

―'Ves, Carlos?.. Adeus! até ámanhan.' disse ella baixo.

―'Até amanhan se...'

―'Se!.. Pois tu?..'

―'Ouve: não digas a tua avó que me viste, que estou aqui: é forçoso, é indispensavel, exijo-o de ti...'

―'E ámanhan me dirás?..'

―'Sim.'

―'Prometto: não direi nada... Mas, oh! Carlos...'

―'Adeus!'

Carlos deu dous passos para a banda das suas vedetas, Joanna correu para o lado opposto. Mas elle parou e não tirou os olhos d'aquella fórma gentil que deslizava como uma sombra pelo horisonte do valle, até que desappareceu de todo.

E elle immovel ainda!

Faíscaram derepente como relampagos um, dous, tres... e as detonações que os seguiram, e o assovio das ballas que vinham depós ellas... Eram as sentinellas constitucionaes que faziam fogo sôbre o seu commandante que não conheciam, cujo silencio e immobilidade o fazia suspeito.

Uma das ballas ainda o feriu levemente no braço esquerdo.

―'Bem, camaradas!' bradou Carlos caminhando rapidamente para elles, e erguendo a voz forte e cheia que tam conhecida era nas fileiras: 'Bem! Fizeram a sua obrigação. Um de vocês que me aperte aqui o braço com este lenço.'

―'Carlos!' gritou ao longe uma voz fina, aguda, vibrante de terror pelo espaço 'Carlos! falla-me, responde: não te succedeu nada?'

―'Nada, nada! Socega.'

E tornou a cahir tudo no silencio. Carlos retirou-se ao seu quartel n'uma choupana proxima. Os soldados olharam-se entre si e surriram.

Um mais doutor disse para os outros:

―'O nosso capitão não se descuida: ainda hoje chegou, e já nós lá vamos, hem?'

―'O nosso capitão é d'aqui: não sabes?'

―'Hum! tenho percebido. E ainda lhe dura? O home' é capaz!'

―'Silencio! Eu te direi logo a historia toda: é uma prima.'

―'Ah! prima. Então não ha nada que dizer.'

―'É a que elles chamam aqui...'

―'A menina dos rouxinoes? Essa é maluca.'

―'Gosta d'ellas assim, que elle tambem o é.'

―'Pois a freira de San Gonsallo, na Terceira?'

―'Maluca.'

―'E a Lady ingleza que?..'

―'Maluquissima essa! Não me hade admirar se a vir cahir do ar um dia por ahi como bomba. E não hade dar mau estallo!'

―'Podéra! E incontrando-se com a prima então!..'

―'Mas elle é prima ou é irman?'

―'É uma tal parentella inrevezada a d'essa gente da casa do valle!.. dizem coisas por ahi, que se eu as intendo!.. E ha um frade no caso, ja se sabe...'

―'Oh! elle ha frade no caso?'

―'Ha, e que frade! Um apostolico ás

direitas

! Tam feio, tão magro! apparece por ahi ás vezes. Eu já o lombriguei um dia: e que famoso tiro que era! Quasi que me arrependo de não ter...'

―'Isso! hoje iamos matando o nosso capitão por instantes. Olha agora se lhe matas o tio, ou pae, ou o que quer que é...'

―'Um frade!'

―'Um frade não é gente?'

―'Não senhor.'

―'Está bom: basta de conversar por hoje. O que me eu parece é que nós temos cedo muita pancada rija.'

―'Venha ella, que isto ja abhorrece.'

Accenderam os cigarros e fumaram.

Com o mesmo socêgo d'espirito... sancto Deus! accendem os homens a guerra civil, que altera e confunde por este modo todas as ideas, todos os sentimentos da natureza.

CAPITULO XXII.

Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da velha.―Noite mal dormida.―Da conversa que teve Carlos com os seus botões.―A Joanninha que elle deixára e a Joanninha que achou.―Obrigações d'amor, triste palavra.―A mulher que elle amava, e se elle a amava ainda.―Quesitos do A. aos seus benevolos leitores. Declara que com os hypocritas não falla.―Quem hade levantar a primeira pedra?―Dous modos differentes de accudir uma coisa ao pensamento.

No dia seguinte, mal rompia a manhan, um paizano que dizia trazer communicações importantes para o commandante do pôsto avançado, foi conduzido á presença de Carlos e lhe intregou uma carta: era de Joanninha.

Fiel á sua promessa, ella não tinha ditto nada do incôntro da véspera: dizia a carta. E que a avó estava doente e afflicta; que para a animar e consolar, lhe dera notícias do primo, como vindas por pessoa que o víra e estivera com elle. Que ficava mais contente e socegada: mas que aquelle estado de anciedade não podia prolongar-se. Que a saude da pobre velha declinava de dia a dia; que se lhe ia a vida, que era matá-la não lhe dizer a verdade... Joanninha concluia com mil affectos e saudades; e aprazava por fim o mesmo sítio da véspera para se tornarem a ver, e para concertarem o que havia de fazer. Todas as precauções estavam tomadas, e o consentimento dado pelo commandante do pôsto contrário para haver toda a segurança n'aquella entrevista.

Carlos tinha velado toda a noite; uma excitação extraordinaria lhe amotinára o sangue, lhe desaffinára os nervos. Bem tinha desejado vir para aquelle pôsto, bem contava, bem esperava elle, estando alli, saber de mais perto da sua familia, vê-los talvez, mais dia menos dia, incontrar-se com alguns d'elles... e de todos elles, a innocente e graciosa criança com quem vivêra como irmão desde os seus primeiros annos, era quem elle mais esperava, mais desejava ver decerto.

Mas uma criança era a que elle tinha deixado, uma criança a brincar, a colhêr as boninas, a correr atraz das borboletas do valle... uma criança que sim o amava ternamente, cuja suave imagem o não tinha deixado nunca em sua longa peregrinação, cuja saudade o accompanhára sempre, de quem se não esquecêra um momento, nem nos mais alegres nem nos mais occupados, nem nos mais difficeis nem nos mais perigosos da sua vida...

Mas era uma criança!.. era a imagem d'uma criança.

É certo, sim: e nas batalhas, em presença da morte... no longo cêrco do Porto entre os flagellos da cholera e da fome, nas horas de mais viva esperança, no descoroçoamento dos mais tristes dias, a doce imagem de Joanninha, d'aquella Joanninha com quem elle andava ao colo, que levantava em seus hombros para ella chegar aos ninhos dos passaros no verão, aos medronhos maduros no outomno, que elle suspendia nos braços para passar no hynverno

os alagadiços

do valle,―essa querida imagem não o abandonára nunca.

Nunca!.. nem quando as pennas d'amor, nem quando as suas glórias―mais esquecidiças ainda!―pareciam absorver-lhe todos os sentidos, e todo o sentimento de seu coração.

A saudade, a memoria de Joanninha, suavemente impressa no mais puro e no mais sancto de sua alma, resplandecia no meio de todas as sombras que lh'a obscurecessem, sobreluzia no meio de qualquer fogo que lh'a allumiasse.

Uma luz quieta, limpida, serena como a tocha na mão do anjo que ajoelha em innocencia e piedade deante do throno do Eterno!

Mas, no mesmo dia em que chegou ao valle, quasi na mesma hora, cheio d'aquella luz, mais viva e animada agora pela proximidade do foco d'onde sahia... n'essa mesma hora, ir incontrar alli, n'aquella solidão, entre aquellas árvores, á tibia e seductora claridade do crepusculo... a quem, sancto Deus! Não ja a mesma Joanninha de ha tres annos, não a mesma imagem que elle trazia, como a levára, no coração; mas uma gentil e airosa donzella, uma mulher feita e perfeita, e que nada perdêra, comtudo, da graça, do incanto, do suave e delicioso perfume da innocencia infantil em que a deixára!

Não esperava, não estava preparado para a impressão que recebeu, foi uma surpreza, um choque, um reviramento confuso de todas as suas ideas e sentimentos.

Qual fosse porêm a precisa e verdadeira impressão que recebeu, nem elle a si proprio o podéra explicar: era de um genero novo, unico na historia de suas sensações: não a conhecia, extranhava-a, e quasi que tinha medo de a analysar.

Sería annúncio d'amor?

Mas elle tinha amado, amado muito e devéras... e cuidava amar ainda, e devia amar; por quanto ha sagrado e sancto nos deveres do coração, era obrigado a amar ainda.

Oh obrigações d'amor, obrigações d'amor! se vós não sois, se vós ja não sois senão obrigações!..

Não o pensava Carlos, não o cria elle assim: leal e sincero tinha intregue o seu coração á mulher que o amava, que tantas próvas lhe dera d'amor e devoção; que descançava em sua fé, que não existia senão para elle: mulher môça, bella, cheia de prendas e de incantos, mulher de um espirito, de uma educação superior, que atravessára, desprezando-as, turbas de adoradores nobres, riccos, poderosos, para descer até elle, para se intregar ao foragido, pobre, extrangeiro, desprezado.

Quem era essa mulher?

Aonde, como obtivera elle a posse d'essa joia, d'esse talisman com o qual se tinha por tam seguro para não ver na graciosa prima senão?..

Senão o quê?

A innocente criança que alli deixára?

Mas não é verdade isso: outra era a impressão que Joanninha lhe fizera, fosse ella qual fosse.

O que era então?

E sôbre tudo, quem era ess'outra mulher que elle amava?

E amava-a elle ainda?

Amava.

E Joanninha?

Joanninha era... nem eu sei o que lhe era Joanninha... o que lhe estava sendo n'aquelle momento.

O que lhe ella fôra, assas t'o tenho explicado, leitor amigo e benevolo: o que lhe ella será... Pódes tu, leitor candido e sincero,―aos hypocritas não fallo eu―pódes tu dizer-me o que hade ser ámanhan no teu coração a mulher que hoje somente achas bella, ou gentil, ou interessante?

Pódes responder-me da parte que tomará ámanhan na tua existencia a imagem da donzella que hoje contemplas apenas com olhos de artista, e lhe estás notando, como em quadro gracioso, os finos contornos; a pureza das linhas, a expressão verdadeira e animada?

E quando vier, se vier, esse fatal dia de ámanhan, responder-me-has tambem da parte que ficará tendo em tua alma ess'outra imagem que lá estava d'antes e que, ao reflexo d'esta agora, d'aqui observo que vai impallidecendo, descórando... ja lhe não vejo senão os lineamentos vagos... ja é uma sombra do que foi... Ai! o que será ella ámanhan?

Leitor amigo e benevolo, caro leitor meu indulgente, não accuses, não julgues á pressa o meu pobre Carlos; e lembra-te d'aquella pedra que o Filho da Deus mandou levantar á primeira mão que se achasse innocente... A adultera foi-se em paz, e ninguem a apedrejou.

Pois é verdade: Carlos tinha amado, amado muito, e amava ainda a mulher a quem promettêra, a quem estava resolvido a guardar fé. E essa mulher era bella, nobre, ricca, admirada, ―― Pois é verdade: Carlos tinha amado, amado muito, e amava ainda a mulher a quem promettêra, a quem estava resolvido a guardar fé. E essa mulher era bella, nobre, ricca, admirada, occupava uma alta posição no mundo... e tudo lhe sacrificára a elle exilado, desconhecido.

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