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Sol de Inverno

PREFACIO

Reading edition

I

Com o Sol de Inverno, que, n'este volume, vê a luz da publicidade, e com as Novas Bailatas, que vão entrar no prelo, a obra poetica de Antonio Feijó encerra-se por duas magnificas affirmações do seu alto, delicado e gentilissimo talento. A sua Musa emmudece para sempre. A sua lyra quebra-se. Esses dois livros posthumos são o seu harmonioso canto do cysne… É um grande poeta e um grande artista do verso que dizem o supremo adeus á sua arte, exercida com tanta paixão e tanta nobreza!

Esses livros deixou-os o Auctor dispostos, coordenados, paginados, revistos minuciosamente, para os fazer imprimir. A morte permittiu-lhe, ao menos, cuidar d'esse legado valioso e opulento, que ia testar á litteratura patria. Quando ella o surprehendeu, a 20 de junho de 1917, o trabalho estava acabado.

Mas o mundo ardia em guerra. A Europa era um campo de batalha gigantesco em que os povos, como os Titans da gigantomachia do mytho hellenico, luctavam braço a braço, trucidando-se em torrentes de sangue. As communicações entre a Suecia, onde Feijó fallecera, no seu posto diplomatico, e Portugal, estavam quasi cortadas. Os preciosos e insubstituiveis originaes não podiam ser confiados a transportes aventurosos, a correios irregulares e incertos, ás suspeitas da censura dos belligerantes, aos riscos dos torpedeamentos maritimos. Foi preciso que a paz se fizesse emfim e, com ella, a ordem e a normalidade da vida internacional começassem a restabelecer-se n'esta convulsionada Europa, para que o espolio litterario de Antonio Feijó pudesse vir com segurança para Portugal, trazido pelas mãos dos seus proprios filhos.

A mim, seu velho companheiro e camarada, a elle ligado, desde os dezoito annos, pela mais fraterna amizade, foi confiado o encargo de superintender na publicação d'esses livros e de a preceder de algumas palavras em que se esboce o perfil do Auctor e se ponham em justo relevo os meritos eminentes da sua bella obra.

Encargo, ao mesmo tempo doloroso e grato, em que, á profunda saudade do querido amigo morto, se juntou o enlevo espiritual de me absorver nas altas emoções estheticas que a leitura d'esses dois livros tão intensamente me fazia sentir!

Com que doce melancholia, com que piedoso recolhimento, com que commovida curiosidade, com que alvoroçado interesse eu folheei os dois originaes, copiados á machina, mas, quasi a cada pagina, emendados pela sua lettra, com os offerecimentos aos seus amigos traçados pelo seu punho, com os appendices, em que se archivavam os juizos criticos das suas obras anteriores, por elle proprio coordenados!

Era o seu espirito que, d'essas frias regiões scandinavas, para onde os azares da vida haviam exilado esse meridional de tão viva e ardente imaginação, era o seu espirito que de lá nos vinha n'essas paginas, palpitantes de emoção lyrica, sonoras de rythmos musicaes e de rimas harmoniosas, todas refulgentes do esplendor das imagens e da pureza plastica d'uma forma impecavel! Esse dom de immortalidade espiritual, de revivescencia dos mortos na memoria das suas altas acções ou no esplendor das suas grandes obras, senti-o, n'essa hora, tão profundamente, que o meu coração, por momentos, se hallucinava, dando-se a illusão de que era o proprio poeta que me estava recitando as suas ultimas poesias, n'aquella dicção perfeita que tanto fazia realçar as qualidades do seu verso!

Era com a sua alma que eu estava em contacto tambem,—com a sua alma nos derradeiros annos da sua vida,—porque, n'esses livros, havia muito dos seus affectos, dos seus pensamentos intimos, das suas alegrias e esperanças, das suas mágoas, da suas torturas, das suas dolentes nostalgias…

Ambos elles estavam concluidos e preparados para o prelo antes d'aquelle supremo infortunio da sua vida, que foi a perda da sua adorada mulher, levada pela morte em setembro de 1915, ainda em plena mocidade e em todo o encanto da sua grande elegancia e brilhante formosura.

O offerecimento do Sol de Inverno não é feito á sua memoria, mas a ella ainda viva e presente no lar domestico. Nas cartas que d'elle recebi no curto periodo da sua viuvez,—uns vinte mezes,—referia-se aos dois livros como a uma obra feita. Depois do golpe, de cuja incuravel ferida lhe havia de resultar, mais tarde, a morte, não appareceram, nos seus papeis,—que eu saiba,—vestigios d'um regresso á actividade litteraria. D'isso me fallava ás vezes, quando me escrevia, mas como d'uma intenção, não como d'um facto.

Sol de Inverno e Novas Bailatas devem conter, portanto, as derradeiras producções poeticas de Antonio Feijó. São o fecho da sua obra e são realmente um remate superior, em que o seu talento e a sua arte se ostentam em plena maturação e plena mestria. Não lhe foi dado a elle assistir ao seu maximo triumpho litterario, á publicidade d'aquelle dos seus livros, o Sol de Inverno, que o qualifica, definitivamente e sem favor, um grande poeta.

A esse triumpho tambem os seus amigos não assistem com aquelle jubilo que experimentariam se lhe pudessem manifestar a sua admiração, se pudessem acclamal-o a elle em pessoa, não apenas á sua memoria e ao seu nome, agora gloriosamente consagrados.

Por mim, fal-o-ei n'esta evocação da saudade, que é o conforto da alma no declinar da vida e tem o dom maravilhoso de resuscitar espiritualmente os mortos.

Se julgo poder dominar as suggestões da amizade ao tratar da obra d'um tão grande amigo, não me é, por outro lado, possivel fallar d'elle sem que, a cada passo, esse affecto fraterno não transpareça nas minhas palavras, sem que tenha de referir-me ás nossas intimas relações, mettendo o leitor na confidencia de velhas lembranças pessoaes, que para elle podem, comtudo, ter interesse, por dizerem respeito a uma tão notavel individualidade.

II

Por fins de outubro de 1877,—pouco falta para a conta d'um longo meio seculo!—em Coimbra, um bando alegre de novatos de Direito, no intervallo de duas aulas, subia ruidosamente a ingreme escada da torre da Universidade, e, lá do alto, n'um largo desafogo, estendia a vista por esse incomparavel panorama do valle do Mondego, entre cujo legendario quadro lhes ia correr todo um lustro de intensa vida mental, de tremendas controversias de ideias, de extases poeticos, de sonhos de juventude, de esperanças, de chimeras,—essa divina florescencia do espirito, que marca, na nossa existencia, o seu momento superiormente bello e culminantemente feliz.

Eu era d'esse grupo. Mal nos conheciamos de vista uns aos outros: havia apenas coisa d'uma semana que, pela primeira vez, nos juntaramos nos bancos da nossa aula. Vinhamos de todas as provincias de Portugal: como acontecia sempre nos grandes cursos de Direito, havia, entre nós, minhotos, transmontanos, beirões, extremenhos, alemtejanos, algarvios, ilheus,—cada um com o seu typo ethnico, o seu sotaque regional. Ao acaso, misturavamo-nos, entabolavamos conversas superficiaes, trocavamos impressões rapidas, no deslumbramento d'essa visão de belleza que se estendia, deante dos nossos olhos, da montanha á planicie, da mancha azulada e longinqua da serra da Louzã á ridente campina do Mondego, tocada já pelos tons d'oiro do outomno.

N'essa casual communicabilidade, achei-me a conversar com um rapaz, ao lado do qual havia feito a esfalfante escalada da torre. Era um bello moço, de hombros largos e um tanto cheio de corpo, cabello ligeiramente aloirado, pelle clara e uns olhos castanhos sorridentes e um nada maliciosos, atravez dos quaes como que se lhe via a clara intelligencia e o vivo espirito.

Dissemos meia duzia de coisas vagas sobre a paisagem, sobre Coimbra, sobre os interessantes aspectos da velha Universidade, vista assim do alto, no conjuncto irregular dos seus corpos assymetricos. Facilmente nos descobrimos inclinações litterarias, citámos livros, fallámos de escriptores, de poetas… E, d'esse encontro fortuito, d'esse momento inolvidavel d'uma forte emoção de esthesia, partilhada por duas almas apenas sahidas da adolescencia, nasceu, entre mim e Antonio Feijó, uma amizade de irmãos, uma camaradagem de espirito, uma estreita communhão moral, que, sem sombras, nem collapsos, mesmo através de longos afastamentos, durou quarenta annos e só a Morte,— só ella, a implacavel ceifeira das minhas grandes amizades!—logrou cortar…

Pouco depois, já no decorrer do primeiro anno do seu curso, Feijó revelava-se um poeta á sua geração academica.

Lembro-me perfeitamente dos primeiros versos que, d'elle, li. Appareceram na Sebenta da cadeira de Direito Romano. As Sebentas, por esse tempo, juntavam, ás vezes, á utilidade das suas funcções pedagogicas, o innocente deleite d'uma ou d'outra perpetração litteraria, em que ensaiavam as azas aquelles, do Curso, a quem a Musa já provocava e seduzia…

Um condiscipulo nosso, o bom João Martins, de Redondo, havia, n'uma lição, estadeado uma vasta sabedoria, citando Ortolan com abundante facundia.

Dois dias depois, a Sebenta inseria, em appendice, este soneto anonymo:

Quando o Martins deita falla Sobre o Foral de Leão, Palpitam de commoção Todos os cantos da sala.

Em saber ninguem o eguala! Merece uma distincção Quem refuta San Simão E o positivismo abala;

Quem leva ao fundo chaótico Do Codigo Wizigothico A branca luz da manhã,

E, sendo um poço de sciencia, Nos prova que, em descendencia, É bisneto de Ortolan!

Esta leve boutade satyrica, d'uma factura correcta, bem versificada, bem rimada, revelando uma facil e fina veia humoristica, fez successo. O auctor escondera-se. Mas, dias depois, alguem o descobriu. Era Feijó.

Não tardou muito que o seu nome passasse a ser conhecido nas rodas litterarias de Coimbra. Já em Braga, onde fizera os preparatorios e onde então João Penha, esse perfeito versificador, doutor «a quem as Musas não fizeram mal», era venerado, e com justiça, como um mestre,—já em Braga Feijó havia publicado, nas secções litterarias dos jornaes da terra, algumas composições que denunciavam as suas notaveis disposições poeticas. Era mais um poeta que o norte do paiz mandava a esse Parnaso de Coimbra, onde, á falta d'uma Faculdade de Lettras, a doce paisagem, os melancholicos olivedos do Penedo da Saudade, o encanto do Mondego, com os seus pallidos renques de salgueiros, os seus laranjaes todos floridos e rescendentes nas noites de maio, com os seus orpheons de milhares de rouxinoes, com os seus luares de sonho que tudo espiritualisam, e, sobre isto, a tradição dos grandes poetas que, desde Camões e o bom Sá, por alli passaram, iniciavam as almas novas nas emoções do lyrismo, desde a graça bucolica do idylio ou da egloga á saudosa plangencia da elegia.

A geração academica, que, por esse tempo, floria em Coimbra, está, póde dizer-se, na derradeira phase da sua declinação, vae a apagar-se de todo no crepusculo do seu occaso. Talvez metade d'ella se tenha sumido já na voragem da morte. E, dos que restam, muitos viram já passada a sua hora, aquella em que a sua personalidade plenamente se revelou no campo de acção para onde as suas faculdades os levaram. A successão das gerações parece vertiginosa a quem observa a diluição d'aquella a que pertenceu nas sombras do tumulo ou no silencio do esquecimento…

E, comtudo, essa geração não foi inteiramente infecunda em individualidades de accentuado valor. D'ella sahiram homens publicos que longo tempo occuparam o tablado politico, homens de lettras que marcaram na vida litteraria do seu tempo, homens de sciencia, professores abalisados, causidicos illustres, artistas notaveis,—e até soldados heroicos e gloriosos, porque, entre os nomes dos que mais vieram a illustral-a, se conta o de Mousinho d'Albuquerque. Foi a geração que celebrou, entre magnificas festas litterarias e artisticas, o Centenario de Camões. Foi a geração que veio a exercer a sua influencia na vida nacional na passagem do seculo XIX para o seculo XX.

Seria uma diversão descabida e longa o tentar agora julgal-a nos seus merecimentos e defeitos, o procurar fixar as caracteristicas do seu espirito e criticar as suas idéas e a sua acção. Mas póde dizer-se que foi uma geração culta, uma geração activa sem impulsivos nervosismos revolucionarios, uma geração intellectualmente equilibrada e até disciplinada, uma geração que começou a romper com as formulas doutrinarias e a vêr com senso critico os problemas philosophicos, as questões politicas e as theses estheticas. D'isto lhe proveio, talvez, aquella pontasinha de scepticismo intellectual que, até certo ponto, lhe contaminou a vontade. Esta faculdade precisa do apoio da convicção e da fé para não fraquejar na suas funcções directivas da acção humana.

Litterariamente, ella produziu, sobretudo, poetas. Jayme de Magalhães Lima e Trindade Coelho foram dos seus poucos prosadores. O verso teve mais quem o cultivasse. E alguns d'esses cultores fizeram-n'o notavelmente, como Feijó, Coelho de Carvalho, Silva Gayo, Luiz Osorio, Queiroz Ribeiro, Alfredo da Cunha, para citar apenas os que persistiram no officio e, pela publicação das suas obras, se cathegorisam escriptores, por assim dizer, profissionaes.

Por esse tempo, as influencias dominantes estavam n'um momento de transição. Passava-se do romantismo grandiloquente e hyperbolico de Hugo, da apaixonada e vehemente sensibilidade de Musset, do satanismo artificial e elegante de Baudelaire para a arte plastica, esculptural e rutilante do parnasianismo, de que eram corypheus illustres Gautier, o parfait magicien ès lettres, Bainville, o virtuose do verso, o correcto e delicado Coppée, o solemne e marmoreo Leconte de Lisle, e Sully Prud'homme, e Dierx, e Heredia, o inimitavel cinzelador e esmaltador, cujos sonetos, ainda não colligidos nos esplendidos Trophées, nos appareciam, uma ou outra vez, nas revistas litterarias francezas.

Dos nossos, admirava-se, enthusiasticamente, João de Deus, Anthero, Junqueiro, Gomes Leal e apreciava-se com deleite Penha e Gonçalves Crespo,—todos esses que haviam sido os mestres das gerações anteriores.

O espirito de Feijó vasou-se n'estes moldes e reflectiu as phases d'essa evolução do gosto litterario. Mas, com o tempo, a sua individualidade caracterizou-se, marcou n'um forte relevo o seu perfil. A sua emoção avivou-se e afinou-se. A sua technica apurou-se, desenvolveu recursos excepcionaes. E assim se foi formando, de livro em livro, essa alta figura litteraria,—uma pura e nobre figura de artista, consciencioso até á meticulosidade no exercicio da sua arte, um mestre do verso e um mestre da lingua, que, na sua obra, pouco volumosa, mas de indiscutivel superioridade—pauca sed bona—deixou indelevelmente marcada a grandeza do seu talento.

III

Um mestre, sim! Elle foi-o, não só entre os da sua geração, mas tambem e mais largamente na nossa poesia contemporanea. Porque ninguem o excedeu no manejo do verso, ninguem o trabalhou com mais correcção metrica, mais relevo na phrase, mais arte, mais pericia technica, ninguem lhe deu mais ductilidade, mais elegancia, mais harmonia, mais sonoridade, mais riqueza de rimas, mais graça de rythmo, do que o poeta excellente do Cancioneiro Chinez, da Ilha dos Amores, do Sol de Inverno.

Nem durezas, nem frouxidões, nem hiatos, nem cacophatons, nem alliterações mal soantes, nem muletas, nem rimas forçadas, nem impropriedades arrepiadoras, nem a banalidade das imagens e das phrases feitas, como clichés sempre promptos para qualquer reproducção.

Já nas Transfigurações e nas Lyricas e Bucolicas, que são as suas juvenilia, esse poder e segurança de technica se haviam revelado. Mas foi no Cancioneiro Chinez que se affirmaram decisivamente. Feijó attingiu ahi o inexcedivel. Ainda me recordo do encanto com que Anthero saboreava essas pequenas composições, finamente desenhadas e coloridas como uma delicada pintura em porcelana ou um cloisonné ricamente esmaltado, commentando-as com um sobrio «É perfeito!»—que, em tal bocca, valia os mais extensos e laudatorios artigos de critica.

Sobre as traducções em prosa de Judith Gautier e embebendo-se, num estudo profundo do assumpto, do espirito do lyrismo chinez, elle tentou e levou a cabo essa paciente e admiravel reconstrucção que é o Cancioneiro, dando á poesia nacional um raro e magnifico exemplar da arte do verso.

Na Ilha dos Amores, o seu lyrismo intensifica-se e define-se, a sua arte firma-se e completa-se.

A sensibilidade lyrica palpita nas tres partes do livro, quer n'essas «velhas canções d'amor» da Ilha, (onde ha uma lindissima Ignez, tão intensamente dolorida, e uma admiravel Lady D. João, d'um baudelairianismo profundo e vibrante), quer nas adoraveis oitavas do Auto do meu affecto, tocadas da mais delicada graça, quer nas diversas poesias que formam a Alma triste, entre as quaes se encontram, nas mais variadas notas, verdadeiras maravilhas d'arte.

Na plena posse dos seus dons de grande artista, o poeta realiza ahi o seu anceio de perfeição plastica no verso, que elle nos formula n'estes soberbos alexandrinos:

Oh Musa Antiga, d'olhos placidos, rasgados No marmore d'um busto aureolado e sereno! Inspira-me e desvenda aos meus olhos nublados A graça e a proporção do sentimento helleno. Revela-me num gesto os mais altos modelos Do Verso lapidar, para n'elle esculpir Com encantos de deusa e doirados cabellos, Essa flôr de volupia a tremer e a sorrir! Ensina-me em segredo o genio incomparavel De poder transformar os versos que componho, E d'um jacto fundir, com uma arte impeccavel, N'um distico immortal, a visão do meu Sonho! Basta o oiro do Sol para a côr dos cabellos; Para os olhos azues basta o azul crystallino, Se o Verso lapidar souber circunscrevel-os N'um jambo grego ou n'um hexametro latino!…

Por entre este estrato lyrico rompem, na sua obra, veios de humorismo, onde, n'um tom faceto, o poeta mantem todas as suas eminentes qualidades de versificador.

Nas Bailatas, dadas a lume sob o pseudonymo de Ignacio d'Abreu e Lima, o fidalgo senhor do Castello de Anha, estheta enygmatico e extravagante, reuniu Feijó as composições d'este genero. E deixou nas Novas Bailatas, cuja impressão se seguirá á d'este livro, uma segunda série d'essas originalissimas poesias, mixto singular de ironia e de sensibilidade, de graça buffa e de melancholia, que, ás vezes, parecem haver sido escriptas por um Pierrot, ao mesmo tempo sentimental e charivárico.

N'ellas ha, realmente, um fino espirito de farça, um extranho tom joco-serio, transições bruscas da emoção para a gargalhada e da folia incoherente para as lagrimas. A phrase mais grave termina n'uma sahida jogralesca. A phantasia mais comica detona n'um grito de dôr.

Algumas d'essas poesias, como Sideria, Felina, Lithurgica e outras, são antigas e encantadoras parodias do decadismo e do symbolismo, que, um momento, despontaram e floriram na litteratura portugueza. Rimas difficeis e imprevistas, rythmos confusos e atropellados, alliterações onomatopaicas, imagens exoticas e sybillinas,—tudo isso, que era a essencia d'aquella esthetica e d'aquella prosodia, é manobrado com uma dextreza inegualavel, uma phantasia surprehendente, fazendo, d'essas caricaturas, trabalhos do mais fino e requintado acabamento artistico.

Até n'essas pochades em que elle desenfadadamente se comprazia, dando sahida á sua vis comica, se sentia a mão habil e maravilhosa do mestre.

IV

Mas Sol de Inverno é, sem duvida, a sua obra prima.

No frontespicio, por baixo do titulo,—na realidade bello, mas talvez suggerido por uma excessiva modestia e, por isso, improprio, como vou explicar,—o poeta traçou estas palavras: ultimos versos. E foram-n'o, de facto. Não porque o seu inverno fosse já tão adeantado que o sol do seu talento não pudesse fulgurar ainda demoradamente no horizonte d'uma dilatada vida. Não: o seu inverno ia apenas começar. Feijó não contava então, mais de 57 annos. Ainda se podia considerar no seu outomno. Mas parece que aquellas duas palavras, tristes como um distico tumular,—o epitaphio da sua Musa,—exprimiam um presentimento fatidico.

Esse anno de 1915, em que elle coordenou e preparou o seu livro para o entregar ao prelo, foi-lhe terrivelmente angustiado e doloroso. A esposa estremecida, a quem o consagrava no verso tão profundamente amoroso de Martial, debatia-se nos soffrimentos d'uma longa e torturante doença que no mez de setembro veio a ter o seu desenlace fatal. A desgraça ameaçava-o, pois, sinistramente. E elle adivinhava que não seria longa (como não foi) a sua resistencia ao golpe rude e cruel que sentia imminente.

É claro que muitas das poesias colleccionadas no volume não são d'essa epocha atribulada. E, assim, o sol que alli brilha tem muitas vezes, não apenas a doce e serena luminosidade do outomno, mas até o fulgor ardente d'um meio-dia estival.

N'esse livro, o seu talento, inteiramente amadurecido, fructifica esplendidamente. Está alli todo o seu coração, como está todo o seu pensamento,—porque, n'esta derradeira phase, a sua poesia não nos dá sómente emoções, mas suggere-nos tambem ideias. Na soberba serie dos hymnos, póde dizer-se que se encerra toda uma philosophia. Ahi Feijó ala-se ás regiões mais altas da poesia, áquellas que só attingem os grandes espiritos. São odes sublimes, de um largo e poderoso sopro, onde a sua alma se abre toda na adoração da Vida, da Belleza e da Alegria, se contorce nos transes da Dôr, se embebe na melancholia da Solidão ou se abysma na meditação hamletica da Morte.

De todas as peças d'este hymnario, a ultima é talvez a maior, a mais profunda. E encerra uma exegése da morte subtilmente verdadeira. A sensação e a dôr da morte não estão no phenomeno da morte physica, em si, no termo da nossa vida material. Estão na lenta morte moral do nosso coração, no desapparecimento successivo dos que amamos e que levam, a pouco e pouco, comsigo, para o mysterio do tumulo, pedaços vivos da nossa alma.

Toda essa ideia está admiravelmente expressa n'estas quatro esplendidas quadras.

Quantas vezes, na angustia, o soffrimento invoca O teu suave dormir sob a leiva de flores!… A morte que, sem dó, me tortura e suffoca, É outra—essa que em nós cava sulcos de dores.

Morte que sem piedade, uma a uma, arrebata, Como um tufão que passa, as nossas affeições, E deixando-nos sós, lentamente nos mata Abrindo-lhes a cova em nossos corações.

Parenthesis de sombra entre o poente e a alvorada, Morrer é ter vivido, é renascer… O horror Da morte, o horror que gera a consciencia do Nada, Quem vive é que lhe sente o afflictivo travor.

Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos, Seres que um grande affecto á nossa vida enlaça, —Somos nós que a sua morte implacavel soffremos, É em nós, é em nós que a sua morte se passa!

Esta poesia, que Feijó, ahi por 1913, me mandou de Stockholmo para Londres, onde então eu residia, fôra-lhe inspirada pela morte recente d'um nosso amigo commum. E aos seus mortos, parentes e amigos, a consagrou, como se vê do distico votivo que a precede: Meorum amicorumque pie manibus.

Toda uma intensa emotividade freme n'esse verdadeiro hymno sagrado, de tão largo folego. Os que accusavam Feijó de frio e impassivel teem, n'elle, como em muitas outras composições do Sol de Inverno, um formal desmentido ao seu reparo. E, entre essas outras, citarei, especialmente, essa torturada e angustiada Supplica ao Vento, de que transborda toda a desolada nostalgia do exilio. Poucas vezes, desde Ovidio, lembrando, tambem, nas neves do Ponto Euxino, a doçura radiosa do céu do Lacio, uma voz de desterrado cantou mais amargamente e com tão empolgante emoção as suas mágoas, as recordações da terra natal, a ancia de a rever em toda a sua surprehendente formosura. São queixumes elegiacos, perdidos apellos d'uma alma dilacerada, apostrophando o Vento que passa, a galopar vertiginosamente nos espaços, e supplicando-lhe que leve á terra risonha e luminosa e ao claro e cristalino rio, que a viram surgir á vida, o seu amor soluçante e lacrimoso. Não se leem esses patheticos tercetos sem uma crispação dolorosa de toda a alma. Mais d'uma vez ouvi suspender a sua leitura a vozes subitamente embargadas pelas lagrimas.

Já, na Alma Triste, essa incuravel nostalgia transparece em algumas poesias alli reunidas. É ella, mesmo, como um leit-motiv favorito. Domingo em terra alheia, Soliloquio do Outomno, No mez de Abril, Silencio, No campo, Inverno, ressumam as melancholias d'um espirito esmagado pelas brancas avalanches das neves hyperboreas e sempre saudoso do ardente e claro sol do seu paiz distante.

Ouçamos as lindas quadras finaes do Inverno, onde esse sentimento tão docemente se exprime:

Nasci á beira do Rio Lima, Rio saudoso, todo crystal; D'ahi a angustia que me victima, D'ahi deriva todo o meu mal.

É que nas terras que tenho visto, Por toda a parte por onde andei, Nunca achei nada mais imprevisto, Terra mais linda nunca encontrei.

São aguas claras sempre cantando, Verdes collinas, alvôr d'areia, Brancas ermidas, fontes chorando Na tremulina da lua-cheia…

É funda a mágoa que me exaspéra, Negra a saudade que me devora… Annos inteiros sem primavera, Manhãs escuras sem luz d'aurora!

Oh meus amigos, quando eu morrer, Levae meu corpo despedaçado, Para que eu possa, já sem soffrer, Dormir na Morte mais descansado!

V

A critica inscreveu o nome de Antonio Feijó no rol dos parnasianos portuguezes.

Não discutamos essas classificações d'escolas, que nem sempre são precisas, nem fundamentaes. Se o parnasianismo se caracteriza, de facto, pelo rigoroso cuidado da forma, pelo culto da belleza verbal, das linhas marmoreas da phrase, do seu corte lapidar, da riqueza das rimas, da euphonia dos rythmos, do poder evocativo das imagens,—Feijó pode chamar-se, com acerto, um parnasiano. A miudo elle repetia o preceito de mestre Theo: Ce qui n'est pas bien fait, n'est pas fait. Mas o que elle foi, na verdade, sem contestação e fundiariamente, foi um lyrico, na mais ampla plenitude da designação.

Toda a sua obra é dominada por essa nota emotiva, por esse accento de viva sensibilidade que constituem a essencia do lyrismo. O amor, o eterno amor, o enlevo da belleza, as torturas da paixão, as suaves melancholias, os tedios enervantes, as graças preciosas da galanteria,—são a substancia psychica da sua poesia.

Essas emoções sabia elle cristalisal-as n'uma forma requintadamente perfeita e na maior variedade de tons e de estructura estrophica. Ha poetas que se fixam n'um metro, ou pouco mais, e quasi não variam de tonalidade. O verso de Feijó é ricamente polymorpho e a escala dos seus tons muito extensa. A sua versificação tem amplitude e largueza; mas, tem, egualmente, elegancia, frescura e graça. Esculpe poderosamente o alexandrino, mas torneia delicadamente a redondilha menor e modela, com arte, as mais extranhas formas da estrophe composita.

Feijó, pelas qualidades do seu espirito refinado e distincto, não podia ser um poeta popular. O seu publico, de conhecedores e dilettanti da arte pura, tendo o culto do bello e um gosto exigente, foi sempre um circulo limitado, essa elite intellectual e esthetica, restricta em todos os paizes, mas, naturalmente, muito restricta no nosso. Além d'isso, a sua perfeita dignidade de escriptor e a sua aprumada linha moral, tornavam-n'o avesso a todo o exibicionismo, a todo o reclamo, a todos os secretos manejos de notoriedade banal.

Soffreu, sem duvida, a influencia da evolução litteraria do seu tempo. Mas, no fundo, ficou sendo sempre quem era e não se curvou aos ephemeros gostos do publico para lhe fornecer, como uma «moda de estação», uma qualquer camelotte, que a sua facil destreza lhe permittiria manipular com abundancia.

Delicado d'alma e, por isso mesmo, retrahido, tão probo de espirito como de caracter, não vivendo da sua arte, mas para a sua arte, não despresando a gloria, mas não requestando a popularidade ephemera e superficial, Feijó realisou o typo acabado d'um puro artista, que, por todas essas superiores qualidades, juntas ao talento, acaba sempre por conquistar uma final consagração no mundo das lettras e das artes.

VI

A litteratura era a sua vocação. A diplomacia foi, na sua vida, um occasional desvio de destino.

Quando se formou, Feijó pensou em advogar. E buscou iniciar-se no officio, praticando no escriptorio de seu irmão José, que era, n'esse tempo, um dos mais reputados causidicos do Minho. Não se entendeu, porém, com os autos. A breve trecho, escrevia-me, dizendo-me que desistia da sua tentativa forense e se lembrava de ir correr e ver mundo… por conta do Estado, já que, para isso, lhe faltavam os meios proprios. Pensára em ser consul.

A carreira consular tornara-se, então, a carreira favorita dos nossos litteratos: eram consules o Barão de Roussado, Eça de Queiroz, Batalha Reis, Jayme de Seguier, Coelho de Carvalho, Wenceslau de Moraes,—talvez ainda outros que me não lembram agora. Feijó foi aos concursos e, poucos mezes depois, despachavam-n'o para o Rio Grande do Sul. Foi em 1886. Por essa occasião, o conselheiro Nogueira Soares, modelo de funccionarios e um dos mais perfeitos homens de bem que tenho conhecido, era nomeado nosso ministro no Rio. Feijó fez com elle a viagem e, antes de ir para o seu posto, esteve uns mezes trabalhando na legação.

Do Rio Grande passou para Pernambuco e de Pernambuco foi transferido para Stockholmo. Ahi serviu com o legendario visconde de Sotto Mayor, o famoso dandy e temivel parlamentar, havia longuissimos annos aposentado em diplomata n'essa côrte do extremo Norte. E ahi, á morte do seu velho chefe e depois d'uma demorada encarregatura de negocios, o fixou para sempre a sua promoção a ministro, determinada por uma reforma dos serviços diplomaticos.

Nestas altas funcções, Feijó deu as mais seguras provas da sua competencia. Infelizmente, aquella legação não tinha importancia correspondente ao seu valor, nem lhe podia dar ensejo a exercer plenamente as suas faculdades e talentos. «Estou aqui encalhado, a apodrecer»—escrevia-me elle um dia. E era verdade. Via-se immobilizado, inactivo, desconsoladoramente reduzido, pela mediocridade do seu posto, a uma situação subalterna, quasi que ao simples serviço de expediente e á representação protocolar. Sentia-se com hombros para mais pesados encargos e mais arduos trabalhos—e doía-se de se não ver utilisado. O seu ideal de funccionario, zeloso, meticuloso, honestissimo e trabalhador como poucos, não era, positivamente, o gôzo d'uma sinecura.

Feijó foi, na diplomacia, uma força desaproveitada. Além d'aquelles predicados, sobejavam-lhe as faculdades proprias do officio. Era subtil e d'uma prompta e profunda perspicacia; via bem, em conjuncto, os multiplos aspectos d'um acontecimento ou d'uma negociação; estudava as questões com ponderação e methodo; cauteloso, preparava seguramente o seu terreno antes de avançar; sabia (o que, na esgrima da diplomacia, é essencial) dosear, na sua justa e precisa medida, a finura e a lealdade; tinha, em subido grau, a correcção, a serenidade, a discreção, o tacto e esse grande e supremo dom que é, na vida ordinaria, como na vida politica, o nosso melhor guia, a nossa mais bem polarisada bussola—o bom-senso.

Tudo isto se valorisava e realçava pelo seu fino trato, pela amenidade e cortezia das suas maneiras, pela seducção da sua conversa, pelo brilho e a cultura do seu espirito, que tornavam sempre querida e agradabilissima a sua companhia, quer nos meios litterarios, quer nos meios mundanos.

E este é outro aspecto interessante da sua individualidade. Desde Coimbra, Feijó foi sempre o melhor e o mais deleitoso dos companheiros. A elegancia despretenciosa da sua palavra, a graça especial com que contava uma anedocta, o humour ligeiro, e levemente malicioso ás vezes, que punha no commentario a um successo ou na critica a uma personalidade, o pittoresco evocativo de suas narrações de viagem e a expansiva jovialidade do seu forte temperamento—faziam d'elle um cavaqueador irresistivelmente atrahente.

Elle era então, e foi por muitos annos, uma natureza robusta e alegre, um dyonisiaco, amando a vida e a belleza, um sorridente epicurista, gozando com volupia o instante fugitivo, mas um epicurista delicado, que punha, em todo o prazer, uma ponta de idealismo ou de emoção esthetica. Nas suas veias, onde corria bom sangue das velhas linhagens minhotas, devia haver mais globulos do do seu illustre patricio Diogo Bernardes, o cantor do «saudoso, brando e claro Lima», que elle descobrira na sua ascendencia, do que do d'esse Feijóo escudeiro, do tumulo de Celanova, bom fidalgo e cavalleiro, gran cazador e monteiro, a quem o poeta consagra a poesia final da Alma triste.

O seu contacto dava alegria, dava saude. Sob a suggestão do seu espirito parecia que tudo se animava e resplandecia, que a propria existencia se tornava mais amavel, mais apetecivel. De toda a sua pessoa, irradiava a joie de vivre. Junqueiro chamava-lhe, então, o opiparo Feijó…

VII

Mas um dia, um grande infortunio,—a viuvez inconsolavel, o seu pobre lar em ruinas,—devastou-lhe a alma, prostrou-o, roubou-lhe toda a alegria, envelheceu-o precocemente, tornou-lhe os ultimos mezes da sua vida tão negros, tão desolados, como essas interminaveis noites boreaes que tanto o torturavam e entristeciam,—a elle, filho d'estas bemditas terras do Sul!…

O que foi esse drama, em todo o desenrolar das suas mágoas e soffrimentos, dil-o o eloquente, commovido e fino commentario que, através das cartas do poeta, n'esse periodo, lhe faz Alberto d'Oliveira na communicação sobre a sua morte, dirigida á Academia Brazileira e que o leitor lerá com interesse e admiração, a seguir a este prefacio.

Ultimamente, porém, parecia querer reagir, despertar d'essa longa atonia dolorosa. Refugiado no amor dos filhos e na saudade da patria, onde ha oito annos não vinha, o seu derradeiro sonho foi revel-a, vir percorrer ainda uma vez o seu Minho querido, contemplar as aguas mansas do seu Lima, retemperar o coração n'essa magica visão de belleza e encanto, que, para todo o portuguez, ausente ou exilado, é este incomparavel torrão de Portugal!

N'este anceio, n'este volver d'olhos, sobre a Europa em guerra, para a patria distante, surprehendeu-o bruscamente a morte.

Exhausto de soffrer, o seu crucificado coração parou de subito, immobilisado para sempre!

E de novo ao sahir d'esta angustia demente, Sinto bem que tu és, para toda a amargura, A Euthanásia serena, em cujo olhar clemente Arde a chamma em que toda a escoria se depura.

É pela tua mão, feito um rasgão na treva, Que a alma se liberta e, d'esplendor vestida, —Borboleta celeste, ebria de Deus—se eleva Para a Luz immortal, Luz do Amor, Luz da Vida!

Assim dizia elle á Morte no seu grande hymno, já atraz citado e que ficará como uma das maiores glorias da sua lyra.

Assim deve ter sido a sua—uma transição insensivel, uma serena Euthanásia, bella como todos os seus sonhos de poeta! Assim se deve ter evolado, para a Luz immortal do Grande Mysterio, a sua alma boa e pura, sempre voltada para o Amor e para a Vida!

Luiz de Magalhães.

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