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Sol de Inverno

II DYPTICO DYPTICO

Reading edition

EU E TU

I

M. ***

Perguntas d'onde vem a timidez estranha, Este quasi terror com que te fallo e escuto, Como se a sombra hostil d'uma grande montanha, Que se erguesse entre nós, me cobrisse de luto.

Ignoras a razão d'este absurdo respeito Com que te beijo a mão, que estendes complacente, —Fria do ardor que tens concentrado no peito, Que mão fria é signal de coração ardente.

E admiras-te de ver que os olhos baixo, e tremo, —Se passas como um sol de planetas cercado— Sem dar mostras sequer d'esse orgulho supremo De quem se sente eleito entre todos, e amado!

Não podes conceber que uma paixão tão alta Se vista de recato ou de pudor mesquinho… Mas, se é sincero, o Amor só a occultas se exalta, Faz-se tanto maior quanto é discreto o ninho.

E tudo o que tu crês fingida gravidade É uma intima oblação, pois nas almas piedosas O Verdadeiro Amor é feito de humildade: Sobre o annel nupcial não ha pedras preciosas.

II

EU E TU

Dois! Eu e Tu, num ser indissoluvel! Como Brasa e carvão, scentelha e lume, oceano e areia, Aspiram a formar um todo,—em cada assomo A nossa aspiração mais violenta se ateia…

Como a onda e o vento, a lua e a noute, o orvalho e a selva —O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noute, Ou o orvalho inundando as verduras da relva— Cheio de ti, meu ser d'effluvios impregnou-te!

Como o lilaz e a terra onde nasce e floresce, O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo, O vinho e a sêde, o vinho onde tudo se esquece, —Nós dois, d'amor enchendo a noute do degrêdo,

Como partes d'um todo, em amplexos supremos Fundindo os corações no ardor que nos inflamma, Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos, Como se eu fôsse o lume e tu fôsses a chamma…

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