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Sinapismos

XXII Carta a S. Ex.ª, o Sr. Administrador

Reading edition

Ex.ᵐᵒ Sr.

De caso pensado reservei para esta data, em que concluo a publicação que tanto tem agitado o espirito dos seus excellentissimos administrados, a manifestação dos sentimentos que agitaram a minha alma n’essa hora solemne, em que V. Ex.ª foi chamado ás graves deliberações da Administração concelhia.

E de caso pensado o fiz, Ex.ᵐᵒ Sr., porque necessitava que o tempo, os factos, me fornecessem elementos com que, ao collocar a individualidade de V. Ex.ª n’esta curiosa galeria de celebridades valencianas, podesse fazer ao publico um pequeno discurso apologetico com phrases e linguagem differentes ás d’essas escalrichadas apotheoses das luminarias da terra, prenhes de estimados cavalheiros, de integerrimos magistrados, de robustos meninos e outras minhocas que o Noticioso inventa para enfeitar o anzol d’uma assignatura annual.

Hoje, porém, Ex.ᵐᵒ Sr., que tres mezes se sumiram nas voragens do Tempo depois d’essa augusta solemnidade da posse, d’esse acto d’uma respeitabilidade indiscutivel em que a imponencia das nossas instituições civis actua sobre o espirito com a pressão de cem atmospheras—hoje, em que a individualidade administrativa de V. Ex.ª, evidentemente se destaca entre as auctoridades da minha terra, marchando a passo d’anjo no coice das procissões, ao lado de Sua Excellencia o Senhor Governador Pericles I e um pouco á frente do seu subordinado o Snr. Joaquim, muito digno e conspicuo Substituto—digne-se V. Ex.ª permittir que eu lhe dedique estas linhas, onde vou synthetisar a opinião que no meu espirito existe ácerca do Senhor Administrador.

*

Percorrendo a historia dos gloriosos feitos dos antepassados de V. Ex.ª n’essa cadeira administrativa—meditando sobre as diversas aptidões e faculdades que nas sombras do Preterito, ainda hoje illuminam os vultos dos prestantes e muito dignos cidadãos que eu por ahi vi atados á banda bicolor,—comparando os feitos immorredoiros que enaltecem os annaes da Administração valenciana—desde a borralhada da Santa até ao exterminio da Rua Verde, desde a prisão d’aquelle feroz e sanguinario Troppman na tomada de Barros até ás fornadas eleitoraes da Misericordia,—com os actos de V. Ex.ª, eu, Ex.ᵐᵒ Sr.—com franqueza—não posso exprimir o conceito que de V. Ex.ª formo com palavras differentes d’estas:

V. Ex.ª é o refugo dos administradores!

*

E d’estas palavras escriptas com a rude sinceridade que até aqui arrepia a linguagem dos meus escriptos, acaso poderá V. Ex.ª deduzir intenção desdoirante das suas aptidões intellectuaes, dos seus conhecimentos juridicos, das suas faculdades administrativas?

Se tal succede, erra o seu excellentissimo criterio.

V. Ex.ª é o refugo dos administradores, porque tem uma carta de bacharel, porque sahiu ha poucos annos da Universidade com uma educação politico-scientifica imperfeita, rachitica, insufficiente para as funcções do elevadissimo cargo de que está investido.

V. Ex.ª está saturado de ordenações, de codigos, de paragraphos unicos, de disposições transitorias, de subsidios, de cartas de lei, de alvarás; conhece os trabalhos e as theorias de Bentham, de Krause, de Kant, de Grotius, de Blackstone, de Calvo, etc., etc., mas ignora absolutamente e precisamente o que é mais essencial a um Administrador, mercê da insufficiencia dos programmas officiaes e da falsa orientação que na Universidade preside á incubação d’um bacharel.

A educação social do individuo deve adaptar-se ás condições e exigencias do cargo a que se destina. Um medico aprende a curar feridas; um militar a fazel-as; um escrivão de fazenda a tirar camisas; um boticario a preparar tisanas; um paysanduco a contar cucharras; um espirito-santo a inspirar tolices; um Zinão a reforçar sinapismos.

Para lá da esphera profissional que a sua educação lhe circumscreve, o individuo torna-se um ser inutil, prejudicial, incommodo.

É o que succede com V. Ex.ª

V. Ex.ª cursou todas as cadeiras exigidas no programma official d’um bacharelado: direito romano, dito penal, dito commercial, dito civil, dito internacional. Sahiu habilitado para tudo: para defender, accusar, aconselhar, chicanar, fazer do direito torto e do que é torto direito, em questões de aguas de rega, de fóros, de fallencias, de peculatos.

Para o que não sahiu habilitado é para Administrador do concelho.

Tem V. Ex.ª culpa d’isso?

Não. Tem-na quem organizou os programmas para a faculdade de Direito.

*

Na minha humilde opinião, ao curso de Direito devia accrescentar-se mais um anno, para trabalhos praticos na cadeira de Politica legal.

N’esse anno, os futuros bachareis teriam de resolver, praticamente, entre outros, os seguintes problemas:

1.º Empalmar uma eleição

No meio da sala seria collocada a urna. Alguns alumnos representariam a opposição. Com os restantes constituia-se a mesa: presidente, secretrios, escrutinadores, olheiros, capatazes, abbades e caceteiros.

O examinando teria de satisfazer ás seguintes provas, sem que a opposição percebesse a fraude.

a) Introduzir rapidamente na urna um maço de listas governamentaes.

b) Riscar os nomes dos eleitores reconhecidamente opposicionistas.

c) Incluir na chamada e fazer substituir por mirones todos os mortos da freguezia.

d) Inutilizar imperceptivelmente com borrões de tinta as listas dos contrarios.

e) Entornar um tinteiro na urna, quando a eleição se considerar perdida.

f) Armar uma baralha na egreja; derrubar mezas, cadeiras, quebrar cabeças aos eleitores; dar, até, pancada nos santos e fugir afinal com a urna.

g) Empalmar uma acta. (Para esta prova o examinando poderia consultar os tratados especiaes que, sobre tal assumpto, tem escripto o Ex.ᵐᵒ Sr. Dr. M. Thomaz.

2.º Uma fala aos lavradores

Antes da eleição (modelo a):

Olé amigo! Toque. Dê cá um abraço.—Esta é a sua filha? Está uma fiôr; tem juizo, rapariga!—Sabe que arranjei um subsidio para as obras da torre? Custou, mas arranjou-se.—Você não tem um filho no recrutamento? Recebi hoje carta de Vianna em que me dizem que vae ser isento.—Aquella é a tal propriedade em que esses ladrões lhe lançaram quatro pintos? Eu amanhã arranjo isso na Fazenda; o mais que deve pagar é um pinto.—Pegue lá um cigarro. Com franqueza; fume á vontade, que é brandinho. Não tem lume? Metta á bocca... Prompto!—É verdade: já me esquecia. Você é dos nossos; amanhã é a eleição. Homens honrados são do nosso lado. Já cá o tenho na cabeceira do rol—Diabo! tenho o seu nome na ponta da lingua...—Zé da Portella, exactamente. Aqui tem uma lista. Mande para o diabo a outra canalha.—Adeus. Ás ordens sempre, sempre, para o que quizer.—Dé cá outro abraço que é de amigo. Adeus.

Depois da eleição (modelo b):

—V. Ex.ª dá licença?

—Entre!!

—Louvado seja nosso...

—Que quer!?!

—Eu sou o Zé da Portella, aquelle...

—Venha logo, venha logo; tenho mais que fazer.

3.º Organizar rapidamente o orçamento d’uma «borga» eleitoral, dada a capacidade cubica das barrigas dos abbades e a permeabilidade alcoolica dos tecidos intestinaes.

A resolução d’este problema requer os seguintes conhecimentos:

a) Saber o preço dos carneiros, dos calhos, do vinho, das batatas, das resteas d’alhos, do pimentão, etc.

b) Saber applicar o ammoniaco no caso provavel d’uma borracheira.

c) Saber receitar um purgante e manejar uma seringa na delicada operação do crystel.

d) Saber ouvir de confissão qualquer bruto que estoire repentinamente com a indigestão.

4.º Redigir uma informação favoravel á imposição de qualquer transferencia, embora ella vá lançar na miseria a familia d’um funccionario honesto.

Modelo:

Esta transferencia torna-se necessaria e até indispensavel á boa solução dos nossos negocios. O homem é regenerador. Diz por ahi o diabo do Marianno. Alem d’isso, embirra com o A. Ora este A. segura o O., que vale os seus cincoenta votos. Com o A. não podemos contar, porque é dos amphibios e vae para quem mais der. Por aqui já se rosna na transferencia e todos berram que é uma infamia. O homem tem oito filhos. Que isso não influa no animo de V. Ex.ª. Quanto mais distante fôr a sua collocação melhor, porque mais desafogados ficamos. Espero solução rapida. Resposta telegraphica. A victoria depende d’esta transferencia.

5.º Conclusões varias sobre a elasticidade do Direito administrativo

a) F. (governamental) tem uma burra. Só paga decima quando fôr da opposição.

b) F. (gov.) tem um rendimento collectavel de reis 100$000. Reduz-se a 50$000.

c) F. (opposição) é professor e politico contrario. Retiradas as gratificações sob qualquer pretexto.

d) F. (gov.) requer uma policia correccional contra X. Pedra nos autos.

e) F. (op.) é filho unico e amparo da familia. Intimado para em tres horas se apresentar á inspecção.

f) F. (gov.) é forte como um toiro e robusto como um Hercules. Entra ámanhã na inspecção. Isento por tisico.

g) F. (gov.) é gallego e intrujão. Na gazeta do partido illustre correligionario e probo cidadão.

h) F. (op.) é homem de bem; eu tambem o creio... apesar de que dizem por ahi (eu não acredito) que é ladrão e salteador de estrada.

6.º Dirigir nos campos da politiquice, com a aguilhada da administração, o rebanho dos camaristas.

Este problema exige dois mezes de tirocinio com os boieiros do Alemtejo, para se apprender a deitar o laço e a reunir á manada qualquer boi tresmalhado.

Ora diga-me V. Ex.ª: n’estes tres mezes em que tem empregado a sua actividade nas coisas da nossa administração não encontrou ainda em equação, sobre a sua mesa de trabalho, todos esses problemas?

E resolveu-os?

Não os resolveu, porque a sua consciencia e a sua dignidade esperam, ainda, as provas de elasticidade e de resistencia que necessitam para a tensão das patifarias politicas.

V. Ex.ª tem feito um pessimo logar.

Nem come os calhos dos abbades, nem é paysanduco, nem é provarei, nem deita foguetes.

Se não fosse a luminosa e providencial influencia do seu Ex.ᵐᵒ Substituto, homem de assaz provado engenho e competencia em assumptos de Direito administrativo e ilhas adjacentes, V. Ex.ª envergonhava a terra, o partido e os amigos, a cujo numero eu tenho a honra de pertencer.

V. Ex.ª não tem feitio para Administrador.

Em tantos de tal (ainda V. Ex.ª não tinha na gaveta, ao lado das piugas, a banda azul e branca) entraram no seu escriptorio os cidadãos Zé Pita, Tóne do Logar e Manel Cancella.

Este Manel trazia uma questão com o sogro por causa das aguas da rega.

Disse da sua justiça.

V. Ex.ª ouviu, pensou e aconselhou.

Zé Pita, cidadão que tem as suas fumaças de doutor lareiro, metteu a colherada no caso, muito lepido e escorreito com umas objecções ao douto conselho de V. Ex.ª

V. Ex.ª ouviu, pensou e refutou: artigo tantos, paragrapho tal, etc.

Vae n’isto—o Tóne do Logar, home de representação e de lettras gordas na freguezia, chegou-se tambem ao rego da discussão, e metteu o bedelho, descobrindo ainda outra hypothese.

V. Ex.ª ouviu, pensou e concluiu.

Ficára o caso liquidado entre os quatro doutores, digo, entre V. Ex.ª e os tres cidadãos.

—Quanto é? perguntou Manel.

—Dezoito vintens! respondeu V. Ex.ª

Ficou estarrecido o homem. Nunca imaginára pagar um conselho por mais de tres patacos, muito especialmente agora que o João Moraes os annunciava a quatro menos cinco, para quem se avençasse ao mez.

—Sôr Doutor... talvez seja engano de Vóssoria, mas foi só um conselho...

—Foram tres e não um! respondeu V. Ex.ª com aquella cara muito arrenegada que ás vezes tanto assusta a gente.

—Tres, meu senhor?

—Você não falou?

—E depois não falou outro?

—E não falou depois outro? Tres vezes seis, dezoito.

Justissima era a reclamação.

Nem os sete sabios da Grecia poderiam contestar a legalidade e a exactidão d’aquella operação arithmetica.

Este simples facto revela a rispida e austera execução que V. Ex.ª dá aos sacratissimos principios da Justiça e da Equidade e revela, tambem, a incompetencia de V. Ex.ª para um logar onde, tendo tres, oito, dez ou vinte consultas diarias, nada poderá reclamar, quando venham recommendadas por o sr. Joaquim, ou por outro qualquer confrade politico que se lembre de fazer favores e de adquirir popularidade, á custa dos dois contos que V. Ex.ª gastou na formatura.

Para estas coisas de Politica é preciso vêr muito ao longe, ter vista de caçador, e V. Ex.ª mesmo como caçador, é um desastrado.

Nunca me hei-de esquecer d’aquella surriada que lhe fizeram os rapazes de Arão, quando V. Ex.ª lá appareceu com todo o seu arsenal de guerra.

Um dia, o Rocha e o Leitão suggeriram no cerebro de V. Ex.ª as glorias de Nemrod.

Depois de jantar, sahia V. Ex.ª com todos os petrechos de caça, inoffensivamente mortiferos. Uma solida escopeta de carregar pela culatra; á cinta, um grandecissimo facalhão para escuchinar javalis; no bolso direito, uma enorme navalha de furar lobos; a tiracollo, d’um lado a cartucheira com trezentas cargas de polvora e bala; do outro lado, o canudo de cortiça com vinte e sete furões e furoas; no bolso direito do collete, um revolver de oito tiros; no esquerdo, um box de quebrar dentes a cães e vinte exemplares do Noticioso para necessidades urgentes; nos pés, aquellas grossas botas de sete solas impermeaveis, até, no Rio Minho; aos hombros, o capindó de borracha, gemeo do outro com que o Albino attrae a chuva por essas ruas, em dias claros e formosissimos de Primavera; atraz de V. Ex.ª, ladrando, farejando, saltando vallados e alçando as pernas, seguia a terrivel matilha, recrutada na Parada-velha: podengos de todas as raças e feitios, para coelho, para perdiz, para lobo: o Nilo, a Fuinha, o Gigante,—tó, Nero!—volta, Farrusca!

Assim disposto e precavido, seguia V. Ex.ª por essas aldéas fazendo tremer o solo, os ceos, a terra, os mares, com o aspecto apavorador da sua ferocidade venatoria.

N’isto,—alli ao pé de Arão, um triste pintasilgo risca no ar uma curva e vae poisar no arvoredo proximo.

A matilha amarrou.

V. Ex.ª toma ar, carrega a escopeta, aponta... toma outra vez ar... desfecha e olha.

O passarito soltára uma gargalhada de escarneo e batera as azas, voando...

Quando passou sobre a cabeça de V. Ex.ª, lá do azul dos ceos cahiu uma coisa sobre o seu excellentissimo nariz.

A qual coisa, molle, pastosa, de côr cinzenta e com o feitio retorcido d’um S fez exclamar a um rapazinho que, de carrapuço vermelho e mãos nos bolsos, a distancia presenciava o caso:

—Oh que grande caçador de minhocas!

E campos fóra de Politica, Ex.ᵐᵒ Sr., quando encontro V. Ex.ª armado de ponto em branco com a escopeta da Administração, cartucheira presa á banda azul e branca, matilha de abbades e rafeiros,—quando verifico que V. Ex.ª nem tem animo para disparar o bacamarte d’uma transferencia, nem sabe empalmar uma urna, nem falsificar uma acta, nem dirigir uma borga de calhos, nem descascar uma batata, nem deitar um foguete com ropia, nem tocar n’um gaiteiro, nem mentir com cara seria, nem perseguir os professores, nem desgraçar uma familia, nem deshonrar um funccionario, nem amesquinhar um merito, eu, Ex.ᵐᵒ Sr., n’esta occasião em que V. Ex.ª por ahi anda atrapalhado com a escopeta de dois canos que nas mãos lhe metteram, para dar o primeiro tiro contra a opposição—não posso reprimir estas palavras com que, conceituando politicamente V. Ex.ª, parodio o rapazito d’Arão:

—Oh que grande Administrador das duzias!

Aos pés de V. Ex.ª, curva-se respeitosamente o

Zinão.

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