XIV A Questão da Musica (LEITURA PARA HOMENS)
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Ha poucos annos, alli pelo Maio, quando a Primavera floresce os campos e a Natureza parece despertar, com novo vigor, da somnolencia invernal, Dona Politica sentiu pular o sangue nas veias, reclamando folia e brodio.
Teve uns arrebiques eroticos de matrona insensivel á influencia lunar e amancebou-se, clandestinamente, com o Conde de Lippe e com o Senhor Administrador.
Noitadas com um, barrigadas de camarões com outro, lá se arranjou de tal fórma que, d’essas relações, resultou um producto hybrido:—A Questão da Musica.
Parto acabado, os amantes disputaram a paternidade do aborto:
—É meu!
—É teu!
—Parece-se commigo!
—Não se parece comtigo!
Zangaram-se e ficaram de mal.
Nunca mais se puderam vêr.
A desavergonhada, ora sorri para um, ora para outro; acirrando, assim, pela sua inconstancia e bandalhice acadellada, o odio dos dois rivaes.
O mostrengo (sahiu femea) veiu ao mundo com todos os defeitos dos Papás e da Mamã: vaidosa, ridicula, traiçoeira, caprichosa e porca.
Ao nascer, embirrou que não queria Musica. Papás e Mamã teem-lhe feito a vontade. Qualquer dia, embirra que quer Musica; teremos, então, de soffrer e pagar as furias dos paus-tesos, até hoje refreadas.
O que por ahi não irá!
*
A Comedia da Santa, ou antes, a Comedia da Musica, absorveu e absorve toda a actividade dos nossos politicos—dos homens que se apresentam á consideração do povo, allegando serviços e pedindo votos.
E em que diabo hão de pensar esses santos varões, se o Concelho voga em mar de rosas, com vento fresco e bons timoneiros?
Examinemos, de relance, as instituições da nossa terra:
Camara Municipal
Praça de toiros com serviço permanente. Emprezario: o Senhor Administrador. Intelligentes: o Senhor Joaquim (por procuração), ou João Cabral.
N’este anno, as corridas promettem. O primeiro espada, Senhor Abilio, foi occultamente a Madrid adestrar-se com Lagartijo e com Frascuelo. O gado, do lavrador Ladislau, é manso. Tem fraca pinta e pouco pé. A casa está passada para as primeiras corridas semanaes. Ha toiros para curiosos.
*
Agora, duas tiradas a serio:
A administração do nosso Municipio anda como V. Ex.ª sabe, querido leitor, em bolandas e ao deus-dará. Muito lhe poderia dizer a tal respeito; mas esta gente séria da terra, tanto me tem soprado aos ouvidos com aquella preventiva phrase de:
Nem todas as verdades se dizem
que, por emquanto, ainda me resolvo a conservar na minha carteira os curiosos apontamentos que d’estas coisas de Valença, cuidadosamente tenho colligido. Prosigamos.
—Approvou-se ultimamente um novo traçado de estradas para o districto; todos os concelhos foram contemplados, menos o de Valença. Pelos modos, lá nas secretarias das Obras publicas ainda se não descobriu, ao certo, se isto pertence a Portugal, se á Galliza. A Camara podia elucidar este caso e requerer, ou instar por concessões a que tem direito. Os politicos, porém, teem mais em que pensar... Ainda se não decidiu a Questão da Musica.
—Alli, na Esplanada, amontoam-se, sem ordem nem regularidade, as novas construcções. Ora, apesar da opposição dos paysanducos, a futura povoação de Valença ha de extender-se por esses campos fóra, e esta latrina acastellada com muralhas, poternas e tenalhas, passará a ter o merecimento historico das ruinas de Lapella, hoje excellentes para ninhos de morcegos, luras de toupeira e tocas de grillos.
Portanto, a qualquer cerebro medianamente esclarecido parecerá urgente e indispensavel o levantamento d’uma planta, que desde já disponha, com regularidade, as arterias da futura povoação.
Não se pensa em tal, nem é preciso. Temos a lei das expropriações. A ordem é rica, os frades são poucos e os imbecis são muitos. Ha mais em que pensar. Temos a Questão da Musica.
—No centro da villa, ao lado da Ex.ᵐᵃ Camara, existe uma commua, que chamam: Eschola municipal.
Quando quizerdes avaliar a civilização d’este povo, que se ri de vós—oh gentes de Monsão e de Coura!—vinde cá, embebei o lenço em agua de Colonia e entrae alli, na Eschola, onde sem ar, sem luz, sem condições hygienicas de qualquer natureza, se atrophiam diariamente dezenas de creanças.
Os rapazes, cá na terra, sahem da barriga das mães, já com a caneta atraz da orelha para escreverem á familia; não precisamos, portanto, de subsidios do Conde de Ferreira, nem de utensilios escholares.
Corre tudo muito bem. Só falta uma coisa: um pelourinho, alli ao pé da Sexta, com os nomes dos philanthropos que responderam aos testamenteiros do Conde:
—Dispensamos o subsidio; não temos terreno para a eschola; está tudo occupado com cacos de guerra e com o Assento dos militares!
—Diz-se que é util o saber lêr e, n’esta crença, auxilia-se em toda a parte a instrucção do povo, fiscalizando-se o serviço das escholas, animando-se as creanças e estimulando-se os professores.
O pelouro da instrucção (?) no concelho de Valença é um mytho, uma coisa nominal e hypothetica.
Regateiam, por ahi, miseravelmente, os dois patacos de expediente; e na Eschola, como verdadeira commua, não ha mobilia, não ha um mappa, não ha uma esphera, uma loisa, um diccionario. A Camara não gasta dinheiro n’essas ridicularias; gasta-o, mas com outras applicações, que fazem parte dos meus apontamentos particulares...
De quando em quando o bandalho da Politica entra tambem nas Escholas; e d’essa visita, nascem as perseguições torpissimas e ineptas contra homens que, politicamente podem ter todos os defeitos, mas que para o exercicio do cargo que exercem, possuem incontestavel aptidão.
—Construiram-se, no largo principal da terra, os Paços do Concelho. O edificio ficou uma gaiola de grillos, com uma unica porta, para elles não fugirem, quando lhes appetecer a serradela.
As divisões interiores são d’uma disposição perfeitamente apatetada. Com as dependencias do Tribunal, repetiu-se aquelle caso dos moinhos de Coura. Lá, só pensaram na agua, quando os moinhos estavam promptos; cá, só depois do Tribunal concluido, é que surgiu na mente dos illustres senadores a necessidade provavel d’uma sala para jurados.
Mas o defeito remediou-se e bem.
Fez-se uma especie de espigueiro, um sotão, como os que a gente tem para extender as batatas por causa do grelo e para lá se manda o Jury. Está alli muito bem, livre de correntes d’ar, e com grande vantagem para os curiosos da terra: muito antes que se pronuncie a sentença, já se póde saber, pela janella das escadas, se o réo vae para a rua, ou para o cavallinho de pau.
Não ha dinheiro que pague esta commodidade.
—Na Coroada, admiram os forasteiros a desconjunctada architectura d’uns cortelhos, onde, em nauseabunda promiscuidade, se aconchegam de noite: mulheres, porcos, creanças, bacorinhos, gatos com tinha e cadellas com sarna.
Em terra menos civilizada, já o senado teria estudado o meio de, por uma operação financeira possivel de realizar, sem graves encargos, transformar esses focos de immundicie em habitações economicas, mas hygienicas.
Mas, então, V. Ex.ª não viu na Exposição de Paris, entre tantas maravilhas da Arte, as primitivas construcções dos differentes povos? Pois cá, em Valença, não precisamos de arranjar artificialmente essa exposição. Alli estão os cortelhos da Parada velha, immundos, doentios, nojentos,—como nota caracteristica do nosso Progresso moral e material.
—A gente das cidades tem a mania da Civilização. Abre mercados, rasga ruas espaçosas, aformoseia praças, alinha os edificios e varre as ruas.
Com o pretexto da hygiene e da limpeza faz dinheiro até do esterco.
—Miserias humanas!—dizem os nossos camaristas. Nas ruas de Valença, o que cai, deixa-se ficar. Podem-nos chamar immundos, mas ao menos, não somos dos futres que vendem carros de lixo.
Cá, a gente é assim...
—O concelho precisa de estradas que unam as freguezias e facilitem as communicações. A estrada de A para B foi considerada, como a mais urgente, pela importancia (politica, já se vê) de B.
Principiou-se a estrada: terraplenagens, aterros, desaterros, etc.
A folhas tantas, desabou a caranguejola ministerial e o que era politicamente positivo em B passou para negativo. Suspendeu-se a construcção da estrada.
Chegou o inverno: lamas, enxurradas, desmoronamentos. O que estava feito inutilizou-se, mas não importa: a ordem é rica, os frades são poucos e os imbecis são muitos. Ha mais em que pensar: a Questão da Musica.
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Junta de Parochia
Instituição composta de differentes membros, sob a direcção do Senhor Sampaio e patrocinio do Senhor Agostinho. Nada mais, creio eu, é preciso dizer.
Essa instituição, que n’outras terras presta valiosos serviços á Beneficencia e á Instrucção, jaz ahi na mais abjecta inutilidade.
A manifestação mais evidente da sua actividade, deu-a na importantissima Questão da Porta, com o Senhor Baptista.
A Junta não tem meios; é pobre, vive da graça de Deus. Tem os telhados da Egreja desmantelados; não póde gastar um real em adornos, ou reparos, no interior do templo. Conserva, nos adros, as ossadas dos nossos antepassados—n’esses adros que a gente pisa, onde os cães levantam as pernas e dão muitas voltas, fingindo que se sentam; onde, á noite se baixam as calças e se praticam mil obscenidades. Alli, debaixo d’aquella terra e d’aquella pedra estão os craneos dos nossos parentes, craneos que já tiveram carne, olhos, bocca, labios que acarinharam os nossos paes; estão alli os restos dos braços que aconchegaram ao peito, em noites de amargura e de afflictiva ancia, a cabeça dos nossos avós, quando a febre lhes amortecia os olhos e escaldava as faces.
O respeito aos mortos e o espirito da Religião impõem a urgente exhumação d’essas ossadas e a sua mudança para o cemiterio.
Não póde ser. Não ha dinheiro; a Junta é pobrissima e tem despezas mais urgentes e indispensaveis, como as que se fizeram com a Questão da Porta. Pois não era um escandalo? Ainda que se empenhasse a Cruz de prata! Mas não foi preciso; para isso, para a Justiça, ainda a pobre Junta teve as trinta libras, que a questão levou...
Deus, Nosso Senhor, se lembre, para desconto dos meus peccados, da repugnancia com que nego licença á penna, para reproduzir as ideas que, n’este momento, tumultuam no meu cerebro...
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—Ascencio José dos Santos deixou á Junta de Parochia de Valença estas e aquellas propriedades, com o encargo seguinte: instituição d’um lausperenne mensal com tantos padres e tantas luzes, etc.
Com o rendimento d’essas propriedades pagaria a Junta as despezas do lausperenne, applicando o restante ao desenvolvimento da Instrucção do Concelho.
A Junta acceitou o legado, vendeu as propriedades e converteu o producto em inscripções que rendem, annualmente, cento e dez mil reis.
A despeza total dos lausperennes, pagando-se generosamente, é de doze libras, ou cincoenta e quatro mil reis annuaes, restando, por consequencia, um saldo importante.
A Junta de Parochia acceitou, como disse, o legado; mas os mezes passam e ninguem ouve falar dos lausperennes, porque não se fazem. O Senhor Sampaio, apesar de ser um homem muito temente a Deus, não quer gastar dinheiro com padres.
Dispõe do que é seu e faz muito bem.
Estas coisas consideram-se, cá na terra, como admissiveis e legaes. Uns chamam-lhes descuidos, outros desleixos, etc. Eu pouco sei de sciencias juridicas; mas confrontando este facto com outros, que por ahi vejo punir na cadeia, não ha quem me tire da cabeça, que o descuido da Junta entra na classe d’aquelles descuidos, que a Lei chama: roubos.
Pura e simplesmente um roubo; ao culto, á Lei, ás crenças d’um morto, á Moralidade, á fé dos contractos, ás disposições d’um testamento, que em toda a parte se cumprem fiel e rigorosamente.
E já que o vendaval do Tempo levou os ultimos sons d’essas fervorosas manifestações de Sentimento, que á beira do tumulo d’um homem que caíu fulminado defendendo os interesses de Valença, inspirou tanto necrologio bombastico e tanto discurso farfalhudo—já que em homenagem á memoria do homem que amou, como ninguem, esta terra, porque tinha na alma a rigida austeridade d’um caracter impolluto e sacrificava os haveres, como sacrificou a vida, sem pedir á Politica o salario dos seus serviços—se não ergueu ainda, ahi, uma voz para reclamar da Justiça o cumprimento rigoroso das disposições a que se obrigou a Junta de Parochia, seja-me permittido alterar, por momentos, a feição humoristica d’estes artigos para, com verdadeira indignação, dizer ás auctoridades que, n’esta terra, vigiam pelo cumprimento da Lei:
A Junta de Parochia rouba, mensalmente, ao culto os lausperennes instituidos no legado de Ascencio José dos Santos.
Esses lausperennes representam cento e dez mil reis annuaes, que são desviados para applicação illegal e ignorada.
Ha, ou não ha obrigação de cumprir as disposições dos legados?
Ha, ou não ha Lei que peça responsabilidades aos auctores d’estes desvios?
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—Prosigamos, porque a rabeca desafina.
Santa Casa da Misericordia
É uma Santa Casa de Politica.
As eleições disputam-se (tudo por philanthropia) como as da Camara, ou do deputado. Impera sempre n’ellas, para suprema humilhação dos valencianos, a massa bruta da Urgeira, porque ha o cuidado de conservar alli a maioria dos irmãos.
Quem escreve estas linhas já teve, por duas vezes, a honra de ser convidado para irmão da Santa Casa. Por acaso, aconteceu sempre isso em vesperas de eleições. Mero acaso.
Na ultima lucta eleitoral entrou uma fornada de 60 ou 70 irmãos. Offereciam-se os diplomas com todas as despezas pagas, e depois da eleição houve regabofe de castanhas e vinho branco. O moderno carneiro com batatas ainda não estava inventado.
Foi uma eleição renhida, tenazmente disputada; e, com ropias de parva politiquice, dotou-se a terra com mais uma loja de... barbeiro!
Deus me livre de duvidar, por um momento, dos sentimentos caritativos dos especuladores, quero dizer, dos protectores da Santa Casa.
Mas (pergunta-me um diabo que tenho aqui, ao pé de mim, e que desconfia de tudo), porque será que em todo o anno ninguem se lembra do Hospital para lhe augmentar os rendimentos, ou para alargar a sua acção benefica?
Porque será que esse zelo se não manifesta agora, auxiliando os Provedores nos trabalhos da utilissima instituição que o legado Cruz fundou—o Asylo?
Porque vos não reunis agora em activa propaganda,—oh cafila de pantomineiros!—angariando no Concelho donativos em dinheiro e em materiaes que habilitem a Santa Casa a, quanto antes, poder levantar esse edificio tão util para os infelizes?
—Parece-me (diz o tal diabo) que se a Santa Casa, em vez de ter um capital de cento e tantos contos, em inscripções, escripturas com hypothecas, e fiadores com paes, manos e cunhados, tivesse apenas algumas de X, ninguem lhe disputaria as eleições.
Que diz V. Ex.ª a isto, interrogando a sua consciencia?
Teremos n’este caso Philantropia, Politica, ou... abandalhado Arranjo?
Em coisas da Santa Casa, por emquanto, vem só isto á luz do dia.
Ora aqui tem V. Ex.ª um rapido e superficial exame sobre as principaes instituições da nossa terra.
A Politica, a Hypocrisia e a Rotina imperam soberanamente em tudo que póde ser util em Valença. Por isso, quando a gente bate á porta de muitos filhos d’esta terra, que lá fóra, pela sua posição e pela sua fortuna podiam auxiliar novas instituições, só ouve queixas, reclamações e justos resentimentos.
O grande homem da nossa terra seria um velhaco qualquer que em eleição renhida pudesse empalmar o João de Gaiteira, ou o Abbade de Cerdal.
Se alguem conseguisse isso, á noite, na taberna do Pedro, teria uma apotheose de calhos e de chouriço com ovos, de rachar tudo.
*
—Mas, oh sr. Zinão, dirá V. Ex.ª, então não ha por ahi homens que tenham interesses no Concelho e que lucrem com o seu desenvolvimento?
—Oh, meu senhor! V. Ex.ª sabe quem verdadeiramente mexe os pausinhos da nossa Politica? São os pyrotechnicos da Questão da Santa. São dois homens que teem tantos interesses no Concelho como eu, que por duas perras chicas offereço a V. Ex.ª as minhas propriedades. São os que armam as baralhas.
Não teem um palmo de terra que os interesse no desenvolvimento da Agricultura; não teem uma capoeira nas freguezias, que lhes faça sentir a necessidade de estradas; não teem relações directas ou indirectas com o Commercio, nem com a Industria. Entre elles e as instituições civis ha um abysmo. Nunca fizeram parte d’uma corporação que tratasse do desenvolvimento do Concelho. De administração municipal sabem tanto, como eu sei quem V. Ex.ª é. Influencia pessoal: como são dois, levam dois votos. Tem Politica de sapa. Ensaiam as comedias, põem os actores na rua, mas quando veem fogo nas barbas da vizinhança mettem-se em casa e fecham as portas.
Posso francamente asseverar a V. Ex.ª que esses homens inspiram na povoação mais antipathias do que affectos. Elles que digam a V. Ex.ª se não teem a consciencia d’isso... Aos que lhes fazem a côrte oiço ás vezes cada arcada, em surdina...
Um quer por força pôr o pé nas muralhas para trepar á tina, onde se tingem as meias. O outro surgiu ahi na tripode das sibyllas sem a gente saber como nem porque; dizem que vê as coisas muito ao longe. Ás vezes adivinha, mas se dá a palavra d’honra... é tolice certa.
Ora, como na terra dos cegos e dos dorminhocos quem tem um ôlho é rei, os homens por cá vão arranjando a sua vida muito honradamente e livres de vergonhas do mundo.
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Esses dois maioraes representam os dois partidos; porque nós, meu senhor, nominalmente, tambem temos dois partidos, como as terras grandes. A gente é sempre a mesma.
V. Ex.ª recorda-se do que succedeu ha quinze dias, em S. Pedro, com os comparsas d’aquelle Auto dos Moiros e Christãos?
O Zé da Cancella, o Chico da Aguilhada e o Tóne do Pernicas, no primeiro domingo faziam de judeus. N’aquella scena em que, por ordem do Bento Cambádas, que era o Herodes, matam os innocentes, o publico e especialmente o mulherio, escamou-se com elles, mandou-os p’ro raio que os parta e correu-os a soque.
No outro domingo nenhum d’elles quiz fazer de judeu e para que a peça se representasse, metteu-se o Senhor Abbade no caso. Os que eram christãos passaram para judeus e vice-versa.
Cá, nas farças da nossa Politica, succede o mesmo. Quem faz de Abbade é o Senhor Administrador.
Ora aqui está, meu senhor, a razão porque o Concelho ganhou o titulo de burgo podre e a razão porque a gente, quando vae offerecer o circulo a pessoas serias, como succedeu ha mezes, é posta no ôlho da rua pelo creado da casa.
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Voltemos á Questão da Musica e encaremol-a pelo seu verdadeiro aspecto—o comico.
Esta celeberrima questão, decomposta nos seus factores, baseia-se n’uma simples formalidade, n’uma pueril e ridicula ceremonia: a licença do Conde de Lippe, a licença do Administrador, ou uma e outra concedidas ao mesmo tempo.
É um caso comico, como o do Hyssope.
Examinemos:
A Musica é a applicação artistica do som; influe poderosamente em a nossa natureza psychica, quer a agite com as sonatas de Beethoven, em que o Sentimento nos apparece burilado e subtil, como uma cinzeladura de Cellini, quer tumultue nas estranhas innovações de Wagner, em que a Harmonia, á primeira audição, nos fére de imprevista e áspera.
Decomposta nos seus elementos, a Musica reduz-se a simples vibrações, transmittidas pelas ondas sonoras. No caso presente, visto que na Questão da Musica se trata d’um grupo de labregos, que selvaticamente mortificam os nossos apparelhos auditivos, essas vibrações que, pela instrumentação, se transformam na Harmonia, partem do organismo humano.
Examinando o organismo humano, verificamos que os elementos essenciaes á potenciação d’essas vibrações podem, egualmente, ser fornecidos pelas duas extremidades do canal digestivo e modulados, ou regulados, pela articulação da maxilla inferior, ou pela elasticidade muscular do esphincter.
A composição molecular d’esses elementos será pois: oxygenio, azote, acido carbonico e vapor de agua (caso a), ou: hydrogenios carbonado e sulfurado e acido carbonico (caso b).
A sua acção vibratil chama-se vulgarmente sôpro, ou bufo; e n’esta ultima designação, que é a mais geral, para distincção dos dois casos a e b relativos á composição molecular, costuma o povo usar do genero masculino no primeiro caso, e do feminino no segundo.
Assim, por uma rigorosa analyse, de deducção em deducção, chegamos ao seguinte resultado: que a essencia (caso b), o valor, a importancia d’essa celebre questão, que fez perigar a paz das nações e que, por ahi, inspirou tanta facecia e tanto remoque de fino espirito—é um simples caso de sôpro, é um reles caso de bufo (b).
E continuando a empregar o methodo deductivo, visto que esse caso foi o producto d’uma laboriosissima gestação politica, com muita vigilia, muita tactica e muito estudo, por isso que foi cuidadosamente preparada pelos dois partidos contendores—visto que elle symbolisa e exprime os valimentos intellectuaes e politicos dos chefes e maioraes—afoitamente podemos dizer, synthetizando: tudo isso e todos elles não valem um bufo! (b)
Politiquemos:
*
Os dois partidos prepararam com longa antecipação, no remanso dos gabinetes, esse estupendo acontecimento.
Mediram-se as forças, calcularam-se os accidentes, preveniram-se as hypotheses, estudou-se cuidadosamente o terreno, escolheu-se a hora e inventou-se o pretexto. A malandragem de Ganfey foi assoldadada para deitar fogo ao rastilho.
Na vespera de rebentar a bomba, descobriram-se os jogos e todos ficaram logrados. Um dos chefes recebia ordem para ficar ás ordens do outro; este, esbarrava a cabeça na estupidez do Zé Povo e nos barrancos que a sua inepcia cavára.
Cá a gente (já se vê) n’essas alturas, arrebitava a pança com o brodio, a vêr os toiros de palanque; e, como elles ainda escabeceiam no curro, vae-lhes mettendo a sua farpa muito honradamente.
Depois da explosão da coisa, principiou a desembestar-se por ahi a mais sordida mistela de pilherias apanascadas, que tiveram echo no districto, como se o ridiculo de tudo isso não fosse bastante para nos fustigar o rosto e alvoroçar o sangue.
A partida perdeu-se. Quem a pagou (e foi carita) chorou sete dias e sete noites. Os pyrotechnicos metteram-se em copas. É da praxe: nas barracas do Pim-pam-pum, quem ageita os bonecos não paga entrada. Entra pela prenda...
*
Farpeemos...
Depois d’essa dejecção politica, os campos conservam-se armados, medindo-se os adversarios com rancor. No meio d’elles, lá está o sôpro, o bufo (caso b)—eterno pômo de discordia.
Progressistas teimam em obstar que a gente em occasião de festa, possa, á noite, dar a sua gaitada por essas ruas e muralhas.
Regeneradores, pela penna auctorizada do Senhor Joaquim, como Juiz da Senhora da Saude, invectivam o Ministerio, reclamando a livre expansão do bufo (b).
E agora, que estamos em maré de syndicatos, n’esta carencia de bufo (b) muito dinheiro podiam ganhar alguns senhores cá da terra e aquelle barqueiro de Vigo...
Ha coisas que, guardadas, engarrafadas, servem para occasiões de falta e dão muito dinheiro...
*
O certo é que não se obtem licença para Musica dentro de Valença; ou porque seja negada por mero capricho do Senhor Administrador, ou porque a recuse o Lippes.
Porque nós—louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo—somos cidadãos tão portuguezes, como os de Coura; pagamos decima, como os de Coura; damos votos, como os de Coura; fazemos filhos para o exercito, como os de Coura, mas não temos as liberdades civis, que teem os de Coura.
Pelos modos, ainda nos corre nas veias algum resto d’aquelle bulhento sangue dos nossos antepassados, os soldados de Viriato, que, segundo diz o Senhor Joseph Avelino, tanto assarapantaram o mundo com os seus feitos; e o Governo, em vez de uma auctoridade administrativa, manda-nos duas!
—Quer V. Ex.ª dar a sua gaitada? Precisa de dar o seu bufo?
Tem de ir pedir ao Administrador e á Praça; e antes de transitar por essas ruas tem de bufar, voltado para a casa do Governo. Se offerece as primicias do bufo á Camara, ou á Administração, a Praça amua e ha baralha, como succedeu com a fanfurrilha gallega.
—Tem V. Ex.ª fogo em casa?
Acodem, logo, da Praça e da Administração:
—Mando eu.
—Não mandas tu.
—Apago eu.
—Apaga tu.
Levanta-se questão; tudo grita, tudo berra, e V. Ex.ª, para se livrar de prejuizos, o que tem a pedir ao seu Anjo da Guarda é que o deixem ficar sósinho com o fogo, que é mais socegadinho e pacato.
—Ha banzé no theatro, ou na rua? Lá os temos em disputa.
De fórma que, se um dia, V. Ex.ª por esquecimento, por descuido, larga o seu bufo (b) na cara d’uma das auctoridades, e sem a devida licença, leva pancada dos dois.
É preso. Chega um paysanduco e agarra V. Ex.ª pelo braço direito. Vem o Balagota e agarra-o pelo esquerdo.
—Venha para a Praça!
—Venha para a Administração!
Puxa um; estica o outro.
V. Ex.ª atrapalha-se, reclama, gesticula, bufa... (b)
Se o faz na cara do paysanduco, mais pancada leva. Se mimoseia o Balagota, este põe-se ainda mais amarello do que é, e apita.
Santo nome de Maria! O que ha-de a gente fazer?
Sem musica, sem bufo não se póde passar. Fossem-no lá prohibir ao Senhor A. Seixas! Estoirava... de raiva.
Dentro de casa, felizmente, ainda V. Ex.ª póde mandar tocar a Musica e dar o seu bufo; mas eu estou a vêr isto de tal fórma que, d’aqui a pouco, se V. Ex.ª, em qualquer sitio, na sala de visitas, na cama—por exemplo—lhe appetece bufar, tem logo, ao seu lado, um paysanduco e o Balagota, procurando, investigando, cheirando, esmiuçando, por cima e por baixo da cama, levantando, até, a roupa para metterem os narizes (imagine V. Ex.ª a sua desgraça se, para essa operação, lhe apparece o nariz do Dr. Ladislau...) e berrando depois, irados:
—Aqui deu-se um bufo!
E V. Ex.ª terá de pedir perdão, confessar o crime, ou desculpar-se humildemente, dizendo:
—Não dei, não, senhor! E se dei... não foi por querer...
Ora a nossa desgraça!
Oh gentes do Kalakana! que dizeis a isto?
*
Esta interrupção dos tubos... musicaes—claro é—vem a acabar; e com a mesma imbecilidade, com que actualmente os progressistas impedem a livre circulação do bufo, os regeneradores, subindo ao poder, hão-de metter cá dentro, quanto nedio folle por ahi haja, previamente reforçado com alimentos explosivos.
E n’esse dia anti-pituitario, em que tenho de encontrar: uns, de vexados, em casa ou fugindo de corrida ao apupo; outros, de pança tesa e cara alegre, abraçando-se por essas ruas—e todos, supinamente idiotas e essencialmente ridiculos—cá me tendes, oh bufos e anti-bufos!, para vos estralejar nas ventas a mais sonora gargalhada, que gentes de Valença teem ouvido!
E tenho tambem uma idea...
Emfim, vocês merecem recompensa, pelo enthusiasmo com que teem tratado d’essa questão, de grande valor e importancia para a terra. Mastigae já em secco e ouvi lá marotinhos: (mas caluda, por emquanto):
Nos cómes-e-bébes dos philarmonicos hei de misturar umas gottasinhas d’um certo elemento drastico
—Oleo de Croton Tiglium—por exemplo, para que elles, nas ruidosas e puxadas explosões dos seus bufos, vos possam dar tambem—oh progressistas e regeneradores do pataco!—algo mais de...
...solido!
Toca a aguçar a dentuça, Politiqueiros de meia-tigela!