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Poesias

O CANTO DO COSSACO.

Reading edition

(Béranger).

Vem, meu ginete: oh vem, meu nobre amigo! Chama-te em altos sons tuba do norte. Prestes no saque, intrepido nas brigas, Dá, guiado por mim, asas á morte. Os teus jaezes não arreia o ouro; Mas de meus feitos o terás em paga. Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, E os reis e os povos com teus pés esmaga. Tuas rédeas me entrega a paz que foge. Ei-los por terra os europeus baluartes! Meus aureos sonhos realisa agora; Terás repouso na mansão das artes. Volve a terceira vez ao Sena inquieto, Que te lavou sangrento, e a sede apaga. Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, E os reis e os povos com teus pés esmaga. Reis, sacerdotes, grandes nos clamaram, Entre o choro de mi­seros humanos: ―Cossacos, vinde ser de nós senhores! Servos seremos, por ficar tyrannos.» E a cruz e o sceptro quebrarão meus fortes; Que eu hei tomado minha lança e adaga. Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, E os reis e os povos com teus pés esmaga. De um enorme gigante vi o espectro Nosso campo correr co' a vista ardente; E, gritando:―meu reino outra vez surge!»― Mostrar com a acha d'armas o occidente. A sombra era immortal do rei dos Hunos; D'Áttila a voz, qual maldicção aziaga. Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, E os reis e os povos com teus pés esmaga. De que serve seu brilho á velha Europa? Que lhe presta o saber para salvar-se? Os turbilhões de pó, que hão-de sumi-la, Debaixo de teus pés vão levantar-se. Templos, palacios, leis, memorias, usos, Na correria extrema, e pisa e estraga. Meu ginete fiel, rincha orgulhoso, E os reis e os povos com teus pés esmaga.

O CAÇADOR FEROZ.

(Burger).

Sua buzina tocára

O conde, altivo senhor: «De pé, de cavallo, álerta!― Disse; e monta o corredor.

O nobre animal relincha:

Pula e parte; e a turba após. Ei-los vão! Quem era o conde? Era o caçador feroz.

Por estevaes e por sarças,

Por campinas cultivadas, Voam rapidos. Resoam Motejos, gritos, risadas.

O sol que vinha rompendo

Em luz as veigas banhava, E do zimborio do templo O lanternim scintillava.

«Tlim, tlão!―convocando á missa,

Tangia o sagrado sino; E involto nos sons de um orgam, Do côro se ouvia o hymno.

Duas sendas lá se cruzam;

E a turba chegára lá. Da direita um cavalleiro, E outro da esquerda está.

Nedio ginete, qual neve

Alvo, guiava o primeiro; O segundo, á rédea solta, Esporeava um fouveiro.

Quem taes cavalleiros eram

Creio certo adivinha-lo, Bem que ainda com certeza Não me atreva a declara-lo.

Da direita ao cavalleiro

Fulgia o rosto formoso; Porém no olhar do da esquerda Fulgor havia horroroso.

«Bem vindos sois, cavalleiros;

Bem vindos á montaria! Qual prazer, no céu, na terra, Ao nosso se igualaria!―

Assim disse o conde, e rija

Palmada na côxa deu. Atirando pelos ares A grande altura o chapeu.

«O som da tua buzina―

Tornou logo o da direita― Nem aos canticos do côro Nem do sino ao som se ageita.

Ruim caçada te espera!

Atrás te cumpre voltar. Contra ti a ira celeste Não queiras desafiar.»

«Nobre conde monteae―

Prestes o outro atalhou― Que importa a bulha do côro, E se o sino badalou?

Deixae ao povo o seu medo:

Que para a relé foi feito. Não são palavras sandías Das que merecem respeito.―

«Ah, bem dicto! Oh tu da esquerda,

Um heroe és quanto a mim. Só padre-nossos empecem A algum caçador ruim!

Que tem missas, que tem resas

Com o montear, sandeu? Se medo queres metter-me, Falhou o calculo teu.―

Disse o conde. Ávante correm:

Vão por campinas e outeiros. Sempre da direita e esquerda Estão os dous cavalleiros.

Eis, lá em distancia, um cervo

Branco transpõe a assomada, Tendo de pontas galhosas A erguida fronte adornada.

Então o conde a buzina

Com mais alento assoprou, E tudo, a pé, a cavallo, Com mais rapidez voou.

Ora dos que por diante,

Ora dos que de trás vão, Um ou outro rebentado Fica no meio do chão.

E o conde:―Cahem? No inferno

Baqueiar podesseis vós! Os que desalentam fiquem: Sem elles bem vamos nós.―

N'uma seara guarida,

Fugindo, o cervo buscou: O pobre dono do campo, Triste, ao conde se chegou:

«Meu bom senhor―clamou elle―

Compaixão, meu bom senhor! Ah, poupae mesquinhos fructos De um abundante suor.―

Da direita o cavalleiro

O conde amoestou então: Cortezes eram seus dictos, Cortezes e de razão:

Mas, atiçando-o o da esquerda

Á maldade perpetrar, Desprezou o da direita Para o maldicto o enredar.

«Fóra cão!―ao camponez

Grita o conde esbravejando― Quando não, com mil diabos, Soltar-te a matilha mando.

Álerta, socios! O açoute

Pelas orelhas chegae-lhe; E que sou fiel ás juras Dessa maneira provae-lhe.»

Dicto e feito. O conde salta

Por cima os vallos fronteiros; E atrás delle, estrepitando, Homens, cavallos, balseiros.

O tropel, com grita horrenda,

Pisa e destroe a seara; Que ninguem do lavrador Dorido choro escutára.

Pelo estridor acossado,

Que já bem perto sentia, O cervo os crueis intentos, Veloz fugindo, illudia.

Através de montes, valles,

Perseguido e não tomado, Manhoso se foi metter Entre um rebanho de gado.

Entrando do campo ao bosque,

Saindo do bosque ao claro, Seguiram-no os cães, e em breve Lhe acharam da pista o faro.

Cheio de angustia o pastor,

Por seu rebanho temendo, Por terra se arremessou Aos pés do conde, tremendo.

―Deixae meu pobre rebanho;

Senhor, tende dó de mi: De muitas tristes viuvas O gado retouça aqui.

Cada qual das pobrezinhas

Tem das rezes uma só: Eis toda a sua riqueza: Senhor, tende dellas dó.»

Da direita o cavalleiro

O conde amoestou então: Cortezes eram seus dictos, Cortezes e de razão:

Mas a maldade do conde

Sempre atiçava o da esquerda, E elle, o bom ludibriando, Corria á ultima perda.

«Cão! A mim oppôr-te queres?

As contas vou-te eu fazer. Quem me déra entre essas vaccas Comtigo as taes velhas ver;

Que seria o mais suave

Prazer do coração meu Montear-vos, mais que fosse Pelas campinas do céu.

Álerta, socios, ávante!

Cães, avança! csê! perdido!― E os cães no que acham mais perto Saltam com fero latido.

O pegureiro por terra

Cái em seu sangue banhado, E sanguento o gado fica Todo alli atassalhado.

Á morte escapou a custo

O veado, que fugia Cada vez menos ligeiro, N'uma floresta sombria.

Cuberto de escuma e sangue,

Perdida a respiração, Do bosque em meio salvou-se No alvergue de um ermitão.

Segue-o o tropel incançavel:

Estala o açoute incessante: Soam buzinas; retinem Os gritos de―abóca! ávante!»

O solitario piedoso

Da cabana então saíu, E ao conde, com brando gesto, Taes palavras dirigiu:

―Senhor, deixa teus intentos,

E o sacro asylo venera: A creatura ao céu se queixa; Delle teu castigo espera.

Aos bons avisos, oh conde,

Cede pela ultima vez; Quando não, na perdição, Certo, abysmado te vês.»

Cuidadoso o da direita

Ao conde correu então: Cortezes eram seus dictos, Cortezes e de razão.

Mas o da esquerda atiçando

Nelle o animo damnado, Do bom apesar do aviso, Ai, do mau foi enganado!

«Perdição?! Disso me rio,

Não cuideis que eu tenha susto. No terceiro céu que fôra Me escapára o cervo a custo.

Que me importa a ira divina?

Vae-te prégar ao deserto. Teus sermões a montaria Não farão falhar, por certo.―

Assim disse o conde. O açoute

Sacode; as buzinas soam. «Csê! abóca!..―Ui! de diante Homens e cabana voam.

De trás corceis, homens fogem:

Sons e gritos de caçada Se esvaecem de repente Da morte na paz gelada.

Pávido o conde olha em roda:

Tóca a buzina... não soa: Grita... em vão: nada ouve: o açoute Vibra: mas no ar não toa.

Para um e para outro lado

O seu cavallo esporeia... Nem para trás voltar póde, Nem àvante se meneia.

Então escurece emtorno:

Cada vez mais de ennegrece: Qual sepulchro fica: ao longe Bramir triste o mar parece.

Lá troa voz de trovão!

Que era o que dizia a voz? Era a sentença do conde, Sentença medonha e atroz.

«Genio infernal, atrevido

Contra Deus, homens e feras! Das creaturas os gemidos Resoaram nas espheras.

Tuas maldades e insultos

Alto pedem punição, Onde da vingança o facho Ondeia erguido clarão.

Malvado, foge; que os monstros

Do inferno te vão seguir, Para que sejas exemplo Aos tyrannos do porvir!»

Qual d'aurora boreal,

Flavo pallido fulgor Tingiu então na floresta Das folhas a verde côr.

Immovel, pasmado, mudo,

Gelado o conde ficou; Trépida angustia dos ossos Á medulla lhe chegou.

Frio susto pela frente

Contra elle arroja o terror: Pelas costas o persegue O trovão atroador.

O susto o gela; o céu ruge...

Da terra vai-se elevando Negra agigantada mão, Ora abrindo, ora fechando.

Pelos cabellos da fronte,

Ai, quer o conde prender!.. Elle atrás o rosto volta; Nem mais o pôde volver.

Em roda chammeja a terra

Verde, azul, vermelho fogo: Delle um mar rodeia o conde: Surge o inferno em peso logo.

Lá dos abysmos profundos

Sáem mil mastins raivosos, Que, pelo averno açodados, Se tornam mais furiosos.

Toma alento o conde, e foge:

Por montes, por campos vai, Do seio arrancando a espaços Do espanto terrivel ai:

Mas por todo o largo mundo

Atrás delle ruge o inferno, De dia do orbe no centro, De noite no ar superno.

Ficou-lhe a face voltada,

Por mais que ávante corresse, Sem que dos horridos monstros Os olhos tirar podesse.

Eis como a caçada foi

Do tropel desenfreiado, A qual até nossos dias Tão constante tem passado,

Que, muitas vezes, durante

As horas da noite escura, Ainda ao dissoluto causa Do medo o horror e amargura

De bastantes caçadores

Podia a boca dize-lo, Se antes não lhes conviesse Calado comsigo te-lo.

O CÃO DO LOUVRE.

(Delavigne).

Tu que passas, descobre-te! Alli dorme

O forte que morreu.

Dá ao martyr do Louvre algumas flores;

Dá pão ao seu lebreu.

Da batalha era o dia. O canhão troa: E o livre corre á morte, e juncto delle

O seu cão vai:

A mesma bala ambos feriu: o martyr Não deploreis: o amigo seu que vive

Só pranteai!

Tristonho, sobre o forte elle se inclina, Affagando-o e gemendo; e a ver se acorda

Põe-se a latir;

E do seu companheiro no combate Sobre o cadaver sanguinoso o pranto

Deixa cahir.

Essa gleba guardando onde repousam As cinzas dos heroes, nada o consola

No seu gemer;

E ao que o ameiga triste repellindo, «Oh, que não és meu dono!―o cão parece

Tentar dizer.

Quando sobre as grinaldas de perpetuas O matutino alvor da aurora o orvalho

Faz scintillar,

Os olhos abre vívidos, e pula Para affagar seu dono, que elle pensa

Ha-de voltar!

Quando da noite a viração as c'roas Fez ranger sobre a cruz do monumento,

Desanimou:

Elle quizera que seu dono o ouvisse; E ladra e uiva; mas o adeus de á noite

Lá lhe faltou!

O inverno chega, e a neve, com violencia, Cái, e branqueia, e esconde esse gelado

Leito de morte:

Ei-lo que sólta um lugubre gemido, E busca, alli deitando-se, ampara-lo

Do frio norte.

Antes que os membros lhe entorpeça o somno, Mil tentativas para erguer a campa

Inuteis faz:

Depois comsigo diz, como hontem disse, ―Quando acordar, por certo, ha-de chamar-me.»

E dorme em paz.

Mas, na alta noite, em sonhos vê trincheiras, E seu dono entre as balas encontradas

Cahir ferido:

E ouve-o que o chama com sibillo usado; E ergue-se e corre após uma van sombra,

Dando um bramido.

É alli que elle espera horas e horas, E saudoso murmura: alli pranteia,

E morrerá.

O seu nome qual é? Todos o ignoram. O que o sabía, o dono seu querido,

Nunca o dirá!..

Tu que passas, descobre-te! Além dorme

O forte que morreu.

Dá ao martyr do Louvre algumas flores,

E esmola ao seu lebreu.

LEONOR.

(Burger).

Ralada de ruins sonhos

Já desperta está Leonor, E 'inda agora os céus d'oriente Da manhan tingiu o alvor.

«Guilherme, és morto?―ella exclama―

Ou trahiste a pobre amante? Se vives, porque retardas De te eu ver feliz instante?»

Nas tropas de Friderico

Tempo havia que partíra Para a batalha de Praga, E cartas delle quem vira?

Mas a imperatriz e o rei[1],

De guerras, emfim, cansados, Depondo os animos feros, De paz faziam tractados.

Já aos seus lares tornavam

Ambas as hostes folgando. Cingem frentes ramos verdes; Vem atabales rufando.

E por montes e por valles

Velhos e moços chegavam, Dando brados de alegria, A encontrar os que voltavam.

«Boa vinda! Adeus!―diziam

As filhas, noivas, e esposas. E Leonor? Nenhum dos vindos Lhe faz caricias saudosas.

Por Guilherme ella pergunta;

Por qual estrada viria. Vão trabalho; vans perguntas: Novas delle quem sabia?

Não o vê. Passaram todos...

Em furioso devaneio, Ei-la arranca as negras tranças; Fere crua o lindo seio.

Sua mãe, correndo a ella:

«Valha-me Deus!―lhe bradou.― Minha filha, pois que é isso?!» E entre os braços a apertou.

«Minha mãe, perdeu-se tudo!

O mundo, tudo perdi: De nada Deus se condoe... Oh dor, oh pobre de mi!―

«Ai! Jesus venha á minha alma!

Filha, um padre-nosso resa. Deus é pae: sempre nos ouve: Nunca a humana dor despreza.―

«Minha mãe, inutil crença!

Que bens me tem feito Deus? Padre-nossos!.. padre-nossos!.. Que importam resas aos céus?―

«Ai! Jesus venha á minha alma!

Pois não é quem resa ouvido? Busca da igreja o consolo Verás teu pesar vencido.―

«Mãe, oh mãe, esta amargura

Nenhum sacramento adoça: Não sei nenhum sacramento, Que aos mortos dar vida possa.―

«Filha, quem sabe se, ingrato,

Elle ás promessas faltou; E lá na remota Hungria Novo amor o captivou?

Se, mudavel, te abandona,

Do crime o premio terá: Do ultimo trance na angustia O remorso o punirá.―

«Morreu-me, oh mãe, a esperança.

Perdido... tudo é perdido! Morrer, tambem, só me resta. Nunca eu houvera nascido!

Foge, oh sol resplandecente!

Manda a noite e os seus terrores... Deus, oh Deus, que nunca escutas O gemer de humanas dores.―

«Meu Senhor! A desditosa

Não pensa o que a lingua exprime. Não julgues a filha tua: Nem te lembres do seu crime.

Vans paixões esquece, oh filha:

Cogita no goso eterno, No sangue que te remiu, E nos tormentos do inferno.―

«O que é goso eterno, oh mãe,

E o inferno em que consiste? Com Guilherme ha goso eterno, Sem Guilherme o inferno existe.

Sem elle, que a luz fugindo,

Se troque em nocturno horror; Sem elle, no céu, na terra Só conheço acerba dor!»

Assim no sangue e na mente

Furia insana lhe fervia: Cruel chamando ao Senhor, Mil blasphemias repetia.

Desde o sol brilhar no oriente

Até que o céu se estrellava, As mãos, louca, retorcia, O brando seio pisava.

Porém ouçamos!.. A terra

Pisa um cavallo lá fóra!.. E pelos degraus da escada Tinem sons d'espada e espóra...

Ouçamos! Batem na argola

Pancadas que mal feriram... E através das portas, claro, Estas palavras se ouviram:

«Oh lá, querida, abre a porta.

Dormes? Estás acordada? Folgas em riso? Pranteias? De mim és 'inda lembrada?―

«Guilherme, tu?! Na alta noite?

Tenho velado e gemido. Quanto padeci!.. Mas, d'onde Até 'qui tens tu corrido?!―

«Nós montamos á meia-noite

Só. Vim tarde, mas ligeiro, Desde a Bohemia, e comigo Levar-te-hei, por derradeiro.―

«Oh meu querido Guilherme,

Vem depressa: aqui te abriga Entre meus braços; que o vento Do bosque as crinas fustiga.―

«Rugir o deixa nos matos.

Sibilla? Sibille embora! Não paro... que o meu ginete Escarva o chão... tine a espóra...

Nosso leito nupcial

Dista cem milhas d'aqui. Sobraça as roupas... vem... salta No murzelo, atrás de mi.―

«Além cem milhas, me queres

Hoje ao thalamo guiar? Ouve... o relogio ainda soa: Doze vezes fere o ar.―

«Olha em roda! A lua é clara:

Nós e os mortos bem corremos. Aposto eu que n'um instante Ao leito nupcial iremos?―

«Mas dize-me, onde é que habitas?

Como é o leito do noivado?― «Longe, quedo, fresco, breve: De oito taboas é formado.―

«Para dous?―«Para nós ambos.

Sobraça as roupas: vem cá. Os convidados esperam: O quarto patente está.―

Sobraçada a roupa, a bella

Para o ginete saltou, E ao seu leal cavalleiro Co' as alvas mãos se enlaçou.

Ei-los vão! Soa a corrida.

Ei-los vão, á fula-fula! Ginete e guerreiro arquejam: A faisca, a pedra pula.

Ui, como, á direita, á esquerda,

Ante seus olhos se escoam Prado e selva, e do galope Sob a ponte os sons ecchoam!

«Tremes, cara? A lua é pura.

Depressa o morto andar usa. Tens medo de mortos?―«Não. Mas delles falar se escusa.―

«Que sons e cantos são estes?

O corvo alli remoinha! Sons de sino? Hymnos de morte? É morto que se avizinha!―

Era de feito um saimento,

Que andas e esquife levava: Aos silvos de cobra em pégo Seu canto se assemelhava.

«Um enterro á meia-noite,

Com psalmos e com lamento, E eu a minha noiva levo Ao sarau do casamento?

Vinde, sacristão e o côro,

O ephitalamio entoai-nos; Vinde, abbade, e antes que entremos No leito, a bençam lançai-nos.―

Cala o som e o canto: a tumba

Some-se: finda o clamor A seu mando; e o tropel voa Na pista do corredor.

Sempre mais alto a corrida

Soa. Vão á fula-fula. Ginete e guerreiro arquejam: A faisca, a pedra pula.

Como á dextra e esquerda fogem

Montes, bosques, matagaes! Como á dextra e esquerda fogem Cidades, villas, casaes!

«Tremes, cara? A lua é pura.

Depressa o morto usa andar. Temes os mortos, querida?― «Ai, deixa-os lá repousar!―

«Olha! Ao redor de uma forca

Dançar em tropel não vês Aereos corpos, que alvejam Da luz da lua através?

Oh lé, birbantes, aqui!

Birbantes, acompanhai-me! Vinde. A dança do noivado Juncto do leito dançai-me.―

E os vultos vem após logo,

Ruído immenso fazendo, Como o furacão nas folhas Seccas do vergel rangendo.

E resoando a corrida

Ei-los vão, á fula-fula. Ginete e guerreiro arquejam: A faisca, a pedra pula.

Para trás fugir parece

Quanto o luar allumia; Para trás suas estrellas Sumir o céu parecia.

«Tremes, cara? A lua é pura.

Depressa o morto andar usa. Temes os mortos, querida?― «Ai, delles falar se escusa!―

«Murzelo, o gallo ouvír creio!

Breve a areia ha-de correr... Murzelo, avia-te, voa; Que sinto o ar do amanhecer!

Nossa jornada está finda:

Ao leito nupcial chegámos: Ligeiro os mortos caminham: A méta final tocámos.―

D'uma porta ás grades ferreas

Á rédea solta chegaram, E de fragil vara ao toque Ferrolho e chave saltaram.

Fugiram piando as aves:

A corrida, emfim, parára Sobre campas. Os moimentos Alvejam; que a noite é clara.

Peça após peça, ao guerreiro

Cáe a armadura lustrosa Em negro pó impalpavel, Qual de isca fuliginosa.

Sua cabeça era um craneo

Branco-pallido, escarnado: Nas mãos tem fouce e ampulheta, Triste adorno de finado.

Alça-se e arqueja o ginete:

I­gneas fai­scas lançou, E debaixo de seus pés Abriu-se a terra, e o tragou.

Dos covaes surgem phantasmas:

Feio urrar os ares corta: Bate incerto o coração Da donzella semimorta.

Ao redor danças de espectros

Em remoinho passavam: Canto de medonhas vozes Era o canto que cantavam:

«Aflliges-te? Oh, tem paciencia!

Não fosses com Deus audaz. Teu corpo pertence á terra: Á tua alma o céu dê paz.―

[1]

Maria-Theresa d'Austria e Friderico de Prussia.

A COSTUREIRA, E O PINTASILGO MORTO.

(Lamartine).

Tu cujas azas tremulas O meu olhar tornava; Cujo trinado harmonico Meus dias alegrava, Ai, já não ouves!―Chamo-te, E é vão este chamar! Chegou a estação gelida; Foi para te matar.

Nunca me has-de esquecer! Por bem seis annos,

Companheira leal Tu me foste, avesinha;

Meiga entre as meigas, desprezando os campos, Deslembrada da mãe, que, á noite, aninha

No movel cannavial.

A ti, affeita a mim, affiz-me em breve.

Meu unico recreio Era brincar comtigo.

Ao veres-me encerrar no pobre alvergue Gorgeiavas, e o tedio o canto amigo

Volvia em brando enleio.

Meu amor te suppria a liberdade;

Meus passos traduzias, Meu gesto, meu falar;

Repetias-me o nome em teus modilhos;

Punhas-te a chilrear Quando sorrir me vias.

Oh, que par! Que viver sereno e sancto!

Estavamos tão bem! Nosso parco alimento

Com a ponta da agulha eu mourejava, E dizia scismando:―o meu sustento

É o delle tambem.»

Sementes varias dava-te co' a alpista,

E, qual ramalhetinho Feito na orla do prado,

Á 'splendida gaiola atar me vias, Para debique teu, de herva um punhado,

De alface um tenro olhinho.... Se ao menos fosse licito Saberes que pranteio!.. Ai, foi em dia identico, Que teu adejar veio Fazer brilhar o jubilo Neste triste aposento, Onde em saudosa magua, Sósinha te lamento!

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