A HARPA DO CRENTE.
Reading edition
A SEMANA SANCTA.
Der Gedanke Gott weckt einen furchlerlichen Nachbar auf. Sein Name heisst Richter.
Schiller.
I.
Tibio o sol entre as nuvens do occidente, Já lá se inclina ao mar. Grave e solemne Vai a hora da tarde!―O oeste passa Mudo nos troncos da alameda antiga, Que á voz da primavera os gomos brota: O oeste passa mudo, e cruza o atrio Ponteagudo do templo, edificado Por mãos duras de avós, em monumento De uma herança de fé, que nos legaram, A nós seus netos, homens de alto esforço, Que nos rimos da herança, e que insultamos A cruz e o templo e a crença de outras eras; Nós, homens fortes, servos de tyrannos, Que sabemos tão bem rojar seus ferros Sem nos queixar, menosprezando a Patria E a liberdade, e o combater por ella. Eu não!―eu rujo escravo; eu creio e espero No Deus das almas generosas, puras, E os despotas maldigo.―Entendimento Bronco, lançado em seculo fundido Na servidão de goso ataviada, Creio que Deus é Deus e os homens livres!
II.
Oh sim!―rude amador de antigos sonhos, Irei pedir aos tumulos dos velhos Religioso enthusiasmo, e canto novo Hei-de tecer, que os homens do futuro Entenderão; um canto escarnecido Pelos filhos dest' epocha mesquinha, Em que vim peregrino a ver o mundo. E chegar a meu termo, e reclinar-me Á branda sombra de cypreste amigo.
III.
Passa o vento os do portico da igreja Esculpidos umbraes: correndo as naves Sussurrou, sussurrou entre as columnas De gothico lavor: no orgam do côro Veiu, emfim, murmurar e esvaecer-se.
IV.
Mas porque sôa o vento?―Está deserto, Silencioso ainda o sacro templo: Nenhuma voz humana ainda recorda Os hymnos do Senhor. A natureza Foi a primeira em celebrar seu nome Neste dia de lucto e de saudade! Trévas da quarta feira eu vos saúdo! Negras paredes, mudos monumentos De todas essas orações de mágua, De gratidão, de susto ou de esperança, Depositadas ante vós nos dias De fervorosa crença, a vós que enlucta A solidão e o dó, venho eu saudar-vos. A loucura da cruz não morreu toda Após dezoito seculos!―Quem chore Do soffrimento o Heroe existe ainda. Eu chorarei―que as lagrymas são do homem― Pelo Amigo do povo, assassinado Por tyrannos, e hypocritas, e turbas Envilecidas, barbaras, e servas.
V.
Tu, Anjo do Senhor, que accendes o estro; Que no espaço entre o abysmo e os céus vagueias, D'onde mergulhas no oceano a vista; Tu que do trovador á mente arrojas Quanto ha nos céus esperançoso e bello, Quanto ha no abysmo tenebroso e triste, Quanto ha nos mares magestoso e vago, Hoje te invoco!―oh vem!―lança em minha alma A harmonia celeste e o fogo e o genio, Que dêm vida e vigor a um carme pio.
VI.
A noite escura desce: o sol de todo Nos mares se atufou. A luz dos mortos, Dos brandões o clarão, fulgura ao longe No cruzeiro sómente e em volta da ara: E pelas naves começou ruído De compassado andar. Fiéis acodem Á morada de Deus, a ouvir queixumes Do vate de Sião. Em breve os monges, Suspirosas canções aos céus erguendo, Sua voz unirão á voz desse orgam, E os sons e os ecchos reboarão no templo. Mudo o côro depois, neste recincto Dentro em bem pouco reinará silencio, O silencio dos tumulos, e as trévas Cubrirão por esta área a luz escaça Despedida das lampadas, que pendem Ante os altares, bruxuleando frouxas. Imagem da existencia!―Em quanto passam Os dias infantis, as paixões tuas, Homem, qual então és, são debeis todas. Cresceste:―ei-las torrente, em cujo dorso Sobrenadam a dôr e o pranto e o longo Gemido do remorso, a qual lançar-se Vai com rouco estridor no antro da morte, Lá, onde é tudo horror, silencio, noite. Da vida tua instantes florescentes Foram dous, e não mais: as cans e rugas, Logo, rebate de teu fim te deram. Tu foste apenas som, que, o ar ferindo, Murmurou, esqueceu, passou no espaço. E a casa do Senhor ergueu-se.―O ferro Cortou a penedia; e o canto enorme Pulído alveja alli no espesso panno Do muro colossal, que éra após éra, Como onda e onda ao desdobrar na areia, Viu vir chegando e adormecer-lhe ao lado. O ulmo e o choupo no cahir rangeram Sob o machado: a trave affeiçoou-se; Lá no cimo pousou: restruge ao longe De martellos fragor, e eis ergue o templo, Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas. Homem, do que és capaz! Tu, cujo alento Se esvái, como da cerva a leve pista No pó se apaga ao respirar da tarde, Do seio dessa terra, em que és estranho, Sair fazes as moles seculares, Que por ti, morto, falem; dás na idéa Eterna duração ás obras tuas. Tua alma é immortal, e a prova a déste!
VII.
Anoiteceu.―Nos claustros resoando As pisadas dos monges ouço: eis entram; Eis se curvaram para o chão, beijando O pavimento, a pedra. Oh sim, beijae-a! Igual vos cubrirá a cinza um dia, Talvez em breve―e a mim. Consolo ao morto É a pedra do tumulo. Sê-lo-hia Mais, se do justo só a herança fòra; Mas tambem ao malvado é dada a campa. E o criminoso dormirá quieto Entre os bons sotterrado?―Oh não! Em quanto No templo ondeiam silenciosas turbas, Exultarão do abysmo os moradores, Vendo o hypocrita vil, mais impio que elles, Que escarnece do Eterno, e a si se engana; Vendo o que julga que orações apagam Vicios e crimes, e o motejo e o riso Dado em resposta ás lagrymas do pobre; Vendo os que nunca ao infeliz disseram De consolo palavra ou de esperança. Sim:―malvados tambem hão-de pisar-lhes Os frios restos que separa a terra, Um punhado de terra, a qual os ossos Destes ha-de cubrir em tempo breve, Como cubriu os seus; qual vai sumindo No segredo da campa a humana raça.
VIII.
Eis que a turba rareia. Ermam bem poucos Do templo na amplidão: só lá no escuro De afumada capella o justo as preces Ergue pio ao Senhor, as preces puras De um coração que espera, e não mentidas De labios de impostor, que engana os homens Com seu meneio hypocrita, calando Na alma lodosa da blasphemia o grito. Então exultarão os bons, e o ímpio, Que passou, tremerá. Emfim, de vivos, Da voz, do respirar o som confuso Vem confundir-se no ferver das praças, E pela galilé só ruge o vento. Em trévas não ficou silenciosas O sagrado recincto: os candieiros, No gelado ambiente ardendo a custo, Espalham debeis raios, que reflectem Das pedras pela alvura; o negro mocho, Companheiro do morto, horrido pio Solta lá da cornija: pelas fendas Dos sepulchros deslisa fumo espesso; Ondeia pela nave, e esvái-se. Longo Suspirar não se ouviu?―Olhae! lá se erguem. Sacudindo o sudario, em peso os mortos! Mortos, quem vos chamou? O som da tuba Ainda do Josaphat não fere os valles. Dormí, dormí: deixae passar as eras...
IX.
Mas foi uma visão: foi como scena D'imaginar febril. Creou-se, acaso, Do poeta na mente, ou desvendou-lhe A mão de Deus o íntimo ver da alma, Que devassa a existencia mysteriosa Do mundo dos espiritos? Quem sabe? Dos vivos ja deserta, a igreja torva Repovoou-se, para mim ao menos, Dos extinctos, que ao pé das sanctas aras Leito commum na somnolencia extrema Buscaram. O terror, que arreda o homem Do limiar do templo ás horas mortas, Não vem de crença van. Se fulgem astros, Se a luz da lua estira a sombra eterna Da cruz gigante (que campeia erguida No vertice do timpano, ou no cimo Do corucheu do campanario) ao longo Dos inclinados tectos, afastae-vos! Afastae-vos d'aqui, onde se passam Á meia-noite insolitos mysterios; D'aqui, onde desperta a voz do archanjo Os dormentes da morte; onde reune O que foi forte e o que foi fraco, o pobre E o opulento, o orgulhoso e o humilde, O bom e o mau, o ignorante e o sabio, Quantos, emfim, depositar vieram Juncto do altar o que era seu no mundo, Um corpo nú, e corrompido e inerte.
X.
E seguia a visão.―Cria ainda achar-me, Alta noite, na igreja solitaria Entre os mortos, que, erectos sobre as campas, Eram ha pouco um fumo que ondeiava Pelas fisgas do vasto pavimento. Olhei. Do erguido tecto o panno espesso Rareava; rareava-me ante os olhos, Como tenue cendal; mais tenue ainda, Como o vapor de outono em quarto d'alva, Que se libra no espaço antes que desça A consolar as plantas conglobado Em matutino orvalho. O firmamento Era profundo e amplo. Involto em gloria, Sobre vagas de nuvens, rodeiado Das legiões do céu, o Ancião dos dias, O Sancto, o Deus descia. Ao summo aceno Parava o tempo, a immensidade, a vida Dos mundos a escutar. Era esta a hora Do julgamento desses que se alçavam Á voz de cima sobre as sepulturas?
XI.
Era ainda a visão,―Do templo em meio Do anjo da morte a espada flammejante Crepitando bateu. Bem como insectos, Que á flôr de pego pantanoso e triste Se balouçavam―quando a tempestade Veiu as azas molhar nas aguas turvas, Que marulhando sussurraram―surgem Volteando, zumbindo em dança douda, E lassos, vão pousar em longas filas Nas margens do paul, de um lado e de outro; Tal o murmurio e a agitação incerta Ciciava das sombras remoinhando Ante o sopro de Deus. As melodias Dos córos celestiaes, longinquas, frouxas, Com frémito infernal se misturavam Em cahos de dôr e jubilo.
Dos mortos
Parava, emfim, o vortice enredado; E os grupos vagos em distinctas turmas Se enfileiravam de uma parte e de outra. Depois, o gladio do anjo entre os dous bandos Ficou, unica luz, que se estirava Desde o cruzeiro ao portico, e fería De reflexo vermelho os largos pannos Das paredes de marmore, bem como Mar de sangue, onde inertes fluctuassem De humanos vultos indecisas fórmas.
XII.
E seguia a visão.―Do templo á esquerda, Méstas as faces, inclinada a fronte, Da noite as larvas tinham sobre o sólo Fito o espantado olhar, e as dilatadas Baças pupillas lhes tingia o susto. Mas, como zona lucida de estrellas, Nessa atmosphera crassa e afogueada Pela espada rubente, refulgiam Da direita os espiritos, banhado De inenarravel placidez seu gesto. Era inteiro o silencio, e no silencio Uma voz resoou―Eleitos vinde!― Ide precítos!»―Vacillava a terra, E ajoelhando eu me curvei tremendo.
XIII.
Quando me ergui e olhei, no céu profundo Um rastilho de luz pura e serena Se ia embebendo nesses mares de orbes Infinitos, perdidos no infinito, A que chamâmos o universo. Um hymno De saudade e de amor, quasi inaudivel Parecia romper desde as alturas De tempo a tempo. Vinha como involto Nas lufadas do vento, até perder-se Em socego mortal.
O curvo tecto
Do templo, então, se condensou de novo, E para a terra o meu olhar volveu-se. Da direita os espiritos radiosos Já não estavam lá. Chispando a espaços, Qual o ferro na incude, a espada do anjo O mortiço rubor mandava, apenas, D'aurora boreal quando se extingue.
XIV.
Proseguia a visão.―Da esquerda ás sombras Anciava o seio a dôr: tinham no gesto Impressa a maldicção, que lhes seccára Eternamente a seiva da esperança. Como se vê, em noite estiva e negra, Scintillar sobre as aguas a ardentia, D'umas frontes ás outras vagueiavam Ceruleos lumes no esquadrão dos mortos, E ao estalar das lousas, grito immenso Subterraneo, abafado e delirante, Ineffavel compendio de agonias, Misturado se ouviu com rir do inferno, E a visão se desfez. Era ermo o templo: E despertei do pesadelo em trevas.
XV.
Era loucura ou sonho? Entre as tristezas E os terrores e angustias, que resume Neste dia e logar a avita crença, Irresistivel força arrebatou-me Da sepultura a devassar segredos, Para dizer:―Tremei! Do altar á sombra Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»― A justiça de Deus visita os mortos, Embora a cruz da redempção proteja A pedra tumular; embora a hostia Do sacrificio o sacerdote eleve Sobre as vizinhas aras. Quando a igreja Rodeiam trevas, solidão e medos, Que a resguardam co'as asas acurvadas Da vista do que vive, a mão do Eterno Separa o joio do bom grão, e arroja Para os abysmos a ruim semente.
XVI.
Não!―não foi sonho vão, vago delirio De imaginar ardente. Eu fui levado, Galgando além do tempo, ás tardas horas, Em que se passam scenas de mysterio, Para dizer:―Tremei! Do altar á sombra Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»― Vejo ainda o que vi: da sepultura Ainda o halito frio me enregela O suor do pavor na fronte; o sangue Hesita immoto nas inertes veias; E embora os labios murmurar não ousem, Ainda, incessante, me repete na alma Íntima voz:―Tremei! Do altar á sombra Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»―
XVII.
Mas troa a voz do monge, e, emfim, desperto O coração bateu. Eia, retumbem Pelos ecchos do templo os sons dos psalmos, Que em dia de afflicção ignoto vate Teceu, banhado em dôr. Talvez foi elle O primeiro cantor que em varias córdas, Á sombra das palmeiras da Iduméa, Soube entoar melodioso um hymno. Deus inspirava então os trovadores Do seu povo querido, e a Palestina, Rica dos meigos dons da natureza, Tinha o sceptro, tambem, do enthusiasmo. Virgem o genio ainda, o estro puro Louvava Deus sómente, á luz da aurora, E ao esconder-se o sol entre as montanhas De Bethoron.―Agora o genio é morto Para o Senhor, e os cantos dissolutos De lodoso folguedo os ares rompem, Ou sussurram por paços de tyrannos, Assellados de putrida lisonja, Por preço vil, como o cantor que os tece.
XVIII. O PSALMO.
Quanto é grande o meu Deus!.. Té onde chega
O seu poder immenso!
Elle abaixou os céus, desceu, calcando
Um nevoeiro denso.
Dos cherubins nas asas radiosas
Librando-se, voou;
E sobre turbilhões de rijo vento
O mundo rodeiou.
Ante o olhar do Senhor vacilla a terra,
E os mares assustados
Bramem ao longe, e os montes lançam fumo,
Da sua mão tocados.
Se pensou no Universo, ei-lo patente
Ante a face do Eterno:
Se o quiz, o firmamento os seios abre,
Abre os seios o inferno.
Dos olhos do Senhor, homem, se pódes,
Esconde-te um momento:
Vê onde encontrarás logar que fique
Da sua vista isento:
Sobe aos céus, transpõe mares, busca o abysmo,
Lá teu Deus has-de achar;
Elle te guiará, e a dextra sua
Lá te ha-de sustentar:
Desce á sombra da noite, e no seu manto
Involver-te procura...
Mas as trévas para elle não são trévas.
Nem é a noite escura.
No dia do furor, em vão buscáras
Fugir ante o Deus forte,
Quando do arco tremendo, irado, impelle
Setta em que pousa a morte.
Mas o que o teme dormirá tranquillo
No dia extremo seu,
Quando na campa se rasgar da vida
Das illusões o véu.
XIX.
Calou-se o monge: sepulchral silencio Á sua voz seguiu-se. Uma toada De orgam rompeu do côro. Assemelhava O suspiro saudoso, e os ais de filha, Que chora solitaria o pae, que dorme Seu ultimo, profundo e eterno somno. Melodias depois soltou mais doces O severo instrumento: e ergueu-se o canto, O doloroso canto do propheta, Da patria sobre o fado. Elle, que o vira, Sentado entre ruinas, contemplando Seu avito esplendor, seu mal presente, A quéda lhe chorou. Lá na alta noite, Modulando o Nebel, via-se o vate Nos derribados porticos, abrigo Do immundo stellio e gemedora poupa, Extasiado―e a lua scintillando Na sua calva fronte, onde pesavam Annos e annos de dôr. Ao venerando Nas encovadas faces fundos regos Tinham aberto as lagrymas. Ao longe, Nas margens do Kedron, a ran grasnando Quebrava a paz dos tumulos. Que tumulo Era Sião!―o vasto cemiterio Dos fortes de Israel. Mais venturosos Que seus irmãos, morreram pela patria; A patria os sepultou dentro em seu seio. Elles, em Babylonia, aos punhos ferros, Passam de escravos miseranda vida, Que Deus pesou seus crimes, e, ao pesa-los, A dextra lhe vergou. Não mais no templo A nuvem repousára, e os céus de bronze Dos prophetas aos rogos se amostravam. O vate de Anathot a voz soltára Entre o povo infiel, de Eloha em nome: Ameaças, promessas, tudo inutil; De bronze os corações não se dobraram. Vibrou-se a maldicção. Bem como um sonho Jerusalem passou: sua grandeza Sómente existe em derrocadas pedras. O vate de Anathot, sobre seus restos, Com triste canto deplorou a patria. Hymno de morte alçou: da noite as larvas O som lhe ouviram: squallido esqueleto, Rangendo os ossos, d'entre a hera e musgos Do portico do templo erguia um pouco, Alvejando, a caveira.―Era-lhe allivio Do sagrado cantor a voz suave Desferida ao luar, triste, no meio Da vasta solidão que o circumdava. O propheta gemeu: não era o estro, Ou o vívido jubilo que outr'ora Inspirára Moysés: o sentimento Foi sim pungente de silencio e morte, Que da patria lhe fez sobre o cadaver A elegia da noite erguer e o pranto Derramar da esperança e da saudade.
XX. A LAMENTAÇÃO.
Como assim jaz e solitaria e quèda Esta cidade outr'ora populosa! Qual viuva ficou e tributaria
A senhora das gentes.
Chorou durante a noite; em pranto as faces, Sósinha, entregue á dôr, nas penas suas Ninguem a consolou: os mais queridos
Contrarios se tornaram.
Ermas as praças de Sião e as ruas, Cobre-as a verde relva: os sacerdotes Gemem; as virgens pallidas suspiram
Involtas na amargura.
Dos filhos de Israel nas cavas faces Está pintada a macilenta fome; Mendigos vão pedir, pedir a estranhos,
Um pão de infamia eivado.
O tremulo ancião, de longe, os olhos Volve a Jerusalem, della fugindo; Vê-a, suspira, cahe, e em breve expira
Com seu nome nos labios.
Que horror!―ímpias as mães os tenros filhos Despedaçaram: barbaras quaes tigres, Os sanguinosos membros palpitantes
No ventre sepultaram.
Deus, compassivo olhar volve a nós tristes: Cessa de Te vingar! Vê-nos escravos, Servos de servos em paiz estranho.
Tem dó de nossos males!
Acaso serás Tu sempre inflexivel? Esqueceste de todo a nação tua? O pranto dos hebreus não Te commove?
És surdo a seus lamentos?
XXI.
Doce era a voz do velho: o som do Nablo Sonoro: o céu sereno: clara a terra Pelo brando fulgor do astro da noite: E o propheta parou. Erguidos tinha Os olhos para o céu, onde buscava Um raio de esperança e de conforto: E elle calára já, e ainda os ecchos, Entre as ruinas sussurrando, ao longe Íam os sons levar de seus queixumes.
XXII.
Choro piedoso, o choro consagrado Ás desditas dos seus. Honra ao propheta! Oh margens do Jordão, paiz formoso Que fostes e não sois, tambem suspiro Condoído vos dou.―Assim fenecem Imperios, reinos, solidões tornados!... Não:―nenhum deste modo: o peregrino Pára em Palmyra e pensa. O braço do homem A sacudiu á terra, e fez dormissem O seu ultimo somno os filhos della― E elle o veio dormir pouco mais longe... Mas se chega a Sião treme, enxergando Seus lacerados restos. Pelas pedras, Aqui e alli dispersas, ainda escripta Parece ver-se uma inscripção de agouros, Bem como aquella que aterrou um ímpio Quando, no meio de ruidosa festa, Blasphemava dos céus, e mão ignota O dia extremo lhe apontou dos crimes. A maldicção do Eterno está vibrada Sobre Jerusalem!―Quanto é terrivel A vingança de Deus! O Israelita, Sem patria e sem abrigo, vagabundo, Ódio dos homens, neste mundo arrasta Uma existencia mais cruel que a morte, E que vem terminar a morte e inferno. Desgraçada nação!―Aquelle solo Onde manava o mel, onde o carvalho, O cedro e a palma o verde ou claro ou torvo, Tão grato á vista, em bosques misturavam; Onde o lyrio e a cecem nos prados tinham Crescimento espontaneo entre as roseiras, Hoje, campo de lagrymas, só cria Humilde musgo de escalvados cerros.
XXIII.
Ide vós a Mambré.―Lá, bem no meio De um valle, outr'ora de verdura ameno, Erguia-se um carvalho magestoso. Debaixo de seus ramos largos dias Abrahão repousou. Na primavera Vinham os moços adornar-lhe o tronco De capellas cheirosas de boninas, E coreias gentis traçar-lhe em roda. Nasceu com o orbe a planta veneravel, Viu passar gerações, julgou seu dia Final fosse o do mundo, e quando airosa Por entre as densas nuvens se elevava, Mandou o Nume aos aquilões rugissem, Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco, Murcharam-se cahindo, e o rei dos bosques Serviu de pasto aos tragadores vermes. Deus estendeu a mão:―no mesmo instante A vinha se mirrou: juncto aos ribeiros Da Palestina os platanos frondosos Não mais cresceram, como d'antes, bellos: O armento, em vez de relva, achou nos prados Sómente ingratas, espinhosas urzes. No Golgotha plantada, a Cruz clamára ―Justiça!»―A tal clamor horrido espectro No Moriá surgiu. Era seu nome Assolação.―E despregando um grito, Cahiu com longo som de um povo a campa. Assim a herança de Judá, outr'ora Grata ao Senhor, existe só nos ecchos Do tempo que já foi, e que ha passado Como hora de prazer entre desditas. ....................................................
XXIV.
Minha Patria onde existe?
É lá sómente!
Oh lembrança da Patria acabrunhada Um suspiro tambem tu me has pedido; Um suspiro arrancado aos seios d'alma Pela offuscada gloria, e pelos crimes Dos homens que ora são, e pelo opprobrio Da mais illustre das nações da terra! A minha triste Patria era tão bella, E forte, e virtuosa! e ora o guerreiro E o sabio e o homem bom acolá dormem, Acolá, nos sepulchros esquecidos, Que a seus netos infames nada contam Da antiga honra e pudor e eternos feitos. O escravo português agrilhoado Carcomir-se lhes deixa juncto ás lousas Os decepados troncos desse arbusto, Por mãos delles plantado á liberdade, E por tyrannos derribado em breve, Quando patrias virtudes se acabaram, Como um sonho da infancia!...
O vil escravo,
Immerso em vicios, em bruteza e infamia, Não erguerá os macerados olhos Para esses troncos, que destroem vermes Sobre as cinzas de heroes, e, acceso em pejo, Não surgirá jámais?―Não ha na terra Coração português, que mande um brado De maldicção atroz, que vá cravar-se Na vigilia e no somno dos tyrannos, E envenenar-lhes o prazer por noites De vil prostituição, e em seus banquetes De embriaguez lançar fel e amarguras? Não!―Bem como um cadaver já corrupto, A nação se dissolve: e em seu lethargo O povo, involto na miseria, dorme.
XXV.
Oh, talvez, como o vate, ainda algum dia Terei de erguer á Patria hymno de morte, Sobre seus mudos restos vagueiando! Sobre seus restos?―Nunca! Eterno, escuta Minhas preces e lagrymas:―se em breve, Qual jaz Sião, jazer deve Ulissea; Se o anjo do exterminio ha-de risca-la Do meio das nações, que d'entre os vivos Risque tambem meu nome, e não me deixe Na terra vagueiar, orpham de Patria.
XXVI.
Cessou da noite a grão solemnidade Consagrada á tristeza, e a memorandas Recordações:―os monges se prostraram, A face unida á pedra. A mim, a todos Correm dos olhos lagrymas suaves De compuncção. Atheu, entra no templo; Não temas esse Deus, que os labios negam, E o coração confessa. A corda do arco Da vingança, em que a morte se debruça, Frouxa está; Deus é bom: entra no templo. Tu para quem a morte ou vida é fórma, Fórma sómente de mais puro barro, Que nada crês, e em nada esperas, olha, Olha o conforto do christão. Se o calis Da amargura a provar os céus lhe deram, Elle se consolou: balsamo sancto Piedosa fé no coração lhe verte. ―«Deus compaixão terá!―Eis seu gemido: Porque a esperança lhe sussurra em torno: ―Aqui, ou lá... a Providencia é justa.» Atheu, a quem o mal fizera escravo, Teu futuro qual é? Quaes são teus sonhos? No dia da afflicção emmudeceste Ante o espectro do mal. E a quem alçáras O gemente clamor?―Ao mar, que as ondas Não altera por ti?―Ao ar, que some Pela sua amplidão as queixas tuas? Aos rochedos alpestres, que não sentem, Nem sentir podem teu gemido inutil? Tua dôr, teu prazer existem, passam, Sem porvir, sem passado, e sem sentido. Nas angustias da vida, o teu consolo O suicidio é só, que te promette Rica messe de goso, a paz do nada!― E ai de ti, se buscaste, emfim, repouso, No limiar da morte indo assentar-te! Alli grita uma voz no ultimo instante Do passamento: a voz atterradora Da consciencia é ella. E has-de escuta-la Mau grado teu: e tremerás em sustos, Desesperado aos céus erguendo os olhos Irados, de través, amortecidos; Aos céus, cujo caminho a Eternidade Co'a vagarosa mão te vai cerrando, Para guiar-te á solidão das dôres, Onde maldigas teu primeiro alento, Onde maldigas teu extremo arranco, Onde maldigas a existencia e a morte.
XXVII.
Calou tudo no templo: o céu é puro, A tempestade ameaçadora dorme. No espaço immenso os astros scintillantes O Rei da creação louvam com hymnos, Não ouvidos por nós nas profundezas Do nosso abysmo. E aos cantos do Universo, Ante milhões de estrellas, que recamam O firmamento, ajunctará seu canto Mesquinho trovador?―Que vale uma harpa Mortal no meio da harmonia etherea, No concerto da noite? Oh, no silencio, Eu pequenino verme irei sentar-me Aos pés da Cruz nas trévas do meu nada. Assim se apaga a lampada nocturna Ao despontar do sol o alvor primeiro: Por entre a escuridão deu claridade; Mas do dia ao nascer, que já rutíla, As torrentes de luz vertendo ao longe, Da lampada o clarão sumiu-se, inutil, Nesse fulgido mar, que inunda a terra.
A VOZ.
É tão suave ess' hora,
Em que nos foge o dia,
E em que suscita a lua
Das ondas a ardentia,
Se em alcantis marinhos,
Nas rochas assentado,
O trovador medita
Em sonhos enleiado!
O mar azul se encrespa
Co'a vespertina brisa,
E no casal da serra
A luz ja se divisa.
E tudo em roda cala
Na praia sinuosa,
Salvo o som do remanso
Quebrando em furna algosa.
Alli folga o poeta
Nos desvarios seus,
E nessa paz que o cérca
Bemdiz a mão de Deus.
Mas despregou seu grito
A alcyone gemente,
E nuvem pequenina
Ergueu-se no occidente:
E sóbe, e cresce, e immensa
Nos céus negra fluctua,
E o vento das procellas
Já varre a fraga nua.
Turba-se o vasto oceano,
Com horrido clamor;
Dos vagalhões nas ribas
Expira o vão furor
E do poeta a fronte
Cubriu véu de tristeza:
Calou, á luz do raio,
Seu hymno á natureza.
Pela alma lhe vagava
Um negro pensamento,
Da alcyone ao gemido,
Ao sibillar do vento.
Era blasphema idéa,
Que triumphava emfim;
Mas voz soou ignota,
Que lhe dizia assim:
―«Cantor, esse queixume
Da nuncia das procellas,
E as nuvens, que te roubam
Myriadas de estrellas,
E o frémito dos euros,
E o estourar da vaga,
Na praia, que revolve,
Na rocha, onde se esmaga,
Onde espalhava a brisa
Sussurro harmonioso,
Em quanto do ether puro
Descia o sol radioso,
Typo da vida do homem,
É do universo a vida;
Depois do afan repouso,
Depois da paz a lida.
Se ergueste a Deus um hymno
Em dias de amargura;
Se te amostraste grato
Nos dias de ventura,
Seu nome não maldigas
Quando se turba o mar:
No Deus, que é pae, confia,
Do raio ao scintillar.
Elle o mandou: a causa
Disso o universo ignora,
E mudo está. O nume,
Como o universo, adora!»―
Oh sim, torva blasphemia
Não manchará seu canto!
Brama a procella embora;
Pése sobre elle o espanto;
Que de sua harpa os hymnos
Derramará contente
Aos pés de Deus, qual oleo
Do nardo recendente.
A ARRABIDA.
I.
Salve, oh valle do sul, saudoso e bello! Salve, oh patria da paz, deserto sancto, Onde não ruge a grande voz das turbas! Sólo sagrado a Deus, podesse ao mundo O poeta fugir, cingir-se ao ermo, Qual ao freixo robusto a fragil hera, E a romagem do tumulo cumprindo, Só conhecer, ao despertar na morte, Essa vida sem mal, sem dôr, sem termo, Que íntima voz contínuo nos promette No transito chamado o viver do homem.
II.
Suspira o vento no alamo frondoso; As aves soltam matutino canto; Late o lebreu na encosta, e o mar sussurra Dos alcantís na base carcomida: Eis o ruído de ermo!―Ao longe o negro, Insondado oceano, e o céu ceruleo Se abraçam no horisonte.―Immensa imagem Da eternidade e do infinito, salve!
III.
Oh, como surge magestosa e bella, Com viço da creação, a natureza No solitario valle!―E o leve insecto E a relva e os matos e a fragrancia pura Das boninas da encosta estão contando Mil saudades de Deus, que os ha lançado, Com mão profusa, no regaço ameno Da solidão, onde se esconde o justo. E lá campeiam no alto das montanhas Os escalvados pincaros, severos, Quaes guardadores de um logar que é sancto; Atalaias que ao longe o mundo observam, Cerrando até o mar o ultimo abrigo Da crença viva, da oração piedosa, Que se ergue a Deus de labios innocentes. Sobre esta scena o sol verte em torrentes Da manhan o fulgor; a brisa esvaí-se Pelos rosmaninhaes, e inclina os topos Do zimbro e alecrineiro, ao rez sentados Desses thronos de fragas sobrepostas, Que alpestres matas de medronhos vestem; O rocío da noite á branca rosa No seio derramou frescor suave, E 'inda existencia lhe dará um dia. Formoso ermo do sul, outra vez, salve!
IV.
Negro, esteril rochedo, que contrastas, Na mudez tua, o placido sussurro Das arvores do valle, que vecejam Ricas d'encantos, co' a estação propicia; Suavissimo aroma, que, manando Das variegadas flores, derramadas Na sinuosa encosta da montanha, Do altar da solidão subindo aos ares, És digno incenso ao Creador erguido; Livres aves, vós filhas da espessura, Que só teceis da natureza os hymnos, O que crê, o cantor, que foi lançado, Estranho ao mundo, no bulicio delle, Vem saudar-vos, sentir um goso puro, Dos homens esquecer paixões e opprobrio, E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes, O sol, e uma só vez pura saudar-lh'a. Comvosco eu sou maior; mais longe a mente Pelos seios dos céus se immerge livre, E se desprende de mortaes memorias Na solidão solemne, onde, incessante, Em cada pedra, em cada flor se escuta Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa A dextra sua em multiforme quadro.
V.
Escalvado penedo, que repousas Lá no cimo do monte, ameaçando Ruina ao roble secular da encosta, Que somnolento move a coma estiva Ante a aragem do mar, foste formoso; Já te cubriram cespedes virentes; Mas o tempo voou, e nelle involta A formosura tua. Despedidos Das negras nuvens o chuveiro espesso E o granizo, que o sólo fustigando Tritura a tenra lanceolada relva, Durante largos seculos, no inverno, Dos vendavaes no dorso a ti desceram, Qual amplexo brutal de ardor grosseiro, Que, maculando virginal pureza, Do pudor varre a aureola celeste, E deixa, em vez de um seraphim na terra, Queimada flor que devorou o raio.
VI.
Cáveira da montanha, ossada immensa, É tua campa o céu: sepulchro o valle Um dia te será. Quando sentires Rugir com som medonho a terra ao longe, Na expansão dos volcões, e o mar, bramindo, Lançar á praia vagalhões cruzados; Tremer-te a larga base, e sacudir-te De sobre si, o fundo deste valle Te vai servir de tumulo; e os carvalhos Do mundo primogenitos, e os sobros, Arrastados por ti lá da collina, Comtigo hão-de jazer. De novo a terra Te cubrirá o dorso sinuoso: Outra vez sobre ti nascendo os lyrios, Do seu puro candor hão-de adornar-te; E tu, ora medonho e nú e triste, Ainda bello serás, vestido e alegre.
VII.
Mais que o homem feliz!―Quando eu no valle Dos tumulos cahir; quando uma pedra Os ossos me esconder, se me fôr dada, Não mais reviverei; não mais meus olhos Verão, ao pôr-se, o sol em dia estivo, Se em turbilhões de purpura, que ondeiam Pelo extremo dos céus sobre o occidente, Vai provar que um Deus ha a estranhos povos E além das ondas trémulo sumir-se; Nem, quando, lá do cimo das montanhas, Com torrentes de luz inunda as veigas: Não mais verei o refulgir da lua No irrequieto mar, na paz da noite, Por horas em que véla o criminoso, A quem íntima voz rouba o socego, E em que o justo descança, ou, solitario, Ergue ao Senhor um hymno harmonioso.
VIII.
Hontem, sentado n'um penhasco, e perto Das aguas, então quêdas, do oceano, Eu tambem o louvei sem ser um justo: E meditei, e a mente extasiada Deixei correr pela amplidão das ondas. Como abraço materno era suave A aragem fresca do cahir das trévas, Emquanto, involta em gloria, a clara lua Sumia em seu fulgor milhões d'estrellas. Tudo calado estava: o mar sómente As harmonias da creação soltava, Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto Se agitava, gemendo e murmurando, Ante o sopro de oeste:―alli dos olhos O pranto me correu sem que o sentisse, E aos pés de Deus se derramou minha alma.
IX.
Oh, que viesse o que não crê, comigo, Á vecejante Arrabida de noite, E se assentasse aqui sobre estas fragas, Escutando o sussurro incerto e triste Das movediças ramas, que povôa De saudade e de amor nocturna brisa; Que visse a lua, o espaço oppresso de astros, E ouvisse o mar soando:―elle chorára, Qual eu chorei, as lagrymas do goso, E adorando o Senhor detestaria De uma sciencia van seu vão orgulho.
X.
É aqui neste valle, ao qual não chega Humana voz e o tumultuar das turbas, Onde o nada da vida sonda livre O coração, que busca ir abrigar-se No futuro, e debaixo do amplo manto Da piedade de Deus: aqui serena Vem a imagem da campa, como a imagem Da patria ao desterrado; aqui, solemne, Brada a montanha, memorando a morte. Essas penhas, que, lá no alto das serras Nuas, crestadas, solitarias dormem, Parecem imitar da sepultura O aspecto melancholico e o repouso Tão desejado do que em Deus confia. Bem semelhante á paz, que se ha sentado Por seculos, alli, nas cordilheiras É o silencio do adro, onde reunem Os cyprestes e a cruz, o céu e a terra. Como tu vens cercado de esperança, Para o innocente, oh placido sepulchro! Juncto das tuas bordas pavorosas O perverso recúa horrorisado: Após si volve os olhos; na existencia Deserto árido só descobre ao longe, Onde a virtude não deixou um trilho. Mas o justo, chegando á meta extrema, Que separa de nós a eternidade, Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta. O infeliz e o feliz lá dormem ambos, Tranquillamente: e o trovador mesquinho, Que peregrino vagueiou na terra, Sem encontrar um coração ardente Que o entendesse, a patria de seus sonhos, Ignota, por lá busca; e quando as eras Vierem juncto ás cinzas collocar-lhe Tardios louros, que escondera a inveja, Elle não erguerá a mão mirrada, Para os cingir na regelada fronte. Justiça, gloria, amor, saudade, tudo, Ao pé da sepultura, é som perdido De harpa eolia esquecida em brenha ou selva: O despertar um pae, que saboreia Entre os braços da morte o extremo somno, Já não é dado ao filial suspiro; Em vão o amante, alli, da amada sua De rosas sobre a c'roa debruçado, Réga de amargo pranto as murchas flores E a fria pedra: a pedra é sempre fria, E para sempre as flores se murcharam.
XI.
Bello ermo! eu hei-de amar-te, emquanto esta alma, Aspirando o futuro além da vida E um halito dos ceus, gemer atada Á columna do exilio, a que se chama Em lingua vil e mentirosa o mundo. Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filho Dos sonhos meus. A imagem do deserto Guarda-la-hei no coração, bem juncto Com minha fé, meu unico thesouro. Qual pomposo jardim de verme illustre, Chamado rei ou nobre, ha-de comtigo Comparar-se, oh deserto? Aqui não cresce Em vaso de alabastro a flor captiva, Ou arvore educada por mão de homem, Que lhe diga―és escrava» e erga um ferro E lhe decepe os troncos. Como é livre A vaga do oceano é livre no ermo A bonina rasteira e o freixo altivo! Não lhes diz―nasce aqui, ou lá não cresças» Humana voz. Se baqueou o freixo, Deus o mandou: se a flor pendida murcha, É que o rocío não desceu de noite, E da vida o Senhor lhe nega a vida. Céu livre, terra livre, e livre a mente, Paz intima, e saudade, mas saudade Que não dóe, que não mirra, e que consola, São as riquezas do ermo, onde sorriem Das procellas do mundo os que o deixaram.
XII.
Alli naquella encosta, hontem de noite, Alvejava por entre os medronheiros Do solitario a habitação tranquilla: E eu vagueei por lá. Patente estava O pobre alvergue do eremita humilde, Onde jazia o filho da esperança Sob as asas de Deus, á luz dos astros, Em leito, duro sim, não de remorsos. Oh, com quanto socego o bom do velho Dormia! A leve aragem lhe ondeiava As raras cans na fronte, onde se lia A bella historia de passados annos. De alto choupo através passava um raio Da lua―astro de paz, astro que chama Os olhos para o céu, e a Deus a mente― E em luz pallida as faces lhe banhava: E talvez neste raio o Pae celeste Da patria eterna lhe enviava a imagem, Que o sorriso dos labios lhe fugia, Como se um sonho de ventura e gloria Na terra de antemão o consolasse. E eu comparei o solitario obscuro Ao inquieto filho das cidades: Comparei o deserto silencioso Ao perpetuo ruido que sussurra Pelos palacios do abastado e nobre, Pelos paços dos reis; e condoí-me Do cortezão suberbo, que só cura De honras, haveres, gloria, que se compram Com maldicções e perennal remorso. Gloria! A sua qual é? Pelas campinas, Cubertas de cadaveres, regadas De negro sangue, elle segou seus louros; Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva Ao som do choro da viuva e do orpham; Ou, dos sustos senhor, em seu delirio, Os homens, seus irmãos, flagella e opprime Lá o filho do pó se julga um nume, Porque a terra o adorou: o desgraçado Pensa, talvez, que o verme dos sepulchros Nunca se ha-de chegar para traga-lo Ao banquete da morte, imaginando Que uma lagea de marmore, que esconde O cadaver do grande, é mais duravel Do que esse chão sem inscripção, sem nome, Por onde o oppresso, o misero, procura O repouso, e se atira aos pés do throno Do Omnipotente, a demandar justiça Contra os fortes do mundo, os seus tyrannos.
XIII.
Oh cidade, cidade, que trasbordas De vicios, de paixões, e de amarguras! Tu lá estás, na tua pompa involta, Suberba prostituta, alardeiando Os theatros, e os paços, e o ruido Das carroças dos nobres, recamadas De ouro e prata, e os prazeres de uma vida Tempestuosa, e o tropeiar continuo Dos férvidos ginetes, que alevantam O pó e o lodo cortezão das praças; E as gerações corruptas de teus filhos Lá se revolvem, qual montão de vermes Sobre um cadaver putrido!―Cidade, Branqueado sepulchro, que misturas A opulencia, a miseria, a dôr e o goso, Honra e infamia, pudor e impudicicia, Céu e inferno, que és tu? Escarneo ou gloria Da humanidade?―O que o souber que o diga! Bem negra avulta aqui, na paz do valle, A imagem desse povo, que reflue Das moradas á rua, á praça, ao templo; Que ri, e chora, e folga, e geme, e morre, Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme; Absurdo mixto de baixeza extrema E de extrema ousadia; vulto enorme, Ora aos pés de um vil despota estendido, Ora surgindo, e arremessando ao nada As memorias dos seculos que foram, E depois sobre o nada adormecendo. Vê-lo, rico de opprobrio, ir assentar-se Em joelhos nos atrios dos tyrannos, Onde, entre o lampejar de armas de servos, O servo popular adora um tigre? Esse tigre é o idolo do povo! Saudae-o; que elle o manda: abençoae-lhe O ferreo sceptro: ide folgar em roda De cadafalsos, povoados sempre De victimas illustres, cujo arranco Seja como harmonia, que adormente Em seus terrores o senhor das turbas. Passae depois. Se a mão da Providencia Esmigalhou a fronte á tyrannia; Se o despota cahiu, e está deitado No lodaçal da sua infamia, a turba Lá vai buscar o sceptro dos terrores, E diz―é meu»; e assenta-se na praça, E involta em roto manto, e julga, e reina. Se um ímpio, então, na affogueada bôcca De volcão popular sacode um facho, Eis o incendio que muge, e a lava sóbe, E referve, e trasborda, e se derrama Pelas ruas além: clamor retumba De anarchia impudente, e o brilho de armas Pelo escuro transluz, como um presagio De assolação, e se amontoam vagas Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo; Desse vulgo, que ao som de infernaes hymnos Cava fundo da Patria a sepultura. Onde, abraçando a gloria do passado E do futuro a ultima esperança, As esmaga comsigo, e ri morrendo. Tal és, cidade, licenciosa ou serva! Outros louvem teus paços sumptuosos, Teu ouro, teu poder:―sentina impura De corrupções, teus não serão meus hymnos!
XIV.
Cantor da solidão, vim assentar-me Juncto do verde cespede do valle, E a paz de Deus do mundo me consola. Avulta aqui, e alveja entre o arvoredo, Um pobre conventinho. Homem piedoso O alevantou ha seculos, passando, Como orvalho do céu, por este sitio, De virtudes depois tão rico e fertil. Como um pae de seus filhos rodeado, Pelos matos do outeiro o vão cercando Os tugurios de humildes eremitas, Onde o cilicio e a compuncção apagam Da lembrança de Deus passados erros Do peccador, que reclinou a fronte Penitente no pó. O sacerdote Dos remorsos lhe ouviu as amarguras; E perdoou-lhe, e consolou-o em nome Do que expirando perdoava, o Justo Que entre os humanos não achou piedade.
XV.
Religião! do misero conforto, Abrigo extremo de alma, que ha mirrado O longo agonisar de uma saudade, Da deshonra, do exilio, ou da injustiça, Tu consolas aquelle, que ouve o Verbo, Que renovou o corrompido mundo, E que mil povos pouco a pouco ouviram. Nobre, plebeu, dominador, ou servo, O rico, o pobre, o valoroso, o fraco, Da desgraça no dia ajoelharam No limiar do solitario templo. Ao pé desse portal, que veste o musgo, Encontrou-os chorando o sacerdote, Que da serra descia á meia-noite, Pelo sino das preces convocado: Ahi os viu ao despontar do dia, Sob os raios do sol, ainda chorando. Passados mezes, o burel grosseiro, O leito de cortiça, e a fervorosa E contínua oração foram cerrando Nos corações dos miseros as chagas, Que o mundo sabe abrir, mas que não cura. Aqui, depois, qual halito suave Da primavera, lhes correu a vida, Até sumir-se no adro do convento, Debaixo de uma lagea tosca e humilde, Sem nome, nem palavra, que recorde O que a terra abrigou no somno extremo. Eremiterio antigo, oh, se podesses Dos annos que lá vão contar a historia; Se ora, á voz do cantor, possivel fosse Transudar desse chão, gelado e mudo, O mudo pranto, em noites dolorosas, Por naufragos do mundo derramado Sobre elle, e aos pés da cruz!... Se vós podesseis, Broncas pedras, falar, o que dirieis! Quantos nomes mimosos da ventura, Convertidos em fabula das gentes, Despertariam o eccho das montanhas, Se aos negros troncos do sobreiro antigo Mandasse o Eterno sussurrar a historia Dos que vieram desnudar-lhe o cepo, Para um leito formar, onde velassem Da mágua, ou do remorso as longas noites! Aqui veiu, talvez, buscar asylo Um poderoso, outr'ora anjo da terra, Despenhado nas trévas do infortunio; Aqui gemeu, talvez, o amor trahido, Ou pela morte convertido em cancro De infernal desespero; aqui soaram Do arrependido os ultimos gemidos, Depois da vida derramada em gosos, Depois do goso convertido em tedio. Mas quem foram? Nenhum, depondo em terra Vestidura mortal, deixou vestigios De seu breve passar. E isso que importa, Se Deus o viu; se as lagrymas do triste Elle contou, para as pagar com gloria?
XVI.
Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda Que serpeia do monte ao fundo valle, Sobre o marco de pedra a cruz se eleva, Como um pharol de vida em mar de escolhos: Ao christão infeliz acolhe no ermo, E consolando-o, diz-lhe―a patria tua É lá no céu: abraça-te comigo.» Juncto della esses homens, que passaram Acurvados na dôr, as mãos ergueram Para o Deus, que perdoa, e que é conforto Dos que aos pés deste symbolo da esp'rança Vem derramar seu coração afflicto: É do deserto a historia a cruz e a campa; E sobre tudo o mais pousa o silencio.
XVII.
Feliz da terra, os monges não maldigas; Do que em Deus confiou não escarneças! Folgando segue a trilha, que ha juncado, Para teus pés, de flores a fortuna, E sobre a morta crença em paz descança. Que mal te faz, que goso vae roubar-te O que ensanguenta os pés no tojo agreste, E sobre a fria pedra encosta a fronte? Que mal te faz uma oração erguida, Nas solidões, por voz sumida e frouxa, E que, subindo aos céus, só Deus escuta? Oh, não insultes lagrymas alheias, E deixa a fé ao que não tem mais nada!... E se estes versos te contristam, rasga-os. Teus menestreis te venderão seus hymnos, Nos banquetes opiparos, emquanto O negro pão repartirá comigo, Seu trovador, o pobre anachoreta, Que não te inveja as ditas, como as c'roas Do prazer ao cantor eu não invejo; Tristes coroas, sob as quaes às vezes Está gravada uma inscripção d'infamia.
MOCIDADE E MORTE.
Solevantado o corpo, os olhos fitos, As magras mãos cruzadas sobre o peito, Vêde-o, tão moço, velador de angustias, Pela alta noite em solitario leito. Por essas faces pallidas, cavadas, Olhae, em fio as lagrymas deslisam; E com o pulso, que apressado bate, Do coração os éstos harmonisam. É que nas veias lhe circula a febre; É que a fronte lhe alaga o suor frio; É que lá dentro á dor, que o vai roendo, Responde horrivel íntimo ciclo. Encostando na mão o rosto acceso, Fitou os olhos humidos de pranto Na lampada mortal alli pendente, E lá comsigo modulou um canto. É um hymno de amor e de esperança? É oração de angustia e de saudade? Resignado na dor, saúda a morte, Ou vibra aos céus blasphemia d'impiedade? É isso tudo, tumultuando incerto No delírio febril daquella mente Que, balouçada á borda do sepulchro, Volve após si a vista longamente. É a poesia a murmurar-lhe na alma Ultima nota de quebrada lyra; É o gemido do tombar do cedro; É triste adeus do trovador que expira.
DESESPERANÇA.
«Meia-noite bateu, volvendo ao nada Um dia mais, e caminhando eu sigo! Vejo-te bem, oh campa mysteriosa... Eu vou, eu vou! Breve serei comtigo! Qual tufão, que ao passar agita o pégo. Meu placido existir turvou a sorte. Halito impuro de pulmões ralados Me diz que nelles se assentou a morte. Em quanto mil e mil no largo mundo Dormem em paz sorrindo, eu vélo e penso, E julgo ouvir as preces por finados, E ver a tumba e o fumegar do incenso. Se dormito um momento, acórdo em sustos; Pulos me dá o coração no peito, E abraço e beijo de uma vida extincta O ultimo socio, o doloroso leito. De um abysmo insondado ás agras bordas Insanavel doença me ha guiado, E disse-me:―no fundo o esquecimento: Desce; mas desce com andar pausado.» E eu lento vou descendo, e sondo as trévas: Busco parar; parar um só instante! Mas a cruel, travando-me da dextra, Me faz cahir mais fundo, e grita:―ávante!» Porque escutar o transito das horas? Alguma dellas trar-me-ha conforto? Não! Esses golpes, que no bronze ferem, São para mim como dobrar por morto. «Morto! morto!―me clama a consciencia: Diz-m'o este respirar rouco e profundo. Ai! porque fremes, coração de fogo, Dentro de um seio corrompido e immundo? Beber um ar diaphano e suave, Que renovou da tarde o brando vento, E converte-lo, no aspirar contínuo, Em bafo apodrecido e peçonhento! Estender para o amigo a mão mirrada, E elle negar a mão ao pobre amigo; Querer uni-lo ao seio descarnado, E elle fugir, temendo o seu perigo! E ver após um dia ainda cem dias, Nús d'esperança, ferteis de amargura; Soccorrer-me ao porvir, e acha-lo um ermo, E só, bem lá no extremo, a sepultura! Agora!... quando a vida me sorria: Agora!... que meu estro se accendêra; Que eu me enlaçava a um mundo d'esperanças, Como se enlaça pelo choupo a hera, Deixar tudo, e partir, sósinho e mudo; Varrer-me o nome escuro esquecimento: Não ter um eccho de louvor, que affague Do desgraçado o humilde monumento! Oh tu, sêde de um nome glorioso, Que tão fagueiros sonhos me tecias, Fugiste, e só me resta a pobre herança De ver a luz do sol mais alguns dias. Vestem-se os campos do verdor primeiro: Já das aves canções no bosque ecchoam: Não para mim, que só escuto attento Funereos dobres que no templo soam! Eu que existo, e que penso, e falo, e vivo, Irei tão cedo repousar na terra?! Oh, meu Deus, oh meu Deus! um anno ao menos; Um louro só... e meu sepulchro cerra! É tão bom respirar, e a luz brilhante Do sol oriental saudar no outeiro! Ai, na manhan sauda-la posso ainda; Mas será este inverno o derradeiro! Quando de pomos o vergel for cheio; Quando ondeiar o trigo na planura; Quando pender com aureo fructo a vide, Eu tambem penderei na sepultura. Dos que me cercam no turbado aspecto, Na voz que prende desusado enleio, No pranto a furto, no fingido riso Fatal sentença de morrer eu leio. Vistes vós criminoso, que hão lançado Seus juizes nos trances da agonia, Em oratorio estreito, onde não entra Suavissima luz do claro dia; Diante a cruz, ao lado o sacerdote, O cadafalso, o crime, o algoz na mente, O povo tumultuando, o extremo arranco, E céu, e inferno, e as maldicções da gente? Se adormece, lá surge um pesadelo, Com os martyrios da sua alma acorde; Desperta logo, e á terra se arremessa, E os punhos cerra, e delirante os morde. Sobre as lageas do duro pavimento De vergões e de sangue o rosto cobre. Ergue-se e escuta com cabellos hirtos Do sino ao longe o compassado dobre. Sem esperança!...
Não! Do cadafalso
Sóbe as escadas o perdão ás vezes; Porém a mim... não me dirão:―és salvo!» E o meu supplicio durará por mezes. Dizer posso:―existi: que a dor conheço! Do goso a taça só provei por horas: E serei teu, calado cemiterio, Que engenho, gloria, amor, tudo devoras. Se o furacão rugiu, e o debil tronco De arvore tenra espedaçou passando, Quem se doeu de a ver jazendo em terra? Tal é o meu destino miserando! Numen de sancto amor, mulher querida, Anjo do céu, encanto da existencia, Ora por mim a Deus, que ha-de escutar-te. Por ti me salve a mão da Providencia. Vem: aperta-me a dextra... Oh, foge, foge! Um beijo ardente aos labios teus voára: E neste beijo venenoso a morte Talvez este infeliz só te entregára! Se eu podesse viver... como teus dias Cercaria de amor suave e puro! Como te fôra placido o presente; Quanto risonho o aspecto do futuro! Porém, medonho espectro ante meus olhos, Como sombra infernal perpetuo ondeia, Bradando-me que vai partir-se o fio Com que da minha vida se urde a teia. Entregue á seducção em quanto eu durmo, No turbilhão do mundo hei-de deixar-te! Quem velará por ti, pomba innocente? Quem do perjurio poderá salvar-te? Quando eu cerrar os olhos moribundos Tu verterás por mim pranto saudoso; Mas quem me diz que não virá o riso Banhar teu rosto triste e lachrymoso? Ai, o extincto só herda o esquecimento! Um novo amor te agitará o peito: E a dura lagea cubrirá meus ossos Frios, despidos sobre terreo leito!... Oh Deus, porque este calix de agonia Até as bordas de amargor me encheste? Se eu devia acabar na juventude, Porque ao mundo e a seus sonhos me prendeste? Virgem do meu amor, porque perde-la? Porque entre nós a campa ha-de assentar-se? Tua suprema paz com goso ou dores, Do mortal, que em ti crê, póde turbar-se? Não haver quem me salve! e vir um dia Em que de minha o nome ainda lhe désse! Então, Senhor, o umbral da eternidade, Talvez sem um queixume, transposesse. Mas, qual flor em botão pendida e murcha, Sem de fragrancias perfumar a brisa, Eu poeta, eu amante, ir esconder-me Sob uma lousa desprezada e lisa! Porque? Qual foi meu crime, oh Deus terrivel? Em te adorar que fui, senão insano?... O teu fatal poder hoje maldigo! O que te chama pae, mente: és tyranno. E se aos pés de teu throno os ais não chegam; Se os gemidos da terra os ares somem; Se a Providencia é crença van, mentida, Porque geraste a intelligencia do homem? Porque da virgem no sorrir poseste Sancto presagio de suprema dita, E apontaste ao poeta a immensidade Na ancia de gloria que em sua alma habita? A immensidade!... E que me importa herda-la, Se na terra passei sem ser sentido? Que val eterno vagueiar no espaço, Se nosso nome se afundou no olvido?
O ANJO DA GUARDA.
«Impio, silencio! A tua voz blasphema Da noite a paz perturba. Verme, que te rebellas Sob a mão do Senhor, Vês os milhões d'estrellas De nitido fulgor, Que, em ordenada turba, A Deus entoam incessantes hymnos? Quantas vezes apaga Do livro da existencia Um orbe a mão do Eterno! E o bello astro que expira Maldiz a Providencia, Maldiz a mão que o esmaga? Acaso pára o cantico superno? Ou apenas suspira O moribundo, Que se chamava um mundo? Quem vai pôr uma campa sobre os restos Desse inerte planeta, Que o destructor cometa Incinerou na rapida passagem? E tu, átomo obscuro, Que varre á tarde a aragem, Sóltas do seio impuro Maldicção insensata, Porque o teu Deus te evoca á eternidade? Que é o viver? O umbral, a que um momento O espirito, surgindo Das solidões do nada Á voz do Creador, se encosta, e attento Contempla a luz e o céu; d'onde desata Seu vôo á immensidade. Geme acaso o passarinho De saudade, Quando as azas expande, e deixa o ninho A vez primeira, a mergulhar nos ares? Volve olhos lachrymosos Aos mares tormentosos O navegante, quando aproa ás plagas Da patria suspirada? Porque morres?! Pergunta á Providencia Porque te fez nascer. Qual era o teu direito a ver o mundo; Teu jus á existencia? Olha no outono o ulmeiro Que o vendaval agita, E cujas tenues folhas Aos centos precipita. São a folha do ulmeiro o nome e a fama, E o amar dos humanos: Ao nada do que foi assim se atiram No vortice dos annos. Que é a gloria na terra? Um eccho frouxo, Que somem mil ruídos. E a voz da terra o que é, na voz immensa Dos orbes reunidos? Amor! amor terreno!... Ai, se podesses Comprehender a amargura, Com que te chóro, oh alma transviada! Eu, que te amei do berço, e qual doçura Ha no affecto que liga o anjo ao homem, Rindo despiras esse corpo enfermo, Para te unir a mim, para aspirares O goso celestial de amor sem termo! Alma triste, que mesquinha Te debruças sobre o inferno, Ouve o anjo, pobresinha; Vem ao goso sempiterno. Resigna-te e espera, e os dias de prova Serão para o crente quaes breves instantes. Tomar-te-hei nos braços no trance da morte, Fendendo o infinito co' as asas radiantes. Depois, das alturas teu terreo vestido Sorrindo veremos na terra guardar, E ao hymno de Hosanna nos córos celestes A voz de um remido iremos junctar.»
A GRAÇA.
Que harmonia suave É esta, que na mente Eu sinto murmurar, Ora profunda e grave, Ora meiga e cadente, Ora que faz chorar? Porque da morte a sombra, Que para mim em tudo Negra se reproduz, Se aclara, e desassombra Seu gesto carrancudo, Banhada em branda luz? Porque no coração Não sinto pesar tanto O ferreo pé da dor, E o hymno da oração, Em vez de irado canto, Me pede íntimo ardor? És tu, meu anjo, cuja voz divina Vem consolar a solidão do enfermo, E a contemplar com placidez o ensina De curta vida o derradeiro termo? Oh, sim! és tu, que na infantil idade, Da aurora á frouxa luz, Me dizias:―acorda, innocentinho, Faze o signal da cruz.» És tu, que eu via em sonhos, nesses annos De inda puro sonhar, Em nuvem d'ouro e purpura descendo Co' as roupas a alvejar. És tu, és tu! que ao pôr do sol, na veiga, Juncto ao bosque fremente, Me contavas mysterios, harmonias Dos céus, do mar dormente. És tu, és tu! que, lá, nesta alma absorta Modulavas o canto, Que de noite, ao luar, sósinho erguia Ao Deus tres vezes sancto. És tu, que eu esqueci na idade ardente Das paixões juvenis, E que voltas a mim, sincero amigo, Quando sou infeliz.
Sinto a tua voz de novo Que me revoca a Deus: Inspira-me a esperança, Que te seguiu dos céus!...
RESIGNAÇÃO
«No teu seio reclinado Dormirei, Senhor, um dia, Quando for na terra fria Meu repouso procurar; Quando a lousa do sepulchro Sohre mim tiver cahido E este espirito affligido Vir a tua luz brilhar! No teu seio, de pesares O existir não se entretece; Lá eterno o amor florece; Lá florece eterna paz: Lá bramir juncto ao poeta Não irão paixões e dores, Vãos desejos, vãos temores Do desterro em que elle jaz. Hora extrema, eu te saúdo! Salve, oh trevas da jazida, D'onde espera erguer-se á vida Meu espirito immortal! Anjo bom, não me abandones Neste trance dilatado; Que contrito, resignado Me acharás na hora fatal. E depois... Perdoa, oh anjo, Ao amor do moribundo, Que só deixa neste mundo Pouco pó, muito gemer. Oh... depois... dize á mesquinha Um segredo de doçura: Que na patria o amor se apura, Que o desterro viu nascer. Que é o céu a patria nossa; Que é o mundo exilio breve; Que o morrer é cousa leve; Que é principio, não é fim: Que duas almas que se amaram Vão lá ter nova existencia, Confundidas n'uma essencia, A de um novo cherubim.»
DEUS.
Nas horas do silencio, á meia-noite,
Eu louvarei o Eterno!
Ouçam-me a terra, e os mares rugidores,
E os abysmos do inferno.
Pela amplidão dos céus meus cantos sôem,
E a lua resplendente
Pare em seu gyro, ao resoar nest'harpa
O hymno do Omnipotente.
Antes de tempo haver, quando o infinito
Media a eternidade,
E só do vacuo as solidões enchia
De Deus a immensidade,
Elle existia, em sua essencia involto,
E fóra delle o nada:
No seio do Creador a vida do homem
Estava ainda guardada:
Ainda então do mundo os fundamentos
Na mente se escondiam
De Jehovah, e os astros fulgurantes
Nos céus não se volviam.
Eis o Tempo, o Universo, o Movimento
Das mãos sólta o Senhor:
Surge o sol, banha a terra, e desabrocha
Sua primeira flor:
Sobre o invisivel eixo range o globo:
O vento o bosque ondeia:
Retumba ao longe o mar: da vida a força
A natureza anceia!
Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te,
Ou cantar teu poder?
Quem dirá de Teu braço as maravilhas,
Fonte de todo o ser,
No dia da creação; quando os thesouros
Da neve amontoaste;
Quando da terra nos mais fundos valles
As aguas encerraste?!
E eu onde estava, quando o Eterno os mundos,
Com dextra poderosa,
Fez, por lei immutavel, se librassem
Na mole ponderosa?
Onde existia então? No typo immenso
Das gerações futuras;
Na mente do meu Deus. Louvor a Elle
Na terra e nas alturas!
Oh, quanto é grande o Rei das tempestades,
Do raio, e do trovão!
Quão grande o Deus, que manda, em secco estio,
Da tarde a viração!
Por sua Providencia nunca, embalde,
Zumbiu minimo insecto;
Nem volveu o elephante, em campo esteril,
Os olhos inquieto.
Não deu Elle á avesinha o grão da espiga,
Que ao ceifador esquece;
Do norte ao urso o sol da primavera,
Que o reanima e aquece?
Não deu Elle á gazella amplos desertos,
Ao cervo a amena selva,
Ao flamingo os paúes, ao tigre o antro,
No prado ao touro a relva?
Não mandou Elle ao mundo, em lucto e trévas,
Consolação e luz?
Acaso em vão algum desventurado
Curvou-se aos pés da cruz?
A quem não ouve Deus? Sómente ao impio
No dia da afflicção,
Quando pésa sobre elle, por seus crimes,
Do crime a punição.
Homem, ente immortal, que és tu perante
A face do Senhor?
És a junça do bréjo, harpa quebrada
Nas mãos do trovador!
Olha o velho pinheiro, campeiando
Entre as neves alpinas:
Quem irá derribar o rei dos bosques
Do throno das collinas?
Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu dia
Extremo Deus mandou!
Lá correu o aquilão: fundas raizes
Aos ares lhe assoprou.
Suberbo, sem temor, saíu na margem
Do caudaloso Nilo,
O corpo monstruoso ao sol voltando,
Medonho crocodilo.
De seus dentes em roda o susto habita;
Vê-se a morte assentada
Dentro em sua garganta, se descerra
A bôca affogueada:
Qual duro arnez de intrepido guerreiro
É seu dorso escamoso;
Como os ultimos ais de um moribundo
Seu grito lamentoso:
Fumo e fogo respira quando irado;
Porém, se Deus mandou,
Qual do norte impellida a nuvem passa,
Assim elle passou!
Teu nome ousei cantar!―Perdoa, oh Nume;
Perdoa ao teu cantor!
Dignos de ti não são meus frouxos hymnos,
Mas são hymnos de amor.
Embora vís hypocritas te pintem
Qual barbaro tyranno:
Mentem, por dominar com ferreo sceptro
O vulgo cego e insano.
Quem os crê é um ímpio! Receiar-te
É maldizer-te, oh Deus;
É o throno dos despotas da terra
Ir collocar nos céus.
Eu, por mim, passarei entre os abrolhos
Dos males da existencia
Tranquillo, e sem temor, á sombra posto
Da tua Providencia.
A TEMPESTADE.
Sibilla o vento:―os torreões de nuvens
Pésam nos densos ares:
Ruge ao largo a procella, e encurva as ondas
Pela extensão dos mares:
A immensa vaga ao longe vem correndo,
Em seu terror envolta;
E, d'entre as sombras, rapidas centelhas
A tempestade solta.
Do sol no occaso um raio derradeiro,
Que, apenas fulge, morre,
Escapa á nuvem, que, apressada e espessa,
Para apaga-lo corre.
Tal nos affaga em sonhos a esperança,
Ao despontar do dia,
Mas, no acordar, lá vem a consciencia
Dizer que ella mentia!
As ondas negro-azues se conglobaram;
Serras tornadas são,
Contra as quaes outras serras, que se arqueiam,
Bater, partir-se vão.
Oh tempestade! Eu te saúdo, oh nume,
Da natureza açoite!
Tu guias os bulcões, do mar princesa,
E é teu vestido a noite!
Quando pelos pinhaes, entre o granizo,
Ao sussurrar das ramas,
Vibrando sustos, pavorosa ruges
E assolação derramas,
Quem porfiar comtigo, então, ousára
De gloria e poderio;
Tu que fazes gemer pendido o cedro,
Turbar-se o claro rio?
Quem me dera ser tu, por balouçar-me
Das nuvens nos castellos,
E ver dos ferros meus, emfim, quebrados
Os rebatidos élos!
Eu rodeára, então, o globo inteiro;
Eu sublevára as aguas;
Eu dos volcões com raios accendêra
Amortecidas fráguas;
Do robusto carvalho e sobro antigo
Acurvaria as frontes;
Com furacões, os areiaes da Lybia
Converteria em montes;
Pelo fulgor da lua, lá do norte
No polo me assentára,
E vira prolongar-se o gelo eterno,
Que o tempo amontoára.
Alli, eu solitario, eu rei da morte,
Erguèra meu clamor,
E dissera:―sou livre, e tenho imperio;
Aqui, sou eu senhor!»
Quem se podéra erguer, como estas vagas,
Em turbilhões incertos,
E correr, e correr, troando ao longe,
Nos liquidos desertos!
Mas entre membros de lodoso barro
A mente presa está!...
Ergue-se em vão aos céus: precipitada,
Rapido, em baixo dá.
Oh morte, amiga morte! é sobre as vagas,
Entre escarcéus erguidos,
Que eu te invoco, pedindo-te feneçam
Meus dias aborridos:
Quebra duras prisões, que a natureza
Lançou a esta alma ardente;
Que ella possa voar, por entre os orbes,
Aos pés do Omnipotente.
Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem
Desça, e estourando a esmague,
E a grossa proa, dos tufões ludibrio,
Solta, sem rumo vague!
Porém, não!... Dormir deixa os que me cercam
O somno do existir;
Deixa-os, vãos sonhadores de esperanças
Nas trévas do porvir.
Doce mãe do repouso, extremo abrigo
De um coração oppresso,
Que ao ligeiro prazer, á dor cançada
Negas no seio accésso,
Não despertes, oh não! os que abominam
Teu amoroso aspeito;
Febricitantes, que se abraçam, loucos,
Com seu dorído leito!
Tu, que ao misero rís com rir tão meigo,
Calumniada morte;
Tu, que entre os braços teus lhe dás asylo
Contra o furor da sorte;
Tu, que esperas ás portas dos senhores,
Do servo ao limiar,
E eterna corres, peregrina, a terra
E as solidões do mar,
Deixa, deixa sonhar ventura os homens;
Já filhos teus nasceram:
Um dia acordarão desses delirios,
Que tão gratos lhes eram.
E eu que vélo na vida, e já não sonho
Nem gloria, nem ventura;
Eu, que esgotei tão cedo, até as fézes,
O calix da amargura:
Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado
De quanto ha vil no mundo,
Sanctas inspirações morrer sentindo
Do coração no fundo,
Sem achar no desterro uma harmonia
De alma, que a minha entenda,
Porque seguir, curvado ante a desgraça,
Esta espinhosa senda?
Torvo o oceano vai! Qual dobre, soa
Fragor da tempestade,
Psalmo de mortós, que retumba ao longe,
Grito da eternidade!...
Pensamento infernal! Fugir covarde
Ante o destino iroso?
Lançar-me, envolto em maldicções celestes,
No abysmo tormentoso?
Nunca! Deus pôs-me aqui para apurar-me
Nas lagrymas da terra;
Guardarei minha estancia atribulada,
Com meu desejo em guerra.
O fiel guardador terá seu premio,
O seu repouso, emfim,
E atalaiar o sol de um dia extremo
Virá outro após mim.
Herdarei o morrer! Como é suave
Bençam de pae querido.
Será o despertar, ver meu cadaver,
Ver o grilhão partido.
Um consolo, entretanto, resta ainda
Ao pobre velador:
Deus lhe deixou, nas trévas da existencia,
Doce amizade e amor.
Tudo o mais é sepulchro branqueado
Por embusteira mão;
Tudo o mais vãos prazeres, que só trazem
Remorso ao coração.
Passarei minha noite a luz tão meiga,
Até o amanhecer;
Até que suba á patria do repouso,
Onde não ha morrer.
O SOLDADO.
I.
Veia tranquilla e pura Do meu paterno rio, Dos campos, que elle réga, Mansissimo armentio. Rocio matutino, Prados tão deleitosos, Valles, que assombram selvas De sinceiraes frondosos, Terra da minha infancia, Tecto de meus maiores, Meu breve jardimzinho, Minhas pendidas flores, Harmonioso e sancto Sino do presbyterio, Cruzeiro venerando Do humilde cemiterio. Onde os avós dormiram, E dormirão os paes; Onde eu talvez não durma, Nem rese, talvez, mais, Eu vos saúdo! e o longo Suspiro amargurado Vos mando. É quanto póde Mandar pobre soldado. Sobre as cavadas ondas Dos mares procellosos, Por vós já fiz soar Meus cantos dolorosos. Na prôa resonante Eu me assentava mudo, E aspirava ancioso O vento frio e agudo; Porque em meu sangue ardia A febre da saudade, Febre que só minora Sopro de tempestade; Mas que se irrita, e dura Quando é tranquillo o mar; Quando da patria o céu Céu puro vem lembrar; Quando, no extremo occaso, A nuvem vaporosa, Á frouxa luz da tarde, Na côr imita a rosa; Quando, do sol vermelho O disco ardente crece, E paira sobre as aguas, E emfim desapparece; Quando no mar se estende Manto de negro dó; Quando, ao quebrar do vento, Noite e silencio é só; Quando sussurram meigas Ondas que a nau separa, E a rapida ardentia Em tôrno a sombra aclara.
II.
Eu já ouvi, de noite, Entre o pinhal fechado, Um fremito soturno Passando o vento irado: Assim o murmurio Do mar, fervendo á prôa, Com o gemer do afflicto, Sumido, accorde sôa: E o scintillar das aguas Gera amargura e dor, Qual lampada, que pende No templo do Senhor, Lá pela madrugada, Se o oleo lhe escaceia, E a espaços expirando, Affrouxa e bruxuleia.
III.
Bem abundante messe De pranto e de saudade O foragído errante Colhe na soledade! Para o que a patria perde É o universo mudo; Nada lhe rí na vida; Mora o fastio em tudo; No meio das procellas, Na calma do oceano, No sopro do galerno, Que enfuna o largo panno, E no entestar co' a terra Por abrigado esteiro, E no pousar á sombra Do tecto do estrangeiro.
IV.
E essas memorias tristes Minha alma laceraram, E a senda da existencia Bem agra me tornaram: Porém nem sempre ferreo Foi meu destino escuro; Sulcou de luz um raio As trévas do futuro. Do meu paiz querido A praia ainda beijei, E o velho e amigo cedro No valle ainda abracei! Nesta alma regelada Surgiu ainda o goso, E um sonho lhe sorriu Fugaz, mas amoroso. Oh, foi sonho da infancia Desse momento o sonho! Paz e esperança vinham Ao coração tristonho. Mas o sonhar que monta, Se passa, e não conforta? Minh' alma deu em terra, Como se fosse morta. Foi a esperança nuvem, Que o vento some á tarde: Facho de guerra acceso Em labaredas arde! Do fratricidio a luva Irmão a irmão lançara, E o grito: ai do vencido! Nos montes retumbara. As armas se hão cruzado: O pó mordeu o forte; Cahiu: dorme tranquillo: Deu-lhe repouso a morte. Ao menos, nestes campos Sepulchro conquistou, E o adro dos estranhos Seus ossos não guardou. Elle herdará, ao menos, Aos seus honrado nome, Paga de curta vida Ser-lhe-ha largo renome.
V.
E a bala sibilando, E o trom da artilharia, E a tuba clamorosa, Que os peitos accendia, E as ameaças torvas, E os gritos de furor, E desses, que expiravam, Som cavo de estertor, E as pragas do vencido, Do vencedor o insulto, E a pallidez do morto, Nú, sanguento, insepulto, Eram um cá'os de dores Em convulsão horrivel, Sonho de accesa febre, Scena tremenda e incrivel! E suspirei: nos olhos Me borbulhava o pranto, E a dor, que trasbordava, Pediu-me infernal canto. Oh, sim! maldisse o instante, Em que buscar viera, Por entre as tempestades, A terra em que nascera. Que é, em fraternas lides, Um canto de victoria? É delirar maldicto; É triumphar sem gloria. Maldicto era o triumpho, Que rodeiava o horror, Que me tingia tudo De sanguinosa côr! Então olhei saudoso Para o sonoro mar; Da nau do vagabundo Meigo me riu o arfar. De desespero um brado Soltou, ímpio, o poeta. Perdão! Chegára o misero Da desventura á meta.
VI.
Terra infame!―de servos aprisco, Mais chamar-me teu filho não sei: Desterrado, mendigo serei; De outra terra meus ossos serão! Mas a escravo, que pugna por ferros, Que herdará deshonrada memoria, Renegando da terra sem gloria, Nunca mais darei nome de irmão! Onde é livre tem patria o poeta, Que ao exilio condemna ímpia sorte. Sobre os plainos gelados do norte Luz do sol tambem desce do céu; Tambem lá se erguem montes, e o prado De boninas, em maio, se veste; Tambem lá se meneia o cypreste Sobre o corpo que á terra desceu. Que me importa o loureiro da encosta? Que me importa da fonte o ruido? Que me importa o saudoso gemido Da rollinha sedenta de amor? Que me importam outeiros cubertos Da verdura da vinha, no estio? Que me importa o remanso do rio, E, na calma, da selva o frescor? Que me importa o perfume dos campos, Quando passa da tarde a bafagem, Que se embebe, na sua passagem, Na fragrancia da rosa e aleli? Que me importa? Pergunta insensata! É meu berço: a minha alma está lá... Que me importa... Esta bôca o dirá?! Minha patria, estou louco... menti! Eia, servos! O ferro se cruze. Assobie o pelouro nos ares; Estes campos convertam-se em mares, Onde o sangue se possa beber! Larga a valla! que, após a peleja, Todos nós dormiremos unidos! Lá vingados, e do odio esquecidos, Paz faremos... depois do morrer!
VII.
Assim, entre amarguras, Me delirava a mente; E o sol ia fugindo No termo do occidente. E os fortes lá jaziam Co'a face ao céu voltada; Sorria a noite aos mortos, Passando socegada. Porém, a noite delles Não era a que passava! Na eternidade a sua Corria, e não findava. Contrarios ainda ha pouco, Irmãos, emfim, lá eram! O seu thesouro de odio, Mordendo o pó, cederam. No limiar da morte Assim tudo fenece: Inimizades calam, E até o amor esquece! Meus dias rodeiados Foram de amor outr'ora; E nem um vão suspiro Terei, morrendo, agora, Nem o apertar da dextra Ao desprender da vida, Nem lagryma fraterna Sobre a feral jazida! Meu derradeiro alento Não colherão os meus. Por minha alma atterrada Quem pedirá a Deus? Ninguem! Aos pés o servo Meus restos calcará, E o riso ímpio, odiento, Mofando soltará. O sino luctuoso Não lembrará meu fim: Preces, que o morto afagam, Não se erguerão por mim! O filho dos desertos, O lobo carniceiro, Ha-de escutar alegre Meu grito derradeiro! Oh morte, o somno teu Só é somno mais largo; Porém, na juventude, É o dormi-lo amargo; Quando na vida nasce Essa mimosa flor. Como a cecem suave, Delicioso amor; Quando a mente accendida Crê na ventura e gloria; Quando o presente é tudo, E inda nada a memoria! Deixar a cara vida, Então, é doloroso, E o moribundo á terra Lança um olhar saudoso. A taça da existencia No fundo fézes tem; Mas os primeiros tragos Doces, bem doces, vem. E eu morrerei agora Sem abraçar os meus, Sem jubiloso um hymno Alevantar aos céus? Morrer, morrer, que importa? Final suspiro, ouvi-lo Ha-de a patria. Na terra Irei dormir tranquillo. Dormir? Só dorme o frio Cadaver, que não sente; A alma voa a abrigar-se Aos pés do Omnipotente. Reclinar-me-hei á sombra Do amplo perdão do Eterno; Que não conheço o crime, E erros não pune o inferno. E vós, entes queridos, Entes que tanto amei, Dando-vos liberdade Contente acabarei. Por mim livres chorar Vós podereis um dia, E ás cinzas do soldado Erguer memoria pia.
A VICTORIA E A PIEDADE.
I.
Eu nunca fiz soar meus pobres cantos
Nos paços dos senhores!
Eu jámais consagrei hymno mentido
Da terra aos oppressores.
Mal haja o trovador que vae sentar-se
Á porta do abastado,
O qual com ouro paga a propria infamia,
Louvor que foi comprado.
Deshonra áquelle, que ao poder e ao ouro
Prostitue o alaúde!
Deus á poesia deu por alvo a patria,
Deu a gloria e a virtude.
Feliz ou infeliz, triste ou contente,
Livre o poeta seja,
E em hymno isento a inspiração transforme,
Que na sua alma adeja.
II.
No despontar da vida, do infortunio
Murchou-me o sopro ardente;
E saudades curti em longes terras
Da minha terra ausente.
O solo do desterro, ai, quanto ingrato
É para o foragido,
Ennevoado o céu, arido o prado,
O rio adormecido!
Eu lá chorei, na idade da esperaça,
Da patria a dura sorte:
Esta alma encaneceu; e antes de tempo
Ergueu hymnos á morte:
Que a morte é para o misero risonha,
Sancta da campa a imagem...
Alli é que se afferra o porto amigo,
Depois de ardua viagem.
III.
Mas quando o pranto me sulcava as faces,
Pranto de atroz saudade,
Deus escutou do vagabundo as preces,
Delle teve piedade.
«Armas!―bradaram no desterro os fortes,
Como bradar de um só:
Erguem-se, voam, cingem ferros; cinge-os
Indissoluvel nó.
Com seus irmãos as sacrosanctas juras,
Beijando a cruz da espada,
Repetiu o poeta:―Eia, partamos!
Ao mar!»―Partia a armada.
Pelas ondas azues correndo afoutos,
As praias demandámos
Do velho Portugal, e o balsão negro
Da guerra despregámos;
De guerra em que era infamia o ser piedoso,
Nobreza o ser cruel,
E em que o golpe mortal descia involto
Das maldicções no fel.
IV.
Fanatismo brutal, odio fraterno,
De fogo céus toldados,
A fome, a peste, o mar avaro, as turbas
De innumeros soldados;
Comprar com sangue o pão, com sangue o lume
Em regelado inverno;
Eis contra o que, por dias de amargura,
Nos fez luctar o inferno.
Mas de fera victoria, emfim, colhemos
A c'roa de cypreste;
Que a fronte ao vencedor em ímpia lucta
Só essa c'roa veste.
Como ella torvo, soltarei um hymno
Depois do triumphar.
Oh meus irmãos, da embriaguez da guerra
Bem triste é o acordar!
Nessa alta encosta sobranceira aos campos,
De sangue ainda impuros,
Onde o canhão troou por mais de um anno
Contra invenciveis muros,
Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me;
Pedir inspirações
Á noite queda, ao genio que me ensina
Segredos das canções.
V.
Reina em silencio a lua: o mar não brame,
Os ventos nem bafejam;
Rasas co' a terra, só nocturnas aves
Em gyros mil adejam.
No plaino pardacento, juncto ao marco
Tombado, ou rota sebe,
Aqui e alli, de ossadas insepultas
O alvejar se percebe.
É que essa veiga, tão festiva outr'ora,
Da paz tranquillo imperio,
Onde ao carvalho a vide se enlaçava,
É hoje um cemiterio!
VI.
Eis de esforçados mil inglorios restos,
Depois de brava lida;
De longo combater atroz memento
Em guerra fraticida.
Nenhum padrão recordará aos homens
Seus feitos derradeiros:
Nem dirá:―aqui dormem portugueses;
Aqui dormem guerreiros.»
Nenhum padrão, que peça aos que passarem
Resa fervente e pia,
E juncto ao qual entes queridos vertam
O pranto da agonia!
Nem hasteada cruz, consolo ao morto;
Nem lagea que os proteja
Do ardente sol, da noite humida e fria,
Que passa e que roreja!
Não! Lá hão-de jazer no esquecimento
De deshonrada morte,
Emquanto, pelo tempo em pó desfeitos,
Não os dispersa o norte.
VII.
Quem, pois, consolará gementes sombras,
Que ondeiam juncto a mim?
Quem seu perdão da Patria implorar ousa,
Seu perdão de Elohim?
Eu, o christão, o trovador do exilio,
Contrario em guerra crua,
Mas que não sei verter o fel da affronta
Sobre uma ossada nua.
VIII.
Lavradores, zagaes, descem dos montes,
Deixando terras, gados,
Para as armas vestir, dos céus em nome,
Por phariseus chamados.
De um Deus de paz hypocritas ministros
Os tristes enganaram:
Foram elles, não nós, que estas cáveiras
Aos vermes consagraram.
Maldicto sejas tu, monstro do inferno,
Que do Senhor no templo,
Juncto da eterna cruz, ao crime incitas,
Dás do furor o exemplo!
Sobre as cinzas da Patria, ímpio, pensaste
Folgar de nosso mal,
E, entre as ruinas de cidade illustre,
Soltar riso infernal.
Tu, no teu coração insipiente,
Disseste:―Deus não há!»
Elle existe, malvado; e nós vencemos:
Treme; que tempo é já!
IX.
Mas esses, cujos ossos espalhados
No campo da peleja
Jazem, exoram a piedade nossa;
Piedoso o livre seja!
Eu pedirei a paz dos inimigos,
Mortos como valentes,
Ao Deus nosso juiz, ao que distingue
Culpados de innocentes.
X.
Perdoou, expirando, o Filho do Homem
Aos seus perseguidores:
Perdão, tambem, ás cinzas de infelizes;
Perdão, oh vencedores!
Não insulteis o morto. Elle ha comprado
Bem caro o esquecimento,
Vencido adormecendo em morte ignobil,
Sem dobre ou monumento.
É tempo d'olvidar odios profundos
De guerra deploravel.
O forte é generoso, e deixa ao fraco
O ser inexoravel.
Oh, perdão para aquelle, a quem a morte
No seio agasalhou!
Elle é mudo: pedi-lo já não póde;
O dá-lo a nós deixou.
Além do limiar da eternidade
O mundo não tem réus,
O que legou á terra o pó da terra
Julgá-lo cabe a Deus.
E vós, meus companheiros, que não vistes
Nossa triste victoria,
Não precisaes do trovador o canto;
Vosso nome é da historia.
XI.
Assim, foi do infeliz sobre a jazida
Que um hymno murmurei,
E, do vencido consolando a sombra,
Por vós eu perdoei.
A CRUZ MUTILADA.
Amo-te, oh cruz, no vertice firmada
De esplendidas igrejas;
Amo-te quando á noite, sobre a campa,
Juncto ao cypreste alvejas;
Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,
As preces te rodeiam;
Amo-te quando em prestito festivo
As multidões te hasteiam;
Amo-te erguida no cruzeiro antigo,
No adro do presbyterio,
Ou quando o morto, impressa no ataúde,
Guias ao cemiterio;
Amo-te, oh cruz, até, quando no valle
Negrejas triste e só,
Núncia do crime, a que deveu a terra
Do assassinado o pó:
Porém quando mais te amo, Oh cruz do meu Senhor, É se te encontro á tarde, Antes de o sol se pôr, Na clareira da serra, Que o arvoredo assombra, Quando á luz que fenece Se estira a tua sombra, E o dia ultimos raios Com o luar mistura, E o seu hymno da tarde O pinheiral murmura.
E eu te encontrei, n'um alcantil agreste,
Meia-quebrada, oh cruz. Sósinha estavas
Ao pôr do sol, e ao elevar-se a lua
Detraz do calvo cerro. A soledade
Não te pôde valer contra a mão ímpia,
Que te feriu sem dó. As linhas puras
De teu perfil, falhadas, tortuosas,
Oh mutilada cruz, falam de um crime
Sacrilego, brutal e ao ímpio inutil!
A tua sombra estampa-se no solo,
Como a sombra de antigo monumento,
Que o tempo quasi derrocou, truncada.
No pedestal musgoso, em que te ergueram
Nossos avós, eu me assentei. Ao longe,
Do presbyterio rustico mandava
O sino os simples sons pelas quebradas
Da cordilheira, annunciando o instante
Da
Ave-Maria
; da oração singela,
Mas solemne, mas sancta, em que a voz do homem
Se mistura nos canticos saudosos,
Que a natureza envia ao céu no extremo
Raio de sol, passando fugitivo
Na tangente deste orbe, ao qual trouxeste
Liberdade e progresso, e que te paga
Com a injuria e o desprezo, e que te inveja
Até, na solidão, o esquecimento!
Foi da sciencia incredula o sectario,
Acaso, oh cruz da serra, o que na face
Affrontas te gravou com mão profusa?
Não! Foi o homem do povo, a quem consolo
Na miseria e na dôr constante has sido
Por bem dezoito seculos: foi esse
Por cujo amor surgias qual remorso
Nos sonhos do abastado ou do tyranno,
Bradando―
esmola!
a um―
piedade!
ao outro.
Oh cruz, se desde o Golgotha não fôras
Symbolo eterno de uma crença eterna;
Se a nossa fé em ti fosse mentida,
Dos oppressos de outr'ora os livres netos
Por sua ingratidão dignos de opprobrio,
Se não te amassem, ainda assim seriam.
Mas és núncia do céu, e elles te insultam,
Esquecidos das lágrymas perennes
Por trinta gerações, que guarda a campa,
Vertidas a teus pés nos dias torvos
Do seu viver d'escravidão! Deslembram-se
De que, se a paz domestica, a pureza
Do leito conjugal bruta violencia
Não vae contaminar, se a filha virgem
Do humilde camponês não é ludibrio
Do opulento, do nobre, oh cruz, t'o devem;
Que por ti o cultor de ferteis campos
Colhe tranquillo da fadiga o premio,
Sem que a voz de um senhor, qual d'antes, dura
Lhe diga:―é meu, e és meu! A mim deleites,
Liberdade, abundancia: a ti, escravo,
O trabalho, a miseria unido á terra,
Que o suor dessa fronte fertiliza,
Emquanto, em dia de furor ou tedio,
Não me apraz com teus restos fecunda-la.»
Quando calada a humanidade ouvia
Este atroz blasphemar, tu te elevaste
Lá do oriente, oh cruz, involta em gloria,
E bradaste, tremenda, ao forte, ao rico:―
Mentira!» E o servo alevantou os olhos,
Onde a esperança scintillava, a medo,
E viu as faces do senhor retinctas
Em pallidez mortal, e errar-lhe a vista
Trépida, vaga. A cruz no céu do oriente
Da liberdade annunciára a vinda.
Cansado, o ancião guerreiro, que a existencia
Desgastou no volver de cem combates,
Ao ver que, emfim, o seu paiz querido
Já não ousam calcar os pés d'estranhos,
Vem assentar-se á luz meiga da tarde,
Na tarde do viver, juncto do teixo
Da montanha natal. Na fronte calva,
Que o sol tostou e que enrugaram annos,
Ha um como fulgor sereno e sancto.
Da aldeia semideus, devem-lhe todos
O tecto, a liberdade, e a honra e vida.
Ao perpassar do veterano os velhos
A mão que os protegeu apertam gratos;
Com amorosa timidez os moços
Saúdam-no qual pae. Nas largas noites
Da gelada estação, sobre a lareira
Nunca lhe falta o cepo incendiado;
Sobre a mesa frugal nunca, no estio,
Refrigerante pomo. Assim do velho
Pelejador os derradeiros dias
Derivam para o tumulo suaves,
Rodeiados de affecto, e quando á terra
A mão do tempo gastador o guia,
Sobre a lousa a saudade ainda lhe esparze
Flores, lagrymas, bençãos, que consolem
Do defensor do fraco as cinzas frias.
Pobre cruz! Pelejaste mil combates,
Os gigantes combates dos tyrannos,
E venceste. No solo libertado,
Que pediste? Um retiro no deserto,
Um pincaro granitico, açoutado
Pelas azas do vento e ennegrecido
Por chuvas e por soes. Para ameigar-te
Este ar humido e gelido a segure
Não foi ferir do bosque o rei. Do estio
No ardor canicular nunca disseste:―
Dáe-me, sequer, do bravo medronheiro
O despresado fructo! O teu vestido
Era o musgo, que tece a mão do inverno,
E Deus creou para trajar as rochas.
Filha do céu, o céu era o teu tecto,
Teu escabelo o dorso da montanha.
Tempo houve em que esses braços te adórnava
C'roa viçosa de gentis boninas,
E o pedestal te rodeiavam preces.
Ficaste em breve só, e a voz humana
Fez, pouco a pouco, juncto a ti silencio.
Que te importava? As arvores da encosta
Curvavam-se a saudar-te, e revoando
As aves vinham circumdar-te de hymnos.
Affagava-te o raio derradeiro,
Frouxo do sol ao mergulhar nos mares,
E esperavas o tumulo. O teu tumulo
Devera ser o seio destas serras,
Quando, em génesis novo, á voz do Eterno,
Do orbe ao nucleo fervente, que as gerára,
Ellas nas fauces dos volcões descessem.
Então para essa campa flores, bençãos,
Ou de saudade lagrymas vertidas,
Qual do velho soldado a lousa pede,
Não pedíras á ingrata raça humana,
Ao pé de ti no seu sudario involta.
Este longo esperar do dia extremo,
No esquecimento do ermo abandonada,
Foi duro de soffrer aos teus remidos,
Oh redemptora cruz. Eras, acaso,
Como um remorso e accusação perenne
No teu rochedo alpestre, onde te viam
Pousar tristonha e só? Acaso, á noite,
Quando a procella no pinhal rugia,
Criam ouvir-te a voz accusadora
Sobrelevar á voz da tempestade?
Que lhes dizias tu? De Deus falavas,
E do seu Christo, do divino martyr,
Que a ti, supplicio e affronta, a ti maldicta
Ergueu, purificou, clamando ao servo,
No seu trance final:―Ergue-te, escravo!
És livre, como é pura a cruz da infamia.
Ella vil e tu vil, sanctos, sublimes
Sereis ante meu Pae. Ergue-te, escravo!
Abraça tua irman: segue-a sem susto
No caminho dos seculos. Da terra
Pertence-lhe o porvir, e o seu triumpho
Trará da tua liberdade o dia.»
Eis porque teus irmãos te arrojam pedras,
Ao perpassar, oh cruz! Pensam ouvir-te
Nos rumores da noite, a antiga historia
Recontando do Golgotha, lembrando-lhes
Que só ao Christo a liberdade devem,
E que impio o povo ser é ser infame.
Mutilado por elle, a pouco e pouco,
Tu em fragmentos tombarás do cerro,
Symbolo sacrosancto. Hão-de os humanos
Aos pés pisar-te; e esquecerás no mundo.
Da gratidão a divida não paga
Ficará, oh tremenda accusadora,
Sem que as faces lhes tinja a côr do pejo;
Sem que o remorso os corações lhes rasgue.
Do Christo o nome passará na terra.
Não! Quando, em pó desfeita, a cruz divina
Deixar de ser perenne testemunho
Da avita crença, os montes, a espessura,
O mar, a lua, o murmurar da fonte,
Da natureza as vagas harmonias,
Da cruz em nome, falarão do Verbo.
Della no pedestal, então deserto,
Do deserto no seio, ainda o poeta
Virá, talvez, ao pôr do sol sentar-se;
E a voz da selva lhe dirá que é sancto
Este rochedo nú, e um hymno pio
A solidão lhe ensinará e a noite.
Do cantico futuro uma toada
Não sentes vir, oh cruz, de além dos tempos
Da brisa do crepusculo nas azas?
É o porvir que te proclama eterna;
É a voz do poeta a saúdar-te.
Montanha do oriente,
Que, sobre as nuvens elevando o cume, Divisas logo o sol, surgindo a aurora,
E que, lá no occidente,
Ultima vês seu radioso lume, Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Rochedo, que descanças
No promontorio nú e solitario, Como atalaia que o oceano explora,
Alheio ás mil mudanças
Que o mundo agitam turbulento e vario, Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Sobros, robles frondentes,
Cuja sombra procura o viandante, Fugindo ao sol a prumo que o devora,
Nesses dias ardentes
Em que o Leão nos céus passa radiante, Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Oh mato variado,
De rosmaninho e murta entretecido, De cujas tenues flores se evapora
Aroma delicado,
Quando és por leve aragem sacudido, Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Oh mar, que vais quebrando
Rolo após rolo pela praia fria, E fremes som de paz consoladora,
Dormente murmurando
Na caverna maritima sombria, Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Oh lua silenciosa,
Que em perpetuo volver, seguindo a terra, Esparzes tua luz ameigadora
Pela serra formosa,
E pelos lagos que em seu seio encerra, Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Debalde o servo ingrato No pó te derribou E os restos te insultou, Oh veneranda cruz: Embora eu te não veja Neste ermo pedestal; És sancta, és immortal; Tu és a minha luz! Nas almas generosas Gravou-te a mão de Deus, E, á noite, fez nos céus. Teu vulto scintillar. Os raios das estrellas Cruzam o seu fulgor; Nas horas do furor As vagas cruza o mar. Os ramos enlaçados Do roble, choupo e til, Cruzando em modos mil, Se vão entretecer. Ferido, abre o guerreiro Os braços, sólta um ai, Pára, vacilla, e cáe Para não mais se erguer. Cruzado aperta ao seio A mãe o filho seu, Que busca, mal nasceu, Fontes da vida e amor. Surges, symbolo eterno No céu, na terra e mar, Do forte no expirar, E do viver no alvor!