POESIAS
Reading edition
COMPLETAS
CHRYSALIDAS, PHALENAS
AMERICANAS, OCCIDENTAES
H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
71-73, RUA DO OUVIDOR, 71-73
RIO DE JANEIRO
6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6
PARIS
1901
ADVERTÊNCIA
Podia dizer, sem mentir, que me pediram a reunião de versos que andavam esparsos; mas, a verdade anterior è que era minha intenção dal-os um dia. Ao cuidar disto agora achei que seria melhor ligar o novo livro aos ires publicados, Chrysalidas, Phalonas, Americanas. Chamo ao ultimo Occidentaes.
Não direi de uns e de outros versos senão que os fiz com amor, e dos primeiros que os reli com saudades. Supprimo da primeira série algumas paginas; as restantes bastam para notar a differença de edade e de composição. Supprimo tambem o prefacio de Caetano Filgueiras, que referiu as nossas reuniões diarias, quando já elle era advogado e casado, e nós outros apenas moços e adolescentes; menino chama-me elle. Todos se foram para a morte, ainda na flôr da edade, e, excepto o nome de Casimiro de Abreu, nenhum se salvou.
Não deixo esse prefacio, porque a affeição do meu difunto amigo a tal extremo lhe cegára o juizo que não viria a ponto reproduzir aqui aquella saudação inicial. A recordação só teria valor para mim. Baste aos curiosos o encontro casual das datas, a daquelle, 22 de Julho de 1864, e a deste.
Rio, 22 de Julho do 1900.
MACHADO DE ASSIS.
CHRYSALIDAS
1864
MUSA CONSOLATRIX
Que a mão do tempo e o halito dos homens Murchem a flôr das illusões da vida, Musa consoladora, E no teu seio amigo e socegado Que o poeta respira o suave somno. Não ha, não ha comtigo. Nem dor aguda, nem sombrios ermos; Da tua voz os namorados cantos Enchem, povoam tudo De intima paz, de vida e de conforto. Ante esta voz que as dores adormece, E muda o agudo espinho em flôr cheirosa, Que vales tu, desillusão dos homens? Tu que pódes, ó tempo. A alma triste do poeta sobrenada Á enchente das angustias, E, affrontando o rugido da tormenta, Passa cantando, alcyone divina. Musa consoladora, Quando da minha fronte de mancebo A ultima illusão cair, bem como Folha amarella e secca Que ao chão atira a viração do outono, Ah! no teu seio amigo Acolhe-me,—e haverá minha alma afflicta, Em vez de algumas illusões que teve, A paz, o ultimo bem, ultimo e puro!
VISIO
Eras pallida. E os cabellos, Aereos, soltos novellos, Sobre as espaduas as cahiam... Os olhos meio-cerrados De volupia e de ternura Entre lagrimas luziam... E os braços entrelaçados, Como cingindo a ventura, Ao teu seio me cingiam... Depois, naquelle delirio, Suave, doce martyrio De pouquissimos instantes, Os teus labios sequiosos, Frios, tremulos, trocavam Os beijos mais delirantes, E no supremo dos gozos Ante os anjos se casavam Nossas almas palpitantes... Depois... depois a verdade, A fria realidade, A solidão, a tristeza; Daquelle sonho desperto, Olhei... silencio de morte Respirava a natureza— Era a terra, era o deserto, Fôra-se o doce transporte, Restava a fria certeza. Desfizera-se a mentira: Tudo aos meus olhos fugira: Tu e o teu olhar ardente, Labios tremulos e frios, O abraço longo e apertado, O beijo doce e vehemente; Restavam meus desvarios, E o incessante cuidado, E a phantasia doente. E agora te vejo. E fria Tão outra estás da que eu via Naquelle sonho encantado! És outra, calma, discreta, Com o olhar indifferente, Tão outro do olhar sonhado, Que a minha alma de poeta Não vê se a imagem presente Foi a visão do passado. Foi, sim, mas visão apenas; Daquellas visões amenas Que á mente dos infelizes Descem vivas e animadas, Cheias de luz e esperança E de celestes matizes; Mas, apenas dissipadas, Fica uma leve lembrança, Não ficam outras raizes. Inda assim, embora sonho, Mas, sonho doce e risonho, Désse-me Deus que fingida Tivesse aquella ventura Noite por noite, hora a hora, No que me resta de vida, Que, já livre da amargura, Alma, que em dores me chora. Chorára de agradecida!
QUINZE ANNOS
Oh! la fleur de l'Eden, pourquoi l'as-tu fanée, Insouciant enfant, belle Eve bus blonds cheveux?
ALFRED DE MUSSET
Era uma pobre criança... —Pobre criança, se o eras!— Entre as quinze primaveras De sua vida cançada Nem uma flôr de esperança Abria a medo. Eram rosas Que a douda da esperdiçada Tão festivas, tão formosas, Desfolhava pelo chão. —Pobre criança, se o eras!— Os carinhos mal gozados Eram por todos comprados, Que os affectos de sua alma Havia-os levado á feira, Onde vendera sem pena Até a illusão primeira Do seu doudo coração! Pouco antes, a candura, Co'as brancas azas abertas, Em um berço de ventura A criança acalentava Na santa paz do Senhor; Para accordal-a era cedo, E a pobre ainda dormia Naquelle mudo segredo Que só abre o seio um dia Para dar entrada a amor. Mas, por teu mal, acordaste! Junto do berço passou-te A festiva melodia Da seducção... e acordou-te! Colhendo as limpidas azas, O anjo que te velava Nas mãos tremulas e frias Fechou o rosto... chorava! Tu, na sede dos amores, Colheste todas as flôres Que nas orlas do caminho Foste encontrando ao passar; Por ellas, um só espinho Não te feriu... vás andando... Corre, criança, até quando Fores forçada a parar! Então, desflorada a alma De tanta illusão, perdida Aquella primeira calma Do teu somno de pureza; Esfolhadas, uma a uma, Essas rosas de belleza Que se esvaem como a escuma Que a vaga cospe na praia E que por si se desfaz; Então, quando nos teus olhos Uma lagrima buscares, E seccos, seccos de febre, Uma só não encontrares Das que em meio das angustias São um consolo e uma paz; Então, quando o frio spectro Do abandono e da penuria Vier aos teus soffrimentos Juntar a ultima injuria: E que não vires ao lado Um rosto, um olhar amigo Daquelles que são agora Os desvellados comtigo; Criança, verás o engano E o erro dos sonhos teus; E dirás,—então já tarde,— Que por taes gozos não vale Deixar os braços de Deus.
STELLA
Já raro e mais escasso A noite arrasta o manto, E verte o ultimo pranto Por todo o vasto espaço. Tibio clarão já córa A téla do horizonte, E já de sobre o monte Vem debruçar-se a aurora. Á muda e torva irmã, Dormida de cansaço, Lá vem tomar o espaço A virgem da manhã. Uma por uma, vão As pallidas estrellas, E vão, e vão com ellas Teus sonhos, coração. Mas tu, que o devaneio Inspiras do poeta, Não vês que a vaga inquieta Abre-te o humido seio? Vai. Radioso e ardente, Em breve o astro do dia, Rompendo a nevoa fria, Virá do roxo oriente. Dos intimos sonhares Que a noite protegera, De tanto que eu vertera, Em lagrimas a pares, Do amor silencioso, Mystico, doce, puro, Dos sonhos de futuro, Da paz, do ethereo gozo, De tudo nos desperta Luz de importuno dia; Do amor que tanto a enchia Minha alma está deserta. A virgem da manhã Já todo o céu domina.... Espero-te, divina, Espero-te, amanhã.
EPITAPHIO DO MEXICO
Dobra o joelho:—é um tumulo. Em baixo amortalhado Jaz o cadaver tepido De um povo aniquilado; A prece melancolica Reza-lhe em torno á cruz. Ante o, universo attonito Abriu-se a extranha liça, Travou-se a luta fervida Da força e da justiça; Contra a justiça, ó seculo, Venceu a espada e o obuz. Venceu a força indomita; Mas a infeliz vencida A magoa, a dôr, o odio, Na face envilecida Cuspiu-lhe. E a eterna macula Seus louros murchará. E quando a voz fatidica Da santa liberdade Vier em dias prosperos Clamar á humanidade, Então revivo o Mexico Da campa surgirá.
POLONIA
E ao terceiro dia a alma deve voltar ao corpo, e a nação resuscitará.
MICKIEWIEZ.
Como aurora de um dia desejado, Clarão suave o horizonte innunda. E talvez amanhã. A noite amarga Como que chega ao termo; e o sol dos livres, Cangado de te ouvir o inutil pranto, Alfim resurge no dourado Oriente. Eras livre,—tão livre como as aguas Do teu formoso, celebrado rio; A corôa dos tempos Cingia-te a cabeça veneranda; E a desvellada mãe, a irmã cuidosa, A santa liberdade, Como junto de um berço precioso, Á porta dos teus lares vigiava. Eras feliz demais, demais formosa; A sanhuda cobiça dos tyranos Veio enlutar teus venturosos dias... Infeliz! a medrosa liberdade Em face dos canhões espavorida Aos reis abandonou teu chão sagrado; Sobre ti, moribunda, Viste cahir os duros oppressores: Tal a gazella que percorre os campos, Se o caçador a fere, Cae convulsa de dôr em mortaes ancias, E vê no extremo arranco Abater-se sobre ella Escura nuvem de famintos corvos. Presa uma vez da ira dos tyranos, Os membros retalhou-te Dos senhores a explendida cobiça; Em proveito dos reis a terra livre Foi repartida, e os filhos teus—escravos— Viram descer um véu de luto á patria E apagar-se na historia a gloria tua. A gloria, não!—É gloria o captiveiro Quando a captiva, como tu, não perde A alliança de Deus, a fé que alenta, E essa união universal e muda Que faz communs a dôr, o odio, a esperança. Um dia, quando o calix da amargura, Martyr, até ás fezes esgotaste, Longo tremor correu as fibras tuas; Em teu ventre de mãe, a liberdade Parecia-soltar esse vagido Que faz rever o céu no olhar materno; Teu coração estremeceu; teus labios Tremulos de anciedade e de esperança, Buscaram aspirar a longos tragos A vida nova nas celestes auras. Então surgiu Kosciusko; Pela mão do Senhor vinha tocado; A fé no coração, a espada em punho, E na ponta da espada a torva morte, Chamou aos campos a nação caída. De novo entre o direito e a força bruta Empenhou-se o duello atroz e infausto Que a triste humanidade Inda verá por seculos futuros. Foi longa a luta; os filhos dessa terra Ah! não pouparam nem valor nem sangue! A mãe via partir sem pranto os filhos, A irmã o irmão, a esposa o esposo, E todas abençoavam A heroica legião que ia á conquista Do grande livramento. Coube ás hostes da força Da pugna o alto premio; A oppressão jubilosa Cantou essa victoria de ignominia; E de novo, ó captiva, o véu de luto Correu sobre teu rosto! Deus continha Em suas mãos o sol da liberdade, E inda não quiz que nesse dia infausto Teu macerado corpo allumiasse. Resignada á dôr e ao infortunio, A mesma fé, o mesmo amor ardente Davam-te a antiga força. Triste viuva, o templo abriu-te as portas; Foi a hora dos hymnos e das preces; Cantaste a Deus; tua alma consolada Nas azas da oração aos céus subia, Como a refugiar-se e a refazer-se No seio do infinito. E quando a força do feroz cossaco A casa do Senhor ia buscar-te, Era ainda rezando Que te arrastavas pelo chão da egreja. Pobre nação!—é longo o teu martyrio; A tua dôr pede vingança e termo; Muito has vertido em lagrimas e sangue; É propicia esta hora. O sol dos livres Como que surge no dourado Oriente. Não ama a liberdade Quem não chora comtigo as dôres tuas; E não pede, e não ama, e não deseja Tua resurreição, finada heroica!
ERRO
Erro é teu. Amei-te um dia Com esse amor passageiro Que nasce na phantasia E não chega ao coração; Nem foi amor, foi apenas Uma ligeira impressão; Um querer indifferente, Em tua presença, vivo, Morto, se estavas ausente, E se ora me vês esquivo, Se, como outr'ora, não vês Meus incensos de poeta Ir eu queimar a teus pés, É que,—como obra de um dia, Passou-me essa phantasia. Para eu amar-te devias Outra ser e não como eras. Tuas frivolas chimeras, Teu vão amor de ti mesma, Essa pendula gelada Que chamavas coração, Eram bem fracos liames Para que a alma enamorada Me conseguissem prender; Foram baldados tentames, Saiu contra ti o azar, E embora pouca, perdeste A gloria de me arrastar Ao teu carro... Vãs chimeras! Para eu amar-te devias Outra ser e não como eras...
ELEGIA
A bondade choremos innoccente Cortada em flôr que, pela mão da morte, Nos foi arrebatada d'entre a gente.
CAMÕES.
Se, como outr'ora, nas florestas virgens, Nos fosse dado—o esquife que te encerra Erguer a um galho de arvore frondosa, Certo, não tinhas um melhor jazigo Do que alli, ao ar livre, entre os perfumes Da florente estação, imagem viva De teus cortados dias, e mais perto Do clarão das estrellas. Sobre teus pobres e adorados restos, Piedosa a noite, alli derramaria Do seus negros cabellos puro orvalho; Á beira do teu ultimo jazigo Os alados cantores da floresta Iriam sempre modular seus cantos; Nem letra, nem lavor de emblema humano, Relembraria a mocidade morta; Bastava só que ao coração materno, Ao do esposo, ao dos teus, ao dos amigos, Um aperto, uma dôr, um pranto occulto, Dissesse:—Dorme aqui, perto dos anjos, A cinza de quem foi gentil transumpto De virtudes e graças. Mal havia transposto da existencia. Os dourados umbraes; a vida agora Sorria-lhe toucada dessas flôres Que o amor, que o talento e a mocidade Á uma repartiam. Tudo lhe era presagio alegre e doce; Uma nuvem sequer não sombreava, Em sua fronte, o iris da esperança; Era, emfim, entre os seus a copia viva Dessa ventura que os mortaes almejam, E que raro a fortuna, avessa ao homem, Deixa gozar na terra. Mas eis que o anjo pallido da morte A presentiu feliz e bella e pura, E, abandonando a região do olvido, Desceu á terra, e sob a aza negra A fronte lhe escondeu; o fragil corpo Não pôde resistir; a noite eterna Veio fechar seus olhos; Emquanto a alma abrindo As azas rutilantes pelo espaço, Foi engolfar-se em luz, perpetuamente, No seio do infinito; Tal a assustada pomba, que na arvore O ninho fabricou,—se a mão do homem Ou a impulsão do vento um dia abate O recatado asylo,—abrindo o vôo, Deixa os inuteis restos E, atravessando airosa os leves ares, Vai buscar n'outra parte outra guarida. Hoje, do que ora inda lembrança resta, E que lembrança! Os olhos fatigados Parecem ver passar a sombra della; O attento ouvido inda lhe escuta os passos; E as teclas do piano, em que seus dedos Tanta harmonia despertavam antes, Como que soltam essas doces notas Que outr'ora ao seu contacto respondiam. Ah! pezava-lhe este ar da terra impura, Faltava-lhe esse alento de outra esphera, Onde, noiva dos anjos, a esperavam As palmas da virtude. Mas, quando assim a flôr da mocidade Toda se esfolha sobre o chão de morte, Senhor, em que firmar a segurança Das venturas da terra? Tudo morre; Á sentença fatal nada se esquiva, O que é fructo e o que é flôr. O homem cego Cuida haver levantado em chão de bronze Um edificio resistente aos tempos, Mas lá vem dia, em que, a um leve sopro, O castello se abate, Onde, doce illusão, fechado havias Tudo o que de melhor a alma do homem Encerra de esperanças. Dorme, dorme tranquilla Em teu ultimo asylo; e se eu não pude Ir espargir tambem algumas flôres Sobre a lagea da tua sepultura; Se não pude,—eu que ha pouco te saudava Em teu erguer, estrella,—os tristes olhos Banhar nos melancolicos fulgores, Na triste luz do teu recente occaso, Deixo-te ao menos nestes pobres versos Um penhor de saudade, e lá na esphera Aonde approuve ao Senhor chamar-te cedo, Possas tu ler nas pallidas estrophes A tristeza do amigo.
SINHÁ
O teu nome é como o oleo derramado.
Cantico dos Canticos.
Nem o perfume que expira A flôr, pela tarde amena, Nem a nota que suspira Canto de saudade e pena Nas brandas cordas da lyra; Nem o murmurio da veia Que abriu sulco pelo chão Entre margens de alva arêa, Onde se mira e recreia Rosa fechada em botão; Nem o arrulho enternecido Das pombas, nem do arvoredo Esse amoroso arruido Quando escuta algum segredo Pela brisa repetido; Nem esta saudade pura Do canto do sabiá Escondido na espessura, Nada respira doçura Como o teu nome, Sinhá!
HORAS VIVAS
Noite: abrem-se as flôres... Que esplendores! Cynthia sonha amores Pelo céu. Tenues os neblinas Ás campinas Descem das collinas, Como um véu. Mãos em mãos travadas, Animadas, Vão aquellas fadas Pelo ar; Soltos os cabellos, Em novellos, Puros, louros, bellos, A voar. —«Homem, nos teus dias Que agonias, Sonhos, utopias, Ambições; Vivas e fagueiras, As primeiras, Como as derradeiras Illusões! —«Quantas, quantas vidas Vão perdidas Pombas mal feridas Pelo mal! Annos apoz annos, Tão insanos, Vem os desenganos Afinal. —«Dorme: se os pesares Repousares, Vês?—por estes ares Vamos rir; Mortas, não; festivas, E lascivas, Somos—horas vivas De dormir—»
VERSOS A CORINNA
Tacendo il nome di questa gentilissima.
DANTE.
I
Tu nasceste de um beijo e de um olhar. O beijo N'uma hora de amor, de ternura e desejo, Uniu a terra e o céu. O olhar foi do Senhor, Olhar de vida, olhar de graça, olhar de amor; Depois, depois vestindo a fórma peregrina, Aos meus olhos mortaes, surgiste-me, Corinna! De um jubilo divino os cantos entoava A natureza mãe, e tudo palpitava, A flôr aberta e fresca, a pedra bronca e rude, De uma vida melhor e nova juventude. Minh'alma adivinhou a origem do teu ser; Quiz cantar e sentir; quiz amar e viver; A luz que de ti vinha, ardente, viva, pura, Palpitou, reviveu a pobre creatura; Do amor grande, elevado, abriram-se lhe as fontes; Fulgiram novos sóes, rasgaram-se horizontes; Surgiu, abrindo em flôr, uma nova região; Era o dia marcado á minha redempção. Era assim quo eu sonhava a mulher. Era assim: Corpo de fascinar, alma de cherubim; Era assim: fronte altiva e gesto soberano, Um porte de rainha a um tempo meigo e ufano, Em olhos senhoris uma luz tão serena, E grave como Juno, e bella como Helena! Era assim, a mulher que extasia e domina, A mulher que reune a terra e o céu; Corinna! N'este fundo sentir, nesta fascinação, Que pede do poeta o amante coração? Viver como nasceste, ó belleza, ó primor, De uma fusão do ser, de uma effusão do amor. Viver,—fundir a existencia Em um osculo de amor, Fazer de ambas—uma essencia, Apagar outras lembranças, Perder outras illusões, E ter por sonho melhor O sonho das esperanças De que a unica ventura Não reside em outra vida, Não vem do outra creatura; Confundir olhos mos olhos, Unir um seio a outro seio, Derramar as mesmas lagrimas E tremer do mesmo enleio, Ter o mesmo coração, Viver um do outro viver... Tal era a minha ambição. Donde viria a ventura Desta vida? Em que jardim Colheria esta flôr pura? Em que solitaria fonte Esta agua iria beber? Em que encendido horizonte Podiam meus olhos ver Tão meiga, tão viva estrella, Abrir-se e resplandecer? Só em ti:—em ti que és bella, Em ti quo a paixão respiras, Em ti cujo olhar se embebe Na illusão de que deliras, Em ti, que um osculo de Hebe Teve a singular virtude De encher, de animar teus dias, De vida e de juventude... Amemos! diz a flôr á brisa peregrina, Amemos! diz a brisa, arfando em torno á flôr Cantemos esta lei e vivamos, Corinna, De uma fusão do ser, de uma effusão do amor.
II
A minha alma, talvez, não é tão pura, Como era pura nos primeiros dias; Eu sei: tive choradas agonias De que conservo alguma nodoa escura, Talvez. Apenas á manhã da vida Abri meus olhos virgens e minha alma, Nunca mais respirei a paz e a calma, E me perdi na porfiosa lida. Não sei que fogo interno me impellia Á conquista da luz, do amor, do gozo, Não sei que movimento imperioso De um desusado ardor minha alma enchia. Corri de campo em campo e plaga em plaga. (Tanta ansiedade o coração encerra!) A ver o lyrio que brotasse a terra, A ver a escuma que cuspisse—a vaga. Mas, no areal da praia, no horto agreste, Tudo aos meus olhos avidos fugia... Desci ao chão do valle que se abria, Subi ao cume da montanha alpestre. Nada! Volvi o olhar ao céu. Perdi-me Em meus sonhos de moço e de poeta; E contemplei, nesta ambição inquieta, Da muda noite a pagina sublime. Tomei nas mãos a cythara saudosa, E soltei entre lagrimas um canto... A terra brava recebeu meu pranto E o éco repetiu-me a voz chorosa. Foi em vão. Como um languido suspiro, A voz se me calou, e do invio monte Olhei ainda as linhas do horizonte, Como se olhasse o ultimo retiro. Nuvem negra e veloz corria solta O anjo da tempestade annunciando; Vi ao longe as alcyones cantando Doidas correndo á flôr da agua revolta. Desilludido, exausto, ermo, perdido, Busquei a triste estancia do abandono, E esperei, aguardando o ultimo somno, Volver á terra, de que foi nascido. —«Ó Cybele fecunda, é no remanso Do teu seio—que vive a creatura, Chamem-te outros morada triste e escura, Chamo-te gloria, chamo-te descanso!» Assim fallei. E murmurando aos ventos Uma blasphemia atroz—estreito abraço Homem e terra uniu, e em longo espaço Aos écos repeti meus vãos lamentos. Mas, tu passaste... Houve um grito Dentro de mim. Aos meus olhos Visão de amor infinito, Visão de perpetuo gozo Perpassava e me attrahia, Como um sonho voluptuoso De sequiosa fantasia. Ergui-me logo do chão, E pousei meus olhos fundos Em teus olhos soberanos, Ardentes, vivos, profundos, Como os olhos da belleza Que das escumas nasceu... Eras tu, maga visão Eras tu o ideal sonhado Que em toda a parte busquei, E por quem houvera dado A vida que fatiguei; Por quem verti tanto pranto, Por quem nos longos espinhos Minhas mãos, meus pés sangrei! Mas se minh'alma, acaso, é menos pura Do que era pura nos primeiros dias, Porque não soube em tantas agonias Abençoar a minha desventura; Se a blasphemia os meus labios polluira, Quando, depois do tempo e do cansaço, Beijei a terra no mortal abraço E espedacei desanimado a lyra; Podes, visão formosa e peregrina, No amor profundo, na existencia calma, Desse passado resgatar minha alma E levantar-me aos olhos teus,—Corinna!
III
Quando voarem minhas esperanças, Como um bando de pombas fugitivas; E destas illusões doces e vivas Só me restarem pallidas lembranças; E abandonar-me a minha mãe Quimera, Que me aleitou aos seios abundantes; E vierem as nuvens flammejantes Encher o céu da minha primavera; E raiar para mim um triste dia, Em que, por completar minha tristeza, Nem possa ver-te, musa da belleza, Nem possa ouvir-te, musa da harmonia; Quando assim seja, por teus olhos juro, Voto minh'alma á escura soledade, Sem procurar melhor felicidade, E sem ambicionar prazer mais puro, Como o viajor que, de fallaz miragem Volta desenganado ao lar tranquillo, E procura, naquelle ultimo asylo, Nem evocar memorias da viagem; Envolvido em mim mesmo, olhos cerrados A tudo mais,—a minha phantasia As asas colherá com que algum dia Quis alcançar os cimos elevados. És tu a maior gloria de minha alma, Se o meu amor profundo não te alcança, De que me servirá outra esperança? Que gloria tirarei de alheia palma?
IV
Tu que és bella e feliz, tu que tens por diadema A dupla irradiação da belleza e do amor; E sabes reunir, como o melhor poema, Um desejo da terra e um toque do Senhor; Tu que, como a ilusão, entre nevoas deslisas Aos versos do poeta um desvellado olhar, Corinna, ouve a canção das amorosas brisas, Do poeta e da luz, das selvas e do mar.
AS BRISAS
Deu-nos a harpa colia a excelsa melodia Que a folhagem desperta e torna alegre a flôr, Mas que vale esta voz, ó musa da harmonia, Ao pé da tua voz, filha da harpa do amor? Diz-nos tu como houveste as notas do teu canto? Que alma de serafim volteia aos labios teus? Donde houveste o segredo e o poderoso encanto Que abre a ouvidos mortais a harmonia dos céus?
A LUZ
Eu sou a luz fecunda, alma da natureza; Sou o vivo alimento á viva creação. Deus lançou-me no espaço. A minha realeza Vai até onde vae meu vivido clarão. Mas se derramo vida a Cybelle fecunda, Que sou eu ante a luz dos teus olhos? Melhor, A tua é mais do céu, mais doce, mais profunda, Se a vida vem de mim, tu dás a vida e o amor.
AS AGUAS
Do nume da belleza o berço celebrado Foi o mar; Venus bella entre espumas nasceu. Veio a edade de ferro, e o nume venerado Do venerado altar baqueou:—pereceu. Mas a belleza és tu. Como Venus marinha, Tens a ineffavel graça e o ineffavel ardor. Se páras, és um nume; andas, uma rainha, E se quebras um olhar, és tudo isso e és amor! Chamam-te as aguas, vem! tu irás sobre a vaga A vaga, a tua mãe, que te abre os seios nús, Buscar adorações de uma plaga a outra plaga, E das regiões da nevoa ás regiões da luz!
AS SELVAS
Um silencio de morte entrou no seio ás selvas. Já não pisa Diana este sagrado chão; Nem já vem repousar no leito destas relvas Aguardando saudosa o amor e Endymião. Da grande caçadora a um solicito aceno Já não vem, não acode o grupo jovial; Nem o éco repete a flauta de Sileno, Apoz o grande ruido a mudez sepulchral. Mas Diana apparece. A floresta palpita, Uma seiva melhor circula mais veloz; É vida que renasce, é vida que se agita; A luz do teu olhar, ao som da tua voz!
O POETA
Tambem eu, sonhador, que vi correr meus dias Na solemne mudez da grande solidão, E soltei, enterrando as minhas utopias, O ultimo suspiro e a ultima oração; Tambem eu junto a voz á voz da natureza, E soltando o meu hymno ardente e triumphal, Beijarei ajoelhado as plantas da beleza E banharei minh'alma em tua luz,—Ideal! Ouviste a natureza? Ás supplicas e ás maguas Tua alma de mulher deve de palpitar; Mas que te não seduza o cantico das aguas, Não procures, Corinna, o caminho do mar!
V
Guarda estes versos que escrevi chorando Como um alivio á minha soledade, Como um dever do meu amor; e quando Houver em ti um éco de saudade, Beija estes versos que escrevi chorando. Unico em meio das paixões vulgares, Fui a teus pés queimar minh'alma anciosa, Como se queima o oleo ante os altares; Tive a paixão indomita e fogosa, Unica em meio das paixões vulgares. Cheio de amor, vazio de esperança, Dei para ti os meus primeiros passos; Minha illusão fez-me, talvez, criança; E eu pretendi dormir aos teus abraços, Cheio de amor, vazio de esperança. Refugiado á sombra do mysterio Pude cantar meu hymno doloroso; E o mundo ouviu o som doce ou funereo Sem conhecer o coração ansioso Refugiado á sombra do mysterio. Mas eu que posso contra a sorte esquiva? Vejo que em teus olhares de princeza Transluz uma alma ardente e compassiva Capaz de reanimar minha incerteza; Mas eu que posso contra a sorte esquiva? Como um réo indefeso e abandonado, Fatalidade, curvo-me ao teu gesto; E se a perseguição me tem cansado. Embora, escutarei o teu aresto, Como um réo indefeso e abandonado. Embora fujas aos meus olhos tristes, Minh'alma irá saudosa, enamorada, Acercar-se de ti lá onde existes; Ouvirás minha lyra apaixonada, Embora fujas aos meus olhos tristes. Talvez um dia meu amor se extinga, Como fogo de Vesta mal cuidado Que sem o zelo da Vestal não vinga: Na ausencia e no silencio condemnado Talvez um dia meu amor se extinga. Então não busques reavivar a chamma, Evoca apenas a lembrança casta Do fundo amor daquele que não ama; Esta consolação apenas basta; Então não busques reavivar a chamma. Guarda estes versos que escrevi chorando, Como um alivio á minha soledade, Como um dever do meu amor; e quando Houver em ti um éco de saudade, Beija estes versos que escrevi chorando.
VI
Em vão! Contrario a amor é nulo o esforço humano; É nulo o vasto espaço, é nada o vasto oceano. Solta do chão, abrindo as asas luminosas. Minh'alma se ergue e voa ás regiões venturosas, Onde ao teu brando olhar, ó formosa Corinna, Reveste a natureza a purpura divina! Lá, como quando volta a primavera em flôr, Tudo sorri de luz, tudo sorri de amor; Ao influxo celeste e doce da belleza, Pulsa, canta, irradia e vive a natureza; Mais languida e mais bella a tarde pensativa Desce do monte ao valle; e a viração lasciva Vai despertar á noite a melodia extranha Que falam entre si os olmos da montanha; A flôr tem mais perfume e a noite mais poesia; O mar tem novos sons e mais viva ardentia; A onda enamorada arfa e beija as arêas, Novo sangue circula, ó terra, em tuas veias! O esplendor da belleza é raio creador: Derrama a tudo a luz, derrama a tudo o amor. Mas vê. Se o que te cerca é uma festa de vida, Eu, tão longe de ti, sinto a dor mal soffrida Da saudade que punge e do amor que lacera, E palpita e soluça e sangra e desespera. Sinto em torno de mim a muda natureza Respirando, como eu, a saudade e a tristeza; É deste ermo que eu vou, alma desventurada, Murmurar junto a ti a estrophe immaculada Do amor que não perdeu, co'a ultima esperança, Nem o intenso fervor, nem a intensa lembrança. Sabes se te eu amei, sabes se te amo ainda, Do meu sombrio céu alva estrella bemvinda! Como divaga a abelha inquieta e sequiosa Do calice do lyrio ao calice da rosa, Divaguei de alma em alma em busca deste amor; Gota de mel divino, era divina a flôr Que o devia conter. Eras tu. No delirio De te amar—olvidei as lutas e o martyrio; Eras tu. Eu só quiz, n'uma ventura calma, Sentir e ver o amor atravez de uma alma; De outras bellezas vans não valeu o explendor, A belleza eras tu:—tinhas a alma e o amor. Pelicano do amor, dilacerei meu peito, E com meu proprio sangue os filhos meus aleito; Meus filhos: o desejo, a quimera, a esperança; Por elles reparti minh'alma. Na provança Ella não fraqueou, antes surgiu mais forte; É que eu puz neste amor, neste ultimo transporte Tudo o que vivifica a minha juventude: O culto da verdade e o culto da virtude, A venia do passado e a ambição do futuro, O que ha de grande e belo, o que ha de nobre e puro. Deste profundo amor, doce e amada Corinna, Accorda-te a lembrança um éco de afflicção? Minh'alma pena e chora á dôr que a desatina: Sente tua alma acaso a mesma commoção? Em vão! Contrario a amor é nada o esforço humano, É nada o vasto espaço, é nulo o vasto oceano! Vou, sequioso espirito, Cobrando novo alento, N'aza veloz do vento Correr de mar em mar; Posso, fugindo ao carcere, Que á terra me tem prezo, Em novo ardor aceso, Voar, voar, voar! Então, se á hora languida Da tarde que declina, Do arbusto da collina Beijando a folha e a flôr, A brisa melancolica Levar-te entre perfumes Uns timidos queixumes Echos de magua e dôr; Então, se o arroio timido Que passa e que murmura Á sombra da espessura Dos verdes salgueiraes. Mandar-te entre os murmurios Que solta nos seus giros, Uns como que suspiros De amor, uns ternos ais; Então, se no silencio Da noite adormecida, Sentires—mal dormida— Em sonho ou em visão, Um beijo em tuas palpebras, Um nome aos teus ouvidos, E ao som de uns ais partidos Pulsar teu coração; Da magoa que consome O meu amor venceu; Não tremas—é teu nome, Não fujas—que sou eu!
ULTIMA FOLHA
Musa, desce do alto da montanha Onde aspiraste o aroma da poesia, E deixa ao éco dos sagrados ermos A ultima harmonia. Dos teus cabellos de ouro, que beijavam Na amena tarde as virações perdidas, Deixa cair ao chão as alvas rosas E as alvas margaridas. Vês? Não é noite, não, este ar sombrio Que nos esconde o céu. Inda na poente Não quebra os raios pallidos e frios O sol resplandecente. Vês? Li ao fundo o valle arido e secco Abra-se, como um leito mortuario; Espera-te o silencio da planicie, Como um frio sudario. Desce. Virá um dia em que mais bella, Mais alegre, mais cheia de harmonias, Voltes a procurar a voz cadente Dos teus primeiros dias. Então coroarás a ingenua fronte Das flôres da manhã,—e ao monte agreste, Como a noiva phantastica dos ermos, Irás, musa celeste! Então, nas horas solemnes Em que o mystico hymeneu Une em abraço divino Verde a terra, azul o céu; Quando, já finda a tormenta Que a natureza enlutou, Bafeja a brisa suave Cedros que o vento abalou; E o rio, a arvore e o campo, A arêa, a face do mar, Parecem, como um concerto, Palpitar, sorrir, orar; Então sim, alma de poeta, Nos teus sonhos cantarás A gloria da natureza, A ventura, o amor e a paz! Ah! mas então será mais alto ainda; Lá onde a alma do vate Possa escutar os anjos, E onde não chegue o vão rumor dos homens; Lá onde, abrindo as azas ambiciosas, Possa adejar no espaço luminoso, Viver de luz mais viva e de ar mais puro, Fartar-se do infinito! Musa, desce do alto da montanha Onde aspiraste o aroma da poesia, E deixa ao éco dos sagrados ermos A ultima harmonia!
PHALENAS
(1870)
FLOR DA MOCIDADE[1]
Eu conheço a mais bella flôr; És tu, rosa da mocidade, Nascida, aberta para o amor. Eu conheço a mais bella flôr. Tem do céu a serena côr, E o perfume da virgindade. Eu conheço a mais bella flôr, És tu, rosa da mocidade. Vive ás vezes na solidão, Coma filha da briza agreste. Teme acaso indiscreta mão; Vive ás vezes na solidão. Poupa a raiva do furacão Suas folhas de azul celeste. Vive ás vezes na solidão, Como filha da briza agreste. Colhe-se antes que venha o mal, Colhe-se antes que chegue o inverno; Que a flôr morta já nada vai. Colhe-se antes que venha o mal. Quando a terra é mais jovial Todo o bem nos parece eterno. Colhe-se antes que venha o mal, Colhe-se antes que chegue o inverno.
QUANDO ELLA FALLA
She speaks O speake again, bright angel!
SHAKESPEARE
Quando ella falla, parece Que a voz da briza se cala; Talvez um anjo emmudece Quando ella falla. Meu coração dolorido As suas mágoas exhala. E volta ao gozo perdido Quando ella falla. Pudeste eu eternamente, Ao lado d'ella, escutal-a, Ouvir sua alma innocente Quando ella falla. Minh'alma, já semi-morta, Conseguíra ao céu alçal-a, Porque o céu abre uma porta Quando ella falla.
MANHÃ DE INVERNO
Coroada de nevoas, surge a aurora Por detrás das montanhas do oriente; Vê-se um resto de somno e de preguiça, Nos olhos da fantastica indolente. Nevoas enchem de um lado e de outro os morros Tristes como sinceras sepulturas, Essas que têm por simples ornamento Puras capellas, lagrimas mais puras. A custo rompe o sol; a custo invade O espaço todo branco; e a luz brilhante Fulge através do espesso nevoeiro, Como através de um véu fulge o diamante. Vento frio, mas brando, agita as folhas Das laranjeiras humidas da chuva; Erma de flôres, curva a planta o collo, E o chão recebe o pranto da viuva. Gelo não cobre o dorso das montanhas, Nem enche as folhas tremulas a neve; Galhardo moço, o inverno deste clima Na verde palma a sua historia escreve. Pouco a pouco, dissipam-se no espaço Ás nevoas da manhã; já pelos montes Vão subindo as que encheram todo o valle; Já se vão descobrindo os horizontes. Sobe de todo o panno; eis apparece Da natureza o esplendido scenario; Tudo alli preparou co' os sabios olhos A suprema sciencia do emprezario. Canta a orchestra dos passaros no matto A symphonia alpestre,—a voz serena Acorda os écos timidos do valle; E a divina comedia invade a scena.
LA MARCHESA DE MIRAMAR[2]
A miserrima Dido Pelos paços reaes vaga ululando.
GARÇÃO.
De quanto sonho um dia povoaste A mente ambiciosa, Que te resta? Uma pagina sombria, A escura noite e um tumulo recente. Ó abysmo! Ó fortuna! Um dia apenas Viu erguer, viu cahir teu fragil throno Meteoro do seculo, passaste, Ó triste imperio, allumiando as sombras. A noite foi teu berço e teu sepulcro. Da tua morte os goivos inda acháram Frescas as rosas dos teus breves dias; E no livro da historia uma só folha A tua vida conta: sangue e lagrimas. No tranquillo castello, Ninho d'amor, asylo de esperanças, A mão de aurea fortuna preparára, Menina e moça, um tumulo aos teus dias. Junto do amado esposo, Outra corôa cingias mais segura, A corôa do amor, dadiva santa Das mãos de Deus. No céu de tua vida Uma nuvem sequer não sombreava A esplendida manhã; extranhos eram Ao recatado asylo Os rumores do seculo. Estendia-se Em frente o largo mar, tranquilla face Como a da consciencia alheia ao crime, E o céu, cupula azul do equoreo leito. Alli, quando ao cair da amena tarde, No thalamo encantado do occidente, O vento melancolico gemia, E a onda murmurando, Nas convulsões do amor beija a areia, Ias tu junto d'elle, as mãos travadas, Os olhos confundidos, Correr as brandas, somnolentas aguas, Na gondola discreta. Amenas flôres Com suas mãos teciam As namoradas Horas; vinha a noite, Mãe de amores, solicita descendo, Que em seu regaço a todos envolvia, O mar, o céu, a terra, o lenho e os noivos. Mas além, muito além do céu fechado, O sombrio destino, contemplando A par do teu amor, a etherea vida, As santas effusões das noites bellas, O terrivel scenario preparava A mais terriveis lances. Então surge dos thronos A prophetica voz que annunciava Ao teu credulo esposo: «Tu serás rei, Macbeth!» Ao longe, ao longe, No fundo do oceano, envolto em nevoas, Salpicado de sangue, ergue-se um throno. Chamão-no a elle as vozes do destino. Da tranquilla mansão ao novo imperio Cobrem flôres a estrada,—estereis flôres Que mal podem cobrir o horror da morte. Tu vais, tu vais tambem, victima infausta; O sopro da ambição fechou teus olhos.... Ah! quão melhor te fôra No meio d'essas aguas Que a regia nau cortava, conduzindo Os destinos de um rei, achar a morte: A mesma onda os dous envolveria. Uma só convulsão ás duas almas O vinculo quebrára, e ambas iriam, Como raios partidos de uma estrella, Á eterna luz juntar-se. Mas o destino, alçando a mão sombria, Já traçára nas paginas da historia O terrivel mysterio. A liberdade Vela n'aquelle dia a ingenua fronte. Pejam nuvens de fogo o céu profundo. Orvalha sangue a noite mexicana.... Viuva e moça, agora em vão procuras No teu placido asylo o extincto esposo. Interrogas em vão o céu e as aguas. Apenas surge ensanguentada sombra Nos teus sonhos de louca, e um grito apenas, Um soluço profundo reboando Pela noite do espirito, parece Os échos acordar da mocidade. No emtanto, a natureza alegre e viva, Ostenta o mesmo rosto. Dissipam-se ambições, imperios morrem, Passam os homens como pó que o vento Do chão levanta ou sombras fugitivas, Transformam-se em ruina o templo e a choça. Só tu, só tu, eterna natureza, Immutavel, tranquilla, Como rochedo em meio do oceano, Vês baquear os seculos. Sussurra Pelas ribas do mar a mesma briza; O céu é sempre azul, as aguas mansas; Deita-se ainda a tarde vaporosa No leito do occidente; Ornam o campo as mesmas flôres bellas... Mas em teu coração magoado e triste, Pobre Carlota! o intenso desespero Enche de intenso horror o horror da morte. Viuva da razão, nem já te cabe A illusão da esperança. Feliz, feliz, ao menos, se te resta, Nos macerados olhos, O derradeiro bem:—algumas lagrimas!
SOMBRAS
Quando, assentada á noite, a tua fronte inclinas, E cerras descuidada as palpebras divinas, E deixas no regaço as tuas mãos cair, E escutas sem fallar, e sonhas sem dormir, Acaso uma lembrança, um éco do passado, Em teu seio revive? Ó tumulo fechado Da ventura que foi, do tempo que fugiu, Por que razão, mimosa, a tua mão o abriu? Com que flôr, com que espinho, a importuna memoria Do teu passado escreve a mysteriosa historia? Que espectro ou que visão resurge aos olhos teus? Vem das trevas do mal ou cae das mãos de Deus? É saudade ou remorso? é desejo ou martyrio? Quando em obscuro templo a fraca luz de um cirio Apenas alumia a nave e o grande altar E deixa todo o resto em treva,—e o nosso olhar Cuida ver resurgindo, ao longe, d'entre as portas, As sombras immortaes das creaturas mortas, Palpita o coração de assombro e de terror; O medo augmenta o mal. Mas a cruz do Senhor, Que a luz do cirio innunda, os nossos olhos chama; O animo esclarece aquella eterna chamma; Ajoelha-se contricto, e murmura-se então A palavra de Deus, a divina oração. Pejam sombras, bem vês, a escuridão do templo; Volve os olhos á luz, imita aquelle exemplo; Corre sobre o passado impenetravel véu; Olha para o futuro e vem lançar-te ao céu.
ITE, MISSA EST
Fecha o missal do amor e a benção lança Á pia multidão Dos teus sonhos de moço e de criança, A benção do perdão. Sôa a hora fatal,—reza contricto As palavras do rito: Ite missa est. Foi longo o sacrificio; o teu joelho De curvar-se cançou; E acaso sobre as folhas do Evangelho A tua alma chorou. Ninguem vio essas lagrimas (ai tantas!) Cair nas folhas santas. Ite missa est. De olhos fitos no céu rezaste o credo, O credo do teu deus; Oração que devia, ou tarde ou cedo, Travar nos labios teus; Palavra que se esvai qual fumo escasso E some-se no espaço. Ite missa est. Votaste ao céu, nas tuas mãos alçada, A hostia do perdão, A victima divina e profanada Que chamas coração. Quasi inteiras perdeste a alma e a vida Na hostia consumida. Ite missa est. Pobre servo do altar de um deus esquivo, É tarde; beija a cruz; Na lampada em que ardia o fogo activo, Vê, já se extingue a luz. Cubra-te agora o rosto macilento O véu do esquecimento. Ite missa est.
RUINAS
No hay pájaros en los nidos de antaño.
PROVERBIO HESPANHOL.
Cobrem plantas sem flôr crestados muros; Range a porta ancian; o chão de pedra Gemer parece aos pés do inquieto vate. Ruina é tudo: a casa, a escada, o horto, Sitios caros da infancia. Austera moça Junto ao velho portão o vate aguarda; Pendem-lhe as tranças soltas Por sobre as rôxas vestes. Risos não tem, e em seu magoado gesto Transluz não sei que dôr occulta aos olhos; —Dôr que á face não vem,—medrosa e casta, Intima e funda;—e dos cerrados cilios Se uma discreta e muda Lagrima cae, não murcha a flôr do rosto; Melancolia tacita e serena, Que os écos não acorda em seus queixumes, Respira aquelle rosto. A mão lhe estende O abatido poeta. Eil-os percorrem Com tardo passo os relembrados sitios, Ermos depois que a mão da fria morte Tantas almas colhera. Desmaiavam, Nos serros do poente, As rosas do crepusculo. «Quem és? pergunta o vate; o sol que foge «No teu languido olhar um raio deixa; «—Raio quebrado e frio;—o vento agita «Timido e frouxo as tuas longas tranças. «Conhecem-te estas pedras; das ruinas «Alma errante pareces condemnada «A contemplar teus insepultos ossos. «Conhecera-te estas arvores. E eu mesmo «Sinto não sei que vaga e amortecida «Lembrança de teu rosto.» Desceu de todo a noite, Pelo espaço arrastando o manto escuro Que a loura Vesper nos seus hombros castos, Como um diamante, prende. Longas horas Silenciosas corrêram. No outro dia, Quando as vermelhas rosas do oriente Ao já proximo sol a estrada ornavam, Das ruinas sahião lentamente Duas pallidas sombras...
MUSA DOS OLHOS VERDES
Musa dos olhos verdes, musa alada, Ó divina esperança, Consolo do ancião no extremo alento, E sonho da criança; Tu que junto do berço o infante cinges C'os fulgidos cabellos; Tu que transformas em dourados sonhos Sombrios pesadelos; Tu que fazes pulsar o seio ás virgens; Tu que ás mães carinhosas Enches o brando, tepido regaço Com delicadas rosas; Casta filha do céu, virgem formosa Do eterno devaneio, Sê minha amante, os beijos meus recebe, Acolhe-me em teu seio! Já cançada de encher languidas flôres Com as lagrimas frias, A noite vê surgir do oriente a aurora Dourando as serranias. Azas batendo á luz que as trevas rompe, Piam nocturnas aves, E a floresta interrompe alegremente Os seus silencios graves. Dentro de mim, a noite escura e fria Melancolica chora; Rompe estas sombras que o meu ser povoam; Musa, sê tu a aurora!
NOIVADO
Vês, querida, o horizonte ardendo em chammas? Além d'esses outeiros Vai descambando o sol, e á terra envia Os raios derradeiros; A tarde, como noiva que enrubece, Traz no rosto um véu molle e transparente; No fundo azul a estrella do poente Já timida apparece. Como um bafo suavissimo da noite, Vem sussurrando o vento As arvores agita e imprime ás folhas O beijo somnolento. A flôr ageita o calix: cedo espera O orvalho, e emtanto exhala o doce aroma; Do leito do oriente a noite assoma Como uma sombra austera. Vem tu, agora, ó filha de meus sonhos, Vem, minha flôr querida; Vem contemplar o céu, pagina santa Que amor a ler convida; Da tua solidão rompe as cadeias; Desce do teu sombrio e mudo asylo; Encontrarás aqui o amor tranquillo..... Que esperas? que receias? Olha o templo de Deus, pomposo e grande; Lá do horizonte opposto A lua, como lampada, já surge A alumiar teu rosto; Os cirios vão arder no altar sagrado, Estrellinhas do céu que um anjo acende; Olha como de balsamos rescende A c'rôa do noivado. Irão buscar-te em meio do caminho As minhas esperanças; E voltarão comtigo, entrelaçadas Nas tuas longas tranças; No emtanto eu preparei teu leito á sombra Do limoeiro em flôr; colhi contente Folhas com que alastrei o solo ardente De verde e molle alfombra. Pelas ondas do tempo arrebatados, Até á morte iremos, Soltos ao longo do baixel da vida Os esquecidos remos. Firmes, entre o fragor da tempestade, Gosaremos o bem que amor encerra; Passaremos assim do sol da terra Ao sol da eternidade.
A ELVIRA
(LAMARTINE)
Quando, comtigo a sós, as mãos unidas, Tu, pensativa e muda; e eu, namorado, Ás volupias do amor a alma entregando, Deixo correr as horas fugidias; Ou quando ás solidões de umbrosa selva Comigo te arrebato; ou quando escuto —Tão só eu,—teus ternissimos suspiros; E de meus labios solto Eternas juras de constancia eterna; Ou quando, emfim, tua adorada fronte Nos meus joelhos tremulos descansa, E eu suspendo meus olhos em teus olhos, Como ás folhas da rosa avida abelha; Ai, quanta vez então dentro em meu peito Vago terror penetra, como um raio! Empallideço, tremo; E no seio da gloria em que me exalto, Lagrimas verto que a minha alma assombram! Tu, carinhosa e tremula, Nos teus braços me cinges,—e assustada, Interrogando em vão, comigo choras! «Que dôr secreta o coração te opprime?» Dizes tu, «Vem, confia os teus pesares.... «Falla! eu abrandarei as penas tuas! «Falla! eu consolarei tua alma afflicta!» Vida do meu viver, não me interrogues! Quando enlaçado em teus niveos braços A confissão de amor te ouço, e levanto Languidos olhos para ver teu rosto, Mais ditoso mortal o céu não cobre! Se eu tremo, é porque n'essas esquecidas Afortunadas horas, Não sei que voz do enleio me desperta, E me persegue e lembra Que a ventura co' o tempo se esvaece, E o nosso amor é facho que se extingue! De um lance, espavorida, Minha alma vôa ás sombras do futuro, E eu penso então: «Ventura que se acaba Um sonho vale apenas.»
LAGRIMAS DE CÊRA
Passou; viu a porta aberta. Entrou; queria rezar. A vela ardia no altar. A igreja estava deserta. Ajoelhou-se defronte Para fazer a oração; Curvou a pallida fronte E pôz os olhos no chão. Vinha tremula e sentida. Commettêra um erro. A cruz É a ancora da vida, A esperança, a força, a luz. Que rezou? Não sei. Benzeu-se Rapidamente. Ajustou O véu de rendas. Ergueu-se E á pia se encaminhou. Da vela benta que ardêra, Como tranquillo fanal, Umas lagrimas de cêra Caíam no castiçal. Ella porém não vertia Uma lagrima sequer. Tinha a fé,—a chamma a arder,— Chorar é que não podia.
LIVROS E FLORES
Teus olhos são meus livros. Que livro ha ahi melhor, Em que melhor se leia A pagina do amor? Flôres me são, teus labios. Onde ha mais bella flôr, Em que melhor se beba O balsamo do amor?
PASSAROS
Je veux changer mes pensées en oiseaux.
C. MAROT.
Olha como, cortando os leves ares, Passam do valle ao monte as andorinhas; Vão pousar na verdura dos palmares, Que, á tarde, cobre transparente véu; Voam tambem como essas avezinhas Meus sombrios, meus tristes pensamentos; Zombam da furia dos contrarios ventos, Fogem da terra, acercam-se do céu. Porque o céu é tambem aquella estancia Onde respira a doce creatura, Filha de nosso amor, sonho da infancia, Pensamento dos dias juvenis. Lá, como esquiva flôr, formosa e pura, Vives tu escondida entre a folhagem, Ó rainha do ermo, ó fresca imagem Dos meus sonhos de amor calmo e feliz! Vão para aquella estancia, enamorados, Os pensamentos de minh'alma anciosa; Vão contar-lhe os meus dias mal gozados E estas noites de lagrimas e dôr; Na tua fronte pousarão, mimosa, Como as aves no cimo da palmeira; Dizendo aos écos a canção primeira De um livro escripto pela mão do amor. Dirão tambem como conservo ainda No fundo de minh'alma essa lembrança Da tua imagen vaporosa e linda, Unico alento que me prende aqui. E dirão mais que estrellas de esperança Enchem a escuridão das noites minhas. Como sobem ao monte as andorinhas, Meus pensamentos voam para ti.
O VERME
Existe uma flôr que encerra Celeste orvalho e perfume. Plantou-a em fecunda terra Mão benefica de um nume. Um verme asqueroso e feio, Gerado em lodo mortal, Busca esta flôr virginal E vai dormir-lhe no seio. Morde, sangra, rasga e mina, Suga-lhe a vida e o alento; A flôr o calix inclina; As folhas, leva-as o vento, Depois, nem resta o perfume Nos ares da solidão... Esta flôr é o coração, Aquelle verme o ciume.
UN VIEUX PAYS[3]
... juntamente choro e rio.
CAMÕES
Il est un vieux pays, plein d'ombre et de lumière, Où l'on rêve le jour, où l'on pleure le soir; Un pays de blasphème, autant que de prière, Né pour le doute et pour l'espoir. On n'y voit point de fleurs sans un ver qui les ronge, Point de mer sans tempête, ou de soleil sans nuit; Le bonheur y paraît quelquefois dans un songe Entre les bras du sombre ennui. L'amour y va souvent, mais c'est tout un délire, Un désespoir sans fin, une énigme sans mot; Parfois il rit gaîment, mais de cet affreux rire Qui n'est peut-être qu'un sanglot. On va dans ce pays de misère et d'ivresse, Mais on le voit à peine, on en sort, on a peur; Je l'habite pourtant, j'y passe ma jeunesse.... Hélas! ce pays, c'est mon cœur.
LUZ ENTRE SOMBRAS
É noite medonha e escura, Muda como o passamento Uma só no firmamento Tremula estrella fulgura. Falla aos écos da espessura A chorosa harpa do vento, E n'um canto somnolento Entre as arvores murmura. Noite que assombra a memoria, Noite que os medos convida, Erma, triste, merencoria. No entanto... minh'alma olvida Dôr que se transforma em gloria, Morte que se rompe em vida.
LYRA CHINEZA[4]
I
O POETA A RIR
(Han-Tiê.)
Taça d'agua parece o lago ameno; Tem os bambús a fórma de cabanas, Que as arvores em flôr, mais altas, cobrem Com verdejantes tectos. As ponteagudas rochas entre flôres, Dos pagodes o grave aspecto ostentam... Faz-me rir ver-te assim, ó natureza, Cópia servil dos homens.
II
A UMA MULHER
(Tchê-Tsi.)
Cantigas modulei ao som da flauta, Da minha flauta d'ebano; N'ellas minh'alma segredava á tua Fundas, sentidas mágoas. Cerraste-me os ouvidos. Namorados Versos compuz de jubilo, Por celebrar teu nome, as graças tuas, Levar teu nome aos seculos. Olhaste, e meneando a airosa frente, Com tuas mãos purissimas, Folhas em que escrevi meus pobres versos Lançaste ás ondas tremulas. Busquei então por encantar tu'alma Uma saphira esplendida, Fui depôl-a a teus pés... tu descerraste Da tua boca as perolas.
III
O IMPERADOR
(Tchu-Fu)
Olha. O Filho do Céu, em throno de ouro, E adornado com ricas pedrarias, Os mandarins escuta:—um sol parece De estrellas rodeado. Os mandarins discutem gravemente Cousas muito mais graves. E elle? Foge-lhe O pensamento inquieto e distrahido Pela janella aberta. Além, no pavilhão de porcellana, Entre donas gentis está sentada A imperatriz, qual flôr radiante e pura Entre viçosas folhas. Pensa no amado esposo, arde por vêl-o, Prolonga-se-lhe a ausencia, agita o leque... Do imperador ao rosto um sopro chega De rescendente briza. «Vem della este perfume,» diz, e abrindo Caminho ao pavilhão da amada esposa, Deixa na sala olhando-se em silencio Os mandarins pasmados.
IV
O LEQUE
(Tan-Jo-Lu.)
Na perfumada alcova a esposa estava, Noiva ainda na vespera. Fazia Calor intenso; a pobre moça ardia, Com fino leque as faces refrescava. Ora, no leque em boa lettra feito Havia este conceito: «Quando, immovel o vento e o ar pesado, «Arder o intenso estio, «Serei por mão amiga ambicionado; «Mas volte o tempo frio, «Ver-me-heis a um canto logo abandonado.» Lê a esposa este aviso, e o pensamento Volve ao joven marido. «Arde-lhe o coração n'este momento «(Diz ella) e vem buscar enternecido «Brandas auras de amor. Quando mais tarde «Tornar-se em cinza fria «O fogo que hoje lhe arde, «Talvez me esqueça e me desdenhe um dia.»
V
A FOLHA DO SALGUEIRO
(Tchan-Tiú-Lin.)
Amo aquella formosa e terna moça Que, á janella encostada, arfa e suspira; Não porque tem do largo rio á margem Casa faustosa e bella. Amo-a, porque deixou das mãos mimosas Verde folha cair nas mansas aguas. Amo a briza de léste que sussurra, Não porque traz nas azas delicadas O perfume dos verdes pecegueiros Da oriental montanha. Amo-a porque impelliu co'as tenues azas Ao meu batel a abandonada folha. Se amo a mimosa folha aqui trazida, Não é porque me lembre á alma e aos olhos A renascente, a amavel primavera, Pompa e vigor dos valles. Amo a folha por ver-lhe um nome escripto, Escripto, sim, por ella, e esse... é meu nome.
VI
AS FLORES E OS PINHEIROS
(Tin-Tun-Sing.)
Vi os pinheiros no alto da montanha Ouriçados e velhos; E ao sopé da montanha, abrindo as flôres Os calices vermelhos. Contemplando os pinheiros da montanha, As flôres tresloucadas Zombam d'elles enchendo o espaço em torno De alegres gargalhadas. Quando o outono voltou, vi na montanha Os meus pinheiros vivos, Brancos de neve, e meneiando ao vento Os galhos pensativos. Volvi o olhar ao sitio onde escutára Os risos mofadores; Procurei-as em vão; tinham morrido As zombeteiras flôres.
VII
REFLEXOS
(Thu-Fu.)
Vou rio abaixo vogando No meu batel e ao luar; Nas claras aguas fitando, Fitando o olhar. Das aguas vejo no fundo, Como por um branco véu, Intenso, calmo, profundo, O azul do céu. Nuvem que no céu fluctua, Fluctua n'agua tambem; Se a lua cobre, á outra lua Cobril-a vem. Da amante que me extasia, Assim, na ardente paixão, As raras graças copia Meu coração.
VIII
CORAÇÃO TRISTE FALLANDO AO SOL
(Su-Tebon.)
No arvoredo sussurra o vendaval do outono, Deita as folhas á terra, onde não ha florir E eu contemplo sem pena esse triste abandono; Só eu as vi nascer, vejo-as só eu cahir. Como a escura montanha, esguia e pavorosa Faz, quando o sol descamba, o valle ennoitecer, A montanha da alma, a tristeza amorosa, Tambem de ignota sombra enche todo o meu ser. Transforma o frio inverno a agua em pedra dura, Mas torna a pedra em agua um raio de verão; Vem, ó sol, vem, assume o throno teu na altura, Vê se pódes fundir meu triste coração.
UMA ODE DE ANACREONTE
(A MANUEL DE MELLO)
PERSONAGENS
LYSIAS. CLEON. MYRTO. TRES ESCRAVOS.
A scena é em Somos.
Sala de festim em casa de Lysias. A esquerda a mesa do festim; á direita uma mesa tendo em cima uma lampada apagada, e junto da lampada um rolo de papyro.
SCENA I
LYSIAS, CLEON, MYRTO.
(Estão no fim de um banquete, os dous homens deitados á maneira antiga, Myrto sentada entre os dous leitos. Tres escravos.)
LYSIAS.
Melancolica estás, bella Myrto. Bebamos! Aos prazeres!
CLEON.
Eu bebo á memoria de Samos. Samos vai terminar os seus dourados dias; Adeus, terra em que achei consolo ás agonais Da minha mocidade; adeus, Samos, adeus!
MYRTO.
Querem-lhe os deuses mal?
CLEON.
Não; dous olhos, os teus.
LYSIAS.
Bravo, Cleon!
MYRTO.
Poeta! os meus olhos?
CLEON.
São lumes Capazes de abrasar até os proprios numes. Samos é nova Troya, e tu és outra Helena, Quando Lesbos, a mão do Sappho, a ilha amena, Não vir a bella Myrto, a alegre cortezã, Armar-se-ha contra nós.
LYSIAS.
Lesbos é boa irmã.
MYRTO.
Outras bellezas tem, dignas da loura Venus.
CLEON.
Menos digna de tu.
MYRTO.
Mais do que eu.
LYSIAS.
Muito menos.
CLEON.
Tens vergonha de ser formosa e festejada, Myrto? Venus não que beleza envergonhada. Pois que dos immortaes houveste esse condão De inspirar quantos vês, inspira-os, Myrto.
MYRTO.
Não; São teus olhos, poeta; eu não tenho a belleza Que arrasta corações.
CLEON.
Divina singeleza!
LYSIAS (á parte).
Vejo através do manto as galas da vaidade.
(Alto.)
Vinho, escravo!
(O escravo deita vinho na taça de Lysias.)
Poeta, um brinde á mocidade. Trava de lyra e invoca o deus inspirador.
CLEON.
«Feliz em junto de ti, ouve a tua falla, amor!»
MYRTO.
Versos de Sapho!
CLEON.
Sim.
LYSIAS.
Vês? ó modestia pura. Elle é na poesia o que és na formosura. Faz versos de primor e esconde-os ao profano: Tem vergonha. Eu não sei se o vicio é lesbiano...
MYRTO.
Ah! tu és...
CLEON.
Lesbos foi minha patria tambem, Lesbos, a flôr do Egeo.
MYRTO.
Já não é?
CLEON.
Lesbos tem Tudo o que me fascina e tudo o que me mata: As festas do prazer e os olhos de uma ingrata. Fugi da patria e achei, já curado e tranquillo, Em Lysias um irmão, em Samos um asylo. Bem hajas tu que vens encher-me o coração!
LYSIAS.
Insaciavel! Não tens em Lysias um irmão?
MYRTRO.
Volto á patria.
CLEON.
Pois que! tu vais?
MYRTO.
Em poucos dias...
LYSIAS.
Fazes mal; tens aqui os moços e as folias, O gozo, a adoração; que te falta?
MYRTO.
Os meus ares.
CLEON.
A que vieste então?
MYRTO.
Successos singulares. Vim por acompanhar Lysicles, mercador De Naxos; tanto póde a constancia no amor! Corrêmos todo o Egeo e a costa ionia; fomos Comprar o vinho a Creta e a Tenodos os pomos. Ah! como é doce o amor na solidão das aguas! Tem-se vida melhor; esquecem-se-lhe as mágoas. Zephyro ouviu por certo os osculos febris, Os jubilos do affecto, as fallas juvenis; Ouviu-os, delatou ao deus que o mar governa A indiscreta ventura, a effusão doce e terna. Para a furia acalmar da sombria deidade, Nave e bens varreu tudo a horrivel tempestade. Foi assim que eu perdi a Lysicles, assim Que eu semi-morta e fria á tua plaga vim.
CLEON.
Ó coitada!
LYSIAS.
O infortunio os animos apura; As feridas que faz o mesmo Amor as cura; Brandem armas iguaes Achilles e Cupido. Queres ver n'outro amor o teu amor perdido? Samos o tem de sobra.
CLEON.
Eu, Myrto, eu sei amar; Não fio o coração da inconstancia do mar. Não tenho galeões rompendo o seio a Thetys, Estrada tanta vez ao torvo e obscuro Lethes. Aqui me tens; sou teu; escreve a minha sorte; Pódes doar-me a vida ou decretar-me a morte.
MYRTO.
Mas, se eu volto...
CLEON.
Pois bem! aonde quer que te vás Irei comtigo; a deusa indomita e fallaz Ser-me-ha hospede amiga; ao pé de ti a escura Noite parece aurora, e é berço a sepultura.
MYRTO.
Quando falla o dever, a vontade obedece; Eu devo ir só; tu fica, ama-me um pouco e esquece.
LYSIAS.
Tens razão, bella Myrto; escuta o teu dever.
CLEON.
Ai! é facil amar, difficil esquecer.
LYSIAS (a Myrto).
Queres pôr termo á festa? Um brinde a Venus, filha Da mar azul, belleza, encanto, maravilha; Nascida para ser perpetuamente amada. A Venus!
(Depois do brinde os escravos trazem os vasos com agua perfumada em que os convivas lavaram as mãos; os escravos saem levando os restos do banquete. Levantam-se todos.)
Queres tu, mimosa naufragada, Ouvir de hermonia serva, em lyra de marfim, Uma alegre canção? Preferes o jardim? O portico talvez?
MYRTO.
Lysias, sou indiscreta; Quizera antes ouvir a voz do teu poeta.
LYSIAS.
Nume não pede, impõe.
CLEON.
O mando é lisongeiro.
LYSIAS.
Pois começa.
SCENA II
OS MESMOS, UM ESCRAVO.
ESCRAVO.
Procura a Myrto um mensageiro.
MYRTO.
Um mensageiro! a mim!
LYSIAS.
Mando-o entrar.
ESCRAVO.
Não quer.
LYSIAS.
Vai, Myrto.
MYRTO (saindo).
Volto já. (Sae o escravo).
SCENA III
LYSIAS, CLEON.
CLEON.
(Olhando para o lugar por onde Myrto saiu.)
Oh! deuses! que mulher!
LYSIAS.
Ah! que perola rara!
CLEON.
Onde a encontraste?
LYSIAS.
Achei-a Com Parthenis que dava uma esplendida ceia; Parthenis, ex-bonita, ex-jovem, ex-da moda, Sabes que vê fugir-lhe a enfastiada roda; E, para não perder o grupo adorador, Fez do templo deserto uma escola de amor. Foi ella quem achou a naufraga perdida, Exposta ao vento e ao mar, quasi a expirar-lhe a vida. A belleza pagava o emprego de uma esmola; Dentro em pouco era Myrto a flôr de toda a escola.
CLEON.
Lembrou-te convidal-a então para um festim?
LYSIAS.
Foi um pouco por ella e um pouco mais por mim.
CLEON.
Tambem amas?
LYSIAS.
Eu? não. Quis ter á minha mesa Venus e o louro Apollo, a poesia e a belleza.
CLEON.
Oh! a belleza, sim! Viste já tanta graça, Tão celestes feições?
LYSIAS.
Cuidado! Aquella caça Zomba dos tiros vãos de ingenuo caçador!
CLEON.
Incredulo!
LYSIAS.
Eu sou mestre em materia de amor. Se tu, attento e calmo, a narração lhe ouvisses Conhecêras melhor o engenho d'esta Ulysses. Aquelle ardente amor a Lysicles, aquelle Fundo e intenso pesar que á sua patria a impelle, Armas são com que a astuta os animos seduz.
CLEON.
Oh! não creio.
LYSIAS.
Porque?
CLEON.
Não vês como lhe luz Tanta expressão sincera em seus olhos divinos?
LYSIAS.
Sim, tem muita expressão... para illudir meninos.
CLEON.
Pois tu não crês?
LYSIAS.
Em que? No naufragio? De certo. Em Lysicles? Talvez. No amor? é mais incerto. Na intenção de voltar a Lesbos? isso não! Sabes o que ela quer? Prender um coração.
CLEON.
Impossivel!
LYSIAS.
Poeta! estás na alegre idade Em que a sciencia da vida é a credulidade. Vês tudo azul e em flôr; eu já me não illudo. Pois amar cortezãs! isso demanda estudo, Não vai assim, que as tais abelhitas do amor Correm de bolsa em bolsa e não de flôr em flôr.
CLEON.
Mas não as amas tu?
LYSIAS.
De certo... á minha moda; Meu grande coração co'os vicios se acommoda; Sacrificios de amor não sonha nem procura; Não lhes pede illusões, pede-lhes só ternura. Não me empenho em achar alma ungida no céu: Se é crime este sentir, confesso-me, sou réu. Não peço amor ao vinho; irei pedil-o ás damas? D'ellas e d'elle exijo apenas estas chammas Que ardem sem consumir, na pyra dos desejos. Assim é que eu estimo as amphoras e os beijos. Lá protestos de amor, eternos e leaes, Tudo isso é fumo vão. Que queres? Os mortaes Somos todos assim.
CLEON.
Ai, os mortaes! dize antes Os philosophos máos, ridiculos pedantes, Os que não sabem crer, os fartos já de amores, Esses, sim. Os mortaes!
LYSIAS.
Refreia os teus furores, Poeta; eu não quizera amargurar-te, e enfim Não podia suppôr que a amasse tanto assim. Caspité! Vais depressa!
CLEON.
Ai, Lysias, é verdade, Amo-a como não amo a vida e a mocidade; De que modo nasceu esta affeição que encerra Todo o meu ser, ignoro. Acaso sabe a terra Por que é mais bella ao sol e ás auras matinaes? Amores estes são terriveis e fataes.
LYSIAS.
Vês com olhos do céu cousas que são do mundo; Acreditas achar esse affecto profundo, N'estas filhas do mal! Se a todo o transe queres Obter a casta flôr dos celicos prazeres, Deixa a alegre Corintho e todo o luxo seu; Outro porto acharás: procura o gyneceo. Escolhe aquelle amor doce, innocente e puro, Que inda não tem passado e vive no futuro. Para mim, já t'o disse, o caso é differente; Não me importa um nem outro; eu vivo no presente.
CLEON.
Deu-te amiga Fortuna um grande cabedal: Viver, sem illusões, no bem como no mal; Não conhecer o amor que morde, que se nutre Do nosso sangue, o amor funesto, o amor abutre; Não beber gotta a gotta este brando veneno Que requeima e destróe; não ver em mar sereno Subitamente erguer-se a voz dos aquilões. Afortunado és tu.
LYSIAS.
Lei de compensações! Sou philosopho mau, ridiculo pedante, Mas inveja-me a sorte; oh! logica de amante.
CLEON.
É a do coração.
LYSIAS.
Terrível mestre!
CLEON.
Ensina Dos seres immortaes a transfusão divina!
LYSIAS.
A lição é profunda e escapa ao meu saber; Outra escola professo, a escola do prazer!
CLEON.
Tu não tens coração.
LYSIAS.
Tenho, mas não me illudo. É Circe que perdeu o encanto e a juventude.
CLEON.
Velho Satyro!
LYSIAS.
Justo: um semi-deus sylvestre. N'estas cousas do amor nunca tive outro mestre. Tu gostas de chorar; eu cá prefiro rir. Tres artigos da lei: gozar, beber, dormir.
CLEON.
Compras com isso a paz; a mim coube-me o tedio, A solidão e a dôr.
LYSIAS.
Queres um bom remedio, Um filtro da Thessalia, um balsamo infallivel? Esquece emprezas vãs, não tentes o impossivel Prende o teu coração nos laços de Hymenêo; Casa-te; encontrarás o amor no gynecêo. Mas cortezãs! jámais! São Gorgones! Medusas!
CLEON.
Essas que conheceste e tão severo accusas —Pobres moças!—não são o universal modelo: De outras sei a quem coube um coração singelo, Que preferem a tudo a gloria singular De conhecer somente a sciencia de amar; Capazes de sentir o ardor da intensa chamma Que eleva, que resgata a vida que as infama.
LYSIAS.
Se achares tal milagre, eu mesmo irei pedir-t'o.
CLEON.
Basta um passo, achal-o-hei.
LYSIAS.
Bravo! chama-se?
CLEON.
Myrto, Que póde conquistar até o amor de um deus!
LYSIAS.
Crês n'isso?
CLEON.
Porque não?
LYSIAS.
Tu és um nescio; adeus!
SCENA IV
CLEON.
Vai, sceptico! tu tens o vicio da riqueza: Farto, não crês na fome... A minha singeleza Faz-te rir: tu não vês o amor que absorve e mata; Myrto, vinga-me tu da calumnia insensata; Amemo-nos. É ella!
SCENA V
CLEON, MYRTO
MYRTO.
Estás triste!
CLEON.
Oh! que não! Mas deslumbrado, sim, como se uma visão...
MYRTO.
A visão vai partir.
CLEON.
Mas muito tarde...
MYRTO.
Breve.
CLEON.
Quem te chama?
MYRTO.
O destino. E sabes quem me escreve?
CLEON.
Tua mãe.
MYRTO.
Já morreu.
CLEON.
Algum antigo amante?
MYRTO.
Lysicles.
CLEON.
Vive?
MYRTO.
Sim. Depois de andar errante N'uma taboa, á mercê das ondas, quiz o céu Que viesse encontral-o um barco do Pyreu. Pobre Lysicles! teve em tão cruenta lida A dôr da minha morte e a dôr da propria vida. Em vão interrogava o mar cioso e mudo. Perdêra, de uma vez, n'uma só noite, tudo, A ventura, a esperança, o amor, e perdeu mais: Naufragárão com ele os poucos cabedaes. Entrou em Samos pobre, inquieto, semi-morto, Um barqueiro, que a tempo atravessava o porto, Disse-lhe que eu vivia, e contou-lhe a aventura Da malfadada Myrto.
CLEON.
É isso, a sorte escura Voltou-se contra mim; não consente, não quer Que eu me farte de amor no amor de uma mulher. Vejo em cada paixão o fado que me opprime; O amar é já soffrer a pena do meu crime, Ixion foi mais audaz amando a deusa augusta; Transpôz o obscuro lago e soffre a pena justa, Mas eu não. Antes de ir ás regiões infernaes São as graças commigo Eumenides fataes!
MYRTO.
Caprichos de poeta! Amor não falta ás damas; Damas, tem-las aqui; inspira-lhe essas chammas.
CLEON.
Impõe-se leis ao mar? O coração é isto; Ama o que lhe convem; convem amar a Egistho Clytemnestra; convem a Cyntia Endymião; É caprichoso e livre o mar do coração; De outras sei que eu houvera em meus versos cantado; Não lhes quero... não posso.
MYRTO.
Ai, triste enamorado!
CLEON.
E tu zombas de mim!
MYRTO.
Eu zombar? Não; lamento A tua acerba dôr, o teu fatal tormento. Não conheço eu tambem esse cruel penar? Só dous remedios tens; esquecer, esperar. De quanto almeja e quer o amor nem tudo alcança; Contenta-se ao nascer co' as auras da esperança; Vive da propria mágoa; a propria dôr o alenta.
CLEON.
Mas, se a vida é tão curta, a agonia é tão lenta!
MYRTO.
Não sabes esperar? Então cumpre esquecer. Escolhe entre um e outro; é preciso escolher.
CLEON.
O prazer que a fulmina, e a dôr que a fortalece?
MYRTO.
Tens na ausencia e no tempo os velhos pais do olvido, O bem não alcançado é como o bem perdido, Pouco a pouco se esvai na mente e coração; Põe o mar entre nós... dissipa-se a illusão.
CLEON.
Impossivel!
MYRTO.
Então espera; algumas vezes A fortuna transforma em glorias os reveses.
CLEON.
Myrto, valem bem pouco as glorias já tardias.
MYRTO.
Um só dia de amor compensa estereis dias.
CLEON.
Compensará, mas quando? A mocidade em flôr Bem cedo morre, e é essa a que convem a amor. Vejo cair no occaso o sol da minha vida.
MYRTO.
Cabeça de poeta, exaltada e perdida! Pensas estar no occaso o sol que mal desponta?
CLEON.
A clepsydra do amor não conta as horas, conta As illusões; velhice é perdêl-as assim; Breve a noite abrirá seus véus por sobre mim.
MYRTO.
Não has de envelhecer; as illusões comtigo Flôres são que respeita Eolo brando e amigo. Guarda-as, talvez um dia, e não tarde, as colhamos.
CLEON.
Se eu a Lesbos não vou.
MYRTO.
Podem colher-se em Samos.
CLEON.
Voltas breve?
MYRTO.
Não sei.
CLEON.
Oh! sim, deves voltar!
MYRTO.
Tenho medo.
CLEON.
De quê?
MYRTO.
Tenho medo... do mar.
CLEON.
Teu sepulcro já foi; o medo é justo; fica. Lesbos é para ti mais formosa e mais rica. Mas a patria é o amor; o amor transmuda os ares. Muda-se o coração? Mudam-se os nossos lares. Da importuna memoria o teu passado exclue; Vida nova nos chama, outro céu nos influe. Fica; eu disfarçarei com rosas este exilio; A vida é um sonho máu: façamo-la um idylio. Cantarei a teus pés a nossa mocidade. A belleza que impõe, o amor que persuade, Venus que faz arder o fogo da paixão, Teu olhar, doce luz que vem do coração. Pericles não amou com tanto ardor a Aspasia, Nem esse que morreu entre as pompas da Asia, A Lais siciliana. Aqui as Horas bellas Tecerão para ti vivissimas capellas. Nem morrerás; teu nome em meus versos ha de ir, Vencendo o tempo e a morte, aos seculos porvir.
MYRTO.
Tanto me queres tu!
CLEON.
Imensamente. Anseio Por sentir, bella Myrto, arfar teu brando seio, Bater teu coração, tremer teu labio puro, Todo viver de ti.
MYRTO.
Confia no futuro.
CLEON.
Tão longe!
MYRTO.
Não, bem perto.
CLEON.
Ah! que dizes?
MYRTO
Adeus!
(Passa junto da mesa da direita e vê o rolo de papyro.)
Curiosa que sou!
CLEON.
São versos.
MYRTO.
Versos teus?
(Lysias aparece ao fundo.)
CLEON.
De Anacreonte, o velho, o amavel, o divino.
MYRTO.
A musa é toda ionia, e o verso é peregrino.
(Abre o papyro e lê)
«Fez-se Niobe em pedra e Philomena em passaro.[5] «Assim «Folgaria eu tambem me transformasse Jupiter «A mim. «Quisera ser o espelho em que o teu rosto magico «Sorri; «A tunica feliz que sempre se está proxima «De ti; «O banho de crystal que esse teu corpo candido «Contém; «O aroma de teu uso e d'onde effluvios magicos «Provêm; «Depois esse listão que de teu seio turgido «Faz dous; «Depois do teu pescoço o rosicler de perolas; «Depois... «Depois ao ver-te assim, unica e tão sem emulas «Qual és, «Até quisera ser teu calçado, e pisassem-me «Teus pés.»
Que magnificos são!
CLEON.
Minha alma assim te falla.
MYRTO
Attendendo ao poeta eu pensava escutal-a.
CLEON.
Eco do meu sentir foi o velho amador; Tais os desejos são do meu profundo amor. Sim, eu quizera ser tudo isto—o espelho, o banho, O calçado, o collar... Desejo acaso extranho, Louca ambição talvez de poeta exaltado...
MYRTO.
Tanto sentes por mim?
SCENA VI
CLEON, MYRTO, LYSIAS
LYSIAS (entrando.)
Amor, nunca sonhado. Se a musa d'elle és tu!
CLEON.
Lysias!
MYRTO.
Ouviste?
LYSIAS.
Ouvi. Versos que Anacreonte houvera feito a ti, Se vivesses no tempo em que, pulsando a lyra, Estas odes compôz que a velha Grecia admira.
(A Cleon.)
Quer fallar-te um sujeito, um Clinias, um colega, Ex-mercador, como eu.
MYRTO.
Ai, que importuno!
LYSIAS.
Allega Que não póde esperar, que isto não póde ser, Que um processo... A final não n'o pude entender. Pode ser que comtigo o homem se accommode. Prometeste talvez compor-lhe alguma ode?
CLEON.
Não. Adeus, bella Myrto; espera-me um instante.
MYRTO.
Não tardes!
LYSIAS (á parte.)
Indiscreta!
CLEON.
Espera.
LYSIAS (á parte.)
Petulante!
SCENA VII
MYRTO, LISIAS.
MYRTO.
Sou curiosa. Quem é Clinias, ex-mercador? Amigo d'elle?
LYSIAS.
Mais do que isso; é um credor.
MYRTO.
Ah!
LYSIAS.
Que bello rapaz! que alma fogosa e pura, Bem digna de aspirar-te um hausto de ventura! Queira o céu pôr-lhe termo á profunda agonia, Surja emfim para elle o sol de um novo dia. Merece-o. Mas vê lá se ha destino peior: Quer o alado Mercurio obstar o alado Amor. Com beijos não se paga a pompa do vestido, O expetaculo e a mesa; e se o gentil Cupido Gosta de ouvir canções, o outro não vai com ellas; Vale uma drachma só vinte odezinhas bellas. Um poema não compra um simples borzeguim. Versos! são bons de ler, mais nada; eu penso assim.
MYRTO.
Pensas mal! A poesia é sempre um dom celeste; Quando o genio o possue quem ha que o não requeste? Hermes, com ser o deus dos graves mercadores, Tocou lyra tambem.
LYSIAS.
Já sei que estás de amores.
MYRTO.
Que esperança! Bem vês que eu já não posso amar.
LYSIAS.
Perdeste o coração?
MYRTO.
Sim; perdi-o no mar.
LYSIAS.
Pesquemol-o; talvez essa perola fina Venha ornar-me a existencia agourada e mofina.
MYRTO.
Mofina?
LYSIAS.
Pois então? Enfarão-me estas bellas Da terra samiana; assaz vivi por elas. Outras desejo amar, filhas do azul Egeo. Varia de feições o Amor, como Protheo.
MYRTO.
Seu carater melhor foi sempre o ser constante.
LYSIAS.
Serei menos fiel, não sou menos amante. Cada belleza em si toda a paixão resume. Pouco me importa a flôr; importa-me o perfume.
MYRTO.
Mas quem quer o perfume afaga um pouco a flôr; Nem fere o objecto amado a mão que implora o amor.
LYSIAS.
Offendo-te com isto? Esquece a minha ofensa.
MYRTO.
Já esqueci; passou.
LYSIAS.
Quem falla como pensa Arrisca-se a perder ou por sobra ou por mingoa. Eu confesso o meu mal; não sei tentear a lingua. Pois que me perdoaste, escuta-me. Tu tens A graça das feições, o summo bem dos bens; Moça, trazes na fronte o doce beijo de Hebe Como um philtro de amor que, sem sentir, se bebe, De teus olhos destilla a eterna juventude; De teus olhos que um deus, por lhes dar mais virtude, Fez azues como o céu, profundos como o mar. Quem taes dotes reune, ó Myrto, deve amar.
MYRTO.
Fallas como um poeta, e zombas da poesia!
LYSIAS.
Eu, poeta? jámais.
MYRTO.
A tua fantasia Respirou certamente o ar do monte Hymmeto. Tem a expressão tão doce!
LYSIAS.
É a expressão do affecto. Sou em cousas de Apollo um simples amador. A minha grande musa é Venus, mãe do amor. No mais não apprendi (os fados meus adversos Vedárão-m'o!) a cantar bons e sentidos versos. Cleon, esse é que sabe accender tantas almas, Conquistar de um só lance os corações e as palmas.
MYRTO.
Conquistar, oh! que não!
LYSIAS.
Mas agradar?
MYRTO.
Talvez.
LYSIAS.
Isso mesmo; é já muito. O que o poeta fez Fal-o-ei jamais? Contudo, inda tental-o quero; Se não me inspira a musa, alma filha de Homero, Inspira-me o desejo, a musa que delira, E o seu canto concerta aos sons da eterna lyra.
MYRTO.
Tambem desejas ser alguma coisa?
LYSIAS.
Não; Eu caso o meu amor ás regras da razão. Cleon quizera ser o espelho em que teu rosto Sorri; eu, bela Myrto, eu tenho melhor gosto. Ser espelho! ser banho! e tunica! tolice! Esteril ambição! loucura! criancice! Por Venus! sei melhor o que a mim me convem. Homem sisudo e grave outros desejos tem. Fiz, a este respeito, aprofundado estudo; Eu não quero ser nada; eu quero dar-te tudo. Escolhe o mais perfeito espelho de aço fino, A tunica melhor de pano tarentino, Vasos de oleo, um colar de perolas,—enfim Quanto enfeita uma dama aceital-o-has de mim. Brincos que vão ornar-te a orelha graciosa; Para os dedos o annel de pedra preciosa; A tua fronte pede aureo, rico anadema; Têl-o-has, divina Myrto. É este o meu poema.
MYRTO.
É lindo!
LYSIAS.
Queres tu, outras estrophes mais? Dar-t'as-hei quais as teve a celebrada Lais. Casa, rico jardim, servas de toda a parte; E estatuas e paineis, e quantas obras d'arte Podem servir de ornato ao templo da belleza, Tudo haverás de mim. Nem gosto nem riqueza Tu ha de faltar, mimosa, e só quero um penhor. Quero... quero-te a ti.
MYRTO.
Pois que! já quer a flôr, Quem desdenhando a flôr, só lhe pede o perfume?
LYSIAS.
Esqueceste o perdão?
MYRTO.
Ficou-me este azedume.
LYSIAS.
Venus póde apagal-o.
MYRTO.
Eu sei, creio e não creio.
LYSIAS.
Hesitar é ceder: agrada-me o receio. Em assumpto de amor, vontade que fluctua Está prestes a entregar-se. Entregas-te?
MYRTO.
Sou tua!
SCENA VIII
LYSIAS, MYRTO, CLEON.
CLEON.
Demorei-me demais?
LYSIAS.
Apenas o bastante Para que fosse ouvido um coração amante. A Lesbiana é minha.
CLEON.
És d'elle, Myrto!
MYRTO.
Sim; Eu ainda hesitava; ele fallou por mim.
CLEON.
Quantos amores tens, filha do mal?
LYSIAS.
Presinto. Uma lamentação inutil. «A Corintho Não vai quem quer,» lá diz aquelle velho adagio. Navegavas sem leme; era certo o naufragio. Não me viste sulcar as mesmas aguas?
CLEON.
Vi, Mas contava com ella, e confiava em ti. Mais duas illusões! Que importa? Inda são poucas; Desfação-se uma a uma estas chimeras loucas. Ó arvore bemdita, ó minha juventude, Vão-te as flôres caindo ao vento aspero e rude! Não vos maldigo, não; eu não maldigo o mar Quando a nave sossobra; o erro é confiar. Adeus, formosa Myrto; adeus, Lysias; não quero Perturbar vosso amor, eu que já nada espero; Eu que vou arrancar as profundas raizes Desta paixão funesta; adeus, sede felizes!
LYSIAS.
Adeus! Saudemos nós a Vénus e a Lyeo.
AMBOS.
Io Pœan! ó Baccho! Himenêo! Himenêo!
PALLIDA ELVIRA
(A FRANCISCO PAZ)
Ulysse, jeté sur les rives d'Ithaque, ne les reconnait pas et pleure sa patrie. Ainsi l'homme dans le bonheur possédé ne reconnait pas son rêve et soupire.
DANIEL STERN.
I
Quando, leitora amiga, no occidente Surge a tarde esmaiada e pensativa; E entre a verde folhagem rescendente Languida geme viração lasciva; E já das tenues sombras do oriente Vem apontando a noite, e a casta diva Subindo lentamente pelo espaço, Do céu, da terra observa o estreito abraço;
II
N'essa hora de amor e de tristeza, Se acaso não amaste e acaso esperas Ver coroar-te a juvenil belleza Casto sonho das tuas primaveras; Não sentes escapar tua alma acesa Para voar ás lucidas espheras? Não sentes n'essa mágoa e n'esse enleio Vir morrer-te uma lagrima no seio?
III
Sêntel-o? Então entenderás Elvira, Que assentada á janella, erguendo o rosto, O vôo solta á alma que delira E mergulha no azul de um céu de agosto; Entenderás então porque suspira, Victima já de um intimo desgosto, A meiga virgem, pallida e calada, Sonhadora, anciosa e namorada.
IV
Mansão de riso e paz, mansão de amores Era o valle. Espalhava a natureza, Com dadivosa mão, palmas e flôres De agreste aroma e virginal belleza; Bosques sombrios de immortaes verdores, Asylo proprio á inspiração accesa, Valle de amor, aberto ás almas ternas N'este valle de lagrimas eternas.
V
A casa, junto á encosta de um outeiro, Alva pomba entre folhas parecia: Quando vinha a manhã, o olhar primeiro Ia beijar-lhe a verde gelosia: Mais tarde a fresca sombra de um coqueiro Do sol quente a janella protegia; Pouco distante, abrindo o solo adusto, Um fio d'agua murmurava a custo.
VI
Era uma joia a alcova em que sonhava Elvira, alma de amor. Tapete fino De apurado lavor o chão forrava. De um lado oval espelho crystallino Pendia. Ao fundo, á sombra, se occultava Elegante, engraçado, pequenino Leito em que, repousando a face bella, De amor sonhava a pallida donzella.
VII
Não me censure o critico exigente O ser pallida a moça; é meu costume Obedecer á lei de toda a gente Que uma obra compõe de algum volume. Ora, no nosso caso, é lei vigente Que um descorado rosto o amor resume. Não tinha Miss Smolen outras côres; Não n'as possue quem sonha com amores.
VIII
Sobre uma mesa havia um livro aberto; Lamartine, o cantor aereo e vago, Que enche de amor um coração deserto; Tinha-o lido; era a pagina do Lago. Amava-o; tinha-o sempre alli bem perto, Era-lhe o anjo bom, o deos, o orago; Chorava aos cantos da divina lyra.... É que o grande poeta amava Elvira!
IX
Elvira! o mesmo nome! A moça os lia, Com lagrimas de amor, os versos santos, Aquella eterna e languida harmonia Formada com suspiros e com prantos; Quando escutava a musa da elegia Cantar de Elvira os magicos encantos, Entrava-lhe a voar a alma inquieta, E com o amor sonhava de um poeta.
X
Ai, o amor de um poeta! amor subido! Indelevel, purissimo, exaltado, Amor eternamente convencido, Que vai além de um tumulo fechado, E que, através dos seculos ouvido, O nome leva do objecto amado, Que faz de Laura um culto, e tem por sorte Negra fouce quebrar nas mãos da morte.
XI
Fosse eu moça e bonita... N'este lance Se o meu leitor é já homem sisudo, Fecha tranquillamente o meu romance, Que não serve a recreio nem a estudo; Não entendendo a força nem o alcance De semelhante amor, condemna tudo; Abre um volume serio, farto e enorme, Algumas folhas lê, boceja... e dorme.
XII
Nada perdes, leitor, nem perdem nada As esquecidas musas; pouco importa Que tu, vulgar materia condemnada, Aches que um tal amor é lettra morta. Pódes, cedendo á opinião honrada, Fechar á minha Elvira a esquiva porta. Almas de prosa chã, quem vos daria Conhecer todo o amor que ha na poesia?
XIII
Ora, o tio de Elvira, o velho Antero, Erudito e philosopho profundo, Que sabia de cór o velho Homero, E compunha os annaes do Novo Mundo; Que escrevêra uma vida de Severo, Obra de grande tomo e de alto fundo; Que resumia em si a Grecia e Lacio, E n'um salão fallava como Horacio;
XIV
Disse uma noite á pallida sobrinha: «Elvira, sonhas tanto! devaneias! «Que andas a procurar, querida minha? «Que ambições, que desejos ou que idéas «Fazem gemer tua alma innocentinha? «De que esperança vã, meu anjo, anceias? «Teu coração de ardente amor suspira; «Que tens?—Eu nada,» respondia Elvira.
XV
«Alguma cousa tens!» tornava o tio; «Porque olhas tu as nuvens do poente, «Vertendo ás vezes lagrimas a fio, «Magoada expressão d'alma doente? «Outras vezes, olhando a agua do rio, «Deixas correr o espirito indolente, «Como uma flôr que ao vento alli tombára, «E a onda murmurando arrebatára.»
XVI
«—Latet anguis ïn herba...» Neste instante Entrou a tempo o chá... perdão, leitores, Eu bem sei que é preceito dominante Não misturar comidas com amores; Mas eu não vi, nem sei se algum amante Vive de orvalho ou petalas de flôres; Namorados estomagos consomem; Comem Romeos, e Julietas comem.
XVII
Entrou a tempo o chá, e foi servil-o, Sem responder, a moça interrogada, C'um ar tão soberano e tão tranquillo Que o velho emmudeceu. Ceia acabada, Fez o escriptor o costumado chylo, Mas um chylo de especie pouco usada, Que consistia em ler um livro velho; N'essa noite acertou ser o Evangelho.
XVIII
Abríra em S. Matheus, n'aquelle passo Em que o filho de Deus diz que a açucena Não labora nem fia, e o tempo escasso Vive, co' o ar e o sol, sem dôr nem pena; Leu e estendendo o já tremulo braço A triste, á melancolica pequena, Apontou-lhe a passagem da Escriptura Onde lêra lição tão recta e pura.
XIX
«Vês? diz o velho, escusas de cansar-te; «Deixa em paz teu espirito, criança: «Se existe um coração que deva amar-te, «Ha de vir; vive só d'essa esperança. «As venturas do amor um deos reparte; «Queres têl-as? põe n'elle a confiança. «Não persigas com supplicas a sorte; «Tudo se espera; até se espera a morte!
XX
«A doutrina da vida é esta: espera, «Confia, e colherás a anciada palma; «Oxalá que eu te apague essa chimera «Lá diz o bom Demophilo que á alma; «Como traz a andorinha a primavera, «A palavra do sabio traz a calma, «O sabio aqui sou eu. Ris-te, pequena? «Pois melhor; quero ver-te uma açucena!»
XXI
Paliava aquelle velho como falla Sobre côres um cego de nascença. Pear a juventude! Condemnal-a Ao somno da ambição vivaz e intensa! Co' as leves azas da esperança ornal-a E não querer que rompa a esphera immensa! Não consentir que esta manhã de amores Encha com frescas lagrimas as flôres
XXII
Mal o velho acabava e justamente Na rija porta ouviu-se uma pancada. Quem seria? Uma serva diligente, Travando de uma luz, desceu a escada. Pouco depois rangia brandamente A chave, e a porta aberta dava entrada A um rapaz embuçado que trazia Uma carta, e ao doutor fallar pedia.
XXIII
Entrou na sala, e lento, e gracioso, Descobriu-se e atirou a capa a um lado; Era um rosto poetico e viçoso Por soberbos cabellos coroado; Grave sem gesto algum pretencioso, Elegante sem ares de enfeitado; Nos labios frescos um sorriso amigo, Os olhos negros e o perfil antigo.
XXIV
Demais, era poeta. Era-o. Trazia N'aquelle olhar não sei que luz extranha Que indicava um alumno da poesia, Um morador da classica montanha, Um cidadão da terra da harmonia, Da terra que eu chamei nossa Allemanha, N'uns versos que hei de dar um dia a lume, Ou n'alguma gazeta, ou n'um volume.
XXV
Um poeta! e de noite! e de capote! Que é isso, amigo autor? Leitor amigo. Imagina que estás n'um camarote Vendo passar-se em scena um drama antigo, Sem lança não conheço D. Quixote, Sem espada é apocrypho um Rodrigo; Heróe que ás regras classicas escapa, Póde não ser heróe, mas traz a capa.
XXVI
Heitor (era o seu nome) ao velho entrega Uma carta lacrada; vem do norte. Escreve-lhe um philosopho collega Já quasi a entrar no thalamo da morte. Recommenda-lhe o filho, e lembra, e allega, A provada amizade, o esteio forte, Com que outr'ora, acudindo-lhe nos transes, Salvou-lhe o nome de terriveis lances.
XXVII
Dizia a carta: «Crime ou virtude, «É meu filho poeta; e corre fama «Que já faz honra á nossa juventude «Co' a viva inspiração de etherea chamma; «Diz elle que, se o genio não o illude, «Camões seria se encontrasse um Gama. «Deos o fade; eu perdôo-lhe tal sestro; «Guia-lhe os passos, cuida-lhe do estro.»
XXVIII
Lida a carta, o philosopho erudito Abraça o moço e diz em tom pausado: «Um sonhador do azul e do infinito! «É hospede do céu, hospede amado. «Um bom poeta é hoje quasi um mytho, «Se o talento que tem é já provado, «Conte co' o meu exemplo e o meu conselho; «Boa lição é sempre a voz de um velho.»
XXIX
E trava-lhe da mão, e brandamente Leva-o junto d'Elvira. A moça estava Encostada á janella, e a esquiva mente Pela extensão dos ares lhe vagava. Voltou-se distrahida, e de repente Mal nos olhos de Heitor o olhar fitava, Sentiu... Inutil fora relatal-o; Julgue-o quem não puder experimental-o.
XXX
Ó santa e pura luz do olhar primeiro! Elo de amor que duas almas liga! Raio de sol que rompe o nevoeiro E casa a flôr á flôr! Palavra amiga Que, trocada um momento passageiro, Lembrar parece uma existencia antiga! Lingua, filha do céu, doce eloquencia Dos melhores momentos da existencia!
XXXI
Entra a leitora n'uma sala cheia; Vai isenta, vai livre de cuidado: Na cabeça gentil nenhuma idéa, Nenhum amor no coração fechado. Livre como a andorinha que volteia E corre loucamente o ar azulado. Venham dous olhos, dous, que a alma buscava... Era senhora? ficará escrava!
XXXII
C'um só olhar escravos elle e ella Já lhes pulsa mais forte o sangue e a vida; Rapida corre aquella noite, aquella Para as castas venturas escolhida; Assoma já nos labios da donzella Lampejo de alegria esvaecida. Foi milagre de amor, prodigio santo. Quem mais fizera? Quem fizera tanto?
XXXIII
Preparára-se ao moço um aposento. Oh! reverso da antiga desventura! Têl-o perto de si! viver do alento De um poeta, alma languida, alma pura! Dá-lhe, ó fonte do casto sentimento, Aguas santas, baptismo de ventura! Emquanto o velho, amigo de outra fonte, Vai mergulhar-se em pleno Xenophonte.
XXXIV
Devo agora contar, dia por dia, O romance dos dous? Inutil fôra; A historia é sempre a mesma; não varia A paixão de um rapaz e uma senhora. Vivem ambos do olhar que se extasia E conversa co'a alma sonhadora; Na mesma luz de amor os dous se inflammam; Ou, como diz Philinto: «Amados, amam.»
XXXV
Todavia a leitora curiosa Talvez queira saber de um incidente; A confissão dos dous;—scena espinhosa Quando a paixão domina a alma que sente. Em regra, confissão franca e verbosa Revela um coração independente; A paz interior tudo confia, Mas o amor, esse hesita e balbucia.
XXXVI
O amor faz monosyllabos; não gasta O tempo com analyses compridas; Nem é proprio de boca amante e casta Um chuveiro de phrases estendidas; Um volver d'olhos languido nos basta Por conhecer as chammas comprimidas; Coração que discorre e faz estylo, Tem as chaves por dentro e está tranquillo.
XXXVII
Deu-se o caso uma tarde em que chovia, Os dous estavão na varanda aberta. A chuva peneirava, e além cobria Cinzento véu o occaso; a tarde incerta Já nos braços a noite a recebia, Como amorosa mãe que a filha aperta Por enxugar-lhe os prantos magoados. Eram ambos immoveis e calados.
XXXVIII
Juntos, ao parapeito da varanda, Viam cahir da chuva as gottas finas, Sentindo a viração fria, mas branda, Que balançava as frouxas casuarinas. Raras, ao longe, de uma e de, outra banda, Pelas do céu tristissimas campinas, Viam correr da tempestade as aves Negras, serenas, lugubres e graves.
XXXIX
De quando em quando vinha uma rajada Borrifar e agitar a Elvira as tranças, Como se fôra a briza perfumada Que á palmeira sacode as tenues franças. A fronte gentilissima e engraçada Sacudia co'a chuva as más lembranças; E ao passo que chorava a tarde escura Ria-se n'ella a aurora da ventura.
XL
«Que triste a tarde vai! que véu de morte «Cobrir parece a terra! (o moço exclama), «Reproducção fiel da minha sorte, «Sombra e choro.—Porque? pergunta a dama; «Diz que teve dos céus uma alma forte... «—É forte o bronze e não resiste á chamma; «Leu versos meus em que zombei do fado? «lllusões de poeta mallogrado!»
XLI
«Somos todos assim. E nossa gloria «Contra o destino oppôr alma de ferro; «Desafiar o mal, eis nossa historia, «E o tremendo duello é sempre um erro. «Custa-nos caro uma fallaz victoria «Que nem consola as mágoas do desterro, «O desterro,—esta vida obscura e rude «Que a dôr enfeita e as victimas illude.
XLII
«Contra esse mal tremendo que devora «A seiva toda á nossa mocidade, «Que remedio haveriamos, senhora, «Senão versos de affronta e liberdade? «No emtanto, bastaria acaso um'hora, «Uma só, mas de amor, mas de piedade, «Para trocar por seculos de vida «Estes de dôr acerba e envilecida.»
XLIII
Al não disse, e, fitando olhos ardentes Na moça, que de enleio enrubecia, Com discursos mais fortes e eloquentes Na exposição do caso proseguia; A pouco e pouco as mãos intelligentes Traváram-se; e não sei se conviria Accrescentar que um osculo... Risquemos, Não é bom mencionar estes extremos.
XLIV
Duas sombrias nuvens afastando, Tenue raio de sol rompêra os ares, E, no amoroso grupo desmaiando, Testemunhou-lhe as nupcias singulares. A nesga azul do occaso contemplando, Sentirão ambos irem-lhe os pezares, Como nocturnas aves agoureiras Que á lua fogem medrosas e ligeiras.
XLV
Tinha mágoas o moço? A causa d'ellas? Nenhuma causa; fantasia apenas; O eterno devanear das almas bellas, Quando as dominam fervidas camenas; Uma ambição de conquistar estrellas, Como se colhem lucidas phalenas; Um desejo de entrar na eterna lida, Um querer mais do que nos cede a vida.
XLVI
Com amores sonhava, ideal formado De celestes e eternos esplendores, A ternura de um anjo destinado A encher-lhe a vida de perpetuas flôres. Tinha-o emfim, qual fôra antes creado Nos seus dias de mágoas e amargores; Madrugavão-lhe n'alma a luz e o riso; Estava á porta emfim do paraiso.
XLVII
N'essa noite, o poeta namorado Não conseguiu dormir. A alma fugíra Para ir velar o doce objecto amado, Por quem, nas ancias da paixão, suspira; E é provavel que, achando o exemplo dado, Ao pé de Heitor viesse a alma de Elviva; De maneira que os dous, de si ausentes, Lá se achavão mais vivos e presentes.
XLVIII
Ao romper da manhã, co'o sol ardente, Briza fresca, entre as folhas sussurrando, O não-dormido vate acorda, e a mente Lhe foi dos vagos sonhos arrancando. Heitor contempla o valle resplendente, A flôr abrindo, o passaro cantando; E a terra que entre risos acordava, Ao sol do estio as roupas enxugava.
XLIX
Tudo então lhe sorria. A natureza, As musas, o futuro, o amor e a vida; Quanto sonhára aquella mente accesa Dera-lhe a sorte, emfim, compadecida. Um paraiso, uma gentil belleza, E a ternura castissima e vencida De um coração creado para amores, Que exhala affectos como aroma as flôres.
L
E ella? Se conheceste em tua vida, Leitora, o mal do amor, delirio santo, Dôr que eleva e conforta a alma abatida, Embriaguez do céu, divino encanto, Se a tua face ardente e enrubecida Pallejou com suspiros e com prantos, Se ardeste emfim, naquella intensa chamma, Entenderás o amor de ingenua dama.
LI
Repara que eu não fallo desse enleio De uma noite de baile ou de palestra; Amor que mal agita a flôr do seio, E ao chá termina e acaba com a orchestra; Não me refiro ao simples galanteio Em que cada menina é velha mestra, Avesso ao sacrifício, á dor e ao choro; Fallo do amor, não fallo do namoro.
LII
Eden de amor, ó solidão fechada, Casto asylo a que o sol dos novos dias Vai mandar, como a furto, a luz coada Pelas frestas das verdes gelosias, Guarda-os ambos; conserva-os recatada. Almas feitas de amor e de harmonias, Tecei, tecei as vividas capellas, Deixai correr sem susto as horas bellas.
LIII
Cá fóra o mundo insipido e profano Não dá, nem póde dar o enleio puro Das almas novas, nem o doce engano Com que se esquecem males do futuro. Não busqueis penetrar n'este oceano Em que se agita o temporal escuro. Por fugir ao naufragio e ao soffrimento, Tendes uma enseada,—o casamento.
LIV
Resumamos, leitora, a narrativa. Tanta strophe a cantar ethereas chammas Pede compensação, musa insensiva, Que fatigais sem pena o ouvido ás damas. Demais, é regra certa e positiva Que muitas vezes as maiores famas Perde-as uma ambição de tagarella; Musa, aprende a lição; musa, cautela!