POESIAS (continued 3)
Reading edition
ULTIMA JORNADA[27]
I
E ella se foi n'esse clarão primeiro, Aquella esposa misera e ditosa; E elle se foi o perfido guerreiro. Ella serena ia subindo e airosa, Elle á força de incognitos pesares Dobra a cerviz rebelde e luctuosa. Iam assim, iam cortando os ares, Deixando embaixo as fertiles campinas, E as florestas, e os rios e os palmares. Oh! candidas lembranças infantinas! Oh! vida alegre da primeira taba; Que aurora vos tomou, aves divinas? Como um tronco do matto que desaba, Tudo caiu; lei barbara e funesta: O mesmo instante cria e o mesmo acaba. De esperanças tamanhas o que resta? Uma historia, uma lagrima chorada Sobre as ultimas ramas da floresta. A flôr do ipê a viu brotar maguada, E talvez a guardou no seio amigo, Como lembrança da estação passada. Agora os dois, deixando o bosque antigo, E as campinas, e os rios e os palmares, Para subir ao derradeiro abrigo, Iam cortando lentamente os ares.
II
E elle clamava á moça que ascendia; «—Oh! tu que a doce luz eterna levas, E vais viver na região do dia, «Vê como rasgam barbaras e sevas As tristezas mortaes ao que se afunda Quasi na fria região das trevas! «Olha esse sol que a criação inunda! Oh quanta luz, oh! quanta doce vida Deixar-me vae na escuridão profunda! «Tu ao menos perdoa-me, querida! Suave esposa, que eu ganhei roubando, Perdida agora para mim, perdida! Ao maldito na morte, ao miserando, Que mais lhe resta em sua noite impura? Sequer allivio ao coração nefando. «Nos olhos trago a tua morte escura. Foi meu odio cruel que há decepado, Ainda em flôr, a tua formosura. «Mensageiro de paz, era enviado Um dia á taba de teus pais, um dia Que melhor fôra se não fôra nado. Ali te vi; ali, entre a alegria De teus fortes guerreiros e donzellas, Teu doce rosto para mim sorria. «A mais bella eras tu entre as mais bellas, Como no céu a creadora lua Vence na luz as vívidas estrellas. «Gentil nasceste por desgraça tua; Eu covarde nasci; tu me seguiste; E ardeu a guerra desabrida e crua. «Um dia o rosto carregado e triste Á taba de teus pais volveste, o rosto Com que alegre e feliz d'ali fugiste. «Tinha expirado o passageiro gosto, Ou o sangue dos teus, correndo a fio, Em teu seio outro affecto havia posto. «Mas, ou fosse remorso, ou já fastio, Ias-te agora leve e descuidada, Como folha que o vento entrega ao rio. «Oh! corça minha fugitiva e amada! Anhangá te guiou por mau caminho, E a morte poz na minha mão fechada. «Feriu-me da vingança agudo espinho; E fiz-te padecer tão cruas penas, Que inda me doe o coração mesquinho. «Ao contemplar aquellas tristes scenas As aves, de piedosas e sentidas, Chorando foram sacudindo as pennas. «Não viu o cedro ali correr perdidas Lagrimas de materno amado seio; Viu somente morrer a flôr das vidas. «O que mais houve da floresta em meio O sinistro expectaculo, de certo Nenhum estranho contemplal-o veio. «Mas, se alguem penetrasse no deserto, Vira cair pesadamente a massa Do corpo do guerreiro; e o craneo aberto, «Como se fôra derramada taça Pela terra jazer, ali chamando O feio grasno do urubú que passa. «Em vão a arma do golpe irão buscando, Nenhuma houve; nem guerreiro ousado A tua morte ali foi castigando. «Talvez, talvez Tupan, desconsolado, A pena contemplou maior do que era O delicto; e de colera tomado, «Ao mais alto dos Andes estendera O forte braço, e da arvore mais forte A setta e o arco vingador colhêra; «As pontas lhe dobrou, da mesma sorte Que o junco dobra, sussurrando o vento, E de um só tiro lhe enviou a morte.” Ia assim suspirando este lamento, Quando subitamente a voz lhe cala, Como se a dor lhe suffocára o alento. No ar se perdêra a lastimosa falla, E o infeliz, condenado á noite escura, Os dentes range e treme de encontral-a. Leva os olhos na viva aurora pura Em que vê penetrar, já longe, aquella Doce, mimosa, virginal figura. Assim no campo a timida gazella Foge e se perde; assim no azul dos mares Some-se e morre fugidia vela. E nada mais se viu fluctuar nos ares; Que elle, bebendo as lagrimas que chora, Na noite entrou dos immortaes pesares, E ella de todo mergulhou na aurora.
OS ORISES[28]
(Fragmento)
I
Nunca as armas christans, nem do Evangelho O lume criador, nem frecha extranha O valle penetraram dos guerreiros Que, entre serros altissimos sentado, Orgulhoso descança. Unico o vento, Quando as azas desprega impetuoso, Os campos varre e as selvas estremece, Um pouco leva, ao recatado asylo, Da poeira da terra. Acaso o raio Alguma vez nos asperos penedos, Com fogo escreve a assolação e o susto. Mas olhos de homem, não; mas braço affeito A pleitear na guerra, a abrir ousado Caminho entre a espessura da floresta, Não affrontára nunca os atrevidos Muros que a natureza a pino erguêra Como eterna atalaia.
II
Um povo indocil Nessas brenhas achou ditosa patria, Livre, como o rebelde pensamento Que ímpia força não doma, e airoso volve Inteiro á eternidade. Guerra longa E porfiosa os adestrou nas armas; Rudes são nos costumes mais que quantos Ha criado este sol, quantos na guerra O tacape meneiam vigoroso. Só nas festas de plumas se ataviam Ou na pelle do tigre o corpo envolvem, Que o sol queimou, que a rispidez do inverno Endureceu como os robustos troncos Que só verga o tufão. Tecer não usam A preguiçosa rede em que se embale O corpo fatigado do guerreiro, Nem as tabas erguer como outros povos; Mas á sombra das arvores antigas, Ou nas medonhas cavas dos rochedos, No duro chão, sobre mofinas ervas, Acham somno de paz, jamais tolhido De ambições, de remorsos. Indomavel Essa terra não é; prompto lhes volve O semeado pão; vecejam flôres Com que a rudez tempera a extensa matta, E o fructo pende dos curvados ramos Do arvoredo. Harta messe do homem rude, Que tem na ponta da farpada setta O pesado tapir, que lhes não foge, Nhandu, que á flôr de terra inquieto voa, Sobejo pasto, e deleitoso e puro Da selvagem nação. Nunca vaidade De seu nome souberam, mas a força, Mas a destreza do provado braço Os foros são do imperio a que hão sugeito Todo aquelle sertão. Murmuram longe, Contra elles, as gentes debelladas Vingança e odio. Os ecos repetiram Muita vez a pocema de combate; Nuvens e nuvens de afiadas settas Todo o ar cobriram; mas o extremo grito Da victoria final só delles fôra.
III
Despem armas de guerra; a paz os chama E o seu barbaro rito. Alveja perto O dia em que primeiro a voz levante A ave sagrada, o nume de seus bosques, Que de agouro chamamos, Cupuaba Melancholica e feia, mas ditosa E benefica entre eles. Não se curvam[29] Ao nome de Tupan, que a noite e o dia No céu reparte, e ao rispido guerreiro Guarda os sonhos do Ybake e eternas danças. Seu deus unico é ella, a bemfazeja Ave amada, que os campos despovoa Das venenosas serpes,—viva imagem Do tempo vingador, lento e seguro, Que as calumnias, a inveja e o odio apagam, E ao conspurcado nome o alvor primeiro Restitue. Uso é delles celebrar-lhe Com festas o primeiro e o extremo canto.
IV
Terminára o cruento sacrificio. Ensopa o chão da dilatada selva Sangue de caitetus, que o pio intento Largos mezes cevou; barbara usança Tambem de alheios climas. As donzellas, Mal sahidas da infancia, inda embebidas Nos ledos jogos de primeira edade, Ao brutal sacrificio... Oh! cala, esconde, Labio christão, mais barbaro costume.
V
Agora a dansa, agora alegres vinhos, Trez dias ha que de inimigos povos Esquecidos os trazem. Sobre um tronco Sentado o chefe, carregado o rosto, Inquieto o olhar, o gesto pensativo, Como alheio ao prazer, de quando em quando Á multidão dos seus a vista alonga, E um rugido no peito lhe murmura. Quem a fronte enrugara do guerreiro? Inimigo não foi, que o medo nunca O sangue lhe esfriou, nem vão receio Da batalha futura o desenlace Lhe fez incerto. Intrepidos como elle Poucos vira este céu. Seu forte braço, Quando vibra o tacape nas pelejas, De rasgados cadaveres o campo Inteiro alastra, e ao peito do inimigo, Como um grito de morte a voz lhe soa. Nem só nas gentes o terror infunde; É fama que em seus olhos cor da noite, Inda creança, um genio lhe deixara Mysteriosa luz, que as forças quebra Da onça e do jaguar. Certo é que um dia (A tribu o conta, e seus pagés o juram) Um dia em que, do filho acompanhado, Ia costeando a orla da floresta, Um possante jaguar, escancarando A bocca, em frente do famoso chefe Estacára. De longe um grito surdo Solta o jovem guerreiro; logo a setta Embebe no arco, e o tiro sibilante Ia já disparar, quando de assombro A mão lhe afrouxa a distendida corda. A fera o colo timida abatêra, Sem ousar despregar os fulvos olhos Dos olhos do inimigo. Ureth ousado Arco e frechas atira para longe, A massa empunha, e lento, e lento avança; Trez vezes volteando a arma terrivel, Enfim despede o golpe; um grito apenas Unico atroa o solitario campo, E a fera jaz, e o vencedor sobre ella.
OCCIDENTAES
O DESFECHO
Prometheu sacudiu os braços manietados E supplice pediu a eterna compaixão, Ao ver o desfilar dos seculos que vão Pausadamente, como um dobre de finados. Mais dez, mais cem, mais mil e mais um billião, Uns cingidos de luz, outros ensanguentados... Subito, sacudindo as asas de tufão, Fita-lhe a aguia em cima os olhos espantados. Pela primeira vez a viscera do heroe, Que a immensa ave do céu perpetuamente roe, Deixou de renascer ás raivas que a consomem. Uma invisivel mão as cadeias dilue; Frio, inerte, ao abysmo um corpo morto rue; Acabára o supplicio e acabára o homem.
CIRCULO VICIOSO
Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume: —«Quem me dera que fosse aquella loura estrella, Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!» Mas a estrella, fitando a lua, com ciume: —«Pudesse eu copiar o transparente lume, Que, da grega columna á gothica janella, Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bella!» Mas a lua, fitando o sol, com azedume: —«Misera! tivesse eu aquella enorme, aquella Claridade immortal, que toda a luz resume!» Mas o sol, inclinando a rutila capella: —«Pesa-me esta brilhante aureola de nume... Enfara-me esta azul e desmedida umbella... Por que não nasci eu um simples vagalume?»
UMA CREATURA
Sei de uma creatura antiga e formidavel, Que a si mesma devora os membros e as entranhas Com a sofreguidão da fome insaciavel. Habita juntamente os valles e as montanhas; E no mar, que se rasga, á maneira de abysmo, Espreguiça-se toda em convulsões extranhas. Traz impresso na fronte o obscuro despotismo; Cada olhar que despede, acerbo e mavioso, Parece uma expansão de amor e de egoísmo. Friamente contempla o desespero e o gozo, Gosta do colibri, como gosta do verme, E cinge ao coração o bello e o monstruoso. Para ella o chacal é, como a rola, inerme; E caminha na terra imperturbavel, como Pelo vasto areal um vasto paquyderme. Na arvore que rebenta o seu primeiro gomo Vem a folha, que lento e lento se desdobra, Depois a flôr, depois o suspirado pomo. Pois essa criatura está em toda a obra: Cresta o seio da flôr e corrompe-lhe o fructo; E é nesse destruir que as suas forças dobra. Ama de igual amor o polluto e o impolluto; Começa e recomeça uma perpetua lida, E sorrindo obedece ao divino estatuto. Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.
A ARTHUR DE OLIVEIRA, Enfermo
Sabes tu de um poeta enorme Que andar não usa No chão, e cuja estranha musa, Que nunca dorme, Calça o pé, melindroso e leve, Como uma pluma, De folha e flôr, de sol e neve, Crystal e espuma; E mergulha, como Leandro, A fórma rara No Pó, no Sena, em Guanabara E no Scamandro; Ouve a Tupan e escuta a Momo, Sem controversia, E tanto ama o trabalho, como Adora a inercia; Ora do fuste, ora da ogiva, Sair parece; Ora o Deus do occidente esquece Pelo deus Siva; Gosta do estrepito infinito, Gosta das longas Solidões em que se ouve o grito Das arapongas; E, se ama o lepido besouro, Que zumbe, zumbe, E a mariposa que succumbe Na flamma de ouro, Vagalumes e borboletas, Da côr da chamma, Roxas, brancas, rajadas, pretas, Não menos ama Os hippopotamos tranquillos, E os elephantes, E mais os bufalos nadantes E os crocodilos, Como as girafas e as pantheras, Onças, condores, Toda a casta de bestas feras E voadores. Se não sabes quem elle seja Trepa de um salto, Azul acima, onde mais alto A aguia negreja; Onde morre o clamor iniquo Dos violentos, Onde não chega o riso obliquo Dos fraudulentos; Então, olha de cima posto Para o oceano, Verás n'um longo rosto humano Teu proprio rosto. E has de rir, não do riso antigo, Potente e largo, Riso de eterno moço amigo, Mas de outro amargo, Como o riso de um deus enfermo Que se aborrece Da divindade, e que apetece Tambem um termo...
MUNDO INTERIOR
Ouço que a natureza é uma lauda eterna De pompa, de fulgor, de movimento e lida, Uma escala de luz, uma escala de vida De sol á infima luzerna. Ouço que a natureza,—a natureza externa,— Tem o olhar que namora, e o gesto que intimida Feiticeira que ceva uma hydra de Lerna Entre as flôres da bella Armida. E comtudo, se fecho os olhos, e mergulho Dentro em mim, vejo á luz de outro sol, outro abysmo Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho, Róla a vida immortal e o eterno cataclismo, E, como o outro, guarda em seu ambito enorme, Um segredo que attrae, que desafia—e dorme.
O CORVO
(EDGAR POE)
Em certo dia, á hora, á hora Da meia-noite que apavora, Eu, cahindo de somno e exausto de fadiga, Ao pé de muita lauda antiga, De uma velha doutrina, agora morta, Ia pensando, quando ouvi á porta Do meu quarto um soar devagarinho, E disse estas palavras taes: «É alguem que me bate á porta de mansinho; «Ha de ser isso e nada mais.» Ah! bem me lembro! bem me lembro! Era no glacial Dezembro; Cada braza do lar sobre o chão reflectia A sua ultima agonia. Eu, ancioso pelo sol, buscava Saccar d'aquelles livros que estudava Repouso (em vão!) á dôr esmagadora D'estas saudades immortaes Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora. E que ninguem chamará mais. E o rumor triste, vago, brando Das cortinas ia acordando Dentro em meu coração um rumor não sabido, Nunca por elle padecido. Enfim, por aplacal-o aqui no peito, Levantei-me de pronto, e: «Com effeito, (Disse) é visita amiga e retardada «Que bate a estas horas taes. «É visita que pede á minha porta entrada: «Ha de ser isso e nada mais.» Minh'alma então sentiu-se forte; Não mais vacillo e d'esta sorte Fallo: «Imploro de vós,—ou senhor ou senhora, «Me desculpeis tanta demora. «Mas como eu, precisando de descanço, «Já cochilava, e tão de manso e manso «Batestes, não fui logo, prestemente, «Certificar-me que ahi estaes.» Disse; a porta escancaro, acho a noite somente, Sómente a noite, e nada mais. Com longo olhar escruto a sombra, Que me amedronta, que me assombra, E sonho o que nenhum mortal ha já sonhado, Mas o silencio amplo e calado, Calado fica; a quietação quieta; Só tu, palavra unica e dilecta, Lenora, tu, como um suspiro escasso, Da minha triste boca saes; E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço; Foi isso apenas, nada mais. Entro com alma incendiada. Logo depois outra pancada Sôa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ella: «Seguramente, há na janella «Alguma cousa que sussurra. Abramos, «Eia, fôra o temor, eia, vejamos «A explicação do caso mysterioso «D'essas duas pancadas taes. «Devolvamos a paz ao coração medroso, «Obra do vento e nada mais.» Abro a janella, e de repente, Vejo tumultuosamente Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias. Não despendeu em cortezias Um minuto, um instante. Tinha o aspecto De um lord ou de uma lady. E pronto e recto, Movendo no ar as suas negras alas, Acima vôa dos portaes, Trepa, no alto da porta, em um busto de Pallas; Trepado fica, e nada mais. Diante da ave feia e escura, Naquella rigida postura, Com o gesto severo,—o triste pensamento Sorriu-me alli por um momento, E eu disse: «Ó tu que das nocturnas plagas «Vens, embora a cabeça nua tragas, «Sem topete, não és ave medrosa, «Dize os teus nomes senhoriaes; «Como te chamas tu na grande noite umbrosa?» E o corvo disse: «Nunca mais.» Vendo que o psssaro entendia A pergunta que lhe eu fazia, Fico attonito, embora a resposta que dera Difficilmente lha entendera. Na verdade, jamais homem ha visto Cousa na terra semelhante a isto: Uma ave negra, friamente posta N'um busto, acima dos portaes, Ouvir uma pergunta e dizer em resposta Que este é seu nome: «Nunca mais.» No emtanto, o corvo solitario Não teve outro vocabulario, Como se essa palavra escassa que alli disse Toda a sua alma resumisse. Nenhuma outra proferiu, nenhuma, Não chegou a mexer uma só pluma, Até que eu murmurei: «Perdi outr'ora Tantos amigos tão leaes! Perderei tambem este em regressando a aurora.» E o corvo disse: «Nunca mais.» Estremeço. A resposta ouvida É tão exacta! é tão cabida! «Certamente, digo eu, essa é toda a sciencia «Que ele trouxe da convivencia «De algum mestre infeliz e acabrunhado «Que o implacavel destino ha castigado «Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga, «Que dos seus cantos usuaes «Só lhe ficou, na amarga e ultima cantiga, «Esse estribilho: «Nunca mais.» Segunda vez, nesse momento, Sorriu-me o triste pensamento; Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo; E mergulhando no velludo Da poltrona que eu mesmo alli trouxera Achar procuro a lugubre quimera, A alma, o sentido, o pavido segredo Daquelas syllabas fataes, Entender o que quiz dizer a ave do medo Grasnando a phrase: «Nunca mais.» Assim posto, devaneando, Meditando, conjecturando, Não lhe fallava mais; mas, se lhe não fallava, Sentia o olhar que me abrazava. Conjecturando fui, tranquillo a gosto, Com a cabeça no macio encosto Onde os raios da lampada cahiam, Onde as tranças angelicaes De outra cabeça outr'ora alli se desparziam, E agora não se esparzem mais. Suppuz então que o ar, mais denso, Todo se enchia de um incenso, Obra de seraphins que, pelo chão roçando Do quarto, estavam meneando Um ligeiro thuribulo invisivel; E eu exclamei então: «Um Deus sensivel «Manda repouso á dor que te devora «D'estas saudades immortaes. «Eia, esquece, eia, olvida essa extincta Lenora.» E o corvo disse: «Nunca mais.» «Propheta, ou o que quer que sejas! «Ave ou demonio que negrejas! «Propheta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno «Onde reside o mal eterno, «Ou simplesmente naufrago escapado «Venhas do temporal que te ha lançado «N'esta casa onde o Horror, o Horror profundo «Tem os seus lares triumphaes, «Dize-me: existe acaso um balsamo no mundo?» E o corvo disse: «Nunca mais.» «Propheta, ou o que quer que sejas! «Ave ou demonio que negrejas! «Propheta sempre, escuta, attende, escuta, attende! «Por esse céu que além se estende, «Pelo Deus que ambos adoramos, falla, «Dize a esta alma se é dado inda escutal-a «No Eden celeste a virgem que ella chora «Nestes retiros sepulchraes, «Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!» E o corvo disse: «Nunca mais.» «Ave ou demonio que negrejas! «Propheta, ou o que quer que sejas! «Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa! «Regressa ao temporal, regressa «Á tua noite, deixa-me commigo. «Vae-te, não fique no meu casto abrigo «Pluma que lembre essa mentira tua. «Tira-me ao peito essas fataes «Garras que abrindo vão a minha dor já crua.» E o corvo disse: «Nunca mais.» E o corvo ahi fica; eil-o trepado No branco marmore lavrado Da antiga Pallas; ei-lo immutavel, ferrenho. Parece, ao ver-lhe o duro cenho, Um demonio sonhando. A luz cahida Do lampião sobre a ave aborrecida No chão espraia a triste sombra; e, fóra D'aquelas linhas funeraes Que fluctuam no chão, a minha alma que chora Não sai mais, nunca, nunca mais!
PERGUNTAS SEM RESPOSTA
Venus Formosa, Venus fulgurava No azul do céu da tarde que morria, Quando á janella os braços encostava Pallida Maria. Ao ver o noivo pela rua umbrosa, Os longos olhos avidos enfia, E fica de repente côr de rosa Pallida Maria. Correndo vinha no cavallo baio, Que ela de longe apenas distinguia, Correndo vinha o noivo, como um raio... Pallida Maria! Trez dias são, trez dias são apenas, Antes que chegue o suspirado dia, Em que elles porão termo ás longas penas... Pallida Maria! De confusa, naquelle sobressalto, Que a presença do amado lhe trazia, Olhos accesos levantou ao alto Pallida Maria. E foi subindo, foi subindo acima No azul do céu da tarde que morria, A ver se achava uma sonora rima... Pallida Maria! Rima de amor, ou rima de ventura, As mesmas são na escala da harmonia. Pousa os olhos em Venus que fulgura Pallida Maria. E o coração, que de prazer lhe bate, Acha no astro a fraterna melodia Que á natureza inteira dá rebate... Pallida Maria. Maria pensa: «Tambem tu, decerto, «Esperas ver, neste final do dia, «Um noivo amado que cavalga perto, «Pallida Maria?» Isto dizendo, subito escutava Um estrepito, um grito e vozeria, E logo a frente em ancias inclinava Pallida Maria. Era o cavallo, rabido, arrastando Pelas pedras o noivo que morria; Maria o viu e desmaiou gritando... Pallida Maria! Sobem o corpo, vestem-lhe a mortalha, E a mesma noiva, semi-morta e fria, Sobre elle as folhas do noivado espalha. Pallida Maria! Cruzam-se as mãos, na derradeira prece Muda que o homem para cima envia, Antes que desça á terra em que apodrece. Pallida Maria! Seis homens tomam do caixão fechado E vão leval-o á cova que se abria; Terra e cal e um responso recitado... Pallida Maria Quando, trez soes passados, rutilava A mesma Venus, no morrer do dia, Tristes olhos ao alto levantava Pallida Maria. E murmurou: «Tens a expressão do goivo, «Tens a mesma roaz melancholia; «Certamente perdeste o amor e o noivo, «Pallida Maria?» Venus, porém, Venus brilhante e bella, Que nada ouvia, nada respondia, Deixa rir ou chorar n'uma janela Pallida Maria.
TO BE OR NOT TO BE
(SHAKESPEARE)
Ser ou não ser, eis a questão. Acaso É mais nobre a cerviz curvar aos golpes Da ultrajosa fortuna, ou já lutando Extenso mar vencer de acerbos males? Morrer, dormir, não mais. E um somno apenas, Que as angustias extingue e á carne a herança Da nossa dor eternamente acaba, Sim, cabe ao homem suspirar por elle. Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe! Ai, eis a duvida. Ao perpetuo somno, Quando o lodo mortal despído houvermos, Que sonhos hão de vir? Pesal-o cumpre. Essa a razão que os luctuosos dias Alonga do infortunio. Quem do tempo Soffrer quizera ultrajes e castigos, Injurias da oppressão, baldões do orgulho, Do mal prezado amor choradas maguas, Das leis a inercia, dos mandões a affronta, E o vão desdem que de rasteiras almas O paciente merito recebe, Quem, se na ponta da despida lamina Lhe acenára o descanço? Quem ao pezo De uma vida de enfados e miserias Quereria gemer, se não sentira Terror de alguma não sabida cousa Que aguarda o homem para lá da morte, Esse eterno paiz mysterioso D'onde um viajor sequer ha regressado? Este só pensamento enleia o homem; Este nos leva a supportar as dores Já sabidas de nós, em vez de abrirmos Caminho aos males que o futuro esconde, E a todos acovarda a consciencia. Assim da reflexão á luz mortiça A viva côr da decisão desmaia; E o firme, essencial commettimento, Que esta ideia abalou, desvia o curso, Perde-se, até de acção perder o nome.
LINDOYA
Vem, vem das aguas, misera Moema, Senta-te aqui. As vozes lastimosas Troca pelas cantigas deleitosas, Ao pé da doce e pallida Coema. Vós, sombras de Iguassú e de Iracema, Trazei nas mãos, trazei no collo as rosas Que o amor desabrochou e fez viçosas Nas laudas de um poema e outro poema. Chegai, folgai, cantai. É esta, é esta De Lindoya, que a voz suave e forte Do vate celebrou, a alegre festa. Além do amavel, gracioso porte, Vede o mimo, a ternura que lhe resta. Tanto inda é bella no seu rosto a morte!
SUAVE MARI MAGNO
Lembra-me que, em certo dia, Na rua, ao sol de verão, Envenenado morria Um pobre cão. Arfava, espumava e ria, De um riso espurio e bufão, Ventre e pernas sacudia Na convulsão. Nenhum, nenhum curioso Passava, sem se deter, Silencioso, Junto ao cão que ia morrer, Como se lhe désse gozo Ver padecer.
A MOSCA AZUL
Era uma mosca azul, azas de ouro e granada, Filha da China ou do Indostão, Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada, Em certa noite de verão. E zumbia, e voava, e voava, e zumbia Refulgindo ao clarão do sol E da lua,—melhor do que refulgiria Um brilhante do Grão-Mogol. Um poleá que a viu, espantado e tristonho, Um poleá lhe perguntou: «Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho, Dize, quem foi que t'o ensinou?» Então ella, voando, e revoando, disse: —«Eu sou a vida, eu sou a flôr «Das graças, o padrão da eterna meninice, «E mais a gloria, e mais o amor.» E elle deixou-se estar a contemplal-a, mudo, E tranquillo, como um faquir, Como alguem que ficou deslembrado de tudo, Sem comparar, nem reflectir. Entre as azas do insecto, a voltear no espaço, Uma cousa lhe pareceu Que surdia, com todo o resplendor de um paço E viu um rosto, que era o seu. Era elle, era um rei, o rei de Cachemira, Que tinha sobre o collo nú Um immenso collar de opala, e uma saphyra Tirada do corpo de Vischnu. Cem mulheres em flôr, cem nayras superfinas, Aos pés delle, no liso chão, Espreguiçam sorrindo as suas graças finas, E todo o amor que tem lhe dão. Mudos, graves, de pé, cem ethiopes feios, Com grandes leques de avestruz, Refrescam-lhes de manso os aromados seios, Voluptuosamente nus. Vinha a gloria depois;—quatorze reis vencidos, E enfim as páreas triumphaes De trezentas nações, e os parabens unidos Das coroas occidentaes. Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto Das mulheres e dos varões, Como em agua que deixa o fundo descoberto, Via limpos os corações. Então elle, estende a mão callosa e tosca, Affeita a só carpintejar, Com um gesto pegou na fulgurante mosca, Curioso de a examinar. Quiz vel-a, quis saber a causa do mysterio. E, fechando-a na mão, sorriu De contente, ao pensar que alli tinha um imperio, E para casa se partiu. Alvoroçado chega, examina, e parece Que se houve nessa occupação Miudamente, como um homem que quizesse Dissecar a sua illusão. Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ella, Rota, baça, nojenta, vil, Succumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquella Visão fantastica e subtil. Hoje, quando elle ahi vae, de aloé e cardamomo Na cabeça, com ar taful, Dizem que ensandeceu, e que não sabe como Perdeu a sua mosca azul.
ANTONIO JOSE
(21 DE OUTUBRO DE 1739)
Antonio, a sapiencia da Escriptura Clama que ha para a humana creatura Tempo de rir e tempo de chorar, Como ha um sol no ocaso, e outro na aurora. Tu, sangue de Ephraim e de Issacar, Pois que já riste, chora.
SPINOZA
Gosto de ver-te, grave e solitario, Sob o fumo de esqualida candeia, Nas mãos a ferramenta de operario, E na cabeça a coruscante ideia. E emquanto o pensamento delineia Uma philosophia, o pão diario A tua mão a labutar grangeia E achas na independencia o teu salario. Sôem cá fora agitações e lutas, Sibille o bafo asperrimo do inverno, Tu trabalhas, tu pensas, e executas Sobrio, tranquillo, desvellado e terno, A lei commum, e morres, e transmutas O suado labor no premio eterno.
GONÇALVES CRESPO
Esta musa da patria, esta saudosa Niobe dolorida, Esquece acaso a vida, Mas não esquece a morte gloriosa. E pallida, e chorosa, Ao Tejo vôa, onde no chão caida Jaz aquella evadida Lyra da nossa America viçosa. Com ella torna, e, dividindo os ares, Trepido, molle, doce movimento Sente nas frouxas cordas singulares. Não é a aza do vento, Mas a sombra do filho, no momento De entrar perpetuamente os patrios lares.
ALENCAR
Hão de annos volver,—não como as neves De alheios climas, de geladas cores; Hão de os annos volver, mas como as flôres, Sobre o teu nome, vividos e leves... Tu, cearense musa, que os amores Meigos e tristes, rusticos e breves, Da indiana escreveste,—ora os escreves No volume dos patrios esplendores. E ao tornar este sol, que te ha levado, Já não acha a tristeza. Extincto é o dia Da nossa dor, do nosso amargo espanto. Porque o tempo implacavel e pausado, Que o homem consumiu na terra fria, Não consumiu o engenho, a flôr, o encanto...
CAMÕES
I
Tu quem és? Sou o seculo que passa. Quem somos nós? A multidão fremente. Que cantamos? A gloria resplendente. De quem? De quem mais soube a força e a graça. Que cantou elle? A vossa mesma raça. De que modo? Na lyra alta e potente. A quem amou? A sua forte gente. Que lhe deram? Penuria, ermo, desgraça. Nobremente soffreu? Como homem forte. Esta immensa oblação?... É-lhe devida. Paga?... Paga-lhe toda a adversa sorte. Chama-se a isto? A gloria appetecida. Nós, que o cantamos?... Volvereis á morte. Elle, que é morto?... Vive a eterna vida.
II
Quando, transposta a lugubre morada Dos castigos, ascende o florentino Á região onde o clarão divino Enche de intensa luz a alma nublada, A saudosa Beatriz, a antiga amada, A mão lhe estende e guia o peregrino, E aquelle olhar ethereo e cristallino Rompe agora da palpebra sagrada. Tu, que tambem o Purgatorio andaste, Tu, que rompeste os circulos do Inferno, Camões, se o teu amor fugir deixaste, Ora o tens, como um guia alto e superno Que a Natercia da vida que choraste Chama-se Gloria e tem o amor eterno.
III
Quando, torcendo a chave mysteriosa Que os cancellos fechava do Oriente, O Gama abriu a nova terra ardente Aos olhos da companha valorosa, Talvez uma visão resplandecente Lhe amostrou no futuro a sonorosa Tuba, que cantaria a acção famosa Aos ouvidos da própria e extranha gente. E disse: «Se já n'outra, antiga edade, «Troya bastou aos homens, ora quero «Mostrar que é mais humana a humanidade. «Pois não serás heroe de um canto fero, «Mas vencerás o tempo e a immensidade «Na voz de outro moderno e brando Homero.»
IV
Um dia, junto á foz de brando e amigo Rio de extranhas gentes habitado, Pelos mares asperrimos levado, Salvaste o livro que viveu comtigo. E esse que foi ás ondas arrancado, Já livre agora do mortal perigo, Serve de arca immortal, de eterno abrigo, Não só a ti, mas ao teu berço amado. Assim, um homem só, naquelle dia, Naquelle escasso ponto do universo, Lingua, historia, nação, armas, poesia, Salva das frias mãos do tempo adverso. E tudo aquillo agora o desafia. E tão sublime preço cabe em verso.
1802-1835
Um dia, celebrando o genio e a eterna vida, Victor Hugo escreveu numa pagina forte Estes nomes que vão galgando a eterna morte, Isaias, a voz de bronze, alma sahida Da coxa de David; Eschylo que a Orestes E a Prometheu, que sofre as vinganças celestes Deu a nota immortal que abala e persuade, E transmitte o terror, como excita a piedade; Homero, que cantou a colera potente De Aquilles, e colheu as lagrimas troyanas Para gloria maior da sua amada gente, E com elle Virgilio e as graças virgilianas; Juvenal que marcou com ferro em brasa o hombro Dos tyrannos, e o velho e grave florentino, Que mergulha no abysmo, e caminha no assombro, Baixa humano ao inferno e regressa divino; Logo após Calderon, e logo após Cervantes; Voltaire, que mofava, e Rabelais que ria; E, para coroar esses nomes vibrantes, Shakespeare, que resume a universal poesia. E agora que elle ahi vae, galgando a eterna morte, Pega a Historia da penna e na pagina forte, Para continuar a serie interrompida, Escreve o nome d'elle, e dá-lhe a eterna vida.
JOSÉ DE ANCHIETA
Esse que as vestes asperas cingia, E a viva flôr da ardente juventude Dentro do peito a todos escondia; Que em paginas de areia vasta e rude Os versos escrevia e encomendava Á mente, como esforço de virtude; Esse nos rios de Babel achava, Jerusalem, os cantos primitivos, E novamente aos ares os cantava. Não procedia então como os captivos De Syão, consumidos de saudade, Velados de tristeza, e pensativos. Os cantos de outro clima e de outra edade Ensinava sorrindo ás novas gentes, Pela lingua do amor e da piedade. E iam caindo os versos excellentes No abençoado chão, e iam caindo Do mesmo modo as mysticas sementes. Nas florestas os passaros, ouvindo O nome de Jesus e os seus louvores, Iam cantando o mesmo canto lindo. Eram as notas como alheias flôres Que verdejam no meio de verduras De diversas origens e primores. Anchieta, soltando as vozes puras, Achas outra Syão neste hemispherio, E a mesma fé e egual amor apuras. Certo, ferindo as cordas do psalterio, Unicamente contas divulgal-a A palavra christã e o seu mysterio. Trepar não cuidas a luzente escala Que os heroes cabe e leva á clara esphera Onde eterna se faz a humana fala. Onde os tempos não são esta chimera Que apenas brilha e logo se esvaece, Como folhas de escassa primavera. Onde nada se perde nem se esquece, E no dorso dos seculos trazido O nome de Anchieta resplandece Ao vivo nome do Brasil unido.
SONETO DE NATAL
Um homem,—era aquella noite amiga, Noite christã, berço do Nazareno,— Ao relembrar os dias de pequeno, E a viva dança, e a lepida cantiga, Quiz transportar ao verso doce e ameno As sensações da sua edade antiga, Naquella mesma velha noite amiga, Noite christã, berço do Nazareno. Escolheu o soneto... A folha branca Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca, A penna não acode ao gesto seu. E, em vão lutando contra o metro adverso, Só lhe saiu este pequeno verso: «Mudaria o Natal ou mudei eu?»
OS ANIMAIS ISCADOS DA PESTE
(LA FONTAINE)
Mal que espalha o terror e que a ira celeste Inventou para castigar Os peccados do mundo, a peste, em summa, a peste, Capaz de abastecer o Aqueronte n'um dia, Veio entre os animaes lavrar; E, se nem tudo succumbia, Certo é que tudo adoecia. Já nenhum, por dar mate ao moribundo alento, Catava mais nenhum sustento. Não havia manjar que o appetite abrisse, Raposa ou lobo que saisse Contra a presa innocente e mansa, Rola que á rola não fugisse, E onde amor falta, adeus, folgança! O leão convocou uma assembléa e disse: «Sócios meus, certamente este infortunio veio A castigar-nos de peccados. Que o mais culpado entre os culpados Morra por applacar a colera divina. Para a commum saúde esse é, talvez, o meio. Em casos taes é de uso haver sacrificados; Assim a historia nol-o ensina. Sem nenhuma illusão, sem nenhuma indulgencia, Pesquizemos a consciencia. Quanto a mim, por dar mate ao impeto glotão, Devorei muita carneirada. Em que é que me offendera? em nada. E tive mesmo occasião De comer egualmente o guarda da manada. Portanto, se é mister sacrificar-me, prompto. Mas, assim como me accusei, Bom é que cada um se accuse, de tal sorte Que (devemos querel-o, e é de todo ponto Justo) caiba ao maior dos culpados a morte.» «—Meu senhor, accudiu a raposa, é ser rei Bom demais; é provar melindre exagerado. Pois então devorar carneiros, Raça lorpa e villã, pode lá ser peccado? Não. Vós fizestes-lhes, senhor, Em os comer, muito favor. E no que toca aos pegureiros, Toda a calamidade era bem merecida, Pois são daquellas gentes taes Que imaginaram ter posição mais subida Que a de nós outros animaes.» Disse a raposa, e a corte applaudiu-lhe o discurso. Ninguem do tigre nem do urso, Ninguem de outras iguaes senhorias do matto, Inda entre os actos mais damninhos, Ousava esmerilhar um acto; E até os ultimos rafeiros, Todos os bichos resingueiros, Não eram, no entender geral, mais que uns santinhos. Eis chega o burro:«—Tenho ideia que no prado De um convento, indo eu a passar, e picado Da occasião, da fome e do capim viçoso, E póde ser que do tinhoso, Um bocadinho lambisquei Da plantação. Foi um abuso, isso é verdade.» Mal o ouviu, a assembléa exclama: «Aqui d'el-rei!» Um lobo, algo lettrado, arenga e persuade Que era força immolar esse bicho nefando, Empesteado autor de tal calamidade; E o pecadilho foi julgado Um attentado. Pois comer erva alheia! ó crime abominando! Era visto que só a morte Poderia purgar um peccado tão duro. E o burro foi ao reino escuro. Segundo sejas tu miseravel ou forte Aulicos te farão detestavel ou puro.