POESIAS (continued 2)
Reading edition
LV
Mezes depois da scena relatada Nas strophes, a folhas,—o poeta Ouviu do velho Antero uma estudada Oração ciceronica e selecta; A conclusão da arenga preparada Era mais agradavel que discreta. Dizia o velho erguendo olhos serenos: «Pois que se adoram, casem-se, pequenos!»
LVI
Lagrima santa, lagrima de gosto Vertem olhos de Elvira; e um riso aberto Veio inundar-lhe de prazer o rosto Como uma flôr que abrisse no deserto. Se iam já longe as sombras do desgosto; Inda até li era o futuro incerto; Fez-lh'o certo o ancião; e a moça grata Beija a mão que o futuro lhe resgata.
LVII
Correm-se banhos, tiram-se dispensas, Vai-se buscar um padre ao povoado; Prepara-se o enxoval e outras pertenças Necessarias agora ao novo estado. Notam-se até algumas differenças No modo de viver do velho honrado, Que sacrifica á noiva e aos deuses lares Um estudo dos classicos jantares.
LVIII
«Onde vás tu?—Á serra!—Vou comtigo. «—Não, não venhas, meu anjo, é longa a estrada. «Se cansares?—Sou leve, meu amigo; «Descerei nos teus hombros carregada. «—Vou compôr encostado ao cedro antigo «Canto de nupcias.—Seguirei calada; «Junto de ti, ter-me-has mais em lembrança; «Musa serei sem perturbar.—Criança!»
LIX
Brandamente repelle Heitor a Elvira; A moça fica; o poeta lentamente Sobe a montanha. A noiva repetíra O primeiro pedido inutilmente. Olha-o de longe, e timida suspira. Vinha a tarde cahindo frouxamente, Não triste, mas risonha e fresca e bella, Como a vida da pallida donzella.
LX
Chegando, emfim, á c'rôa da collina, Víram olhos de Heitor o mar ao largo, E o sol, que despe a veste purpurina, Para dormir no eterno leito amargo. Surge das aguas pallida e divina, Essa que tem por deleitoso encargo Velar amantes, proteger amores, Lua, musa dos candidos palores.
LXI
Respira Heitor; e livre. O casamento? Foi sonho que passou, fugaz idéa Que não pôde durar mais que um momento. Outra ambição a alma lhe incendeia. Dissipada a illusão, o pensamento Novo quadro a seus olhos patenteia, Não lhe basta aos desejos de sua alma A enseada da vida estreita e calma.
LXII
Aspira ao largo; pulsam-lhe no peito Uns impetos de vida; outro horizonte, Tumidas vagas, temporal desfeito, Quer com elles lutar fronte por fronte. Deixa o tranquillo amor, casto e perfeito, Pelos brodios de Venus de Amathonte; A existencia entre flôres esquecida Pelos rumores de mais ampla vida.
LXIII
Nas mãos da noite desmaiára a tarde; Descem ao valle as sombras vergonhosas; Noite que o céu, por mofa ou por alarde, Torna propicia ás almas venturosas. O derradeiro olhar frio e covarde E umas não sei que strophes lamentosas Solta o poeta, emquanto a triste Elvira, Viuva antes de noiva, em vão suspira!
LXIV
Transpõe o mar Heitor, transpõe montanhas; Tu, curiosidade, o ingrato levas A ir ver o sol das regiões extranhas. A ir ver o amor das peregrinas Evas. Vai, em troco de palmas e façanhas, Viver na morte, bracejar nas trevas; Fazendo amor, que é livro aos homens dado, Copioso almanach namorado.
LXV
Inscreve n'elle a moça de Sevilha, Longas festas e noites hespanholas, A indiscreta e diabolica mantilha Que a fronte cinge a amantes e a carolas. Quantos encontra corações perfilha, Faz da bolsa e do amor largas esmolas: Esquece o antigo amor e a antiga musa Entre os beijos da lepida andaluza.
LXVI
Canta no seio turgido e macio Da fogosa, indolente Italiana, E dorme junto ao laranjal sombrio Ao som de uma canção napolitana. Dão-lhe para os serões do ardente estio, Asti, os vinhos; mulheres, a Toscana. Roma adora, embriaga-se em Veneza, E ama a arte nos braços da belleza.
LXVII
Vê Londres, vê Paris, terra das ceias, Feira do amor a toda a bolsa aberta; No mesmo laço, as bellas como as feias, Por capricho ou razão, iguaes aperta; A edade não pergunta ás taças cheias, Só pede o vinho que o prazer desperta; Adora as outoniças, como as novas, Torna-se heróe de rua e heróe de alcovas.
LXVIII
Versos quando os compõe, celebram antes O alegre vicio que a virtude austera; Canta os beijos e as noites delirantes, O esteril gozo que a volupia gera; Troca a illusão que o seduzia d'antes Por maior e tristissima chimera; Ave do céu, entre os osculos creada, Espalha as plumas brancas pela estrada.
LXIX
Um dia, emfim, cansado e aborrecido, Acorda Heitor; e olhando em roda e ao largo, Vê um deserto, e do prazer perdido Resta-lhe unicamente o gosto amargo; Não achou o ideal appetecido No longo e profundissimo lethargo: A vida exhausta em feitos e esplendores, Se alguma tinha, eram já murchas flôres.
LXX
Ora, uma noite, costeando o Rheno, Ao luar melancolico,—buscava Aquelle gozo simples, doce, ameno, Que á vida toda outr'ora lhe bastava; Voz remota, cortando o ar sereno, Em derredor os échos acordava; Voz aldeã que o largo espaço enchia, E uma canção de Schiller repetia.
LXXI
«A gloria! diz Heitor, a gloria é vida! Porque busquei nos gozos de outra sorte Esta felicidade appetecida, Esta resurreição que annulla a morte? Ó illusão fantastica e perdida! Ó mal gasto, ardentissimo transporte! Musa, restaura as apagadas tintas! Revivei, revivei, chammas extinctas!»
LXXII
A gloria? Tarde vens, pobre exilado! A gloria pede as illusões viçosas, Estro em flôr, coração electrisado, Mãos que possam colher ethereas rosas; Mas tu, filho do ocio e do peccado, Tu que perdeste as forças portentosas Na agitação que os animos abate, Queres colher a palma do combate?
LXXIII
Chamas em vão as musas; deslembradas, Á tua voz os seus ouvidos cerram; E nas paginas virgens, preparadas, Pobre poeta, em vão teus olhos erram; Nega-se a inspiração; nas despregadas Cordas da velha lyra, os sons que encerram Inertes dormem; teus cansados dedos orrem debalde; esquecem-lhe os segredos.
LXXIV
Ah! se a taça do amor e dos prazeres Já não guarda licor que te embriague; Se nem musas nem languidas mulheres Têm coração que o teu desejo apague; Busca a sciencia, estuda a lei dos seres, Que a mão divina a tua dôr esmague; Entra em ti, vê o que és, observa em roda, Escuta e palpa a natureza toda.
LXXV
Livros compra, um philosopho procura; Revolve a creação, prescruta a vida; Vê se espancas a longa noite escura Em que a esteril razão andou mettida; Talvez aches a palma da ventura No campo das sciencias escondida. Que a tua mente as illusões esqueça: Se o coração morreu, vive a cabeça!
LXXVI
Ora, por não brigar co'os meus leitores, Dos quaes, conforme a curta ou longa vista, Uns pertencem aos grupos novadores, Da fria communhão materialista; Outros, seguindo exemplos dos melhores, Defendem a theoria idealista; Outros, emfim, fugindo armas extremas, Vão curando por ambos os systemas.
LXXVII
Direi que o nosso Heitor, após o estudo Da natureza e suas harmonias, (Oppondo a consciencia um forte escudo Contra divagações e fantasias); Depois de ter aprofundado tudo, Planta, homem, estrellas, noites, dias, Achou esta lição inesperada: Veiu a saber que não sabia nada.
LXXVIII
«Nada! exclama um philosopho amarello Pelas longas vigilias, afastando Um livro que ha de ver um dia ao prelo E em cujas folhas ia trabalhando. Pois eu, doutor de borla e de capello, Eu que passo os meus dias estudando, Hei de ler o que escreve penna ousada, Que a sciencia da vida acaba em nada?»
LXXIX
Aqui convinha intercalar com geito, Sem pretenção, nem pompa nem barulho, Uma arrancada apostrophe do peito Contra as vãs pretenções do nosso orgulho; Conviria mostrar em todo o effeito Essa que é dos espiritos entulho, Sciencia vã, de magnas leis tão rica, Que ignora tudo, e tudo ao mundo explica.
LXXX
Mas, urgindo acabar este romance, Deixo em paz o philosopho, e procuro Dizer do vate o doloroso trance Quando se achou mais pecco e mais escuro. Valêra bem n'aquelle triste lance Um sorriso do céu placido e puro, Raio do sol eterno da verdade, Que a vida aquece e alenta a humanidade.
LXXXI
Que! nem ao menos na sciencia havia Fonte que a eterna sêde lhe matasse? Nem no amor, nem no seio da poesia Podia nunca repousar a face; Atrás d'esse fantasma correria Sem que jámais as fórmas lhe palpasse? Seria acaso a sua ingrata sorte A ventura encontrar nas mãos da morte?
LXXXII
A morte! Heitor pensára alguns momentos N'essa sombria porta aberta á vida; Pallido archanjo dos finaes alentos De alma que o céu deixou desilludida; Mão que, fechando os olhos somnolentos, Põe o termo fatal á humana lida; Templo de gloria ou região do medo, Morte, quem te arrancára o teu segredo?
LXXXIII
Vasio, inutil, ermo de esperanças Heitor buscava a noiva ignota e fria, Que o envolvesse então nas longas tranças E o conduzisse á camara sombria, Quando, em meio de pallidas lembranças, Surgiu-lhe a idéa de um remoto dia, Em que cingindo a candida capella Estava a pertencer-lhe uma donzella.
LXXXIV
Elvira! o casto amor! a esposa amante! Rosa de uma estação, deixada ao vento! Riso dos céus! estrella rutilante Esquecida no azul do firmamento! Ideal, meteoro de um instante! Gloria da vida, luz do pensamento! A gentil, a formosa realidade! Unica dita e unica verdade!
LXXXV
Ah! porque não ficou calmo e tranquillo Da ingenua moça nos divinos braços? Porque fugira ao casto e alegre asylo? Porque rompêra os mal formados laços? Quem pudera jámais restituil-o Aos estreitos, fortissimos abraços Com que Elvira apertava enternecida Esse que lhe era o amor, a alma e a vida?
LXXXVI
Será tempo? Quem sabe? Heitor hesita; Tardio pejo lhe enrubece a face; Punge o remorso; o coração palpita Como se vida nova o reanimasse; Tenue fogo, entre a cinza, arde e se agita... Ah! se o passado alli resuscitasse Reviverião illusões viçosas, E a gasta vida rebentara em rosas!
LXXXVII
Resolve Heitor voltar ao valle amigo, Onde ficára a noiva abandonada. Transpõe o lar, affronta-lhe o perigo, E chega emfim á terra desejada. Sobe o monte, contempla o cedro antigo, Sente abrir-se-lhe n'alma a flôr murchada Das illusões que um dia concebêra; Rosa extincta da sua primavera!
LXXXVIII
Era a hora em que os serros do oriente Formar parecem luminosas urnas; E abre o sol a pupilla resplendente Que ás folhas sorve as lagrimas nocturnas; Frouxa briza amorosa e diligente Vai acordando as sombras taciturnas; Surge nos braços d'essa aurora estiva A alegre natureza rediviva.
LXXXIX
Campa era o mar; o valle estreito berço; De um lado a morte, do outro lado a vida, Canto do céu, resumo do universo Ninho para aquecer a ave abatida. Inda nas sombras todo o valle immerso, Não acordára á costumada lida; Repousava no placido abandono Da paz tranquilla e do tranquillo somno.
XC
Alto já ia o sol, quando descera Heitor a opposta face da montanha; Nada do que deixou desparecêra; O mesmo rio as mesmas hervas banha. A casa, como então, garrida e austera, Do sol nascente a viva luz apanha; Iguaes flôres, nas plantas renascidas... Tudo alli falla de perpetuas vidas!
XCI
Desce o poeta cauteloso e lento. Olha de longe; um vulto ao sol erguia A veneranda fronte, monumento De grave e celestial melancolia. Como sulco de um fundo pensamento Larga ruga na testa abrir se via, Era a ruina talvez de uma esperança... Nos braços tinha uma gentil criança.
XCII
Ria a criança; o velho contemplava Aquella flôr que ás auras matutinas O perfumoso calix desbrochava E entrava a abrir as petalas divinas. Triste sorriso o rosto lhe animava, Como um raio de lua entre ruinas. Alegria infantil, tristeza austera, O inverno torvo, a alegre primavera!
XCIII
Desce o poeta, desce, e preso, e fito Nos bellos olhos do gentil infante, Treme, comprime o peito... e após um grito Corre alegre, exaltado e delirante, Ah! se jámais as vozes do infinito Podem sahir de um coração amante, Teve-as aquelle... Lagrimas sentidas Lhe inundárão as faces resequidas!
XCIV
«Meu filho!» exclama, e subito parando Ante o grupo ajoelha o libertino; Geme, soluça, em lagrimas beijando As mãos do velho e as tranças do menino. Ergue-se Antero, e frio e venerando, Olhos no céu, exclama: «Que destino! Murchar-lhe, viva, a rosa da ventura; Morta, insultar-lhe a paz da sepultura!»
XCV
«Morta!—Sim!—Ah! senhor! se arrependido Posso alcançar perdão, se com meus prantos, Posso apiedar-lhe o coração ferido Por tanta mágoa e longos desencantos; Se este infante, entre lagrimas nascido, Póde influir-me os seus affectos santos... É meu filho, não é? perdão lhe imploro! Veja, senhor! eu soffro, eu creio, eu choro!»
XCVI
Olha-o com frio orgulho o velho honrado; Depois, fugindo aquella scena estranha, Entra em casa. O poeta, acabrunhado, Sobe outra vez a encosta da montanha; Ao cimo chega, e desce o opposto lado Que a vaga azul entre soluços banha. Como fria ironia a tantas mágoas, Batia o sol de chapa sobre as aguas.
XCVII
Pouco tempo depois ouviu-se um grito, Som de um corpo nas aguas resvalado; Á flôr das vagas veio um corpo afflicto... Depois... o sol tranquillo e o mar calado. Depois... Aqui termina o manuscripto, Que ora em lettra de fôrma é publicado. Nestas estrophes pallidas e mausas, Para te divertir de outras lembranças.
AMERICANAS
(1875)
POTYRA[6]
Os Tamoyos, entre outras presas que fizeram, levaram esta india, a qual pretendeu o capitão da empreza violar: resistiu valorosamente dizendo em lingua brasilica: «Eu sou christã e casada; não heide fazer traição a Deus e a meu marido; bom podes matar-me e fazer do mim o que quizeres.» Deu-se por a affrontado o barbaro, e em vingança lhe acabou a vida com grande crueldade.
VASC. Chr. da Comp. de Jesus, liv 3°.
I
Moça christã das solidões antigas, Em que aurea folha reviveu teu nome? Nem o eco das mattas seculares, Nem a voz das sonoras cachoeiras, O transmitiu aos seculos futuros. Assim da tarde estiva ás auras frouxas Tenue fumo do colmo no ar se perde; Nem de outra sorte em moribundos labios A humana voz expira. O horror e o sangue Da miseranda scena em que, de envolta Co'os longos, magoadissimos suspiros, Christã Lucrecia, abriu tua alma o voo Para subir ás regiões celestes, Mal deixada memoria aos homens lembra. Isso apenas; não mais; teu nome obscuro, Nem tua campa o brazileiro os sabe.
II
Ja da férvida luta os ais e os gritos Extinctos eram. Nos baixeis ligeiros Os tamoyos incolumes embarcam; Ferem co'os remos as serenas ondas Até surgirem na remota aldêa. Atrás ficava, luctuosa e triste, A nascente cidade brazileira,[7] Do inopinado assalto espavorida, Ao céu mandando em côro inuteis vozes. Vinha já perto rareando a noite, Alva aurora, que á vida accorda as selvas, Quando a aldêa surgiu aos olhos torvos Da expedição nocturna. Á praia saltam Os vencedores em tropel: transportam Ás cabanas despojos e vencidos, E, da vigilia fatigados, buscam Na curva, leve rede amigo somno, Excepto o chefe. Oh! esse não dormira Longas noites, se a troco da victoria Precisas fossem. Traz comsigo o premio, O desejado premio. Desmaiada Conduz nos braços tremulos a moça Que renegou Tupan, e as rudes crenças[8] Lavou nas aguas do baptismo santo. Na rode ornada de amarellas pennas Brandamente a depõe. Leve tecido Da captiva gentil as fórmas cobre; Veste-as de mais a sombra do crepusculo, Sombra que a tibia luz da alva nascente De todo não rompeu. Inquieto sangue Nas veias ferve do indio. Os olhos luzem De concentrada raiva triumphante. Amor talvez lhes lança um leve toque De ternura, ou já soffrego desejo; Amor, como elle, asperrimo e selvagem, Que outro não sente o heroe.
III
Heroe lhe chamam Quantos o hão visto no fervor da guerra Medo e morte espalhar entre os contrarios E avantajar-se nos certeiras golpes Aos mais fortes da tribu. O arco e a flecha Desde a infancia os meneia ousado o affouto; Cedo apprendeu nas solitarias brenhas A pleitear ás feras o caminho. A força oppõe á força, a astucia á astucia, Qual se da onça e da serpente houvera Colhido as armas. Traz ao collo os dentes Dos contrarios vencidos. Nem dos annos O numera supera o das victorias; Tem no espaçoso rosto a flôr da vida, A juventude, e goza entre os mais bellos De real primazia. A cinta e a fronte Azues, vermelhas plumas alardeam, Ingenuas galas do gentio inculto.
IV
Da captiva gentil cerrados olhos Não se entreabrem á luz. Morta parece. Uma só contracção lhe não perturba A paz serena do mimoso rosto. Junto della, cruzados sobre o peito Os braços, Anagê contempla e espera; Soffrego espera, em quanto ideias negras Estão a revoar-lhe em torno e a encher-lhe A mente de projectos tenebrosos. Tal no cimo do velho Corcovado Proxima tempestade engloba as nuvens. Subito ao seio turgido e macio Anciosas mãos estende; inda palpita O coração, com desusada força, Como se a vida toda alli buscasse Refugio certo e ultimo. Impetuoso O vestido cristão lhe despedaça, E á luz já viva da manhã recente Contempla as nuas fórmas. Era acaso A syncope chegada ao termo proprio, Ou, no pejo offendida, ás mãos extranhas A desmaiada moça despertára. Potyra accorda, os olhos lança em torno, Fita, vê, comprehende, e inquieta busca Fugir do vencedor ás mãos e ao crime... Misera! opõe-se-lhe o irritado gesto Do asperrimo guerreiro; um ai lhe sobe Angustioso e triste aos labios tremulos, Sobe, murmura e suffocado expira. Na rede envolve o corpo, e, desviando Do terrivel tamoyo os lindos olhos, Entrecortada prece aos céus envia, E as faces banha de serenas lagrimas.
V
Longo tempo correra. Amplo silencio Reinou entre ambos. Do tamoyo a fronte Pouco a pouco despira o torvo aspecto. Ao trabalhado espirito, revolto De mil sinistros pensamentos, volve Benigna calma. Tal de um rio engrossa O volume extensissimo das aguas Que vão enchendo de pavor os ecos, Vencendo no arruido o vento e o raio, E pouco a pouco atenuando as vozes, Adelgaçando as ondas, tornam mansas Ao primitivo leito. Ei-lo se inclina, Para tomar nos braços a formosa Por cujo amor incendiara a aldêa Daquellas gentes pallidas de Europa. Sente-lhe a moça as mãos, e erguendo o rosto, O rosto inda de lagrimas molhado, Do coração estas palavras solta: «—Lá entre os meus, suave e amiga morte, Ah! porque me não deste? Houvera ao menos Quem escutasse de meus labios frios A prece derradeira; e a santa benção Levaria minha alma aos pés do Eterno... Não, não te peço a vida; é tua, extingue-a; Um só allivio imploro. Não receies Embeber no meu sangue a ervada setta; Mata-me, sim; mas leva-me onde eu possa Ter em sagrado leito o ultimo somno!» Disse, e fitando no indio avidos olhos, Esperou. Anagê sacode a fronte, Como se lhe pesara ideia triste; Crava os olhos no chão; lentas lhe saem Estas vozes do peito. «Oh! nunca os padres Pisado houvessem estas plagas virgens! Nunca de um deus estranho as leis ignotas Viessem perturbar as tribos, como Perturba o vento as aguas! Rosto a rosto Os guerreiros pelejam: matam, morrem. Ante o fulgor das armas inimigas Não descora o tamoyo. Assaz lhe pulsa Valor nativo e raro em peito livre. Armas, deu-lh'as Tupan novas e eternas Nestas mattas vastissimas. De sangue Extranhos rios hão de, ao mar correndo, Tristes novas levar á patria delles, Primeiro que o tamoyo a frente incline Aos inimigos peitos. Outra força, Outra e maior nos move a guerra crua; São elles, são os padres. Esses mostram Cheia de riso a boca e o mel nas vozes, Sereno o rosto e as brancas mãos inermes; Ordens não trazem de cacique alheio, Tudo nos levam, tudo. Uma por uma As filhas de Tupan correm trás elles, Com ellas os guerreiros, e com todos A nossa antiga fé. Vem perto o dia Em que, na imensidão destes desertos, Ha de ao frio luar das longas noites O pagé suspirar sozinho e triste Sem povo nem Tupan!»
VI
Silenciosas Lagrimas lhe espremeu dos olhos negros Esta lembrança de futuros males. «—Escuta!» diz Potyra. O indio estende Imperioso as mãos e assim prossegue: «—Tambem com elles foste, e foi comtigo Da minha vida a flôr! Teu pai mandara, E com ele mandou Tupan que eu fosse Teu esposo; vedou-m'o a voz dos padres, Que me perdeu, levando-te consigo. Não morri; vivi só para esta affronta; Vivi para esta insolita tristeza De maldizer teu nome e as graças tuas, Chorar-te a vida e desejar-te a morte. Ai! nos rudes combates em que a tribu Rega de sangue o chão da virgem terra Ou tinge a flôr do mar, nunca a meu lado Teu nobre vulto esteve. A aldêa toda, Mais que o teu coração, ficou deserta. Duas vezes, mimosas rebentaram Do lacrimoso cajueiro as flôres, Desde o dia funesto em que deixaste A cabana paterna. O extremo lumo Expirou de teu pai nos olhos tristes; Piedosa chamma consumiu seus restos, E a aldêa toda o lastimou com prantos. Não de todo se foi da nossa vida; Parte ficou para sentir teus males. Antes que o ultimo sol á melindrosa Flôr do maracujá cerrasse as folhas Um sonho tive. Merencorio vulto, Triste como uma fronte de vencido, Cor da lua os cabellos venerandos, O vulto de teu pae: «Guerreiro (disse), «Corre á vizinha habitação dos brancos, «Vai, arranca Potyra á lei funesta «Dos pallidos pagés; Tupan t'o ordena; «Nos braços traze a fugitiva corça; «Vincula o teu destino ao dela; é tua.» «—Impossivel! Que vale um vago sonho? Sou esposa e christã. Impio, respeita O amor que Deus protege e sanctifica: Mata-me; a minha vida te pertence: Ou, se te pesa derramar o sangue Daquella a quem amaste, e por quem foste Lançar entre os christãos a dor e o susto, Faze-me escrava; servirei contente Emquanto a vida allumiar meus olhos. Toma, entrego-te o sangue e a liberdade Ordena ou fere. Tua esposa, nunca!» Calou-se, e reclinada sobre a rede, Potyra murmurava ignota prece, Olhos fitos no proximo arvoredo, Olhos não ermos de profunda magua.
VII
Ó Christo! em que alma penetrou teu nome Que lhe não désse o balsamo da vida? Pelo vento dos seculos levado, Vidente e cego, o maximo dos seres, Que fora do homem nesta escassa terra, Se ao mysterio da vida lhe não désses, Ó Christo! a eterna chave da esperança Philosophia stoica, ardua virtude, Creação de homem, tudo passa e expira. Tu só, filha de Deus, palavra amiga, Tu, suavissima voz da eternidade, Tu perduras, tu vales, tu confortas. Neste sonho iriado de outros sonhos, Varios como as feições da natureza, Nesta confusa agitação da vida, Que alma transpõe a derradeira edade Farta de algumas passageiras glorias? Torvo é o ar do sepulchro; alli não viçam Essas cansadas rosas da existencia Que ás vezes tantas lagrimas nos custam, E tantas mais antes do occaso expiram. Flôr do Evangelho, nuncia de alvos dias, Esperança christã, não te ha murchado O vento arido e secco; és tu viçosa Quando as da terra languidas inclinam O seio, e a vida lentamente exhalam. Esta a consolação ultima e doce Da esposa indiana foi. Captiva ou morta, Antevia a celeste recompensa Que aos humildes reserva a mão do Eterno. Naquelle rude coração das brenhas A semente evangelica brotara.
VIII
Das duas condições deu-lhe o guerreiro A peor,—fel-a escrava; e eil-a apparece Da sua aldea aos olhos espantados Qual fôra em dias de melhor ventura. Despida vem das roupas que lhe ha posto Sobre as polidas fórmas uso extranho, Não sabido jamais daquelles povos Que a natureza ingenua doutrinara. Vence na gentileza ás mais da tribu, E tem de sobra um sentimento novo, Pudor de esposa e de christã,—realce Que ao indio accende a natural volupia. Simulada alegria lhe descerra Os labios; riso á flôr, escasso e dubio, Que mal lhe encobre as vergonhosas maguas. Á voz do seu senhor accorre humilde; Não a assusta o labor; nem dos perigos Conhece os medos. Nas ruidosas festas, Quando ferve o canim, e o ar atrôa[9] Pocema de alegria ou de combate, Como que se lhe fecha a flôr do rosto. Ja lhe descae então no seio oppresso A graciosa fronte; os olhos fecha, E ao céu voltando o pensamento puro, Menos por si, que pelos outros pede. Nem só o ardor da fé lhe abraza o peito; Lacera-lh'o tambem agra saudade; Chora a separação do amado esposo, Que, ou cedo a esquece, ou solitario geme. Se, alguma vez, fugindo a extranhos olhos, Não já crueis, mas cubiçosos della, Entra desatinada o bosque antigo, E a dor expande em lobregos soluços, Co'o doce nome accorda ao longe os écos, Farta de amor e prodiga de vida, Ouve-as a selva, e não lhe entende as maguas. Outras vezes pisando a ruiva areia Das praias, ou galgando a penedia Cujos pés orla o mar de nivea espuma, As ondas murmurantes interroga; Conta ao vento da noite as dores suas; Mas... fieis ao destino e á lei que as rege, As preguiçosas ondas vão caminho, Crespas do vento que sussurra e passa.
IX
Quando, ao sol da manhã, partem ás vezes, Com seus arcos, os destros caçadores, E alguns da rija estaca desatando Os nós de embira ás rapidas igaras, A pesca vão pelas ribeiras proximas, Das esposas, das mães que os lares velam, Grata alegria os corações innunda, Menos o della, que suspira e geme, E não aguarda doce esposo ou filho. Triste os vê na partida e no regresso, E nessa melancholica postura, Simelha a acacia langue e esmorecida, Que já de orvalho ou sol não pede os beijos. As outras...—Raro em labios de felizes Alheias maguas travam. Não se pejam De seus olhos azuis e alegres pennas Os sahis sobre as arvores pousados, Se ao perto voa na campina verde De anuns luctuoso bando; nem os trillos Das andorinhas interrompe a nota Que a jurity suspira.—As outras folgam Pelo arraial dispersas; vão-se á terra Arrancar as raizes nutritivas, E fazem os preparos do banquete A que hão de vir mais tarde os destemidos Senhores do arco, alegres vencedores De quanto vive na agua e na floresta. Da captiva nenhuma inquire as maguas. Comtudo, algumas vezes, curiosas Virgens lhe dizem, apiedando o gesto: —«Pois que á taba voltaste, em que teus olhos Primeiro viram luz, que magua funda Lhes distilla tão longo e amargo pranto, Amargo mais do que esse que não busca Recatado silencio?»—E ás doces vozes A christã desterrada assim responde: —«Potyra é como aquella flôr que chora Lagrimas de alvo leite, se do galho Mão cruel a cortou. Oh! não permitta O céu que ímpia fortuna vos separe Daquelle que escolherdes. Dor é essa Maior que um pobre coração de esposa. Esperanças... Deixei-as nessas aguas Que me trouxeram, complices do crime, Á taba de Tupan, não allumiada Da palavra celeste. Algumas vezes, Raras, alveja em minha noite escura Não sei que tibia aurora, e penso: Acaso O sol que vem me guarda um raio amigo, Que hade accender nestes cansados olhos Ventura que já foi. As asas colhe Guanumby, e o aguçado bico embebe No tronco, onde repousa adormecido Até que volte uma estação de flôres.[10] Ventura imita o guanumby dos campos: Accordará co'as flôres de outros dias. Doce illusão que rapido se escoa, Como o pingo de orvalho mal fechado N'uma folha que o vento agita e entorna.» E as virgens dizem, apiedando o gesto: —«Potyra é como aquella flôr que chora «Lagrimas de alvo leite, se do galho «Mão cruel a cortou!»
X
Era chegado O fatal prazo, o desenlace triste. Tudo morre,—a tristeza como o gozo; Rosas de amor ou lyrios de saudade, Tarde ou cedo os esfolha a mão do tempo. Costeando as longas praias, ou transpondo Extensos valles e montanhas, correm Mensageiros que ás tabas mais vizinhas Vão convidar á festa as gentes todas. Era a festa da morte. Indio guerreiro, Trez luas ha captivo, o instante aguarda Em que ás mãos de inimigos vencedores, Cáia expirante, e os vinculos rompendo Da vida, a alma remonte além dos Andes. Corre de boca em boca e de eco em eco A alegre nova. Vem descendo os montes, Ou abicando ás povoadas praias Gente da raça illustre. A onda immensa Pelo arraial se estende pressurosa. De quantas côres natureza fertil Tinge as proprias feições, copiam elles Engraçadas, vistosas louçanias. Vários na edade são, varios no aspecto, Todos iguais e irmãos no herdado brio. Dado o amplexo de amigo, acompanhado De suspiros e pesames sinceros Pelas fadigas da viagem longa, Rompem ruidosas danças. Ao tamoyo Deu o Ibake os segredos da poesia; Cantos festivos, moduladas vozes, Enchem os ares, celebrando a festa Do sacrificio proximo. Ah! não cubra Véu de nojo ou tristeza o rosto aos filhos Destes polidos tempos! Rudes eram Aquelles homens de asperos costumes, Que ante o sangue de irmãos folgavam livres, E nós, soberbos filhos de outra edade, Que a voz fallamos da razão severa E na luz nos banhamos do Calvario, Que somos nós mais que elles? Raça triste De Cains, raça eterna...
XI
Os cantos cessam. Calou-se o maracá. As roucas vozes Dos férvidos guerreiros já reclamam O brutal sacrificio. Ás mãos das servas A taça do cauim passara exhausta. Inquieto aguarda o prisioneiro a morte. Da nação guayanaz nos rudes campos Nasceu. Nos campos da saudosa patria Industriosa mão não sabe ainda Alevantar as tabas. Cova funda Da terra, mãe comum, no seio aberta,[11] Os acolhe e protege. O chão lhes forra A pele do tapir; continua chamma Lhes suppre a luz do sol. É uso antigo Do guayanaz que chega a extrema edade, Ou de mortal doença accomettido, Não expirar aos olhos de outros homens; Vivo o guardam no bojo da igaçaba, E á fria terra o dão, como se fôra Pasto melhor (melhor!) aos frios vermes. Do almo, doce licor que extrai das flôres Mãe do mel, iramaya, larga cópia Pelos robustos membros lhe coaram Seis anciãs da tribu. Rubras pennas Na vasta fronte e nos nervosos braços Garridamente o enfeitam. Longa e forte A mussuranna os rins lhe cinge e aperta. Entra na praça o funebre cortejo. Olhar tranquillo, inda que fero, espalha O indomado captivo. Em pé, defronte, Grave, silencioso, ao sol mostrando De feias cores e vistosas plumas Singular harmonia, aguarda a victima O executor. Nas mãos lhe pende a enorme Tagapema enfeitada, arma certeira, Arma triumphal de morte e de exterminio. Medem-se rosto a rosto os dois contrarios C'um sorriso feroz. Confusas vozes Enchem subito o espaço. Não lhe é dado Ao vencido guerreiro haver a morte Silenciosa e triste em que se passa Da curva rede á fria sepultura. Meigas aves que vão de um clima a outro Abrem placidamente as asas leves, Não tu, guerreiro, que encaraste a morte, Tu combate! Vencido e vencedores Derradeiros escarneos se arremessam; Gritos, injurias, convulsões de raiva, Vivo clamor accorda os longos ecos Das penedias proximas. A clava Do executor girou no ar trez vezes E de leve caiu na grossa espadua Do arquejante captivo. Já na boca, Que o desprezo e o furor n'um riso entreabrem, Orla de espuma alveja. Avança, corre, Estaca... Não lhe dá mais amplo espaço A mussurana, cujas pontas tiram Dois mancebos robustos. Nas cavernas Do longo peito lhe murmura o odio, Surdo, como o rumor da terra inquieta, Pejada de vulcões. Os labios morde, E, como derradeira injuria, á face Do executor lhe cospe espuma e sangue. Não vibra o arco mais veloz o tiro, Nem mais segura no aterrado cervo Feroz succuriuba os nós enrosca, Do que a pesada, enorme tagapema A cabeça de um golpe lhe esmigalha. Cae fulminada a vitima na terra, E alegre o povo longamente applaude.
XII
Na voz universal perdeu-se um grito De piedade e terror: tão fundo entrára Naquella alma roubada á noite escura Raio de sol christão! Potyra foge, Pelos bosques atonita se entranha E pára á margem de um pequeno rio; Pousa na relva os tremulos joelhos E nas mimosas mãos esconde o rosto. Não de lagrimas era aquelle sitio Ou só de doces lagrimas choradas De olhos que amor venceu:—macia relva, Leito de sesta a amores fugitivos. Da verde, rara abobada de folhas Tepida e doce a luz coava a frouxo Do sol, que, além das arvores, tranquillo, Metade da jornada ia transpondo. Longe era ainda a hora melancholica Em que a geremma cerra a miuda folha, E o lume azul o pyrilampo accende. De pé, a um velho tronco descoroado Da copada ramagem, resto apenas, Vestigio do tufão, a indiana moça Languidamente encosta o esbelto corpo. Neste ameno recesso tudo é triste, Porque é alegre tudo. Não mui longe Um desfolhado ipê conserva e guarda Flôres que lhe ficaram de outro estio, Como esperança de folhagem nova, Flôres que a desventura lhe ha negado, A ella, alma esquecida nesta terra, Que nada espera da estação vindoura. Olha, e de inveja o coração lhe estalla. Pelo tronco das arvores se enroscam Parasitas, esposas do arvoredo, Mais fieis não, mais venturosas que ella. Morrer? Descanso fôra ás maguas suas, Mais que descanço, perduravel gozo, Que a nossa eterna patria aos infelizes Deste desterro guarda alvas capellas De não-murchandas e cheirosas flôres. Tal lhe falava no intimo do peito Desespero cruel. Alguns instantes Pela cansada mente lhe vagaram De voluntaria, abreviada morte, Luctuosas ideias. Mal comprehende Esses desmaios da creatura humana Quem não sentiu no coração rasgado Abatimento e enôjo; ou, mais do que isto, Esse contraste immenso e irreparavel Do amor interno e a solidão da vida. Rapido espaço foi. Prompto lhe volve Doce resignação, christã virtude, Que desafia e que assoberba os males. As debeis mãos levanta. Já dos labios Solta nas azas de oração singella Lastimas suas... Na folhagem secca Ouve de cautos pés rumor sumido, Volve a cabeça...
XIII
Tremulo, calado, Anagê crava n'ella os olhos turvos Dos vapores da festa. As mãos inermes Lhe pendem; mas o peito—ó misera!—esse, Esse de mal contido amor transborda. Longo instante passou. Alfim: «Deixaste A festa nossa (o barbaro murmura); Mysteriosa vieste. Dos guerreiros Nenhum te viu; mas eu senti teus passos, E vim comtigo ao ermo. Ave mesquinha, Inutil foges; gavião te espreita,[12] Minha te fez Tupan.» Em pé, sorrindo, Escutava Potyra a voz severa De Anagê. Breve espaço abria entre ambos Alcatifado chão. A fatal hora Chegara alfim? Não o perscruta a moça; Tudo acceita das mãos do seu destino, Tudo, excepto... No proximo arvoredo Ouve de uma ave o pio melancholico; Era a voz de seu pae? a voz do esposo? De ambos talvez. No animo da escrava Restos havia dessa crença antiga Antiga e sempre nova: o peito humano Raro de obscuros elos se liberta.
XIV
—«Nasceste para ser senhora e dona: Anagê não te veda a liberdade; Quebra tu mesma os nós do captiveiro. Faze-te esposa. Vem coroar meus dias; Vem, tudo esqueço. A fronte do guerreiro, Adornada por ti, será mais nobre; Mais forte o braço em que pousar teu rosto. Sou menos bello que esse esposo ausente? Rudes feições compensa amor sobejo. Vem; ver-me-has companheira nos combates, E, se inimiga frecha entrar meu seio, Morrerei a teus pés. Tens medo aos padres? Outro destino escolhe. Cauteloso, Tece o japú nos elevados ramos Das elevadas arvores o ninho, Onde o inimigo lhe não roube a prole. Ninho ha na serra ao nosso amor propicio; Viveremos alli. Troveje em baixo A inubia convidando a guerra os povos; Leva de arcos transforme estas aldêas Em campos de combate,—ou já dispersas As fugitivas tribus vão buscando Longes sertões para chorar seus males, Viveremos alli. Talvez, um dia, Quando eu passar á mysteriosa estancia Das delicias eternas, me pergunte Meu velho pai:—«Teu arco de guerreiro Em que deserta praia o abandonaste? Salvar-me-ha teu amor do eterno pejo.»
XV
Doce era a voz e triste. Rasos d'agua Os olhos. Foi desmaio de tristeza Que o gesto dissipou da esquiva moça. Volve ao Tamoyo vingativa ideia. —«Minha (diz elle) ou morres!» Estremece Potyra, como quando a brisa passa Ao de leve na folha da palmeira, E logo fria ao barbaro responde: —«Jaz esquecido em nossas velhas tabas O respeito da esposa? Acaso é digna Do sangue do Tamoyo esta ameaça? Que desvalia aos olhos teus me coube, Se a outro me ligaram natureza, Religião, destino? A liberdade Nas tuas mãos depuz; com ella a vida. É tudo, quasi tudo. Honra de esposa, Oh! essa deves respeital-a! Vai-te! Ceva teu odio nas sangrentas carnes Do prostrado captivo. Aqui chorando, Na solidão d'estes bosques mal fechados, As maviosas brisas meus suspiros Entregarei; leval-os-hão nas azas La onde geme solitario o esposo. Vai-te!» E as mimosas mãos colhendo ao rosto, Alçou a Deus o pensamento amante, Como a centelha viva que a fogueira Extincta aos ares sobe. Immovel, muda, Longo tempo ficou. Diante d'ella, Como ella immovel, o tamoyo estava. Amor, odio, ciume, orgulho, pena, Oppostos sentimentos se combatem No attribulado peito. Generoso Era, mas não domado amor lhe dava Inspiração de crimes. Não mais prompto Cae sobre a triste corça fugitiva Jaguar de longa fome esporeado, Do que elle as mãos lançou ao colo e á fronte Da misera Potyra. Ai! não, não diga A minha voz o lamentoso instante Em que ella, ao seu algoz volvendo anciosa Turvos olhos: «Perdoo-te!» murmura, Os labios cerra e immaculada expira!
XVI
Estro maior teu nome obscuro cante, Moça christã das solidões antigas, E eterno o cinja de virentes flôres, Que as mereces. De não sabido bardo Estes gemidos são. Languidas brisas No taquaral á noite sussurrando, Ou enrugando o molle dorso ás vagas, Não tem a voz com que domina os echos Despenhada cachoeira. São, comtudo, Mas que debeis e tristes, no concerto Da orquestra universal cabidas notas. Alveja a nebulosa entre as estrellas, E abre ao pé do rosal a flôr da murta.
NIANI
(HISTORIA GUAYCURU)
Desde então cobriu-se Nanine de uma mortal melancolia, sendo seus olhos sempre chorosos. Assim se passaram trez mezes, quando um dia, estando deitada na sua rustica cama, lhe deram a noticia que seu desleal marido se tinha casado com uma rapariga de menor esphera. Senta-se então Nanine na cama, como arrebatada, chama para junto de si um pequeno indio que era seu cativo, e diz-lhe na presença de varios antecris: «És meu captivo; dou-te a liberdade, com a condição de que te chamarás toda a vida Panenioxe.»
F. RODRIGUES PRADO, Hist. dos Indios Cavalleiros.
...che piange Vedova sola.
DANTE
I
Contam-se historias antigas Pelas terras de além-mar, De moças e de princezas, Que amor fazia matar. Mas amor que entranha n'alma E a vida soe acabar, Amor é de todo o clima, Bem como a luz, como o ar. Morrem delle nas florestas Aonde habita o jaguar, Nas margens dos grandes rios Que levam troncos ao mar. Agora direi um caso De muito penalisar, Tão triste como os que contam Pelas terras de além-mar.
II
Cabana que esteira cobre De junco trançado a mão, Que agitação vae por ella! Que ledas horas lhe vão! Panenioxe é guerreiro Da velha, dura nação,[13] Cayavaba ha já sentido A sua lança e facão.[14] Vem de longe, chega á porta Do afamado capitão; Deixa a lança e o cavallo, Entra com seu coração. A noiva que elle lhe guarda Moça é de nobre feição, Airosa como agil corça Que corre pelo sertão. Amores eram nascidos Naquella tenra estação Em que a flôr que hade ser flôr Inda se fecha em botão. Muitos agora lhe querem, E muitos que fortes são; Niani ao melhor delles Não dera o seu coração.[15] Casal-os agora, é tempo; Casal-os, nobre ancião! Limpo sangue tem o noivo, Que é filho de capitão.[16]
III
«—Traze a minha lança, escravo, Que tanto peito abateu; Traze aqui o meu cavallo Que largos campos correu.» «—Lança tens e tens cavallo Que meu velho pae te deu; Mas aonde te vás agora Onde vais, esposo meu?» «—Vou-me á caça, junto á cova Onde a onça se metteu...» «—Montada no meu cavallo, Vou comtigo, esposo meu.» «—Vou-me ás ribas do Escopil, Que a minha lança varreu...» «—Irei pelejar na guerra, A teu lado, esposo meu.» «—Fica-te ahi na cabana Onde o meu amor nasceu.» «—Melhor não haver nascido Se já de todo morreu.» E uma lagrima,—a primeira De muitas que ella verteu,— Pela face cobreada Lenta, lenta lhe correu. Enxugal-a, não a enxuga O esposo que já perdeu, Que elle no chão fita os olhos, Como que a voz lhe morreu. Traz o escravo o seu cavallo Que o velho sogro lhe deu; Traz-lhe mais a sua lança Que tanto peito abateu. Então, recobrando a alma, Que o remorso esmoreceu, Com esta dura palavra Á esposa lhe respondeu: «—A bocayuva trez vezes No tronco amadureceu,[17] Desde o dia em que o guerreiro Sua esposa recebeu.» «Trez vezes! Amor sobejo Nossa vida toda encheu. Fastio me entrou no seio, Fastio que me perdeu.» E pulando no cavallo, Sumiu-se... desapareceu... Pobre moça sem marido, Chora o amor que lhe morreu!
IV
Leva o Paraguay as aguas, Leva-as no mesmo correr, E as aves descem ao campo Como usavam de descer. Tenras flôres, que outro tempo Costumavam de nascer, Nascem; vivem de egual vida; Morrem do mesmo morrer. Niani, pobre viuva, Viuva sem bem o ser, Tanta lagrima chorada Já te não pode valer. Olhos que amor desmaiára De um desmaiar que é viver, O choro empana-os agora, Como que vão fenecer. Corpo que fôra robusto No seu cavallo a correr, De continua dor quebrado Mal se póde já suster. Collar de prata não usa, Como usava de trazer; Pulseiras de finas contas Todas as veiu a romper.[18] Que ella, se nada ha mudado Daquelle eterno viver, Com que a natureza sabe Renascer, permanecer, Toda é outra; a alma lhe morre, Mas de um continuo morrer, E não ha magua mais triste De quantas podem doer. Os que out'rora a desejavam, Antes della mal haver, Vendo que chora e padece, Rindo se põem a dizer: «—Remador vai na canoa, Canoa vae a descer... Piranha espiou do fundo Piranha, que o vae comer. Ninguem se fie da braza Que os olhos veem arder, Sereno que cae de noite Ha de fazel-a morrer. Panenioxe, Panenioxe, Não lhe sabias querer. Quem te pagára esse golpe Que lhe vieste fazer!»
V
Um dia,—era sobre tarde, Ia-se o sol a afundar; Calumby cerrava as folhas Para melhor as guardar. Vem cavaleiro de longe E á porta vai apear. Traz o rosto carregado, Como a noite sem luar. Chega-se á pobre da moça E assim começa a falar: «—Guaycurú dói-lhe no peito Tristeza de envergonhar. Esposo que te ha fugido Hoje se vae a casar; Noiva não é de alto sangue, Porém de sangue vulgar.» Ergue-se a moça de um pulo, Arrebatada, e no olhar Rebenta-lhe uma faisca Como de luz a expirar. Menino escravo que tinha Acerta de ali passar; Niani attentando nelle Chama-o para o seu logar. «—Cativo és tu; serás livre, Mas vaes o nome trocar; Nome avesso te pozeram... Panenioxe has de ficar.» Pela face cobreada Desce, desce com vagar Uma lagrima: era a ultima Que lhe restava chorar. Longo tempo alli ficára, Sem se mover nem fallar; Os que a veem naquella magoa Nem ousam de a consolar. Depois um longo suspiro, E ia a moça a expirar... O sol de todo morria E ennegrecia-se o ar. Pintam-n'a de vivas cores, E lhe lançam um collar;[19] Em fina esteira de junco Logo a vão amortalhar. O triste pae suspirando Nos braços a vae tomar, Deita-a sobre o seu cavallo E a leva para enterrar. Na terra em que dorme agora Justo lhe era descançar, Que pagou foro da vida Com muito e muito penar. Que assim se morre de amores Aonde habita o jaguar, Como as princesas morriam Pelas terras de além-mar.
A CHRISTÃ NOVA
...essa mesma foi levada captiva para uma terra estranha.
NAUM, cap. III, v. 10
PARTE I
I
Olhos fitos no céu, sentado á porta, O velho pae estava. Um luar frouxo Vinha beijar-lhe a veneranda barba Alva e longa, que o peito lhe cobria, Como a nevoa na encosta da montanha Ao destoucar da aurora. Alta ia a noite, E silenciosa: a praia era deserta, Ouvia-se o bater pausado e longo Da somnolenta vaga,—unico e triste Som que a mudez quebrava á natureza.
II
Assim talvez nas solidões sombrias Da velha Palestina Um propheta no espirito volvera As desgraças da patria. Quão remota Aquella de seus paes sagrada terra, Quão differente desta em que ha vivido Os seus dias melhores! Vago e doce, Este luar não allumia os serros Estereis, nem as ultimas ruinas, Nem as ermas planicies, nem aquelle Morno silencio da região que fôra E que a historia de todo amortalhára. Ó torrentes antigas! aguas santas De Cedron! Já talvez o sol que passa, E vê nascer e vê morrer as flôres, Todas no leito vos seccou, em quanto Estas murmuram placidas e cheias, E vão contando ás deleitosas praias Esperanças futuras. Longo e longo O devolver dos seculos Será, primeiro que a memoria do homem Teça a mortalha fria Da região que inda tinge o albor da aurora.
III
Talvez, talvez no espirito fechado Do ancião vagueavam lentamente Estas ideias tristes. Junto á praia Era a austera mansão, donde se via Desenrolarem-se as serenas vagas Do nosso golpho azul. Não a enfeitavam As galas da opulencia, nem os olhos Entristecia co'o medonho aspecto Da miseria; não pródiga nem surda A fortuna lhe fora, mas aquella Mediana sobria, que os desejos Contenta do philosopho, lhe havia Doirado os tectos. Guanabara ainda Não era a flôr aberta Da nossa edade; era botão apenas, Que rompia do hastil, nascido á beira De suas ondas mansas. Simples e rude, Ia brotando a juvenil cidade, Nestas incultas terras, que a lembrança Recordava talvez do antigo povo, E o guáu alegre, e as rispidas pelejas, Toda essa vida que morreu.
IV
Sentada Aos pés do velho estava a amada filha, Bella como a açucena dos Cantares, Como a rosa dos campos. A cabeça Nos joelhos do pae reclina a moça, E deixa resvalar o pensamento Rio abaixo das longas esperanças E namorados sonhos. Negros olhos Por entre os mal fechados Cilios estende á serra que recorta Ao longe o céu. Morena é a face linda E levemente pallida. Mais bella, Nem mais suave era a formosa Ruth Ante o rico Booz, do que essa virgem, Flôr que Israel brotou do antigo tronco, Corada ao sol da juvenil America.
V
Mudos viam correr aquellas horas Da noite, os dous: ele voltando o rosto Ao passado, ella os olhos ao futuro. Cansam-lhe enfim ao pensamento as azas De ir voando, atravez da espessa treva, Frouxas as colhe, e desce ao campo exiguo Da realidade. A delicada virgem Primeiro volve a si; os lindos dedos Corre-lhe ao longo da nevada barba, E: «—Pae amigo, que pensar vos leva Tão longe a alma?» Estremecendo o velho. «—Curiosa!—lhe disse,—o pensamento E como as aves passageiras: voa A buscar melhor clima.—Opposto rumo Ias tu, alma em flôr, aberta apenas, Tão longe ainda do calor da sesta, Tão remota da noite... Uma esperança Te sorria talvez? Talvez, quem sabe, Uns namorados olhos que me roubem, Que te levem... Não córes, filha minha! Esquecimento, não; lembrança ao menos Ficar-te-ha do paterno affecto; e um dia, Quando eu na terra descansar meus ossos, Haverás doce balsamo no seio Da affeição juvenil... Sim; não te accuso; Ama: é a lei da natureza, eterna! Ama: um homem será da nossa raça...»
VI
Estas palavras taes ouvindo a moça, Turbada os olhos descaiu na terra, E algum tempo ficou calada e triste, Como no azul do céu o astro da noite, Se uma nuvem lhe empana a meio a face. Subito a voz e o rosto alevantando, Com dissimulação,—peccado embora, Mas innocente:—«Olhai, a noite é linda! O vento encrespa mollemente as ondas, E o céu é todo azul e todo estrelas! Formosa, oh! quão formosa a terra minha! Dizei: além desses compridos serros, Além daquelle mar, á orla de outros, Outras como esta vivem?»
VII
Fresca e pura Era-lhe a voz, voz d'alma que sabia Entrar no coração paterno. A fronte Inclina o velho sobre o rosto amado De Angela.—Na cabeça osculo santo Imprime á filha; e suspirando, os olhos Melancholicamente ao ar levanta, Desce-os e assim murmura: «Vaso é digno de ti, lyrio dos vales, Terra solene e bella. A natureza Aqui pomposa, compassiva e grande, No regaço recebe a alma que chora E o coração que tumido suspira. Comtudo, a sombra pesarosa e errante Do povo que acabou pranteia ainda Ao longo das areias, Onde o mar bate, ou no cerrado bosque Inda povoado das reliquias suas, Que o nome de Tupan confessar podem No proprio templo augusto. Ultima e forte Consolação é esta do vencido Que viu tudo perder-se no passado, E unico salva do naufragio imenso O seu Deus. Patria não. Uma ha na terra Que eu nunca vi... Hoje é ruina tudo, E viuvez e morte. Um tempo, emtanto, Bella e forte ella foi; mas longe, longe Os dias vão da fortaleza e gloria Escoados de todo como as aguas Que não volvem jamais. Oleo que a unge, Finas telas que a vestem, atavios De ouro e prata que o colo e os braços lhe ornam, E a flôr de trigo e mel de que se nutre, Sonhos, são sonhos do propheta. É morta[20] Jerusalem! Oh! quem lhe dera os dias Da passada grandeza, quando a planta Da senhora das gentes sobre o peito Pousava dos vencidos, quando o nome Do que ha salvo Israel, Moysés...» «—Não! Christo, Filho de Deus! Só elle ha salvo os homens!» Isto dizendo, a delicada virgem As mãos postas ergueu. Uma palavra Não disse mais; no coração, emtanto, Murmurava uma prece silenciosa, Ardente e viva, como a fé que a anima Ou como a luz da lampada A que não faltou oleo.
VIII
Taciturno Esteve longo tempo o ancião. Aquella Alma infeliz nem toda era de Christo Nem toda de Moyses; ouvia attento A palavra da Lei, como nos dias Do eleito povo; mas a doce nota Do Evangelho não raro lhe batia No alvoroçado peito, Solemnissima e pura... Descambava No entanto a lua. A noite era mais linda, E mais augusta a solidão. Na alcova Entre a pallida moça. Da parede Um Christo pende; ela os joelhos dobra, Os dedos cruza e reza,—não serena, Nem alegre tambem, como costuma, Mas a tremer-lhe nos formosos olhos Uma lagrima.
IX
A lampada accendida Sobre a meza do velho, as largas folhas Allumia de um livro. O maximo era Dos livros todos. A escolhida lauda Era a do canto dos captivos que iam Pelas ribas do Euphrates, relembrando As desgraças da patria. A sós, com elles, Suspira o velho aquelle psalmo antigo: Junto os rios da terra amaldiçoada De Babylonia, um dia nos sentamos, Com saudades de Sião amada. As harpas nos salgueiros penduramos, E ao relembrarmos os extintos dias As lagrimas dos olhos desatamos. Os que nos davam cruas agonias De captiveiro, alli nos perguntavam Pelas nossas antigas harmonias. E diziamos nós aos que fallavam: «Como em terra de exilio amargo e duro Cantar os hymnos que ao Senhor louvavam?» Jerusalem, se inda n'um sol futuro, Eu desviar de ti meu pensamento E teu nome entregar a olvido escuro, A minha dextra a frio esquecimento Votada seja; apegue-se á garganta Esta lingua infiel, se um só momento Me não lembrar de ti, se a grande e santa Jerusalem não for minha alegria Melhor no meio de miseria tanta. Oh! lembra-lhes, Senhor, aquelle dia Da abatida Sião, lembra-lh'o aos duros Filhos de Edom, e á voz que alli dizia: Arruinai-a, arruinai-a; os muros Arrazemol-os todos; só lhe baste Um montão de destroços mal seguros. Filha de Babylonia, que peccaste, Abençoado o que se houver comtigo Com a mesma oppressão que nos mostraste! Abençoado o barbaro inimigo Que os tenros filhos teus ás mãos tomando, Os for, por teu justissimo castigo, Contra um duro penedo esmigalhando!
PARTE II
I
Era naquella doce e amavel hora Em que vem branqueando a alva celeste, Quando parece que remoça a vida E toda se espreguiça a natureza. Alva neblina que espalhara a noite Frouxamente nos ares se dissolve, Como de uns olhos tristes Foge co'o tempo a já ligeira sombra De consoladas maguas. Vida é tudo. E pompa e graça natural da terra, Mas que não seja no ermo, Onde seus olhos rutilos espraia Livres a aurora, sem tocar vestigios De obras caducas do homem, onde as aguas Do rio bebe a fugitiva corça, Vivo aroma nos ares se difunde, E aves, e aves de infinitas cores Voando vão e revoando tornam, Inda senhoras da amplidão que é sua, Donde as hade fugir o homem um dia Quando a agreste solidão entrar o passo Creador que derruba. Já de todo Nado era o sol; e á viva luz que innunda Estes meus patrios morros e estas praias, Sorrindo a terra moça Noiva parece que o virgineo seio Entrega ao beijo nupcial do amado. E hade os funebres véus lançar a morte Na verdura do campo? A natureza A nota vibrará da extrema angustia Neste festivo cantico de graças Ao sol que nasce, ao Creador que o envia, Como renovação de juventude?
II
Coava o sol pela miuda e fina Gelosia da alcova em que se apresta A recente christã. Singelas roupas Traja da ingenua cor que a natureza Pintou nas plumas que primeiro brota O seu patrio guará. Vinculo frouxo Mal lhe segura a luzidia trança, Como ao desdem lançada Sôbre a espadua gentil. Joia nenhuma, Mais que seus olhos meigos, e essa doce Modestia natural, encanto, enlevo, Casta flôr que aborrece os mimos do horto, E ama livre nascer no campo, á larga, Rustica, mas formosa. Não lhe ensombram As tristezas da vespera o semblante, Nem da secreta lagrima na face Ficou vestigio.—Descuidosa e alegre, Ri-se, murmura uma cantiga, ou pensa, E repete baixinho um nome... Oh! se elle Espreital-a pudesse ali risonha, A sós comsigo, entre o seu Christo e as flôres Colhidas ao tombar da extincta noite, E vecejantes inda!
III
De repente, Aos ouvidos da moça enamorada Chega um surdo rumor de soltas vozes, Que ora crescendo vae, ora se apaga, Extranho, desusado. Eram... São elles, Os francezes, que vem de longes praias A cobiçar a perola mimosa, Nictheroy, na alva-azul concha nascida De suas aguas recatadas. Rege O atrevido Duclerc a flôr dos nobres, Cuja tez branca requeimára o fogo Que o vivo sol dos tropicos dardeja, E a lufada dos ventos do oceano. Cobiçam-te elles, minha terra amada, Como quando nas faixas sempre-verdes Eras envolta; e rude, inda que bello, O aspecto havias que poliu mais tarde A clara mão do tempo. Inda repetem Os ecos do reconcavo os suspiros Dos que vieram a buscar a morte, E a receberam dos varões possantes Companheiros de Estacio. A todos elles, Prole de Luso ou geração da Gallia, Captivara-os a nayade escondida, E o sol os viu travados nessa longa E sangrenta porfia, cujo premio Era teu verde, candido regaço. Triunphára o trabuco lusitano Naquele exticnto seculo. Vencido, O pavilhão francez volvera á patria, Pela agua arrastando o longo crepe De suas tristes, mortas esperanças. Que vento novo o desfraldou nos ares?
IV
Angela ouvira as vozes da cidade, As vozes do furor. Já receiosa, Tremula, foge á alcova e se encaminha Á camera paterna. Ia transpondo A franqueada porta... e pára. O peito Rompe-lh'o quasi o coração,—tamanho É o palpitar, um palpitar de gosto, De sorpresa e de susto. Aquelles olhos, Aquella graça mascula do gesto, Graça e olhos são delle, o amado noivo, Que entre os mais homens elegeu sua alma Para o vínculo eterno... Sim, que a morte Póde arrancar ao seio humano o alento Ultimo e derradeiro; os que deveras Unidos foram, volverão unidos A mergulhar na eternidade. Estava Junto do velho pae o gentil moço, Elle todo agitado, o ancião sombrio, Calados ambos. A attitude de ambos, O mysterioso, gelido silencio, Mais que tudo, a presença nunca usada Daquelle homem ali, que mal a espreita De longe e a furto, nos instantes breves Em que lhe é dado vel-a, tudo á moça O animo abala e o coração enfia.
V
Mas o tropel de fóra avulta e cresce E os tres accorda. A virgem, lentamente, Rosto inclinado ao chão, transpõe o espaço Que dos dous a separa... O tenro collo Curva ante o pae, e na enrugada dextra O osculo imprime, herdada usança antiga De filial respeito. As mãos lhe toma Enternecido o velho; olhos com olhos Alguns instantes rapidos ficaram, Até que elle, voltando o rosto ao moço: «—Perdoai,—disse,—se o paterno affecto Me atou a lingua. Vacillar é justo Quando á pobre ruina a flôr lhe pedem Que unica lhe nasceu,—unica adorna A aridez melancholica do extremo, Pallido sol... Não protesteis! Roubal-a, Arrancal-a aos meus ultimos instantes, Não o fareis de certo. Pouco importa Dês que a metade lhe levaes da vida, Dês que seu coração, comvosco parte Affeições minhas.—Ao demais, o sangue Que lhe corre nas veias, condemnado, Nuno, será dos vossos...» Longo e frio Olhar estas palavras acompanha, Como a arrancar-lhe o pensamento interno. A donzella estremece. Nuno o alento Recobra e falla: «Puro sangue é elle, Se lhe corre nas veias. Tão mimosa, Candida creatura, alma tão casta, Inda nascida entre os incréos da Arabia, Deus a votara á conversão e á vida Dos eleitos do céu. Aguas sagradas Que a lavaram no berço, já nas veias O sangue velho e impuro lhe trocaram Pelo sangue de Christo...»
VI
Neste instante Cresce o tumulto exterior. A virgem Medrosa toda se conchega ao collo Do velho pae. «Ouvis? Fallae! é tempo! Nuno prossegue.—Este commum perigo Chama os varões á rispida batalha; Com elles vou. Se um galardão, emtanto, Merecer de meus feitos, não á patria Irei pedil-o; só de vós o espero, Não o melhor, mas o unico na terra, Que a minha vida...» Rematar não pôde Esta palavra. Ao escutar-lhe a nova Da imminente peleja E a decisão de combater por ella, Inteiras sente as forças que se perdem A donzella, e bem como ao rijo vento Inclina o collo o arbusto Nos braços desmaiou do pae. Volvida A si, na pallidez do rosto o velho Attenta um pouco, e suspirando: «As armas Empunhae; combatei; Angela é vossa. Não de mim a havereis: ella a si mesma Toda nas vossas mãos se entrega. Morta Ou feliz é a escolha; não vacillo: Seja feliz, e folgarei com ella...»
VII
Sobre a fronte dos dous, as mãos impondo, Ao seio os conchegou, bem como a tenda Do patriarcha santo agasalhava O moço Isaac e a delicada virgem Que entre os rios nasceu. Delicioso[21] E solemne era o quadro; mas solemne E delicioso embora, ia esvair-se Qual celeste visão, que accende a espaços O animo do infeliz. A guerra, a dura Necessidade de immolar os homens, Por salvar homens, a terrivel guerra Corta o amoroso vinculo que os prende E á moça o riso lhe converte em lagrimas. Misera és tu, pallida flôr; mas soffre Que o calor deste sol te acurve o calix, Morta, não, nem já murcha,—mas apenas Como cançada de queimor do estio. Soffre; a tarde virá serena e branda A reviver-te o alento; a fresca noite Choverá sobre ti piedoso orvalho mais risonha surgirás á aurora.
VIII
Foge á estancia da paz o hardido moço; Esperança, fortuna, amor e patria A guerrear o levam. Já nas veias O vivo sangue irrequieto pulsa, Como ancioso de correr por ambas, A bella terra e a suspirada noiva. Triste quadro a seus olhos se apresenta; Nos femininos rostos vê pintados Incerteza e terror; lamentos, gritos Soam de entorno. Voam pelas ruas Homens de guerra; homens de paz se aprestam Para a crua peleja; e, ou nobre estancia, Ou choupana rasteira, armado é tudo Contra a forte invasão. Nem lá se deixa Quieto, a sós com Deus, na estreita cella, O solitario monge que ás batalhas Fugiu da vida. O patrimonio santo Cumpre salval-o. Cruz e espada empunha, Deixa a serena região da prece E voa ao torvelinho do combate.
IX
Entre os fortes alumnos que dirige O ardido Bento, a perfilar-se corre[22] Nuno. Estes são os que o primeiro golpe Descarregam no attonito inimigo. Do militar officio ignoram tudo, De armas não sabem; mas o brio e a honra E a lembrança da terra em que primeiro Viram a luz, e onde o perdel-a é doce, Essa a escola lhes foi. Pasma o inimigo Do nobre esforço e galhardia rara, Com que inda nos humbraes da vida que orna Tanta esperança, tanto sonho de ouro, Resolutos a morte encaram, prestes A retalhar nas dobras Da vestidura funebre da patria O piedoso lençol que os leve á campa, Ou com ella cingir o eterno louro.
X
Ó mocidade, ó baluarte vivo Da cara patria! Já perdida é ella, Quando em teu peito enthusiasmo santo E puro amor se extingue, e áquelle nobre, Generoso despejo e ardor antigo Succede o frio calcular, e o torpe Egoismo, e quanto ha hi no humano peito, Que é fructo nosso e podre... Muitos caem Mortos alli. Que importa? Vão seguindo Avante os bravos, que a invasão caminha Implacavel e dura, como a morte, A pelejar e a destruir. Tingidas Ruas de extranho sangue E sangue nosso, lacerados membros, Corpos de que ha fugido a alma cançada, E o denso fumo e os funebres lamentos, Quem nessa confusão, miseria e gloria Conhecerá da juvenil cidade O aspecto, a vida? Aqui da infancia os dias Nuno vivêra, á vecejante sombra Do seu patrio arvoredo, ao som das vagas Que inda batendo vão na amada areia; Risos, jogos da verde meninice, Esta praia lhe lembra, aquella pedra, A mangueira do campo, a tosca cerca De espinheiro e de flôres enlaçadas, A ave que voa, a brisa que suspira, Que suspira como elle ha suspirado, Quando rompendo o coração do peito Ia-lhe empós dessa visão divina, Realidade agora... E ha de perdel-as Patria e noiva? Esta ideia lhe esvoaça Torva e surda no cerebro do moço, E ao contrahido espirito redobra Impeto e forças. Rompe Por entre a multidão dos seus, e investe Contra o duro inimigo; as balas voam, E com ellas a morte, que não sabe Dos escolhidos seus a terra e o sangue, E indistinctos os toma; elle, no meio Daquelle horrivel turbilhão, parece Que a faisca do genio o leva e anima, Que a fortuna o votára á gloria.
XI
Soam Enfim os gritos de triunmpho; e o peito Do povo que lutou respira á larga, Como ao que, após ardua subida, chega Ao cimo da montanha, e ao longe os olhos Estende pelo azul dos céus, e a vida Bebe nesse ar mais puro. Farto sangue A victoria custára; mas, se em meio De tanta gloria ha lagrimas, soluços, Gemidos de viuvez, quem os escuta, Quem as vê essas lagrimas choradas Na multidão da praça que troveja E folga e ri? O sacro bronze que usa Os fieis convidar á prece, e a morte Do homem pranteia lugubre e solemne, Ora festivo canta O comum regosijo; e pela aberta Porta dos templos entra a frouxo o povo A agradecer com lagrimas e vozes O triumpho,—piedoso instincto da alma, Que a Deus levanta o pensamento e as graças.
XII
Tu, mancebo feliz, tu bravo e amado, Voa nas asas rutilas e leves Da fortuna e do amor. Como ao indiano, Que, ao regressar das porfiadas lutas, Por estas mesmas regiões entrava, A encontral-o saía a meiga esposa, —A recente christã, entre assustada E jubilosa coroará teus feitos Co'a melhor das capelas que hão pousado Em fronte de varão,—um doce e longo Olhar que inteiro encerra a alma que chora De gosto e vida! Voa o moço á estancia Do ancião; e ao pôr na suspirada porta Olhos que traz famintos de encontral-a, Frio terror lhe empece os membros. Frouxo Ia o sol transmontando; lenta a vaga Melancholicamente ali gemia, E todo o ar parecia arfar de morte. Qual se pallida a víra, já cerrados Os desmaiados olhos, Frios os doces labios Cansados de pedir aos céus por elle, Nuno estacára; e pelo rosto em fio O suor lhe caiu da extrema angustia; Longo tempo vacilla; Vence-se emfim, e entra a mansão da esposa.
XIII
Quatro vultos na camara paterna Eram. O pae sentado, Calado e triste. Reclinada a fronte No espaldar da cadeira, a filha os olhos E o rosto esconde, mas tremor continuo De um abafado soluçar o esbelto Corpo lhe agita. Nuno aos dous se chega; Ia a fallar, quando a formosa virgem, Os lacrimosos olhos levantando, Um grito solta do intimo do peito E se lhe prostra aos pés: «Oh! vivo, és vivo! Inda bem... Mas o céu, que por nós vela, Aqui te envia... Salva-o tu, se pódes, Salva meu pobre pae!» Estremecendo, Nella e no velho fita Nuno os olhos, E agitado pergunta: «Qual ousado Braço lhe ameaça a vida?» Cavernosa Uma voz lhe responde: «O sancto officio!» Volve o mancebo o rosto E o merencorio aspecto De dous familiares todo o sangue Nas veias lhe gelou.
XIV
Solemne o velho Com a voz, não frouxa, mas pausada, falla: «Vês? Todo o brio, todo o amor no peito Te emudeceu. Só lastimar-me podes, Salvar-me, nunca. O carcere me aguarda, E a fogueira talvez; cumpril-a, é tempo, A vontade de Deus. Tu, pae e esposo Da desvalida filha que ahi deixo, Nuno, serás. A relembrar com ella Meu pobre nome, applacareis a immensa Colera do Senhor...» Sorrindo ironico, Estas palavras ultimas lhe caem Dos labios tristes. Ergue-se: «Partamos! Adeus! Negou-me Aquelle que no campo Deixa a arvore ancian perder as folhas No mesmo ponto em que as nutriu viçosas, Negou-me ver por estas longas serras Ir-se-me o ultimo sol. Brando regaço A filial piedade me daria Em que eu dormisse o derradeiro somno, E em braços de meu sangue transportado Fora em horas de paz e de silencio Levado ao leito extremo e eterno. Vive Ao menos tu...»
XV
Um familiar lhe corta O adeus ultimo: «Vamos: é já tempo!» Resignado o infeliz, ao seio aperta A filha, e todo o coração n'um beijo Lhe transmitiu, e a caminhar começa. Angela os lindos braços sobre os hombros Trava do austero pae; flôres dissereis De parasita, que enroscou seus ramos Pelo cançado tronco, esteril, secco De arvore antiga: «Nunca! Hão de primeiro A alma arrancar-me! Ou se heis peccado, e a morte Pena hade ser da commettida culpa, Convosco descerei á campa fria, Juntos a mergulhar na eternidade. Israel tem vertido Um mar de sangue. Embora! á tona delle Verdeja a nossa fé, a fé que anima[23] O eleito povo, flôr suave e bella Que o medo não desfolha, nem já secca Ao vento mau da colera dos homens!»
XVI
Trémula a voz do peito lhe saía. Das mãos lhe trava um dos algozes. Ella Entrega-se risonha, Como se o calix da amargura extrema Pelos meles da vida lhe trocassem Celeste e eterna. O coração do moço Latejava de espanto e susto. Os olhos Pousa na filha o desvairado velho. Que ouviu?—Attenta nella; o lindo rosto O céu não busca jubiloso e livre, Antes, como travado de agra pena, Pende-lhe agora ao chão. Dizia acaso Entre si mesma uma oração, e o nome De Jesus repetia, mas tão baixo, Que o coração do pae mal pôde ouvir-lh'o. Mas ouviu-lh'o; e tão forte amor, tamanho Sacrificio da vida a alma lhe rasga E deslumbra. Escoou-se um breve tempo De silencio; elle e ella, os tristes noivos, Como se a eterna noite os recebêra, Gelados eram; levantar não ousam Um para o outro os arrasados olhos De mal contidas e teimosas lagrimas.
XVII
Nuno, enfim, lentamente e a custo arranca Do coração estas palavras: «Fôra Misericordia ao menos confessal-o Quando ao fogo do barbaro inimigo Me era facil deixar o derradeiro Sopro da vida. Premio é este acaso De tamanho lidar? Que mal te hei feito, Por que me dês tão barbara e medonha Morte, como esta, em que o cadaver guarda Inteiro o pensamento, inteiro o aspecto Da vida que fugiu?» Angela os olhos Magoados ergue; arfa-lhe o peito afflicto, Como o dorso da vaga que intumesce A asa da tempestade. «Adeus!» suspira, E a fronte abriga no paterno seio.
XVIII
O rebelde ancião, domado emtanto, Afracar-se-lhe sente dentro d'alma O sentimento velho que bebera Com o leite dos seus; e sem que o labio Transmitta a ouvidos de homem O duvidar do coração, murmura Dentro de si: «Tão poderosa é essa Ingenua fé, que inda negando o nome Do seu Deus, confiada acceita a morte, E guarda puro o sentimento interno Com que o véu rasgará da eternidade? Ó Nazareno, ó filho do mysterio, Se é tua lei a unica da vida Escreve-m'a no peito; e dá que eu veja Morrer commigo a filha de meus olhos E unidos irmos, pela porta immensa Do teu perdão, á eternidade tua!»
XIX
Mergulhára de todo o sol no occaso, E a noite, clara, deliciosa e bella, A cidade cobriu,—não socegada, Como costuma,—porém leda e viva, Cheia de luz, de cantos e rumores, Victoriosa enfim. Elles, calados, Foram por entre a multidão alegre, A penetrar o carcere sombrio. Donde ao mar passarão, que os leve ás praias Da ancian Europa. Carregado o rosto, Ia o pae; ella, não. Serena e meiga, Entra affouta o caminho da amargura, A custo soffreando internas maguas Da amarga vida, breve flôr como ella, Que inda mais breve a mente lhe affigura. Anjo, descera da região celeste A pairar sobre o abysmo; anjo, subia De novo á esphera luminosa e eterna, Patria sua. Levar-lhe-ha Deus em conta O muito amor e o padecer extremo, Quando romper a tunica da vida E o silencio immortal fechar seus labios.
JOSÉ BONIFÁCIO
De tantos olhos que o brilhante lume Viram do sol amortecer no occaso, Quantos verão nas orlas do horizonte Resplandecer a aurora? Innumeras, no mar da eternidade, As gerações humanas vão cahindo; Sobre ellas vae lançando o esquecimento A pesada mortalha. Da agitação esteril em que as forças Consumiram da vida, raro apenas Um eco chega aos seculos remotos, E o mesmo tempo o apaga. Vivos transmite a popular memoria O genio creador e a sã virtude, Os que o patrio torrão honrar souberam, E honrar a especie humana. Vivo irás tu, egregio e nobre Andrada! Tu, cujo nome, entre os que á pátria deram O baptismo da amada independencia, Perpetuamente fulge. O engenho, as forças, o saber, a vida Tu votaste á liberdade nossa, Que a teus olhos nasceu, e que teus olhos Inconcussa deixaram. Nunca interesse vil manchou teu nome, Nem abjectas paixões; teu peito illustre Na viva chamma ardeu que os homens leva Ao sacrificio honrado. Se teus restos ha muito que repousam No pó commum das gerações extinctas, A patria livre que legaste aos netos E te venera e ama, Nem a face mortal consente á morte Que te roube, e no bronze redivivo O austero vulto restitue aos olhos Das vindouras edades. «Vede (lhes diz) o cidadão que teve Larga parte no largo monumento Da liberdade, a cujo seio os povos Do Brasil te acolheram.» «Póde o tempo varrer, um dia, ao longe, A fabrica robusta; mas os nomes Dos que o fundaram viverão eternos, E viverás, Andrada!»
A VISÃO DE JACIUCA
Prestes de novo a batalhar, chegavam Os valentes guerreiros. Mas onde elle, O duro chefe da indomavel tribu, O senhor das montanhas? Affirmava Tatupeba que o vira, antes da aurora, Erguer-se, e ao longo do visinho rio, Por algum tempo caminhar calado, Como se o abafára um pensamento E lhe impedíra o somno. Vão receio De batalhar? Oh! não! Quasi na infancia, A torva catadura viu da guerra, Officio de homens, que aprendeu brincando Com seu pae, extremado entre os guerreiros, E na bravura e na prudencia; a frecha Ninguem soubera menear como elle, Nem mais veloz nem mais certeira nunca. A lentos passos caminhando chega, Enfim, o bravo Jaciuca. Torvo E mereneorio traz o duro aspecto. «—Vamos (diz elle) a descansar na taba, Entre festas e dansas; penduremos As armas nossas, que sobeja ha sido A gloria, e a doce paz nos chama.» Leve, Surdo rumor entre os guerreiros soa; Vai subindo, é rugido, é já tumulto, Como o grunhir de tajassús no matto, Que se approxima e cresce. Jaciuca Olhos quietos pelo campo estende; Seu feio rosto é como a rocha dura Que o raio quebra, mas não lasca o vento. Fecha os labios e pensativo espera. Tatupeba, que a raiva a custo esconde, Ergue-se então; crava-lhe os fulvos olhos, Como a afiada ponta de uma frecha. Seu porte, entre os irmãos, semelha á vista Jequitibá robusto; mais que todos, Terror inspira e universal respeito. Ergue-se e fala:—«Longos soes hei visto, Pelejei muitas guerras; a meu lado Vi cair mais valentes do que folhas Arranca o furacão; mas nunca o animo Dos lidadores abalou a palavra Como essa tua; nunca os braços nossos Ficar deixaram nos desertos campos Os ossos não vingados dos guerreiros. Que genio mau te insinuou tal crime?» Assim fallando, Tatupeba o solo Com a planta feriu. Os olhos todos Pendem da boca do sombrio chefe. Silencioso Jaciuca ouvira As fallas do guerreiro; silencioso E quieto ficou. Após instantes, A fronte sacudiu, como expellindo Ideias más que o cerebro lhe turvam, E a voz lhe rompe do intimo do peito. «Ó guerreiros (diz elle), aqui deitados Estivestes a noite, e toda inteira A dormistes de certo; eu, não distante, Do rio á margem a trabalhar commigo, Afiava na mente atra vingança; Até que os frouxos membros descaíram Sobre a macia relva, e um tempo largo Assim fiquei entre vigilia e somno. Viam meus olhos ondular as aguas, Mas no alheado pensamento os ecos Sussurravam da infancia. Um genio amigo Aos tempos me levava em que no rosto De meu pae aprendi, com frio pasmo, A rara intrepidez, válida herança, Que tanto custa ao perfido inimigo.» «De repente, uma luz pallida e triste Inunda o campo: transparente nevoa E luminosa aquillo parecia, Ou baço reflectir da branca lua Que nuvens cobrem. Livido e curvado, Içayba a meus olhos apparece. Vi-o qual era antes da fria morte; Só a expressão do rosto lhe mudára; Energicas não tinha, mas serenas As feições. «Vem comigo!» Assim me falla O extincto bravo; e, subito estreitando Ao peito o corpo do saudoso amigo, Juntos voámos á região das nuvens. «Olha!» disse Içayba, e o braço alonga Para a terra. Ó guerreiros! largo espaço Era prêsa de alheio senhorio. Fitei os olhos mais; e pouco a pouco, Como enche o rio e todo o campo alaga, Umas gentes extranhas se estendiam De sertão em sertão. Presas do fogo As mattas vi, abrigo do guerreiro, E ao torvo incendio e ás invasões da morte Vi as tribus fugir, ceder a custo, Com lagrimas alguns, todos com sangue, A virgem terra ao barbaro inimigo. Mau vento os trouxe de remota praia Aquelles homens novos, jamais vistos De guerreiro ancião, a quem não coube Sequer a gloria de morrer contente E todo reviver na ousada prole. Era o termo da vida que chegára Ao povo de Tupan! Grito de morte Unico enchia os ares,—um suspiro De tristeza e terror, que reboava Pelos recessos da floresta antiga E talvez ameigava o peito ás feras... Surdos os manitós deixado haviam Os seus fortes heroes; surdos se foram Entre os genios folgar da raça nova, E rir talvez das lagrimas choradas Pelos olhos das virgens... Oh! se ao menos Fora pranto de livres! Era a morte A menor das angustias; vi curvada E captiva rojar no po da terra A fronte do guerreiro, agora altiva, Livre, como o condor que frecha as nuvens; Não kanitar a cinge, mas vergonha, Melancholico adorno do vencido. O rosto desviei do extranho quadro. «Olha!» repete o pallido Içayba. Olhei de novo, e na saudosa taba, Que os nossos arcos defender souberam, Em vez da sombra do piaga santo, Que, ao som do maracá, colhia as vozes Do pensamento eterno, e as infundia No seio do guerreiro, como o fumo Do petum lhe dobrava impeto e força, Um vulto descobri de vestes negras, Nua quasi a cabeça, e cor de espuma Alguns cabellos raros. Tinha o rosto Alvo e quieto. Em suas mãos sustinha Extenso lenho com dois curtos braços. Ia só; todo o campo era deserto. Nem um guerreiro! um arco!«—A tribu?» —«Extinta!» «A tal palavra, uma pesada sombra A vista me apagou, e pela face Senti rolar a lagrima primeira. O sinistro espectaculo mudára. Ao dissipar-se a nuvem de meus olhos Achei-me junto do visinho rio, Reclinado como antes, e defronte A pallida figura de Içayba. «—Torna á taba, me disse o extincto moço; «Luas e luas volverão no espaço «Antes da morte, mas a morte é certa, «E terrivel será. Nação bem outra, «Sobre as ruinas da valente raça «Virá sentar-se, e brilhará na terra «Gloriosa e rica. Uma chorada lagrima, «Talvez, talvez, no meio de triunphos «Ha de ser a tardia, escassa paga «Da morte nossa. Poupa ao menos essa «Derradeira esperança de guardal-o «Todo o valor para o supremo dia «E com honra ceder a extranhas hostes; «Salva ao menos as ultimas reliquias «Desta nação vencida; não se rasguem «Peitos que irmãos ao mesmo sol nasceram «E Anhangá fez contrarios... Todos elles[24] «Poucos serão para a tremenda luta, «Mas de sobra hão de ser para choral-a.» «Assim fallára o pallido Içayba; Alguns instantes contemplou meu rosto, Calado e firme. A cachoeira ao longe Interrompia apenas o silencio; E eu morto, eu mesmo me sentia morto. Elle um triste suspiro magoado Soltou do peito; os apagados olhos Ás estrellas ergueu, sereno e triste, E de novo rompendo o voo aos ares, Como uma frecha penetrou nas nuvens.»
A GONÇALVES DIAS
Ninguém virá, com titubeastes passos. E os olhos lacrimosos, procurando O meu jazigo...
GONÇALVES DIAS.—Últimos Cantos.
Tu vive e gosa a luz serena e pura.
J. BAZILIO DA GAMA.—Uraguai, c. V.
Assim vagou por alongados climas, E do naufragio os humidos vestidos Ao calor enxugou de extranhos lares O lusitano vate. Acerbas penas Curtiu naquelas regiões; e o Ganges, Se o viu chorar, não viu pousar calada, Como a harpa dos exules profetas, A heroica tuba. Elle a embocou, vencendo Co'a lembrança do ninho seu paterno, Longas saudades e miserias tantas. Que monta o padecer? Um só momento As maguas lhe pagou da vida; a patria Reviu, apoz a suspirar por ella; E a velha terra sua O despojo mortal cobriu piedosa E de sobejo o compensou de ingratos. Mas tu, cantor da America, roubado Tão cedo ao nosso orgulho, não te coube Na terra em que primeiro houveste o lume Do nosso sol, achar o ultimo leito! Não te coube dormir no chão amado, Onde a luz frouxa da serena lua, Por noite silenciosa, entre a folhagem Coasse os raios humidos e frios, Com que ella chora os mortos... derradeiras Lagrimas certas que terá na campa O infeliz que não deixa sobre a terra Um coração ao menos que o pranteie. Vinha contudo o pallido poeta Os desmaiados olhos estendendo Pela azul extensão das grandes aguas, A pesquizar ao longe o esquivo fumo Dos patrios tectos. Na abatida fronte Ave da morte as asas lhe roçára; A vida não cobrou nos ares novos, A vida, que em vigilias e trabalhos, Em prol dos seus, gastou por longos annos, Co'essa largueza de animo fadado A entornar generoso a vital seiva. Mas, que importava a morte, se era doce Morrel-a á sombra deliciosa e amiga Dos coqueiros da terra, ouvindo acaso No murmurar dos rios, Ou nos suspiros do nocturno vento, Um eco melancholico dos cantos Que elle outrora entoára? Traz do exilio Um livro, monumento derradeiro Que á patria levantou; alli revive Toda a memoria do valente povo Dos seus Tymbiras... Subito, nas ondas Bate os pés, espumante e desabrido, O corcel da tormenta; o horror da morte Enfia o rosto aos nautas... Quem por elle, Um momento hesitou quando na fragil Tabua confiou a unica esperança Da existencia? Mysterio obscuro é esse Que o mar não revellou. Ali sosinho, Travou naquella solidão das aguas O duello tremendo, em que a alma e corpo As suas forças ultimas despendem Pela vida da terra e pela vida Da eternidade. Quanta imagem torva, Pelo turbado espirito batendo As fuscas azas, lhe tornou mais triste Aquelle instante funebre! Suave É o arranco final, quando o já frouxo Olhar contempla as lagrimas do affecto, E a cabeça repousa em seio amigo. Nem affectos nem prantos; mas somente A noite, o medo, a solidão e a morte. A alma que alli morava, ingenua e meiga, Naquele corpo exiguo, abandonou-o, Sem ouvir os soluços da tristeza, Nem o grave salmear que fecha aos mortos O frio chão. Ella o deixou, bem como Hospede mal acceito e mal dormido, Que prossegue a jornada, sem que leve O osculo da partida, sem que deixe No rosto dos que ficam,—rara embora,— Uma sombra de pallida saudade. Oh! sobre a terra em que pousaste um dia, Alma filha de Deus, ficou teu rasto Como de estrella que perpétua fulge! Não viste as nossas lagrimas; comtudo O coração da patria as ha vertido. Tua gloria as seccou, bem como orvalho Que a noite amiga derramou nas flôres E o raio enxuga da nascente aurora. Na mansão a que foste, em que ora vives, Has de escutar um eco do concerto Das vozes nossas. Ouvirás, entre ellas, Talvez, em labios de indiana virgem! Esta saudosa e suspirada nenia: «Morto! é morto o cantor dos meus guerreiros! Virgens da matta, suspirai commigo!» «A grande agua o levou como invejosa. Nenhum pé trilhará seu derradeiro Funebre leito; elle repousa eterno Em sítio onde nem olhos de valentes, Nem mãos de virgens poderão tocar-lhe Os frios restos. Sabiá da praia De longe o chamará saudoso e meigo, Sem que ele venha repetir-lhe o canto. Morto! é morto o cantor de meus guerreiros! Virgens da matta, suspirai comigo!» Ele houvera do Ybake o dom supremo De modular nas vozes a ternura, A colera, o valor, tristeza e magua, E repetir aos namorados ecos Quanto vive e reluz no pensamento. Sobre a margem das aguas escondidas, Virgem nenhuma suspirou mais terna, Nem mais válida a voz ergueu na taba, Suas nobres acções cantando aos ventos, O guerreiro tamoyo. Doce e forte, Brotava-lhe do peito a alma divina. Morto! é morto o cantor dos meus guerreiros! Virgens da matta, suspirai comigo! «Coema, a doce amada de Itajuba, Coema não morreu; a folha ágreste Póde em ramas ornar-lhe a sepultura, E triste o vento suspirar-lhe em torno; Ella perdura a virgem dos Tymbiras, Ella vive entre nós. Airosa e linda, Sua nobre figura adorna as festas E enflora os sonhos dos valentes. Elle, O famoso cantor, quebrou da morte O eterno jugo; e a filha da floresta Hade a historia guardar das velhas tabas Inda depois das ultimas ruinas. Morto, é morto o cantor dos meus guerreiros! Virgens da mata, suspirai commigo! «O piaga, que foge a extranhos olhos, E vive e morre na floresta escura, Repita o nome do cantor; nas aguas Que o rio leva ao mar, mande-lhe ao menos Uma sentida lagrima, arrancada Do coração que ele tocára outr'ora, Quando o ouviu palpitar sereno e puro, E na voz celebrou de eternos carmes. Morto, é morto o cantor dos meus guerreiros! Virgens da matta, suspirai comigo!»
OS SEMEADORES[25]
(Século XVI)
Eis ahi saiu o que semêa a semear...
MATH., XIII, 3.
Vós os que hoje colheis, por esses campos largos, O doce fruto e a flôr, Acaso esquecereis os asperos e amargos Tempos do semeador? Rude era o chão; agreste e longo aquelle dia; Comtudo, esses heroes Souberam resistir na afanosa porfia Aos temporaes e aos soes. Poucos; mas a vontade os poucos multiplica, E a fé, e as orações Fizeram transformar a terra pobre em rica E os centos em milhões. Nem somente o labor, mas o perigo, a fome, O frio, a descalcez, O morrer cada dia uma morte sem nome, O morrel-a, talvez, Entre barbaras mãos, como se fora crime, Como se fora réu Quem lhe ensinára aquela ação pura e sublime De as levantar ao céu! Ó Paulos do sertão! Que dia e que batalha! Vencestel-a; e podeis Entre as dobras dormir da secular mortalha; Vivereis, vivereis!
A FLOR DO EMBIROÇU
Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
FIL. ELIS.
Quando a noturna sombra envolve a terra E á paz convida o lavrador cansado, Á fresca brisa o seio delicado A branca flôr do embiroçú descerra. E das limpidas lagrimas que chora A noite amiga, ella recolhe alguma; A vida bebe na ligeira bruma, Até que rompe no horizonte a aurora. Então, á luz nascente, a flôr modesta, Quando tudo o que vive alma recobra, Languidamente as suas folhas dobra, E busca o somno quando tudo é festa. Suave imagem da alma que suspira E odeia a turba vã! da alma que sente Agitar-se-lhe a aza impaciente E a novos mundos transportar-se aspira! Tambem ella ama as horas silenciosas, E quando a vida as lutas interrompe, Ella da carne os duros elos rompe, E entrega o seio ás ilusões viçosas. É tudo seu,—tempo, fortuna, espaço, E o céu azul e os seus milhões de estrellas; Abrazada de amor, palpita ao vel-as, E a todas cinge no ideal abraço. O rosto não encara indifferente, Nem a traidora mão candida aperta; Das mentiras da vida se liberta E entra no mundo que jamais não mente. Noite, melhor que o dia, quem não te ama? Labor ingrato, agitação, fadiga, Tudo faz esquecer tua aza amiga Que a alma nos leva onde a ventura a chama. Ama-te a flôr que desabrocha á hora Em que o ultimo olhar o sol lhe estende, Vive, embala-se, orvalha-se, recende, E as folhas cerra quando rompe a aurora.
LUA NOVA[26]
Mãe dos fructos, Jacy, no alto espaço Eil-a assoma serena e indecisa: Sopro é della esta languida brisa Que sussurra na terra e no mar. Não se mira nas aguas do rio, Nem as ervas do campo branqueia; Vaga e incerta ella vem, como a ideia Que inda apenas começa a espontar. E iam todos; guerreiros, donzellas, Velhos, moços, as redes deixavam; Rudes gritos na aldeia soavam, Vivos olhos fugiam p'ra o céu: Iam ve-la, Jacy, mãe dos fructos, Que, entre um grupo de brancas estrellas, Mal scintila: nem póde vencel-as, Que inda o rosto lhe cobre amplo véu. E um guerreiro: «Jacy, doce amada, Retempera-me as forças; não veja Olho adverso, na dura peleja, Este braço já frouxo cair. Vibre a setta, que ao longe derruba Tajassú, que roncando caminha; Nem lhe escape serpente damninha, Nem lhe fuja pesado tapir.» E uma virgem: «Jacy, doce amada, Dobra os galhos, carrega esses ramos Do arvoredo co'as frutas que damos Aos valentes guerreiros, que eu vou A buscal-os na mata sombria, Por trazel-os ao moço prudente, Que venceu tanta guerra valente, E estes olhos consigo levou.» E um ancião, que a saudara ja muitos, Muitos dias: «Jacy, doce amada, Dá que seja mais longa a jornada, Dá que eu possa saudar-te o nascer, Quando o filho do filho, que hei visto Triumphar de inimigo execrando, Possa as pontas de um arco dobrando Contra os arcos contrarios vencer.» E elles riam os fortes guerreiros, E as donzelas e esposas cantavam, E eram risos que d'alma brotavam, E eram cantos de paz e de amor. Rude peito criado nas brenhas, —Rude embora,—terreno é propicio; Que onde o germen lançou beneficio Brota, enfolha, verdeja, abre em flôr.
SABINA
Sabina era mucama da fazenda; Vinte annos tinha; e na provincia toda Não havia mestiça mais á moda, Com suas roupas de cambraia e renda. Captiva, não entrava na senzala, Nem tinha mãos para trabalho rude; Desbrochava-lhe a sua juventude Entre carinhos e affeições de sala. Era cria da casa. A sinhá moça, Que com ella brincou sendo menina, Sobre todas amava esta Sabina, Com esse ingenuo e puro amor da roça. Dizem que á noite, a suspirar na cama, Pensa n'ella o feitor; dizem que um dia, Um hospede que alli passado havia, Poz um cordão no collo da mucama. Mas que vale uma joia no pescoço? Não pôde haver o coração da bella. Se alguem lhe acende os olhos de gazella, É pessoa maior: é o senhor moço. Ora, Octavio cursava a Academia. Era um lindo rapaz; a mesma edade Co'as passageiras flôres o adornava De cujo extincto aroma inda a memoria Vive na tarde pallida do outomno. Oh! vinte anos! Ó pombas fugitivas Da primeira estação, porque tão cedo Voaes de nós? Pudesse ao menos a alma Guardar comsigo as illusões primeiras, Virgindade sem preço, que não paga Essa descolorida, árida e sêcca Experiencia do homem! Vinte annos Tinha Octavio, e a belleza e um ar de corte, E o gesto nobre, e seductor o aspecto; Um vero Adonis, como aqui diria Algum poeta classico, d'aquella Poesia que foi nobre, airosa e grande Em tempos idos, que ainda bem se foram... Cursava a Academia o moço Octavio; Ia no anno terceiro, não remoto Via desenrolar-se o pergaminho, Premio de seus labores e fadigas; E uma vez bacharel, via mais longe Os curvos braços da feliz cadeira D'onde o legislador a redea empunha Dos lepidos frisões do Estado. Emtanto, Sobre os livros de estudo, gota a gota As horas despendia, e trabalhava Por metter na cabeça o jus romano E o patrio jus. Nas suspiradas ferias Volvia ao lar paterno; ali no dorso De brioso corsel corria os campos, Ou, arma ao hombro, polvorinho ao lado, Á caça dos veados e cotias, Ia matando o tempo. Algumas vezes Com o padre vigario se entretinha Em desfiar um ponto de intrincada Philosophia, que o senhor de engenho, Feliz pae, escutava glorioso, Como a rever-se no brilhante aspecto De suas ricas esperanças. Era Manhã de estio; erguera-se do leito Octavio; em quatro sorvos toda esgota A taça de café. Chapeo de palha, E arma ao hombro, lá foi terreiro fóra, Passarinhar no mato. Ia costeando O arvoredo que além beirava o rio, A passo curto, e o pensamento á larga, Como leve andorinha que saísse Do ninho, a respirar o hausto primeiro Da manhã. Pela aberta da folhagem, Que inda não doura o sol, uma figura Deliciosa, um busto sobre as ondas Suspende o caçador. Mãe d'água fôra, Talvez, se a cor de seus quebrados olhos Imitasse a do céu; se a tez morena, Morena como a esposa dos Cantares, Alva tivesse; e raios de ouro fossem Os cabellos da cor da noite escura, Que ali soltos e humidos lhe caem, Como um véu sobre o collo. Trigueirinha, Cabello negro, os largos olhos brandos Cor de jaboticaba, quem seria, Quem, senão a mucama da fazenda, Sabina, emfim? Logo a conhece Octavio, E n'ella os olhos espantados fita Que desejos accendem.—Mal cuidando D'aquelle extranho curioso, a virgem Com os ligeiros braços rompe as aguas, E ora toda se esconde, ora ergue o busto, Talhado pela mão da natureza Sobre o modelo classico. Na opposta Riba suspira um passarinho; e o canto E a meia luz, e o sussurrar das aguas, E aquella fada ali, tão doce vida Davam ao quadro, que o ardente alumno Trocára por aquillo, uma hora ao menos, A Faculdade, o pergaminho e o resto. Subito erige o corpo a ingenua virgem; Com as mãos, os cabellos sobre a espadua Deita, e rasgando lentamente as ondas, Para a margem caminha, tão serena, Tão livre como quem de extranhos olhos Não suspeita a cubiça... Véu da noite, Se lh'os cobrira, dissipára acaso Uma historia de lagrimas. Não póde Furtar-se Octavio á commoção que o toma; A clavina que a esquerda mal sustenta No chão lhe cae; e o baque surdo accorda A descuidada nadadora. Ás ondas A virgem torna. Rompe Octavio o espaço Que os divide; e de pé, na fina areia, Que o molle rio lambe, erecto e firme, Todo se lhe descobre. Um grito apenas Um só grito, mas unico, lhe rompe Do coração; terror, vergonha... e acaso Prazer, prazer mysterioso e vivo De captiva que amou silenciosa, E que ama e vê o objecto de seus sonhos, Ali com ella, a suspirar por ella. «Flôr da roça nascida ao pé do rio, Octavio começou—talvez mais bella Que essas bellezas cultas da cidade, Tão cobertas de joias e de sedas, Oh! não me negues teu suave aroma! Fez-te captiva o berço; a lei somente Os grilhões te lançou; no livre peito De teus senhores tens a liberdade, A melhor liberdade, o puro affecto Que te elegeu entre as demais captivas, E de affagos te cobre! Flôr do matto, Mais viçosa do que essas outras flôres Nas estufas criadas e nas salas, Rosa agreste nascida ao pé do rio, Oh! não me negues teu suave aroma!» Disse, e da riba os cubiçosos olhos Pelas aguas estende, emquanto os d'ella, Cobertos pelas palpebras medrosas Choram,—de gosto e de vergonha a um tempo Duas unicas lagrimas. O rio No seio as recebeu; comsigo as leva, Como gottas de chuva, indifferente Ao mal ou bem que lhe povoa a margem; Que assim a natureza, ingenua e docil Ás leis do Creador, perpétua segue Em seu mesmo caminho, e deixa ao homem Padecer e saber que sente e morre. Pela azulada esphera inda trez vezes A aurora as flôres derramou, e a noite Vezes trez a mantilha escura e larga Mysteriosa cingiu. Na quarta aurora, Anjo das virgens, anjo de azas brancas, Pudor, onde te foste? A alva capella Murcha e desfeita pelo chão lançada, Coberta a face do rubor do pejo, Os olhos com as mãos velando, alçaste Para a Eterna Pureza o eterno voo. Quem ao tempo cortar pudera as azas Se deleitoso voa? Quem pudera Suster a hora abençoada e curta Da ventura que foge, e sobre a terra O gozo transportar da eternidade? Sabina viu correr tecidos de ouro Aqueles dias unicos na vida Toda enlevo e paixão, sincera e ardente Nesse primeiro amor d'alma que nasce E os olhos abre ao sol. Tu lhe dormias, Consciencia; razão, tu lhe fechavas A vista interior; e ella seguia Ao sabor dessas horas mal furtadas Ao captiveiro e á solidão, sem vel-o O fundo abysmo tenebroso e largo Que a separa do eleito de seus sonhos, Nem pressentir a brevidade e a morte! E com que olhos de pena e de saudade Viu ir-se um dia pela estrada fóra Octavio! Aos livros torna o moço alumno, Não cabisbaixo e triste, mas sereno E lepido. Com ella a alma não fica De seu jovem senhor. Lagrima pura, Muito embora de escrava, pela face Lentamente lhe rola, e lentamente Toda se esvae num pallido sorriso De mãe. Sabina é mãe; o sangue livre Gira e palpita no captivo seio E lhe paga de sobra as dores cruas Da longa ausencia. Uma por uma, as horas Na solidão do campo há de contal-as, E suspirar pelo remoto dia Em que o veja de novo... Pouco importa, Se o materno sentir compensa os males. Riem-se della as outras; é seu nome O assunto do terreiro. Uma invejosa Acha-lhe uns certos modos singulares De senhora de engenho; um pajem moço, De cobiça e ciume devorado, Desfaz nas graças que em silencio adora E consigo medita uma vingança. Entre os parceiros, desfiando a palha Com que entrança um chapeo, solenemente Um Caçanje ancião refere aos outros Alguns casos que viu na mocidade De captivas amadas e orgulhosas Castigadas do céu por seus pecados, Mortas entre os grilhões do captiveiro. Assim falavam elles; tal o aresto Da opinião. Quem evitá-lo póde Entre os seus, por mais baixo que a fortuna Haja tecido o berço? Assim falavam Os captivos do engenho; e porventura Sabina o soube e o perdoou. Volveram Após os dias da saudade os dias Da esperança. Ora, quiz fortuna adversa Que o coração do moço, tão voluvel Como a brisa que passa ou como as ondas, Nos cabellos castanhos se prendesse De donzella gentil, com quem atára O laço conjugal: uma belleza Pura, como o primeiro olhar da vida, Uma flôr desbrochada em seus quinze annos, Que o moço viu n'um dos serões da corte E captivo adorou. Que há de fazer-lhes Agora o pae? Abençoar os noivos E ao regaço trazel-os da familia. Oh! longa foi, longa e ruidosa a festa Da fazenda, por onde alegre entrára O moço Octavio conduzindo a esposa. Viu-os chegar Sabina, os olhos secos, Attonita e pasmada. Breve o instante Da vista foi. Rapido foge. A noite A seu tremulo pé não tolhe a marcha; Voa, não corre, ao malfadado rio, Onde a voz escutou do amado moço. Ali chegando: «Morrerá comigo. O fruto de meu seio; a luz da terra Seus olhos não verão; nem ar da vida Hade aspirar...» Ia a cair nas aguas, Quando subito horror lhe toma o corpo; Gelado o sangue e tremula recúa, Vacilla e tomba sobre a relva. A morte Em vão a chama e lhe fascina a vista; Vence o instincto de mãe. Erma e calada Ali ficou. Viu-a jazer a lua Largo espaço da noite ao pé das aguas, E ouviu-lhe o vento os tremulos suspiros; Nenhum deles, comtudo, o disse á aurora.