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Pelo mundo fóra

Segunda parte

Reading edition

O fim do Paganismo

(gastão de boissier)

A litteratura franceza da actualidade é pouco abundante em obras fundamentaes de sciencia ou de historia, embora conte no seu seio dois dos historiadores mais brilhantes dos modernos tempos Renan e Taine. Á excepção, porém, d'estes dous grandes espiritos, que devem as linhas principaes da sua educação intellectual á Allemanha e á Inglaterra e nos quaes são profundamente sensiveis essas influencias estranhas―póde dizer-se que a grande geração dos Michelet, dos Quinet, dos Auguste Comte não deixou herdeiros capazes de nobremente a representarem.

Continúa, porém, a escrever-se muito em França, e como as qualidades eminentemente sociaveis d'esta nação privilegiada a tornam apta para o seu grande papel de propagadora, de educadora dos espiritos, póde bem accrescentar-se que nós os europêus do Occidente quasi tudo que sabemos, o sabemos passado pelos livros da França.

Ou traduzidos para francez ou assimilados pelo espirito da França, é por esse caminho que nos chegam todas as grandes idéas mais ou menos novas, elaboradas ou transformadas pela raça anglo-saxonia, pela raça germanica, ou pela raça slava.

Eu por mim lamento infinitamente que em Portugal a litteratura ingleza por exemplo seja tão incompletamente conhecida. Tenho achado tantas vezes um gozo incomparavel na leitura de escriptores inglezes, que não posso deixar de sentir que esse intenso prazer intellectual não seja mais universalmente partilhado. E é-o tão pouco que ha tempos uma amiga minha―muito instruida e

grã ledora

por signal―me affirmava ter ouvido a um

homem de Estado

portuguez, ministro, e não sei que mais, se mais alguma cousa póde haver que ministro, na opinião

imparcial

de quem o é,―affirmar audaciosamente que para provar a inferioridade mental da Inglaterra bastava dizer isto:

é que a Inglaterra não tinha uma litteratura!

Que a patria que viu nascer desde Chaucer e Spencer, até Shakespeare, Milton e Byron, desde Bacon até Herbert Spencer, desde Addisson até Macaulay, desde Richardson até Georges Elliot, desde Bunyan o inspirado da Religião até Carlyle o inspirado da Historia―perdôe as heresias do joven estadista, meu compatriota, cuja ignorancia me parece o estar realmente predestinando para governar e dirigir a nossa metaphorica Náu do Estado, por muitos annos e bons.

Vinha tudo isto a proposito de eu ter hoje, contra o meu costume, de apresentar um livro francez tão erudito, tão profundamente e facilmente elaborado, tão cuidadosamente feito sobre documentos authenticos, como se o firmasse o nome de um inglez estudioso, ou de um sabio allemão.

O livro, chama-se

O fim do paganismo

e deve-se á penna autorisada e seria de Gaston Boissier da Academia Franceza, grande e sincero cultor da antiguidade latina e autor de obras muito importantes sobre a historia das lettras classicas.

A obra é enorme. Tem dous volumes macissos que tratam unicamente de assumptos estreitamente ligados ao seu titulo, mas apezar d'isso lê-se com immenso agrado, porque é profundo sem ser pedante, é vivo sem ser desordenado e está escripto com um sentimento intenso e profundo da época que o inspirou.

Essa época é aquella em que as ultimas luctas religiosas se travaram no Occidente entre o Paganismo que expirava e o Christianismo que irrompia ardente, impetuoso, tumido de seiva, cheio de um longo futuro das

entranhas fecundas

da humanidade.

Abre com o seculo IV pela conversão de Constantino, isto é, pela christianisação do Imperio Romano, e fecha com a invasão dos barbaros e com a destruição d'esse Imperio assombroso, que até ás vesperas da sua completa anniquilação fez o espanto até d'aquelles mesmos que mais soffreram d'elle, e que não podiam crêr que elle fosse destruido!

Ja se vê que nos é impossivel em um artigo, ou mesmo em uma série de artigos, resumir este trabalho que representa longos annos de estudo e de paciente investigação; que reflecte a leitura aturada do mais enfadonho e difficil de todas as litteraturas, a da egreja primitiva e a de Roma decadente.

Não queremos, porém, deixar de anunciar este livro áquella classe de leitores que amam sinceramente o estudo, e principalmente o estudo da historia, um dos mais attractivos, um dos mais interessantes que existem no mundo, porque é um d'aquelles que suggerem mais variedade de pensamentos e mais extensa série de impressões intellectuaes.

A que logo se destaca d'esta obra monumental de que tivemos a paciencia de lêr attentamente as mil e tantas paginas é esta: Como nas mais diversas épocas, os homens, tendo attingido um certo gráu de civilisação, se parecem entre si!...

Quantas similhanças frisantes, que identidade de pontos de vista encontramos entre os homens que figuraram no IV seculo da nossa éra e os homens de hoje!

Não admira, porém, isso tanto, logo que pensarmos que ha bastantes similhanças entre a phase de civilisação que atravessamos e a d'esse seculo que assistiu ao esphacelar de um immenso imperio, ao fim tragicamente melancolico de uma religião, á transição violenta e brutal na distancia, mas menos violenta de facto do que a imaginámos, de um regimen para outro que lhe era totalmente opposto.

Não é por uma historia systematicamente escripta, chronologicamente ligada pelos factos, que Gaston Boissier nos inicia n'essa quadra tão afastada de nós.

O auctor preferiu um methodo muito mais captivante e talvez um pouco menos difficil.

Traça quadros differentes e livros completos em si. Fórma como que uma galeria de figuras typicas, cuja influencia se tenha feito sentir pela sua obra escripta ou pela sua acção directa sobre os contemporaneos.

Escolhe aquelles que deixaram um nome celebre e analysa-lhes os livros, as cartas, as poesias, etc. etc. Pede á historia do tempo que lhe forneça os seus documentos mais incontestaveis e reconstrue com elles ou uma physionomia de Imperador ou uma figura de Poeta, ou uma veneravel e grandiosa imagem de Bispo ou de Doutor da nascente egreja.

Constantino, o imperador convertido, Julião, o imperador apostata, são dois estudos de alto interesse historico e psychologico. Em ambos, o auctor vê dois convertidos, dois fanaticos, um do christianismo que se apossa da sua alma e a transporta em allucinações supremas, outro dos velhos deuses, abandonados, cuja restauração prepara com paixão fogosa e arrebatamento devoto.

Nem Constantino é o ambicioso que muitos historiadores têem imaginado e descripto, nem Julião é o livre-pensador que Voltaire enthusiasticamente applaudia.

São duas almas sinceras que usáram do poder illimitado que possuiam, para imporem ás almas dos outros a fé que os transportava. Julião vingava-se assim da oppressão em que o tinham tido longos annos e associava á causa dos deuses vencidos a sua propria causa de opprimido e de victima.

No livro intitulado

O Christianismo e a Educação Romana

, Geston Boissier, o erudito escriptor, traça o mais brilhante quadro d'essa educação antiga, cujo poderoso encanto é tão penetrante, é tão subtil que nunca mais ella deixou de ser a base da instrucção que o mundo tem dado aos seus modernos filhos.

Foi por meio da educação, dada publicamente por mestres pagãos á mocidade christã, que os dois cultos inimigos se fundiram no coração e na imaginação da humanidade. Sem darem por isso, os christãos receberam a influencia do paganismo expirante, por meio dos livros dos seus poetas sublimes e dos seus admiraveis prosadores.

Quem bebera com o leite as inspirações de Homero e de Virgilio; quem aprendera a bem pensar com Platão e a bem dizer com Cicero; quem recebera a magistral lição da Philosophia e do Direito antigo; quem formára o seu espirito por esses moldes incomparaveis, não podia mais esquecer o mel de tão doce eloquencia, a graça de tão perfeita poesia e a lição viril de tão alta sciencia philosophica!

S. Jeronymo, Santo Antonio,

Santo Agostinho

, os grandes doutores, os grandes luminares do christianismo, estão todos penetrados, até á medulla, d'essa influencia suprema e invencivel.

Foi, portanto, por meio da educação, que os dois elementos, o pagão e o christão, se fundiram harmoniosamente.

É de um interesse profundo o quadro que Gaston Boissier desenha d'essa educação romana, tão propria para formar chefes politicos e chefes militares incomparaveis. Mas no seculo IV da éra christã essa educação modificara-se muito, a ponto de já não parecer a mesma, nem ser capaz de produzir os mesmos fructos. Um romano de grande familia não conhecia, nos tempos aureos da vida d'esse imperio, senão dois officios: a guerra e a politica. Aprendia no campo a guerra; a politica aprendia-a, não, lendo Aristoteles ou Platão, mas assistindo diariamente ás sessões do Senado.

Esta educação pratica de uma efficacia admiravel fazia então os valentes capitães e os famosos dominadores politicos.

A Inglaterra contemporanea, de todos os paizes modernos o que mais se parece com a Antiga Roma imperial, tambem cultiva a força viril dos seus filhos nos mais variados

sports

que a desenvolvam; na natação, na nautica, nas corridas de cavallos, na lucta athletica, nos jogos da gymnastica moderna,―mais sabia, embora menos esthetica do que a antiga,―e tambem começa, de muito moços, a exercital-os na arte da palavra, na educação que forma os oradores, os

debaters

, os grandes parlamentares da eloquencia ou dos negocios.

Nas Universidades de Oxford e de Cambridge, ha

clubs

especialmente destinados á discussão dos negocios publicos, onde se propõem e se debatem assumptos de interesse nacional e de politica geral.

Mais tarde, quando os professores gregos se estabeleceram em Roma, os

grammaticos

e os

rhetoricos

tomaram conta da mocidade, ou nas escolas publicas, ou no seio das grandes familias.

A Grecia cultivara com enthusiasmo a philosophia, a musica, a rhetorica, etc. Os Romanos, porém, de uma inaptidão esthetica tão justamente reconhecida por Mommsen―não acceitaram com prazer, de quantas artes e sciencias lhes trouxeram os seus educadores gregos, senão a grammatica e a rhetorica. A philosophia affigurava-se-lhes um palavriado vão e inutil; a geometria e as mathematicas só os captivavam pelas suas applicações de utilidade pratica; eram para elles a arte de contar e de medir.

A rhetorica, porém, essa arte de falar que tanta influencia produzia na imaginação antiga, impoz-se-lhes fatalmente após as primeiras reluctancias do instincto conservador, que detestava tudo que era innovação.

Foi então que a educação dividida em dois ramos, fez da leitura e explicação dos poetas, da critica e analyse das suas obras, a sua base fundamental.

Ainda hoje a Inglaterra, sob as suas apparencias gothicas a mais

romana

das nações, dá aos discipulos das suas universidades aquella fórte educação classica que torna tão substancial e tão nobremente florida ao mesmo tempo a eloquencia dos seus grandes oradores.

II

Sem podermos acompanhar o livro altamente instructivo de Gaston Boissier, nos variados assumptos que elle trata, sem tentarmos resumir os quadros magistraes da vida da antiguidade que elle traçou, n'essas paginas tão ricas de informação e tão sobrias de côr, escolhamos, para d'elles dar conta aos leitores, a quem este genero de trabalho interessa particularmente, alguns dos seus capitulos mais notaveis.

A biographia de Tertuliano, um apologista do christianismo, que o mundo moderno conhece apenas de nome, apesar da sua celebridade theologica não póde, por exemplo, interessar-nos tanto como a

Conversão de Santo Agostinho

.

Este Santo que conheceu até á saciedade, até á nausea, todas as delicias da volupia pagã, este joven elegante, que frequentou com tamanha paixão litteraria as escolas de Carthago, este christão que seguiu com enlevo as procissões da

Mãe dos Deuses

, e que no theatro devorou avidamente as peças ligeiras do reportorio antigo―interessa-nos pela violenta crise mortal que determinou a sua conversão.

Elle mesmo nos confessou em um livro que será sempre avidamente lido pelos prescrutadores insaciaveis do eterno abysmo humano, todas as gradações, todos os cambiantes por que passou a sua alma sequiosa do Infinito e que procurava estancar a sêde que tinha lá dentro de verdade e de luz, correndo atraz de todas as sensações acres e pungitivas, sondando com curiosidade inquieta todos os segredos da Paixão e do Prazer.

Tanto mais meritorio é o sacrificio feito por Santo Agostinho, ao renunciar ás delicias da litteratura pagã, ás graças da musa classica, aos encantos da sociedade polida e culta, quanto era sincero e apaixonado o amor que ella tinha por todos esses prazeres da intelligencia e dos sentidos.

Admirador de Virgilio, discipulo de Cicero, elle atirou-se porém, com ardente desejo de achar n'ellas a verdade que lhe fugia, ao estudo das Escripturas. Ao principio a barbaria christã revoltou o seu puro gosto. Só mais tarde é que, através da fórma incorrecta d'essas traducções hebraicas feitas por escrupulosos e ignorantes christãos, elle poude perceber as correntes puras e limpidas, os mananciaes de vida interior, as preciosas riquezas d'alma, que jorravam dos livros sagrados, e que vinham renovar a alma humana, vazar em moldes novos as suas aspirações e os seus sonhos, crear uma nova fórma de civilisação infinitamente mais rica e mais complexa do que essa, que a formidavel depravação romana tinha gasto com os seus excessos orgiacos e os seus monstruosos e nunca vistos crimes!

Todo o capitulo consagrado a essa bella figura do christianismo primitivo, a esse grande espirito que tanto concorreu para a organisação definitiva dos seus dogmas, e em que Gaston Boissier conta as suas luctas interiores e, finalmente, o triumpho soberbo da sua conversão é de um interesse palpitante.

Teem sempre actualidade para aquelles que pensam os intimos combates de uma consciencia sincera.

Aos que fôrem verdadeiramente

homens

nada do que é humano póde ser estranho; e onde é que a maravilhosa planta dá a sua flôr mais desabrochada e mais perfeita do que n'esses typos luminosos, nos quaes o genio concretisou todos os seus esplendores, a vontade, todas as suas sublimes energias, a consciencia, todas as suas forças mysteriosas!...

Santo Agostinho é o homem que amou, que aspirou, que conheceu a vida, que luctou e que venceu por fim, sobrepondo a todas as contingencias da existencia limitada e mesquinha o que elle na sua alta consciencia julgou ser a eterna verdade!

Subir tão alto pela acção do seu proprio entendimento é conter dentro de si, em um momento cuja memoria não mais se anniquilla, fecundando eternamente outras almas e outras existencias;―aquella porção de

elemento divino

que é dado á frágil humanidade realisar e encarnar em si bem raras vezes.

São estas almas superiores as eternas bemfeitoras da nossa raça imperfeita, tão grande pelo que sonha, tão mesquinha pelo que consegue executar.

As origens da poesia latina christã

, que compõem o livro 4.º, no segundo volume, são tambem cheias de interesse e novidade para quem não está costumado―e quem o está hoje em dia?―a versar tão remotos assumptos!

A litteratura christã nasceu como já dissemos da mistura que se fez durante tres seculos da antiguidade profana e do christianismo.

Aos que conhecem e apreciam a litteratura dos grandes seculos da Grecia e de Roma, deve incontestavelmente parecer mediocre, quasi insupportavel, essa rude e incorrecta litteratura, onde o melhor era imitado ainda assim, com inconsciente impudor, dos modelos antigos.

Mas muito embora ella não tenha valor litterario, ninguem póde negar-lhe um grande valor historico.

O grande abalo moral que o Christianismo imprimira ás almas não tem comtudo, um éco que lhe corresponda na poesia d'este tempo.

Era muito imperfeito o instrumento d'essa lingua latina em dissolução na qual tantos povos varios tinham introduzido as suas locuções barbaras, e que manejada por humildes artifices ignorantes as mais das vezes, perdera o sabor e a graça ampla e perfeita da aurea latinidade.

Não póde pois ser classificada como uma obra de litteratura, a serie de escriptos, que essa era,―no entretanto fecunda e na qual se estavam surdamente e subterraneamente elaborando tantos elementos novos―produziu e nos legou.

N'esse tempo cumpria-se justamente um dos maiores acontecimentos da Historia.

O mundo estava sendo revolvido até ás suas entranhas mais profundas.

Havia dramas intimos em cada consciencia, parecidos com esse, de que Santo Agostinho nos representa o mais elevado typo; havia luctas dolorosas em cada familia; em uns a sêde do martyrio tinha voluptuosidades violentas; em outros a plenitude da paz religiosa attingia uma especie de beatifico esplendor. Que novas sensações de uma intensidade inultrapassavel conheceram então as almas! Que fontes de graça mysteriosa jorraram subitamente n'esses renovados corações! Os crentes elevaram o espirito n'um extase até alli desconhecido. A vida eterna abria as portas resplandecentes aos sequiosos do eterno

au de lá

. Jesus Christo mostrava as chagas do seu corpo, e os estygmas do seu martyrio affrontoso aos que sentiam subir na alma como uma maré mysteriosa, o novo sentimento do amor, a divina emoção da piedade fraternal, que subito fizera todos os homens irmãos, e todos os irmãos soffrendo a partilha angustiosa da mesma agonia!

O Evangelho revelava as suas lendas cheias de graça, as suas parabolas de idyllica innocencia, as suas lições de simples e ineffavel bondade, aos saciados de uma civilisação dissoluta e abominavel!

Todos tinham um quinhão n'aquella herança preciosa!

Para todos havia pão e vinho n'aquella ceia symbolica, em que as almas rejuvenescidas por um sopro de amor commungavam maravilhadas!

Não é, porém, na litteratura, mesmo nos mais rudes ensaios da litteratura christã do tempo, que este mundo de emoções novas tem o seu perduravel reflexo.

A alma do povo, na sua fecundidade prodigiosa, desatou-se, abalada por este impulso que a transfigurava e sacudia, em idéas, em typos, em imagens, em lendas, que a Arte Christã em todos os seus periodos tem largamente aproveitado. Em dois seculos, do segundo ao quarto seculo, a imaginação christã elaborou e amontoou thesouros que enriqueceram o mundo moderno.

Os evangelhos apocryphos gerados espontaneamente pela alma popular, no tempo do christianismo primitivo, são os thesouros mais ricos em que essa imaginação se desentranhou.

A mais doce, a mais imaginosa poesia do christianismo encontra-se alli. Todas as lendas que fizeram o encanto da nossa infancia, e que emballaram tambem com o seu rythmo dulcissimo a risonha infancia da alma moderna, são tiradas d'essa poesia anonyma, em que todas os almas collaboraram em um enleio religioso, e em uma fé palpitante e suggestiva, inconsciente dos prodigios que creava.

Essa é que é a verdadeira litteratura christã, aquella em que as forças espontaneas que geram os mythos e os adornam com todas as flores da mais variada poesia, se revelam com encantadora eloquencia.

Passando em claro os capitulos consagrados a S. Paulino de Nola, um santo gaulez que inspira uma sympathia patriotica a Gaston Boissier; o capitulo que tracta da vida e das obras do poeta Prudencio; e muitos outros que estão cheios de revelações sobre a quadra que descrevem, e em que nós os leitores podemos reconstituir com intenso colorido esse seculo estranho, em que um periodo da Historia da humanidade findava e outro principia a destacar-se nitidamente―paremos deante do

Livro quinto

do 2.º vol. que tem este titulo que é só por si um regalo para os

gulosos

de taes estudos:

A sociedade pagã nos fins do seculo IV

.

Mas percebo agora que cheguei ao fim do espaço de que posso dispôr. E este capitulo de costumes,―em que uma sociedade aristocrata, culta, amiga das lettras, fastienta até ao requinte, frivola até á dissipação, muito occupada de elegancias mundanas, de convenções e de cerimonias, muito sceptica, separada por um abysmo do mundo moderno cujos representantes eram justamente os que compunham a seita que ella teimava a desprezar como plebeia, humilde e ignorante, mesmo depois de fazerem parte d'ella homens de valor moral de Agostinho,―este capitulo, digo em que uma sociedade tão parecida com a nossa com os mesmos preconceitos, com os mesmos vicios, com a mesma despreoccupação do perigo está posta de pé, com admiravel vigor, precisa de um artigo especial que muito proximamente lhe consagrarei.

III

O methodo de Gaston de Boissier é, com algumas modificações secundarias, o methodo de Taine.

Para penetrar uma sociedade, o erudito escriptor estudou a sua litteratura. Para comprehender bem a litteratura de um dado periodo elle procura conhecer e investigar cuidadosamente a vida dos seus escriptores. Cada typo representativo―

representative man

, dizem os inglezes―dá-lhe o segredo das idéas, dos sentimentos que predominavam em uma determinada época.

Assim para dar a conhecer aos seus leitores a alta sociedade romana do quarto seculo, Gaston Boissier vae lêr e faz-nos lêr a nós as cartas de Aurelio Symmachus―personagem de que muitos dos seus leitores e dos leitores benevolos d'este estudo, encurralados na extrema especialisação da educação moderna, nunca de certo ouviram falar.

Todos sabem, que as cartas de Plinio, o moço, e as cartas de Cicero lançam uma grande luz sobre a sociedade da sua época, e concorreram como documentos admiraveis para que a moderna critica, tão erudita e tão comprehensiva, reconstituisse através d'ellas a alma da Antiguidade.

Pois Gaston Boissier pede ás cartas muito menos caracteristicas de Symmachus o mesmo impagavel serviço.

N'aquelle tempo, tão proximo da hora em que Alarico viria bater ás portas de Roma, ninguem percebe a imminencia do perigo que ameaçava a sociedade antiga.

Symmachus occupa-se muito pouco dos negocios publicos; acha-os, ou «nullos ou de pequena importancia.»

Quem lê as correspondencias, aliás adoraveis dos grandes amadores da

epistolographia

no seculo XVIII, tambem não percebe n'ellas o minimo rebate dos perigos que ameaçam o regimen que ia esboroar-se em sangue e em violencias tremendas. Nem o proprio Voltaire, tão agudo de intelligencia, tão perspicaz, tão penetrante, e que tão activamente collaborára na propaganda a que se deveu a Revolução, percebe levemente a responsabilidade que assumia, e as tempestades que elle creára com a sua palavra de fogo.

Nas vesperas das grandes crises que iam transfigurar o mundo, occupam-se todos de galantarias, de ditos graciosos, de versinhos bem feitos, de anecdotas de velado escandalo, de intrigas de amor ou de ambição.

Quem presente sequer que Danton vai trovejar e que Robespierre vai sorrir sinistramente e que d'esse trovão e d'esse sorriso vai surgir um mundo novo?

Tambem hoje, um seculo depois da Revolução, quando, feitas todas as conquistas politicas, a alma inquieta, e nunca satisfeita, do homem reclama imperiosamente a solução prompta, radical do terrivel problema da miseria―quem é que percebe nos salões de Paris, de Londres, de Nova-York e de Berlim que a terrivel liquidação está a chegar, e que uma era tenebrosa de anarchia e de lagrimas, de ruinas e sangue espera porventura os que teimarem em viver muito?

É da lei das sociedades não perceberem nunca claramente as transformações que se estão elaborando no proprio seio d'ellas.

Como quer que seja, a verdade é que o grande senhor romano, cujas cartas nos interessam n'este momento, se não preoccupa absolutamente nada com os negocios do Imperio. Comquanto no seu tempo o Senado seja ainda um corpo importante, elle perdeu comtudo o seu antigo esplendor.

Os Senadores deixaram de ser grandes e poderosos magistrados, mas conservam-se uma classe activa, eminentemente aristocratica, impondo, ja se vê, a moda e dominando os costumes.

É justamente a transformação que se opera na aristocracia europêa, entre o fim do seculo XVII e o principio do seculo XVIII. Occupam grandes cargos honorarios na côrte imperial, como os fidalgos francezes de que nos fala Saint-Simon―e dominam―o que tambem frequentemente lhes succedia a elles―na administração interna das provincias romanas.

Um dos encargos e das honras, que estes ultimos teem e conservam zelosamente, consiste no caro privilegio de dar jogos publicos ao povo. O

pão

e

espectaculos

, de que fala Juvenal, continuam a ser até á final dissolução do Imperio, as unicas necessidades da plebe romana. Muitas cartas de Symmachus, que era conservador das tradições antigas, tratam exclusivamente de encommendas de feras e de animaes, feitas aos amigos que elle tinha em todo o mundo.

Na occasião de investir da pretura o seu filho primogenito gastou elle uma somma equivalente a dois milhões de francos.

Para todos os lados manda emissarios encarregados de lhe trazerem artistas de merito, bichos raros, ornamentos estranhos, sumptuosos e imprevistos, com que elle possa deslumbrar os olhos da plebe e manter a sua popularidade.

N'este ponto não podemos accrescentar que o mundo moderno tenha similhanças com a sociedade antiga. Entre as nossas eleições constitucionaes e estas festas populares com que se comprava o affecto do povo, a differença não é realmente tão pequena como isso.

Os modestos banquetes, com que entre nós o eleito obsequeia os seus eleitores não se parecem lá muito com esses prodigiosos espectaculos em que sómente para lhe agradarem a elle, ao povo-rei, senadores como Symmachus mandavam vir ursos do norte, leões da Africa, cães da Escocia, crocodilos do Nilo,―d'esse

verde

Nilo, de que Cleopatra fôra a serpente lasciva,―cavallos de Hespanha, comicos da Grecia, gladiadores saxões, mimicos, cocheiros, de Byzancio, o inferno!... Todo o mundo, então conhecido, contribuia para o prazer cruel d'esse povo insolente!

Eis um traço de costumes que demonstra, mais que mil dissertações a distancia moral que nos separa dos homens d'esse tempo, ainda mesmo dos melhores:

Symmachus, para essa festa monumental, mandára vir como gladiadores os prisioneiros saxonios, raça valente, sobre a qual contava para o pleno successo do espectaculo. Pois na vespera vinte e nove d'esses homens de bravo coração, não querendo servir para os prazeres do povo romano, estrangularam-se uns aos outros, no carcere em que os guardavam.

Symmachus, que era um bom homem, um homem culto, que conhecia a philosophia e a litteratura antiga, que sabia, emfim, tudo que sabia o seu tempo, longe de perceber a selvagem grandeza d'este acto heroico, enfureceu-se contra os desgraçados, e exclamou de muito boa fé: «Não quero que me falem mais d'esses miseraveis, que são ainda mais perversos que

Spartacus

.»

E esta exclamação de ingenua crueldade, vale mais que uma longa analyse do caracter e da sensibilidade antigos.

O modo externo de viver em Roma differe pouco do já conhecido pelas Cartas de Plinio. As regras de civilidade social têem-se, porém, complicado ainda mais. O tempo nas altas classes passa-se a fazer e a receber visitas, a assistir a cerimonias mundanas, taes como casamentos, investidura da tunica viril, conselhos de familia, etc., etc.

A paixão das lettras é universal na sociedade elegante―tal como no nosso seculo XVIII. Os grandes e graves personagens do tempo passam a vida a trocar entre si versinhos mais ou menos chôchos e a cumprimentarem-se com effusão pelos seus talentos litterarios.

Roma acolhe os litteratos estrangeiros sob o reinado de Theodosio, como o fazia no tempo de Trajano. Os mais illustres escrevem e applaudem quem escreve, e, como no tempo dos Medicis em Florença―os quaes, já se entende, tratavam de imitar a antiguidade―ha banquetes em que se leva a noite a discutir doutamente theorias scientificas e litterarias.

A classe alta possue grandes riquezas. O nosso Symmachus, um dos menos ricos, tem tres casas em Roma e quinze

villas

nas mais bellas regiões da Italia. Não se excede em luxo, em graça voluptuosa, em douta cultura, em elegancia magnifica, a vida d'essa classe privilegiada, cujos avós tinham conquistado o mundo e que tratava agora de lhe gosar em paz as infinitas delicias.

Não se imagine, porém, que só a sociedade pagã estava contaminada d'este egoismo, d'esta preguiça epicurista, d'esta artistica e sumptuosa indolencia. S. Jeronymo, que tambem, antes de convertido, tinha saboreado o gosto d'esta vida ostentosa e anesthesiante, que tambem conversára com as mulheres de espirito, lêra avidamente os deliciosos poetas pagãos, bebêra emfim até á embriaguez essas «delicias de Roma» contra as quaes se revoltava depois, é o proprio que nos conta o modo porque os ociosos e os ricos de

ambos os cultos

passavam a existencia.

«Em que se passa o tempo na grande cidade? pergunta elle, em uma das suas cartas. Em ver e ser visto, em receber visitas e fazêl-as. Em louvar os presentes, e dizer mal dos ausentes. Começa a conversação e não ha meios de acabar.

«Contam-se historias escandalosas. Morde-se e é-se mordido. Dilacera-se quem não está, e adula-se quem ouve.»

Não parece a descripção de uma sala do nosso tempo?

Querem vêr agora o retrato de um abbade da Regencia?

«Levanta-se muito cedo e regula desde logo a ordem das suas visitas. Procura o caminho mais curto, e vai surprehender, ao sahir do leito as damas que pretende visitar. Repara, porventura, em uma almofada, em uma toalha elegante, em algum objecto d'esta ordem. Apalpa-o, admira-o, lamenta-se de não possuir nada egual, e tanto faz, que acaba por conseguir que lhe façam presente d'elle.

«Onde quer que a gente vá, é a primeira pessoa que encontra; sabe todas as noticias; corre a divulgal-as antes de ninguem; inventa-as quando lhe faltam verdadeiras, e, em todo o caso, aformosêa-as com incidentes novos em cada vez que as conta.»

Pois este abbadesinho galante, este joven padre parasita e lisongeiro, não é tal da Regencia como eu lhes disse. É de Roma no tempo de S. Jeronymo e é elle quem o descreve, com este ironico vigor, com esta agudeza espirituosa em uma das suas

Epistolas

!

A differença exterior entre esta civilisação e a nossa é bem grande; os caracteres divergem extraordinariamente em resultado da distancia que vai da moral antiga á moral moderna; o elemento da

caridade

, essa base fundamental do christianismo, ainda apezar de enunciado e de prégado pelos seus apostolos não penetrára profundamente nas almas, que a religião antiga affeiçoára e modelára―mas apesar de tudo isso, quantos quadros d'esse tempo que parecem copiados do tempo actual; quantas figuras d'essa época que vemos reproduzidas na nossa; quantas paixões então dominantes, que a moral da egreja, que o sentimento religioso mais desenvolvido e mais educado, que a philosophia moderna mais piedosa e mais humana, não conseguiram ainda amordaçar.

Como essa sociedade que tripudiava no luxo colossal e na ostentosa e deslumbrante magnificencia―esquecida ou despreoccupada dos perigos que a ameaçavam,―assim a nossa sociedade de hoje, tendo attingido um gráu de civilisação e de riqueza material differente, mas não inferior ás de Roma, se estonteia no gozo egoista de todos os prazeres, e no estadear cynico de todos os vicios, sem presentir que uma seita, tão tenaz como a christã, e menos pacifica e menos espiritualista do que ella, tão capaz de abnegações heroicas e de sacrificios sublimes, e não tendo como ella o seu fim exclusivo no Reino dos Céos, no Reino que não é d'este mundo, avança subterraneamente, recrutando-se nas minas onde não ha luz, nas fabricas onde não ha Deus, nas officinas onde o trabalho é uma ignominia, nas trapeiras miseraveis onde as creanças agonisam com fome entre as blasphemias desesperadas dos pais, nas enxovias immundas onde o ar falta e onde a desesperança brama sinistramente―e se prepara energica e sombria para o definitivo assalto que ha de render a velha sociedade apodrecida!

O que queriam―não esses christãos degenerados e contagiados pelo paganismo de que fala com amargo despreso S. Jeronymo―mas os grandes christãos que sacrificavam e oravam nas catacumbas, que morriam nos amphiteatros e que escreviam com o sangue do coração os seus rudes hymnos de adoração e de fé?

Queriam o desmoronamento total d'esse imperio que era a somma do todas as iniquidades pagãs, que era a escravidão do miseravel e a apotheose do mau rico!

O que quer hoje o socialismo triumphante?

A morte d'esta sociedade, cujo esplendor maravilhoso se faz com o sangue, e as lagrimas do miseravel, do, como nunca, miseravel proletario!

Não é verdade que esta similhança basta para dar ao livro um intenso e profundo interesse?

Anthero de Quental

a obra e a sua morte

I

Hesito em falar ainda de Anthero de Quental! Succedeu um tão silencioso esquecimento ao pasmo, ao sobresalto da primeira noticia do seu suicidio!... E no emtanto, se havia physionomia complexa, suggestiva, capaz de interessar e de captivar o nosso espirito era a d'este poeta de tão requintada e extrema delicadeza de inspiração e de pensamentos.

A primeira impressão que recebi da sua morte, foi tão violenta e dolorosa que em vão tentei traduzil-a em palavras, ou mettel-a no molde imperfeito e rude de uma apreciação critica qualquer.

É hoje sómente, depois de volvido um mez ou mais sobre esse suicidio, que devia enluctar as lettras portuguezas, que eu me atrevo a conversar com os leitores a respeito d'elle.

O livro dos

Sonetos

, saudado na sua primeira apparição com sincero e quasi religioso enthusiasmo, póde considerar-se como a completa confissão d'aquella alma combalida, que procurou na Morte o extremo refugio contra as luctas asperas do Pensamento, contra as chimeras perseguidoras da Imaginação.

Se o considerarmos do ponto de vista pratico e material, d'onde a maior parte da gente se colloca para julgar os homens e as cousas, Anthero não era realmente um infeliz.

Tinha, pelo contrario, mil predicados, mil qualidades invejaveis.

Tinha, primeiro de tudo, um superior e bello talento incontestado; tinha a sufficiente abastança para

não precisar viver d'elle

―o que eu pelo menos considero o maior dos bens―tinha a adoração dos amigos (que lhe chamavam

Santo Anthero

), o respeito dos estranhos, a par de uma consciencia immaculada que no exercicio do bem encontrava permanente e ineffavel consolo; tivera até na mocidade o raro dom de uma belleza de Christo, espiritual, meiga e serena.

E, comtudo, apezar de tantas circumstancias que se reuniam para dever tornar-lhe doce a vida, depois da leitura d'aquelles

sonetos

magistraes, em que tão requintadas amarguras e tão estranhos supplicios se crystallisavam, por assim dizer, em perolas maravilhosas, não havia leitor que não sentisse esta interrogação desabrochar-lhe nos labios: onde é que este homem tão tranquillamente e tão lucidamente desesperado encontra a força de continuar a viver?

O suicidio do grande poeta responde agora, lugubre, mas coherente, terrivel mas logico, á irresistivel pergunta.

O pessimismo de Anthero não era, como a maior parte dos que nós por ahi conhecemos, um pessimismo pessoal, egoista, limitado ás contradicções e ás tristezas do seu proprio destino.

Era um pessimismo philosophico, como o de Leopardi, como o de Schopenhauer, como o de Leconte de Lisle.

A sua concepção da vida, tão triste que faz horror e espanto, traduz-se no soneto:

A Divina Comedia

, em que elle figura os homens erguendo para os remotos céus os braços desesperados e apostrophando esses deuses que só produziram a Dôr, a Paixão, o Peccado, as Illusões, as luctas fratricidas.

«Pois não era melhor na paz clemente Do nada e do que ainda não existe Ter ficado a dormir eternamente? Porque é que para a dôr nos evocastes?» Mas os deuses com voz ainda mais triste, Dizem:―«Homens! porque é que nos criastes?»

A Morte, não sob uma fórma repellente e odiosa, mas attrahente como esphynge, perturbante e voluptuosa como sereia que vem cantar a sua cantilena de seducção á flôr das aguas de um verde glauco, a Morte, revestida de um mysterioso encanto subjugador e estranho, paira por sobre todas os paginas d'este livro, impregnando-as de subtil e contagiosa tristeza.

Dir-se-hia que os

sonetos

lhe são quasi inteiramente consagrados. É a

ella

que elle vê sempre, chamando-o, chamando-o baixinho, entontecendo-o com as promessas do seu silencio eterno, da sua paz profunda e vasta, do seu mysterio que ninguem soube ainda violar.

Anthero pensára tanto que o cérebro esgotado pedia emfim misericordia. A sua ambição não fôra de vãs glorias, nem vãos triumphos; quizera levantar uma ponta d'esse véo que esconde a eterna Verdade, além da qual tantas gerações humanas têem sonhado com alguma cousa de inextinguivel e de eterno.

E essa agonia intellectual que o dilacerou exprime-se em todos os seus versos, com uma potencia maravilhosa, e uma energia devoradora que acabou por consumil-o!

A illusão, o vasio universal

, que encarava ao sahir das suas vertiginosas contemplações metaphysicas, faziam-n'o recuar pavido e tremente. A vida não lhe dava o que elle queria; para áquem d'esse vasto mundo invisivel que a sua alma de sonhador presentia e pelo qual ella anciava, nada havia que lhe satisfizesse a sêde ideal. Por isso Anthero, fugindo voluntariamente d'elle, foi buscar a sua amiga de todas as horas, aquella que podia entregar-lhe a chave do eterno enygma que o desesperava; a

«Morte! irmã do Amor e da Verdade»

A proposito do suicidio de Anthero, falou-se muito de tres suicidios tambem famosos que o precederam; mas realmente, a não ser pela notoriedade que os assignala, eu não sei que elles tenham comparação com o d'este poeta. Nem Camillo, nem Julio Cesar Machado nem Soares dos Reis se mataram pelos motivos transcendentes que actuáram no animo de Anthero de Quental.

Os tres mataram-se porque soffriam mais do que é dado aos seres humanos soffrer sem procurarem no anniquilamento a paz invocada entre supplicios.

Um d'elles, Camillo, artista de nervos exasperados pela cegueira, temperamento de hysterico para o qual a resignação era uma virtude impossivel, matou-se para fugir ás trevas densas de uma lobrega morte em que se sentia perdido!

Julio Cesar Machado matou-se porque, no meio do mundo hostil que não satisfizera nenhuma das ambições da sua pobre alma delicada e sonhadora, elle concentrava as affeições todas do seu coração, os ultimos sonhos da sua phantasia, a esperança, a suprema gloria, no amor de um filho que se suicidára com 19 annos!―deixando-o só. O infeliz enlouqueceu e matou-se tambem...

Sobre a morte de Soares dos Reis paira uma sombra de mysterio. Quem sabe que luctas intimas, que drama de paixão intensa e dolorosa esse suicidio não veio rematar!

A morte de Anthero obedeceu a outro genero de impulsos. Não digo que para ella não concorresse tambem o estado de miseria moral e de anarchia mental em que via a sua patria (da qual havia pouco elle tinha porventura esperado qualquer acto de energica reacção contra o destino), mas a sua dôr era uma d'estas dôres de ordem aristocratica e rara, que não se originam como as da maioria dos homens no coração, mas que emanam do espirito cançado de cogitar em vão no mysterio impenetravel das cousas...

Querem vêr os espectros que enchiam de pavor sagrado as suas noites? Ouvi este

soneto

que é, como todos os outros, pagina solta de uma confissão intellectual complicada e dolorosa, tal como um Pascal ou um Amiel a escreveram tambem cada um, já se vê, na sua respectiva esphera, um nos seus immortaes

Pensamentos

, outro no seu

jornal

tão caracteristico e tão pouco comprehendido:

Espectros que velais emquanto a custo Adormeço um momento, e que inclinados Sobre os meus somnos curtos e cançados Me encheis as noites de agonia e susto!... De que me vale a mim ser puro e justo, E entre combates sempre renovados, Disputar dia a dia á mão dos fados Uma parcella do saber augusto. Se a minh'alma ha de vêr sobre si fitos Sempre esses olhos tragicos, malditos! Se até dormindo, com angustia immensa Bem os sinto verter sobre o meu leito, Uma a uma, verter sobre o meu peito As lagrimas geladas da descrença!

Foram estas as dôres que o mataram. A sua consciencia não achava repouso em nenhuma das concepções do Universo em que alternativamente tentava acolher-se.

Ora, dirigindo-se á meiga Virgem do Catholicismo elle a invocava com infantil simplicidade; ora punha na

mão direita

de Deus o seu coração cançado, e lhe ordenava que alli

dormisse eternamente

; ora achava que a Duvida tinha soprado sobre o mundo

um vento de ruina e de morte

, que tudo emmurchecêra, que tudo apagára, deixando apenas uma humilde e mysteriosa flôr desabrochar a medo no fundo da consciencia humana.

Aspirava ao

nirvâna

, á paz inconsciente; queria cahir n'aquelle

vacuo tenebroso

onde na

immobilidade indefinida termina o ser inerte, ocioso

; e ao mesmo tempo a comprehensão atavica da eternidade catholica torturava-lhe em horas de lucta o inquieto espirito.

Que aspiração intensa ao ideal, a d'este formoso espirito alado! Que sublimes tormentos os seus, procurando sem descanço a verdade e a luz!...

Mas sempre, em todas as phases d'esta interna lucta que talvez fizesse sorrir alguns dos leitores dos

sonetos

emquanto o suicidio do poeta lhe não deu o seu fundo de lugubre realidade,―Anthero chamou pela Morte, a invocou, lhe sorriu, lhe deu os nomes mais bellos, os mais doces, os mais apaixonados!

D'elle se pôde dizer que foi

um amante da Morte

, amante austero e triste, mas nem por isso menos fervoroso e ardente

Por motivos inteiramente diversos dos seus, tambem Santa Thereza, a apaixonada castelhana, chamou a Morte com aquelles mesmos arroubos de extase que nos surprehendem e nos fazem estremecer a nós, pobres creaturas feitas de carne melindrosa e fragil, a quem o soffrimento repugna, e a sepultura com a sua podridão infecta repelle formidavelmente.

Digam-me se ha em lingua alguma expressão de dôr mais completa do que a d'este

soneto

a que Anthero pôz o titulo de

Despondency

por não achar em portuguez um termo que rigorosamente correspondesse ao estado de resignada e tranquilla desesperança que elle traduz:

Deixal-a ir, a ave, a quem roubáram Ninho e filhos e tudo, sem piedade... Que a leve o ar sem fim da soledade Onde as azas partidas a levaram... Deixal-a ir, á vella que arrojaram Os tufões pelo mar na escuridade, Quando a noite surgiu na immensidade, Quando os ventos do Sul se levantaram...

Deixal-a ir a alma lastimosa, Que perdeu a paz e fé e confiança Á morte quêda, á morte silenciosa... Deixal-a ir a nota desprendida De um canto extremo e a ultima esperança... E a vida... e o amor... deixal-a ir a vida!

Não ha por tudo isto motivos para espanto no suicidio de Anthero. Elle não era, como já dissémos, um escriptor de officio, que de proposito exacerbasse e cultivasse em si proprio o desespero e as lagrimas, para as transformar em rhetorica

livresca

; não tinha tambem um vão amor de gloria indesculpavel em quem sondava com tão penetrante e lucido olhar o vasio de todas essas chimeras, a ephemera duração de tudo que é da terra...

Era uma alma sincera e torturada, que naturalmente desafogava o seu sentir tanta vez contradictorio e doentio, em versos de uma magia dolorosa, de uma graça delicada e triste, de uma profundidade de expressão inegualavel, e n'esses versos só uma nota era

constante

:

o elogio da Morte

.

Invocou-a sempre, chamou por ella, coroou-a de funebres flôres, supplicou-lhe que o accolhesse no seu regaço frio, achando emfim que depois do

mal de haver nascido

não havia senão um bem: tornar ao Nada.

II

Quando o livro dos

Sonetos

appareceu escrevi eu um estudo sobre elles, que não tinha, já se vê, outro merecimento além de uma sinceridade absoluta e de uma immensa sympathia.

Lembra-me de que lamentava do fundo da alma que o auctor d'essas bellas poesias tão raras na nossa litteratura,―a qual como todas as litteraturas meridionaes não pecca pelo

excesso de pensamento

―tivesse consummido a vida, que tão bellas cousas podia dar-lhe, mettido em si mesmo, n'aquella especie de meditação allucinada que se traduzia, é verdade, em versos magnificos, mas versos que eram, como as perolas, productos de uma dôr mortal.

E revoltava-me contra a solidão mental em que Anthero se concentrára, contra as hesitações do seu querer, contra as fluctuações do seu pensamento, contra o pessimismo bhuddico da sua doutrina, contra tudo que fizera d'elle um philosopho germanico, ou um sonhador nebuloso e doente, e o separava da vida, da vida que tem tantos risos no meio das suas charnecas desoladas, ou dos seus sarçaes cheios de espinhos e de reptis....

Mesmo com o risco de parecer vaidosa, não quero deixar de offerecer aos meus leitores, a carta, até hoje

absolutamente inedita

, que Anthero de Quental me escreveu então, depois de ter lido os meus artigos que se publicaram primitivamente no

Jornal do Commercio

de Lisboa, e que hoje estão incluidos no volume intitulado

Alguns homens do meu tempo

.

Ahi vae a formosa e eloquente carta:

«Porto, 24 de dezembro.

Minha Senhora

Agradeço-lhe muito os seus artigos no

Jornal

do Commercio

, e creia V. que o não faço só por civilidade, ainda que não é cousa que se deva desdenhar

par le temps qui court

. Não lhe direi que me agradaram os seus artigos, porque isso é o menos; dir-lhe-hei que me commoveram. Ha n'elles uma sinceridade, que me encantou, e um tom fraternal que me foi direito ao coração, onde quero que não morra nunca a vibração d'essas palavras amigas. Creio que V. se engana na apreciação que fez das doutrinas chamadas (quanto a mim impropriamente)

pessimistas

e nos receios que lhe inspiram as tendencias bhuddicas que começam a manifestar-se por todos os lados, em sociedades que attingiram o

nec plus ultra

da civilisação, ou em individuos que attingiram o

nec plus ultra

do pensamento.

Tudo isso, é verdade, está ainda bastante obscuro e confundido com elementos estranhos e até contradictorios, e por isso me não admira que não possa ainda ser apreciado sem grandes apprehensões. O meu livrinho, apenas aqui ou alli em meia duzia dos ultimos sonetos, fere a nota exacta e sã, porque infelizmente morreu-me o dom dos versos, precisamente quando começava a pensar e a sentir alguma cousa que realmente merecesse ser posta em verso.

Não podia elle, tão incompleto e obscuro, justamente onde mais cumpria que fosse claro e amplo, dissipar aquellas apprehensões, antes era natural que contribuisse para as radicar. Mas a minha convicção é que taes apprehensões não são fundadas e que entre os sentimentos naturaes e espontaneos do coração humano, entre o seu ideal de justiça, de harmonia e de belleza, e o ponto de vista ascetico do Bhuddismo, não só não ha contradicção verdadeira, mas que, pelo contrario, é só n'essa esphera que elles encontram a sua mais perfeita expressão, libertos de muitas illusões e de muitas imperfeições que lhe andam forçosamente misturadas, e attingem a plena consciencia do

que

são e para que são. E seria singular com effeito que a doutrina, que entre todas, faz consistir no Bem a verdade suprema da existencia humana, pudesse collidir com aquelles espontaneos impulsos da nossa natureza, que não são, no fundo, senão fórmas e momentos, mais ou menos obscuros, mais ou menos incompletos da nossa fundamental aspiração a esse mesmo Bem!

A, verdade é que a civilisação moderna chegou, no seculo actual, como a civilisação antiga, no periodo do

Imperio Romano

, a um ponto em que, sob pena de completa ruina, o problema metaphysico-psychologico tem de ser sondado a uma profundidade desusada e proporcional ao gráu superior da mesma civilisação.

Hoje, como então, as questões metaphysico-psychologicas são a chave de todas as outras questões porque, tendo o proprio progresso das instituições e das idéas arruinado os antigos alicerces moraes da sociedade, a grande questão, a questão vital e inadiavel não é já a do aperfeiçoamento das instituições nem do augmento dos conhecimentos, mas a da organisação theorica e pratica da vida moral, a creação da ordem nas consciencias, em uma palavra a remodelação do

homem interior

, sem o qual o outro homem, da sociedada e da vida pratica, por forte e sabio que pareça é mais miseravel que o escravo mais embrutecido.

O progresso gigantesco do naturalismo, filho de uma civilisação poderosa e complexa como nenhuma, só poderá ser equilibrado por um progresso equivalente do ascetismo. Sem esse equilibrio a sociedade moderna, que já hoje nos causa mais terror do que admiração, poderá continuar ainda por algum tempo de poderosa, tornada formidavel, e, de formidavel, bestial: mas o homem, o verdadeiro homem, isto é, o homem moral, terá morrido: e morto elle, tudo cahirá, por que só elle sustenta a grande mólle social. A sociedade é, antes de tudo, um facto de ordem moral.

Mas não continuo com estas reflexões, porque desejo fazer d'ellas o assumpto de um escripto, até a certo ponto em resposta aos artigos de V. e que publicarei em fórma de carta, se V. levar isso a bem.

E termino, minha senhora, pedindo a V, que me consinta assignar-me d'aqui em diante, como realmente sou, seu muito amigo.―

Anthero de Quental

»

Esta carta tão bella na fórma, e tão profunda no pensamento, apresenta porém a contradicção fundamental a que Anthero succumbiu.

O ascetismo é a contemplação mais inerte: o Bem demanda a actividade mais incansavel, o esforço mais tenaz.

Como conciliar estes dois termos oppostos? Se para o extatico e contemplativo pensador a quem o

nirvana

sorri como o supremo fim da sua ascensão ideal, cada homem não é mais do que um momento que toma consciencia de si e logo passa, aquelle que na terra procura o Bem e tenta pelo seu esforço creal-o, sabe que se dissolvem as fórmas em que a consciencia se encarna, mas que ella, a sublime chamma não se apaga jámais... Nós os passageiros de um dia que conseguimos por instantes guardal-a no nosso seio mortal, passamos rapidos sim, mas não antes de a transmittirmos áquelles que nos succedem sempre mais pura, e sempre mais intensa...

O patrimonio real da humanidade é este: por este lhe vale a pena padecer e luctar. Este não morre com as pobres gerações que se succedem como as folhas das arvores, como as ondas do mar...

Não é pelo Buddhismo antigo, ou pela ascetica renuncia aos bens reaes da vida que a sociedade tem de salvar-se. É pelo exercicio activo das suas energias espontaneas, é pela fé na sua missão do bem, na sua ascensão a qualquer eminencia moral, que ella ainda não antevê de longe, mas que existe decerto, mas que deve existir, ou este instincto de progresso a que obedecemos, seria mais uma ironia atroz entre outras tantas!...

A prova de que esse ascetismo a que Anthero recorre na sua bella carta é esteril, é que elle, querendo salvar por este modo a sua clara consciencia e o seu espirito genial, veiu acabar na morte voluntaria, no suicidio banal dos vencidos e dos fracos!

Infelizmente era eu, tão mesquinha, e não elle, tão grande, que tinha razão, e essa razão, foi o seu acto extremo que m'a veiu dar.

Ninguem pensára mais alto e mais justo que esse homem de uma consciencia tão delicada, de uma penetração philosophica tão subtil, e cujo entendimento parecia talhado para as mais elevadas especulações da metaphysica e da psychologia.

E no emtanto elle não

achou

outra resolução ao problema que está presentemente posto deante dos olhos das sociedades extra-civilisadas e dos individuos que pensam intensamente, senão a do suicidio silencioso.

É profundamente desoladora a phase do espirito humano que, de vez em quando, se manifesta em factos como este.

Como escapar a este estado de descrença absoluta em qualquer destino ulterior da nossa especie? Retroceder á boa Natureza, á primitiva ignorancia dos simples, como manda Tolstoi? Mas em primeiro logar a natureza não é boa, depois, quem

sabe

póde porventura, e só por effeito da sua vontade começar de um dia para o outro a

ignorar

?...

Cada sociedade que chega ao extremo da sua civilisação particular, o que, exaltando de um lado o orgulho natural do homem, produz por outro, no espirito d'elle, uma irritação doentia, uma penosa desesperação resultante dos limites que este acha sempre á sua curiosidade transcendente―cada sociedade que attinge esta perigosa eminencia, está por esse mesmo facto, muito proxima da sua fatal degeneração.

Nenhuma civilisação se elevou mais alto nas abstracções do pensamento, nos arrojos da metaphysica do que esse Bhuddismo em que Anthero de Quental tentava encontrar a suprema paz da consciencia humana. E o que tem elle produzido senão resultados negativos, e allucinações doentias? A civilisação antiga, grega e romana, procurou resolver o problema do destino do homem divinisando-lhe as paixões, e fazendo a permanente apotheose da força. E todos sabem em que agonia vasquejante o mundo antigo se diluiu. A Edade Media teve uma comprehensão harmonica e grandiosa da vida e do destino humano, mas tanto exigiu do espirito e tão pouco pensou na fatal realidade, que fez de cada organismo de homem um anjo e um animal perpetuamente identificados, e ao cabo do sublime esforço, respondeu-lhe o retrocesso pagão da Renascença.

O mundo moderno quer achar na sciencia a chave do todo o eterno enygma que até hoje se conserva inviolado, a explicação do universal mysterio que o envolve e penetra, a resolução de todos os problemas complexos que se têem accumulado deante do seu espirito em dois ou tres mil annos de pensamento―e a sciencia impotente, incompleta, desconsoladora não tem agua que sacie a nossa sêde, não tem piedade que unja a nossa lenta agonia!

Os melhores abdicam ou pelo indifferentismo inerte, ou pelo suicidio; que é ainda uma victoria do espirito ultrajado sobre si mesmo!

E um véo de tristeza densa e plumbea envolve este mundo enorme, agitado, convulso, atravessado de fios electricos que em minutos transmittem de um ao outro dos seus extremos o pensamento e a palavra; cortado de locomotivas vertiginosas; abarrotado de riquezas brutas; ebrio de orgulho material, de luxo e de vaidade; persuadido de que é a realisação mais completa da felicidade e do triumpho moral do homem; mas tremendo a cada abalo subterraneo que revele quão minados estão os seus alicerces e em que movediça areia assentam os seus edificios de Babel!

Comtudo ha uma affirmação, no meio de tantas duvidas e de tanta desordem mental, que póde ser feita sem medo!

O Bem existe! A consciencia humana conhece-o mesmo quando o atraiçôa ou o desdenha. É ella que o tem creado em seculos de lucta sublime! Os humildes de coração são talvez os que estão mais perto das fontes vivas d'onde elle promana, e é pela humildade e pela acceitação resignada do seu destino incompleto e triste e eternamente obscuro, que a pobre humanidade definitivamente se salvará!

Por mais que amenos e veneremos a memoria de Anthero, não podemos pois achar justo o seu suicidio.

Contentamo-nos em achal-o explicavel.

Anatole France

I

Conhece porventura o leitor este mestre do estylo, que é francez e moderno, e podia ser grego e antigo?...

Conhece este discipulo de Renan, discipulo que dispõe de mais liberdade moral e de mais fogo juvenil que

o seu

querido e respeitado mestre?

Anatole France é, como Renan, um

charmeur

, mas é mais do que elle―um voluptuoso.

A sua philosophia, mais

Renanesca

do que

Hegeliana

, move-se phantasiosamente em um universo de illusões.

E as fulgidas imagens, sempre renovadas, da sua esplendida imaginação, reveste-as uma melancolia deliciosa e morbida, como se elle as evocasse com a consciencia de que lhe mentiam, e as adorasse perdidamente, mesmo depois de as saber fugitivas, falsas, ephemeras...

Um dos melhores livros que elle tem escripto, e cujas edições se multiplicam com espantosa rapidez―apezar d'elle o ter no pensamento dedicado aos delicados, aos

happy few

de que fala desdenhosamente Stendhal―chama-se

Thaïs

.

Thaïs é uma

lenda dourada

dos primeiros seculos christãos, que entre parenthesis estão sendo apetecivel mina de estudos litterarios, de poesias, de erudição e de arte.

Tem o livro como personagens principaes Paphnucio, um anachoreta da Thebaida, de carne mortificada pelos longos jejuns, flagellada pelos duros cilicios, curtida pelos sóes causticantes do deserto, amachucada nas caminhadas extenuantes por sobre as penhas bravas e os quentes areaes―e Thaïs, uma gloriosa e applaudida actriz de Alexandria, bella como Venus, e intelligente como Aspasia, e prodiga de affagos como as duas, em que esplendidamente se encarnára para enlouquecer e perder os homens.

Paphnucio construira nas margens do verde Nilo uma pobre cabana feita de ramos de arvores e de lodo amassado.

Vivia alli na penitencia e na castidade; na contemplação e no ascetismo. Obedeciam-lhe e amavam-no as feras do deserto; legiões de anjos, bellos como adolescentes gregos, visitavam-no de vez em quando na sua Thebaida escondida; os demonios, com figuras de animaes immundos, vagavam uivando em torno d'elle e dos solitarios que aqui e ali tinham escolhido para morada o deserto―e tentavam em vão os santos ascetas.

Quando elles iam de manhã encher as suas bilhas do barro ao poço que os dessedentava, viam as patas dos satyros e dos faunos travessos impressas na movediça areia.

Considerada sob o seu verdadeiro aspecto, a Thebaida era um campo de batalha, onde se travavam a toda a hora, e especialmente de noite, os maravilhosos combates do inferno e do céu.

Mas tão profunda era a virtude d'esses santos cenobitas que submettia ao seu poder as proprias féras.

Quando um solitario estava para morrer, vinha um leão abrir-lhe a cova com as garras. O santo homem, logo que conhecia por este signal que Deus o chamava a si, ia beijar uma por uma as faces de todos os seus irmãos espirituaes.

Depois deitava-se sereno e calmo e adormecia no seio do Senhor.

Esta descripção do Deserto e das suas maravilhas, do ascetismo e das suas visões, da Thebaida e dos allucinados combates que ahi as paixões humanas travavam com a perfeição ideal, todo este symbolismo

humano

e comprehensivel está traçado com mão de mestre.

Parece nos seus lineamentos visiveis a pintura de um

primitivo

, tanto é certo que só o extremo requinte na Arte sabe traduzir bem a ineffavel simplicidade.

Paphnucio nascera em Alexandria, de paes nobres, e fôra por elles instruido na delicia das profanas lettras. Era de muito longe que elle tivera de partir, para chegar á perfeição santissima da sua vida de anachoreta christão.

Um dia, porém, lembrou-se por sua desgraça espiritual, ou por seu aperfeiçoamento superior, que tinha conhecido em Alexandria uma formosa actriz chamada Thaïs.

Tão bella como a mais bella das suas visões esplendidas do Paraizo e condemnada á eternidade das penas, á perdição infernal, á ignorancia absoluta do bem!...

Conhecel-a, lembrar-se nitidamente d'ella e não a salvar, não tentar salval-a ao menos!...

Paphnucio não pôde submetter-se a esta dura lei.

Deixa, pois, o deserto, procura a cidade faustosa e tentadora onde Thaïs fazia as delicias e a admiração do povo, e vae arrancar ao inferno a sua presa deslumbrante.

É necessario fazer notar que ainda bem Paphnucio não começára a premeditar esta santa empreza, já os demonios que em figuras de chacaes costumavam uivar lamentosamente em torno de sua cabana, sem comtudo lhe penetrarem pela porta sempre aberta, se permittiram entrar por ella dentro, deitando-se perto d'elle, familiarmente, como amigos velhos. Que encontrariam os demonios na alma do velho cenobita para assim procederem?...

A graça ironica, a commoção subtil com que estes quadros são traçados, podem ser indicados pelo commentador, mas não podem ser fielmente traduzidos por elle.

Ao pé do altivo asceta, que julga ter dentro de si força que baste a dominar as indominaveis, as omnipotentes paixões humanas, e se considera com direito de desafiar o Peccado e de o vencer, ha uma encantadora figura de frade laborioso e simples, que nem chega a odiar o Mal, porque lhe ignora os requintes tentadores, e que cultiva no deserto um pequenino jardim e uma horta em miniatura, aceitando o amavel convivio dos bichos e dos passarinhos, envolvendo no mesmo amor humilde e doce a vasta natureza cheia de graças e de assombros.

As gazellas vêm apoiar a fina cabeça inquieta nos joelhos do santo: as figueiras que elle trata dão grandes figos cheios de nectar cuja contemplação é para elle um regalo innocente.

Este bom homem dá de conselho ao orgulhoso apostolo que se deixe de tanto zêlo, pois que, vista a impossibilidade em que a gente está de emendar o mundo, mais vale emendar-se a si proprio de todos os peccados até d'aquelle que consiste em se julgar impeccavel.

Mas Paphnucio não o quer de fórma alguma attender; isto, seja dito de passagem, com alegria dos chacaes seus inimigos antigos e agora seus inopportunos familiares.

Põe-se, portanto, a caminho. Vestido tão sómente de um longo cilicio, ei-lo que se dirige para o Nilo―no designio de seguir a pé a margem lybica até á cidade fundada por Alexandre.

Que deliciosa a narração d'esta romaria, feita pela lingua de ouro de Anatole France! Ha phrases que cantam no ouvido como uma flauta da Jonia!... ha imagens que se desdobram deante de nós como uma evocação de magia!

Nem a traducção litteral poderia fazer presentir o encanto rythmico, emballador, quasi morbido, de requintado que é, d'este estylo em que as palavras se harmonisam em um concerto ideal, para formarem a mais suave, e subtil, e suggestiva das musicas.

E emquanto assim se encaminha para Alexandria, Paphnucio foge das cidades e das aldeias; tem medo de encontrar creanças a brincar na soleira das portas, mulheres paradas á beira das cisternas, sorrindo cariciosamente ao peregrino que passava, como a Nosso Senhor a Samaritana já sorrira.

Quando, ao entardecer, a aragem passava nos tamarindos em flôr, o sombrio apostolo puxava para o rosto o seu capuz escuro, tal era o receio que sentia de enternecer-se deante da belleza ineffavel, do divino mysterio das cousas...

Viu uma enorme sphinge egypcia talhada no rochedo de granito e obrigou-a a confessar o Santo Nome de Jesus Christo. Encontrou um eremita bhuddico, todo nú, de barba branca a fluctuar-lhe em ondas no peito curtido ao sol, e, depois de lhe ouvir a confissão do seu

nihilismo

absoluto, depois de lhe escutar as blasphemias de um scepticismo sem fim, ainda tentou convertel-o à fé profunda que lhe abrazava o coração.

A paizagem luminosa e estranha desentranhava-se em maravilhas; o

ibis

mysterioso e hieratico retratava no liquido espelho do rio o seu longo pescoço côr de rosa pallido; os salgueiros agitavam a múrmura folhagem argentea; as cegonhas voavam no céu claro; e nos cannaviaes da margem escutava-se o grito de outras aves aquaticas.

O valle perdia-se ao longe em ondulações verdes; as aguas palpitavam como um seio de virgem; a seiva, a vida, a fecundidade, o amor fremente e creador parecia pullular em tudo, em tudo...

Paphnucio, porém, só pensava na cortezã esbelta e branca, de braços côr de lyrio e olhos côr de violeta, que em Alexandria representava as traições de Helena, os delirios de Phédra, o sacrificio da candida Ephigenia, ante uma turba delirante, que a sua belleza embriagava e perdia...

II

A primeira vez que, em Alexandria, Paphnucio avista Thaïs é no theatro em que ella representava a immolação de Polyxena.

Tal contra a linda moça Polyxena Consolação extrema da mãi velha Porque a sombra de Achilles a condemna Co'o ferro o duro Phyrro se apparelha...

Não se lembram do nosso Camões? Era justamente esse lance da epopéa homerica que Thaïs traduzia pela mimica expressiva e perfeita, a qual, na decadencia da Arte antiga, suppria agora na scena, viuva dos seus grandes mestres de outr'ora, a alada, a divina poesia de Euripedes e de Menandro. Thaïs altiva e doce appareceu ao austero monge dando-lhe, como dava a todos que a contemplavam «o tragico estremecimento da sua fatal belleza.»

Segue-se então a lucta travada entre o asceta e todas as seducções pagãs que circumdavam a cortezã esplendida, para converter esta á religião dos pobres, dos miseraveis e dos simples.

Thaïs fôra iniciada em pequenina por um escravo negro da Nubia, chamado Ahmés, n'essa religião que reveste de tão voluptuosas delicias o sacrificio e a dôr.

Tinha-a mesmo baptisado, em uma época de perseguições e de angustias, o bispo proscripto de Cyreno, que pela Egreja soffrêra os mais horrendos martyrios.

E toda a dulcissima e piedosa lenda evangelica lhe fôra contada baixinho, pela voz queixosa e cantante do misero escravo negro, quando Thaïs, maltratada pelos paes, sem tecto carinhoso que lhe abrigasse o corpinho infantil, torturado de açoites, ia deitar-se á noite a um canto do estabulo, entre animaes domesticos, com Ahmés perto d'ella―sentado sobre os calcanhares, as pernas dobradas, o busto direito na altitude hereditaria da sua raça, e o rosto negro banhado n'aquella divina luz de esperança e de misericordia com que a estrella de Bethlem tem, durante dezenove seculos, inundado, casta e divina, os desherdados de todo o bem terrestre.

Portanto, não a espantou em excesso a apparição do monge, depois de uma vida consagrada ao prazer, que lhe dera o tédio sem lhe dar a felicidade.

Só um momento, durante esses vinte annos de embriaguez hyper-aguda, ella conhecêra a ephemera felicidade de amar. As lagrimas que chorou tinham tido para a pobre um sabor acre e doce ao mesmo tempo. Nesse amor encontrára tudo―até a perdida innocencia e a divina puerilidade da sua fé. A bella cortezã de Alexandria realizára o delicioso pensamento do poeta, e tambem ella, como a Marion dos perdidos amores, podia repetir exultante:

Et l'amour m'a refait une virginité

Mas subito esse homem, que de todos lhe parecêra diverso, appareceu-lhe tal como os outros todos, e ella fugiu espavorida, para não vêr mais a imagem da sua illusão que se partira.

Conheceu depois a gloria, os applausos, os enthusiasmos, as adorações febris, que duravam uma hora e que se tinham julgado eternas.

Por ella os philosophos se fizeram crianças credulas; os voluptuosos tiveram a coragem do suicidio; deram-lhe thesouros os avarentos; lagrimas, os egoistas; os poetas chamaram-lhe a sua Musa; os politicos esqueceram, para se demorarem aos seus pés, o bem dos Estados e os requintes que ha no prazer do mando.

E Thaïs, indifferente a todos e com todos brincando cruelmente, conservava no fundo da sua alma a recordação indistincta e vaga d'esse mundo mysterioso de que lhe tinham revelado o encanto.

Supersticiosa e cheia de ancia indefinida, tinha a sêde atormentadora do desconhecido, a que faz as santas, as arrependidas sublimes, e as loucas...

Quando Paphnucio lhe appareceu, cedeu quasi que sem resistencia á rude voz que a chamava para o aspero caminho dos penitentes. Para seguir o seu implacavel mestre deixou os banquetes em que a acclamavam, sob os bellos e poeticos nomes da poesia antiga, os homens mais opulentos e considerados da Alexandria, os poetas, os rhetoricos, os sacerdotes de Serapis, os dandys do tempo, preoccupados como os de hoje, com a arte de amestrar bellos cavallos e de enamorar bellas mulheres.

Para o seguir, deu ordem aos numerosos escravos que a serviam, que queimassem os seus thesouros de arte: os cofres de marfim, de ebano e cedro, que, entreabrindo-se, deixavam cahir corôas, grinaldas, collares esplendidos; e os seus ricos tapetes, os seus bordados de prata, as tapeçarias floridas, os leitos faustosos, os coxins macios: e as estatuas de nymphas que pareciam animadas como mortaes: e o Eros eburneo a quem se attribuiam maravilhosas e não sabidas virtudes, e que valia o seu peso centuplicado em ouro.

Para o seguir, desprezou os seus vestidos brilhantes; os mantos de purpura; as sandalias de ouro; os pentes, os espelhos, as lampadas cinzeladas por industriosas mãos de escravos artistas; as theorbas, as lyras:―todos os instrumentos da sua seducção complicada e subtil, todas as bellas cousas que representavam as recordações de uma vida de luxo, de opulencia e de amor... Não a prendeu a gloria de actriz estremecida; chamavam-lhe a clara estrella, a doce lua do céu alexandrino, e o rude solitario arrebatou-a falando-lhe em penitencias duras e em flagelladores cilicios, em lagrimas de vergonha e de amargura choradas ao pé da Cruz.

―Mulher, dizia-lhe o monge com voz colerica, arrastando-a comsigo ao longo da costa―vê esse enorme mar azul. Nem toda a agua que elle tem póde lavar as tuas manchas asquerosas!

E emquanto elle a apostrophava com a eloquencia do mais impetuoso e ardente horror, relembrando-lhe uma por uma, com minuciosidades de confessor, as ignominias em que se perdera o seu corpo, que Deus fizera tão bello, Thaïs seguia-o docilmente sob o sol abrazador, e por cima dos penhascosos caminhos, onde os seus pés nús, tão lindos, tantas vezes cobertos de beijos, se desfaziam em sangue.

Todas estas paginas que contam o piedoso furor do apostolo, e a humildade ineffavel da peccadora arrependida, estão escriptas com uma paixão acre e flammejante.

Vê-se bem que o inferno e todas as suas furias estão dentro d'esse orgulhoso coração de monge, que se julga acima do Peccado e que é vencido pela força irreductivel de um Poder que elle negou.

Thaïs, não; essa arrependida e submissa é em Christo que pensa e a sua alma anceia por desprender-se do impuro corpo, para subir, lavada em lagrimas, ao seio eternamente misericordioso do Homem Divino que perdoou á Magdalena, e que não consentiu que fosse lapidada a mulher adultera pelos que não tinham direito de a julgar.

A ultima parte do livro está impregnada de uma ironia, delicada como tudo que sae da penna de Anatole France, mas destoante da opulencia da côr e de estylo que inspiram as duas primeiras partes.

Consiste toda ella na narração das penitencias a que Paphnucio se entrega logo que percebe nitidamente que o zelo que o levou a salvar Thaïs conduzida por elle a um convento de mulheres―não é tão puro nem tão desinteressado como na sua illusão a respeito de si proprio elle suppuzera até alli.

As penitencias ás vezes chegam a ser de um comico

voltaireano

. Exemplo: a columna no alto da qual, mystico acrobata, elle se encarapitou um tão longo espaço de tempo, que em volta d'este novo Simão o

Stylita

construiu-se uma grande cidade com todas as abominações mais ou menos legalisadas, que ha sempre nos centros populosos.

Paphnucio dizia, porém, aos bispos e á brilhante clerezia, que attrahidos pela fama da sua virtude rara, e dos milagres que ella operava sobre enfermos epilepticos, coxos, cégos, manetas etc., etc., vinham cumprimental-o e visital-o de muito longe:

―«Meus irmãos, a penitencia que me imponho é nada em comparação das tentações que tenho, e cujo numero e força me espantam. Um homem visto de fóra é pequeno, e do alto da columna a que Deus me elevou, vejo os seres humanos agitarem-se como formigas. Mas considerado interiormente, o homem é immenso; é grande como o mundo porque o contém em si... Tudo que se extende ante os meus olhos, esses mosteiros, essas casas, essas barcas sobre o rio, essas aldêas, e o que descubro ao longo de campos, de canaes, de areias, de montanhas, tudo isso é

nada

ao pé do que eu tenho aqui dentro! Ha no meu coração cidades innumeras e desertos sem fim. E o mal, o mal e a morte extendidos por sobre essa immensidade, cobrem-na, como a noite cobre a terra. Eu sósinho contenho um Universo de pensamentos máus.»

Falava assim, accrescenta Anatole France, porque o

amor da mulher

, como uma serpente, se lhe enroscára no seio.

O final do livro, ou antes, a moral do livro é esta: Presente-se a salvação da cortezã arrependida que trouxera sempre, dentro do seu corpo manchado, a saudade nostalgica do ignoto bem, a chaga aberta e sangrenta de uma aspiração insaciada―e a perdição do apostolo orgulhoso, que déra ao seu desejo, á sua paixão terrena, a fórma de um fanatico proselytismo, e que tão rudemente falava ás gentes do Peccado e da Virtude.

Que quer Anatole France provar? pergunta a critica conspicua, um pouco escandalisada d'esta orgia de estylo, de descripções, de paizagens, de

dilettantismo

artistico.

Cá por mim imagino que elle não quiz provar nada.

Quiz fazer divagar a sua imaginação de poeta pelos desertos onde os monges vivem penitentes e castos, e pelas cidades douradas e luxuosas onde as actrizes bebem em taças de crystal as perolas diluidas de uma adoração voluptuosa.

Quiz levar-nos ao banquete do opulento pagador das esquadras de Alexandria, onde philosophos e poetas discreteiam com a elegancia e o requinte da civilisação de Bysancio. Quiz fazer-nos penetrar na alma de uma louca mulher d'aquelle tempo, tão bella que, em ella entrando na sala do festim, coberta de flôres naturaes, parecia emprestar a estas a sua vida e receber d'ellas o mimo, a frescura o encanto virginal.

Quiz―é este o sentido profundo e philosophico do seu livro―dizer-nos que ás vezes os que apresentam mais austera virtude são os que trazem mais serpentes venenosas no coração pharisaico, incapaz de indulgencia e de perdão, e que o arrependimento, quando é sincero, humilde, e parte de uma alma sedenta do infinito e capaz de o conter em si, póde resgatar grandes erros e lavar na fonte crystallina das suas lagrimas, muita nodoa de que o mundo, o impeccavel mundo, costuma fugir enojado e austero...

Ernesto Renan

sua obra, o seu espirito, a sua philosophia

I

Venho tarde para accrescentar qualquer cousa ao que n'este jornal de certo se tem dito a esta hora da vida de Renan, e da sua morte. Venho tarde para ajuntar, qualquer dado biographico, qualquer inedito incidente aos já citados aqui por informadores habeis e intelligentes.

Mas venho cedo, talvez, para conversar com os leitores ácerca d'esse espirito encantador, que desapparecendo d'entre os vivos, deixa na Europa culta uma lacuna imprehenchivel.

Não é, porém, meu intento fazer

obra de

critico

, o que além de mais, seria prematuro ainda. Tentarei apenas dar a impressão, que a minha sensibilidade recebeu da leitura d'esse fino artista, d'esse poeta, que tão bem se conhecia a si mesmo, que um dia, figurando-se a si sob o nome

Léolin

, nos

Dramas Philosophicos

, dava do seu genio esta adoravelmente exacta definição:

«O que é que eu faço no mundo? Contemplo e goso. Vou a toda a parte; entro em todos os lugares e em todos comprehendo alguma cousa. Eis a minha profissão. Procuro o Bello, devorado de sêde, que jámais saciei. A verdade demanda maior dose de perseverança nos que a buscam; é por isso que ella me foge, talvez.»

Não ha convivencia mais estreita, que a que tem largos annos existido, entre mim, obscura e pobre mulher, e essa deliciosa intelligencia de artista, um dos mais requintadamente perfeitos que a litteratura tem possuido em todo o mundo.

É fóra de duvida que, para mim, o

hebraisante

, o erudito, o epigraphista sagaz, o archeologo meticuloso, o decifrador de textos assyrios, o

sabio

, emfim, que era Renan, me interessava mediocremente. Admirava que um tão grande poeta tivesse a humilde ambição de ser apenas um grande erudito; ambição que lhe era de resto cruelmente contestada por terriveis homens calvos, de oculos azues com aros de ouro e nomes impronunciaveis de terminações barbaras, que eu nunca tinha lido, e julgo aqui entre nós, que sómente se tinham lido a si mesmos...

Esses, escreviam volumes

in folio

para provarem que o

Sr. Renan não conhecia os textos

, e o divino celta que tanta vez me fizera vibrar até ás lagrimas com as notas da sua harpa mysteriosa―desesperava-se com a incredulidade d'aquelles medonhos eruditos allemães, de que toda a gente que se presa ignora a existencia, não atinando sequer com a arrevesada pronuncia dos seus respectivos nomes...

O

hebraisante

era-me pois indifferente, mas o historiador ficava de pé, com a sua intuição extraordinaria da alma religiosa das multidões extinctas; com a vida intensa que elle sabia dar aos personagens do passado; com a sua visão clara e profunda das cousas que já foram; com o magico poder de evocação que elle possuia, como Carlyle o possuiu, como o possuiram Michelet e Victor Hugo, mas de um modo inteiramente diverso d'aquelles todos.

Um Michelet resuscitando periodos historicos de enthusiasmo fremente e de doentia exaltação, saberá dar vida ás perturbações nervosas, aos desfallecimentos e aos extases dos seus congeneres do passado.

Um Victor Hugo dará o nitido contorno das cousas, e até para o mundo da allucinação levará o seu poder de descrever o incommensuravel, de figurar o impossivel...

Um Carlyle tera a visão ardente de um mundo como foi o puritano, capaz de produzir Cromwell; e saberá―desmontando peça a peça o machinismo complicado d'esse caracter de allucinado e de batalhador, de perfido conductor de homens, e de crente quasi fanatico―revelar-nos o segredo da quadra estranha de que elle é o producto natural, a resultante logica...

Renan saberá principalmente interpretar e traduzir problemas e sentimentos moraes, estados de consciencia. Para elle, como para o grande inglez que escreveu o

Culto dos heroes

, a historia,

é uma cousa viva, uma

cousa

ineffavel e divina

, destinada a resuscitar diante dos olhos do nosso espirito, os soffrimentos, as emoções violentas ou delicadas, as luctas, as tristezas, as fraquezas e heroicidades, dos nossos irmãos que morreram, das gerações que modelaram fatalmente a nossa, e ás quaes devemos o que somos em bom e em mau.

Quando a noticia da morte de Renan nos veio sorprehender dolorosamente a todos, acabava eu de passar dois mezes no campo, em uma solidão quasi absoluta, em uma isolação moral quasi selvagem, lendo apenas com intima delicia, o mais arido talvez, por ser o mais erudito, de todos os livros do grande exegeta: a sua longa

Historia do Povo de Israel

, cujo 4.º e 5.º volumes elle deixou para serem posthumamente publicados.

E depois de ter vencido aquelle primeiro impulso de preguiça, que um espirito de mulher indolente não podia deixar de experimentar ante um trabalho d'esta ordem―eu acabára por sentir-me irresistivelmente e deliciosamente transportada áquelles tempos obscuros em que o semita nomada, o soberbo vagabundo da Historia, enriqueceu o thesouro humano, com a mais alta noção religiosa a que á nossa especie foi dado ainda attingir, a noção de um

deus unico

, cujo espirito está em tudo, e ao qual o vasto Universo obedece submisso!...

Assim como a Grecia creou a alta cultura intellectual, a philosophia, a poesia, as artes plasticas; assim como Roma creou as fortes instituições politicas, tendo o Direito por base; o semita creou a religião de que a nossa alma se tem alimentado longos seculos, e que tão profundo cunho lhe imprimiu, que ainda hoje o mais sceptico de entre os scepticos demolidores do passado se não póde libertar da sua poderosa e absorvente influencia!

Essa genese de monotheismo, que Renan intitulou a

Historia do Povo de Israel

, é talvez de todas as suas obras aquella em que as soberbas e multiplas faculdades do seu grande espirito tiveram melhor espaço para se desenvolverem.

Nada mais bello, nada mais profundamente interessante para um espirito que pensa, do que a evolução da idéa religiosa, seguida passo a passo, com os seus periodos de impetuosa florescencia, com os seus desfallecimentos e os seus eclypses, com os desdobramentos subitos de sua apaixonada energia, com as acquisições moraes, tão laboriosamente e dolorosamente feitas atravez de violencias spasmodicas e de paroxysmos convulsionarios.

Sendo a civilisação moderna uma resultante da collaboração alternativa da Grecia, da Judéa e de Roma, as origens da historia d'essa raça mysteriosa, em cujo seio havia virtualmente

Jahvê

e

Jesus

não podem deixar de produzir uma ardente curiosidade em todo o espirito avido de conhecimento e de luz moral.

Eu tinha-me pois, n'essa reclusão completa em que vivera, embriagado longamente, voluptuosamente, da prosa, de Renan, capitosa e perturbadora.

E quem como elle sabia, da lingua

que

fallava, extrahir effeitos de harmonia, ao pé dos quaes, os das outras artes me pareciam absolutamente secundarios?

Falando do idioma hebraico, Renan diz em uma das bellas paginas da sua

Historia do Povo de Israel

:

«Uma aljava de flechas de ouro, um grosso cabo de potentes contorsões, um trombone de bronze, dilacerando o espaço com duas ou tres agudas notas: eis o hebraico.

«Uma lingua d'estas não pode exprimir nem um pensamento philosophico, nem um resultado scientifico, nem uma duvida, nem uma percepção do infinito.

«As lettras dos seus livros serão contadas como numeros, mas serão feitas de fogo como a chamma. Dirá poucas cousas essa lingua, mas as que disser, serão martelladas sobre uma bigorna.

«Derramará ondas de colera, terá gritos de raiva contra os abusos do mundo; clamará pelos quatro ventos do céo para que acudam ao assalto das cidadellas do Mal. Como os instrumentos rituaes do santuario não servirá para uso algum profano; nunca lhe será dado exprimir a alegria innata da consciencia, a luminosa serenidade da Natureza; mas clamará a guerra santa contra a injustiça, e o appello dos grandes panegyricos; será o clarão das neomenias e a trombeta do Juizo final. Felizmente que o genio hellenico comporá, para a expressão das alegrias e das tristezas da nossa alma um alaúde de sete cordas, o qual saberá vibrar unisono com tudo que é humano, um grande orgão de mil teclas igual ás multiplas alegrias da vida.

«A Grecia conhecerá toda as delicias, desde as dansas em côro nos pincaros do Taygeto até ao banquete de Aspasia; desde o sorriso de Alcibiades até á austeridade do Portico; desde a canção de Anacreonte até ao drama philosophico de Eschylo e aos sonhos dialogados de Platão.»

Este admiravel, este soberbo trecho, que acabamos de traduzir integralmente, em que o genio das duas linguas toma forma, em uma outra lingua, nunca fallada com tal melodia e tal poder, quizera eu que fosse posto como epigraphe á

Historia do Povo de Israel

, em que Renan traduziu genialmente sob a divina inspiração do genio Grego, a alma tumultuosa e sombria, agitada e sequiosa de justiça, dos prophetas da raça semitica.

Oh! como elles renascem alli nas paginas do grande escriptor, os fundadores de quanto ha de tremendo e de sombrio na religião que veio depois a dominar o mundo!

Como alli se reflecte igualmente, na prosa divina do Mestre, a Grecia que

sobre a Acropole

lhe revelou o segredo dos seus primores! O assumpto é o semita, mas a lingua em que essa sublime evocação se fez, o magico instrumento, atravez do qual nós communicamos com o arido e difficil assumpto, a inspiração adoravel, que presidiu a este trabalho de reconstituição historico-religiosa, a arte plastica, com que elle é genialmente modelado, tudo isso foi colhido pela alma de Renan, abelha ébria de luz e de perfume e de succos balsamicos, no coração da Grecia!

É só ahi que a Belleza e a Razão têem a mesma fórma e a mesma essencia; é só ahi que a Venus Amphytrite sorri á musa de Socrates e que a Poesia e a Religião enredam voluptuosamente a fantasia e a sensibilidade do homem na mesma rede azul e ouro tecida de sonhos, que são symbolos e de chimeras entontecedoras, que sao divinas verdades.

Mas quem leu sómente de Renan a

Historia

do Povo de Israel

ficará conhecendo todo o genio complexo do escriptor?

Decerto que não. Elle é um grego pelo amor da belleza plastica, mas é um celta pela sensibilidade doentia, pela delicadeza concentrada do seu genio.

Os que desejarem conhecel-o, precisam de ler tudo que elle escreveu.

Precisam de seguil-o atravez dos meandros, alguns quasi inaccessiveis, da sua

Historia das origens do Christianismo

.

Precisam de penetrar bem no estranho mysticismo que ha no fundo d'este temperamento de sceptico; precisam de interrogar os escaninhos inesperados d'esta imaginação de poeta, que em certas paginas,―como por exemplo, no sonho de Leolino, na

Eau de Jouvence

, invocando a alma da adorada irmã morta; nas paginas dulcissimas dos

Souvenirs de Jeunesse

; na symphonia esplendida que se chama

La Prière sur l'acropole

; na dedicatoria de um dos seus livros celebres; em trechos dos seus estudos de

Historia Religiosa

;―attinge uma

virtuosidade

, um poder de harmonia, excita uma emoção, faz vibrar tão intensamente os nervos do leitor, que póde bem dizer-se que a lingua falada e escripta se transforma sob os seus dedos de magico em musica transcendente que parece vir d'além da terra, em musica que penetra no coração e o desfallece de delicioso extase.

II

Este conhecimento da obra total do grande escriptor, que eu considero imprescindivel em quem, com acerto e justiça, quizer falar d'elle, não o tinham, estranho é dizel-o, senão com rarissimas excepções, os que em França, no jornalismo, commemoraram luctuosamente o

passamento

de Renan. A accusação que eu aqui deixo, fêl-a, com a sua graça incomparavel Julio Lemaître no artigo que ao seu querido philosopho consagrou no

Jornal dos Debates

. Porque Renan escreveu muito, escreveu immenso. Durante cincoenta annos trabalhou dez horas por dia, o que é extraordinario.

E além das monographias scientificas e dos estudos especiaes que publicára nas

Revistas

e nos Jornaes de Sciencias, além da

Historia das Origens do Christianismo

, que vae de

Jesus

a

Marco Aurelio

, e que se compõe de sete grossos volumes, além da

Historia do Povo de Israel

de que ha publicados tres volumes e para publicar dois, elle passou as horas que não consagrava á sua principal tarefa, a escrever toda a especie de artigos litterarios:

ensaios criticos

;

dialogos philosophicos

á maneira de Platão, como os que publicou em volume com o titulo que acima démos; comedias e dramas á moda e na tradição de Shakespeare como o

Prêtre de Nemi

,

L'eau de Jouvence

,

Caliban

, etc. etc.; cartas que são celebres como aquella escripta

à un ami d'Allemagne

, e outra a

Mr. Berthelot

; fragmentos de historia religiosa; estudos de moral; trechos adoraveis como o consagrado a Francisco d'Assis, o santo que teve a adoração de Michelet e de Renan, etc. etc.

As mil faces do talento de Renan só as conhece o que leu essa obra vastissima atravessada por uma flecha ideal de encanto e de magia; para a saber apreciar devidamente, é comtudo, necessario mais do que havel-a lido, porque então, n'esse caso estava a minha humilde pessoa, a qual se recusa a tão elevada empreza.

Uma das accusações feitas a Renan, até pelos seus criticos mais benevolos, é a de contradictorio e a de incoherente.

Baptisáram de

renanismo

uma certa qualidade requintada e subtil de duvida amavel, que acolhe todas as idéas, que acha em todas alguma cousa de verdadeiro e muito de falso, que se balouça voluptuosamente entre doutrinas adversas, que se inclina ora para uma ora para outra das mil fórmas da vida sem se dar completamente a nenhuma d'ellas, que em cada chimera acha um fundo de verdade, e em cada verdade acceita e indiscutida um fundo de inanidade e de illusão, que ante a Natureza,―Isis de mil faces,―se limita a comprehender e acceitar as contradicções do Universo, explicando-as se póde, e admittindo a legitimidade absoluta dos mais variados pontos de vista, sem ter nenhuma das qualidades estreitas e limitadas do sectario ou do fanatico.

Ora esse modo de ser intellectual é tanto da nossa época, que Renan, professando-o, não fez mais do que representar em uma condensação superior de pensamento e de critica, a philosophia do seu tempo.

Que culpa teve elle de nascer justamente em um periodo da civilisação em que estes caracteres da intelligencia são justamente os que assignalam o

homem superior

, o artista consciente, o

representative man

de uma phase do pensamento humano.

De resto, querendo dizer a verdade toda, esse estado de espirito de Renan, é-lhe commum com as intelligencias mais altas de todos os tempos. Shakespeare, que foi tambem um

dilectando

genial não dizia já que o

homem è talvez feito do mesmo estofo que os seus sonhos

?

A interpretação dos phenomenos visiveis do mundo é feita por esses espiritos, não de um modo racionalista e logico, mas consoante a fugitiva inspiração do momento que passa.

A raiz de toda a realidade mergulha em um abysmo insondavel e obscuro, em que elles gostam de debruçar-se, ora trementes de pavor, ora gelados pela duvida...

Mas a justiça, que nem sempre fazem a Renan e que é necessaria fazer-lhe, exige que se accrescente a esses traços por assim dizer exteriores de seu talento esta qualidade fundamental que resalva o que elles podiam ter de perigoso para os discipulos de sua philosophia.

Ha uma cousa em que elle acreditou sempre, da qual não negou nunca a existencia

necessaria

, embora lhe contestasse ás vezes nos caprichos da sua ondeante palavra, cariciosa e triste, os resultados uteis, ou as compensações interesseiras; essa cousa é a

moral

!

«A moral é a cousa séria e verdadeira por excellencia; basta ella para dar um sentido e um fim á vida humana, diz elle no prologo dos seus

Ensaios de Moral e de Critica

.

«Escondem-nos véos impenetraveis o segredo d'este mundo estranho, cuja realidade se impõe a nós e nos esmaga; a philosophia e a sciencia procuram eternamente, sem jámais a encontrarem, a fórmula d'esse Proteu que a razão não limita e que a linguagem não

exprime

. Mas ha uma base indubitavel que o scepticismo por mais completo não póde abalar, onde o homem achará até ao termo dos seus dias o ponto fixo de todas as incertezas; o bem é o bem; o mal é o mal. Para odiar um e amar outro, não é necessario qualquer systema, e é n'este sentido que a fé e o amor, que na apparencia não têem ligação alguma com a intelligencia, são o verdadeiro fundamento da certeza moral e o unico meio que o homem possue para comprehender alguma cousa do problema da sua origem e do seu destino.»

Por estas palavras sinceras e que Renan honrou tão nobremente, em uma longa existencia laboriosa, honesta e casta, consagrada ao trabalho incessante, á desinteressada investigação da verdade, ás sondagens tão

difficeis

da Historia,―por estas palavras se percebe bem claro, que o renanismo não significa indifferença moral, mas sim benevola sympathia por ideaes diversos, contemplação amorosa dos phenomenos que se succedem em perpetua fluidez, em perpetua transformação, embevecimento perante as mil fórmas alliciadoras com que a eterna illusão nos tenta, nos seduz, nos anesthesia, para nos fazer aceitar o pesado encargo da vida...

A riqueza extraordinaria d'esta intelligencia consiste na quantidade de contrastes, de aspectos e de

nuances

que n'ella se conciliam e n'ella se contém. Os contrastes de um caracter são o sêllo da sua individualidade, da sua vida exuberante e intensa. Os contrastes de idéas cabendo em uma intelligencia dão a medida do seu grande valor.

As contradições que desnorteiam uma logica vulgar, não assustam por exemplo o pensamento allemão de uma tão extraordinaria complexidade. A concepção, a synthese magnifica de um Hegel envolve e concilia os mais contrarios termos no seu vastissimo seio. Ora, em Renan, além da influencia da Biblia, tão accentuada no seu modo dizer e de sentir, além da influencia grega tão esplendidamente demonstrada na

oração sobre a acropole

, que vem inserta nos adoraveis

Souvenirs de jeunesse

, actuou de um modo profundo, decisivo a influencia da Allemanha.

Na sua moral Renan obedece á inspiração de Kant, na sua concepção do Universo, Renan é Hegeliano. E senão vejamos esta phrase caracteristica:

«Deus é immanente no conjunto do Universo, e em cada um dos seres que o compõem. Não se reconhece, porém, egualmente em todos. Reconhece-se mais na planta que no rochedo, mais no animal que na planta, mais no homem que no animal, mais no homem intelligente que no cerebro limitado, mais em Socrates que no homem de genio, mais em Buddha que em Socrates, mais em Christo que em Buddha.»

Eis o resumo de toda a theologia hegelina e

renanesca

.

Se accrescentarmos a isto a affirmação de que nenhuma vontade particular se tem manifestado até hoje, nem poderá jámais manifestar-se na evolução do Universo, ou na marcha da humanidade, mas que esse Deus, de que elle nega a existencia pessoal, está por assim dizer em formação no tempo e no espaço, á proporção que o mundo vai attingindo a consciencia sempre mais perfeita de si proprio, e que o homem vai descobrindo as eternas leis da verdade, da belleza, da virtude e do bem; de que o Universo tem um fim idéal, aspira a um divino objectivo e não é nem póde ser a resultante de uma agitação inane, inutil e vã; que a razão, reinando mais e mais sobre a humanidade, acabará por

crear Deus

, creando o bem absoluto, e a divina harmonia das cousas;―nós teremos completado a philosophia de Renan, nem sempre original, e em todo caso pouco consoladora para os humildes e para os pobres de espirito que em nada collaboram para a formação definitiva d'esse Deus, que está em via de apparecer vizivel aos homens que hajam attingido o mais alto ponto da consciencia...

Esta philosophia reveste-se porém, das mais deliciosas fórmas, ella tem para se desenvolver e para se reduzir a preceitos geraes, um instrumento incomparavel, de uma graça que nenhum artista ainda egualou.

Esse instrumento, que é a prosa de Renan, é que o torna principalmente querido entre os que lêem...

A sua melancolia de celta, a sua sensibilidade doentia, a doçura estranha, inspirada de algumas das suas phrases, tem tido sobre a minha alma de mulher o poder inexplicavel de um sortilegio.

III

O desinteresse levado quasi a um extremo irritante para os praticos homens de hoje, a fidelidade tocante a todas as causas vencidas; um amor das tradições da raça, que se exalta até á poesia, uma fórma de imaginação absolutamente singular e inconfundivel caracterisam os Celtas, a cuja raça Renan tanto se orgulhava de pertencer.

«Em parte alguma, diz elle, a eterna illusão se adornou de mais seductoras côres, e no grande concerto da especie humana nenhuma familia egualou esta, nos sons penetrantes, que vão até o coração. Os seus cantos de alegria acabam em tom elegiaco; nada eguala a deliciosa tristeza das suas melodias nacionaes; dir-se-hiam emanações do céu, que, deslisando gotta a gotta dentro d'alma, a penetram, como reminiscencias de outro mundo.

«Ninguem, como ella, saboreou jámais tão longamente essas volupias solitarias da consciencia, essas reminiscencias poeticas, em que se cruzam simultaneamente todas as sensações da vida, tão vagas, e profundas e penetrantes, que, a prolongarem-se muito, fariam morrer, sem que pudesse dizer-se se era de delicia ou de amargura.

A infinita delicadeza de sentimento que caracterisa a raça celtica está estreitamente ligada á sua necessidade de concentração... D'ahi esse pudor delicioso, esse

não sei quê

de velado, de requintado, de sobrio, a egual distancia da rhetorica do sentimento tão familiar aos povos latinos e da ingenuidade reflectida que tanto se faz sentir nos allemães.

«Essa raça quer o infinito; tem sêde d'elle; procura-o a todo o preço, para além da tumba, para além do inferno...»

Estas phrases de Renan, colhidas no seu esplendido estudo sobre a

poesia das raças celticas

são o segredo de mil particularidades d'aquella fina sensibilidade de artista.

O que elle diz dos cantos nacionaes da sua raça, podia egualmente applicar-se ao genero indefinivel de encanto quasi physico que a sua prosa exerce em temperamentos accessiveis a certa ordem de emoções.

A estranha combinação que n'elle se fez de duas inspirações tão oppostas e ambas tão pronunciadas no seu espirito, a da poesia biblica e a da poesia dos Celtas; a alta cultura complexa que o seu entendimento assimilou de um modo tão feliz; o dom irresistivel da ironia que a fada que presidiu ao seu nascimento lhe trouxe occulto entre as mais finas flores de uma sensibilidade morbida; o optimismo de um temperamento são e de uma calma existencia, luctando com a noção pessimista que a sciencia lhe deu do Universo e da vida; as suas tendencias de

dilettante

e de aristocrata, desenvolvido em um meio de brutal democracia e de

lucta pela vida

phrenetica; a hereditariedade de uma mãe da Gasconha e de um pae bretão; até a estranha circumstancia de elle ter ouvido―nos braços maternos e dos labios queridos de onde lhe escorria o mel dos unicos beijos que não mentem,―contados com a mais graciosa florescencia de incidentes e detalhes, todas as nebulosas tradicções do Cyclo de Arthur, todas as lendas poeticas de Bretanha, isto por uma deliciosa voz ironica, que não acreditava n'ellas, e que era como o acompanhamento musical da serenata de D. Juan, o risonho desmentido áquella poesia tecida em sonhos;―todos estes contrastes, todas estas influencias contradictorias, composeram em não sei que mysterioso laboratorio, a essencia rara que era o genio de Renan.

Esse philtro capitoso, inebriante, seria salutar? Parece-me, receio bem que não! Renan era muito do seu tempo para não ter d'elle a pontinha de corrupção intellectual, que, em temperamento physico menos equilibrado, levaria ao scepticismo dissolvente, á egoistica indisciplina que se traduz pela satisfação de todas as paixões, ainda as mais funestas.

Elle, que era um santo na pratica da vida, e que, sahindo do seminario, quiz trazer para o trato social as virtudes, a castidade, a serena despreoccupação de sentimentos que o agitassem, que lhe haviam sido recommendadas pelos padres que o creáram; elle, que era um santo na moral, podia na vida intellectual ser esse delicioso

diletante

que se comprazia em perder-se nos complicados meandros do pensamento, amando como Socrates a virtude e chamando-lhe como Bruto um

nome vão!

glorificando o martyrio e notando ao mesmo tempo a impossibilidade que ha para o homem superior em morrer por

uma idéa

, necessariamente falsa, pois que nunca a verdade póde estar em uma só face de qualquer doutrina; recommendando a

moral

como «a cousa por excellencia verdadeira e séria» e dizendo aos homens, aos fracos mortaes a quem o desinteresse custa tanto, que nenhuma recompensa lhes advirá dos sacrificios feitos a essa abstracção sublime; negando a intervenção de Deus na obra universal e affirmando que o Universo tem um fim divino; sentindo e communicando aos que o lêem, as sensações mais dubias e as mais contradictorias; vibrando ao influxo das idéas mais diversas, desde o mysticismo até a transcendente ironia, tendo feito a viagem á roda do mundo do pensamento, e vindo de lá, da sua longa e laboriosa romaria, egualmente indifferente ou egualmente benevolo para todas as doutrinas, para todos os estados da alma, menos para o fanatismo dos sectarios, que lhe inspirava um desdem piedoso, e que ainda assim comprehende, porque ninguem entendeu melhor Jeremias e Ezéchias, os prophetas da feroz Jerusalem!

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