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Rita Farinha (Nov. 2009)
Maria Amalia Vaz de Carvalho
PELO MUNDO FÓRA

LISBOA Livraria de Antonio Maria Pereira―editor 50, 52―Rua Augusta―52, 54 1896
PELO MUNDO FÓRA
Maria Amalia Vaz de Carvalho
PELO MUNDO FÓRA

LISBOA Livraria de Antonio Maria Pereira―editor 50, 52―Rua Augusta―52, 54 1896
LISBOA Typographia e Stereotypia Moderna II―Apostolos―II 1896
I
Não ha de certo ninguem, por pouco imaginativo e pouco phantasista que seja, que não tenha architectado um complicadissimo e alegre sonho dando-lhe por base o
prazer das viagens
. Aos homens é o interesse de visitar cousas novas, de experimentar sensações mais vivas, que os attrahe e chama; ás mulheres é o amor do desconhecido que lhes irrita a insaciavel curiosidade.
Imaginamos todos que a ventura está justamente... onde nós não estamos. E que seria facil conquistal-a, indo em demanda d'ella um pouco longe, em um logar d'onde ella nos sorri, d'onde ella nos acena, cariciosa... traiçoeira.
Eu cedi tambem á estranha, á irresistivel suggestão. Fui-me por esse mundo fóra em busca do pomo d'ouro, que tantas vezes se parece com aquelle fructo colhido em terras da Palestina―mimo e velludo por fóra, cinzas escuras no interior.
Era bem natural que, para mim tão profundamente modelada pelo espirito da França, o primeiro objectivo fosse a terra onde a civilisação franco-latina se resume em synthese deslumbradora.
Chamava-me Paris. E Paris não era, já se vê, a cidade luxuosa e alegre do
boulevard
, a cidade da permanente festa, do prazer que se elabora de todos os requintes de uma decadencia, da phrenetica aspiração ao gozo material da vida.
Paris era a terra sagrada d'onde brotára para a especie humana a primeira scentelha da Liberdade.
Paris era a patria, pelo menos moral―d'aquelles espiritos de que a minha alma colhêra, n'um vago extase fecundante, a flôr maravilhosa e inspiradora.
Todos os que eu intellectualmente mais amára tinham ido alli receber a consagração suprema da gloria ou da desgraça, ás vezes de ambas ellas.
Eram, no grande seculo classico, Pascal, Racine e Molière; eram, na soberba Renascença franceza, Rabelais e Montaigne; eram depois, n'esse seculo XVIII hoje tão calumniado, mas sempre tão grande, e que tão indomitas energias acordara na alma do homem, Rousseau com a sua morbida sensibilidade de ambicioso e de revoltado, que nós hoje comprehendemos tão bem; era Voltaire, a sã ironia hoje desdenhada, mas que tão benefica acção exerceu na treva do espirito humano; era Diderot, o profundo precursor de todas as modernas theorias criticas, o homem que no seu tempo moveu maior numero de idéas novas e suggestivas; era a pleiade formidavel e fascinante da Revolução, a que na minha mocidade me dera sensações de tão absoluto assombro, a que, desde Turgot e Mirabeau até Robespierre, refizera em novos moldes o mundo moral e o mundo politico; era, na cumiada mais alta e mais luminosa da montanha da Historia, essa grande figura immortal, o Alexandre do seculo XIX, o heroe de Homero, o phrenetico conquistador, que empobreceu talvez a França, que dizimou as populações e crucificou as mães e as noivas, que sangrou do seu melhor sangue as nações e as raças, mas que imprimiu na sua patria o cunho epico, inapagavel, inolvidavel, com que ella ainda hoje espanta e assombra o espirito dos estrangeiros! Parece dos tempos lendarios e é de hontem esse homem soberbo e fatal―em cujo olhar profundo ha reverberações do Olympo, e cuja fronte pensativa fez parar embevecidos, silenciosos, os mais impassiveis e os mais frivolos―cuja figura nós topamos a cada passo na Capital do Mundo.
Modernamente, quantos outros me chamavam, ainda mais queridos ao meu coração, ainda mais intimamente e estreitamente identificados com todas as recordações mais doces da minha vida intellectual... Era Michelet, o poderoso encanto allucinante; era Balzac, a vida intensa que pullula em creações immortaes; era Renan, a graça emballadora, ondeante e morbida, que anesthesia e faz sonhar; e Taine, o vigor soberbo da idéa servido por um temperamento possante de artista e de poeta, um Spinosa que tivesse o pincel do Veronez para traduzir as visões do seu pensamento altissimo; era Musset, o divino; era Sand, e Sainte Beuve, e Hugo, e Lamartine: e cada um me attrahia por um lado ou por muitos lados da sua sensibilidade e do seu genio, e cada um me dizia a palavra magica que faz parar, suspenso, embevecido, um espirito de poeta e de artista, humilde embora...
Eram mais, eram muitos mais, todos lidos, todos decorados com enternecimento e apaixonado enlevo. Eram os que eu sempre amei desde que abri os olhos d'alma, e a quem devo os prazeres mais ardentes, mais refinados ou mais subtis da minha vida interior.
Todos alli me chamavam―côro de mortos que eu tinha a louca illusão de encontrar ainda. Parecia-me que o sorriso aberto e expansivo do pae Dumas havia de accentuar-se sympathicamente ao encarar com o meu assombro extatico; que a voz mordente de Voltaire se amolleceria para acolher em mim a mais fervente enthusiasta do espirito francez; que Beaumarchais me contaria, entre risonho e caustico, uma nova travessura de
Figaro
, uma nova paixão de
Cherubin
; que Molière, descendo do seu pedestal marmoreo, me diria ao ouvido uma d'aquellas profundas reflexões satyricas que elle não poupára ás
bas-bleus
do seu tempo!
Para mim confundiam-se n'um cahos allucinante as épocas, os seculos, os periodos historicos.
O meu humilde espirito colhêra apaixonadamente scentelhas soltas de todos esses espiritos; a minha memoria guardava reverente, em relicario precioso, perfumes vagos de todas essas essencias raras! Amara-os tanto! Sonhara-os tanto! O scenario onde elles se tinham movido interessava-me tão profundamente!
Oh! Balzac ia decerto contar-me a historia, para elle
real
, das suas elegantes e pallidas heroinas; elle que era forte e bom, compadecido da minha pequenez, não duvidaria apresentar-me a esse mundo mais humano, mais verdadeiro que o outro em que tanto á vontade sabia mover-se.
A viscondessa de Beauseant, a espirituosa e aristocratica rainha do
faubourg
, aquella que amára tanto um portuguez, e que tivera no seu abandono uma dignidade tão gentil e uma attitude de tão romanesco encanto, ao vêr-me patrocinada pelo seu grande artista, far-me-hia o que fez a Eugenio de Rastignac: proteger-me-hia, introduzir-me-hia, carinhosa e maternal, no circulo estreito, exclusivo, selecto onde viviam as suas eguaes.
Então, n'este ponto do meu sonho galopante, mais rapido que o trem que me levava, mais vertiginoso que o scenario mudavel que me envolvia, eu deixava o mundo da realidade sempre limitado, sempre condicional e sempre estreito, por outro amplissimo, fascinador e deslumbrante.
A multidão prestigiosa das figuras de Balzac cercava-me n'uma especie de circulo encantado. Todo o sortilegio poderoso com que esse grande artista―o Napoleão da litteratura―actuou sobre o nosso tempo, descia sobre o meu cerebro, excitava-o, estimulava-o perigosamente.
Todos os meus gostos de observadora achavam alli a sua satisfação plena. Esquecia, n'esse mundo de tão frisante
realidade
, de tão intensa vida, tudo que o mundo actual tem de nauseante e de triste...
De resto, Nucigen, o formidavel banqueiro da
Comedia humana
, é bem mais assustador que Reinach e que todos os judeus modernos da Columna da Bolsa; Vautrin tem um porte épico de criminoso que deixa a perder de vista Cornelio Herz, ou Arton; de Marsay, esse personagem que é de Balzac como Hamlet é de Shakespeare, como Tartufo é de Molière, como D. Juan é de Byron, é um politico, um diplomata, um perverso das altas cumiadas sociaes, bem superior a Rouvier, a Clemenceau, aos pobres pygmeus da terceira Republica; Lousteau, Claude Vignon, Emilio Blondet, Nathan, os principes do jornalismo, os grandes criticos e os manipuladores de
successos
ou de derrotas litterarias, não podem realmente comparar-se ao sr. Mayer, ao sr. Magnard, ao proprio sr. Rochefort.
E que pleiade encantadora de artistas e de sabios! Que lindas figuras luminosas de pintores, de esculptores, de romancistas, de pensadores! D'Arthez! Joseph Bridau! Camille Maupin! Leon Giraud! Fulgence Ridal!
Em Miguel Christien transparece a integridade rigida, a consciencia admiravel, a fogosa independencia de Armand Carrel; em D'Arthez a bella alma, a vida modesta e simples, a magnificencia intellectual de um Berryer...
E todos desfilavam ante os meus olhos offuscados, os cinzeladores da palavra, os manejadores soberbos ou do escalpello que abre as entranhas humanas para extrahir d'ellas o segredo da vida, ou do pincel que rasga janellas de luz para o azul, para o Ideal! Os mestres da sciencia e da arte, os grandes typos que constituiram essa sociedade imaginaria da obra de Balzac, reflexo idealisado da outra que elle frequentava e conheceu tambem.
Ao pé d'esse agrupamento sublime de figuras que o genio creou, e que illuminam o talento, a gloria, a ambição ou a desventura, que ora se contorcem como os personagens que Miguel Angelo pintou nos seus frescos soberbos, sob o influxo de uma dôr tremenda, ora sorriem olympicamente, como os retratos do Ticiano, surge uma legião adoravel de mulheres, em quem a graça indefinivel da parisiense se allia ao eterno mysterio da poesia feminina, mulheres que se vestem como duquezas modernas, e sorriem, enygmaticas e suggestivas, como a Monna Lisa, eternamente indecifravel, do pintor florentino.
Mulheres que sabem
ouvir
, que sabem comprehender, e julgar, e consolar, e amar; mulheres que, sendo perversas, teem o encanto diabolico da princeza de Cadignan e de Mme. Marneffe, e que, sendo puras, se chamam Henriette de Morsauf, Duqueza de Langeais; mulheres que são ao mesmo tempo imaginarias e reaes; que ficaram representando na historia um papel preponderante e caracteristico, como as inspiradoras da Renascença italiana, como as amigas gregas de Socrates e de Platão.
II
O comboio levava-me, rapido, ferozmente rapido. Levava-me para longe do meu ninho, dos meus filhos, de tudo que me faz a vida consolada e boa, de tudo que me dá força para o trabalho, para a lucta, de tudo que enche de bençãos a minha existencia laboriosa e triste...
Á paizagem arida, pedregosa, da Extremadura hespanhola succedia um scenario mais animado, mais caracteristico. Aldêas que desde os tempos hispano-arabes se conservam na mesma immobilidade barbara, sinos altos de egrejas gothicas, perfis apenas entrevistos de velhos conventos, ninhos de cegonhas nas arvores que pareciam correr commigo, sombrias manchas de arvoredo que o vento torcia em attitudes de desesperada supplica...
A grandeza alpestre dos Pyrenéos e a França, a França emfim!... Oh! que jubilo estranho e mysterioso se mesclou então com a saudade que me ia alanceando e cortando as raizes da alma!
A França! Como eu tinha levado annos a amar e a sonhar esse paiz entre todos aureolado aos meus olhos da luz que vem de cima!
Outras que para lá partem levam projectos de requintada elegancia para pôr em pratica. Irão ao Redfern, o alfaiate afamado da rua Rivoli, que veste tão primorosamente as francezas de alto cothurno; irão ao Worth, popularisado pelos romances modernos; á Laferrière, que veste as actrizes de mais fama; ao Felix, que principescas encommendas acabam de singularisar; comprarão na Virot o ultimo modelo de chapéo; receberão
chez
Lenthéric
des conseils de beauté
, que elle dá carissimos,
pela hora da morte
, segundo a expressiva phrase portugueza, e que de resto tão pouco aproveitam a quem os recebe; interrogarão anciosas a elegancia avulsa da parisiense que passa, pedindo-lhe o segredo, que só ella tem, de andar por sobre o solo molhado ou enlameado, sem macular de leve a fimbria, gentilmente arregaçada, do seu simples, gracioso e bem posto vestido escuro, que se amolda sobre um espartilho de mestra, com a nobreza com que sobre o corpo de uma estatueta de Tanagra se amolda a roupagem de linhas magistraes que o envolve sem encobril-o; o segredo de collocar sobre a sua fina cabeça pequenina, lindamente penteada, ou antes, lindamente despenteada, um minusculo chapéo, similhante a uma borboleta ou a uma flôr, que o vento parece querer levar, e que não leva nunca...
O Paris que as attrahe é o Paris da moda, da elegancia, do
chic
, do
concours hippique
, da
avenue des Acacias
, do
vernissage
e dos pequenos theatros gaiatos. O Paris que as attrahe é o dos figurinos, das lojas de modas, dos ourives da rua de
la Paix
, dos frequentadores do
boulevard des Italiens
e da
Madeleine
.
O Paris que, na velocidade vertiginosa, quasi tragica do
expresso
, surgia ante meus olhos, era um Paris phantastico,
unreal
, feito, construido, cimentado com o genio dos seus grandes artistas, dos seus grandes poetas, dos seus historiadores, dos seus moralistas, dos seus sabios, dos seus criticos, dos seus dramaturgos, dos seus romancistas geniaes!
A França, a que minha alma aspirava, como aspira ás paizagens desoladas da Palestina a alma dos grandes ascetas do christianismo, como aspiram á mystica e penetrante atmosphera de Bayreuth os fanaticos da religião wagneriana, era a França que desde Jean Goujon até Rodin, e desde o Poussin até Puvis de Chavannes, e desde Froissart até Michelet, e desde Mme. Laffayette até Georges Sand, e desde Balzac até Zola, e desde Pascal até Renan―um, o catholico que se inclina sobre o abysmo da duvida, outro, o sceptico que tem a uncção evangelista de um santo... e desde Montaigne até Anatole France, e desde Racine até Bourget... os finos psychologos do eterno feminino―e desde Ronsard até Victor Hugo, e desde Marot até Verlaine, e desde a grande renascença do seculo XVI até ao magnifico movimento do romantismo, têem enchido o mundo da arte, e da poesia, e da realidade, e da ficção, de obras primas sem conta e sem medida!...
De pequena tinham-me ensinado essa lingua tão clara, que milhares de artistas forjaram, bateram, cinzelaram, incrustaram de pedrarias coruscantes, esmaltaram de riquissimas côres, metal precioso feito de todos os metaes, e que tem qualidades de flexibilidade, de elegancia, de sonoridade, de harmonia, de colorido, e de pujança absolutamente incomparaveis e inimitaveis... De pequena tinham-me mettido nas mãos as obras primas dos seus genios mais brilhantes, e eu sentia-me no intimo da minha alma mais franceza ás vezes do que propriamente peninsular.
Ah! mas que melancholico foi o despertar do meu ambicioso, do meu doido sonho!...
Atravessei, com uma rapidez que me deixou confusa e palpitante, o Paris da minha evocação de vidente; estavam mortos os amigos que me tinham alimentado com a medula do seu cerebro, ou com o leite da sua poesia, e, vivos que fossem, alli perto d'elles, na atmosphera em que elles tinham respirado, nas ruas em que elles tinham morado, no scenario que elles enchiam do seu nome é que eu, pela primeira vez, ia sentil-os longe, muito longe de mim, na incommensuravel distancia moral, que a proximidade physica revelava de repente ao meu chimerico espirito de sonhadora!
Senti então o que nunca julguei que sentiria n'esse paiz que eu reputava positivamente a patria do meu espirito! Senti uma nostalgia tão violenta, tão dolorosa, que pensei morrer d'ella! Uma especie de desaggregação intellectual, que deve ter nome na pathologia do cerebro, mas que eu não sei scientificamente classificar―o que de resto não admira nada!
Esqueci-me do que aprendera, fiquei-me em uma especie de assombro mudo, em que a saudade de Portugal punha uma nota alanceadora, torturante.
O que os livros me tinham revelado foi como que varrido da minha memoria; os sonhos que eu tinha edificado sobre a minha vinda a Paris, desmoronaram-se em uma especie de estranho cataclysmo, e percorri a linda capital da Europa civilisada, não como uma pessoa que de antemão, e por muito os ter visto descriptos, conhecesse os seus encantos, as suas bellezas soberanas, os filtros subtis que do seu
pavé de bois
se exhalam de envolta com o cheiro penetrante da terra sempre humida e sempre regada, a festa perenne das suas ruas e avenidas onde a miseria não vem pôr a sua mancha livida, onde perpassa uma multidão sempre garrida e sempre feliz, a perfeição nos seus theatros, a perversa poesia das suas canções
fim de seculo
, a tenra verdura das suas arvores, tão bem cuidadas que parece que de manhã cedo as lava todos os dias, a esponja e sabonete, um exercito de invisiveis jardineiros, a lindeza da sua luz que á tarde se faz de um cinzento roseo como o das paizagens de Corot, tão inexprimivelmente bellas... mas como um ser inteiramente novo às impressões da vida extra-civilisada e que d'ella recebesse uma especie de choque
estupidificante
!
Através de tudo, o que eu sentia vivo, absorvente como um
cauchemar
, era a saudade do meu paiz, da minha Lisboa das sete collinas, construida em amphitheatro, sobre o Tejo amplo e azul, da bonhomia d'este nosso viver um pouco provinciano, pacato apesar do ridiculo de parodia involuntaria que ás vezes o desfigura e o desnacionalisa, da familiaridade com que todos nos conhecemos, nos amamos através do
debique
permanente, em que andamos uns a respeito dos outros, da tranquillidade um tanto adormecida do nosso espirito, do amor da casa que distingue todo o bom lisboeta, da ausencia de ambição que, exceptuando as alturas procellosas da politica, imprime o seu cunho esterilisador, mas calmante, em todas as nossas almas serenas...
A lingua então, a musica da lingua patria, fazia-me uma falta dolorosa. Tinha sêde de ouvir falar portuguez!
E preferia aos divertimentos que a engenhosa amabilidade do meu querido hospedeiro me proporcionava, e ás excursões artisticas em que elle era um
cicerone
incomparavel, instruidissimo,
raffiné
, cheio de idéas originaes e suggestivas, as tranquillas e doces noites passadas em Neuilly, na luz discreta da lampada Carcel, que um quebra-luz côr de rosa fazia mais acariciadora e mais suave, e onde a familia adoravelmente intelligente, e inolvidavel para mim, de um escriptor portuguez, que é um artista da mais pura raça intellectual e da mais ampla envergadura de engenho, me fazia uma especie de pequenina patria. Alli a conversa tinha o tom preguiçoso da nossa conversa, os gostos combinavam-se com os meus gostos, os nossos geitos especiaes de portuguezas manifestavam-se a cada instante, e o que a graça feminil de umas combinada com o genio nervoso e original de outros podiam dar de delicioso ao meu espirito, harmonisavam-se para me fazer esquecer a patria, os filhos, os outros amigos ausentes!
Nem sabem―n'esse ideal cantinho do mundo onde vivem, um pouco alheados da civilisação babylonica que os aperta, os cinge e os invade ás vezes―elle, o artista laborioso e apaixonado mettido no seu trabalho austero e impeccavel, como um monge na sua cella estreita, ellas, as duas encantadoras irmãs, envoltas na grinalda viva de lindissimas flôres humanas, que são para uma
tudo
, e quasi tudo para o coração instinctivamente maternal da outra,―nem sabem o bem que me fizeram n'uma d'estas crises absurdas que só os nervosos conhecem e das quaes o mundo estupidamente ri!
Foi ahi sobretudo que eu, curada d'aquella violenta nostalgia que ameaçava inutilisar inteiramente o resultado moral da minha viagem,
reaprendi
a gosar Paris, não já o meu Paris ideal, especie de babylonia construida em nuvens, mas o Paris verdadeiro, o Paris real, tal como elle lentamente me foi sendo revelado pelo intelligente
cicerone
que eu tive a fortuna de ter no meu divagar de
touriste
.
III
Folheio ao acaso as notas escriptas a correr, na rapidez da minha viagem, e transcrevo-as para aqui, na sua sinceridade frisante.
É, de resto, o unico merito que hoje podem ter as notas de viagem, o temperamento pessoal do artista que
viu
, através das impressões que a sua visão lhe deu. Mais nada. Tudo está dito, e não ha quem acorde uma emoção nova, na alma do leitor
blasé
pelo conhecimento da obra dos grandes artistas que viajaram. O proprio Bourget, que é um mestre, cujo unico defeito é ter vindo um pouco tarde, depois de muitos outros, está reduzido a chamar
Sensações de Italia
ao seu livro encantador de viagem na terra classica da Arte. As sensações que a Italia lhe deu a elle, eis unicamente o que o delicado escriptor se atreve a contar, certo de que toda a essencia de poesia que d'esse maravilhoso e fecundo solo se pode extrahir, outros a extrahiram antes d'elle por lá ter passado.
A minha unica desculpa vem a ser esta: costumada a contar n'este mesmo logar as impressões colhidas na leitura dos livros, porque me não atreverei a completar, a ampliar, a desenvolver essas impressões
livrescas
com outras colhidas em diversos ramos de arte; mais directas, mais reaes?...
―Acabo de sahir do Louvre, onde fui visitar as galerias da esculptura e principalmente essa sala entre todas privilegiada e bemdita, onde a
Venus victoriosa
, a Venus de Milo, esplende na sua sagrada formosura.
Chamava-me de longe, como um sortilegio poderoso exercido pelo Bello, essa figura que eu tinha mil vezes visto em reproducções, em estampas, em photographias, que me tinham dito ser a suprema divinisação do corpo feminino, e que eu ia pela primeira vez contemplar na sua genuina pureza marmorea.
A minha impressão, comquanto profunda, tem o seu quê de incerto e duvidoso. Porque? Será porque a Venus não realisou o sonho que eu fizera da perfeição ideal dos seus contornos e das suas linhas? Não. Ella é realmente a belleza augusta, sobrehumana, ideal, como a proclamam unanimes os que a tem visto e julgado.
Mas é que eu não tenho em mim enraizado como uma religião da infancia, fazendo corpo com as minhas crenças, idéas e sentimentos, esse culto da belleza physica que foi a feição primacial da civilisação dos gregos.
Para mim um
corpo divino
é uma expressão litteraria, não é um dogma de esthetica instinctiva.
Por isso, através da bella estatua procuro adivinhar, nas suas linhas mais geraes, a extincta civilisação que ella representa, de que ella é como que o remate e a flôr!
Como Taine diz tão bem, «todas as grandes cousas um pouco remotas correspondem a sentimentos que já não temos.»
Precisamos de os reconstruir pela reflexão; e como ainda os menos profundamente instruidos têem uma educação cosmopolita e multipla, em que umas poucas de concepções de arte se ajustam e sobrepõem, como nós temos, adquirida laboriosamente, ou bebida no ar que respiramos e nas rapidas leituras que fazemos, uma noção, profunda ou elementar, de cada uma das civilisações que antecederam a nossa, acabamos depois de algum tempo de meditação por comprehender, com o espirito, não com a alma, o sentimento que inspirou a obra de arte que estamos contemplando um pouco inintelligentemente.
O
snobismo
artistico consiste em fingir que se entende tudo á primeira vista, mesmo as cousas mais avêssas ao nosso temperamento individual ou nacional. Evitar esse
snobismo
a todo o custo, deve ser o decidido empenho de qualquer espirito honesto e sincero.
A Venus é, mesmo para o simples profano, uma esplendida revelação de arte? É, de certo.
Não póde um corpo feminino ondular em linhas mais puras, não póde a branca flôr do marmore palpitar com mais intensa vida.
Pela graça magestosa da sua mutilada attitude (que fazia ella quando tinha os seus divinos braços, perguntam debalde os criticos especiaes da arte grega!), pela serenidade ineffavel da sua posição, pela harmonia absoluta das suas linhas esculpturaes, pelo rythmo inspirador do seu corpo marmoreo,―a Venus de Milo, brotada do cinzel de desconhecido artista, na hora mais feliz da arte da Grecia, logo depois de Phidias lhe haver imprimido o sello supremo de sua grandeza, antes do escopro de Praxiteles a haver impregnado de uma languida graça voluptuosa, de um sensualismo requintado e enervante, que decahe mais tarde na imitação anti-esthetica da Natureza, nos realismos da polychromia, na extincção final do gosto e do puro ideal artistico: a Venus de Milo merece ser considerada, como diz Paulo de Saint Victor, aquella Eterna Belleza que Platão adorava, a
Venus victrix
cujo nome Cesar dava por senha aos seus soldados na vespera de Pharsalia, e em todo o caso a mais bella interpretação, que os modernos possuem d'esse feminino eterno que a Grecia tanto amou, que no mundo historico ella foi a primeira a amar, e cujo culto poetico e sensual traduziu nos seus mythos divinos, nos seus ritos magnificos, na sua arte incomparavel...
Comtudo, nós sómente possuimos truncados restos, fragmentos secundarios da esculptura grega e não somos capazes, senão por
dilettantismo
e por curiosidade intellectual, de comprehender bem o culto apaixonado que ao corpo humano foi consagrado pela Grecia.
É necessario avistar ao menos de longe essa raça simples, viril, intelligente e bella, que foi de todas as raças a unica que poz a sua concepção da felicidade humana em perfeito accordo com a sua concepção das leis do Universo, que á realisação positiva de todos os seus instinctos chamou Virtude, e á encarnação de todos os impulsos naturalistas deu o nome de deuses; que tendeu ao aperfeiçoamento, e ao desenvolvimento pleno da natureza humana na sua constituição politica, no seu organismo social, nos seus costumes, na sua arte, na sua religião; que fez deuses á similhança dos homens para os poder amar, e que, chegada ao ponto culminante da sua perfeição artistica, esculpiu homens á similhança de deuses para lhes render culto...
Que nos importa hoje, a não ser como exercicio d'arte, a belleza ideal de um corpo de homem ou de um corpo de mulher?
Para nós a belleza tem outras regras bem mais complicadas, bem mais subtis, e tão difficil nos é conceber um corpo sem defeito, movendo-se na plena graça e na plena liberdade da sua harmonia muscular, como seria á Grecia conceber o nosso moderno ideal do bello, todo em expressão, com a alma atormentada e complexa que se revela principalmente através do gesto, através do olhar, através da physionomia ardente e devastada...
Para a Grecia, porém, habituada a realisar a perfeição, não sómente no marmore, que isso veiu mais tarde como complemento e como resultado, senão na propria carne humana, e que seguia todos os processos pelos quaes uma raça de homens se desenvolve, se robustece, se apura, se requinta, até poder attingir a belleza suprema: que empregava não só a eliminação systematica de todos os productos defeituosos, não só o cruzamento forçado dos fortes e das bellas, mas tambem os exercicios permanentes da força, e da graça robusta e livre, nos jogos do gymnasio, na orchestrica, nas dansas guerreiras ou sacerdotaes, na educação, emfim, do corpo levada ás mais minuciosas praticas que podem depurar-lhe as formas e desenvolver-lhe as latentes energias―para a Grecia a belleza physica é mais que uma virtude, é uma condição absoluta da vida nacional.
Sem belleza, isto é, sem harmonia, não ha força; sem força como é que a pequena Grecia venceria a poderosa Persia? Como é que ella chegaria a ser o nucleo de extraordinaria civilisação, de que ainda hoje, apesar de trinta seculos de mutilações continuas, a nossa alma se alimenta, nutre e revigora?
IV
Mas quem nos diz a nós que a Venus de Milo, objecto de uma ardente e justa admiração entre os modernos, não fosse no fim de contas uma estatua vulgar no seu tempo?
Os grandes esculptores gregos, aquelles cuja chronologia e cuja historia chegaram até nós, descobertas pela paciente erudição, em alguns fragmentos de Plinio, de Pausanias, de Cicero, de Quintiliano, não faziam as suas obras mais preciosas senão em ouro, em prata, em marfim, em materias firmes bem mais raras que o paros e o pentelico, de que hoje se guardam nos museus os torsos mutilados, os fragmentos soltos, as reconstituidas estatuas.
Ao pé do que se sumiu d'essa sublime estatuaria grega, flôr suprema d'aquella civilisação de athletas, de gymnastas, de oradores e de heróes, quantas attitudes para a «esculptura»! O que resta vale bem pouco, e representa apenas como documento de uma éra extincta.
Mas pelo que resta, nós sabemos que o corpo bello, viril, robusto e são, movendo-se livremente sob a claridade azul de um céo sem manchas, era o ideal artistico d'esse povo que, mais feliz que nenhum outro, traduziu integro e immaculado o seu sonho da vida, e―para quem é a vida, mais que um sonho?―na religião, na arte, na poesia, nas paginas luminosas de Homero, Eschylo e Platão, na fórma sublime da sua Acropole, ante a qual Renan soltou aquelle melancolico e sublime grito de amor, nas frisas e estatuas dos seus templos, nas ceremonias divinas e inspirativas do seu culto, que ora são castas como a longa procissão das Panatheneas, ora são soberbas de força e de pujança animal como as dansas e os jogos de ephebos nús...
A Grecia amou a sobriedade, a correcção, a graça e a força.
E depois de percorrer um periodo longo e o progressivo da iniciação, chegou ao ponto de combinar e fundir os extremos mais oppostos n'aquella completa harmonia, que só uma vez se realisou na terra e que não torna mais!
Que importa, porém, que não torne?
Bastou que apparecesse uma vez, que brilhasse sobre nós, astro longinquo e puro hoje apagado e de que ainda vêmos o reflexo calmo, para que o mundo ficasse eternamente ungido d'aquella graça mysteriosa, d'aquelle divino
atticismo
que em alguns raros eleitos resplandece e de que todos temos o presentimento, a sêde, ou a avidez!
Por isso Renan, a alma mais accessivel á influencia do bello de que talvez possa ufanar-se o nosso tempo, dizia no alto da
Acropole
estas palavras que traduzem um sentir universal que até alli não achára expressão condigna:
―«Ó Natureza impeccavel! Oh! simples e verdadeira Belleza! Deusa cujo culto significa sabedoria e razão! oh! tu cujo templo é uma lição eterna de sinceridade e consciencia! chego bem tarde aos umbraes dos teus mysterios; venho ao teu altar cheio de remorsos!
Para te encontrar
, que infinito esforço eu fiz!
«A iniciação que, n'um sorriso, davas ao atheniense na primeira infancia, só á força de reflexões e de esforços eu pôde conquistal-a!
«Tu só és moça! tu só és pura! tu só és sã! tu só és invencivel!»
Um outro critico profundo, que estudou a Grecia com o amor com que se estuda a civilisação-mãe, de que todas mais ou menos dependeram depois, diz que no caracter nacional d'essa raça se discriminam claramente os tres traços fundamentaes que constituem a intelligencia de um artista.
Estes tres traços são a
delicadeza da percepção
, a
necessidade absoluta da clareza
e o
amor e culto da vida presente
.
O primeiro d'esses traços permittiu-lhes perceber as relações secretas das cousas, deu-lhes o sentimento fino e raro das
nuances
, e a suprema aptidão para construirem conjunctos de fórmas, de seres e de côres, combinações de circumstancias e de elementos tão bem ligados entre si e por tão estreita identidade de relações, que a sua creação de arte foi tão
viva
que excedeu no mundo imaginario a harmonia preestabelecida no mundo real e verdadeiro.
Ao segundo deveram o sentimento da proporção que possuiram como nenhum outro povo, o odio ao vago e ao abstracto, o desdem pelo monstruoso e pelo enorme,―que é a marca distinctiva do Oriente, do qual elles só aproveitaram o bom,―o gosto dos contornos firmes e precisos.
O amor
e o
culto da vida presente
bem o revelaram na sua religião sem mysterio e sem
au delá
, na sua paixão pela belleza plastica, na sua sêde de serenidade e de alegria, no seu antagonismo ingenito com a doença, com as miserias physicas ou moraes, no seu encantamento absoluto, e que é para nós immoral mas que para elles o não era, deante do corpo nú, representação suprema da força, da graça, da saude e da belleza...
Uma raça tão maravilhosamente dotada, idealista e positiva a um tempo, tinha por força de traduzir-se no esplendor das artes plasticas.
O espectaculo permanente dos bellos corpos nús, ou envoltos lassamente na elegante e longa tunica que na altura do joelho se duplica e cahe sobre os pés em pregas esculpturaes de inimitavel graça, a contemplação habitual d'essa raça que se distingue pela nobreza simples das attitudes, pela perfeição athletica da fórma, pela serenidade do aspecto que as nossas mesquinhas ambições ou o nosso devastador pensamento não tinham convulsionado,―tudo devia naturalmente produzir, pelo pendor imitativo que caracterisa o espirito do homem, a maravilhosa floração de artistas sublimes que ao principio tentaram e depois conseguiram libertar a noção do bello da estreita prisão que o cingia e apertava, fixar no marmore, no ouro, no marfim e no bronze a soberba visão da força militante ou graça ingenua e pura!
Como é interessante seguir a evolução da arte grega desde o ponto em que ella parece ainda pedir á inspiração hieratica do Egypto o molde incorrecto que a liga e mumifica, até a hora em que Praxiteles arranca do marmore a sua Venus de Gnido, de que a Anthologia canta assim a voluptuosa formosura:
«Cythera trazida pelas ondas foi a Gnido admirar a propria imagem, e após longa contemplação falou d'est'arte: Onde é que Praxiteles me viu sem véos?... Não, Praxiteles não ousou violar-te com olhar sacrilego. O que elle fez foi representar-te com o cinzel qual te havia sonhado!»
Ao principio, a architectura e a estatuaria, estreitamente unidas, pareciam identificadas e inseparaveis; mas quando a estatuaria se emancipou, não foram sómente as frisas e os baixos relevos dos templos, as colossaes effigies da «cella» interior, que captivaram e deslumbraram o olhar do povo grego, foram as soberbas figuras erguidas ao ar livre, a Athenêa colossal de Phidias, a Sosandra de Kalamis, as mulheres de Carya, a Artémis divina em volta de cuja estatua as virgens da Lacedemonia vêm tecer annualmente as suas dansas rituaes!
Desappareceu o ingenuo symbolismo primitivo, que representava cada divindade com os attributos do seu poder, ou com os accessorios significativos das transformações naturaes de que ellas todas eram a concreta imagem; agora o que se revela ao fanatismo de belleza que palpita na alma grega, são divinos corpos de mulheres em toda a magnifica pujança da sua belleza creadora, em toda a graça adoravel da sua feminina poesia.
V
A estatua deante da qual eu acabo de passar algum tempo, pedindo-lhe o segredo do perdido Ideal que ella traduz, representa, como eu já disse, esse momento fugitivo e bello da vida grega.
Esculpiu-a um desconhecido artista: mas não são totalmente desconhecidos tambem para nós, os pobres oleiros que amassaram e modelaram as lindas estatuas encontradas nos tumulos de Tanagra e não são tambem ellas a poesia, o encanto, o velado mysterio, a ineffavel graça?
Falando d'ella, diz Paulo de Saint Victor: «Oh! bemdito seja o camponez grego, cuja enxada exhumou a deusa enterrada ha dois mil annos em uma leiva de trigo!... Graças a elle, a idéa do Bello ascendeu mais um gráu sublime, o mundo plastico encontrou a sua Rainha!... A belleza ondula d'essa cabeça divina e espraia-se em todo o corpo como uma luz!... Só a lingua de Homero e de Sophocles seria digna de celebrar tão regia Venus! Sómente a amplidão do rythmo hellenico poderia moldar, sem deslustral-as, fórmas tão perfeitas!
«Por que palavras exprimir a magestade d'esse marmore triplamente sagrado, a attracção mesclada de assombro que elle inspira, o ideal supremo e ingenuo que revela?»
E Theophile Gauthier, descrevendo-a, diz assim:
«A fronte soberba, de linhas curvas, cingida pelas
bandelettes
do penteado, é tal qual a podiamos sonhar para séde de uma alma divina; o collo direito e firme lembra o fuste de uma columna dorica, o seio de virgindade eterna é digno de servir de modelo, como o de Helena, para a taça dos altares!»
E, no emtanto, essa bella e pequenina cabeça, que uma graça ideal nimba eternamente, não é tal como elle diz, séde
de uma alma divina
. A Venus de Milo não pensa. N'aquella branca flôr marmorea uma alma vegetativa sonha e dorme! Que sabe ella da Vida e das suas longas tragedias, que sulcam de rugas profundas a fronte pallida das mulheres, que contorcem em ancias, indomitas como o Oceano, a alma dos homens?
Quem lhe revelou, a ella, o segredo das nossas paixões que devastam, das nossas luctas que ou disvirilisam ou depravam, das contradicções medonhas de que erriçamos o nosso cruel destino, dos abysmos que abrimos debaixo dos nossos cançados pés? Que presentimento sequer tem ella―a deusa inalteravel e serena―de tudo que a engenhosa imaginação dos que vieram depois―deuses e homens―inventou para se torturarem e nos torturarem?
Os dois mil annos que temos a pesar-nos sobre a cabeça e sobre o peito, passou-os ella ignorante e tranquilla sob a terra da Grecia.
O que ella representa é um momento risonho e curto da existencia humana; um momento em que tudo é bello e harmonioso na terra e no céo, em que, para imitar os deuses que crearam, os homens não precisam de deixar mutilar as suas energias mais vivas, os seus instinctos mais naturaes; um momento em que o amor é sagrado e puro como a fonte inexgotavel dos sêres, e como tal tem culto e tem altares; um momento em que a Natureza é benevola e sã, e em que da espuma dos mares da Jonia póde brotar a flôr maravilhosa da eterna belleza, em que a inconstancia das ondas, a perfida doçura das sereias, o abysmo glauco, que tem no fundo grutas de esmeralda collaboram em uma obra divina e produzem um symbolo immortal...
Que differença d'essa concepção propria á esculptura antiga e a nossa de hoje, tão fundamentalmente opposta nos fins e nos processos!
E no emtanto a estatuaria franceza representa no seculo XIX um momento glorioso da historia da arte! Mas desenganem-se. Póde a estatuaria franceza moderna revelar um grande talento da parte de quatro ou cinco ou mesmo mais individuos; não é, não pode já ser uma necessidade, uma aspiração da raça, universal e irreductivel!
É um esforço de talento individual, não é o rebento vigoroso e vivaz em que desabrocha finalmente a alma de um povo!
Depois da minha visita incompleta, mas cheia de interesse, ás galerias da antiguidade classica, fui ao Luxemburgo vêr as estatuas francezas modernas, e procurei, nos monumentos erguidos aqui ou alli, á memoria de um artista querido ou de uma gloria nacional, o sello, a marca, pelos quaes uma arte revela as intimas fibras de que é feita.
Vi corpos de mulher verdadeiramente encantadores! O marmore, branco de mais, tinha a fluidez da carne tenra sob a qual o sangue, púrpura viva, circúla rico e livre, mas pareceu-me que a preoccupação da
expressão
dominava absolutamente os artistas e que elles tinham quasi todos perdido o segredo em virtude do qual um corpo humano, masculino ou feminino, interessa por si só, pela harmonia das suas proporções, pela liberdade com que jogam os seus musculos, pelo rythmo mysterioso de cada uma das suas linhas.
E voltei d'essa peregrinação artistica sempre mais convencida, de que a esculptura é talvez a mais bella das artes, mas a que está em menos harmonia intima com o nosso ideal da vida!
Que temos nós feito em um longo esforço de dezenove seculos, apenas interrompido pelo movimento artificial, erudito e artistico, mas não popular da Renascença?
Temos contrariado pertinazmente a acção da Natureza sobre os nossos gostos, instinctos e paixões. O que é o christianismo na sua essencia philosophica e na sua influencia social? Uma reacção violenta e permanente contra essa noção pagã da existencia que fazia d'ella uma festa perenne e magnifica; que fazia do corpo humano alguma cousa de sagrado e de inviolavel, que tudo devia tender a satisfazer e a servir; que fazia dos instinctos naturalistas da nossa especie a lei suprema a que céo e terra se subordinassem, pois que os deuses para serem amados deviam ter e tinham as paixões que hoje fazem os homens criminosos.
O animal humano era realmente então o rei da creação, mas nenhuma das suas forças enfraquecera ou diminuira, nenhuma das suas energias fôra mutilada, nenhum dos seus instinctos domados, e elle movia-se livre, feliz, triumphante e bello, em uma atmosphera de apotheose, que nenhuma sombra vinha sinistramente obumbrar.
A antiguidade grega não é uma orgia, porque a orgia precisa de ter por fundo a consciencia do peccado, e a Grecia em tudo que fez de peccaminoso e de immoral aos nossos olhos, não violou nenhuma lei divina, não foi de encontro a nenhum preceito dogmatico; pelo contrario, obedecendo ao seu instincto, obedeceu á sua religião.
D'esta harmonia entre a lei moral, que então não existia senão rudimentar, e a realidade physica, vem a sua immensa felicidade e o encanto incomparavel da sua civilisação.
Para o christianismo, pelo contrario, o corpo é o involucro, amaldiçoado as mais das vezes, de paixões condemnaveis, de instinctos que é necessario a todo o custo dominar, subjugar, vencer.
Não é impunemente que a especie humana tem vivido acurvada durante longos seculos a este jugo incomportavel.
Resente-se d'elles até a revolta dos atheus.
Por isso a nossa concepção da belleza physica, partindo de outras fontes mais profundas e mais turvas, não podia ter nunca a incomparavel claridade que tem o ideal grego. Os esculptores, que conservam na sua alma o cunho indelevel que alli tem imprimido a civilisação christã, á belleza do corpo humano prendem fatalmente considerações de ordem complexa que não influenciaram a estatuaria antiga.
As mulheres teem a attitude languida de peccadoras nuas, a carne, que o marmore quer fingir, e que tem d'ella ás vezes a flexibilidade, a macieza, a vibratil poesia, tem tambem palpitações e solicitações voluptuosas que a grave e simples belleza nunca deve suggerir aos que a contemplam e que não suggeria aos contemporaneos de Phidias!
Isto não quer dizer que desde a antiguidade a esculptura seja uma arte morta. E seria realmente sacrilego que tal avançasse, quem viu curvada, em religioso assombro, a reproducção fiel d'essa
Noite
de Miguel Angelo, de uma tristeza tão tragica e sublime, e o grandioso
Moysés
de biblica magestade incomparavel, e o
Penseroso
, e o
San Jorge
do Donatello, cuja nobre attitude altiva faz passar um calafrio de admiração pelos nervos ainda mais resistentes.
Mas quer dizer que a estatuaria é hoje uma arte destinada a satisfazer, não a alma collectiva das multidões, mas o espirito culto dos
dilettanti
e dos artistas; uma arte em que o genio individual póde manifestar-se sublimemente e lá está a
Porta de Bronze
que Rodin anda esculpindo que o diga, e lá estão os tumulos de Barrias, e lá está o baixo relevo de Rude, e lá estão as innumeras estatuas, os innumeros monumentos que enchem as praças e os museus affirmando que a França d'este seculo possue uma intensa vitalidade artistica que a honra a deve encher de justo orgulho. O proprio Falguière, um pouco amaneirado como é, e dando ao marmore palpitações sensuaes e lubrica languidez, lá tem no monumento erguido na
Escola das Bellas-Artes
a Henri Regnault uma figura de mulher deliciosa e viva, que faz estremecer de goso o verdadeiro artista, isto para não fallarmos na sua formosa Diana por quem consta que morreu de amor um pobre hysterico, dos muitos que andam enchendo este triste mundo com o espectaculo das suas perversões morbidas!
A arte moderna, a que inspira a todas as almas de hoje o mesmo spasmo de agonisante prazer, é a musica. Essa sim, que é para nós o que a estatuaria pura, augusta e simples foi para os athenienses, o que a architectura gothica foi para as torturadas almas idealistas da idade media, o que a pintura foi para os renascidos pagãos da Renascença italiana, ébrios de côr, de luz, de vida. Essa sim, que é de nós todos, e que nos faz vibrar, chorar, soffrer, e nos consola e nos tortura, e nos arranca a nós mesmos e nos leva ao Inferno e ao Céo.
VI
Visto que no outro capitulo fallei, não na inferioridade o que seria um mal escolhido termo, mas na differença que distingue a estatuaria moderna da estatuaria antiga, vou dizer alguma cousa a respeito de um dos artistas mais palpitantemente
modernos
, mais caracteristicamente diversos dos antigos que hoje possue a França e a quem de passagem me referi nos meus anteriores artigos.
Este artista é Rodin. Os seus principios foram rudes e difficilimos, como o de quasi todos os verdadeiros artistas, quer dizer d'aquelles que trazem comsigo um temperamento tão accentuadamente independente e tão intransigentemente pessoal, que desnorteia todas as rotinas e revoluciona todas as estheticas estabelecidas e todas as escolas triumphantes.
Hoje Rodin é, elle proprio, um triumphador.
Acceitam-lhe as suas audacias, proclamam-lhe a altiva independencia artistica, chamam-lhe um dos primeiros, senão o primeiro esculptor do seculo.
Nem sempre comtudo succedeu assim.
Quando elle primeiro apresentou no
Salon
a sua figura denominada «L'áge d'airain», que hoje, comprada pelo Estado, se admira no Jardim do Luxemburgo, a primeira impressão do Jury, diante da escrupulosa exactidão de algumas partes d'esse corpo energico, foi que o estatuario o tinha modelado sobre um corpo vivo e real.
Como se um tal excesso realista e anti-esthetico não fosse a condemnação de um artista e pudesse produzir outra cousa a não ser uma obra morta logo á nascença.
Foi em 1877 que a figura da «Idade de bronze» foi mandada ao
Salon
. Em 1881 Rodin expunha o «S. João de bronze», «um anachoreta magro e robusto,
de musculatura
devastada e solida, erguida sobre pés que a marcha endureceu, torso nodoso, habituado a todas as intemperies, com um gesto de prégador obstinado, que levanta a face illuminada e aberta dos mysticos e dos colericos.»
Até 1885 Rodin, que ao pé do «S. João» expuzera tambem a «Creação do homem», apresenta na grande nave do Palacio da Industria os bustos expressivos e magistraes de Jean Paul Laurens, de Carrier-Belleuse, de Victor Hugo, de Dalou, de Antonin Proust.
No emtanto o acontecimento magno que até o presente domina a carreira artistica de Rodin é a concepção e a execução da «Porta», destinada ao «Museu das artes decorativas», á qual me referi já n'estas mesmas notas.
Fiz, acompanhada do meu amavel
cicerone
o trajecto longo que leva ao «atelier» de Rodin.
Caminhámos pela rua da
Universidade
, atravez dos longos
boulevards
e das largas avenidas que se entrecruzam ou correm parallelamente nas proximidades dos Invalidos.
É uma rua aristocratica e socegada; tem grandes palacetes e tem velhas arvores.
Outras vezes
surprehendem-nos
entre esses vestigios de antigas grandezas, pequenas casas graciosas com jardinsinhos á ingleza cuidados e cheios de flores.
No fim, perto da odiosa torre Eiffel, escandalo de mau gosto, americanismo revoltante erguido em plena Athenas moderna,―a physionomia d'esta rua placida e tranquilla modifica-se bastante.
Grandes muralhas nuas, grandes tectos envidraçados, mais altos do que as muralhas, annunciam ao observador que entra n'um bairro de esculptores e pintores.
Entrámos no n.º 182.
Transposta a grande porta, que lembra o portão de uma das nossas quintas, achámo-nos dentro de um cerrado bastante vasto, em que o chão é musgoso e esverdinhado, em que ha recantos de herva alta e viçosa, e por sobre os muros do qual, verdes ramarias de arvores espreitam curiosamente...
A dois passos do vertiginoso movimento de Paris respira-se aqui uma paz profunda, uma quasi solidão melancolica e doce.
Aqui e alli, enormissimos blocos de marmore de fórmas diversissimas, de côr frigida e branca, de arestas que brilham como aço ou como vidro ao sol de abril, de veias azuladas em que parece gyrar um mysterioso sangue...
Dormem na severa prisão cyclopica d'esses blocos brutaes corpos airosos, leves, esbeltos de nymphas florentinas, bustos delicados de Eva adolescente, divinas nudezas de que esses marmores são a primeira fórma rude, fórmas delicadas em que o genio do artista accenderá uma chispa mysteriosa de vida immortal.
Que deliciosas figuras de mulher um cinzel magistral arrancará d'essa massa dura e informe!
Como elle saberá flexibilisal-a em membros de uma graça serpentina, arredondal-a em braços que se abrem em uma curva deliciosa e suggestiva, derramar, sobre niveas espaduas nuas, a vaga fluida e revolta de uma cabelladura crespa e magnifica, entreabrir em um sorriso enygmatico finos labios femenis, allumiar de ignota chamma o globo cavado de uns olhos, desabrochar em molles curvas a flôr de um seio virginal...
Todas estas visões de um mundo increado nos são suggeridas pela vista d'esse campo cheio de pedras enormes, que á tarde, na luz rosea e violeta do crepusculo, parece―disse-nos alguem―uma charneca semeada de gigantescos tumulos...
Sobre esse armazem de pedra ao ar livre abrem as portas baixas dos «ateliers» de esculptores que alli vieram buscar a commodidade e a solidão. Um d'elles é o atelier de Rodin, que eu ia visitar.
Infelizmente, foi trahida a minha anciosa espectativa. O mestre não estava, e o discipulo, que trabalha com elle,―um rapaz do Norte, de immensa distincção de aspecto,―nem sequer pôde mostrar-nos a esplendida
Porta
, que estava no compartimento fechado contiguo áquelle em que nós entrámos, para admirar alguns grupos de marmore, em que a poderosa
griffe
do grande esculptor se imprimira profundamente.
O talento de Rodin é tão pessoal, é tão inconfundivel a sua maneira, que, depois de se ter visto um corpo humano modelado por elle, não tornamos a confundir este poderoso manejador do cinzel com nenhum dos seus contemporaneos celebres.
Discipulo de Barye e de Carrier-Belleuse, a originalidade de Rodin destaca, comtudo, em uma energia indominavel.
E original é ainda o assumpto que elle escolheu para essa
Porta
monumental, apesar de arrancado á Divina Comedia Dantesca. É uma transformação da idéa do poeta, não é uma copia do seu pensamento, nem um reflexo exacto da terrivel visão florentina.
Transcrevo de um critico eminente que fez a analyse da obra do esculptor a descripção d'essa obra soberba, que eu tanto quizera ter visto.
Mas, antes d'isso, o retrato do esculptor tal como elle apparece, envolto no prestigio de uma sympathia merecida, aos seus admiradores que se contam por milhares.
Rodin é baixo, atarracado e placido de aspecto.
A barba loura cahe-lhe em ondas fartas por sobre o peito, enquadrando um rosto friamente espiritual, um d'estes rostos de homem que valem principalmente pela luz interior que os illumina, e que ora traduz a serenidade silenciosa do trabalhador satisfeito com a sua obra, ora a distracção absorvente do artista em lucta com as difficuldades ingentes da execução manual, ora a preoccupação dolorosa do investigador insaciavel em busca do novo e do perfeito. A fronte de mystico, um pouco ogival na fórma, é vasta bastante para conter um cerebro potente de pensador e de poeta.
O olhar e a voz estão em harmonia absoluta; olhar agudo, brilhante, que concentra em si a luz; voz doce, intima, penetrante, que se insinua, e onde um toque de causticidade põe não sei que estranho realce...
Tal o artista de tenaz vontade, a quem a estatuaria moderna, complicada e symbolica, revela os seus segredos mais subtis.
Como typo representativo da arte moderna, não o ha mais culto, mais philosophico, mais apto para entender tudo e tudo realisar.
E porque elle é assim, absolutamente incompativel com o simples ideal grego, é que procurou no grande poeta da Idade Média o assumpto da sua obra definitiva e magistral, obra de metaphysico e de observador, ao mesmo tempo que é obra de artista; representação tragica, complexa e soberbamente executada, da Natureza e da Vida, em alguns dos seus aspectos mais inquietadores.
VII
Tem seis metros de altura a famosa
Porta
. As estatuetas do alto, alguns grupos dos paineis, e os baixos relevos inferiores estão completos ou quasi completos, mas ha pela vasta officina, espalhadas no chão, nos sofás, nas cadeiras, em
ètagères
, estatuetas de todas as dimensões, em todas as posturas incoherentes, convulsas; de supplica, ou desespero, de agonia ou de dôr, dando a impressão de um campo de batalha em que os combatentes se conservassem todos vivos, ou de um cemiterio que houvesse resuscitado inteiro, em virtude de qualquer galvanismo prodigioso...
O escriptor a que me estou referindo considera esta multidão de estatuas um agrupamento humano tão significativo, tão eloquente, tão expressivo em cada uma das suas mil attitudes, que só o apreciará quem o estudar individuo por individuo, como se folheia um livro pagina por pagina, como se lê uma partitura nota por nota, como se analysa um corpo fibra por fibra...
É a
Porta do Inferno
, quer dizer a agglomeração n'um drama cheio de movimento e de vida dos Instinctos, das Fatalidades, das Paixões inclementes que no homem vivem intensamente, dominando-lhe a vontade, vencendo-lhe a razão, subjugando-lhe as resistencias, dobrando-o sob a sua acção irreductivel, fazendo d'elle o instrumento inconsciente de uma força da natureza que a sua intelligencia não comprehende, e que a sua virtude não submette...
Sob o cinzel d'este artista genuinamente, apaixonadamente, sentidamente
moderno
que é Rodin, o poema do vate gibelino não conservou a côr local, nem tão pouco o colorido catholico que o especialisa.
O esculptor despiu o seu symbolo de toda a significação italiana e medievica, e sómente aproveitou a moldura que elle lhe prestava para exprimir dentro d'ella os aspectos humanos e universaes, que o tempo não transforma e que o meio não pode alterar.
A
Porta
ainda está por concluir; sómente o enquadramento do poema esculpido se póde julgar executado e completo.
As divisões principaes, todavia, já podem ser imaginadas.
Começando pela parte inferior da
Porta
vê se que os baixos-relevos por sobre os quaes se vae erguer a composição principal, têem nos paineis centraes mascaras inolvidaveis, contrahidas por todas as expressões da Eterna Dôr.
Corre em doida grinalda viva, em roda d'essas physionomias atormentadas, uma dança vertiginosa de mulheres, de satyros e de centauros.
Pelos dois humbraes da Porta, sobe uma
theoria
de figuras apertadas no estreito espaço, alongadas, fluidas, em alto relevo parcial.
São as doces apaixonadas, as criminosas felizes da paixão illicita, os amantes que a mesma angustia entrelaça, e as velhas, que já perderam o que tinham de humano, e as creanças inconscientes, nascidas de pouco tempo e já marcadas pela garra adunca da Vida, tentando em vão prescrutar com os seus olhinhos cegos o limbo incolor onde os membros rachiticos se lhes agitam convulsamente.
No alto, sobre o frontão ha tres homens que são a representação viva do distico dantesco:
Lasciate ogni speranza
. Inclinam-se uns sobre os outros na attitude da desolação inconsolada. Apontam com os braços extendidos para um ponto ignoto, a região do irreparavel, do horrendamente irreparavel.
Por debaixo d'elles á frente das multidões movediças, que constituem o primeiro circulo do inferno, um poeta nú, sem nenhum dos distinctivos que marcam uma época ou uma nacionalidade, medita, mas em uma postura de repouso.
Os membros fortes são feitos para as longas caminhadas e para as luctas asperrimas,
o rosto
inquieto e intrepido, que se crispa na obsessão de uma idéa fixa, reflecte e repercuta a piedade, a indignação, a tristeza, todas as sensações que excitam o pensador até ao enthusiasmo, e o commovem até á lamentação dolorida e tragica.
Aos pés d'elle, sob o seu triste olhar meditativo passa em turbilhão vertiginoso, cahe no espaço vasio, ou rasteja dolorosamente a humanidade inteira, na sua teima feroz de viver, de viver atravez da lucta dilacerante, de viver despedaçada, torturada, sangrenta, com espasmos violentos de gozo que fazem soffrer mais do que as dôres, com agonias d'alma que lembram arroubamentos de extase!..
Extraordinaria a concepção do Mestre! Dizem que esses esboços, esses estudos, essas realisações plasticas bastam para provar a tenacidade de trabalho do obreiro maravilhoso, a actividade genial de um creador de seres vivos!
Cada figura isolada, cada grupo freneticamente enlaçado, cada representação de uma das mil paixões que cingem nos seus tentaculos de polvo o corpo fragil e a alma dolorida da pobre humanidade, affirma victoriosamente não só a destreza magistral do estatuario, como tambem a ardente visão do poeta e a comprehensão soberba do pensador.
Ha entre centenas de outros, cuja descripção acabo de ler enlevada, com pena inconsolavel de os não ter chegado a vêr com os meus proprios olhos, um que bastaria, segundo a mais exigente critica assegura, para confirmar a grandeza de concepção, a força tranquilla e a doçura melancholica d'este grande artista, que em fórmas asperas, atormentadas, sem a molleza amaneirada de que hoje a estatuaria reveste o corpo humano,―soube encerrar e traduzir o infinito das tormentas moraes e a variedade horrorisante das dôres physicas.
Esse grupo é o de
Francesca e Paolo
, ou antes, tão supprimidas estão todas as condições do tempo e do logar, tanto escrupulo houve da parte do artista em conservar os caracteres geraes e puramente humanos, este grupo é o do amante e da amante, quer dizer do Amor.
Do Amor, não como a Grecia o pintou nos seus mythos risonhos, mas do Amor ardente, apaixonado, cruciante e doloroso, cruel e divino, prodigo em extasis e em torturas, em espasmos e em lagrimas, tal como a morbida imaginação de hoje o concebeu e creou!...
O homem é alto e forte, esbelto e flexivel. A mulher, em pleno desabrochar da puberdade, está sentada com tal ligeireza e tal meiguice sobre o seu joelho esquerdo, que parece pesar apenas o que pesaria uma ave.
A mesma doçura de contacto é perceptivel aos sentidos no gesto com que elle, fazendo do braço um collar quente e caricioso, a prende a si, emquanto que a outra mão lhe toca no corpo com delicada ternura... Essa mão forte e musculosa, feita para se imprimir pesadamente nas cousas, tem a leveza divina do contacto de uma flôr.
O abandono da amante é completo. Enlaça-o como uma liana, enrola-se n'elle com um carinho em que ha a gratidão do amor feliz e a avidez insaciavel de caricias; e com a mão que lhe fica livre d'este abraço apaixonado toca femenilmente nos cabellos com um geito feito de timidez e de graça pueril.
A cabeça do homem inclina-se, a cabecinha da mulher ergue-se para elle e as duas boccas encontram-se em um beijo que é como que a união mystica de dois seres!
A extraordinaria magia d'esse beijo consiste n'isto: é um beijo visivel! Visivel na impressão violenta que contorce em uma attitude de sedenta adoração o corpo do homem; visivel no arroubamento da mulher todo ardor e todo graça!
É triste e deliciosa essa representação sublime e symbolica do amor humano. Envolve-a como que o nimbo da tristeza que envolve aos nossos olhos tudo que é bello, intenso de vida e condemnado á morte!...
Como vêm, a inspiração de Rodin participa do que mais agudo tem a observação da vida real, da vida verdadeira em todas as suas manifestações e fórmas physicas, e de tudo que mais alto e subtil tem a poesia das cousas e que d'ellas se destaca como um perfume inebriante, capitoso e perturbador!
O que elle principalmente traduz é o amor nas suas infinitas modalidades tragicas ou divinamente bellas...
O amor dos nervos, o amor da carne e o amor da alma entrelaçados e produzindo esse mixto doloroso, que embriaga como um filtro, que corróe como um veneno, que contrahe como uma convulsão, que entontece os sentidos e dá ao coração as revelações da infinita Dôr!
D'entre os criminosos de Dante, elle escolheu para os modelar pela sua mão genial de grande artista pensador, os criminosos que o amor subverteu no abysmo infernal.
Elles exprimem o cançasso devastador da saciedade que já nada espera; o phrenezi do extase que nada satisfaz; a ternura desbordante que a morte ha de breve estancar; as fadigas as aspirações, os sonhos morbidos, as angustias e as melancholias que essa paixão entre todas omnipotente inflinge aos seus condemnados escravos.
O amor que Schopenhauer descreve como a astucia suprema da Natureza que se recusa a morrer, e que a maior parte das vezes não passa de um arrebatamento ephemero, de uma illusão rapida e momentanea; o amor que é a impossivel aspiração que leva dois seres a quererem formar essa Unidade mysteriosa que seria o supremo triumpho da Vida sobre a Dôr,―aspiração que remata no tragico desengano e na fallencia absoluta do Ideal sonhado, pois que nunca uma alma consegue penetrar absolutamente outra alma, nunca dois entes estranhos conseguem ser apenas um
ser unico
, e não ha agonia mais tragica do que esse luctar angustioso para alcançar um impossivel bem,―o amor tal como á triste lucidez dos nossos dias elle apparece, doloroso, violento e cheio de ardentes lagrimas: eis a inspiração, senão unica, principal do grande traductor plastico da sombria epopéa dantesca!
Como é triste, como representa bem o
Terror
sentido perante as duras revelações da Vida, a sua Eva admiravel que, levantando os dois braços em um gesto de espavorida angustia, e como que esmagando com elles os seios tumidos da humanidade futura, tapa com as mãos entrelaçadas os olhos que tanta miseria têm de ver ainda na terra...
É triste, soberba e bella, rica sobretudo de maravilhosas interpretações a concepção que Rodin fórma da estatuaria moderna. E por elle ser, d'entre os esculptores modernos, o que mais frisantemente e voluntariamente se afasta do ideal da Antiguidade, é que eu, em face da Venus de Milo radiosa, tranquilla, serena e pura, quiz levantar deante dos olhos do leitor um esboço ao menos rude e tosco embora, d'essa tragica
Porta do Inferno
, pela qual o esculptor nos faz penetrar na gehenna das loucas paixões insaciadas, que erguem na sombra o seu brado ululante de intraduzivel dôr...
VIII
Quando a gente de longe evoca a grande cidade do luxo, da vida intelligente, da industria genial, pensa em tudo menos na belleza ideal das suas arvores. A mim, vejam que estranha cousa!―foi isso que positivamente me deslumbrou.
O arvoredo em Paris, nos arredores de Paris, nos jardins, nos parques, nos bosques de Paris, é verdadeiramente delicioso e de um encanto incomparavel e unico.
N'aquella fornalha tudo parece possivel menos o permanente idyllio que as arvores representam, pois nem Cintra, essa orgia de verdura, me consolou tanto a alma a este respeito como Paris. Vê-se que o culto da arvore, a paixão da Natureza, vive em um canto do coração d'esse pagão extra-civilisado, que se chama o parisiense. E depois será realmente extra-civilisado como nós julgamos o parisiense genuino? Não haverá n'essa immensa cidade cosmopolita, a par de uma minoria pequena de artistas de talento, uma incontestavel multidão de almas ingenuas que representam de boa fé toda a especie de comedia, desde o scepticismo
à outrance
, até ao chauvinismo á Boulanger? Será verdade o que dizem d'elle os que o pintaram com uma amargura tão acre, F. Flaubert e Balzac, por exemplo?
Como quer que seja, sceptico ou sentimental, o parisiense adora as arvores, as flores, a natureza em todo o seu idyllico e sereno encanto.
Um passeio ao domingo, em Auteuil, em Saint Cloud, em Neuilly, nas avenidas do Bois, bastaria para nos esclarecer a tal respeito. É que tambem alli as arvores são incomparaveis. Ha alamedas longas e deliciosas, em que o arvoredo de um verde um pouco ruço se recorta no azul levemente grisalho do céo! Ha longe verduras em Auteuil, por exemplo, que dão vontade de chorar, que penetram a alma de uma saudade doce e amarga a um tempo, a saudade que Adão teve de certo do Paraiso, de onde foi expulso! Os horisontes desdobram-se tão longos, tão calmos! Quem dirá que alli, a dois passos, se desenrola a multipla fita dos
boulevards
, onde a febre da vida é tão tentadora e tão intensa! Auteuil parece ser o fim do mundo, tão sereno e vagamente adormecido é o seu aspecto, tão ineffavel bucolismo se exhala da sua tranquilla paizagem. Para cada lado que lancemos os olhos, se abrem larguissimas avenidas ao lado de
arvoredos,
com uns fundos longiquos, em que ha toda a especie de cambiantes.
O ceu de um azul muito lavado, em que parece ter-se extendido um véu diaphano de vapor, é bem differente do meu céu portuguez de uma côr tão quente, ás vezes deslumbradora e excessiva! A agua parece crystallina, ou sombreada de verde, de uma transparencia deliciosa ou de uma côr glauca, atravéz das rendas do arvoredo, movediças e multicôres.
Abril tudo em flor, atira em flocos a sua neve perfumada aos troncos ha pouco despidos; os castanheiros agitam os seus pennachos brancos; os lilazes saturam a atmosphera do seu cheiro estonteador; ha uma expansão risonha n'este paraiso artificial creado pelo homem, que se não encontra infelizmente nos nossos paizes do Sul, onde o solo é tão fecundo, onde a Natureza um pouco acariciada e auxiliada se desentranharia em maravilhas de producção!
A nós basta-nos o sol ardente e a vida brutal de que as cousas palpitam no nosso verão africano; não sabemos pelo trabalho incessante, intelligente e methodico crear estes paraisos, onde repousa depois ineffavelmente a frenetica actividade do homem do Norte.
A mim, filha de um paiz accidentado, esta paizagem plena, em que as alamedas se desdobram lentas, magestosas
à perte de vue
, faz-me uma impressão de deliciosa calmaria. Não me canso de olhar para as arvores, as formosas arvores, enormes, colossaes, de um verde tenro, de um verde ruço, de um verde
mauve
, de todas as gradações imaginaveis do verde, e em que a nota do verde esmeralda, mais rara, apparece de vez em quando como uma estridula fanfarra de côr.
Do alto da torre de Eiffel, Paris apparece todo entrecortado de manchas negras de arvoredo―«Não ha cidade com mais arvores», digo eu verdadeiramente abysmada ao meu companheiro e
cicerone
que me responde:―«Londres ainda tem mais!»
Só nós portuguezes, com uma terra maravilhosa, um céu esplendido, um clima em que a flora de todas as zonas egualmente se domestica, somos incapazes pela nossa inercia proverbial de ter esta abundancia adoravel de arvoredo, de verdura massiça em torno de nós!
As alamedas de Saint Cloud, com os cimos verdes entrelaçados, formando a abobada sobre a cabeça dos transeuntes, pareceriam um bocadinho de floresta selvagem, se não fosse a invasão da burguezia e do povo vestido de gala que ao domingo positivamente as inunda e banalisa, tirando ao sonhador que alli foi acariciar a sua chimera intima todo o gozo que elle podia beber na solidão.
Quando de Saint Cloud, por uma tarde serena e dôce e luminosa de Abril, se regressa a Paris, como eu regressei, pelo caminho ao longo do Sena, entre o renque fino e tenro dos choupos que se debruçam nas aguas do rio, e os
chalets
e os palacetes que espreitam do outro lado da estrada do meio dos jardins coalhados de lilazes e de rosaes em flôr, não ha coração por mais secco e positivo que resista ao encanto embalador d'este passeio.
Surprehende-se uma pessoa a ser moça outra vez, moça e romanesca e a arranjar na phantasia uma existencia que quereria ter vivido alli, n'aquella paz tão proxima da infinda agitação, n'aquelle ermo tão chegado ao borburinho de uma vida em festa.
Deve ser bom viver e sonhar alli, perto do mundo e tão longe d'elle, a minutos de distancia do
boulevard
da Yvette Guilbert, a deusa da
chansonnette
moderna, da
Comedie
e da sua classica e correcta interpretação da arte, do
Chat Noir
e da sua phantasia revoltada, e ao mesmo tempo tão longe de tudo isto, no silencio do arvoredo em flôr, na serenidade pantheista da dormente e calma Natureza, no seio inebriante dos lilazes e das rosas que estillam voluptuosa lethargia de cada petala da sua flôr avelludada e tenra...
A vida para certos organismos de eleição só se comprehende n'estes dois pólos contrarios. Ou tudo que a civilisação tem de mais quintessencial e de mais extremo, ou tudo que a natureza tem de mais calmo e de mais
permanente
.
Juntar as duas cousas seria para o verdadadeiro artista o ideal, mas que poucos são os que as sabem ou querem reunir!...
Pensava eu estas cousas vagas, ao passar deante de
Bagatelle
, a casa campestre e o lindissimo parque, que surdiram com tão vertiginosa rapidez de uma aposta entre a infeliz e então leviana Maria Antonietta e o Conde de Artois, e que hoje, depois de varias vicissitudes―as casas e os homens passam egualmente por ellas―pertence aos herdeiros do celebre philanthropo William Wallace. A lembrança d'esse tempo, d'essa côrte, d'essa mulher, cujo nome se fez prestigioso no martyrio, levaram a minha imaginação para longe, para bem longe no passado.
Fazia justamente cem annos que tanto luxo tanto prestigio, tanta gloria tradicional se tinham afogado tragicamente em ondas de sangue.
Noventa e tres
, o anno fatal, surgia sangrento e tragico ante os meus olhos, produzindo em mim aquelle espanto e aquella fascinação que eu sempre sinto quando voluntaria ou involuntariamente o evoco.
Tambem ella, a pobre rainha martyr, quiz experimentar essa suprema sensação da vida feita de contrastes fortes; tambem ella quiz, ao lado das pompas de Versailles, a deliciosa pastoral do Trianon; tambem ella, despindo os pesados brocados e as sedas tecidas com ouro da côrte, quiz enfiar, ligeira e garrida, o vestidinho de cassa, com o lenço castamente cruzado sobre os seios opulentos; a sua imaginação romanesca de leitora de Rousseau, de admiradora de Gluck, tambem se soube comprazer n'esta delicia das experiencias contrarias que é o sol do
dilettantismo
, mas nem porque viveu intensamente a vida e gozou tudo que ella tem de melhor, desde a amisade até á arte, lhe foi menos pesada a sua cruz, nem menos cruel a sua dolorosa via desde Versailles até á Guilhotina.
O ambicioso coração humano deseja tudo, a tudo aspira e tudo quer!
E para que, no fim de contas? lá o diz Pascal na sua phrase incisiva e sombria: «o remate é sempre identico, qualquer que tenha sido a comedia ou a tragedia que o antecedeu».
E aqui está como a vista do arvoredo de Bagatelle me levou para longe do bucolismo, encontrado, onde meu Deus?... a dois passos da fornalha de Paris!...
A mais completa visão de arte e de magnificencia que ainda os meus olhos tiveram, de que elles guardarão para sempre o reflexo illuminado, foi em Fontainebleau que a recebi.
Fontainebleau está para Versailles como uma joia de Benevenuto está para um vaso de macissa prata imperfeitamente burilado. Não ha comparação entre os dois, e para um artista não ha hesitação na escolha.
Como paizagem, aquelle sitio, aquella poetica e enorme floresta consagrada por tantas recordações artisticas, litterarias e historicas, é tudo que póde haver de mais estranhamente bello.
Tem a poesia selvagem e a graça outoniça, e saudosa. Parece um paiz devastado onde se deram lutas de titans, por onde passou o sopro de uma tempestade cyclopica, onde a natureza estrebuxa em cataclysmos tremendos, e faz ao mesmo tempo o effeito calmante e doce de um ninho de verdura que abriga a alma dolente, e a envolve no filtro subtil das suas essencias vegetaes. O outomno na floresta de Fontainebleau, quando as arvores se revestem de toda a riqueza infinita de colorido d'esse periodo divino, quando a pompa victoriosa das fortes verduras acres de seiva se degrada e decompõe em tons expirantes de um encanto mysterioso, em como que gangrenas vegetaes que desde o purpureo sangrento e o amarello alaranjado vão até ao côr de lilaz e ao côr de malva,―o outomno alli deve ser um poema de voluptuosa melancolia, d'estes que só sabem saborear os que se deleitam na tristeza como em um nectar sagrado, defezo ás profanidades do vulgo...
Não admira que n'essa floresta tenham vindo meditar e soffrer tantas grandes almas desenganadas da illusão multiforme da vida.
Conta Michelet, que perguntando a uma mulher intelligente para onde ella quereria fugir se uma grande dôr lhe désse a sêde, a necessidade de um asylo no seio da Natureza, ella lhe respondera:―Para Fontainebleau.
―E se tivesse uma alegria enorme, uma alegria que lhe dilatasse a alma até ao infinito, onde mais lhe agradaria estar:―Em Fontainebleau!
É que realmente aquella paizagem, como diria Amiel, representa todos os
estados da alma
.
Por isso S. Luiz nas suas fundas dôres, quando as idéas e os sentimentos do seu tempo agonisavam, dando-lhe um espectaculo que lhe pungia atrozmente o coração, era alli na floresta sombria que ia rezar pedindo a Deus conforto e paz.
Luiz XIV vencido e velho, corroido por esse tédio dos Cesares, a quem nada resistiu―que é de certo o estado de espirito que mais deve approximar-se da infinita desolação de Satanaz, foge de Versailles, das suas pompas, dos triumphos que os seus pintores lhe coloriam e que então não eram mais que ironias diabolicas do passado orgulho, e vem procurar, sob as arvores colossaes da floresta amiga, o repouso, o silencio, o adormecimento ás
suas
lancinantes dôres de rei... Francisco I, desenganado d'esse sonho da Italia, que durante os seculos XV e XVI perseguiu os reis da
França
, vem alli construir uma Italia franceza que o console de haver perdido a outra, a que Miguel Angelo e Raphael, Bramante e Donatello, Leonardo de Vinci e o Ticiano tinham feito tão fascinadora e tão grande!...
É em Fontainebleau que Napoleão se despede do seu sonho homerico e sublime, d'esse sonho de um Imperio Universal, que unificasse o mundo civilisado sob um despota intelligente, e que lhe foi commum com Alexandre, com Cesar, com Carlos Magno e Carlos V, com todos os grandes capitães da historia, tão raros como os grandes poetas.
É alli que essa epopéa magestosa e tremenda se lhe desfaz nas tremulas mãos que assignam a suprema abdicação do poder e da gloria.
Quantas recordações me suggere esse logar fatidico de Fontainebleau, ou seja o palacio de fadas, ou seja a grande floresta sombria e vasta, onde talvez os Celtas, ascendentes dos francezes de hoje, colherão no tronco dos annosos carvalhos o
qui
das evocações druidicas.
E sahindo d'essas espheras da grandeza social para outra, mais ampla talvez, mas menos visivelmente pomposa, é em Fontainebleau, que Georges Sand e Musset dão aquelles ultimos passeios tão tristes, de uma melancolia feita de tanta saudade, quando
elle
já sabe que não podia viver sem
ella nem com ella
, como diz a triste cantiga peninsular quando
ella
começa a perceber, que, Ashaverus femenil do amor, tem de percorrer até ao fim o seu amargo e cru fadario, sem encontrar quem satisfaça a sua sêde do infinito, sem poder parar n'essa caminhada atroz em procura do
impossivel
!
Que fundo de paizagem tão triste para um fim de amor! Onde poderiam elles encontral-o que lhes saturasse a alma de mais tristeza, de mais melancolia, de mais intensa e inexoravel saudade!...
Era alli ainda que Musset voltara mais tarde evocando em soluços immortaes as melhores recordações do seu fatal amor.
Dante pourquoi dis tu qu'il n'est pire misère Qu'un souvenir heureux dans les temps de douleur Quel chagrin t'a dicté cette parole amère
Cette offense au malheur!
En est il donc moins vrai que la lumière existe Et faut-il l'oublier du moment qu'il fait nuit Est ce bien ta grand âme immortellement triste
Est ce tu qui l'as dit?
Non, par ce pur flambeau dont la splendeur m'éclaire Ce blasphème vanté ne vient pas de ton coeur Un souvenir heureux est peut-être sur terre
Plus vrai que le bonheur
.............................................................................................. ..............................................................................................
As estatisticas dirão quantas leguas quadradas tem a floresta; os naturalistas saberão explicar quaes as diversas qualidades da sua flora, e que essencias se distillam das suas varias resinas; eu sei sómente que ella me encantou, como uma das mais bellas cousas que os meus olhos ainda contemplaram. Fui a Barbozin, a aldêa em que Millet e Rousseau pintaram as suas télas melhores, e evoquei alli as figuras da litteratura contemporanea que tem por fundo magestoso―bem mais magestoso do que ellas são grandes!―a floresta divina de Fontainebleau.
A scena capital e magistral da
Sapho
de Daudet é alli que se passa; quando o pobre moço, empolgado pelo polvo terrivel que é para a mocidade uma mulher perdida, tenta despegar-se d'ella, quer fugir-lhe para recomeçar ao longe uma existencia calma e boa―em harmonia com as leis sociaes, protectoras para quem as respeita, inexoraveis e implacaveis para quem as despreza ou para quem as illude―e é vencido irreductivelmente pela piedade que ella lhe inspira, por aquelle bramido de animal, longo, constante, ininterrupto, com que
Sapho
acorda e sobresalta os écos de immensa solidão ao vêr imminente a ruptura de que elle lhe fala, que elle com mil precauções lhe faz prever... Grande quadro e de uma moral acre e dolorosa mas incontestavel, que os moços deviam meditar, se é que os moços meditam, se é que a mocidade é compativel com a previdencia e o calculo.
O parisiense tem a uma hora e meia de caminho de ferro essa grande matta que é uma das maiores da Europa e a maior da França, por isso parte da litteratura contemporanea a tem para theatro das suas scenas de enthusiasmo, de paixão ou de desespero.
Os pintores vão alli procurar os effeitos maravilhosos da luz penetrando na espessura, banhando-a em purpura, recortando em fundo de ouro a renda delicada da sua folhagem, picando de pontos deslumbrantemente luminosos os seus intersticios mais miudos e mais finos; Millet arrancou-lhe em paginas immortaes o segredo da religiosidade infinita que possuem as velhas arvores; Rousseau recortou em pequenas télas retalhos de paizagem em que a alma das cousas palpita mysteriosamente.
A floresta de Fontainebleau educou uma geração de paizagistas, qual d'elles mais penetrado da melancolica poesia da natureza. Que benefica tem sido a sua calma e suggestiva influencia, que saudade eu tenho da luz a que ella me appareceu, luz primaveril, que punha tons de um tenro ineffavel em cada
rebento,
que rejuvenescia os velhos troncos colossaes!
É perto d'alli o lindo Castello de Francisco I, a que é preciso conduzir o leitor. Deixemos, pois, a floresta e penetremos no palacio.
X
Nos seculos XV e XVI todos os principes, todos os poderosos da terra tiveram um distinctivo commum que os caracterisa: o seu amor enthusiasta das maravilhas da arte.
Sabe-se o que foi Lourenço de Medicis, esse Mecenas da litteratura italiana, esse amante apaixonado e prodigo da erudição, da architectura, da pintura, da estatuaria. Esse homem intelligente e sagaz, poeta elle proprio, e apezar de humanista notavel, sacudindo com bastante independencia o jugo do antigo que pesava demais sobre as musas da Italia,―mereceu a gloria suprema de ficar immortal no marmore modelado pela garra de Miguel Angelo.
O
Penseroso
, das estatuas do mestre uma das mais emocionantes, uma das mais mysteriosamente e tragicamente bellas, teve por modelo o grande homem florentino, cujo tumulo havia de adornar mais tarde. Leão X, Julio II e Clemente VII, foram os papas mais doudos pela arte de que reza a historia.
Ludovico o Mouro encheu de bens e de glorias a Leonardo Da Vinci; os chefes da aristocratica Republica veneziana não hesitavam quando se tratava de pagar com prodigalidade louca aos seus soberbos pintores. Mas Francisco I, o rei da França a quem se deve a magica de Fontainebleau, esse não sómente adorava a Arte, mas era amigo apaixonado dos artistas.
Sabe-se o enthusiasmo louco com que elle acolheu na sua côrte o já octogenario Leonardo Da Vinci.
―«Hei de afogar-te em ouro, dizia elle a Benevenuto.―
Faço-te conego
―exclamou deslumbrado para o italiano Rosso no dia em que este, pela primeira vez o fez penetrar n'essa galeria esplendida, ainda hoje chamada de Francisco 1.º―em que o rei desenganado e cançado passou depois quasi todos os ultimos annos da sua accidentada existencia. E a promessa extravagante cumpriu-se tal como se fez. Rosso teve um logar de conego na collegiada da Sainte Chapelle.
O que fizera elle para merecer tão piedosa distincção? Pintára o mais estranho e luminoso carnaval de alegria e de côr, que ainda a imaginação febril de um artista d'aquelle tempo de febre concebera e realizára.
Uma multidão pantagruelica em que ha de tudo: o bello e o horrendo, o delicioso de graça, e o grotesco; figuras virginaes a que talvez serviram de modelo para o pintor, e de encanto ephemero para o rei, as doces raparigas que alli perto ceifavam as tremulas searas, ou iam buscar as amphoras cheias de agua crystallina das rochas, ás fontes de Fontainebleau que Jean Goujon e Benevenuto vão fazer idealmente bellas.
No meio da immensa turba de mulheres e de homens, uma flora e uma fauna inteiramente novas, a flora e a fauna que os navegadores e os conquistadores da peninsula iberica acabavam, no fim das suas aventurosas viagens, de revelar ao velho mundo attonito.
A delicia de Francisco I não teve limites ao entrar n'aquelle recinto encantado em que o mundo da arte lhe desvendava os seus aspectos mais bellos!
Interrogador e curioso como era, cada quadro lhe suggeria uma pergunta e uma investigação nova.
O mundo estranho de que o Rosso pintava algumas das maravilhas ineditas fazia scismar o pagão devoto que Francisco I era, como todas essas crianças grandes da Renascença.―Mas então mentia a Biblia quando contava a creação do homem?
Essas raças, cujo segredo agora se desvendava pela vez primeira, não eram tal, não podiam ser filhas do biblico Adão?
E a terra movia-se em torno do sol? Onde ficavam n'esse caso as palavras de Josué?...
Depois contavam-lhe as magnificencias da Turquia, a magnanimidade de Solimão, as maravilhas da civilisação arabe, tão superior em certos pontos n'aquelle tempo á civilisação christã, e esta idéa de que o turco não era finalmente o ante christo, o inimigo figadal de todo o bem e de todo o bello, produzia um espanto infantil no animo de Francisco I.
Tempo encantador este de que a galeria de Fontainebleau ouviu as conversações curiosas, mixto de tudo que ha mais ingenuo e mais subtil, mais refinado e mais credulo!...
Ao lado do fauno sensual, do satyro coroado, que foi Francisco I,―o qual para contrapor aos seus vicios innumeros teve sómente a vibrante sensibilidade para tudo que é bello;―surge a Margarida das Margaridas, a encantadora, a diserta, a latinista, a intelligente rainha de Navarra. N'aquelle tempo saber latim não é um requinte de pedantismo, é uma exigencia da fina cultura.
Quem não soubesse latim não sabia nada, não tinha conhecimento nem da poesia no que ella tem de mais perfeito e mais bello, nem da Historia no que tem de mais suggestivo e de mais inspirador. Ora Margarida amava os poetas e a poesia, e ajudava seu irmão a fazer a Historia, aconselhando-o, auxiliando-o, inspirando-o, negociando por elle com os diplomatas do tempo.
A sciencia, a erudição, a poesia enchem o espirito de Margarida; quem lhe enche completamente a alma é o irmão, esse irmão grosseiro e sensual, natureza que, a não ser o amor da arte, seria feita do barro mais vil, e que mesmo salvo por esse amor, que é no fim de contas mais uma sensualidade requintada do seu temperamento que uma aspiração espiritualista, reflecte a omnipotencia dos seus instinctos animaes no soberbo, no inolvidavel retrato que d'elle fez Ticiano, o maior retratista do mundo, aquelle que melhor traduz a profunda expressão moral, a mobil physionomia, o caracter pessoal inconfundivel de cada um dos seus modelos...
Esse perfil de fauno sensual, que o Ticiano retratou, domina e absorve o coração delicado e subtil de Margarida.
Por isso eu a evocava agora, na galeria soberba, em que o sol entra a flux, ao lado do rei seu irmão, analysando com elle as bellas pinturas que fazem das paredes um kaleidoscopo tão curioso e illuminado, em que o velho e o novo mundo se confundem, discutindo―com Budé seu bibliothecario, com Duchatel seu leitor, com os dois irmãos du Bellay, os celebres humanistas da Renascença franceza, seus favoritos e commensaes,―um dialogo de Platão que tivesse acabado de lêr em grego, um verso de Virgilio de que ella houvesse ha pouco saboreado o nectar subtil, servido na lingua de ouro do seculo de Augusto; uma apostrophe de Cicero, nas suas Catilinarias, mais abrazada em rhetorica flamma; conversando com Marot, seu poeta e seu servidor, ácerca da medição e do rythmo de um hexametro ou de um hendecassyllabo; ou perguntando a todos elles, curiosamente, avidamente, informações ácerca do novo livro extravagante que um physico e antigo tonsurado chamado Rabelais acabava de dar á estampa em Lyão, contando as mirabolantes e inverosimeis aventuras de Gargantua e Pantagruel, dois gigantes de quem ninguem até alli ouvira falar, e de Panurgio, o maior sacripante que de memoria de homem fôra celebrado em lingua vulgar...
Ao reinado do prisioneiro de Pavia segue-se o do mystico e apaixonado Henrique II. Margarida eclypsa-se na sombra, e á musa dos poetas succede a inspiradora dos artistas ébrios de enthusiasmo...
No céo da Renascença azul e ouro, é Diana quem desponta... A Salamandra, emblema e symbolo do rei que arde continuamente na flamma impura do desejo, sem jámais chegar a consumir-se, é substituida pela inicial de Henrique enlaçada por dois crescentes symbolicos, e esta data assim poeticamente indicada vale para a posteridade muito mais que a mais rigorosa chronologia marcada pelos sabios. Este anagramma amoroso representa um grande amor, um estranho sentimento que participa do mysticismo cavalleiresco e do sortilegio magico, do ideal mais puro e do
envoûtement
mais pavoroso.
Quem é esta esbelta Diana, ligeira, airosa e bella? Não o perguntem á Historia, que essa, implacavel como a verdade, falar-lhes-ha de uma velha furia, sedenta de dinheiro e de vinganças, esmagando os povos, que a maldizem, com o peso das contribuições mais engenhosas, das que tiram o sangue e a pelle á plebe opprimida que se lamenta em vão.
Perguntem-n'o á Arte, a magica divindade que transfigura tudo aquillo em que toca. Responder-lhes-ha a Diana de Jean Goujon, encostada familiarmente ao veado manso e bello que lembra o principe encantado das lendas, ou mais longe ainda, sempre modelada pelo sublime artista, contemplando amorosamente o mesmo bicho symbolico, que approxima da bocca finamente recortada da deusa a sua bocca de animal, como que a pedir o beijo mysterioso que quebre o encanto que o tem encarcerado n'aquella fórma inferior e que o restitua bello e victorioso á antiga fórma humana.
Responde-lhes a Nympha de Benevenuto Cellini, ora entre as féras que caçou e os galgos que as perseguiram, ora estendendo-se voluptuosa junto á frescura das fontes, ora caminhando nua pelos campos, seguida pelo cortejo das nymphas que ella, a Diana immortal, a inspiradora dos eternos amores que não se extinguem, domina inalteravelmente pela altiva elegancia e pelo magestoso porte regio.
De todas estas imagens estranhas, inverosimeis, de corpo longo e flexivel, que parecem copiar na pedra dura a fluidez das aguas correntes, o baloiço ondeante das hervas altas, a voluptuosa flexibilidade das lianas que se enredam e entrelaçam,―de todas estas imagens que a arte prodigalisou aqui, a nossa imaginação compõe uma só figura, um só vulto, uma só imagem que as concretiza a todas.
É a mulher amada e triumphante, a Diana dos encantos invenciveis e inviolados, a que pediu á deusa, sua madrinha o segredo dos filtros que fazem parte do seu culto antigo, para ser eternamente amada, contra o tempo, contra a fortuna, contra tudo...
A arte que a immortalisou no marmore devia-lh'o. Ninguem como ella fez da arte uma auxiliar, uma amiga, uma feiticeira cumplice dos seus encantamentos de mulher. Que importa o que diz a historia de Diana de Poitiers? Quem fala verdade é a Arte. De todas as mil illusões de que a vida se faz e se compõe, só ella é mais intensa do que a realidade, e mais verdadeira do que a verdade!
XI
Uma das excursões feitas por mim com mais prazer é a dos Museus, tanto artisticos como historicos.
Deixo para mais tarde falar no que senti em frente de alguns quadros do Louvre ou do
Museu de Madrid
e vou falar agora da minha visita ao museu Carnavalet. O palacio em que este museu está estabelecido pertenceu a Madame de Sévigné e foi habitado por ella; d'aqui a quantidade de recordações d'esta mulher encantadora, que o povoam e para mim o tornam particularmente interessante.
Ha logo á entrada um busto d'ella que me fez parar enlevada em contemplação de uma das physionomias mais espirituosas e mais sympathicas que o Passado legou aos nossos dias.
O
nez carré
de que ella fala nas suas cartas, e que tornaram celebre os seus contemporaneos referindo-se tantas vezes a elle, lá está, mas sem diminuir, antes accentuando o encanto da sua expressão. Os lindos cabellos penteados ao
nome d'ella
, (porque aquelle penteado de caracoes que enquadra tão graciosamente o rosto feminil ficou sendo chamado
á Sevigné
) dão um caracteristico especial á sua bella cabeça de juvenil matrona adoravel. O bom humor, a graça gauleza sorriem na bocca espirituosa e finamente recortada.
A gente não se espanta, ao ver este lindo busto de mulher, de que o original inspirasse verdadeiras e ardentes paixões, e que até aos sessenta annos houvesse, não quem a requestasse á moda de Ninon ou de Catharina da Russia, mas quem quizesse casar com ella, como quiz o duque de Luynes, que por signal foi repellido.
Para mim, digo francamente, o
Museu Carnavalet
é Madame de Sevigné e não é mais nada. Este museu, extravagante contraste! está cheio de recordações revolucionarias. Lá está uma reducção feita, creio que em pedra, da Bastilha, lá está uma galeria, por signal detestavel, de retratos dos vultos principaes da revolução.
Por debaixo da fileira de retratos em que figuram Mirabeau, Robespierre e Marat, está a cadeira em que expirou Voltaire. A collocação pareceria propositadamente feita, senão fosse antes uma necessidade de symetria, pois que, encostada á mesma parede na outra extremidade da sala, está tambem a cadeira em que expirou Béranger.
Entre Voltaire e os homens da Revolução a affinidade é vizivel para o espirito, mas o pobre Béranger é que não vem aqui ao caso para cousa alguma, de modo que a intenção philosophica que eu á primeira vista attribui aos conservadores do museu ficou prejudicada pela segunda idéa que elles tiveram de collocar a cadeira de Béranger em symetria com a de Voltaire.
Uma conclusão apenas me atrevo a tirar: é que em França quem sahe do vulgar morre
de cadeira
. Incommodissima maneira de dar a alma ao Creador! Ainda bem que nem a Béranger posso aspirar, quanto mais a Voltaire; isto augmenta as minhas probabilidades de morrer deitada na propria cama, unica maneira pela qual me appetece sujeitar-me á sorte commum de todos os mortaes.
Não venho, já se vê, fazer uma descripção miuda do
Museu Carnavalet
. Além de não ter fixado tanta cousa que vi―e que vai desde os troços de ruinas e dos barros romanos achados em diversas excavações recentes ou antigas, desde truncados monumentos, ou fragmentarios tumulos, pertencentes a epocas ainda anteriores ao dominio romano, até a centenas de reliquias da Revolução―não acho que isso seja sufficientemente interessante para o leitor, a quem não posso communicar impressões que não recebi.
Ha, por exemplo, no
Museu
uma collecção enorme de caricaturas da época de Luiz Filippe, feitas, creio, que em barro. São hediondas. Tudo que teve um nome no reinado d'esse rei dos burguezes, burguez elle proprio dos pés até á cabeça, alli está representado sob uma fórma que produz
cauchemar
, á força de irritantemente feia.
Lembro-me por exemplo de uma cousa que me impressionou: uma ordem autographa de Luiz XVI ordenando aos suissos da sua guarda que cessassem o fogo que estavam fazendo contra o povo. Ora, esta ordem―a ultima que elle assignou como rei―encerra nada menos que a sua abdicação e a sentença da sua morte e dos seus.
Acabada a resistencia, o monstro jacobino pôde refocilar-se á vontade no sangue regio. Ninguem mais se levantou deante d'elle para obstar ao direito da sua vingança secular.
Tudo isso que em outro logar e em outra ordem de idéas me produziria a maior impressão, alli apparecia-me inopportuno e deslocado.
Como aquelles objectos friamente classificados me pareciam estranhos ao tempo de febre de que elles são as reliquias, por assim dizer, mumificadas!... É preciso, para que certas recordações do passado nos «empolguem», se apossem ardentemente de nós, que as evoque a imaginação omnipotente e creadora de um Michelet ou de um Carlyle! De outro modo, em vez de nos tornarem mais «vivo» o tempo a que se referem, parece que o recuam indefinidamente nos limbos do passado.
Um «museu» tira a vida aos objectos que encerra; não os conserva.
Assim como o processo de enterramento dos egypcios, creado em odio á morte, concorre para tornar mais saliente a idéa da morte, assim tambem o desejo de conservar certas reliquias parece que lhes diminue a realidade no passado. É possivel que eu exprima muito vagamente uma cousa que sinto sem a saber muito bem traduzir, mas o leitor intelligente, que tem visto muitos museus e tem talvez sentido esta mesma desconsolação, comprehende perfeitamente o que ella significa!
Repito, pois: o encanto do museu Carnavalet tirei-o eu de mim mesma, evocando n'aquellas frias salas que percorri, acompanhada pelo indispensavel guia, as figuras que outr'ora as encheram de animação e vida.
Vi madame de Sevigné e o seu querido tio, o bom abbade de Livry, que tão bem se sahiu da educação da sua querida e intelligente pupilla.
Pareceu-me escutar as finezas hyperbolicas, que á moda do tempo, Ménage e Chapelain, dirigiam cada um por seu lado á amavel e gentil Maria. Ménage resolveu ensinar-lhe italiano e hespanhol, e resolveu, o que é peior, apaixonar-se loucamente por ella. O bom pedante perdeu, já se vê, o tempo e o feitio que não era de amoroso, como egualmente o perdeu um homem que é o perfeito contraste d'elle, o cynico, o duellista, o
donjuanesco
Bussy Rabutin, que, depois de amar Madame de Sevigné, a odiou de morte, e depois de a odiar tornou a querer-lhe muito, encontrando-a sempre de pedra pura os seus transportes, mas capaz de apreciar o que havia de scintillante e caustico no seu espirito, de intrepido no seu valor, de melhor no seu pouco bom caracter. Viuva com vinte e dois annos, e em uma côrte licenciosa, em que ella propria se mostra cheia de estranhas indulgencias para os peccados alheios―tudo passou por ella sem lhe macular de leve a fimbria do seu vestido branco.
Foi admiravelmente virtuosa, sem ser por isso implacavel para as paixões que a cercam, e que fazem d'esse tempo um capitulo do mais accidentado romance.
Amiga extremosa de Fouquet, vê-se em riscos de sahir levemente compromettida do processo do Intendente de finanças, em cujo cofre de galantes segredos se encontram cartas d'ella. No emtanto essas cartas são simples pedidos em favor de um ou de outro protegido da marqueza, e se provam alguma cousa é a bondade, a generosidade do seu coração prompto a acudir e a valer. Se Fouquet guardava preciosamente esses bilhetes formalistas é porque talvez no coração do galante financeiro a formosa physionomia de madame de Sevigné tivesse produzido uma impressão excepcional; mas isso não basta para comprometter uma mulher que as primeiras pessoas da côrte, em influencia e em virtude, protegem ardente e abertamente. Um dia Tonquedec, fidalgo da Bretanha, e o duque de Rohan-Chabot em casa d'ella, e por causa d'ella, armam uma especie de briga que conclue por um encontro no campo, como todas as brigas d'aquelle tempo. Nem por isso a fama de madame Sevigné soffre a mais leve arranhadura. Que culpa tem ella das loucuras e dos extremos que inspira a sua «razoavel» e formosa pessoa!
O conde de Ludre esteve vae não vae a vencer as resistencias mysteriosas d'aquelle coração de mulher que a precoce experiencia da vida endurecêra para o amor.
Mas, aquelle asseio de arminho, aquelle amor das cousas justas, rectas e claras, que é em certas mulheres um preservativo efficaz contra os desfallecimentos da vontade, e o exclusivismo ardente do seu amor materno, salvam-n'a d'essa tentação suprema, como a salvam do prestigioso amor de Turenne, da côrte persistente do principe de Conti, do amor claro ou disfarçado de tantos entre os melhores, entre os mais queridos e os mais felizes em aventuras femininas.
No meio d'esse fogo que accende, a marqueza conserva-se alegre, calma, gostando das anecdotas picarescas bem contadas, prompta a receber uma confidencia escabrosa, comtanto que lh'a façam com espirito e bom humor; indulgente para o amor da sua maior amiga pelo duque de la Rochefoucauld, indulgente para as historias mais ou menos salgadas que de todos os lados lhe vêem aos ouvidos, dotada d'aquella philosophia tolerante que a mulher virtuosa tem como ninguem, porque sabe, como ninguem, o preço da virtude.