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Pelo mundo fóra

Segunda parte (continued 2)

Reading edition

Elle podia ser essa encarnação suprema do genio da critica moderna. Mas os que não têem o mesmo dom feliz de separar a vida da intelligencia da vida dos sentidos? Mas os que vivem a sua philosophia e traduzem em actos as suas theorias?...

Oh! para esses, a doutrina d'esse santo será o mais corrosivo dos venenos; o encanto miraculoso d'aquelle genio ondeante, cujo pessimismo desabrochava na flor de um sorriso e cuja esperança se afundava, mysteriosa e lugubre nymphéa, no pantano glauco de uma negação sombria,―seria a mais desorganisadora e a mais corruptôra das lições!

Mas esquecemos o que houve de triste e de negativo n'essa philosophia, cujas raizes mergulham no complicado e sceptico pensamento germanico!

Nós, as mulheres, amemo-lo pela graça―esse dom feminino, que elle possuiu como ninguem mais, pela linguagem divina, de que elle revestiu as suas idéas, por milhares de trechos verdadeiramente impeccaveis, de uma unctuosidade evangelica, de uma pureza transcendente, de uma poesia ineffavel, com que elle enriqueceu a litteratura universal.

Como havia em Rénan de tudo,―e é este o seu caracteristico mais singular, e é este, em face da estricta logica, o defeito mais reprehensivel da sua intelligencia―podia um admirador consciencioso e delicado extrahir, dos seus livros innumeros, um livro piedoso, especie de

Imitação

, menos ascetico, porém, mais perfumado das flôres do Evangelho primitivo; livro para ser lido em hora de crise d'alma, livro para ser decorado pelos delicados, pelos contemplativos, pelos tristes...

No prefacio dos seus

Estudos de Historia religiosa

, diz Renan pouco mais ou menos isto mesmo.

Formúla o voto de que alguem, das perolas soltas do seu escrinio, que sabemos ser de millionario, compozesse uma especie de

livro d'horas

, para ser folheado depois da sua morte, por finas, esguias e brancas mãos patricias, na paz obscura e calmante das cathedraes.

Oh! Como a subtil ironia que atravessa, flecha de luz aeria, este voto estranho, é bem d'elle! D'esse aristocrata, que deveu á democracia a liberdade que amplamente gozou; d'esse

dilettante

, d'esse mystico que desejaria ser enterrado na nave lateral de uma sombria egreja catholica; d'esse ironista que manejou tanta vez o arco de Voltaire com settas mais finas, settas feitas de ouro; d'esse philosopho que prégou a inanidade da sabedoria; d'esse sabio que se ria da sciencia; d'esse iconoclasta dos templos que ungiu de balsamos tão inneffavelmente doces os pés de Jesus Christo, e que achou na piedade da sua alma uma fórmula de scepticismo mais respeitosa que muitas orações, de um realismo por assim dizer concreto e material...

Se eu pude traduzir a impressão que elle me dava, impressão confusa e deliciosa, indefinivel e querida, impressão que era ao mesmo tempo receio de me deixar seduzir, encanto ao sentir-me arrastada na corrente d'aquelle feiticeiro perigoso; se eu pude dizer todo o amor com que lhe quiz, e todas as restricções com que este sentir me subjugára, dou-me por feliz, porque a fazer a critica da obra de Renan, a isso nunca eu ousaria aspirar.

Oliveira Martins

I

Tres mezes decorreram já desde que a negra terra do cemiterio o encobriu aos olhos dos que o amavam, e não está de molde o mundo moderno, que tumultua desvairadamente anarchico para chorar os seus mortos ou para commemorar os seus heróes!

Desde que elle morreu, esta pobre nacionalidade portugueza que a sua alma soube tão bem estudar, comprehender, amar nos momentos typicos da sua grandeza, chorar nos espasmos convulsivos ou no torpôr comatoso da sua longa agonia, desde que elle morreu, já esta pobre patria, tão sua amada, se tem deixado afundar mais alguns gráos no abysmo de uma decadencia para que não ha cura.

[1]

Quasi todos o esqueceram, a elle, ao grande melancolico que, durante mais de vinte annos, se não cansou de avisar os despreoccupados, de accusar os cynicos, de analysar cruamente ou desalentadamente o lento processo por que uma nação se desagrega e esphacella e para quem a historia foi mais uma obra de moralista do que um trabalho de laboriosa e minuciosa erudição.

Quasi todos o esqueceram, ou se recordam apenas do que mais ephemero e contingente houve no seu espirito, e uma das coisas que mais dóe é este silencio, mortalha peior que todas as mortalhas, que na hora seguinte ao desapparecimento de um grande espirito lhe envolve nas funerarias dobras o nome que parecia tão brilhante em vida!

Depois, mais tarde, é certo que a posteridade vinga esse nome da indifferença da geração a que elle devia ser mais querido, mas isso não impede que a impressão geladora de tão duro esquecimento faça soffrer algumas almas raras que não esquecem o que amaram...

Para mim, a morte de Oliveira Martins foi um golpe dolorosissimo...

Feridos os dous por uma doença traiçoeira que se apresentava no empobrecido organismo de ambos, egualmente ameaçadora de morte proxima e que para elle tão cedo realizou a negra ameaça, ambos tinhamos partido com differença de dias apenas para Cascaes.

Eram contiguas as casas que habitavamos, davam ambas para o lindo parque que o fallecido Visconde de Gandarinha alli plantou luxuosamente.

A primavera tinha desdobrado pelo parque todo em viço e pela extensão dos campos um enorme estendal das flôres mais frescas, mais vivas, mais cheias de mimo e côr. Inundavam-nos as salas os lyrios amarellos, as rubras papoulas, os malmequeres brancos e dourados, as verdes espigas, toda essa divina e inoffensiva flóra dos campos que consola os doentes sem os envenenar.

Através das rendas transparentes do arvoredo em que todos os tons, todas as

nuances

do verde se casavam em uma gamma opulenta e maravilhosa, avistava-se, das janellas dos dous convalescentes, o mar, o grande mar azul, em que Oliveira Martins lêra tão commovedoramente a lenda do nosso destino nacional, a historia gloriosa e tragica da vida e da morte da Patria Portugueza.

Barcos de véla passavam a cada instante, e elle sabia conhecer cada typo de embarcação.

Cada véla que atravessava o mar longinquo, palpitando ao vento fresco de abril, tinha para elle uma suggestão viva, uma lembrança saudosa ou pittoresca.

A luz, a luz embriagante da primavera de Portugal, derramada em caudaes da concava saphyra dos Céus, reanimava-o dia a dia, dava-lhe aspirações frementes de vida, de alegria, de trabalho, de actividade mental.

Ouvi-lo era um encanto.

Menos abatido de espirito, e mesmo de corpo, que eu, era elle quem, descendo a escada da sua casa e subindo a da minha, vinha sentar-se na pequenina sala onde eu quotidianamente esperava aquella visita deliciosa.

E de sua voz lenta, cheia de pausas, de uma doçura como que abafada, modulando-se em tons de intima melancholia, de acre desprezo, de tolerante e passivo desdem, e ás vezes, raras vezes, de alegre e despreoccupada ironia, ia preguiçosamente escorrendo toda uma philosophia da Vida, triste sim, mas não desesperada nem crúa...

Mystico de temperamento, mystico de sentir, o seu scepticisrno das coisas era temperado sempre por aquelle instincto tão raro na alma penisular, positiva até na sua fé, o instincto do mysterio ambiante, o presentimento de alguma coisa ignorada que nos cerca, acompanha, domina, nunca revelada, nunca explicada, nunca tangivel, mas tão impossivel de definir como de eliminar...

«There are more things in heaven and earth, Horatio. Than are dreamt of in your philosophy.»

Estas palavras do Hamlet lembravam-me quando o ouvia discorrer de vagar, sempre muito de vagar, olhos de sonho fitos vagamente no espaço, como que vendo n'elle

coisas

que nós lá não viamos...

Falávamos de tudo. Mais, no emtanto, do presente que do passado. Era nobre, glorioso, épico o passado? De certo!

Mas que importava, se estava inteiramente extincto para nós. O presente causava á grande alma especulativa e triste de Oliveira Martins um tedio inenarravel. Esta agonia sem grandeza; esta lucta de mesquinhos, de baixos interesses, lembrando a germinação e o fervilhar de vermes na putrefacção de um cadaver querido; esta inconsciencia de perigos imminentes; esta ignorancia universal de todas as forças e elementos que, ou conjugados ou antagonicos, hão de fatalmente ter uma influencia capital no modo de ser organico da sociedade portugueza; este risonho cynismo que anima as classes dirigentes e lhes inspira todas as manifestações da sua actividade ou da sua inercia; este quadro desolador de um paiz que lucta pela vida, é verdade, mas que perdeu todas as energias materiaes ou ideaes, por meio das quaes uma vida se conserva―arrancava-lhe expressões de uma tão inconsolada tristeza, como eu me não recordo de as ter ouvido a mais ninguem.

II

Outras vezes, nas horas mais calmas, mais doces da conversação, quando o crepusculo ia envolvendo a paizagem maritima, tão doce, suggestiva e melancolica, em uma especie de ideal neblina azul―era pelo seu trabalho passado que os olhos do grande morto se espraiavam.

Dizia-me então a commoção intensa, dolorosa, extenuadora, com que elle

vivera

, por assim dizer, algumas scenas da sua Historia, revelando essa profunda e hyper-aguda sensibilidade intellectual que é talvez a feição predominante, a

faculté maitresse

do seu genio...

Em momentos sagrados, d'estes que serão um eterno segredo entre o artista que

sente

e o Deus que o inspira, ou antes em momentos em que o artista se sente um deus, isto é, um Creador, e em que o elemento divino, de que o seu genio é a revelação suprema, o levanta acima de si proprio e da sua pobre existencia ephemera, fugitiva, mortal, o grande artista, que havia em Oliveira Martins, vivia seculos de gozo extenuante, de volupia ideal incomparavel...

―«Sahía d'esses momentos alagado em lagrimas e como que exhausto, envelhecido»―contava elle, deixando transparecer na palavra e no gesto um vago assombro.

É por isto que o trabalho lhe exhauriu a mais pura seiva do seu sangue, não porque

fosse

nem excessivo, nem brutalmente aturado, como por exemplo o de Balzac.

Outras vezes ainda a saudade levava-o docemente, talvez sem dar por isso, a evocar a memoria do querido amigo morto, de Anthero de Quental. Oliveira Martins fôra o companheiro, o confidente, o amigo dilecto do poeta dos

Sonetos

, em quem Souza Martins, n'um magistral estudo psychico-pathologico, acaba de descobrir uma ascendencia scandinava, que explica e justifica a essencia de sonho nebuloso e mystico de que o seu talento parece haver sido elaborado.

Falando de Anthero, era inexgotavel a memoria de Oliveira Martins. O intimo drama d'aquelle coração e d'aquelle espirito ninguem melhor o conheceu e interpretou.

A excessiva idealisação na esphera sentimental, o abuso do pensamento, a acceitação simultanea das mais contrarias, das mais oppostas, das mais irreductiveis theorias, a multipla concepção da vida que n'esse desequilibrado de genio se transformou na loucura e na morte: tudo elle analysava, estudava, esclarecia com aquella attenção paciente, com aquella agudeza de intelligencia, com aquelle estranho dom de penetrar e comprehender as almas mais diversas,―e até uma alma diversa segundo os momentos, a influencia exterior, as crises morbidas, a propria temperatura physica,―com aquella extraordinaria lucidez critica, serena, impessoal que assignala os homens verdadeiramente superiores.

Para elle proprio―deixem me este orgulho de que aliás tenho recordação escripta pela sua propria mão e confirmado pela sua sublime e dedicada e heroica enfermeira, amiga e esposa―para elle proprio estas conversações que o capricho de cada momento ia inspirando e movendo, se tinham tornado um prazer subtil e delicado. Eu ouvia, sem muitas vezes fazer mais que suggerir, excitar, conduzir um pouco ao sabor da minha curiosidade intellectual o rumo errante da sua palavra fascinadora...

Elle pensava alto, e gosava talvez de dar fórma concreta ás visões fugitivas da imaginação, de prender o peso de uma definição verbal, á aza subtil de uma idéa que ia esmaecer, volatilisar-se, fugir espaço em fóra...

O ardente desejo de Oliveira Martins, sedento de vida, como todos os feridos por aquella doença atroz que escolhe os melhores e os mais delicados organismos, para os fulminar em plena flôr de intelligencia e vida―o ardente desejo de Oliveira Martins era partir para Castella e estudar de perto o theatro de scenas que a sua mão magistral ainda deixou esboçadas em rapidas notas. Escrever o seu livro sobre D. João II e depois terminar por D. Sebastião,―o querido heroe lendario, o nosso rei Arthur fielmente esperado durante seculos por tantas almas de fé,―o cyclo da nossa vida nacional; que depois não tem feito mais que arrastar-se, desprestigiada, desformisada, pervertida na fórma e na essencia, até esta tristeza de hoje amorpha e gelatinosa: eis o sonho concebido pelo escriptor glorioso e admiravel.

Foi com o fito de visitar a Hespanha e depois de ir trabalhar em algum eremiterio bem recolhido, bem arejado e fresco, bem afastado de todo o movimento social, que Oliveira Martins mais robustecido, e na apparencia melhorado, deixou Cascaes.

Ha uma carta sua de Salamanca em que transparece do novo aquella tristeza que na doença o acompanhou como um presentimento funereo. Não resisto ao desejo de copiar alguns trechos d'ella:―«Ahi vão duas linhas do viajante que pisa agora as terras de Santa Thereza.

«Em Alba de Tormes esteve ella; aqui na cathedral tem um dedo que eu hontem tive a honra de tocar.

«Dizia a Santa, ardendo em divino amor:

muero porque no muero

. Eu não digo outro tanto, mas, em verdade, a vida não é realmente senão o desdem de viver e de morrer. Morrer para quê? Para quê viver? Os hespanhoes têem uma locução muito frequente e muito expressiva. É uma phrase, na qual, como succede com a musica, cada um mette o que tem na idéa.

Quien sabe?

Quem sabe o que é viver? Quem sabe o que é morrer?»

N'esta fluctuação vaga do pensamento que se comprazia em ver sempre de cada problema as duas faces contrarias, está em

raccourci

muito do que foi a philosophia particular de Oliveira Martins!

Da viagem a Hespanha voltou elle já ferido sem apello e sem possivel cura pelo punhal traiçoeiro da Morte!

Ainda esperou contra todas as esperanças, ainda a paizagem agreste e idyllica a um tempo do convento de Brancanes e cercanias o embriagou como a ultima estrophe deliciosa d'esse poema da Natureza, que para a alma d'elle, como para poucas almas, tinha harmonias, côres, visões divinas, philtros alucinantes e poderosissimos. E ainda como ultima exhalação do seu querido espirito para o meu, algumas palavras me vieram provar a força pertinaz da sua illusão e os extremos da sua delicada e preciosa amizade.

«―Hontem, para provar a mão, comecei a trabalhar no meu

Principe Perfeito

. Não imagina a alegria que me deu vêr que não tinha morrido ainda. Ainda escrevo. Ainda vivo. Cumpra depressa a promessa da sua visita...

«―Não ha calmante como a paizagem e os rumores do campo. Sente-se a gente arvore. Aqui ha tudo. Solidão no meio de um campo habitado, pomares nos valles, montes em volta, em frente o mar. Que mais se quer? O convento onde estou é enorme; cabe aqui tudo. Ha terraços delirantes. Ha arvores verdadeiras; uma matta a valer; pinheiros, sobreiros, medronheiros. Venha depressa...»

É a ultima vez que a sua mão traçou linhas que me fossem dirigidas e eu propria infelizmente, preza pela doença em Cascaes que nunca deixei, não o tornei mais a ver.

Mas publiquei trechos d'estas duas cartinhas preciosas, porque duas faces bem caracteristicas do espirito complexo de Oliveira Martins estão aqui adoravelmente retratados. N'uma a ondulação melancholica e vaga do seu sonho ante o mysterio da vida e o mysterio da morte. N'outra, na ultima, o seu ardente amor pantheista da natureza viva, aquella paixão fremente que o fazia dar uma alma á paizagem, communicar a sua fecunda emoção ás arvores e ás cousas, sentir no seio d'ellas a communhão mysteriosa que prende em uma cadeia de infinitos élos sem quebra, a pedra á planta, a planta ao animal, o animal sem alma á alma infinita, á alma Universal!

III

Deante da obra tão vasta e variada de Oliveira Martins não póde ainda a critica lavrar qualquer juizo definitivo. É cedo de mais para que esse tribunal pronuncie a sentença decisiva que tem de ficar gravada no Pantheon das glorias portuguezas. Mas se a critica impassivel e austera tem de addiar ainda o resultado da sua investigação, é licito a cada um de nós dar a impressão intima que recebeu do trabalho devéras extraordinario do escriptor que se finou.

Em primeiro logar a dualidade de aspectos que essa obra apresenta, transforma-a em uma especie de problema altamente interessante para a psychologia.

Em Oliveira Martins, a par do mystico contemplativo, do sonhador philosopho, do moralista desdenhoso, havia―estranha coisa, tão rara na nossa raça simplista―um ser inteiramente contrario a esse, um espirito positivo na analyse dos factos, rigoroso nas deducções do pensamento, pratico na administração dos negocios, e em que uma rara sagacidade das coisas se alliava a um methodo maravilhoso na classificação dos conhecimentos positivos.

Estes dois homens tão diversos formaram um só, ás vezes coutradictorio até ao enigma irritante, incomprehensivel ao entendimento médio, illogico perante a opinião do vulgo. Separados, cada um d'elles formava um conjuncto completo de qualidades harmonicas, uma força intellectual de primeira grandeza. Juntos, havia momentos em que eram capazes de desnortear, de entontecer até o espirito mais perspicaz e mais aberto ao feliz dom da sympathia intelligente. Assim como o seu talento tinha estas duas faces distinctas quasi inconciliaveis, pois que presuppõem qualidades em absoluto antagonismo e temperamentos em radical opposição, assim tambem a sua obra parece dividir-se em dois ramos diversissimos. A um d'esses ramos, o mais arido para mim, o que nada admira―pertencem os seus tão notaveis artigos jornalisticos, quasi todos compilados nos volumes

Politica e economia nacional

e

Carteira de um jornalista

, os seus opusculos e livros sobre o

Regimen das riquezas

, o

Socialismo

, as

Eleições

e até o seu magnífico projecto de

Lei de fomento rural

, que póde bem chamar-se um programma completo de restauração patriotica, uma especie de systema de hygiene applicado ao organismo exangue de um paiz que, primitivamente destinado a uma existencia modesta e rudemente tonica de trabalho rural, de obscura felicidade sem historia, se gastou nos excessos e nas aventuras d'esse sonho ultramarino que o fez viver, é certo, e que lhe deu renome, mas que o condemnou á longa e incuravel anemia de que todos morremos hoje aos poucos...

É como um homem verdadeiramente pratico que apparece aos nossos olhos, o publicista, o deputado, o politico nem sempre feliz, embora sempre perfeitamente intencionado do periodo que talvez mais do que nenhum outro, elle quereria ter riscado da historia, aliás tão nobre da sua vida. É sob essa face que elle assombrou muitas vezes não sómente os espiritos da nossa terra mais chãos e mais positivos, mas ainda os

homens de negocio

estrangeiros com quem teve de tratar tantos assumptos de importancia e que ficavam falando d'elle como de uma intelligencia rapida, aguda e fria, absolutamente rara nas nações peninsulares.

Se essas faculdades sem o auxilio de outras já são sufficientes para assignalar o alto valor de um homem, o que fará quando a essas se ajuntam em rarissimo connubio outras, mais altas, mais nobres, mais reveladoras de uma grandeza ingenita e de um valor moral amplissimo?!... Quando o mesmo homem, que ha pouco parecia versar, com tanta segurança e tão fino criterio, questões de que dependem o bem estar material e a ordem administrativa e economica das nações, se revela de repente um delicado artista vibrante e creador, um entendimento alado, capaz de erguer-se ás cumiadas mais altas do Pensamento, um vidente para quem a historia é uma continua revelação de reconditos segredos da alma, uma evocação magica de figuras vivas, uma palpitante suggestão de moral e de justiça?!...

Os que tiverem de pôr de pé deante da posteridade a figura inteira de Oliveira Martins, têem de evocal-o sob estes dois aspectos e fundir ambos na culminação intellectual a que elle attingiu.

Outros fizeram a historia com mais exactidão e mais verdade―se a verdade historica é apenas a verificação rigorosa das datas e a decifração lenta dos documentos coevos; outros fundiram em mais bronzeo estylo as cogitacões do seu vasto pensamento; outros interrogaram com mais paciente e minucioso escrupulo os monumentos do passado, legados sob multiplas fórmas materiaes ou moraes, artisticas ou religiosas, á geração sua contemporanea: poucos têem possuido, mais ardente e mais vivo esse poder estranho de penetrar na alma de uma raça e de lhe traduzir as aspirações occultas ou os sonhos realisados; de lêr a summula completa dos destinos de uma nação na obra truncada que ella tentou em vão consummar; de evocar em plena vibração de vida, em plena intensidade de emoção communicativa os typos representativos de uma época remota e finda; de emprestar a sua propria alma á alma dos mortos e de os fazer resurgir do sepulchro, onde pareciam para sempre esquecidos, á luz fremente do mais bello e claro dia.

Accusam-n'o com razão de contradicções, de inexactidões e erros de facto, que um espirito inferior meticuloso podia facilmente corrigir ou evitar. Sim. Tudo isso é verdade.

Mas escrevam, se são capazes, a Historia que elle escreveu, interessem-nos apaixonadamente como elle nos interessou, dêem o vigor, o relevo, a vida que elle deu aos personagens que evocava, façam de cada um dos seus livros o drama agitado que elle fez, transformem a Historia como elle a transformou, em uma prophecia, em um lamento, em uma licção, em uma suggestão ardente, em uma saudade inconsolada do que foi e não póde tornar a ser.

Outros narram precisamente os factos, elle commentou-os, esclareceu-os, deu-lhes o sentido occulto, a amarga e profunda philosophia.

O nosso destino historico; o papel particular que aos portuguezes foi distribuido n'essa tragedia épica da peninsula iberica, que deu mundos ao mundo inconsciente; o preço atroz por que nós pagamos a posse d'esse ideal que foi nosso um momento e que perdemos justamente por tel-o realisado completo;―quem melhor o soube explicar, tornar claro aos olhos ainda os menos penetrantes, tornar palpavel aos entendimentos ainda os mais obtusos?

IV

Na obra que elle deixa tão grande, que revela uma capacidade e um methodo de trabalho assombrosos, pois só assim se poderia escrever tanto, longe de tudo ser perfeito ha muita coisa desegual, muita coisa que elle não teria escripto se a necessidade quotidiana o não houvesse por largos annos espicaçado,―porque é preciso que se saiba lá fóra que este trabalhador incansavel foi um chefe de familia exemplar, e que, ficando na quasi infancia orphão de pae, foi elle quem auxiliou nobremente sua mãe a educar e formar uma familia numerosa de que até ao ultimo instante foi desvelado amigo.

Deve tambem confessar-se que ha muito de injusto e de cruel nos juizos que na, temeraria mocidade, isolado, e inexperiente elle formulou a respeito dos homens e das cousas. O seu

Portugal Contemporaneo

foi mais escripto sobre pamphletos e artigos de jornal, sempre suspeitos, do que sobre documentos authenticos completados pelo austero e profundo estudo do movimento liberal que iniciou para nós a éra moderna. Ha capitulos na

Historia de Portugal

que os seus livros posteriores, ungidos tão docemente pelo amor dos heroes patrios, parecem negar, contrariar, annullar inteiramente. Elle proprio teve de contradizer, na maturidade do seu grande espirito, no qual um incessante progresso se faz sentir, grande parte das theorias que primeiro enunciara e que tão profundo ecco tiveram na sociedade portugueza e tão irremediavel influencia exerceram no espirito pessimista e desenganado da contemporanea geração. O culto dos heroes que elle acabou pregando e exemplificando da maneira mais irresistivel, mais poderosa e mais bella, foi elle―força é dizel-o, porque deante das cinzas de um grande morto, a verdade impõe-se como um dever sagrado―foi elle quem quasi completamente o destruiu na nossa alma, aliás disposta a derrubar todos os idolos, a escarnecer todas as religiões!

Mas como estas maculas parciaes, mas como estes mesmos enganos do seu entendimento que lentamente se foi formando, aperfeiçoando, cultivando e depurando, desapparecem no conjuncto da sua obra! Mas como resgatam amplamente e soberbamente esses senões secundarios, livros como a sua

Civilisação Iberica

tão admiravelmente traçada por um pincel de artista e de pensador, como o seu volume

Os Filhos de D. João I

, feito todo elle sob uma inspiração soberba da epopéa, como o seu

Condestavel

tão bello, tão puro, em que a sua alma parece entender tão bem os mais intimos segredos d'uma alma de extase e de fé, prenunciando d'este modo a resignação ineffavel, a pacificação serena e alta, a submissa doçura ao mysterio supremo, no qual todas as contradicções se conciliam, a humilde piedade unctuosa da sua morte edificante, d'essa morte que tantos balsamos verteu no dilacerado coração da esposa, que n'ella teve a sua crucificação e a sua corôa, a sua maior dôr e o seu consolo mais sublime!

Como em Nuno Alvares o interessa mais ainda que o guerreiro audaz o asceta e o santo! Que trechos aquelles em que elle, subindo a uma altura onde não tinha subido ainda e que representa a culminação suprema a que o seu engenho chegou, nos conta os arrebatamentos, as visões, as asceticas delicias em que a alma do santo Condestavel se dilata até aos céus!

N'este livro, mais que em nenhum outro, o estylo de Oliveira Martins póde ser apreciado na sua complexidade e nas suas modalidades tão varias!

É um estylo unico, inconfundivel, atormentado, desegual, feito de imagens propriamente suas, de torneios de phrase inimitaveis e que o põem a cem leguas do classicismo acceito e consagrado. Ora se levanta em uma especie de somnambulismo vago a alturas ennevoadas e insondaveis, ora cahe de chofre na vulgaridade de um realismo voluntariamente plebeu; á ironia trascendente de umas paginas oppõe o amargo pessimismo de outras; á colera convulsa que o espectaculo das cousas lhe acorda no coração, segue-se o desdem benevolo e superior de quem julga este mundo todo illusorias apparencias, que umas nas outras se esvaem e se transfiguram; o seu grande poder de suggestão vem menos dos vocabulos empregados, menos dos epithetos escolhidos, do que da repercussão indefinida e infinita que certas phrases que elle emprega nos accordam na alma. Ás vezes, ha uma limpidez serena e correntia n'este estylo magico; outras vezes, é obscuro erriçado de symbolos, enredado em labyrinthos em que a mente se perde e desnorteia!

Se o estylo deve traduzir todas as

nuances

de uma dada individualidade e ser o transumpto claro e fiel de um temperamento artistico nunca houve ninguem que tivesse um mais accentuado estylo do que Oliveira Martins!

De cada uma das

maneiras

do escriptor eu queria dar idéa, transcrevendo um trecho que lhe correspondesse, mas não será melhor que cada leitor procure na obra tão complexa e tão variada, aquillo que melhor quadre ao seu gosto especial, á sua concepção artistica, á indole do seu espirito...

Recommendo-lhe, porém, as ultimas paginas da mais transcendente e ideal belleza da

Historia de Nun'Alvares

, as descripções que esmaltam ora com o colorido brilhante de uma téla de Veroneze, ora com a melancolia pungitiva de uma paizagem de Ruysdael, ora com a luz aeria, docemente

unreal

de um trecho de floresta pintado por Corot, esse livro de todos o mais admiravelmente escripto que o historiador nos legou.

Recommendo-lhe a analyse do caracter de Nuno Alvares, de João I, dos

Inclytos Infantes

, principalmente de D. Pedro, paginas de uma psychologia tão delicada, penetrante e subtil, em que o fundo mystico da imaginação de Oliveira Martins se allia á sua profunda intuição dos segredos da alma humana! E o quadro magistral feito a duas pinceladas rapidas da Côrte de D. Fernando, ai de nós! tão parecida com a sociedade de hoje que não sei mesmo dizer se não foi ella que serviu de modelo ao artista para chegar a conseguir taes effeitos de realismo brutal e de frisante e juvenalesca ironia!

Não farei comparações sempre inexactas entre Oliveira Martins e outros escriptores que o precederam. Acho que essas comparações não são em alguns casos mais do que erros palmares de critica que desconcertam e irritam! Um escriptor que se parece com outro, é raras vezes um artista de raça. Não póde um talento grande deixar de suppor uma personalidade accentuada, forte, isto é,

differente

. De resto não conheço em Portugal escriptor algum, cuja indole, cujas tendencias, cuja comprehensão das cousas se possa comparar com as de Oliveira Martins.

Elle nunca poderá ser considerado como um

representative man

, nem do tempo nem da raça a que pertenceu. D'aqui a sua originalidade viva e talvez o principal caracteristico do seu talento.

Á viveza, á meiguice, á sensibilidade vibrante do meridional, elle juntava a profunda melancolia, o symbolismo vago, a fluctuação de sonho do germano, e como elle tantas vezes se comprazia em lêr os vestigios de antigas influencias ethnicas, no caracter dos seus personagens historicos mais dilectos, póde tambem dizer-se que no seu genio tão complexo, tão estranho, tão cheio de meandros, complicações e antagonismos inconciliaveis se casam o poetico elemento celta, o positivismo calculista do phenicio, a profundidade e o pessimismo semita, a viva paixão do arabe, e o sentimento da Natureza que o barbaro do Norte primeiro suggeriu ao coração seco do civilisado latino!

FIM

Antonio Maria PEREIRA―Editor

OBRAS de Maria Amalia Vaz de Carvalho

A arte de viver na sociedade

, 1 vol. br, 1$000 réis. Ricamente encadernado 1$400.

Pelo mundo fóra

, 1 vol. broch. 500 rs Encad. 700 rs.

A aventura d'um polaco

, romance, traduzido de V. Cherbuliez, 2 vols. broch. 400 rs. Encad. 600 rs.

Raphael

, traduzido de Lamartine; 1 vol., edição de luxo illustrada e ricamente encad. 3$200 réis.

OBRAS DE TEIXEIRA DE QUEIROZ

(BENTO MORENO)

Comedia do Campo

, 4 volumes, broch. 2$000 rs.

Os noivos

, 2.ª edição, com o retrato do auctor (no prélo).

O Sallustio Nogueira

, 1 vol. br. 1$000.

Novos contos

, 1 vol. br. 600 rs.

D. Agostinho

, 1 vol. br. 600.

Morte de D. Agostinho

, 1 vol. br. 600 réis. Encad. 800 rs.

Arvoredos

, contos escolhidos, 1 volume illustrado, lindissima edição em formato diamante, br. 800 rs. Encadernado em percalina, folhas douradas, 1$100 rs.

Amores, amores

... 1 vol. (no prélo).

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