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Paisagens da China e do Japão

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Nota de editor:

Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.

Rita Farinha (Maio 2008)

Illustration from Paisagens da China e do Japão

PAISAGENS DA CHINA E DO JAPÃO

WENCESLAU DE MORAES

Paisagens da China e do Japão

LISBOA livraria editora VIUVA TAVARES CARDOSO 5, Largo de Camões, 6 1906

LISBOA Typ. de Francisco Luiz Gonçalves 80, Rua do Alecrim, 82 1906

A Camillo Pessanha e João Vasco

Nos baldões da vida bohemia, na confusa successão dos dias e das scenas, acontece que os factos, as coisas, os individuos, invocados pela pobre memoria exhausta, vão perdendo pouco a pouco as suas qualidades intensivas, as suas côres, os seus contornos, a sua feição propria, emancipando-se do real, como uma pagina de aguarella desmerece, solta e perdida no espaço e voando com as brisas; diluindo-se por fim n'uma emoção generica, vaga, indifinivel,―a saudade.―A essas duas grandes saudades, Camillo Pessanha e João Vasco, dedico hoje este livro.

Kobe, 10 de Abril de 1901.

Wenceslau de Moraes.

AS BORBOLETAS

a J. Moreira de Sá.

A lenda das borboletas.

São tão lindas, as borboletas! Quem as vê, que não lhes queira? ahi vagabundando pelo azul dos campos, razando as corollas frescas, amando-se, beijando-se, libertas da larva abjecta, como almas de amantes despidas da miseria terreal, a viajarem no infinito... São tão lindas, as borboletas!...

Mas na China são talvez mais lindas do que todas. É um deslumbramento surprehendel-as na quietação dos bosques, voejando aos pares, que se tocam, que se abraçam, e enfiando pelas sombras mysteriosas dos bambuaes, com as suas longas azas palpitantes, lancioladas, em matizes maravilhosos, de negros avelludados, de azues meigos, de amarellos quentes, como se as loucas vestissem cabaias de setim, de sedas de alto preço...

Choc-In-Toi, a deliciosa Choc-In-Toi, habitava, ha longos seculos, uma pacifica aldeia do Yang-tsze-kiang, não longe do logar que hoje se diz Shanghae. Como fosse muito dada a estudos litterarios e as escolas do seu sexo não lhe satisfizessem a ambição, conseguiu que seus paes lhe permittissem o disfarçar-se em homem, e assim abalou, a ir frequentar a mais famosa universidade do imperio. Volveu ao lar apóz tres annos; volveu tão pura como fôra; da sua innocencia ha provas irrecusaveis. Para não divagar muito n'estas paginas, basta dizer a quem me queira ouvir, que um lenço de seda branca, que ella enterrara na lama em presença d'uma sua cunhada predisposta a vaticinar-lhe rudes lances, foi depois tirado sem uma só mancha e sem um só farpão, branco, puro, como a alma da donzella; e basta saber que as flôres da sua preferencia, que ella deixára no jardim, rogando aos deus Choc-In-Toi, a deliciosa Choc-In-Toi, habitava, ha longos seculos, uma pacifica aldeia do Yang-tsze-kiang, não longe do logar que hoje se diz Shanghae. Como fosse muito dada a estudos litterarios e as escolas do seu sexo não lhe satisfizessem a ambição, conseguiu que seus paes lhe permittissem o disfarçar-se em homem, e assim abalou, a ir frequentar a mais famosa universidade do imperio. Volveu ao lar apóz tres annos; volveu tão pura como fôra; da sua innocencia ha provas irrecusaveis. Para não divagar muito n'estas paginas, basta dizer a quem me queira ouvir, que um lenço de seda branca, que ella enterrara na lama em presença d'uma sua cunhada predisposta a vaticinar-lhe rudes lances, foi depois tirado sem uma só mancha e sem um só farpão, branco, puro, como a alma da donzella; e basta saber que as flôres da sua preferencia, que ella deixára no jardim, rogando aos deuses que as conservassem frescas como ella, assim se conservaram durante a longa ausencia, embora, como consta, a cunhada as fosse regando com agua quente tirada da chaleira.

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Durante os tres annos de seu estudo, um companheiro, por nome Leun-San-Pac, intimamente se lhe afeiçoou. Era o seu camarada inseparavel, o seu irmão; dormindo juntos, conversando juntos, estudando juntos, divagando, sonhando; e o lorpa do mocinho nunca se apercebeu que tinha a seu lado uma mulher.

Quando soou a hora das despedidas, cortava o coração vêr o rapaz, lamentando o futuro isolamento, a perda d'um amigo como aquelle. A moça consolava-o. A moça poisava-lhe nos hombros as suas mãos gentis, e exhortava-o a que se enchesse de coragem, a que se entregasse ao amor do estudo, té alcançar um alto grau de sapiencia.―«E depois, dizia-lhe ella entre soluços, e depois, se com saudade te recordares ainda de mim, abala, vem vêr me á minha aldeia.»―E dava-lhe indicações precisas do logar. Despediram-se, entre choros.

A donzella esperou, esperou, esperou,―quem poderá descrever esse tormento? guardando da familia o seu segredo; e o moço não apparecia. Segundo os usos do paiz, os paes destinaram-lhe um marido; e ella, a desolada, escrava da obediencia filial, obediencia cega, indiscutivel, que é a base da vida inteira moral do povo china, inclinou-se, acceitou, sem que uma só queixa proferisse.

Tres dias decorridos depois do contracto nupcial, eis que chega á aldeia o pobre Leun-San-Pac; pobre, porque a desventura se lhe acerca; mas rico de erudição, de uma alma culta, e occupando um logar proeminente. Encontra o seu amigo, encontra o seu irmão; mas agora sem disfarces, na graça plena dos seus enlevos femininos, na gentil elegancia das vestes que lhe são proprias, e com grinaldas de flores na trança negra. De começo, este enigma, pouco a pouco explicado, confunde-o, desnortea-o; mas tudo se aclara; da amisade ao amor o salto é rapido. Oh! elle ama-a agora, elle ama-a de todas as forças do seu ser; e no olhar de fogo transluzem mil mysterios de adorações e de desejos!... É tarde. A palavra dada ao feliz noivo não se quebra. Os velhos paes prezam mais do que tudo, a propria honra.

Elle parte; elle parte para um logar visinho, louco, com a alma embebida no fel dos desesperos. É ainda ella, a doce pomba obediente, que tenta consolal-o. Ella escreve-lhe; ella diz-lhe que a vida não é eterna; que a piedade filial arrasta-a a um consorcio que só lhe vaticina dores e prantos; mas que as almas são livres, emigram d'uns corpos para outros; encarnam-se n'outros seres; que elle socegue, aguarde outra existencia, para a qual ella lhe jura será a sua companheira, toda fidelidade e toda amor. Leun-San-Pac lê, faz um bolo d'essa carta, onde tão demoradamente poisara a mão da sua bella, e engole-o, e suffoca-se com elle, e exhala assim na solidão o ultimo suspiro. Um pouco além, sobre a montanha, se lhe elevou a sepultura.

Soam bategas festivas, estalejam nos ares fogos de gala, de alegria; e pela longa estrada em ziguezague, bordada aqui e alli de bambus e bananeiras, doirada pelo sol do meio dia, serpea em rutilantes theorias o monumental cortejo do noivado, caminho do lar feliz.

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O estylo de ha mil annos é o mesmo estylo de hoje. São os grandes balões, os estandartes, conduzidos por moços vestidos de vermelho. São os enxovaes primorosos, as cabaias, a collecção dos sapatinhos, tudo disposto nas liteiras luzentes dos esmaltes. São as colossaes peças de doçaria, castellos de assucar, dragões de assucar, coisas espantosas. São os porcos assados, loiros, deliciosos, espalmados sobre os taboleiros, com laços de fita nos focinhos. São as orchestras estridentes, de flautas, de rebecas. São as creanças ataviadas em setins, em allegorias de scenas de outros tempos, cavalgando alimarias pachorrentas. É finalmente a liteira da noiva, toda ella oiros, toda ella esmaltes, fechada como um cofre, furtando á vista dos curiosos o precioso fardo, Choc-In-Toi.

A noiva solicita do cortejo um curto desvio na sua marcha. A noiva, antes de entrar no lar e de ser esposa e escrava, quer abeirar-se, além, d'aquella sepultura esquecida na montanha, e orar junto dos restos do que morreu por ella. Quem lhe recusaria tal licença? Eil-a que desce da liteira, nas suas cabaias deslumbrantes; e eil-a que se prostra, eil-a que beija a terra...

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A terra abre-se então, carinhosa, mãe; a terra traga-a, chama-a a si, chama-a para junto dos ossos do seu querido. A comitiva pasma do milagre. As mãos avançam a detel-a; mas só logram colher um pedaço do vestido, que se rasga, e é tudo... O pedaço de seda, de mil matizes, transforma-se de subito n'uma borboleta de mil côres, que vôa das mãos rudes, e desapparece no azul, desapparece!... É desde aquella epocha que ha borboletas n'este mundo, tão lindas, tão cheias de matizes!...

Eu não lhes estou contando uma mentira, meus amigos. Ainda hoje se vê a sepultura, esboroada pelos seculos, d'aquelles amorosos. E as esposas desprezadas alem vão em romaria, e d'aquella terra bemdita se suprem ás mãos cheias, e d'ella provam, e disfarçada com o arroz a ministram aos maridos. Consta que o estranho tempero, aquella terra, que em alguma coisa participa da essencia dos amantes que ali jazem para sempre, tem virtude comsigo, e é sempre efficaz em trazer ao bom caminho os mariolas, os maridos.

A ALFORRECA

a Henrique Carvalhosa.

Falla a lenda japoneza.

Antigamente―e quem sabe se ainda hoje!―no seio do oceano era o reino faustuoso dos dragões. Por longos annos, o senhor d'este reino, o dragão real, viveu celibatario, n'uma existencia descuidosa; e sabem só os deuses, e não nós, quantas noites de dissipação, em companhia de tartarugas e lagostas ligeiras de costumes, que lhe cantavam trovas ao som do

shamicen

e lhe iam servindo

saké

em ricas taças, quantas noites elle passou em travessas intimidades amorosas!...

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Verdores, que passam breve. Um bello dia, resolveu casar-se, o bom soberano. A noiva escolhida foi uma joven dragôasita, dezeseis annos apenas, adoravel, digna pelos seus mil encantos de ser a consorte feliz de tal senhor. Explendidas foram as bodas por essa occasião, segundo consta: sem já fallar na côrte intima, toda a bicharia aquatica, peixes, mariscos, molluscos, todos vieram processionalmente, em cardumes, em bellos

kimonos

de sedas encarnadas, offerecer seus respeitos e presentes; e foram, durante longos dias, estupendos regabofes, em danças, em musicas, em banquetes...

Mas nem os dragões escapam ás duras provações da existencia! Ainda bem um mez se não passára, quando a augusta soberana caiu doente; e taes cuidados inspirou desde logo o seu estado, que era uma lastima observar as trombas compungidas dos fidalgos, commentando baixinho, em lamentações do seu officio, o triste caso. Reuniram-se os doutores em conferencia; fallaram muito, discutiram muito, sem chegarem a accordo, como sempre succede; consultaram-se abalisados alfarrabios de therapeutica; as barbatanas incançaveis rabiscaram um milhão de receitas milagrosas, e todas as tisanas se serviram. Baldado intento; a soberana extinguia-se; e afinal os focinhos dos sabios, n'um tregeito de piedade e desengano, tiveram de ser francos, de declarar que a sciencia―já n'aquella epoca se enchia a bocca com

a sciencia

―que a sciencia nada mais podia fazer, e que um angustioso desfecho era de esperar-se.

Do seu leito de enferma, de entre os

futon

, as fofas colchas de setim, agita as tremulas patinhas a rainha; chama junto de si o esposo, e diz-lhe estas palavras ao ouvido:―«Uma só coisa me salvará: arranquem o figado a um macaco vivo, e consintam que o devore; recuperarei a saude....»―O rei não poude reprimir um gesto de surpresa, quasi de enfado, e todo se lhe erriçou o bigode façanhudo:―«Um figado de macaco! estás louca, minha querida!...»―Ella promptamente retrucou:―«Louca, porquê? Vossa magestade esquece por ventura,

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que nós, o grande povo dos dragões, no mar vivemos sempre; emquanto que os macacos, muito longe d'aqui, vivem na terra, nos bosques, entre as arvores, nutrindo-se de fructos... No figado do mono alguma coisa virá que participe d'esse mundo, tão diverso, tão outro; e essa particula estranha, senhor, me salvaria!...»―E a rainha, a quem as lagrimas acodem, prosegue n'um tom reprehensivo e lastimoso:―«Uma insignificancia, um nada, pedi, e esse nada vossa magestade me recusa. Julgava merecer-lhe mais affectos. Dispa-me d'estas pompas de soberana, não as quero; dê a corôa a outra esposa, mais digna, mais formosa; consinta que volva ao ninho carinhoso de meus paes...»―A voz suffoca-se em soluços, não pode mais proferir uma só queixa...

O rei dos dragões não queria passar, entre damas por um dragão cruel; por demais conhecia elle os caprichos pueris do sexo fragil, mas perdoava-os complacentemente, por systema; e sobretudo adorava a esposa, cujas lagrimas desejaria poupar a todo o transe. Satisfaça-se pois o capricho da rainha. Mandou chamar a sua escrava mais fiel e dedicada, a

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alforreca, e disse-lhe o seguinte:―«Vou dar-te uma espinhosa tarefa, minha velha, mas confio na tua dedicação nunca mentida; preciso que emprehendas uma longa viagem, que nades até junto da terra, e alli convenças um macaco a vir comtigo a estes meus reinos; falla-lhe, para o resolveres, da magica belleza d'estes sitios, tão differentes dos seus, e da gentileza d'estes meus subditos felizes; mas o que eu realmente quero n'este caso, é que se arranque o figado das entranhas de tal mono, e se sirva como medicamento á tua joven ama, que, como de certo sabes, se acha em perigo de vida, a desditosa.»

Lá vae, oceano fóra, vento em pôpa, a alforreca, emissaria obediente e ufanosa do encargo. Por aquelles tempos, a alforreca, como qualquer bicho das aguas, era um animal gracioso, de contornos esbeltos, com cabecinha, com olhinhos, com mãosinhas, e com a competente cauda titillante; e ficava-lhe tão bem o fato de marujo!... Lá vae, oceano fóra, olhar sereno e cogitador, rompendo a vigorosas braçadas a onda fria. Não tarda muito a abeirar-se do paiz onde vivem os macacos; por felicidade, um alem está, um lindo mono, saltando de ramo em ramo, dependurando-se das arvores que enraizam nos penedos e se debruçam sobre o mar.―«Bons dias, senhor macaco. Eu venho aqui expressamente para fallar-lhe d'um paiz longinquo, muito mais bello do que o seu; é elle situado alem das ondas e conhecido pelo reino dos dragões; alli, não ha estações, é eterna a amenidade do clima; alli, nas copas das arvores repolhudas, constantemente amanhecem avelludados fructos saborosos, é colhel-os, não ha outra tarefa; para cumulo do conforto, essas creaturas malfazejas, homens chamados, não pisam taes paragens. Se lhe agrada vir commigo, eu serei o seu guia; não tem mais que fazer do que saltar d'esse tronco para cima do meu lombo...» O macaco achou gracioso isso de ir vêr novos paizes. Vá lá mais esta extravagancia á conta da bohemia simiesca.―«Ao largo, amiga!»―E lá foram os dois; porém, a meia travessia, pensou tardiamente o mono na temeridade do seu feito, expondo-se assim ao arbitrio d'um extrangeiro, e abandonando a sua patria. Decidiu-se emfim a perguntar:―«Que pensa você que vão fazer de mim na sua terra?»―A

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alforreca deveria agora ser discreta, encapotar as respostas em evasivas; mas oiçam lá o que ella deu em troco:―«Eu lhe digo: meu amo, rei dos dragões, ordena ao senhor macaco que arranque o proprio figado, o qual vae ser servido á nossa soberana, hoje enferma, e salval-a da morte.»―Então o mono, guardando para si os commentarios que o caso suggeria, disse cortêzmente, que era para elle uma alta honra e um esperado prazer, o assim tornar-se util a sua magestade; acrescentou, porem, que agora se lembrava de ter deixado o figado dependurado n'um tronco de arvore, aquelle mesmo castanheiro d'onde saltara para as costas da alforreca. Continuou discursando em linguagem fluente, de orador emerito, descendo a explanações minuciosas; e explicou como o figado era uma coisa bastante pesada, embaraçosa, um quasi alforge de peregrino, um empecilho que elle costumava pôr de parte, durante o dia, para se entregar mais á vontade aos seus exercicios de acrobata; habitos de familia, já seu avô fazia o mesmo; e concluiu, que o melhor que tinham a fazer n'este momento, era voltarem para trás, e na arvore encontrariam o figado em questão.

Não pôz objecções a nadadora. Voltando á terra, o macaco saltou ao castanheiro com uma ligeireza nunca vista, nem mesmo entre macacos, acompanhando o pulo d'uma alegre careta e d'um gesto que traduzia o jubilo do bestunto, coisa que passou estranha á alforreca. Procurou entre as folhas o seu figado. Não o encontrou. Explicou então do alto, á alforreca, que provavelmente algum companheiro o levára para longe, o que o obrigava a mais demoradas pesquisas pelo bosque; no entretanto que fôsse ella contar o caso ao seu senhor, que devia estar ancioso por vêl-a chegar antes da noite.

Assim procedeu o bicho.

El-rei, que a esperava, e que a escutou, enraivecido por tamanha ingenuidade―para não lhe chamar coisa mais feia,―mandou logo vir da maladia um bando dos seus mais soberbos

samurais

, e ordenou-lhes que malhassem no bicho á pancada, até cançarem. O castigo foi cumprido, e com esse vigor de braços de villões, que miram aos applausos do monarcha. É esta a razão porque a alforreca, hoje em dia, não tem pernas, nem cabeça, nem cauda, nem barbatanas: tanta pancada levou, que ficou reduzida a esta miseria, massa informe, um farrapo, um pedaço de gelatina, boiando despresivelmente á mercê do turbilhão das vagas.

Com respeito á soberana, reconsiderando no disparate do seu capricho, concluiu que o melhor que tinha a fazer era erguer-se da cama e pôr-se bôa; e assim fez, com grande pasmo dos doutores.

A historia da alforreca está contada, na sua simplicidade commovente. É veridica esta historia, como tudo que o povo relata de memoria; creia n'ella quem crê. Fica-se já sabendo no entretanto,―e é isto d'um proveitoso ensinamento,―que os japonezes tão prodigamente propensos ao perdão para tantos pecadilhos de alma e de costumes, castigam os patetas.

Diga-se francamente: esta desgraça da alforreca, no paiz do sol nascente, era inevitavel; e o caso presta-se a interessantes commentarios, que eu vou resumir em poucas linhas. Os japonezes―povo de artistas―são os grandes amorosos da creação, da forma, da vida; ninguem como elles conhece os segredos da ave, do insecto, do reptil, do peixe, dos molluscos, do verme, de todos os seres da terra; a animalidade graciosa d'esses seres, estudada com percepções especiaes, que nos escapam, constitue o thema

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mil e mil vezes variado, dos seus primores de arte. Mas esse monstro, essa disformidade, essa alforreca que se apresenta como unica excepção da lei geral da gentileza da vida, e parece resumir em si o enfado inteiro d'um dia de mau humor do Omnipotente, devia ter deixado impressões tristes nos primeiros japonezes que a avistaram; e foi preciso arranjar logo uma explicação condigna do phenomeno, e é a que ficou descripta n'estas linhas.

É ainda interessante recordar de passagem a approximação, pela desdita, da alforreca japoneza com a medusa mythologica da Grecia, não merecendo esta melhor tratamento dos deuses olympicos. Curiosa coincidencia!

O ANNO NOVO

a Feliciano do Rozario.

Temos festa hoje, aqui. Acaba o anno velho, começa o anno novo. Mas não vão imaginar que seja do anno novo de que rezam os nossos calendarios, a commemoração; tal commemoração, aqui, no fim do mundo, no seio d'esta colonia nostalgica, passa insipida, quasi sem alvoroços intimos de familia, limitada á troca banal―

troca

sem cedilha e com cedilha―de algumas duzias de bilhetes de visita, com as competentes

boas-festas

escriptas, da pragmatica. Trata-se do anno lunar que finda, do anno lunar que principia, o anno chinez emfim, a ampulheta que marca para o povo amarello as suas horas de existencia; vamos entrar no anno XXII do reinado de sua magestade imperial celestial, Kuang-Su.

Temos festa hoje, aqui. A alma chineza manifesta-se, evidencea-se, domina, hoje; offusca, pela grande maioria dos rabichos, o pallido reflexo da civilisação do Occidente que logrou chegar a este Macau, a este exiguo penedo asiatico, onde Portugal implantou a sua bandeira.

Meia noite. Ao meu obscuro albergue, chega, de alem dos bazares, o ruido da bombardada amotinadora dos foguetes, e das mil e mil embarcações fundeadas no porto o clamor ovante das bategas, vibradas pelas mãos rudes das companhas. Que irá lá por esses bazares, a estas horas, santo Deus!... Eu não me arredo do meu canto. Bem sei que a febre das massas suggestiona, contamina todos. Bem sei que não se dorme hoje; que não ha chapéo de côco de amanuense ou kepi de militar, direi mesmo chapelinho de pellucia com laçarotes de setim e seu competente passaro empalhado, de menina, que não vá correr as viellas, perder-se na onda, confundir-se com os rabichos, gosar com elles. Mas está tanto frio, e as bagas de agua zurzem-me tão desapiedadamente os vidros das janellas... E, peor do que isto, é o frio da alma, é a apathia enervante do meu espirito, é o sorriso amargo que me enruga os labios, provocado por esse mesmo jubilo do enxame, que aqui me retêem e me impedem de tambem ir galhofar.

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Não, decididamente não serei da festa. Imagino-a d'aqui. Imagino essas ruas lamacentas, coalhadas de povo sujo, com as cabaias negras ensopadas dos chuvascos; e imagino os lumes tremeluzentes das lanternas de papel, accendendo nas poças, pelo reflexo... grandes labaredas ephemeras, ziguezagueando. As lojas estão escancaradas ao publico; fructos, flôres, doces, carniças, bonecos, coisas santas, estendem-se pelos caminhos em prodigiosas theorias, em coloridos quasi estonteantes; e é comprar, e comprar já, porque não tarda em romper o glorioso dia de descanço, o unico na China em que o camponez, o artifice, o vendilhão, todos, cruzam os braços, não trabalham; e nem a peso de ouro se encontraria um linguado, uma caixa de phosphoros, qualquer infimo objecto nos mercados. As espeluncas de jogo, em galas desusadas, offerecem-se, tentam a onda; e até pelas ruas o taboleiro de azar se estende ao passeante. Que pechincha, se se apanha para a festa um accrescimo de peculio não esperado! O china adora o jogo―era preciso que elle adorasse alguma coisa!―mas hoje todos jogam, todos são chinas, e é isto um exemplo interessante da influencia suggestiva das grandes maiorias; a mão mais circumspecta de funccionario, a mão mais mimosa de dama (de

nhônha

, em dialecto vulgar d'esta colonia) avançam sem pejo, arriscam á sorte varia umas pratinhas...

Quando bate meia noite; quando, junto do altar dos penates, se curvaram em piedosas adorações milhares de cabeças agradecidas, e se queimaram papeis mysticos, e se accenderam pivetes odorificos; quando em plena rua um brado de alleluia os echos acordou; dirige-se então a onda humana para o lar, já mercas feitas, já bolsas esvasiadas; e vae surgir um grande dia votado inteiro ao descanço, votado á glorificação dos deuses, cuja magnanima assistencia se exalta pelas graças concedidas e pelas graças que vão esperar-se!....

Mesquinha humanidade! como tu me entristeces, ó pobre humanidade, ó pobre familia minha, ainda mais nos teus regosijos e nas tuas esperanças, do que nos teus choros e nos teus desenganos!... Para este bando chinez com quem me encontro agora, que explosão de bençãos lhe estimula a sentimentalidade? que altos beneficios commemora? O bando abençoa a sua eterna existencia de miseria, a miseria passada, a presente e a que fatalmente vae seguir-se-lhe. Abençoa a labuta sem treguas, em busca do punhado de arroz de cada dia; ora exercida no lar immundo, sem sombra de conforto; ora exercida pelos campos, nas varzeas, nas collinas, no amanho da terra, sob a oppressão constante dos raios do sol que escalda, ou dos frios que paralysam; ora exercida nos barcos, que se cruzam na podridão dos estuarios, ou pairam sobre a onda adormecida durante as calmas torpidas, ou se desfazem no escarceo, quando os tufões rugem em furia. O bando abençôa a fatalidade da sua condição social, o problema espantoso, paradoxal, do seu feitio de ser, que em todas as depravações, em todas as iniquidades imaginaveis, parece ir buscar as leis unicas por que se rege. O bando abençôa ainda as calamidades tremendas, que

n'estes

ultimos tempos, como uma maldição divina, teem pairado sobre a immensa patria:―nas provincias do sul, nos seus centros mais populosos, é a peste, a peste negra, roubando em cada lar um ou dois filhos, ou o pae, ou a mãe, ou mesmo todos juntos, e vestindo de lucto, de tristes roupas alvas, os parentes, e ameaçando estabelecer-se definitivamente, enraizar como uma arvore de peçonha, d'onde emanará a cada instante o veneno subtil, destruidor das turbas; e, para cumulo de infortunio e de descredito, um visinho, um povo irmão, o povo japonez, invade, vence e desbarata a China, morde e come pedaços do seu torrão sagrado, envergonha-a, offerece-a ao escarneo do mundo na miserrima condição da sua plebe e na opulenta infamia dos seus nobres, desprestigiada emfim, indefeza á cubiça das gentes, aos homens loiros da Europa, que não tardarão em vir espezinhal-a.―Embora! esqueçam-se hoje as miserias, vista-se o povo em gala, chovam bençãos sobre o anno que começa. E amanhã, decorridas algumas horas de folgança, recomecem, prosigam,―pouco importa!―os turvos dias de amargura, a fatalidade da existencia no antro, a dura labuta no campo e no barco, a faina eterna, a orgia torpe dos maridos, a escravidão das esposas, a venda das filhas a quem mais der, os horrores da

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prostituição, as vergastadas nas creadinhas, as extorções dos mandarins, as torturas nos carceres, a morte lenta nos patibulos, a obra de destruição das epidemias e do opio, as humilhações perante o vencedor, as exigencias do Occidente, as arrogancias dos homens loiros...

Para o anno novo, tudo se prepara com antecedencia, em prodigiosa azafama; é para todos uma occupação incessante e desusada, durante as ultimas semanas do anno que vae findar. Lavam-se os covis, lavam-se as podres mobilias. É o pó d'um anno que se sacode, é a lama d'um anno que se deita fóra, é o piolho e é a pulga d'um anno que se afogam na onda das barrelas; porque, durante os labores de cada dia, nunca a idéa de limpeza preoccupou os espiritos durante um só instante. Tudo é providencial neste mundo, ao que parece. Na chafurda typica d'estas povoações chinezas, tão frequentemente visitadas por todas as pragas―cholera, peste, lepra,―embebidas no lodo dos canaes, no ambiente das emanações dos estrumes pachorrentamente acogulados e dos despejos que apodrecem pelas ruas, custa a crêr como a gentalha pollula, e como os consorcios fructificam em ninhadas de garotos; e parece á gente que um sopro qualquer destruidor, de calamidade immensa, irá em breve prostrar esses enxames, sem que deixe de pé um só vivente nos albergues. Puro engano: as povoações eternizam-se. No parecer de alguns investigadores, que taes exotismos interessam, se os miasmas putridos convidam as epidemias a entrar e a vindimar providencialmente as muitas vidas que superabundam, estes mesmos miasmas, sobrecarregados de vapores de ammoniaco, de exhalações corrosivas de fermentos, se encarregam de ferir tambem mortalmente os virus morbidos, poupando o resto do povo. Chegamos ao facecioso paradoxo de ser na China a immundicie o purificador por excellencia, um como que elixir de longa vida, indispensavel a todas as familias, feito da mais estupenda alchimia de dejectos.

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Conceda-se pois, por excepção, a este bom povo celestial, o capricho de lavar uma vez cada anno o antro onde se abriga. Depois, é ver a faina de collar pelas paredes, pelas portas, pelas janellas, papeis de bella côr escarlate, com negras inscripções cabalisticas, que são votos de ventura e de riqueza, que são preces aos deuses. E chega a occasião de se adornarem os altares, de se irem comprar junquilhos em flor, que se dispõem em vasos gentis com agua e seixos alvos, e assim vão enfeitar os aposentos, levando o viço e o perfume, por um dia, aos negrumes das alcovas. No meio do complicado rito das usanças, algumas praticas enternecedoras, de ingenuidade primitiva, interessam o curioso. Reparem por exemplo nas enormes celhas expostas pelos mercados, onde enxames de pequeninos peixes negros, carpas barbudas, estrebucham na gotta de agua do improvisado captiveiro; o povo compra-as, e vae lançal-as em seguida nas ribeiras, gosando na acção do resgate, por certo grata aos deuses, e que redundará em beneficios...

A PRIMAVERA

a Camillo Pessanha

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Ha alguns dias, na cidade de Kobe,―poderia precisar o dia, e quasi a hora, se tamanho rigorismo me exigissem,―irrompeu a Primavera. Irrompeu: não ha sombra de exagero no vocabulo. Irrompeu, surgiu d'um pulo, fez explosão. N'este paiz do Sol Nascente, onde o sol, e com elle todas as grandes forças naturaes, são ainda uns selvagens―se assim posso expressar-me―uns selvagens sem freio, sem noção das conveniencias, incapazes de se apresentarem de visita, de luvas e casaca, n'uma côrte qualquer da nossa Europa; n'este paiz do Sol Nascente, ia eu dizendo, a creação inteira apostou, parece, em offerecer em cada dia uma surpresa, toda ella exuberancias inauditas, espalhafatos unicos, repentismos nervosos, caprichos doidos, como se reunisse em si a quinta essencia da alma das creanças e a quinta essencia da alma das mulheres, a gargalhada, a troça, emfim, motejadora de tudo quanto é ordem, harmonia, contemporisadora lei das transições.

Hontem, foi um inverno duro, gelido, vestido apenas d'uma ampla tunica de neve. Hoje, d'um salto, o sol rompeu em quenturas amorosas, começaram de florir as arvores, e evolaram-se os insectos. Amanhã, será o estio torrido, em brazas, como nem na China, nem na Africa se sente. E assim corre o tempo, vôam as horas; cada instante é um meteoro; e aqui um tufão arranca os troncos, e alli a chuva torrencial inunda as varzeas, e alem um rio transborda do seu leito, e uma onda do largo afoga as aldeias, e uma convulsão subterranea abala o solo...

O europeu, o pobre europeu das paizagens serenas, soffre os choques d'esta natureza, por demais subversiva para o seu espirito triste, meditativo e attribulado. Offerece-se-lhe um de dois caminhos a seguir: ou communga na vida japoneza, inicia-se nos seus segredos intimos, ama-a nas suas modalidades, e assim a existencia se lhe gasta, se consome rapida, esgazeada em admirações, doidejando em vertigens; ou se retrae, se isola, odeia a natureza que não comprehende, odeia o exilio, vive de saudades da patria, entre as quatro paredes do seu lar, ou dos clubs cosmopolitas da colonia forasteira. Não é preciso mais para justificar o tique de loucura, facilmente perceptivel, da enorme maioria d'estes expatriados, homens e mulheres, após curta residencia no paiz japonez.

Ora pois,―dada esta concisa explicação á gente incredula,―ha alguns dias, na cidade de Kobe, irrompeu a Primavera.

Pela noite velha, fóra chegando uma brisa como que amorosa, acariciadora, perfumada. No silencio das trevas, as carpas acordaram, n'um charco fronteiro ao meu albergue; e estrabuchavam, e produziam desusados ruidos, saltando fora d'agua, ardendo em cios, endemoninhadas. Quando rompeu o dia, e appareceu o sol, não se descreve o enlevo do bafo morno, embalsamado, genesiaco, que enchia o espaço. O ceu tinha azues novos; cirros de paz pairavam nas alturas. A paizagem esverdeára; esverdeára da herva nova, que surgia, e das arvores velhas, que se coloriam. A nossa observação educa-se n'este meio em especialidades de minucia, abundando por toda a parte, em campos e jardins, as coniferas, de todas as fórmas, de todas as grandezas; estas arvores nunca se desfolham, mas no inverno descoloram-se, empallidecem como mulheres chloroticas, chegam a lembrar enfermos, chegam a lembrar coisas mortas; depois, a primavera excita-lhes a seiva, um verde intenso assoma-lhes ás folhas, a vida recomeça, doida, vão desabrochar flores em fúria!...

Já as ameixieiras se apresentam em galas de florescencia; os negros troncos rugosos e lavrados pela lepra dos lichens, sem uma folha sequer, cobrem-se agora de bastas cabelleiras, alvas ou rosadas, feitas de mil e mil florinhas presas aos galhos por minusculos penduculos. Vistas de longe, nos sitios onde abundam, fazem lembrar uma floresta de arvores seccas, envolvidas pelo fumo e pelas chammas d'uma queimada devoradora. Em breve serão os pecegueiros a florirem. Depois as cerejeiras. Depois as pereiras. Todas as arvores. Todas em apotheoses de coloridos. Chalaça tudo, em todo o caso―estas arvores não dão fructos, não dão ameixas, não dão pecegos, não dão cerejas, não dão peras; ou, se os dão, não prestam. Esgotam os ardores da seiva na superabundancia das petalas das flores enormes, enormes como nunca se viram em outra parte; contribuem, em meras orgias de cores, para a incrivel hilaridade do scenario, para a supina gargalhada primaveral; nada mais. Servem de pretexto para os mil motivos de debandada para os campos, d'estes bons japonezes, cabaça ao hombro,

musumé

ao lado, alma descuidosa aberta aos esplendores.

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São estas florescencias paradoxaes, tão caracteristicas do solo nipponico, que encaminham a cada momento o pincel indigena para requintes de matizes que a esthetica occidental não comprehende; ellas que inspiram aos artistas esses tão frequentes fundos de paizagem salpicados de brancos e vermelhos, a reminiscencia do instante em que as flores se desfolharam e cairam do alto, n'um chuveiro de petalas.

De parceria com as arvores, são as hervas, as plantas, os arbustos, que se vestem de folhas e se enfeitam de flores. Já ao longo dos muros espreitam, por entre as pedras, as violetas silvestres; e o solo vae vicejar de musgos, fetos, de relvas, de bambus e de humildes gramineas; e matizar-se de brancos, de azues, de amarellos, de escarlates, de roxos, de mil côres, de mil flores sem nome, apenas conhecidas dos insectos, que são botanicos emeritos e sabem de cór e salteado onde as corollas lhes offerecem os manjares mais capitosos. Já desabrocham os junquilhos, as camelias. Vão desabrochar a wistaria, as azaleas, os lirios, os iris, os narcisos, os convolvulos, as peonias, a legião vegetal.

As ameixieiras, por aqui pelas cercanias de Kobe, vão vêr-se ao pittoresco oiteiro de Okamoto, ou a Suma, no dominio d'um templo famoso. Os pecegueiros vão vêr-se a Momoyama, em Osaka, que as florinhas côr de rosa incendeiam por curtos dias. As cerejeiras, particularmente queridas dos japonezes, vão vêr-se a um ou dois templos em Osaka; ou á formosissima collina de Arashiyama, em Kioto, marginando a ribeira de Hozukawa, caudalosa e rumorejante; ou, no mesmo Kioto, ao parque de Maruiyama, onde uma só arvore, a vetusta

cerejeira da noite de Guion

, de delicados ramos em pendor, tem merecido os enthusiasmos e as estrophes de não sei quantas gerações de amorosos e de poetas, que junto d'ella poisam, dia ou noite, embevecidos no extasis do espectaculo; ou ainda a Yoshino, o logar por excellencia preferido, sitio montanhoso e agreste, de difficil accesso, mas por isto mesmo frequentado pelos grandes fanaticos da natureza em pompas; Yoshino, com a sua sentida lenda d'um monarcha fugitivo, e com o peregrino enlevo das suas mil―conta justa, affirmam,―das suas mil cerejeiras, muitas vezes macrobias, offerecendo aqui, acolá, além, n'um valle, sobre uma ponte, á borda d'um precipicio, as scenas mais surprehendentes, mais arrebatadoras, parecendo as arvores em flor, flocos de nuvens brancas a rasarem a relva da paizagem. A wistaria, o

fugi

, vê-se em Nara, a velha cidade classica; os ramos trepadores enrolando-se em torno dos troncos das chryptomerias gigantes, e os longos cachos brancos e os longos cachos roxos pendentes ao capricho das brisas.

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Romarias indescriptiveis de graça pagã, de vida exuberante, estas romarias, reunindo se ao quadro bello da natureza, de uma magestade commovente e estonteadora, a kermesse hilariante do povo em festa. Barracas embandeiradas expondo mil artigos; poisos improvisados para a refeição frugal; os homens em bandos a folgarem; as creanças aos saltos, ás gargalhadas, vestidas a primor, de sedas de mil tons; mulheres de todas as condições, graves mamans deliciosas, meninas recatadas em mimos de flor de estufa, petulantes cantadeiras das ruas, camponezas em roupas escarlates,

gueshas

em requintes de luxo e de encantos, ovantes como idolos, todas ellas comesticos, todas ellas aromas, todas ellas sedas rojantes, todas ellas mimicas e requebros, espanto-sas.... Ao recolher da festa, a onda humana é curiosissima: cada qual empunhando uma haste florida, cada qual com seu embrulho para o presente de estylo aos amigos que não foram; as mulheres commentando as scenas em gestos e em risinhos; as creanças abarrotando de fructas e de bolos, cançadas, somnolentas, rabujando; os homens em galhofa, pouco firmes, com as frontes e as palpebras encarnadas, que é como se lhes accusa o peccadilho de terem bebido um pouco mais do que convinha...

N'esta contemplação dos scenarios está a alma do indigena. Eu vou reproduzir-lhes uma local, que ha dias appareceu n'um jornal da terra, e que define bem a gentil puerilidade pantheista d'esta gente unica:―«em Himeji já se deu fé este anno de duas flores de cerejeira...»

duas

, é sobretudo delicioso!... O homem do Occidente pensa, o japonez vê; eis a enorme distincção que os separa. O prazer dos olhos é a alegre preocupação de todos; vive-se no presente, para gosar do momento de hoje, para sorrir ás coisas; e pode ser que seja esta a maneira mais coherente do ser humano prestar culto aos seus deuses, ao Creador, que lhe impoz na terra uma missão.

N'aquella primeira manhã primaveral, debandaram dos bosques mais cedo, em magotes alegres, em serenos vôos altos em busca de aventuras, chocarreando, atirando aos ventos as suas gargalhadas de mofa, os corvos, nos quaes tão bem encaixa, sem eu saber porque, o nome japonez, de

karuçu

. A pardalada papeava amores, e safava-se resolutamente dos povoados em demanda dos campos. Uma borboleta amarella,―ia apostar que a primeira da estação,―atravessou n'um vôo o meu jardim. Sobre cada flôr poisava um bicho, mosca, ou abelha, ou vespa, ou besoiro, ou moscardo, vindos não sei como, por feitiço, pois havia longos mezes que ninguem lhes punha a vista em cima; e não tarda que chegue a immensa corja alada, cigarras, gafanhotos, mariposas, mosquitos, tira-olhos, os pandigos do ar, todos bulicio, côres e vida!... Pelos corregos, pelas regueiras, ao longo das ruas e caminhos, surdiam pela vez primeira das tocas os sapos, rouquejando; e dois a dois, graves... mas não estou agora para contar-lhes o que faziam nas regueiras e nos corregos, os sapos, graves, dois a dois...

Nos rostos da gente, suggestionada, embriagada em aromas, pintava-se uma alegria nova, uma recrudescencia de actividade animal. As raparigas passavam mais lepidas, em

kimonos

alegres, claros, descalças sobre os sóccos pela primeira vez depois do inverno, os seus pés muito brancos, muito mimosos, após o recatado abrigo durante os mezes frios. Encontrei além, n'aquella esquina, uma

musumé

, que vendia ovos, e um vendilhão ambulante de cestos e vassouras; haviam poisado no chão a sua industria, conversavam em segredo, mas com intensa vivacidade de expressão; elle agarrava-a pelos pulsos, brutalmente; e ella, a rir, a julgar pelo brilho dos olhos e pelo rostinho alvoroçado de desejos... dava-se-lhe, em promessas.

Pois foi n'aquelle dia, que eu, em vez de ir divagar pelos campos, como os pardaes,―já não digo: (ir vender cestos e vassouras) pelas ruas...―que eu me engravatei cuidadamente e fui bater á porta d'um amigo. Tratava-se d'uma festa de creanças, o que é dizer, d'uma estopada para adultos. Effectivamente, exhibia-se, em frente d'uma duzia de meninos e de outra duzia de pessoas circumspectas, um graphophone americano; graphophone, ou coisa parecida; um

phone

qualquer em todo o caso; que isto de

phones

, para quem cursou aulas de physica ha perto de trinta annos, é de uma complicação tal, que nunca a gente chega, por mais que se applique, a fallar com segurança do assumpto.

Mal lhes posso agora traduzir a dolorosissima impressão, que a festa me deixou. Ratice minha, sem duvida. Introduzia-se n'uma caixa um cylindro apropriado para o caso e dava-se corda ao instrumento... mas a quem estou ensinando o padre-nosso!... Então, um americano fanhoso, imbirrante, assim com ares de bebedo e ademanes de exhibidor de saltimbancos, a ponto de se lhe presumir a casaca no fio e cheia de nodoas e a gravata branca em uso ha mais de seis semanas, fallava ao publico, annunciava a casa constructora em Nova York, e o que em seguida iria ouvir-se. Eram cançonetas chulas, solos de flauta, estrondos de orchestra, devaneios em viola, discursos grotescos; e tudo aquillo, e as vozes do publico que ria, que vociferava, que dava palmas, que pedia

bis

, creanças berrando, damas mal suffocando o riso, cavalheiros atirando chufas, tudo aquillo, distinctamente, saía da caixa enfeitiçada e enchia a sala onde me achava, como se uma multidão de patuscos, vindos da America, vindos do inferno, a tivesse invadido de surpresa.

Mas que tristeza immensa!... Como eu amaldiçoava, n'aquella hora, estas invenções da epocha, estes engenhos surprehendentes, monstruosos, que vem zombar da vida, e assassinar arte, enlevos fugaces que passam, reminiscencias, saudades, tudo o que é doce ao espirito... porque,―affirmo-o tanto quanto as palavras me podem traduzir o pensamento,―porque, no fim de contas, ficou-me uma desconsoladora noção de desprestigio da existencia, e de troça ás leis do mundo, á lei da successão dos factos no tempo; e vi em pensamento um bando de velhinhos alchimistas largarem as retortas, por um momento, e virem bradar á creação, fitando o ceu ás gargalhadas:―«não tenhas imposturas, sabemos tanto, fazemos tanto como tu!...»―Já não bastava a photographia, esta artimanha irreverente, que vae implicar com os ausentes, com os defuntos, com o mundo distante, dando-nos em troca da sentida recordação, que guardavamos, o phantasma, em contornos, do que fugiu dos nossos olhos. Agora é o graphophone, que eterniza os sons, a voz dos de longe, a voz dos que morreram. Morte, ausencia, já não tem razão de existir nos diccionarios. Para o caso a que me refiro, cá continua o americano imbirrante a vomitar os seus discursos, os musicos a tocarem, os cantores a cantarem, o publico a rir, a chorar, a applaudir, a chalaçar. Passaram-se assim as scenas ha dois annos, ha cinco annos, ha dez annos. Estará a estas horas o americano morto, coisa de alguma bebedeira mais forte, que o prostou? a creança, que chorava, dormirá tambem n'um tumulo, coitadita? a dama, que ria, estará doida, n'um asylo? o homem, que applaudia, n'um carcere, cumprindo uma sentença? Nada importa. A machina chama-os, reune-os, ressuscita-os, renova-os para a pandiga d'um momento da existencia; o passado é presente; e a machina agita-os, empurra-os para o interior das nossas casas, para nos divertirmos á custa d'elles mesmos...

Primavera? ia eu pensando com os meus botões. Primavera? ri a natureza? florescem as arvores? cantam amores os passaros? é uma realidade? Ah! talvez não, que hoje, a um phenomeno substitue-se quasi sempre uma industria; e espectaculos do Pae do Ceu fôram já quasi todos supprimidos, porque iam aborrecendo a humanidade... Cada dia que passa, regista cem descobertas, tendente cada qual a apagar do nosso espirito a lenda do mysterio, do incomprehensivel. A vida, o mundo reduzem-se a machinas, a engenhos mais ou menos complicados. Doce Primavera, que me enfeitiça? Troça. Aqui anda machina, apostára! Quem me assegura, que isto não foi primavera servida a meus avós ha mais de um seculo, gravada n'um cylindro, e impingida depois como nova, de quando em quando, aos patetas, que a applaudem?...

Illustration from Paisagens da China e do Japão

E a proposito da Primavera que irrompia, duas palavras sobre outra Primavera, que morria, ahi pela mesma epocha.

Não haverá ninguem, imagino, que, tendo passado em Kobe, não conheça

Nunobiki

, a cascata. É que o sitio, pela sua fama merecida, é o passeio obrigado de todos os que chegam, embora se demorem duas horas. Não ha conductor de carro, guia de viajeiros, um qualquer alcoviteiro que ande á cata de gente que desembarca dos paquetes, que se esqueça de indicar, como primeira diversão, a ida á queda de agua. Lá vão todos. Lá fui eu, uma vez, como viajeiro: e muitas vezes, depois, como residente, residente em ocios, attrahido pelos scenarios apraziveis. Lá em riba, muito em riba da montanha, e salpicada de espumas e acalentada em rumorejos, na penumbra do ermo apertado entre penedos a prumo, cobertos de ramaria silvestre, era a casa de chá, a

cháya

tradicional, offerecendo repoiso por alguns minutos e uma bebida ao forasteiro extasiado, sem fallar nos sorrisos, nas mesuras, que prodigalizavam largamente as raparigas que alli olhavam pela venda. Ha alguns annos, disseram-me, eram tres as raparigas, tres irmans,―as tres graças;―mas eu conheci só duas, tendo casado a outra com um titular europeu, conforme ouvi. Eu conheci só duas: O-Tane San, a Senhora Semente, e O-Haru San, a Senhora Primavera. Como se fica presumindo, eram as japonezas mais populares de Kobe inteiro; das quaes, talvez não erre, acreditando que os muitos milhares de forasteiros, que n'estes ultimos seis annos visitaram o Japão, guardam uma reminiscencia, uma saudade... Duas fadas dos bosques, a enfeitiçarem os incautos? Não tanto: quando muito, duas sereias de agua doce, simplesmente meigas, simplesmente gentis, vendendo graciosamente uma chavena de chá, sem assucar, á moda japoneza, e dando de graça um sorriso, tão doce, que tirava ao chá o travor proprio, mesmo para o paladar mais exigente. Eu preferia á Semente, a Primavera. Era mais fresca,―fresca como o seu lindo nome,―e mais avelludado o olhar negro, e mais esmerada nos

kimonos

de seda e na curva em azas de borboleta dos cabellos. Com ella palestrava, com ella ria, ria sobretudo, que o riso é a linguagem mais em uso n'esta terra; e, tomando-lhe das mãos, perguntava-lhe quem fôra o delicado, inglez, russo, coreano, hottentote, que lhe offerecêra aquelle annel com uma saphira, que enfiava tão bem no seu dedo côr de rosa...

Pois muito bem. Sabe-se que em materia de progresso material o Japão anda a galope. Lembraram-se ha pouco estes senhores de constituir uma empreza para a distribuição da agua aos domicilios, em Kobe. A idea não é nova: já Yokohama, Osaka, Nagazaki e certamente outros centros, gosam de instituições da mesma especie. O que é lastima,―se vale a pena a gente prender-se em ninharias,―é que assim, alcançado pelo turbilhão reformador, que vae dando cabo de todo o pittoresco d'este povo, tenda a desapparecer o poço... o poço classico dos velhos tempos, com a borda circular talhada n'uma só pedra, o alpendre gracioso sustido por dois madeiros, os baldes suspensos das duas pontas da corda de cairo, que enfia no tosco gorne central; estabelecido em plena cosinha domestica, ou a um canto do jardim, ou n'uma vereda accessivel a um bando de visinhos; e cerca as vasilhas de uso, celhas, escudellas, colheres, da mais graciosa e original tanoaria, de que as creadas, meias-nuas, se vão servindo nas lavagens, demorando-as para alongar tagarelices, proprias do sexo e ainda mais das japonezas; eis o poço, correspondendo a um quadro muito caracteristico da vida intima; o poço, que os adoraveis pinceis dos mestres da pintura se compraziam em reproduzir mil vezes, emaranhando-os na rama das trepadeiras, das

asagao

, cujas bellas campanulas de côres variadas abrem com o nascer do sol e fenecem logo após...

Para o caso de Kobe, dirigiram-se logo desde o inicio as picaretas e as enxadas para a montanha de

Nunobiki

, onde a agua jorrava em manancial sem fim; e, á força de braços e de dynamite, no intuito de encaminhar a torrente aos reservatorios da empreza, fez-se um desbarato tal, abatendo as arvores, cortando as rochas, cavando a terra, que todo o enlevo do sitio desappareceu, a paisagem tornou-se em ruinas. Rigorosamente fallando, a cascata acabava de existir. A

cháya

, tal como a gente a conhecêra no seu rustico pittoresco, forçada pelas escavações a mudar de poiso, acabava de existir. E as raparigas? logicamente, tinham de desapparecer tambem. Com effeito, a Semente casou com um japonez e safou-se... e faço votos para que o seu nome lhe seja de bom agoiro, dispondo os fados a

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concederem aos conjuges uma prole feliz e numerosa; e a Primavera morreu; morreu, por mofina coincidencia, quando a outra Primavera ia renascer, dar viço e flôres ás arvores, não ás da cascata, mercê da nova empreza. Morreu tisica; a sua cascata, onde nascêra, onde vivêra vinte annos, com a sua eterna penumbra crepuscular, com as suas rochas eternamente gottejantes, com o seu ambiente eternamente humido, roêra-lhe os pulmões...

Pobre Primavera... Mas não morreu talvez, pensem bem n'isto que lhes digo; embora ninguem mais lograsse vel-a, embora as amigas tivessem acompanhado ao cemiterio o seu corpinho inerte... O seu retrato já corre mundo, em photographia, vendido pelas lojas, perpetuando-lhe o rostinho. E nada mais possivel do que o facto de andar ganhando cobres pelas feiras, hoje, amanhã, d'aqui a quarenta annos, um sujeito qualquer ajoujado com um graphophone, um

phone

qualquer americano... Estão imaginando a patuscada:―Cylindro apropriado; dá-se corda... A plebe ouve pouco mais ou menos o seguinte:―«Grande companhia de graphophones de Nova-York e de Paris! Scena da famosa cascata de

Nunobiki

, no Japão!»―E a plebe continua de ouvir: é agora o murmurio continuo, soluçante, de agua despenhando-se de rocha em rocha; trina um passaro vagabundo; um francez bate as palmas, pede cerveja; um inglez pede

whisky

; um nipponico pede chá; a vóz da Senhora Primavera vibra distincta, fresca, doce; Primavera desfaz-se em desculpas, em risinhos, diz que já vae, não tarda; mas o inglez tem pressa, renova o seu pedido com azedume: e o instrumento é então perfeito―oh, maravilhas da sciencia!―que se ouve até o ciciar d'um beijo, que é naturalmente do francez...

1899.

NILGUYO

Mukashi

,

mukasi

(nos velhos tempos, nos velhos tempos, como diriam estes bons japonezes, e conforme reza a lenda, interpretada pelo Nihon no

Mukashibanashi

(Antigas Legendas do Japão), viveu um homem, um simples, de indole bondosa, de quem se poderia dizer que passára a mocidade em desejos de matrimonio; mas como desejos e realização d'elles são duas coisas mui differentes, attingiu o pobre a meia idade sem ter levado a effeito essa firma...―

commercial

não é talvez o termo proprio,―em todo o caso essa firma a dois parceiros, que partilham entre si, da vida, alegrias e tristezas.

As alegrias d'elle consistiam principalmente em entregar-se á pesca, pesca á linha durante os longos ocios; tristezas, sentia-as sobretudo, mais mordentes, ao recolher á noite a casa, derreado, cambaleando de somno e de fadiga, sem encontrar uma alma companheira que lhe sorrisse á porta, e em saudações o convidasse a entrar, nem mãos prestimosas que lhe tomassem do peixe e o amanhassem, e fossem depois leval-o ao fogo do brazeiro. Em toda a parte, e especialmente no Japão, estes sentimentos intimos d'alma,―jubilos de pescador á linha e desalentos de solteiro,―são bem justificaveis. Com effeito, para um temperamento vagabundo e impressionavel aos enlevos da paizagem, como se dá com todo o japonez, quantos encantos não vão proporcionando a linha e o anzol, induzindo-nos sem esforço a longos passeios de bohemio, penedos e praias fóra, contornando margens ziguezagueantes de ribeiras e enseadas, em face dos scenarios serenos, todos verde, frescuras, espelhos de aguas e murmurios... e como as horas vôam, acocorado o corpo sobre a rocha, a mão ora affeita, ora prendendo o isco, ora demorando-se em commovente espectactiva, ora colhendo o peixe a estrebuchar; e o espirito voando, como as horas, alheio ao officio, deliciando-se em sonhos, viajando no reino das chimeras... Mas á noite, após um dia inteiro de labuta, é que o corpo se doe e falham os joelhos; e deve então saber tão bem chegar a gente ao lar de esteiras e papel, e vir á entrada ajoelhar-se em cortezias a figura gentil d'uma esposinha fresca, envolvida em sedas e perfumes, com as mãositas rosadas em posição submissa, as mãositas tão habeis em córarem nas brazas as trutas saborosas...

Ora, um bello dia, o nosso homem, de quem a tradição não tomou conta do nome, achava-se pescando segundo o seu costume, bambu em punho, e meditando ao mesmo tempo sobre o seu desconsolo e desolada sorte, quando... zaz! um grande safanão na linha lhe fez logo imaginar que alguma coisa fóra do commum viera de colher. Por pouco se lhe não vão, linha, e anzol, e peixe ao mesmo tempo; então, com muitas manhas que são proprias da arte, poz-se a cançar a presa, já alongando o braço e deixando-a debater-se a seu capricho, já aproveitando o repoiso para traze-la á praia; até que emfim, azado o instante, puxou com força, e veio cair-lhe o peixe aos pés.

O peixe? o peixão!... Era uma

Ninguyo

, uma sereia; nem mais nem menos; face de mulher, d'uma rara formosura, e um enorme corpo ventrudo, alongado, escamoso, agitando barbatanas e terminando em amplo rabo, que então desesperadamente estremecia. Face de mulher de uma rara formosura,―disse-o eu, e não me engano:―esse contorno doce de oval, de

urizanegao

, de pevide de melão, tão querido em esthetica japoneza; os bastos cabellos negros fluctuando em coma; a tez de jaspe; os olhinhos de velludo; a boquinha escarlate. Mas chorava, a sereia, em contracções de angustia; chorava certamente pela dôr, pois lhe rasgava a carne o traiçoeiro anzol; e ainda mais talvez pela vergonha de vêr-se assim arrebatada do seu meio habitual, expiando um peccado de lambarice, indefeza, nua deante d'um estrangeiro!...

O pescador porém era d'uma indole bondosa, como ficou notado um pouco atraz; e vae-se agora ver como o provou. Comprehende-se, é claro, o seu primeiro espanto: o homem punha as mãos sobre a cabeça, a esbugalhar os olhos, e gaguejava não sei que exclamações... Podera não! Acalmado, sacou cautelosamente o anzol da bella face em sangue; e tomando nas mãos o estranho ser, poz-se a scismar maduramente sobre o caso. Ora, ia pensando, se elle fosse correr as feiras todas, as festas dos mil e mil templos do paiz; e alinhando a sua barraca com as outras, onde se exhibem salamandras, crocodilos, creanças sem pés e sem mãos, cães sabios e muitas outras coisas, que abundantissima chuva de sapecas lhe não cahiria em cima, quer dizer, dentro das mangas do

kimono

!...―"Meus senhores, entrem todos! Quem não tem cabeça, não paga nada! Ora aqui está uma sereia authentica..."―e já ia estudando o discurso que faria, soberbo, dominador, impondo-se á plebe embasbacada. Ou então, outra ideia: se elle comesse a carne da sereia, cosinhadinha, feita em postas... e sabem todos que a carne da sereia tem virtude de conservar perpetuas a vida e a juventude a quem d'ella provou... Mas a sua indole bondosa revoltou-se afinal contra a lembrança de reter n'uma tina, em exposição, ou peor ainda, de levar á degolla aquelle pobre bicho, que sobre as suas mãos se lamentava e desfazia em prantos, como se fôra uma pessoa; contemplou-o ainda, longamente; e com um nobre gesto e decidido esforço, atirou a sereia ás vagas, d'onde viera, e onde mergulhou e desappareceu sem mais cerimonias, após um acenar de rabo, que poderia ser um adeus, um adeus e um agradecimento.

O nosso pescador voltou á sua faina. Consta que, n'aquelle dia memoravel, o cabaz se lhe encheu de uma espantosa quantidade de tudo que o mar dá. Á tarde, tornando a casa ajoujado com a carga, bailava-lhe nos

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labios um sorriso, que provinha da boa pesca que fizera, e tambem da boa acção que praticara.

Quando pela noite, na cosinha, mangas do

kimono

arregaçadas até acima dos sovacos, avental sobre as pernas, celha ao lado, se dispunha a preparar a sua ceia, ouviu que de fóra, e junto á porta, uma fallinha mansa lhe ia dizendo:―"Dá licença! dá licença?"...―Corre o homem a abrir a corrediça, ainda com a faca da cosinha, e um carapau na dextra adunca; e á luz frouxa d'um luar de quarto minguante, poude distinguir um vulto de mulher em nada extraordinario, porém doce e cortez, que lhe confessou ser uma viajante extraviada do caminho, sem casa e sem abrigo, e lhe pedia poisada só para aquella noite.―«Entre depressa, menina, acode-lhe o sujeito, e venha partilhar do pouco que aqui tenho».―Então, dando-lhe entrada, conduzindo-a ao aposento das visitas, fel-a descançar sobre a esteira, e junto do brazeiro, foi-lhe servido o chá tradicional.―«Muito obrigada.»―O homem rogou-lhe seguidamente que esperasse pela ceia, uma ceia de peixe por signal, que elle ia amanhar sem perda de um minuto.―«Permitte-me que eu ganhe o direito ao meu quinhão, ajudando-o n'essa lida?»―Disse que não redondamente, que nunca consentiria que os seus hospedes trabalhassem na cosinha. Em replicas e treplicas, a rapariga assegurou-lhe que passara a vida toda, além, da banda do oceano (talvez filha de gente embarcadiça? pescadora?) e que ella conhecia as melhores receitas de cosinhar o peixe, no que até muitas vezes, por passatempo, se occupava; e tanto ella teimou,―sabem todos o que são teimas de mulheres!―que sempre foi levando a sua ávante.

O que é certo, é que nunca o pobre solteirão se lambera com tão deliciosas petisqueiras. Comeu a sua dose, repetiu, pediu terceira vez; e dizia, a chuchar ainda as cabeças dos ruivos, que a pena que lhe ficava, era de não lhe ser servida uma ceia egual, todas as noites. A companheira observou então modestamente, a meias fallas, que lhe parecia não ir além dos seus poderes, um tal desejo; e instada a explicar melhor a sua phrase, accrescentou que era solteira, sem parentes, sem lar... Comprehendida finalmente, o remate de tão feliz encontro foi ella consentir em ser a esposa do sujeito.

Antes, porém, impôz as suas condições.―«

Danna

, meu dono, eu tenho, como disse, passado a vida pelo mar, e não posso prescindir do meu banho de agua salgada ao menos uma vez cada semana; consente-me isto?»―Elle acenou que sim.―«E jura-me (agora vão ouvir os pudores da pequerrucha...) que me deixará banhar em paz, sem seguir-me, e sem sequer espreitar-me?»―Elle jurou que sim; e deu-se por feliz (já se ia babando pela moça, o maganão!) de, por tão pouco preço, ver-se possuidor de tal thesoiro.

Casaram. Bodas de estrondo; e viveram ditosos durante longos mezes. O peixe, o prato querido dos nipponicos, foi sêmpre excellentemente preparado pela esposa, activa, intelligente, a rir-se sempre. O pargo, em fatias cruas regadas com molhos excitantes, era divino! As enguias com arroz, uma delicia! O caldinho de ameijoas, superfino! As trutas assadas sobre o lume, sem egual! E até uma certa caldeirada, assim como quem diz á moda do Algarve, era de estalo, sem favor! E o marido tornava-se anafado e luzidio, a testemunhar a toda a gente, pelo volume e pelas banhas, que alguem olhava por elle com disvelo...

Mas o banho? Melhor fôra não fallarmos n'elle...

Ai que pandega que era esse tal banho!... Ella passava a manhã inteira preparando-o, afinando o appetite, podia-se dizer; e no banho se quedava horas esquecidas, pela tarde. Depois, ajoelhada sobre a esteira, espelhinho em frente, e em torno os cofresinhos mysteriosos, era a interminavel tarefa de fazer-se bella, ora branqueando as faces, ora avermelhando os labios, ora compondo o penteado. O esposo chegára mesmo a esta conclusão não muito lisongeira:―que a companheira mais queria á agua salgada do que a elle;―mas perdoava-lhe,―outros ha que bem menos innocentes caprichos vão perdoando...―e nunca a sombra sequer d'um arrependimento viera turvar a paz do seu viver.

Uma bella tarde,―tarde de banho por signal―chegou o homem a casa, e, como se diz em portuguez... cheio de fome.―«Tardará muito para a ceia? resmungava. Irá o banho em meio ou em principio?» A esposa, é claro, achava-se invisivel, e com a portinha fechada a sete chaves; mas casas japonezas são casas de papel, e uma fenda, um rasgão, convida-nos a enfiar os olhos para dentro. O caso é que elle espreitou. Surpresa! Horror!... Não é uma mulher, mas uma sereia, que se banhava, melhor dizendo―que nadava, em demoradas circumvoluções de regalo ao longo da tina, agitando mansamente o rabo e as barbatanas, e cantarolando baixinho canções do mar, canções das praias...

Pobre marido!―«Ah! canta-me assim, exclamou elle, canta-me assim, grande mostrengo!... Agora percebo eu as tuas habilidades em lidar com peixes,―lidas com os teus parentes, grande mostrengo!...―Melhor fôra, sem duvida, que eu nunca te conhecesse em tal estado, em tal nudez; mas, feito o mal, quer-me parecer que nunca mais poderei tragar com appetite os teus guisados, intrujona...»

A porta, abriu-se então e appareceu a esposa. Chorava, cahiam-lhe as lagrimas a punhos; chorava mas digna, resignada, lia-se-lhe no olhar uma resolução fatal. Fallou assim, ajoelhando:―«

Danna

, meu dono, foi a sua benevolencia para mim, um dia, extrema, tirando-me das aguas, podendo fazer da minha vida o que quizesse, e salvando-m'a. Trouxe-me aqui um dever de gratidão: julguei com a minha presença poder amenisar a sua soledade, servindo-o como escrava. Deu-me o nome de esposa. A minha gratidão será eterna. No entretanto, acabando de ver-me assim na minha forma verdadeira, um bicho, um monstro que mette medo a toda a gente, comprehendo que a missão que tomei chegou ao termo. Estala-me o coração, mas pouco importa!...

Danna

, meu dono, adeus. Do ceu lhe chovam bençãos...»―E correu para a praia e desappareceu nas ondas.

Pobre marido!... Por um acto inpensado, perdeu para sempre uma companheira carinhosa; e, como das nupcias com a sereia lhe resultava o dom de longa vida, foi longa a sua viuvez, e longo o seu martyrio...

A fabula, segundo observa, e com criterio, o auctor japonez que consultei a tal respeito, offerece duas lições de alta moral. Uma é esta: a mulher que pretenda conservar um bom marido, deve captival-o pela barriga, isto é, pelo esmero do seu repasto; parecendo averiguado que o estomago é o orgão mais sensivel, e porventura o mais grato, do homem, o rei da creação. A outra lição é a seguinte: o marido que deseje manter a harmonia do seu lar, nunca interfira na toilette intima da consorte; porque, isto de damas,―com sua licença,―todas lá têem o seu rabo, ou escama, ou barbatana, coisa emfim que melhor é não seja conhecida, em proveito dos dois, e em conformidade com o codigo inedito do amor, capitulo

Illusões

, artigo... esqueceu-me agora o artigo, meus senhores.

1899.

O CAVALLO BRANCO DE NANKO

A Carlos Campos

Isto aconteceu ha cerca de mil annos, em terras japonezas: um cavallo, que o grande artista Kanaoka desenhára n'um biombo do templo de Ninnadji, perto de Kioto, era uma tão bella creação, cheia de verdade e palpitante de vida, que todas as noites se escapava do papel para ir galopar pelos campos em roda, culturas fóra, devastando a esmo as sementeiras; e o caso dava-se, claramente, com magno espanto e raiva dos camponios, que o perseguiam á pedrada. Estes camponios, impressionados pelas fórmas incomparaveis do animal, persuadiram-se por fim de que elle não podia ser outro senão o cavallo de Kanaoka; e a persuação converteu-se um dia em certeza absoluta, quando viram na pintura as patas do travesso, humidas ainda da lama fresca dos caminhos. Sem mais cerimonias, arremetteram contra a tela e esfuracaram-lhe os olhos; e consta que nunca mais houve queixas de estragos nas fazendas.

Illustration from Paisagens da China e do Japão

Ainda outro cavallo de Kanaoka, que era mestre no genero, cavallo desenhado n'uma parede interior do palacio imperial, tinha o vezo de ir devorar pelos jardins as flores tenras do açafrão; e só cessou a brincadeira quando alguem se lembrou de retocar a obra, amarrando o patife á parede com um pedaço de corda pintada para o effeito.

Ora bem. De muitas maravilhas é sem duvida capaz a mão inspirada d'um artista!... Esses dois cavallos de Kanaoka, nascidos d'uma gotta de tinta e de algumas curvas humoristicas de pincel, mas em todo o caso ungidos do sopro sublime do eximio mestre, animavam-se por momentos, soltavam-se da tela, e ahi iam elles!... Felizes bohemios eram e felizes tempos eram. Arte creadora, arte radiosa das epochas passadas, porque não vaes tu regendo, ainda e sempre, os destinos de todas as coisas d'este mundo?...

N'estes dias que correm, deslavados e tristes, mesmo no Japão, e não cessando de divagar no mesmo assumpto de cavallos, confesso francamente a quem me lêr, que nada me mortifica tanto como o espectaculo dos cavallos sagrados dos templos shintoistas. Ora aqui estão umas cavalgaduras bem authenticas, bem vivas, bem reaes, de carne e osso; e que, se fossem lidas em coisas de arte antiga nacional―mas não são,―por certo muito invejariam as simples creações no papel da mão de Kanaoka. N'este paiz japonez, onde parece que os seres, homens e bichos, nasceram e vivem n'um banho perenne de sorrisos, mais desoladora se afigura ainda a condição dos pobres brutos, que um dia inspiraram estas linhas melancholicas que escrevo.

Illustration from Paisagens da China e do Japão

Se pretendo ser de certo modo comprehendido nas divagações que vão seguir-se―e é obvio que pretendo,―convem que me detenha um pouco, fallando de templos shintoistas em geral. O shintoismo, da palavra

shinto

(a estrada dos deuses), é a crença primitiva, patriarchal, das epochas remotas no Japão; e conservada até hoje, a despeito da grande propaganda de Buddha que se fez e se faz, é ainda a religião nacional, a religião do Estado. O shintoismo é a adoração pelo sol, pelo Imperador seu filho, por todas as forças da creação, pelas divindades protectoras, pelos genios, pelos nobres, pelos heroes e pelos sabios. O templo de shinto é o recinto consagrado a uma d'essas invocações. Distingue-se antes de tudo pelo

torii

, o grande arco de pedra ou de madeira avisinhando do logar, e como que indicando o caminho ao peregrino.

Torii

quer dizer

descanço dos passaros

; e assim ficamos já com uma noção primeira e delicadissima na essencia, aprendendo que no campo sagrado tudo é paz, tudo é remanso, pois que até aos pardaes, cançados dos vôos doidos que fizeram á aventura, se offerece um poleiro protector onde descancem. Ao

torii

succedem-se o amplo portal e o vasto espaço murado; e lá dentro, symbolos, alfaias d'uma

Illustration from Paisagens da China e do Japão

religião toda de amor, são a paisagem graciosa, os jardins verdes, os bosques frescos, as rochas musgosas, os lagos quietos; aqui é a cisterna destinada ás abluções preliminares dos crentes; alli são as monumentaes lanternas de granito, esverdeadas pelos annos; além o nicho escarlate votado a Inari, raposa, Deus do arroz, não sei que mais, em todo o caso coisa muito santa; depois as construcções ligeiras, de madeira nua, dispersas, e onde em dias festivos as donzellas do culto dançam ao som de estranhos ritornellos, ou silenciosos officiantes abençoam as multidões, agitando sobre as cabeças reverentes um penacho de papel branco, emblema de pureza.

Nos templos mais faustuosos, não faltará outro accessorio: o nicho garrido, a pequenina estrebaria, onde o cavallo sagrado mastiga eternamente a insipida palha do seu officio. O deus, ou genio do templo, tem o seu cavallo de estado; é justo. É geralmente um cavallito albino, de pello branco e olho azul celeste, talvez porque se ligue uma certa idéa de candura a tal enfermidade. O deus serve-se d'elle como entende; alguem, a quem pergunto informações do cargo, diz-me que é o

Ó tsukae mono

... assim como quem diz:

o nobre moço de recados

. Admittamos pois que faz em regra os recados do deus, o que é já muito, e um alto mister, e por isso é sagrado e tem honras de santo; e em lances

difficeis

, mais distinctos serão ainda os seus serviços. Ardeu ha mezes um dos mais famosos templos do Japão, em Yamada; não sei que coisas do culto foram depois encontradas ao abrigo e longe do sinistro;―foi o cavallo que as transportou para lá.―É voz do povo que em Osaka, em dois templos de shinto, desappareceram os cavallos quando rebentou a ultima guerra com a China;―está-se mesmo a perceber que as almas d'esses deuses montaram nos ginetes para irem aos campos do inimigo, abençoar as tropas de Nippon.―Taes casos, porém, são raros, são rarissimos, n'esta epocha positivista, tão escassa de milagres; e os cavallos brancos sagrados vivem e morrem amarrados á mangedoira, passeando uma só vez em cada anno, no dia da festa do templo, encorporados então triumphalmente á procissão, que percorre as ruas da cidade. É o encerro absoluto, é a constante immobilidade tediosa, sem mesmo as furtivas escapadelas dos cavallos pintados de Kanaoka. A palha abunda-lhes; acercam-se d'elles as creanças e as mulheres, que os adoram, e compram á velha, que por alli está cerca do estabulo, montinhos de feijões cozidos, que offerecem sobre as palmas das mãos rosadas, aos

focinhos nostalgicos

dos rocins.

Eu conheço uns poucos d'esses brutos, mas tenho mais intimas relações com o de Nanko, um templo aqui em Kobe, celebre, dedicado á memoria de Kusunoki Masashige, que foi um nobre guerreiro e patriota.

No amplo santuario do templo estabeleceu-se uma feira permanente, dia e noite, mas principalmente de noite, atractiva e frequentada por passeantes e devotos. A vida inteira japoneza passa, perpassa aqui; quem já folheou os albuns de desenho de Hokusai, e n'elles se interessou, deve depois votar horas inteira No amplo santuario do templo estabeleceu-se uma feira permanente, dia e noite, mas principalmente de noite, atractiva e frequentada por passeantes e devotos. A vida inteira japoneza passa, perpassa aqui; quem já folheou os albuns de desenho de Hokusai, e n'elles se interessou, deve depois votar horas inteiras a esta historia viva e flagrante do povo de Nippon; e assim completar, quanto possivel, a noção que haja formado d'este povo, um dos mais interessantes, e o mais sympathico talvez, do mundo inteiro.

Illustration from Paisagens da China e do Japão

A gente afflue de toda a parte, d'aqui, d'alli, d'alem... Junto ao portal, condensa-se o formigueiro humano, em centenas, em legiões de cabecinhas; a pouco e pouco, sedas roçando sedas, risos correspondendo a risos, vae-se entrando, ao som d'um continuo ruido de sóccos e sandalias, que se arrastam pelo lagedo resonante. Na escuridão da noite, o recinto define-se a principio como um negrume vago, complicado de sombras de arvoredo, cheio de gente e de myriades de luzinhas bruxoleantes. Depois os olhos habituam-se. Vae por ahi fóra, direitinha ao templo, a grande rua principal, bordada de arvores varias, lageada; pelos lados espraia-se o labyrintho das passagens, por entre os alinhamentos das barracas, das tendas, das quitandas, armadas de improviso, estiradas pelo chão; e é, á luz frouxa das lampadas, a exposição phantastica das côres, chispando em disparates como n'um campo immenso de kaleidoscopo, correspondendo ás mil industrias que se estendem... Roupas, perfumarias, livrinhos, bocetas, charões, porcellanas, cachimbos, ferramentas, utensilios domesticos, bolos, brinquedos, flores, plantas, tudo: a industria inteira do Japão, se condensa, coalha em museu. Alem algumas

chayas

vendem refrescos; as creadinhas convidam a turba a que se acerque. Mais longe, são os theatros populares, um cobre por entrada:―cães sabios, athletas, abortos, serpentes, panoramas;―ou a sala do

hanashi

, da palestra, onde um patusco entretem os freguezes, contando-lhes historias. N'um espaço mais livre, um sujeito com um graphophone, um dentista, um inventor de remedios milagrosos, discursam, explicam, prophetizam.

Illustration from Paisagens da China e do Japão

O formigueiro humano ondula, alastra se, sem designio, á aventura. As sociedades occidentaes nada nos offerecem de parecido. Isto, aqui, é a multidão, sem pressas, sem gritos, sem exasperos, tal como nol a apresentam todas as grandes tribus do Oriente; é o cardume de gente, retida na praça publica como o sargaço em mares tranquillos; aqui, quadro requintadamente gentil e sorridente, inconfundivel, mas que ainda nos recorda as agglomerações da plebe nos templos de Cantão ou nos bazares de Aden, ou do Cairo; e, subindo nos tempos e retrogradando em espirito vinte seculos, quasi nos desdobra aspectos vividos, embora fugidios, da Jerusalem biblica, nos seus magotes de homens vestidos de tunicas rojantes, vagueando, palestrando de manso, alongando os braços nús em gestos calmos e solemnes.

Querer inventariar os typos, fôra insania,―é a massa inteira popular despreoccupada, risonha, gosando de viver.―Passam familias,―o pae, a mãe, um filho preso ao seio e os outros pela mão;―ranchos de soldados e ranchos de marujos; ranchos de raparigas; moços, alguns indo caminho do bairro dos prazeres, Fukuwara, que está perto; peregrinos; mendigos; vadios; larapios; extrangeiros. Os garotos assopram nas trombetas que compraram, ou mordem em bolos ou em fructos. Aquella

musumé

fresca, vestida apenas do seu

kimono

de verão, azul e branco, já vae de volta; e leva dependurada das mãositas uma gaiola em miniatura, cheia de reluzentes pyrilampos. Uma velha rejubila com o vaso de bellos lirios que mercou. É aqui em Nanko, no mercado especial das plantas, que se revela bem o mimo d'esta gente em jardinagem,―delicados arbustos, havendo merecido longos disvelos de cultura, selecção graciosa de florescencias;―e é de ver-se o afan na escolha, o brilho dos olhitos cubiçosos, dos grupos em roda da exposição dos pinheirinhos, das cerejeiras, dos bambus, dos chrysanthemos, dos lirios, da wisteria.―O espirito simples, o desejo facil de contentar, a puerilidade quasi infantil, estampa-se em todos esses rostos, e dom gentil da mão industriosa, resalta de todos os artigos. Quem tiver duas moedas de cobre na bolsinha―e todos as terão,―póde comprar um objecto de arte; compra-o sem duvida, e no jubilo da face transparece a alegria plena d'uma alma satisfeita. D'essa manifesta innocencia de sentimentos, d'essa psychologia alheia de complicações e de tormentos, deve em rigor deprehender-se uma superioridade de raça, uma animalidade esplendida e exhuberante, muito distanciando-se da vibratilidade morbida das raças exhaustas do Ocidente; e é isto que vagamente se adivinha na esbelteza dos vultos que vão passando, na flexibilidade harmonica das curvas, no jogo pathetico da mimica, na confiança serena com que o pé dominador poisa no chão. Feliz povo! Feliz povo de hontem, de hoje, e possivelmente de amanhã... Não é outra a conclusão sincera do nosso exame passageiro.

No entretanto, a um canto, no estabulo garrido, boceja o cavallo branco sagrado de Kusunoki Masashige. Por velha sympathia, procuro-o sempre, e passo quasi horas inteiras, a vêl-o, a namoral-o. Quantos annos terá de sacerdocio? Dez annos? Quinze annos?... Não lhe despertam zanga nem prazer as minhas visitas repetidas. Cabeça baixa, o olho azul mortiço, parece nada querer, nada sentir, nada soffrer e nada desejar. É quasi de papelão, á força de insipidez, o garranito. Ao burburinho, á luz, ás côres, ás musicas distantes, é insensivel. Ao bello verde do arvoredo é insensivel; pelos modos, não se recorda já das paizagens por onde espinoteou... O seu olho azul-celeste, vitreo, provavelmente myope, relancea com a mesma apathica frieza, as mil scenas do acaso; á gente que o encara,―ralé da praça publica, garotos, cavalheiros, acaso um general, acaso um conde, acaso um inglez de nobres pergaminhos,―vota a mesma indifferença irreverente que ás moscas importunas que poisam, por enxames, sem que o commovam, na mucosa descorada da sua pobre focinheira. Só uma vez, presumo, o vi enternecido: relinchava uma egua algures, longe sem duvida; levemente se lhe agitaram as orelhas, como se uma vaga reminiscencia, penso eu, pelo bestunto lhe corrêra; e pareceu-me então vêr o seu olho azul-celeste arrazar-se de lagrimas, pareceu-me... Ás vezes, avança de bom grado a lingua, a ir lamber as mãos das raparigas; por capricho talvez, e por habito, porque são aquellas mãos que costumam offerecer-lhe, como obulo piedoso, os feijões cosidos comprados á velhita que por ali anda, proximo do estabulo...

Eis todo o seu romance.

E mais nada. Disse tudo. Se alguem, por mais curioso, quizer ainda arrancar-me o segredo d'esta minha estranha sympathia pelos cavallos sagrados dos templos de shinto,―tanto mais estranha sympathia, quanto é certo que não me accusa a consciencia de jámais ter pertencido a qualquer sociedade protectora de animaes,―aqui lhe

offereço

, a esse alguem, a seguinte estupenda confidencia. No Japão, se não erra o meu juizo, só os cavallos dos templos são tristes. Elles, e eu. Ha entre nós mysteriosas analogias; não gracejo. Após longos estudos da propria carcassa, acabo de concluir―imaginem o quê!...―que tambem sou albino. Não pela anomalia congenita da falta de pigmento corante da pelle, dos cabellos e dos olhos, concordo; albino psychico porem―não sei se me faço perceber...―albino na alma dolente, na vibratilidade exangue, na apathia da vida, após os mil baldões da sorte, e desfeita no ar a ultima bola de sabão das minhas illusões. Do meu poiso, que comparo sem grande esforço ao estabulo de

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Nanko, assisto ao contorno das scenas e ao perpassar da turba; mas alheado de tudo, e esquecido até das saudades da paizagem serena onde vivi os meus primeiros annos. Alvoroços de affectos? amores? fazem favor de me dizer para onde fugiram essas chimeras aladas da minha pobre juventude?... Quando muito, como o cavallo de Nanko, mas ainda mais desinteressado do que elle, porque me sinto naturalmente excluido do quinhãosito de feijões que pode seduzil-o, quando muito, se deviso essas

musumés

, com as suas mãositas muito alvas, muito mimosas, tenho por essas mãos, vagas ternuras: aqui, n'este meio onde me vejo, são-me ellas o emblema dos carinhos do sexo delicado; e incutem no meu espirito uma noção de paz possivel,―aqui, algures, não sei onde,―no lar da familia, quando abençoado pelos fados...

1899.

A PRIMEIRA FORMIGA

A Sebastião Garcez.

Á parte esta dedicatoria especial, é ás formigas e aos sabios―Deus não permitta que ellas, ou que elles, tomem a mal o parallelo―que eu offereço as revelações que vão seguir-se, nas quaes se explica, após longos preambulos, como é que a primeira formiga veiu ao mundo.

Quando na China, pela era do imperador Tai-Sun, as terras andavam divididas pelas mãos de muitos monarchas irrequietos, envolvidos em continuas batalhas e baralhas, deu-se um caso no ceu, digno de particular ensinamento. Acontecia que uma certa deusa do Olympo―Lei-San era o seu

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nome―nunca em demorados arrebiques, em meticulosas pinturas de cutis, das ia dar o seu (passeio pelas nuvens, imagino) sem se esmerar sobrancelhas e dos labios. Pieguices do sexo, desculpaveis, e até de certo modo meritorias; mas o caso motivou, certo dia, um risinho malicioso da sua serva mais querida, e ainda por cima este commento pouco respeitoso:―«A deusa

tem pelos

modos algum defeito no seu rosto, e cuida de escondel-o á força de cosmeticos...»―Vão lá chasquear impunemente dos encantos d'uma dama! e quando ella fôr divina... É certo que tão cheia de cholera ficou a divindade, que vestiu a deliquente d'uma pelle diabo que encontrou a geito, pelle horrivel, cara azul, ruiva a guedelha, dois dentes curvos surdindo da bocca para fóra, e mãos e pés disformes; e assim, n'esse bonito estado, a escorraçou do ceu, aos beliscões, e a enviou ao mundo em expiação. Chamava-se Tchong-Mou-In, a penitente.

Tai-Sun, empenhado em pellejas, e mortificado por innumeras derrotas, teve uma noite um sonho radioso, difficil de explicar. Consultado sobre o caso um lettrado favorito, anão por signal e muito feio, mas um poço de sciencia, elle disse ao soberano, após magnos processos de magia, que o sonho revelava que os deuses lhe haviam destinado certa dama por esposa, forte de genio e habilissima na guerra, a quem mais tarde se deveria a salvação do estado.

O anão dispunha-se a proseguir, depois de curta pausa; mas não quiz mais ouvir o imperador; e eil-o cavalgando o ginete dos cortejos, em pompas de comitiva festival, dirigindo-se para onde vivia a sua bella, conforme as indicações do anãosinho. Atravessa povoados, galga montanhas, desce valles; vôa, não corre, sua magestade; vôa nas azas da esperança, pula-lhe o coração em mil anhelos; e assim foi dar com Tchong-Mou-In.

Imagina-se a scena. Não ha palavras que descrevam o desapontamento do monarcha. Tremulo de indignação, rompeu logo em iras e em blasphemias; pela mente, passaram-lhe de subito processos de torturas a exercer; e d'um gesto esporeou a alimaria, no intuito de regressar ao seu palacio. Ah! mas o soberano não contava que a dama, que a principio o recebera com doces humildades de etiqueta, que a dama, expulsa embora do ceu e do convivio dos seus deuses, ainda d'elles auferia benevolentes protecções. A dama, n'um esgar provocante da sua face azul, arreganhando os dentes e estendendo solemne a mão papuda, conteve d'um aceno suggestivo a furia do cavallo, e vomitou ao cavalheiro, severos vaticinios. Gritou-lhe que havia de casar com ella, se não quizesse alli ficar eternamente quedo; gritou-lhe que havia de recebel-a como imperatriz, e que ao seu braço de mulher, astuto e vigoroso todavia, teria de confiar altas emprezas. Emfim, para encurtar razões, e apressar o fim da historia, direi que o imperador desfez-se em cortezias e desculpas, venceu-lhe o asco e o medo, e tudo prometteu. Não tardou que aquelle monstro feminino lhe

entrasse

pela casa, rude e plebeu, endiabrado, dispensando cerimonias, transportando ella propria ás costas o enxoval―dois cabazes, uma thesoira, um espelho, um pente, uma vassoura, uma bacia de lavar o rosto,―utensilios que, desde então até hoje, como que ficaram consagrados, symbolisando do lar domestico o nucleo indispensavel.

Tres mezes, consta, esteve o imperador alheio á convivencia da esposa, prolongando-lhe por esta forma uma castidade fastidiosa, com que ella provavelmente, não contava. Paciencia. Por vezes, na fria intimidade dos salões, procurou desprestigial-a aos olhos dos vassallos. Diz-se que um dia, reunidas a esposa e a concubina favorita, uma aposta se fez, sobre qual das duas, em escripta, mais habil se mostrava; e para isto se combinou contar quantos caracteres eram ellas capazes de escrever no tempo necessario para arder de um pivete perfumado, que alguem foi collocar sobre uma urna proxima. Do lado da favorita, cuja cultura litteraria é primorosa, estão o imperador (o basbaque!) e dois validos; do lado da soberana, apostam tres lettrados, e um d'elles é o anão. Eil-a, a amante, interessada vivamente no certamen, toda olhos, toda attenção, toda adoraveis fernesis dos seus bellos dedinhos côr de leite, que empunham o fino pincel, e correm febrilmente sobre o papel que lhe trouxeram. A soberana, o mostrengo segredam, por piedade, decida-se a escrever...»―A bruta não os escuta. (perdôe-se-me o qualificativo que me occorre), face azul pousada nas manapulas, dedos disformes enfiando pela trunfa ruiva, olho impassivel e matreiro, relanceia, aparvalhada e immovel, a scena, e os espectadores. Sobresaltam-se os lettrados, que adivinham, n'uma eminente surriada, o desprestigio proprio no conceito do monarcha.―«Senhora, Repetem se,

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multiplicam-se as instancias; até que finalmente, attendendo a tantas supplicas, diz ella:―«Vão buscar aos meus aposentos um pincel.»―Voam escudeiros, volvem breve:―«Não se encontra, Senhora!»―Ella indica que está junto d'um armario. Os vassallos replicam:―«Perdão, não está; o que está é uma vassoura...»―Então berra a soberana:―«Pois é isso mesmo, seus patetas!»―E tomando da vassoura, e ensopando-a n'uma mixordia de tinta, de que mandou encher a bacia que trouxera no enxoval, isto quando o pivete ia chegando já ao termo, com a vassoura lambusou um enorme papel, d'um gesto apenas; e por milagre,―que só assim se explica tal portento―appareceram nitidos, sublimes, mil e mil caracteres da mais adoravel forma caligraphica.

Na guerra, dirigindo ella mesma, em pessoa, a turba dos guerreiros, foi colhendo victorias e engrandecendo os seus dominios. Nos ardis, um primor.

Uma vez, convidados, imperatriz e imperador, para um banquete de monarchas, com os quaes andavam de guerrea porfiosa, um dos nobres apresentou aos convivas um enorme macaco que possuia, mono astuto nos seus modos de selvagem, e eximio n'um jogo então em moda, semelhante ao gamão dos nossos tempos.―«Senhora, ides jogar tres partidas com este mono; se a ultima ganhardes, são vossas, nossas terras; se a perderdes... percebeis-me?»―Trava-se o jogo em que a imperatriz não era forte, pouco affeita a prendas de salão, e sendo notorio que nos ceus, onde passara a juventude, o jogo é prohibido. Coragem!... Primeira partida: ganha o mono. Segunda partida: ganha o mono. Tchong Mou-In desfalece em intimas angustias, julga-se perdida, quando então se lembra de invocar os deuses. A sua divina ama, que nunca a abandonára, despede do ceu um aviso visivel só para ella:―Toma este fructo; esconde-o na manga da cabaia, de modo que apenas o macaco dê fé d'elle, e joga resoluta.―Terceira partida: o mono dando vista do acepipe, banana ou coisa parecida, estremece de desejos; o trazeiro, onde parece residir a alma dos macacos, pula-lhe em sobresaltos, em anhelos, sobre o assento da cadeira; e com a dentuça arreganhada, o olho em braza, em arco as espessas sobrancelhas, o bestunto por certo desvairado, balbucia gritinhos repetidos―eh, eh! eh, eh!―que irritam os convivas. A mãosita felpuda ainda vae mexendo as pedras, por habito, por dever, mas sem arte, sem intuito; e a razão foge-lhe, abandona-o―tão imperativa é a lambarice n'estes figurões da fauna comica!―E perde a partida decisiva!

Um parenthesis na historia. Dizia-me ha dias um companheiro de desterro, dos raros com quem logro palestrar:―Ora vêja você quantos macacos ha por este mundo, de gravata, e casaca, e rosa na carcella, quando não é uma commenda, astutos no gamão e n'outras prendas varias, quasi attingindo as alturas da audacia e do triumpho; n'um momento fatal, uma banana qualquer, mostrada a geito, desnortea-os, allucina-os, aniquilla-os... E que, por mais que façam, são macacos, embora a cauda se não vêja, de certo occulta nas ceroulas, e ninguem ha que possa purgal-os, expurgal-os, do sangue dos avós...

Continuo.

Uma das mais bellas façanhas que illustram a gloriosa mulher, se mulher é, de quem me occupo, é a seguinte. Travava-se então renhida a lucta pelas armas, entre varios soberanos, já com enfado de vencedores e de vencidos. Tai-Sun ia levando a melhor nas investidas. Eis que os reis desbaratados, unidos em conluio, julgam ir pôr termo a tão irritante situação, e muito em seu proveito, propondo ao imperador um curioso problema.―Não nos façaes a guerra. Aqui tendes uma perola, arrancada d'um annel; notae que tem dois furos esta perola, communicando entre si interiormente por um labyrintho de nove canaesinhos; se conseguis apresental-a enfiada n'uma linha, juramos-vos a paz e a entrega por inteiro de tudo que hoje é nosso.

Irra! Em que apuros se viu o bom soberano em caso tão difficil!... Os conselheiros ficaram-se calados, macambuzios, e nada aconselharam. Foi então impingindo esta questão á esposa, elle, que a não beijava, nem lhe queria, mas que em assumptos escabrosos só n'ella tinha fé. Tchong-Mou-In recolhe-se, implora os deuses. A sua divina ama envia-lhe então do ceu uma formiga, a primeira formiga que veiu a este mundo; e manda a verdade que se diga que essa formiga prehistorica era um nadinha differente das formigas contemporaneas, menos esbelta nas formas, mais bojuda. Tchong-Mou-In comprehende o precioso auxilio: ata uma linha a meio corpo do bichinho, leva-o assim junto da perola, junto d'um dos seus furos, por onde se vê forçado a enfiar, não tardando que surda pelo outro, arrastando a competente linha atraz de si. É a gloria!...

E não reparam hoje na delicadeza da formiga, leve a cintura, como a cintura d'uma dama espartilhada? D'antes não era assim. Consigna-se o facto como indicando ainda ás gerações presentes uma maravilhosa herança atavica, a impressão do nó com que a linha se prendia e apertava a primeira formiga, a formiga lendaria, a mãe de todas as formigas que hoje passeiam sobre a terra.

Illustration from Paisagens da China e do Japão

Nada mais sobre o insecto. Poucas palavras apenas pelo que respeita á soberana. Lei-San, a sua divina protectora, perdoou-lhe finalmente o passado sorriso de motejo, que valia uma injuria; despiu-a da pelle monstruosa que lhe dera, por expiação do seu peccado, restituiu-lhe a peregrina belleza que lhe era propria... O imperador, antes que a consorte volvesse aos seus labores divinos, poude vêl-a, e por longos annos, no completo esplendor dos seus enlevos. O imperador, que já lhe tributava incondicional veneração, graças aos seus prodigios, que tanta ventura lhe trouxeram, e prosperidade ao imperio, poude então tambem amal-a, amal-a apaixonadamente, embevecido em tanta graça, em tanta formosura. Imagine quem quizer como áquelles amorosos as horas iriam correndo encantadoras, na serenidade mysteriosa do palacio, cingido por muralhas de marmore, e rodeado de jardins, e no afan de festejarem aquella lua de mel, tardia embora, que lhes apparecia no horisonte!...

1899.

OS DIABOS E OS VELHOS

A Nuno Queriol

Falla a lenda japoneza.

Era uma vez um velho, que tinha um enorme lobinho sobre a cara, na face por signal. Certo dia, achava-se elle na montanha, a cortar lenha―era esta a sua humilde profissão,―quando o surprehendeu uma terrivel tempestade, chuva a potes, ventania desabalada, o raio faiscando nas alturas; tão terrivel, que se viu obrigado a ficar por aquelles sitios e a buscar um abrigo para a noite. Abrigo, na floresta, era difficil problema; um grande tronco de arvore, escavado pelos seculos, offereceu-lhe a unica guarida.

No seu posto, agachado e sem poder dormir, foi o velho passando tristes

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horas. Alta noite, principiou a dar razão d'um estranho vozear, longe a principio, mas pouco a pouco avisinhando-se-lhe―«Olá, resmungou, tanta gente por aqui, e eu que contava achar-me só?...»―E pôz-se a espreitar, curiosamente, sem sombra de receio.

O que o velho então viu, muito a custo, á luz fugidia dos relampagos, mal póde imaginar-se. Uma numerosa sociedade approximava-se; mas nunca ao velho apparecera tão estranha sociedade como aquella. Era um bando immenso de patuscos, de diabos incontestavelmente, medonhos nos aspectos: uns, encarnados, vestidos de

kimonos

verdes; outros, negros, vestidos de

kimonos

encarnados; a um faltava um olho; a outros o nariz; alguns não tinham bocca. Pozeram-se a accender uma fogueira enorme, com palha, com folhas, com cavacos que encontraram; e as chammas sinistramente os patentearam. Acocorados em torno da fogueira, em duas filas, bebendo

saké

em amigavel reinação, pareciam mesmo gente, os taes demonios. A vasilha ia passando á roda, de garra em garra, entre os convivas; e tantas voltas deu, e renovada tantas vezes foi, que jâ não tinham conto as bebedeiras. Um dos mais jovens assistentes ergueu-se como poude, e começou uma cantiga, dançando ao mesmo tempo; os outros imitaram-n'o. Era então extremamente emocionante a vista da paizagem: a fogueira, ateada pelas rajadas successivas, alastrava-se e subia, furiosa, até ás nuvens, em turbilhões de fumo e labaredas, e ia alumiando

diabolicamente

a scena inteira―ramarias de bambus e de pinheiros, profundezas de bosques, penedos gottejantes, torrentes espumosas, e ainda a turba immensa dos diabos esbravejando em mimicas atrozes―Uns rodopiaram em vertiginosas piruetas; outros iam gravemente alçando a perna e ensaiando minuetes; outros, immoveis, ou antes querendo assim quedar-se, ondulavam em bordos grotescos de borrachos; e de colina em colina os echos repetiam os torvos descantes em falsete, de mistura com as lamentações das arvores açoitadas pelo vento, e a salva de artilharia dos trovões. Berrava uma vóz esganiçada: «Que grande reinação! mas bem quizera vêr mais alguma novidade!...»―

Mettido no seu esconderijo, o rachador de lenha passou por todos os tormentos que o espanto, o susto e o desamparo juntos produzem no animo d'um velho. Por fim, passadas horas, ia já folgando na festa―ou não fosse elle japonez!―e tal poder teve sobre elle a bambochata, que lhe venceu escrupulos e temores, e o levou a esta resolução formal.―«Matem-me embora estes diabos, se quizerem, mas pretendo tambem ir pandigar!»―Surdindo então da tóca, barrete enfiado até ás orelhas, machadinha suspensa da cintura, ei-lo a reunir-se á malta, a dar as boas-noites e a ensaiar passos de dança. Foi agora a vez de se espantarem os demonios; mas tão comico era o velho, no seu pobre corpinho corcovado, avançando em meneios, e recuando após, e virando-se para a direita em cortezias, e voltando-se para a esquerda em reverencias, e traçando no ar, com o pé descalço, estupendas parabolas coreographicas, que desataram todos em risóta, gritando:―«Viva o velho! muito bem! que bem dança o velho!»―E proseguiram depois, n'este proposito:―«Queremos que tomes sempre parte em nossas festas, por seres mui reinadio; mas, como póde acontecer que não pretendas voltar mais, vaes deixar-nos um penhor de que acederás a este convite.»―

Illustration from Paisagens da China e do Japão

Consultaram-se entre si, e decidiram da consulta, extrahir-lhe o lobinho; muita gente do povo, é notorio, considera este achaque como um valioso talisman para ser-se afortunado. Eil-os pois, olhos attentos, braços nús, dedos palpando, lancetas e tenazes em acção; e o velho estendido sobre o solo, um segura-lhe uma perna, um outro a outra, outro prende-lhe os braços, outro delicadamente ampara-lhe a cabeça; e sairam-se do caso com limpeza, não causando a menor dôr ao paciente. Depois, fôram guardar o lobinho n'um estojo.

Quando, sereno já o tempo, rompeu a madrugada, uma bella madrugada côr de rosa, e os pardaes começaram a papear nas ramarias, desappareceu então a malta dos demonios. O velho desceu á sua aldeia. Entrou em casa muito contente, ainda um tanto estonteado da bebida, sem o lobinho é claro, com a sua face muito lisa, sem o minimo defeito. O caso maravilhou com razão a companheira, e a gente conhecida. Ia-se servindo o chá pela familia e pelos curiosos que accorriam, sobre a esteira, junto do brazeiro; e era uma chuva de exclamações e de perguntas, que obrigaram o velho a explicar, nos seus detalhes surprehendentes, as peripecias da estranha noite que passára na montanha.

Ora, havia entre os visinhos presentes um outro velho, que tinha um enorme lobinho sobre a cara, na face esquerda por signal. Muito calado, assim com ares de não prestar ouvidos á palestra, ia em mente, o finorio, retendo todas as minucias. Não partilhando das crendices da gentalha, pelo contrario, desejoso de vêr-se livre do tortulho, ia já estudando a maneira de entregar-se nas mãos de tão sabios curandeiros. Eil-o pois, por uma noite escura, caminho da montanha; seguidamente, eil-o abrigado sob o mesmo tronco de arvore, á espreita dos diabos. Não faltaram. Começou a bambochata,―risota, dança, vinho.―Juntou-se então aos demonios, a medo, um outro figurão.―«Olá, cá está de novo o velho! voltou, e vem dançar!»―Dançou, effectivamente, e sem ser muito rogado; mas era um desastrado; e tão mal desempenhou o seu papel, tão falto de geito e de pilheria, que os demonios, tomando-o sempre pelo conviva primitivo, zangaram-se e disseram-lhe:―«Enganaste-nos, brejeiro! és um grande desgeitoso; devolvemos-te o penhor que nos deixaste e aconselhamos-te a que não pises mais este logar.»―Um da chusma foi buscar o lobinho, e zaz! pespegou com elle na face direita do sujeito. Saira de casa com um, e voltou com dois, um lobinho em cada face. Pode imaginar-se o desapontamento do sujeito e a hilaridade dos visinhos. Parece que, na aldeia, durante semanas e semanas, paralysou todo o trabalho; os velhos, as velhas, as raparigas, os garotos, não faziam senão rir, rir a bandeiras despregadas,―e o caso não era para menos!―

1899.

PAU-MAN-CHEN

A Antonio Baldaque da Silva.

Scena domestica. Lá está o meu cosinheiro a

bater cabeça

, como se diz n'este Macau; lá está elle rezando aos seus deuses protectores. Que lhe preste! Acabou de me roubar nas contas, como bom chinez que é, serenamente aggressivo em tudo ao europeu; e passou a entregar-se a esta outra occupação não menos meritoria.

Sendo seus os aposentos inferiores, é ali rei, ou pelo menos mandarim; faz o que quer. Os altares aos deuses anicham-se pelas paredes, aos cantos do sobrado, sobre as mesas; e até junto ao fogão, onde se guisa o meu jantar, se presta culto a supinas divindades. Mysteriosos ritos. São papeis encarnados, contendo cabalisticos dizeres; são figuras de horriveis monstros, coloridas pelas tintas mais surprehendentes, nas disposições

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mais grotescas, despertando quasi o riso, despertando quasi o medo, a quem não vive em graça em tal Olympo. Alli o cosinheiro, em humildes genuflexões de crente, vem depôr suas offertas, minhas offertas, pois sou eu que pago a festa,―offertas de laranjas, de doces, de chá, de porco assado e de outras iguarias.―Alli ardem lumes mysticos; e frequentemente, pela noite, como agora, se queimam pivetes, cirios rubros, rezinas e papeis, de tudo emanando um fumo atróz, que invade em torvelino a casa toda, que chega sem respeito ao sitio onde me encontro, e me soffoca. Paciencia!

Paciencia

é o unico codigo de conducta para o aventureiro que escolheu para exilio um canto exotico, longe, muito longe do torrão onde nasceu, e no qual a civilisação disparatada, a feição propria das gentes com quem lida, hão-de fatalmente apresentar-se, dominantes.

Os deuses, com quem por assim dizer vivo em contacto, e a cuja sublime protecção, posto que indirectamente, me confio, são muitos, um enxame. É todo o Olympo buddhista e o inteiro mytho primitivo, amalgamados em crendices; legiões de espiritos. Naturalmente, ha uns mais preferidos, que se invocam no lar com mais piedoso amor; n'este numero, segundo informações recentes que colhi, deve contar-se Pau-Man-Chen; e é a sua historia maravilhosa que me proponho narrar, como puder.

O deus Pau-Man-Chen, venerado em todo o immenso imperio, tem uma face branca e tem uma face preta. Na China não ha effectivamente ninguem que não o adore, que não lhe preste no altar domestico, o culto merecido; a elle, que tudo sabe e tudo pode, que possue a sciencia do bem e a sciencia do mal, que com um olho contempla os ceus e as grandes coisas puras, e com o outro mira O deus Pau-Man-Chen, venerado em todo o immenso imperio, tem uma face branca e tem uma face preta. Na China não ha effectivamente ninguem que não o adore, que não lhe preste no altar domestico, o culto merecido; a elle, que tudo sabe e tudo pode, que possue a sciencia do bem e a sciencia do mal, que com um olho contempla os ceus e as grandes coisas puras, e com o outro mira a terra profunda até aos antros lobregos dos demonios, adevinha-lhes os maleficos designos. O deus Pau-Man-Chen tem uma face branca e tem outra face preta...

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